You are on page 1of 10

FA C O M - n º 1 9 - 1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8

Retratos do poder imperial no Brasil
Mônica Rugai Bastos

Resumo
Este artigo trata das representações do poder contidas na produção iconográfica do período imperial brasileiro, principalmente durante o governo de Dom Pedro II. Relaciona os conteúdos representados aos períodos políticos pelos quais passava a monarquia, buscando mostrar que representações pictóricas ou fotográficas têm função social.

Abstract
This paper analyses iconography representation about the Brazilian imperial period, especially during the second one. It will try to prove that the representations have direct connection to monarchy political and state issues and have social functions.

Palavras-chaves: Monarquia, Brasil, Iconografia, Império, Dom Pedro II.

Keywords: Monarchy, Brazil, Iconography, Dom Pedro II.

Este artigo traz algumas reflexões acerca da questão da representação do poder no período de 1808 a 1889 no Brasil. Pela extensão do período e pela quantidade produzida de imagens, há ainda muito a estudar. No entanto, já existem alguns aspectos a serem salientados. A construção de repertório simbólico, relacionado à política e ao exercício do poder, para uma população boa parte analfabeta, era fundamental. Há mudanças nas ênfases dadas nos retratos. Este panorama procura marcar os períodos de exercício do poder e relacioná-los às imagens produzidas. O Brasil foi, dos países americanos a se tornarem independentes das metrópoles, o único a permanecer monárquico. No México houve uma tentativa de fazê-lo, mas o primo-irmão de Dom Pedro foi fuzilado depois de dois anos no poder. Só por aqui, ao que parece, a nobreza conseguiu, ao modificar tudo, fazer com que tudo permanecesse da mesma forma1. Para tanto, foi necessária a criação de uma nova maneira de representar o poder. Novos símbolos que mostrassem as diferenças, não muito claras à primeira vista, entre Dom João, que representava Portugal e o passado colonial, e Dom Pedro, que representava o Brasil e o futuro como grande e próspera nação. Não bastavam palavras e ações políticas, pois a maior parte da população desconhecia as letras, e, portanto, precisava de imagens. Mais que isso: monarquias são simbolizadas por imagens que traduzem rituais do passado, tradições que justificam a existência do poder transmitido pelo nascimento. Assim, a monarquia no Brasil viu-se em situação ambígua – entre o passado e o futuro;

