2.

Uma primeira hipótese para explicar a continuidade e identidade pessoal em termos de experiência interna, levar-nos-ia a recorrer à memória como garante do fluir de uma experiência passada para a experiência seguinte. É o caso de Locke. o in!cio do famoso cap. ""#$$ do seu %nsaio, intitulado &$dentidade e diversidade&, Locke introdu' um conceito de identidade (ue escapa a uma alternativa, proposta por )icoeur* +,fr Soimême comme un autre, p. *-*. da mesmidade e ipseidade/ depois de ter dito (ue a identidade resulta de uma compara01o, Locke introdu' a ideia singular de identidade de uma coisa consigo mesma +Samenes with itself.2 3 pela compara01o de uma coisa consigo mesma em tempos diferentes (ue formamos as ideias de identidade e diversidade2 o car4cter da mesmidade parece provir da opera01o de compara01o, e o da ipseidade do facto da coincidência instant5nea, mantida atrav3s do tempo, de uma coisa consigo mesma. 6o tratar da identidade pessoal, 3 à reflex1o instant5nea (ue atri7ui a &mesmidade consigo mesmo&. 8alta apenas estender o privil3gio da reflex1o do instante à dura01o, e, para tal, considerar a memória como a expans1o retrospectiva da reflex1o t1o longe (uanto se possa estender no passado. Locke n1o a7andona o seu conceito geral de &mesmidade de uma coisa consigo mesma&, e, no entanto, a viragem da reflex1o e da memória marca efectivamente uma convers1o conceptual na (ual a ipseidade se su7stitui silenciosamente à mesmidade. &9or(ue uma ve' (ue a consciência acompanha sempre o pensamento e 3 o (ue fa' com (ue cada um se:a ele próprio e, desse modo, se distinga de todas as outras coisas pensantes, 3 somente nisto (ue consiste a identidade pessoal, ou se:a, a singularidade de um ser racional2 e at3 onde esta consciência retroceder, em direc01o a uma ac01o ou pensamento passado, a! chega a identidade dessa pessoa2 3 o

*

,fr Soi-même comme un autre, 9aris, ;euil, *<<=.

Lis7oa. (ue agora reflecte acerca do passado. etc. posso sa7er de uma maneira geral (ue tudo o (ue me pertence est4 a! contido. pp. p. mas seria necess4rio conce7er distintamente tudo o (ue me distingue de todos os outros &eus& poss!veis2 isto ultrapassa os limites da nossa própria experiência pessoal.. D-. atrav3s da considera01o geral da no01o individual. e portanto n1o pode constituir a identidade pessoal.fr Higgins.&2 6 proposta de fundar a identidade pessoal na consciência. *-2. Feorg Alms #erlag. ou concentra01o num mesmo ponto ideal de todas as experiências pessoais. se 7em (ue de um modo confuso. sendo a mais forte a de circularidade. Axford. para n1o me alongar. os casos psicológicos de perda de memória (ue podem indu'ir uma perda de identidade pessoalC %sses casos s1o elucidativos (uanto ao papel da memória na reconstitui01o psicológica da consciência da identidade. (ue n1o nos permite a percep01o de tudo o (ue pertence à própria no01o individual2 no entanto. mas n1o constituem prova ca7al de (ue se:a a memória o constitutivo da própria identidade. (ue lhes confere uma unidade interna.. sentimentos. Eunho de *NKN.Ensaio sobre o Entendimento Humano . G **. *<MK. Locke. actos. . 9ara apreender a ideia de &eu& n1o 7asta aperce7er-me a mim mesmo como uma su7st5ncia pensante. em con:unto com toda a s3rie de faculdades caracter!sticas da pessoa e a sua explora01o integra-se numa investiga01o mais ampla. p.om a ideia de &eu& apreende-se.Sameness and Substance. Livro $$. D Die Philosophischen Schriften von Gottfried Wilhelm Leibniz . ser4 7om consultar a (ue eu tenho de mim mesmo.fr carta a 6rnauld. cap. e 3 por esse mesmo eu em con:unto com o eu do presente. . ?asil ?lackJell. Ful7enkian.. . (ue essa ac01o foi reali'ada. &+C. . assim como 3 necess4rio consultar a no01o espec!fica da esfera para :ulgar das suas propriedades&D. 8. $$. ""#$$. *<<<. -2--@ 2 . como adverte ?utler/ 3 evidente (ue a consciência da identidade pessoal pressup>e. ibidem. unidade de centro. Lildesheim. o próprio centro comum de todos os nosos conhecimentos. I. @ . E. mas desempenha apenas um papel parcial.mesmo eu agora e no passado. 3 alvo de o7:ec0>es imediatas. via memória. estou de acordo (ue para :ulgar da no01o de su7st5ncia individual. . A recurso à memória e a sua elucida01o ser1o sem dBvida importantes para o pro7lema da identidade pessoal. Ferhardt. *<K=. assim como o conhecimento n1o pode constituir a verdade por(ue a pressup>e@. 1o refiro a(ui.

