You are on page 1of 19

A Companhia de Jesus na capitania do Rio de Janeiro: espaços e poderes

Profa. Dra. Eunícia Barros Barcelos Fernandes - P C-Rio!Brasil"

A Fórmula do Instituto, que serviu de base à formação da ordem inaciana é o ponto de partida. “... jul amos importar sobremaneira que, além daquele v!nculo a todos comum, se li ue cada um de nós com voto especial, de modo que, sem nen"uma ter iversação nem desculpas, nos ten"amos por obri ados a cumprir, sem delon as, e na medida de nossas forças, quanto nos ordenar o #omano $ont!fice e os que pelo tempo adiante l"e sucederem, para proveito das almas e propa ação da fé, seja quais forem as prov!ncias a que nos enviar, quer nos mande para os turcos, quer para as terras de outros infiéis, ainda para as partes que c"amam da %ndia, como também para os pa!ses de "ere es ou cism&ticos ou quaisquer naç'es de fiéis() As palavras materiali*am uma abertura si nificativa diante da e+peri,ncia m!stica- o contemplativo perde lu ar para “uma vontade de inserção da I reja em laços diferentes, maiores, profanos, sociais(. e tal desprendimento diferenciar& a /ompan"ia diante de outras ordens reli iosas no desejo avançar dentro do mundo e difundir a fé católica. 0s jesu!tas unificam na missão seu sentido e sua ação1. 2entro de tal perspectiva, a atuação da /ompan"ia como aliada da /oroa portu uesa3 an"a contornos particulares, pois a coloni*ação e a construção do Império
)

4$rofessora do $ro rama de $ós56raduação em 7istória 8ocial da /ultura da $ontif!cia 9niversidade /atólica do rio de :aneiro, euniciaf;puc5rio.br Apud 8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira, tomo I, )?1@, p. A.
2

<ui* Felipe >a,ta Beves. O combate dos soldados de Cristo na Terra dos Papagaios, #io de :aneiro, Forense59niversit&ria, )?A@, p. .A.
3

A articulação entre o sentido de dever social 5 de obri ação de envolver5se no mundano 5 e a predisposição ao movimento 5 a correr o mundo propa ando a fé 5 estabelece uma especificidade da /ompan"ia, caracteri*ada no seu desprendimento. Assim, se é verdade que outras ordens reli iosas também possu!am suas miss'es na Cerra, os jesu!tas se diferenciavam delas por seu “modo de proceder(. $ortanto, ainda que encontremos outras ordens atuando nas colDnias portu uesas, como os franciscanos E antes dos jesu!tas E e carmelitas, caberia à /ompan"ia a ,nese de determinada interpretação e pr&tica com o mundo. Fais ainda, no caso do contato com os ind! enas, as aç'es das outras ordens se uiram de perto o modelo cun"ado pela /ompan"ia, adentrando os sert'es e formando aldeamentos com os diversos rupos de !ndios.
4

Aqui é preciso salientar desde o contato entre 2io o de 6ouveia, reitor da 9niversidade de $aris e principal do /olé io de 8anta >&rbara, com o rei portu u,s 2. :oão III, promovendo a intervenção direta