42

não poderia ser escondida. símbolo da colônia. Também incorporou a esfera na sua coroa. no entanto. por isso mesmo. As pinturas apresentam as semelhanças físicas dos rostos dos Bragança. monarcas portugueses não usavam a coroa na imagem posterior à coroação por costume. O artista apresenta um jovem imperador. escultores. inovar tradições. Um é jovem. ao mesmo tempo. foi muito pouco. Na coroa de D. uma vez que não se trata da coroa portuguesa. enquanto que o pai. um semblante apático. Pedro é encimado por um dragão que é o símbolo da Casa de Bragança. Os símbolos de poder. as semelhanças param por aí. Houve ruptura. A esfera e a cruz são idênticas às da coroa de D. João no Brasil. D. No entanto. em veludo vermelho bordado com os emblemas dos três reinos unidos: a torre que simboliza Portugal. mas na forma de governar do defensor perpétuo e primeiro imperador do Brasil. Nas imagens há continuidade de símbolos. mas nem tanto. recriar rituais. Pedro. É encimada por uma cruz. o cetro e a coroa mostram certa continuidade. calça botas de montaria.FA C O M . a esfera celeste. Debret é um dos artistas que realizou retratos de D. Um mantel feito de plumas de tucano cobre a abertura do manto. O que há de mais marcante é o fato de que Dom Pedro ostenta sua coroa. os dois se distinguem ainda mais. Pedro. João e D. O cetro de D. Ele passou a ser visto como 43 . mas quem a ostenta vem do mesmo lugar. dentre eles. tem um olhar distante. o forro é verde. Precisou. A coroa é outra. A coroa tem a mesma esfera com abóbada celeste que anteriormente simbolizava o Brasil no Reino Unido. No entanto. consegue-se perceber o que existe de passado naquele momento histórico. O outro é bem mais velho. Cria-se uma lenda na qual o rei teria sido levado aos céus com a coroa na cabeça. A Casa de Bragança permaneceu. representa os mesmos valores. em destaque. Os bordados são feitos em fios dourados. Quando trajando os símbolos da monarquia.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 entre o velho e o novo. enaltecem símbolos nacionais diversos. pintores. voltando para Lisboa com a coroa que era sua por direito2. não. foram incorporadas folhas de palma. Havia uma série de desconfianças mútuas entre brasileiros e portugueses. À sua volta o imperador manteve um círculo reduzido de nobres. no entanto. Houve disfarce. resoluto. Completamente diferente do manto real de seu pai. Dom Pedro teve problemas para implementar seu governo. altivo. mas. Trata-se da tradição estabelecida com a morte de Dom Sebastião na África. e ressuscitaria. Nesse sentido. Dom Pedro I ostenta a sua. que substituiu o governo português. Debret tentou apresentar o novo momento do Brasil. Ao mostrar os símbolos de cada monarquia. João mandou fazer novas jóias ao chegar ao Brasil. A continuidade foi percebida não apenas nas imagens. Dom João. caricaturistas e fotógrafos se empenharam para conseguir dar ao antigo uma nova roupagem. tem um semblante sério e resoluto. e o escudo que simboliza o Algarve. buscar imagens que representassem. Os mantos são completamente diferentes. A continuidade da casa dinástica. o manto é um poncho das planícies gaúchas com as cores da bandeira . mas de resto os símbolos usados são muito parecidos. Portanto. Isso começou a minar a confiança estabelecida entre a nação e seu rei. Colocou no cetro a esfera celeste. estrelas de oito pontas e folhas e frutos da palmeira em um fundo verde. muitos portugueses. Pedro é um soldado. mas mais sutil do que se desejava. é inegável a permanência dos Bragança. Talvez seja esse o aspecto que concretize em imagem a mudança. símbolo dos Habsburgo desde Carlos V. percebe-se que algo mudou. no entanto. que simboliza o Brasil. que ainda tinha a flor-de-lis. olha para o retratista. e a forma é diferente. tradição e modernidade.n º 1 9 . D.

A Confederação do Equador foi fortemente combatida por tropas imperiais e derrotada em 1824. Mas isso. as imagens do menino correspondiam ao que se esperava de um futuro imperador. As posições liberais de alguns deputados não eram favoráveis à instituição de poder amplo ao monarca. Rio Grande do Norte. Dom Pedro II. pudesse assumir o trono. desde muito jovem. de certa forma. Os conflitos apenas se acirraram a partir de então. que pretendia “livrar o Brasil da conjura recolonizadora e absolutista do imperador”3. Às províncias também foi negado o direito de organizar forças armadas próprias. língua e identidades. entre eles. como sendo resultado de influência direta dos nobres portugueses que cercavam o imperador.n º 1 9 . Alguns conflitos iniciaram-se no período da formação da Assembléia Constituinte. que governariam o país. contendo o poder moderador. mas republicano. A independência Cisplatina representou uma ameaça à imagem criada de unificação de interesses. ele não era nascido no Brasil. apesar das constantes revoltas em relação à centralização das decisões. que permitiria sua intervenção nas decisões tomadas à sua revelia pelo Legislativo. como futuro imperador. de mais liberdade e autonomia nas províncias. ano em que seus líderes foram presos e executados. O imperador pretendia ver aprovado um quarto poder. além da independência da Cisplatina.FA C O M . Além de manter-se monárquico após a independência. reunindo comerciantes e proprietários de terras de Pernambuco que pretendiam unir-se a outras províncias como Ceará. Este ato foi entendido por alguns críticos do governo. Não se tratava de. um movimento separatista. As influências das idéias iluministas – fomentadoras da Revolução Francesa e de movimentos de independência nas Américas – eram grandes. O resultado da conclamação foi a Confederação do Equador. As disputas internas desta natureza. Do receio de que se restabelecesse o governo autocrático. Quando Dom Pedro I partiu para Portugal em 1831. de 1837. Paraíba. Dom Pedro dissolveu a assembléia. portanto. a constituição pretendida por Dom Pedro foi outorgada. dependia da subordinação dos governos provinciais ao governo central. Em obra de Félix Émile Taunay. o Brasil manteve-se unificado em termos territoriais. frei Caneca. já aparece como co- 44 . Por isso. restou-lhe a dissolução da assembléia. além da submissão dos governos provinciais ao poder central localizado no Rio de Janeiro. provocaram uma séria crise na relação entre Dom Pedro I e a nação brasileira. alguns opositores mais liberais começaram a pregar a constituição de um Império liberal. Desde muito cedo. Também negou aos nascidos no Brasil precedência em relação aos portugueses e outros estrangeiros no preenchimento dos cargos públicos. Como não houve acordo com os deputados constituintes. Em 1823. escolheu-se um grupo de três regentes. ocorrida em 1828. a intransigência de Dom Pedro foi parcialmente responsável pela manutenção do imenso território unido. na relação entre Dom Pedro e a nação. Rumores de que a Marinha portuguesa pretendia aproximar-se do Rio de Janeiro para tomar novamente a antiga colônia obrigaram Dom Pedro a requisitar sua esquadra de volta ao Rio de Janeiro.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 alguém cujo governo tendia à autocracia e cujos interesses divergiam dos interesses “nacionais”. Afinal. Além disso. segundo alguns especialistas. até que o sucessor. com 12 anos. Mais um golpe. Piauí e Pará e formar um governo republicano e federativo. o moderador. O menino-rei Dom Pedro II foi representado. desguarnecendo o restante do litoral.

