Título: A Rapariga Que Roubava Livros Autor: Markus Zusak Editora: Editorial Presença

O escritor Markus Zusak é filho de um austríaco e uma alemã e cresceu a ouvir histórias a respeito da Alemanha Nazista, sobre o bombardeio de Munique e sobre judeus em marcha pela pequena cidade alemã de sua mãe. Numa entrevista ao The Sydney Morning Herald, Zusak falou desta sua experiência de vida: "Nós temos essas imagens das marchas em fila de garotos e dos 'Heil Hitlers' e essa ideia de que todos na Alemanha estavam nisso juntos. Mas ainda havia crianças rebeldes e pessoas que não seguiam as regras e pessoas que esconderam judeus e outras pessoas em suas casas. Então eis outro lado da Alemanha Nazi". Assim, aos 30 anos, Zusak revelou-se um dos mais inovadores e poéticos romancistas contemporâneos. Com a publicação de A Rapariga que Roubava Livros, foi nomeado como um "fenómeno literário" por críticos australianos e norte-americanos, para além de ser vencedor de prémios por excelência em literatura juvenil. A Rapariga Que Roubava Livros é narrada pela Morte, que se mostra uma personagem bastante observadora e curiosa relativamente à espécie humana. Quando a morte nos conta uma história, temos todo o interesse em escutá-la. É assim que vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito ativa na recolha de almas vítimas do conflito. É enquanto trabalha que a morte conhece Liesel, vendo-a por três vezes, entre 1939 e 1943, início da Segunda Guerra Mundial. Liesel é uma menina de nove anos, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que a menina roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler. Será com a ajuda do seu pai adotivo, um excelente intérprete de acordeão, que conhecerá o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra.

O livro cativa desde o início, em parte, devido a este narrador incrível, a Morte, que relata passagens absolutamente fantásticas. A Morte é algo que suscita interesse, curiosidade, por ser misteriosa, enigmática, por poder assumir inúmeras formas, conforme a imaginação de cada um, e por tudo aquilo que ela pode ou não significar. Neste caso específico, a morte não nos é dada como boa ou má, simplesmente como alguém que desempenha as suas funções. Até porque, como ela afirma, no início do livro: “Posso ser amável. Agradável. Afável. E isso só nos A’s”. De facto, há inúmeras passagens onde nos é mostrada a sua ternura, quando transporta almas destroçadas e exaustas, devido a todas as provações com que se viram confrontadas no decorrer desta guerra. A Morte chega a mostrar o seu descontentamento perante a desumanidade dos nazistas. A Rapariga Que Roubava Livros é, assim, um livro que nos mostra a inocência da infância em contraste com a cruel realidade de uma guerra, de onde sobressai a ideia de que a felicidade se encontra nas mais pequenas coisas da vida, mesmo ao nosso lado, sem darmos por ela, até ser tarde de mais. Nesta obra o autor destaca a importância das palavras, que são quase como personagens do livro, pois ao longo da narrativa, a leitura, e mais tarde a escrita, acabam por ser uma forma de refúgio. A escrita de Zusak é sublime: a escolha da morte para narrador; as descrições incríveis; os detalhes absolutamente fantásticos; as reflexões da Morte; os livros que o Max escreve para a Liesel… O livro surpreende o leitor de uma forma inexplicável e Markus Zusak consegue captar a atenção e provocar o entusiasmo de quem lê. É um livro que prima pela originalidade ao oferecer-nos um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e, acima de tudo, pelo amor à literatura.

Profª Sandra Diniz Morais