a segunda como for0a centr!fuga. radicada no &eu& como fonte de actividade.fr !ouveau" Essais. 3 simultaneamente o m4ximo de actividade.. o m4ximo de satura01o (ue pode dar-se. )econciliar estas duas dimens>es na ideia de &eu& significa reintegr4-las numa identidade pessoal (ue su7sume os diversos graus. condi01o necess4ria para constituir a identidade pessoal. $$. 6 ra'1o (ue leva Lei7ni' a propor a ideia de &eu& como modelo para a apreens1o da su7st5ncia individual e sua identidade 3 precisamente por(ue a! se podem ultrapassar os argumentos falaciosos dos es(uemas su7stancialistas e inerentistas . da receptividade e passividade do &eu&. de espontaneidade/ as &afec0>es& do eu s1o tam73m originaramente express1o da for0a constitutiva das próprias determina0>es do eu. ""#$$. . 6o distinguir &a aparência do eu& do eu. por constituir-se em &unidade sint3tica origin4ria da apercep01o&/ segundo Lei7ni'. ""#$$. e a &cosmológica& de Oant. paix1o. a primeira como uma atrac01o centr!peta. o &eu&. por isso tam73m afec01o. da identidade do eu/ aparente. sup>e a identidade real em cada passagem próxima acompanhada de reflex1o ou de sentimento do eu/ uma percep01o !ntima e imediata n1o podendo enganar naturalmente. 3 interessante notar (ue Lei7ni' integra de algum modo a &apercep01o emp!rica& +apperceptiva percepti. própria da a7ertura ao mundo. termo (ue emprega nos !ovos Ensaios. 2*K.e a consciência do próprio eu +la consciosit ou le sentiment du moi. #. a aparência do eu e a consciência + consciosit .nos (uais identidade e diversidade surgem sempre como duas for0as em oposi01o. . %sta tese de (ue o ser humano 3 essencialmente uma parte do mundo e de (ue a representa01o do mundo 3 :ustamente o conteBdo da sua alma como poder de representa01o 3 admitida por Oant num dos seus N . Lei7ni' n1o fa' radicar a identidade real do eu na &apercep01o psicológica&. Die Philosophischen Schriften.&N 1o 3 neste sentido (ue Lei7ni' sugere a no01o de &eu& como paradigma para compreender a identidade individual/ a auto-consciência n1o 3 de modo algum o Bnico meio. ou pontos de vista. . e preparar4 o tópico do eu como ser-no-mundo.endo total a7ertura. p. espelho do mundo. n1o 3 certamente. esta grada01o de aspectos da identidade do eu. e. Lei7ni' distingue no &eu&. reconcentra01o de toda a realidade o &eu& constitui o (ue h4 de mais concreto. &a identidade aparente à própria pessoa (ue se sente a si mesma. $$. receptividade.%n(uanto espelho de todo o Universo. f!sica e moral. apresenta para Lei7ni' uma imagem privilegiada da identidade do ser individual. real.

D22-DM2.(us*abe.*N +*<<2. . texto entre *K==-*K=@. a infinita possi7ilidade de ser-outro. É curioso notar (ue noutros textos Oant negar4 esta possi7ilidade do %u alguma ve' poder tornar-se &o7:ecto& para si mesmoC #oltando a Lei7ni'/ se a ideia de &eu& e a sucessiva grada01o da identidade pessoal assinala uma nova pista para pensar a individualidade. n. apreendo-me a mim como algo no mundo. *<<.à (ual se refere num escrito in3dito &. 6 ideia de Lei7ni' aponta so7retudo para uma peculiar sutura do universal com o singular. pp.lise.contrac01o do Universo no ser individual. *= Docta /*norantia.eel numa edi01o franco-alem1 no :ornal su!0o +evue . N@. portuguesa in (n. %sta no01o do eu como ser-no-mundo vai a7rindo caminho no pensamento de Oant.fr trad.representa0>es diversas em (ue se desdo7ra o eu.termo empregue por icolau de . uma parte do mundo&<. A mundo. pp. **< +*<KM. a direccionar-se para o mundo. na minha opini1o com muito fundamento na no01o de Lei7ni'/ a alma acompanha todo o universo com o seu poder de representa01o.escritos pr3-cr!ticos.. a indetermina01o.o7re o sentido interno& #om inneren Sinne$ . en(uanto ser humano sou para mim um ob&ecto sens'vel e"terno. %ste momento de contrac01o reenvia a individualidade para a ordem de um ens omnimodo determinatum.(us*abe.. n1o 3 por transferir para o campo da filosofia da consciência o pro7lema da unidade e diversidade. . . na tentativa de :ustificar a identidade do eu na diversidade e dispers1o das suas próprias experiências. N. ()ademie . consciente desta rela01o-for0a (ue origina sensa0>es e percep0>es . < ()ademie .h olo*i-ue et de Philosophie.6l3m de mim existe um mundo +praeter me. numa das poucas passagens em (ue se mostra favor4vel à filosofia de Lei7ni'/ &L4 algo de grande. 9u7licado por Ferhard . . . como se confirma neste texto do %pus Posthumum/ &%u sou. 2. em7ora só uma pe(uena parte destas representa0>es se:a clara&M. M K . Pas simultaneamente &sou para mim um o7:ecto sens!vel externo&. na rela01o. no espa0o e no tempo e eu mesmo sou um ser no mundo/ sou consciente desta rela01o e das for0as (ue movem em mim sensa0>es ou percep0>es. in (ui7us sunt contracte universa&*=.*D--*DM.%u mesmo. da contrac01o.aproxima-se desta no01o lei7ni'iana da alma como vis repraesentativa universi.om este plus de determina0>es h4 (ue conciliar a a7ertura m4xima.usa/ &$ndividua sunt actu.e.escreve Oant . &al3m de mim& exerce uma atrac01o so7re o eu. de ser n1o-idêntico a si mesmo no tempo. for0ando-o a sair de si. ""$. 6 &apercep01o cosmológica& de Oant . $$. .