com a mesma fita vermelha usada anteriormente por Dom João VI e por Dom Pedro I. especificamente. Nesse caso. A coroa foi modificada. O ainda não emancipado Pedro simbolizava mais o passado que o futuro. são um pouco diferentes. A monarquia seria preservada. Diferentemente do pai. compenetrado. Logo após a coroação. mais alto e encorpado do que realmente era. inicialmente. Há grande semelhança com a mãe. O retrato pintado por Taunay mostra um menino muito sério. e o Tosão de Ouro. Dona Leopoldina. Atrás dele. inclusive a escravidão. a então idade do imperador. O que poderia ser visto como continuísmo. cacau. A coroação já o mostra em trajes de gala.FA C O M . Já Dom Pedro I compôs sua imagem como militar. Várias foram as manifestações de adeptos durante o período imperial. Aliás. apesar de jovem. portanto. o sebastianismo era muito difundido no Brasil. a monarquia e suas instituições.n º 1 9 . Dom João foi retratado pouquíssimas vezes com uniforme completo de gala. eram retratos de Estado4. maior e mais larga. sob o aspecto político. ou seja. o que. porque. o mantel de plumas de tucano. era necessário estabelecer novamente a força do governo monárquico e as representações buscaram isso. do ponto de vista cultural. Muitas manifestações ainda demonstravam desagrados a respeito da manutenção do regime monárquico. aparecia cercado das outras representações simbólicas que significavam Brasil para os súditos e para as demais nações. como o avô. Isso é interessante. E. Dom Pedro II é representado ora usando a coroa na cabeça. o céu do Brasil. mas era mais ostensiva. que mostram um imperador sério. a associação da figura do imperador aos produtos brasileiros foi extremamente utilizada nas representações. A maioria delas representa um jovem de aproximadamente 18 anos. na ocasião de sua coroação. significavam atraso. Vários dos símbolos usados foram os mesmos: cetro.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 mandante das Forças Armadas. Todas as representações de Dom Pedro II reforçam essa idéia. São poucas as pinturas e gravuras que mostram um rapaz de catorze anos. Utilizando as pedras da antiga coroa do pai. os mantos de gala do imperador foram incorporando outros elementos da terra. Posteriormente. com o símbolo de Pedro II (PII) encimado pelo dragão que simboliza a dinastia dos Bragança. pode ser percebido como reconhecimento do misticismo do povo brasileiro. o trono vermelho. O imperador era a representação máxima do país. capaz de exercer de maneira condigna o poder de que fora investido. o imperador seria responsável e competente. Já as representações de dois anos depois. ressaltam símbolos monárquicos e todo ritual que existia relacionado ao exercício do poder. folhas e frutos do café. principalmente naquelas que iam para o exterior. É importante salientar que as representações têm uma função social. 45 . O imperador do povo A estabilidade esperada não ocorreu após a coroação. com fardamento de gala. isso permitiria a manutenção da integridade territorial. Dom Pedro II teve uma jóia mais exuberante. forçosamente. criada em 1822 por seu pai. pedia essa caracterização mais constantemente. A diferença mais marcante pode-se dizer que está no rosto do menino: em nada lembra os rostos dos Bragança. manto. e entre outras coisas. folhas de tabaco. As representações reforçavam a idéia de que. com farda militar de gala. Para vários jornalistas e políticos da época. além das folhas de palmeira. ora deixando-a repousada em uma almofada. com a condecoração da Ordem do Cruzeiro. como tinham sido representados anteriormente seu pai e seu avô. Não chegava aos pés de coroas como a inglesa ou a francesa.