9ltramarino se estabeleciam no contato com alteridades em Gfrica, Gsia e América, alteridades que se pretendia transformar e incluir no mundo luso. Bo caso da América portu uesa, a proposta inaciana de inserção no mundo para a propa ação da fé se adequava ao encontro dos amer!ndios- a inclusão daquela "umanidade como desafio !mpar diante das predisposiç'es da /ompan"ia. $or certo a inclusão no mundo luso era direcionada por interesses mercantis e territoriais, mas ela atravessava a catolicidade. H preciso considerar que a identidade rein!cola lusa no alvorecer da modernidade se fa*ia na marca da cristandade, pois em $ortu al a memória fundadora da #econquista constru!a no catolicismo a diferenciação entre o “nós( e o “eles(. 2ito de outro modo, a reli ião católica em $ortu al dimensionava tanto o passado 5 a tradição que promovia o sentido comunit&rio E como o futuro E prescrevendo um destino de combate aos infiéis e de propa ação da fé cristã. /onquistar e coloni*ar al"ures eram também, com todos os sentidos laicos que possamos inferir, "ori*ontes de fé. /onquistar e coloni*ar se associavam à e+pansão da fé e a /ompan"ia de :esus se fundava e+atamente nesse propósito- a missão se efetivava no lançar5se ao mundo para torn&5lo católico. H fato que tais premissas se constitu!ram "istoricamente e também, através da "istória, elas irão se alterar E o século IJIII não é o IJI 5, entretanto, para o momento que me reporto são c"aves para compreendermos as escol"as e os resultados empreendidos no espaço americano. /onsiderar a relevKncia reli iosa e o desejo de transformação dos nativos torna mais compreens!vel a centralidade e o poderio conquistado pela /ompan"ia em solo americano. $oderio conquistado na sintonia de interesses de transformação do entio, mas que representou todo o tempo uma ne ociação. 2e um lado, à 0rdem é definida a e+clusividade no trato com os amer!ndios bem como isenç'es e au+!lios são concedidos pela /oroa, de outro, a /ompan"ia aquiesce às determinaç'es ré ias e torna5se cLmplice das estraté ias de coloni*ação, seja quando recordamos um Bóbre a contido diante da proibição da /oroa quando desejava adentrar o sertão em busca dos !ndios uarani McarijóN ou quando recordamos que diante de uma ameaça de invasão in lesa, os inacianos se disp'em a se uir à re ião do /abo Frio, na capitania do #io de :aneiro, para ocupar a terra e cristiani*ar os amer!ndios para que, como vassalos, ajudassem na defesa da terra.
dos jesu!tas 8imão #odri ues E futuro $rovincial em $ortu al 5 e Francisco Iavier E enviado às miss'es do 0rienteO até o si nificativo fato de Fanuel da Bóbre a e seus compan"eiros terem acompan"ado Comé de 8ou*a na via em para a colDnia.

entia era

condição sine qua non para os empreendimentos reais, mas se apresentava também

2

2este modo, ainda que instituiç'es diferentes e com propósitos particulares, as pr&ticas da /oroa e da /ompan"ia casaram5se na consolidação da América portu uesa, transformando as entes e o espaço, pois no propósito evan eli*ador, a /ompan"ia desenvolveu si nificativa ação territoriali*adora- a ereção de colé ios, aldeamentos e fa*endas, bem como as pr&ticas de visitas e descimentos de !ndios foram consolidando espaços à /oroa portu uesa. Pmblem&tico dessa perspectiva é o mapa produ*ido por pelo "istoriador jesu!ta 8erafim <eite, no intuito de e+ibir a e+pansão jesu!tica no >rasil no século IJI.

8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira,tomo I, )?1@, p. Q).. 0 mapa permite perceber os colé ios da /ompan"ia como importantes ancora ens terrestres- enquanto os portos uarneciam as possibilidades mar!timas, os

3

colé ios de $ernambuco, >a"ia e #io de :aneiro, a iam de i ual modo para o interior, dando sustentabilidade aos pólos urbanos e servindo de base para as aç'es no sertãoQ. Ruando c"e avam, os jesu!tas eram acol"idos nas estruturas pré5e+istentes das povoaç'es de portu ueses ou das aldeias ind! enas, iniciando em se uida a formação de estabelecimento próprio, com o au+!lio da /oroa e seus representantes ou dos moradores, ou ainda com os esforços do entio. 0 estabelecimento era, tradicionalmente, um /olé io, para abri ar e multiplicar os reli iosos, porém como sua principal ação na América era a cristiani*ação dos ind! enas, ainda que o /olé io mantivesse centralidade nas diretri*es inacianas, aos poucos outras edificaç'es foram constitu!das, notadamente os aldeamentos e as fa*endas. A fi+ação de resid,ncias e escolas estava prevista num plano eral da /ompan"ia, sendo semel"ante em outros continentes, porém, a especificidade da alteridade amer!ndia com sua “alma inconstante( S demandava a perman,ncia dos reli iosos para uma efica* cristiani*ação. Cal demanda rompeu com o modelo usual das visitas evan eli*adoras, instituindo os aldeamentos, espaços que reuniam diversos rupos de !ndios que, sob a orientação de um jesu!ta, eram catequi*ados e preparados para se tornarem fiéis vassalos de Pl5#ei e, como tais, au+iliando na defesa, como mão5 de5obra e não mais ameaçando as vidas portu uesas. Aos aldeamentos foram somadas as fa*endas, criadas para a manutenção daquelas almas, pois não se poderiam manter com as esmolas recebidas. Bo caso da América portu uesa, /olé ios, aldeamentos e fa*endas estavam interli ados no propósito mission&rio, mas não apenas, pois a administração di&ria definia aos /olé ios um papel central. Ples coordenavam e articulavam as atividades de aldeamentos e fa*endas, atuando como um centro de cone+'es entre os estabelecimentos a ele subordinados, criando uma &rea onde informaç'es, projetos e e+peri,ncias circulavam, constituindo uma rede. 0 mapa de 8erafim <eite não e+p'e, porém, que o /olé io de 8ão 8ebastião do #io de :aneiro foi em parte subsidiado pela red!*ima do /olé io da >a"iaA tal como não e+p'e a circulação das correspond,ncias