*<<*. com uma vida independente (ue 3 fonte de significado. e capa' de se apoderar de tudo o (ue 3 outro.. pessoal +ipseidade. o despo:amento . unidade e multiplicidade. sentir. o (ue o torna paradoxalmente t1o intensamente real e t1o dificilmente compreens'vel. pensar. representa01o do mundo. Pas 3 por isto (ue a su7:ectividade pessoal se revela como uma inst5ncia privilegiada para apreender o par identidade-diversidade.num3rica. +org. de unidade e alteridade. (ualitativa.Le Probl0me de l1/ndividuation. centro e fonte de actividade. . pp. E. o centro atractor neste caso 3 o &eu& como agente. 9.O DIÁLOGO ENTRE LOCKE E LEIBNIZ . ** . 9aris. Lei7ni'.. o registo de toda a fragilidade e vulnera7ilidade . in PaRaud. &olhar singular so7re o mundo& **. de mesmidade e rela01o/ revela-se-nos a individualidade e identidade pessoal de uma forma privilegiada. no entanto n1o fa' depender a ipseidade a identidade pessoal de um co*ito ou da &apercep01o psicológica& ou &transcendental&.do ser individual. *@-*D. e percep01o. a exposi01o.fr LadriQre. de autonomia e heteronomia. IDENTIDADE PESSOAL . pelo poder de representa01o. autoconsciência. A fundamento. exprime a forma por excelência de independência e dependência. esta su7:ectividade simultaneamente dona de si pela auto-consciência.. como centro e origem 7iogr4fica de todo o actuar.a passividade. a ideia de &eu& est1o concentradas todas as grada0>es da identidade . experiência de si. de identidade e diferen0a. em suma. #rin.. A su:eito manifesta-se como portador de &uma perspectiva original e irredut!vel& da própria experiência. 9or isso o su:eito.na diferen0aC.

mas nunca como fundamento da identidade real. 6pesar das aporias e paradoxos. a ideia ou o sentimento de si. mas est4 fundada na identidade real do singular (ue 3 a pessoa. clare'a e distin01o desta autopercep01o n1o funda.oares Universidade ova de Lis7oa 6 experiência do próprio eu.outo . &a identidade aparente à própria pessoa (ue se sente a si mesma. para Locke a mesmidade da pessoa assenta na memória de si2 para Lei7ni'. pertencem ao registo do fenom3nico. A TeuU com toda a sua 7iografia 3 a melhor express1o da no01o de identidade. e a atitude de encarar esta identidade fenom3nica apenas como forma incoativa. far4 ver claramente a diferen0a entre uma atitude de funda01o da identidade pessoal na identidade fenom nica. Santo Locke como Lei7ni' recorrem à consciência .o primeiro à forma temporali'ada da consciência (ue 3 a memória. a auto-consciência apresentam-se como formas paradigm4ticas da identidade pessoal.Paria Lu!sa . o segundo à consciosit . sup>e a identidade real em cada passagem próxima acompanhada de reflex1o ou de sentimento do eu/ uma percep01o !ntima e imediata n1o podendo enganar naturalmente. . da apercep01o do próprio eu2 mas a evidência. Uma leitura comparada atenta dos dois textos em7lem4ticos so7re $dentidade e Iiversidade dos Ensaios e dos !ovos Ensaios. a memória de si mesmo. no aparecer-me sucessivamente como o mesmo em diferentes momentos do tempo.& A paradoxo da memória como crit3rio e fundamento da identidade 3 contornado em Lei7ni'/ a consciência.como !ndice natural da no01o de identidade e mesmidade do eu.

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