ao que parece. às revoluções científicas e técnicas conquistadas no século XIX. As imagens trazem o imperador em situações cotidianas. O imperador mostra-se cercado por trens. essas representações vão ficando cada vez mais constantes. No sentido de reforçar a seriedade. mostra Dona Teresa Cristina na Capela Real Palatina de Nápoles. fazia parte das sociedades científicas brasileiras. ao progresso. Foi ferrenho defensor e seu usuário. Ao mesmo tempo. o imperador suavi- zava alguns rituais. barcos a vapor. A representação do casamento. entre elas a fotografia. referindo-se ao casacão usado pelo imperador –. essas imagens mostram a família imperial em momentos de suposta intimidade. O jovem imperador estranhou a noiva. como que diminuindo a importância da monarquia. O imperador forja imagem que o aproxima dos cidadãos. correspondia-se com cientistas e realizava traduções de línguas pouco estudadas. sempre empunhando livros em retratos. ao novo. Era um entusiasta das novas invenções.n º 1 9 . mostram o imperador rodeado de símbolos de intelectualidade. Mais que se mostrar relacionado a esses símbolos.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 Nos primeiros anos de governo. as representações buscam reforçar a imagem de governante responsável. No entanto. segurando um livro. As representações da imperatriz recebidas por Dom Pedro. o imperador interessava-se por eles. Preocupava-se em mostrar-se como grande leitor. a passagem do tempo para si. netos. O casamento imperial foi mais um momento de ênfase dos rituais de perpetuação da monarquia: as representações mostram os dois em trajes de gala. que durou até a morte da imperatriz. viajava pelo Brasil e pelo mundo usando meios de transporte modernos como trens. Segundo Lilia Schwarcz Dom Pedro* 46 . Registrou regularmente suas atividades e as mudanças operadas na família real: genros. Facilitadas pela introdução do daguerreótipo e depois da fotografia como linguagens que permitiam a representação. depois reunidos. realizado por procuração. A partir de então. vestindo jaquetão – termo cunhado pelos jornalistas da época. em nada lembravam a moça que chegou ao Brasil. barcos a vapor. primeiramente separados. sério e integro. cada vez mais. com uniformes de guerra. Nas imagens que o representavam o imperador também buscava associar-se. mas começam a aparecer representações que mostram a família imperial. conversava por telefone. novos agregados. sobre pontes de ferro. era necessário arranjar uma noiva para o imperador.FA C O M . mas depois estabeleceram bom relacionamento. A partir da Guerra do Paraguai (1864). as representações do imperador continuam a mostrá-lo como símbolo da nação. para a imperatriz e as princesas. ela perpetuava-se. Freqüentava exposições universais.