5

$ara tal ima em recordo os /olé ios como lu ar de reali*ação de con re aç'es e renovação dos votos dos jesu!tas que atuavam junto aos !ndios. Pspaço formador de novos sacerdotes, de recepção de recém5 c"e ados da Puropa, de renovação daqueles que atuavam nas bren"as e de disseminador das pr&ticas jesu!ticas na América portu uesa, o /olé io pode ser visto como Kncora e malota em da via em evan eli*adora.
6

Pduardo Jiveiros de /astro. “0 m&rmore e a murta- sobre a inconstKncia da alma selva em(, InRevista de Antropologia, v. 1Q, 8ão $aulo, 98$, )??..

4

entre reitores dos /olé ios e $rovincial, ou seja, "& cone+'es estabelecidas entre os diferentes /olé ios, formando outra rede mais ampliada. P+emplar é o fra mento de )S)? na “Informação do /olé io do #io de :aneiro( do $e. Antonio de Fatos, onde articula os v!nculos entre o /olé io do #io de :aneiro, resid,ncias e aldeamentos“$ara maior clare*a da not!cia que pretendo dar advirto, que este colé io do #io de :aneiro tem ane+as e subordinadas al umas resid,nciasO as quais são as que estão desta parte sul na /apitania do Psp!rito 8anto, na de 8antos, na de 8. $aulo. Besta Lltima residem ordinariamente seis reli iosos da /ompan"ia os quais se ocupam não somente na dita vila de 8. $aulo, com os moradores dela, e com a ente de seu serviço, senão também com quatro aldeias de %ndios, as quais a seu tempo visitam. Ba resid,ncia de 8antos não "& aldeias nem de resid,ncia, nem de visita. Ba do Psp!rito 8anto e Jila de Jictoria, residem 3 reli iososO mas a esta estão subordinadas 3 aldeias de %ndios, duas de resid,ncia, em cada qual residem quatro ou cinco reli iososO as outras duas são de visita, uma das quais é visitada pelos reli iosos que residem na casa da vila de Jictoria, principal resid,ncia desta /apitania do Psp!rito 8antoO a outra "e visitada pelos padres que residem na aldeia de #eritiba(@. A proposta de uma rede ou de redes entrecru*adas visa enfati*ar uma simultaneidade de articulaç'es e uma dimensão espaciali*ante de atuação da /ompan"ia de :esus, o que vai incidir sobre uma perspectiva de territoriali*ação ao mesmo tempo em que subsidia uma interpretação sobre os si nificados dos colé ios e aldeamentos na dinKmica colonial, bem como sobre suas inter5relaç'es. A idéia de rede implica na delimitação do colé io como pilar do empreendimento catequético, do movimento que condu* os jesu!tas à alteridade ind! ena, assumindo o papel de nLcleo dos instrumentos de ação. :& o aldeamento deve ser compreendido como instrumento5fim do empreendimento, pois a estrutura jesu!tica que se er ue na colDnia é estabelecida em função do ind! ena?, sendo ele o modelo "e emDnico de contato com os !ndios. 2este modo, o aldeamento se torna o motivo da estrutura, da qual o /olé io é o ne+o.

7

/f. “$adrão de renda que Pl5#eT deu a este /olle io no #io de :aneiro(, In- Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, v. @., #io de :aneiro, )?S..

8

8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira, tomo JI, )?3Q, p. QSA.
9

0 acordo entre a /oroa e a /ompan"ia se reali*a a partir do interesse comum de transformação de pa ãos e infiéis que "abitassem as possess'es ultramarinas que, no caso da América, se corporificava no entio.