era “o monarca inventor”. então membro do Institut Historique francês. Instituída ainda no período de Dom Pedro I. bolsas. pela literatura. A paramentação de gala foi substituída pela do monarca cidadão. O Estado subvencionava as atiTeresa Cristina** vidades do IHGB. como muitas vezes comparecia aos trabalhos. Dom Pedro. fundado entre outros por Debret. Assim. nesse espírito de reconhecimento da memória local. Além da política oficial de incentivo às artes. principalmente a partir da década de 50 do século XIX. ou no cenário da Guerra do Paraguai. usando poncho. em 1838. completamente independente. Seus estudos tornaram-se importante referência intelectual. Inspirado no Institut Historique francês. festas da corte e abertura e encerramento do ano de trabalhos da Assembléia. de forma muito mais regular do que freqüentava as sessões da Câmara (SCHWARCZ. retratos e gravuras foram elaborados durante o reinado de Dom Pedro. também teve interferência direta no funcionamento da Academia de Belas-Artes. Nas fotografias o monarca sempre aparece com roupas mais casuais. Os trajes de gala eram raramente exibidos. Isso evidenciava o interesse do monarca pela história. Chegou a proclamar uma frase célebre nos salões do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: “A ciência sou eu”. que mostravam o monarca e a família em situações cotidianas. Cerca de 75% das verbas eram estatais. É interessante reparar que vasta iconografia foi sendo produzida desde a instalação de Dom Pedro II no poder. Os auxílios do Estado e privados. A partir de 1844. 1998). Lilia Schwarcz afirma que se tratava de um projeto mais amplo de consolidar a monarquia e constituir cultura local. a família real. cercado de livros. tudo isso possibilitou a manutenção de vários artistas. encomendava trabalhos dos artistas mais consagrados: bustos. Ao menos na medida do possível. em roupas de gala. quanto quadros mais elaborados. Depois de 1849. instituiu prêmios para os melhores trabalhos apresentados na versão brasileira do instituto. o imperador não só participava financeiramente da instituição.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 (1998). Aparente- 47 . O imperador instituiu política de distribuição de prêmios.FA C O M . 1998). a não ser em cerimônias de casamento. não se tinha implementado. “adepto a novas vogas científicas”. Tanto fotografias. o instituto seria o local para debates entre intelectuais e membros da elite literária carioca.n º 1 9 . Mas. dados pelo monarca. Dom Pedro II participava de alguns eventos no instituto e foi convidado para tornar-se “protetor” da instituição. foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). ajudaram a criar período de estabilidade para a instituição (SCHWARCZ. criou o Prêmio Viagem (1845). principalmente o imperador.

pessoalmente.FA C O M . Entretanto. A exuberância do reino dos trópicos ainda é temática.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 mente o monarca aproximava-se da classe que simbolizava. trazia uma mensagem ambígua: o indígena era visto como o elemento exótico das Américas pelos europeus. com pessoas de índole “pacífica. Assim. com interesses que o situavam como “civilizado”. pelas inovações tecnológicas. Na primeira participação. pelo “progresso” científico. O indígena ainda aparece como o símbolo do povo da nação. Não havia retorno financeiro. logo era parcimoniosa com gastos em roupas. e eram eles que ditavam as novas regras de civilização. pelo contrário: segundo Lilia Schwarcz. inteligente e laboriosa” (SCHWARCZ. as representações são essencialmente muito parecidas. então. a terceira exposição universal. alguém de seu tempo e não como o representante de uma instituição envelhecida. Era um homem de seu tempo: interessava-se pelas artes. As representações da monarquia eram importantes peças na composição da idéia de que o país passava por um período completamente diferente do anterior. Mostram-no como alguém muito próximo do cidadão comum. mesmo que muitas vezes rodeado por negros e brancos. As fotografias trazem representações mais informais do imperador. os códigos burgueses. Retirar a imagem de “reino distante e selvagem” e instaurar definitivamente o país entre as nações ci- 48 . a novidade. mas isso não era fato. a participação brasileira nas exposições universais tinha o propósito de relacionar o Brasil com as “nações civilizadas”. A participação brasileira nessas feiras de invenções e tecnologia foi bastante considerável. Segundo Lilia Schwarcz. Ficava claro que o país não podia competir do ponto de vista científico ou tecnológico em relação às outras nações participantes. à imagem de alguém cujos interesses e gastos direcionavam-se para o patrocínio das artes e das ciências. decadente. comedida quase como a burguesia. tomou parte nas mostras brasileiras para ajudar a selecionar os expositores que foram para a mostra internacional. O próprio monarca as organizava. a arrecadação ficava em torno de um quarto do dinheiro investido. o Brasil foi presença constante. cada vez mais. Sua conclusão é de que o Império investia em propaganda e em visibilidade. Mas exibia-se como uma potência agrícola. 1998. p. Também na tentativa de substituir a idéia de monarca dos trópicos. Muitas eram as dificuldades dos empreendedores no país. No entanto. As exposições nacionais já eram patrocinadas pelo governo imperial. Dom Pedro investiu pessoalmente na confecção do estande brasileiro. O Barão de Mauá talvez seja o exemplo mais conhecido. Também entregou os prêmios aos produtores agraciados no Brasil. a burguesia. Inicialmente fez parte de processo no qual se distanciava do poder colonial. Dom Pedro procurava participar de exposições universais. principalmente se comparada à participação de outros países da América do Sul.397). na segunda etapa da busca por imagens. Tanto era assim que se dedicava. Luxo era raro. fazendo-se representar pelo nativo da terra. As representações brasileiras aproximam a monarquia da burguesia. a tecnologia. muito embora Dom Pedro II tenha sido representado em meio a livros e instrumentos científicos. E a burguesia acumulava. A partir de 1862.n º 1 9 . pelas letras. É importante lembrar que a monarquia no Brasil associou-se à imagem do indígena. ou seja. um exame mais apurado mostra que. apesar de aparentemente diferentes. era essa imagem que o monarca queria passar no exterior: civilizada. O monarca participou pessoalmente da Exposição Universal organizada em 1876 na Filadélfia. à concessão de registros de patentes. que não ostentava. Segundo Lilia Schwarcz. Mostram um homem de letras. As representações mostram uma monarquia austera. o monarca associava-se.