5

2esen"a5se, portanto, a imbricação sobre a qual me deterei de modo mais espec!fico no caso da capitania do #io de :aneiro- "& uma sintonia de interesses nas aç'es da /oroa portu uesa e da /ompan"ia de :esus dentro do processo de conquista e coloni*ação, qual seja, a transformação das entes e dos espaços. Cransformação essa que representa uma sacrali*ação na medida da catequese e da inclusão do descon"ecido no mundo con"ecido. A nature*a do Bovo Fundo, junto com sua promessa do maravil"oso, encerrava uma e+i ,ncia de dom!nio para uma conversão ao mesmo, de transformação do “caos( em ordem. “9m território descon"ecido, estran eiro, desocupado Uno sentido, muitas ve*es, de desocupado pelos VnossosWX ainda fa* parte da modalidade flLida e larvar do V/aosW. 0cupando5o e, sobretudo, instalando5se, o "omem transforma5o simbolicamente em /osmos mediante uma representação ritual da cosmo onia. 0 que deve tornar5 se Vo nosso mundoW, deve ser VcriadoW previamente, e toda a criação tem um modelo e+emplar- a /riação do 9niverso pelos deuses()Y. Bomear um lu ar é !ndice dessa alteração de estatuto do espaço, de sua inclusão no mundo con"ecido e da le ali*ação do dom!nio )). 2omar a terra confi urar&, então, um movimento duplo- um reli ioso, consa rador, e outro profano, racionali*ador. 8e o dever é dominar o descon"ecido para que ele faça parte do mundo con"ecido=sa rado, as aç'es carre am5se de necessidades profanas que autori*am e valori*am a "umanidade em detrimento do divino. Pssa articulação entre uma ação reli iosa e uma ação profana é o ei+o da refle+ão que aqui apresento e que se verticali*a na e+peri,ncia da capitania do #io de :aneiro. Cal articulação pode ser vista, por certo, na observação das relaç'es entre a /ompan"ia e a /oroa, mas não se encerra a!, sendo necess&rio pontuar que a /oroa mantém um sentido reli ioso e que a /ompan"ia ter& aç'es profanas, ou seja, que a articulação se fa* no interior mesmo destas instituiç'es e oferecem mar em, simultaneamente, para promoção de acordos e tens'es entre as duas instituiç'es. 0 sentido reli ioso da /oroa pode ser aferido da carta de /amin"a ao #e imento de Comé de 8ou*a, atravessando a instituição do $adroado, ou seja, a fé dos "omens
10

Fircea Pliade. O sagrado e o pro ano, 8ão $aulo, Fartins Fontes, p. 13.

11

“0 acto da ma ia social que consiste em tentar tra*er à e+ist,ncia a coisa nomeada pode resultar se aquele que o reali*a for capa* de fa*er recon"ecer à sua palavra o poder que ela se arro a por uma usurpação provisória ou definitiva, o de impor uma nova visão a uma nova divisão do mundo socialre ere fines, re ere sacra, consa rar um novo limite(. $ierre >ourdieu. O poder simbólico, <isboa, 2ifel, )?@?, p. ))S.

6

camin"ava com eles e se impun"a em suas aç'es, sobejamente naquelas das conquistas, pois o en randecimento da 8anta Fé era "ori*onte substantivo. 7ori*onte que se estendeu para além do IJI, quando recordamos os discursos e preocupaç'es quando da ameaça "ere e nos embates batavos em terras americanas no IJII ou dos ,+itos devocionais do século IJIII, como o de 8anto Antonio na cidade do #io de :aneiro após a luta contra franceses invasores. 0 que destaco E apesar de não ser o ponto a ser desenvolvido nesta comunicação E é que as escol"as ré ias e que as conduç'es de coloni*adores e colonos nas terras conquistadas estavam premidas pela crença que cada um carre ava consi o, fa*endo da presença da I reja uma necessidade. 2este modo, creio que caiba aos "istoriadores não esquecerem tal premissa quando de suas an&lises na avaliação de prerro ativas pareçam revestidas e+clusivamente de intenç'es laicas. H preciso lembrar que as naus se uiam com reli iosos à bordo e que nas e+pediç'es para os sert'es da América que se estenderam até o III se uiam os santos óleos port&teisO lembrar que as i rejas E mesmo de taipa E eram lo o er uidas quando da fundação de povoaç'es e que estavam presentes mesmo em &reas produtivas como os en en"os, enfim, é preciso considerar que a fé inte rava o conjunto de aç'es daqueles "omens).. Jolto5me, porém, à /ompan"ia de :esus, ordem reli iosa que se associou à empresa coloni*adora portu uesa momentos após sua criação, tendo Francisco Iavier como e+emplo de esforços catequéticos e Bóbre a como o primeiro superior da Fissão na América lusa. Bo caso do #io de :aneiro, a presença jesu!tica a re a5se à própria formação da /apitania- ainda que "aja re istro da passa em dos padres j& em )QQ. E quando ainda era parte da /apitania de 8ão Jicente 5, a fundação da primeira “casa(, pelo padre 6onçalo de 0liveira, data de )QSQ e est& associada à intensa participação dos jesu!tas nas disputas contra tamoios e franceses, especialmente com o encamin"amento de !ndios para lutarem ao lado dos portu ueses)1. Ruando Fem de 8& transfere o s!tio da cidade para o Forro do /astelo em )QSA, os jesu!tas ficam encarre ados da pequena i reja que se er ue)3, iniciando, junto a ela a construção do edif!cio do futuro /olé io.
12