Essa imagem tinha menor repercussão interna que externa. A produção artística. Também patrocinou a edição de dicionários e gramáticas de línguas indígenas. nunca seus aspectos “modernos”. mas sem muita ênfase. representava a imagem que a monarquia queria passar de si mesma e. MG e a mineralogia. a Academia de Música e a Ópera Nacional. Esse aspecto foi ressaltado. revelam a preocupação política com o setor. Dom Pedro foi aconselhado a participar para exibirse como “a mais republicana das monarquias” ou uma nação progressista. de um país tropical. Isso porque se percebeu que a feira seria mais do que uma exaltação da modernidade. o Brasil foi a única monarquia a participar da festa. Financiou estudos de médicos brasileiros. em 1857. A criação e o uso das instituições culturais. Auguste Daubrée. mesmo sem considerar critérios de mérito artístico ou intelectual. uma celebração às nações republicanas: uma festa contra as monarquias. cujo primeiro diretor.FA C O M . Nas várias participações brasileiras nessas feiras o que se ressaltou foram os aspectos exóticos e agrários do país. Ali também distribuiu bolsas de estudo para fomentar o desenvolvimento do estudo geológico no país. o monarca criou novas instituições que tinham o propósito de financiar a formação de artistas e cientistas. que recolheu 500 mil amostras. distante e mestiço. foi indicado por seu colega da Academia de Ciências de Paris. Em 1864. Por isso. No plano interno. mas. realizada em Paris e parte das comemorações dos cem anos da Revolução Francesa. fundou a Escola de Minas de Ouro Preto.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 vilizadas e modernas. que em 1850 recebeu seu nome. tropical e mestiça impedia isso. realizada em 1859. financiou a vinda de Orville Derby e Charles Hartt para que dirigissem a Comissão Geológica do Império. a monarquia vislumbrou as possibilidades de criação de uma ambientação que modificasse a imagem do Brasil. como um projeto para inserir o Brasil dentre as “nações civilizadas”. também chamada de Comissão das Borboletas. Criou. Mais que isso.n º 1 9 . Henri Claude Gorceix. do país. Em 1876. principalmente a pictórica. era 49 . Ouro Preto. Financiou a primeira Comissão Científica do Império. O fato de ser uma monarquia escravocrata. A imagem de Dom Pedro era de um monarca excêntrico. Foi-lhe dada a primeira concessão para exploração do minério. Coletaram exemplares das províncias do Norte do país. principalmente. para formar músicos e difundir o canto lírico. por conseguinte. Por isso. além de apoiar o hospício. Outros de seus interesses eram a geologia Escola de Minas. principalmente na feira de 1889. convidou Thomas Sargent para explorar petróleo por aqui.