/f. Fic"el de /erteau. “A formalidade das pr&ticas(, In- A escrita da história, #io de :aneiro, Forense5 9niversit&ria, )?@..
13

Jivo relato dos riscos e resultados dessa luta pode ser aferido através da carta de Anc"ieta ao 6eral 2io o <aine* em janeiro de )QSQ. /f. Anc"ieta, :osé de. Cartas! in orma"#es$ ragmentos históricos e serm#es% Jos& de Anchieta. >elo 7ori*onte= 8ão $aulo, Itatiaia=Pditora da 9niversidade de 8ão $aulo, )?@@, p..YA.
14

A responsabilidade sobre a i reja de 8ão 8ebastião encerrou em )QS?, quando foi nomeado seu primeiro p&roco, Fanuel Bunes. 8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io

7

8imultKnea à or ani*ação do /olé io é a formação do aldeamento de 8ão <ourenço e podemos di*er que foi resultante também dos desdobramentos daquelas lutas contra tamoios e franceses. Ruando Araribóia, uerreiro ind! ena, se dispDs a voltar com sua ente para o Psp!rito 8anto, Fem de 8& ofereceu5l"e terras na pro+imidade do #io de :aneiro, em lu ar estraté ico para o socorro diante de qualquer nova invasão à >a!a de 6uanabara. J,5se aqui e+emplo da imbricação entre sa rado e profano bem como da comple+idade das relaç'es entre /oroa e /ompan"ia. 0s aldeamentos foram planejados para atenderem ao propósito de catequi*ação dos amer!ndios e, nos princ!pios pontuados por Bóbre a, a distKncia da vida dos colonos era um fator a+ial pelos maus e+emplos que ofereciam. Cradicionalmente os jesu!tas escol"iam o lu ar para os aldeamentos e muitas ve*es eles sur iram de aldeias nativas, sendo sua distribuição espacial e ritmos di&rios alterados com a construção da i reja e das pr&ticas evan eli*adoras. 0 que se v, para 8ão <ourenço é a iniciativa de um aldeamento promovida por um overnador eral, em &rea selecionada por ele no atendimento de uma necessidade de defesa da recém5fundada cidade do #io de :aneiro, o que e+i ia a pro+imidade dos !ndios. $arece que estamos a ler ao inverso as intenç'es inacianas... $orém, se é fato que as condiç'es para a ereção do aldeamento fo em daquilo ideali*ado pelos reli iosos é preciso não esquecer que a cumplicidade daquele rupo de !ndios se fa*ia por sua catequese, por serem cristãos é se tornavam vassalos e por estarem continuamente atendidos pelos reli iosos no aldeamento é que se esperava conter a animosidade de !ndios uerreiros. 2eve5se ainda acreditar que ten"a sido a fé compartil"ada pelo arantir a overnador e a certe*a da coniv,ncia jesu!tica que o ten"a feito apostar no modelo do aldeamento, não propondo outras medidas ou oferecimentos para perman,ncia e o controle sobre os nativos. A comun"ão, entretanto, era ne ociada. Joltando ao /olé io na cidade, podemos antever al umas tens'es. A sesmaria doada aos reli iosos cobria &rea bem mais e+tensa do que as terras do Forro do /astelo e, dentro do per!metro urbano, na v&r*ea da cidade, desde lo o foram montados currais e en en"os que produ*iam para o sustento da /ompan"ia. “Feia lé ua da cidade tem duas lé uas de terra em quadro das mel"ores terrasO nelas se fa*em mantimentos e roçaria e residem os escravos e %ndios da casa que são mais de )YY, de 6uiné e %ndios da terra com suas mul"eres e fil"os, e uma i reja em que l"es ensinam a
de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira, tomo II, )?3Q, p. 1?..