1989. 2006. Dialética da colonização. Nela o imperador aparece com traje completo de gala. 1957. CASTELNUOVO. Francesa e Industrial. símbolo dos Bragança. São Paulo: Companhia das Letras. o manto real bordado com folhas de palmeira. Luís da Câmara. Pierre. não ostentava. CALÓGERAS. CASCUDO. A república trazia a esperança de mudança.n º 1 9 . Peter. 1944. Pandiá. BOSI. São Paulo/Rio de Janeiro / Recife/ Bahia/ Pará/ Porto Alegre: Companhia Editora Nacional. estrelas. a monarquia brasileira associada à escravidão e ao exercício do poder hereditário tinha seus dias contados. citado no Dicionário do Brasil Imperial. Alfredo. Formação Histórica do Brasil.FA C O M . Gattopardo. tais mudanças ficaram mais nas representações do que ocorreram de fato. mais forte do que a busca por essa associação era a percepção da distância que o governo monárquico do Brasil encontrava-se da nova ordem política e social mundial. São Paulo: Companhia das Letras. Tais representações com simbologia ostensiva da monarquia ficavam cada vez mais raras. O poder simbólico. No entanto. Retrato e sociedade na arte italiana: Ensaios de história social da arte. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. as ações culturais tinham um objetivo claro: busca de legitimidade e prestígio no exterior. organizado por Ronaldo Vainfas. São Paulo: Companhia Editora Nacional.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 direcionada aos demais países e governantes mais que aos súditos. esferas celestes e serpes. a serpe vigia a reunião. 1 Referência Bibliográficas AZEVEDO. Rio de Janeiro: Ediouro. São Paulo: Companhia das Letras. de Câmara Cascudo. que afirma que em determinado momento os retratos começam a ressaltar o caráter público do exercício do poder. o encaminhamento para a modernidade. impôs normas e princípios gerais que deveriam ser seguidos. a monarquia passou a representar o atraso. pela tecnologia e pela ciência. Mais que isso. A ordem do cruzeiro pendurada ao peito. O espírito da acumulação e do rompimento com símbolos do passado estava se disseminando no mundo desde as revoluções Americana. a imagem do monarca cidadão foi quase totalmente incorporada nas representações do imperador. sob pena de exclusão do “mundo moderno”. econômico e social para todas as nações modernas. s/d. o abandono de instituições políticas e sociais antiquadas e a possibilidade de inserção junto às nações mais desenvolvidas do mundo. Aparecem ali todos os símbolos da monarquia: o cetro encimado pela serpe ou dragão. 3 A interpretação está presente em Evaldo Cabral de Mello. 4 No sentido estabelecido por Castelnuovo. Infelizmente. Notas Trata-se de idéia presente em livro de Giuseppe di Lampedusa. Há a pintura de Pedro Américo. Cultura popular na Idade Moderna. no trono. Dicionário do folclore brasileiro. mas recoberta por rendas da gola sobre a murça de papos de tucano. Assim. Enrico. aos livros e aos artefatos modernos. na abertura da Assembléia Geral. Ainda assim. ostentando a coroa. a impossibilidade de acumular. Lisboa/ Rio de Janeiro: Difel/ Editora Bertrand Brasil. apesar de buscar representações de modernidade. O monarca em trajes próximos aos do cidadão comum mostrava que a monarquia não se exibia. 50 . 2 Sobre a lenda de Dom Sebastião ver o Dicionário do Folclore Brasileiro. ao novo. Embora o processo no Brasil tenha sido mais lento. Fernando de. a não-transitoriedade do poder. J. que era comedida com gastos “supérfluos”. 1989. BURKE. Os interesses do imperador direcionavam-se às artes e ciências. As representações imperiais buscavam relacionar o governo de Dom Pedro II ao moderno. que eram simbolizados pela burguesia. de 1872. O processo de “civilização” moderno imprimiu novo contexto político. Atrás do monarca. BOURDIEU. A partir de 1870. 1992.