8

doutrina cristã, e destes a maior parte ranjeiam aquela fa*enda e outra que t,m a sete lé uas da cidade, que é muito maior e mais fértil, de tr,s lé uas em lar o e quatro para o sertão, e outros são carpinteiros, carreiros, etc.()Q A informação de Anc"ieta e+p'e, portanto, que a despeito da defesa da liberdade dos !ndios, e+istiam nas propriedades jesu!ticas escravos que V ranjeavamW para os padres. P não apenas na &rea pró+ima, pois o ado vacum e as roças locali*avam5se nas randes fa*endas que os padres constitu!ram- em )QA1 a Fa*enda de Facacu ou $apucaia, fornecedora de farin"as, e em )Q?Y a Fa*enda de 8anta /ru*, fornecedor de carne. As terras doadas à /ompan"ia eraram pol,mica desde o in!cio. $ol,mica em função da disputa entre limites de sesmarias no caso da cidade, pois as cartas concedentes à /ompan"ia e à /Kmara eram lim!trofes e cont! uas, e pol,mica pela prosperidade das fa*endas que, em dado momento foram vistas por outros propriet&rios como concorrentes. A tensão pelas terras espraia5se sobre os aldeamentos, pois apesar de serem doadas aos !ndios, como administradores dos mesmos, muitas ve*es os jesu!tas foram acusados de usurpar delas em benef!cio próprio ou tiveram de enfrentar disputas com colonos que invadiam as sesmarias dos aldeamentos)S. Apesar de enfrentamentos, os dom!nios da /ompan"ia foram alar ados por ve*es com o apoio de colonos. $or e+emplo, a Fa*enda de Facacu E que deu suporte ao aldeamento de 8ão >arnabé E foi eri ida em terras doadas por Fi uel de Foura em )QA) Utomaram posse efetivamente em )QA1X, j& a Fa*enda de 8anta /ru* resultou tanto da doação de terras, em )Q?Y, de Farquesa Ferreira e sua fil"a, como de posterior compra de lé uas cont! uas)A. A mal"a de propriedades inacianas mapeadas por 8erafim <eite permite que ima inemos a rede em atuação- supor pequenas embarcaç'es saindo da enseada de 8epetiba, onde se locali*ava a Fa*enda de 8anta /ru* e, em nave ação de cabota em, c"e ando ao porto do #io com carnes para o /olé io. $odemos ima inar as frutas e "ortaliças no lombo de trabal"adores, escravos e livres, percorrendo os camin"os do
15

:osé Anc"ieta. “Informação da $rov!ncia do >rasil para o nosso $adre(, )Q@Q. Cartas Jesu'ticas, vol. 1, #io de :aneiro, /ivili*ação >rasileira, )?11, p. 3.).
16

8obre as disputas de terras dos aldeamentos, a documentação coletada por :oaquim Borberto de 8ou*a. /f. 8I<JA, :oaquim Borberto de 8ou*a. “Femória sobre as aldeias dos !ndios da $rov!ncia do #io de :aneiro(, In- Revista do (nstituto Histórico e )eogr* ico Brasileiro, tomo IJII, )@Q3.
17

/f. 8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira, )Y volumes, tomo I, )?1@, pp. 3.Y53.) Z tomo JI, )?3Q, p. Q3.

9

Pn en"o Jel"o ou do Pn en"o Bovo até o /olé io. P podemos ima inar também o flu+o contr&rio, quando os padres sa!am do /olé io e, provavelmente em suas pequenas embarcaç'es E indico a e+ist,ncia de uma casa das canoasW do /olé io 5, visitavam o aldeamento de 8ão <ourenço, que durante v&rias décadas não teve padre5morador, ou ainda, quando os padres levavam de sua botica o remédio necess&rio em outras para ens.

8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, <isboa= #io de :aneiro, $ortu &lia= /ivili*ação >rasileira, tomo JI, )?3Q, p. A.. $resentes quando da fundação da cidade, ou mesmo antes dela, j& que ativos participantes das ne ociaç'es com os tamoios, quando toda a &rea ainda compun"a a capitania de 8ão Jicente, os jesu!tas foram importantes a entes da territoriali*ação coloni*adora. 0 território é uma &rea demarcada a partir da apropriação E econDmica, ideoló ica, pol!tica 5 do espaço por um determinado rupoO rupo esse que, possuindo uma representação particular de si mesmo, de sua sin ularidade, se arro a um poder de influ,ncia e controle sobre a dita &rea. Besse sentido, o conceito de território se adequa de forma bastante especial aos resultados dos processos de conquista e coloni*ação que se efetivavam nos séculos IJI e IJII e na imbricação entre /ompan"ia e /oroa portu uesa aqui assinalada. 0s acordos firmados entre as duas instituiç'es carre am a Vsuspeita coincid,nciaW do fato do primeiro 6overnador 6eral 5 s!mbolo do controle do