RIOS Filho. Intelectuais à brasileira. 1991. Luiz Felipe de (Org. Brasiliana da Biblioteca Nacional: guia das fontes sobre o Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Cultura brasileira e identidade nacional. Paternoster. CORREIO BRAZILIENSE ou ARMAZÉM LITERÁRIO. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. Edições Melhoramentos. 1: O processo de emancipação.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 CASTORIADIS. Pedro Karp. O império em procissão: ritos e símbolos do Segundo Reinado. ELIAS. HOLANDA. Marcelo. 2002. 1979. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Adolfo Morales de los. s/d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. São Paulo: Difusão Européia do Livro. Arnold. A criação cultural na sociedade moderna: por uma sociologia da totalidade. Coleções. In PEREIRA. Dialética e cultura. São Paulo: Companhia das Letras. Sérgio Buarque de (Dir. História Social da Literatura e da Arte. O processo civilizador: formação do Estado e civilização. ______________________. Lilia Moritz. Paulo Roberto (Org. VAINFAS. Autora do livro Tristezas não pagam dívidas.FA C O M . São Paulo: Difusão Européia do Livro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 2001. Coleção do Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança. Ernst Hans. 2001. _____________. Por volta de 1883. Lucien. Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Mestre Jou. 1972. Coleção do Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança. MICELI. História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil monárquico.). História geral do Brasil. Doutora e Mestre em Sociologia pela USP. O livro. Norbert. 1977. 1985. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. VARNHAGEN. Em busca do povo brasileiro. Paulo Roberto (Org.). ___________________________. Mozart: Sociologia de um gênio.).). 2002. Madri: Alianza Editorial. RIDENTI. V. Por volta de 1855. 51 . Créditos das imagens *Auto-retrato do Imperador Dom Pedro II. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. _____________. Em colaboração com Paulo César de AZEVEDO e Ângela Marques da COSTA. Sérgio. 2000. GOMBRICH. ORTIZ. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/ Instituto Uniemp/Labjor. 1980/1982. São Paulo: Companhia Editora Nacional. São Paulo: Companhia das Letras. PEREIRA. Projeto coordenado por Alberto DINES. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. São Paulo: Companhia das Letras. 1988. O Rio de Janeiro imperial. Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. tirada no Palácio São Christovão. São Paulo: Brasiliense. As barbas do imperador: D. 1962. Brasiliana da Biblioteca Nacional: guia das fontes sobre o Brasil. 1988. 2000. 2001.n º 1 9 . Rio de Janeiro: Paz e Terra. Lewis. 1956. 1982. o jornal e a tipografia no Brasil: 1500/1822: com um breve estudo geral sobre a informação. Cornelius. 2001. LEVASSEUR. 1997. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional: Nova Fronteira. Francisco Adolfo de. _____________. São Paulo: Brasiliense. RIZZINI. RAMINELLI. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks/UniverCidade Editora. 1956. 2002.Rio de Janeiro: Record. São Paulo. coletâneas ALENCASTRO. um monarca nos trópicos. Carlos. 1990. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional: Nova Fronteira. Sérgio Buarque de. HAUSER. Edição fac-similar do original publicado em 1808 por W. VASQUEZ. Ronald. HOLANDA. 1995. Mônica Rugai Bastos Professora de Sociologia na FACOMFAAP e no UNIFIEO. Viagens e história natural dos séculos XVII e XVIII. São Paulo: Companhia das Letras. Pedro II. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. Dicionário do Brasil Imperial: 18221889. Ronaldo (org. Rio de Janeiro: Bom Texto. La imagem y el ojo: nuevos estudios sobre la psicología de la representación pictórica. 1998. 2000. A fotografia no Império. GOLDMANN. O Brasil. Rio de Janeiro: Objetiva. ______________________. História da Vida Privada: Império. Direção de Fernando NOVAIS. **Imperatriz Teresa Cristina. Tomo V. SCHWARCZ. O processo civilizador: uma história dos costumes. Renato. edição fac-similar. Émile et al. _____________. A instituição imaginária da sociedade.). A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. Row em Londres. 1993.