10

território colonial E desembarcar na colDnia americana junto com os primeiros jesu!tas e se atuali*aram na e+peri,ncia, como podemos atestar com o caso do /olé io do #io de :aneiro. 8ua fundação se imiscui à própria fundação da cidade de 8ão 8ebastião, que se fe* celebrando vitórias sobre franceses e tamoios, res uardando o território portu u,s. A ocupação do espaço eo r&fico era feita em nome da arantia de um dom!nio e a atenção para com a obri ação de conversão dos entios justamente naquela &rea de conflitos não pode ser vista como desinteressada. Cerritoriali*ar, portanto, representa a criação de um lu ar a partir do recorte de uma totalidade e através de uma fi+ação no espaço, pois é nessa fi+ação que se reali*a a transformação e a “monitoração( )@ necess&ria à sua perpetuação, o que se materiali*a e e+emplifica com caso do aldeamento de 8ão <ourenço visto aqui- o overnador usa de suas prerro ativas ré ias cedendo sesmaria e alocando amer!ndios que seriam VmonitoradosW pela /ompan"ia. Pntretanto, a planificação feita por 8erafim <eite e o ar umento que apresento são possibilidades interpretativas do depois, da "istorio rafia numa ampla visada da e+peri,ncia colonial, pois, ao diminuirmos a escala e observarmos um instante daquela vida em comum, veremos que esse processo não foi orquestrado apenas na sintonia. $ara acessar um desses instantes, reporto5me a te+to escrito pelo jesu!ta Fernando /arneiro em )S3Y, em resposta ao procurador da /Kmara do #io de :aneiro, Fanuel :erDnimo, em vista de enfrentamentos entre jesu!tas e colonos pela liberdade dos !ndios)?. Fin"a proposta é indicar tens'es subjacentes a esse processo mais amplo e efetivo de territoriali*ação, pois se advo o que a atuação inaciana foi c"ave no processo de consolidação da América portu uesa, ostaria que tal afirmação não ocultasse a compreensão conflituosa daqueles espaços e poderes. Pm abril de )S1? o papa 9rbano III promul a bula sobre a liberdade dos !ndios na América e, quando divul ada na colDnia portu uesa era intensas reaç'es em 8ão $aulo e no #io de :aneiro, sendo os jesu!tas e+pulsos num lu ar e atacados em outro.
18

“... para que tal lu ar e+ista como território, é preciso que seja monitorado, o que envolve não apenas uma ação presente, mas também futura por parte dos indiv!duos ou rupos que estejam e+ercendo seu controle(. FDnica 8ampaio Fac"ado. “A territorialidade pentecostal- uma contribuição à dimensão territorial da reli ião(, In- +spa"o e Cultura, #io de :aneiro, Pduerj,)??S, n. 3, p. 3..
19

Francisco /arneiro.“#esposta a uns cap!tulos, ou libelo infamatório, que Fanuel :erDnimo procurador do /onsel"o na cidade do #io de :aneiro com al uns apani uados seus fe* contra os $adres da /ompan"ia de :esus da $rov!ncia do >rasil, e os publicou em ju!*o e fora dele, em :un"o de S3Y,. In8erafim <eite. História da Companhia de Jesus no Brasil, tomo S, #io de :aneiro, Imprensa Bacional, )?3Q.

11

Cal animosidade derivava do fato da /ompan"ia ter institu!do procurador junto ao papa no sentido de conse uir medidas preventivas e punitivas diante da invasão das reduç'es do 6uair&, onde !ndios cristiani*ados foram escravi*ados por paulistas. Canto na re ião de 8ão Jicente como no #io de :aneiro o uso da mão5de5obra ind! ena era fundamental e uma not!cia como essa era altamente desarticuladora. 0s receios eraram constran imentos aos colonos e seus representantes camer&rios que rea iram. Bo caso do #io de :aneiro o apoio do então overnador 8alvador /orreia de 8& e >enevides à /ompan"ia foi determinante na contenção dos colonos, mas acusaç'es e ofensas de ambos os lados foram reali*adas ao lon o do processo de acomodação dos interesses. 0 te+to que nos serve de uia permite mapear certas identidades e avaliar o jo o de poderes que ali se desenrolava, dando clare*a das delicadas relaç'es que se estabeleciam. Ba narrativa do padre Fernando /arneiro, a /ompan"ia aparece desde o primeiro par& rafo como instituição capa* não apenas de an ariar sLditos 5 porque respons&vel pela cristiani*ação de ind! enas E como de remediar danos às conquistas coloniais através de suas mobili*aç'es, afinal seria pela intercessão do procurador que o *elo católico de 8ua Fajestade se manifestara e arantira punição aos trans ressores que invadiram as reduç'es do 6uair&. Fas as qualificaç'es ali e+pressas desnudam representaç'es não somente sobre a /ompan"ia, mas também sobre os colonos, os overnantes e os !ndios, permitindo5nos, "istoricamente, construir conte+tos. 0 jesu!ta e+p'e um conte+to nos tr,s primeiros par& rafos, di*endo da fi ura do procurador e das animosidades causadas quando de publicação da bula no #io de :aneiro, seja a e+i ,ncia de vista do documento pela /Kmara ou seja a ação violenta dos colonos, destruindo os port'es do /olé io de 8ão 8ebastião a mac"adadas. /omo uma resposta, o te+to se ue na sequ,ncia das quest'es levantadas e redi idas pelos colonos E documento que não tive acesso E e finali*a desenvolvendo uma preleção cr!tica aos seus opositores. A afirmação final e cate órica é a de que a catolicidade e lória da “nação portu uesa( estaria sendo manc"ada pela conduta de certos indiv!duos e sustenta que a perse uição aos padres da /ompan"ia só se reali*ava porque eles não fu iam do lu ar a eles destinado na coloni*ação por 8ua Fajestade, ratificando uma fidelidade que é propalada ao lon o de todo o documento. 0 te+to não esconde sua base contrastiva- as palavras, muitas e intensas, e+ibem a luta por lu ares no enfrentamento di&rio da e+peri,ncia colonial e é nesse embate que se definem as identidades, na busca de alianças que reverteria o estremecimento de relaç'es. 2e imediato, podemos di*er do enfrentamento entre jesu!tas, identificados
12

como defensores da liberdade dos !ndios, e colonos, ciosos da disponibilidade da mão5 de5obra que àquele momento representava possibilidades concretas de enriquecimento e "onra que distin uiriam uma nobre*a da terra .Y, mas não apenas. As relaç'es entre os jesu!tas e a /oroa.) também estão em causa, pois se de um lado o lobb- jesu!tico do procurador Francisco 2ias Ca[o junto ao rei e ao papa resultara imediatamente favor&vel, com o ratificar da liberdade ind! ena, a pressão contr&ria dos colonos a partir da divul ação do >reve pesava sobre o v!nculo entre /ompan"ia e /oroa, pois não era poss!vel esquecer que colonos eram parte fundamental do empreendimento colonial. $e. /arneiro, portanto, se esforça por fa*er ver que a ação dos reli iosos era valiosa aos fins coloni*adores, que as acusaç'es da /Kmara eram falsas e as aç'es de al uns colonos se apresentavam como obst&culo aos objetivos ré ios. A /ompan"ia é e+posta no te+to como fiel instrumento ré io, numa ação eminentemente coloni*adora. Bas primeiras lin"as, os jesu!tas são aqueles que converteram mil"ares de !ndios que viviam em reduç'es administradas pelos padres. $orque convertidos, os !ndios se tornavam vassalos dWPl5#ei, e como moradores de reduç'es, tornavam5se alicerces da territoriali*ação colonial e escudos vivos nas fronteiras. Fencionar conversão e redução naquele conte+to não alude e+clusivamente a um sentido m!stico e espiritual, mas a sentidos pr&ticos da coloni*ação. Ruando a Resposta afirma que os “mel"ores, mais sãos, e maduros ju!*os( fa*em eco de que “o >rasil não se poderia conservar sem %ndios(, padre /arneiro di* da arantia do território como defesa e como usufruto através dos !ndios. 2este modo, a fidelidade que se arro a não incide primordialmente sobre a catolicidade E o que j& seria di no de nota quando consideramos a identidade lusa perpassada por ela E mas sobre os resultados esperados por Pl #ei nos dom!nios ultramarinos. Pssa interpretação da /ompan"ia de :esus como propulsora da coloni*ação se sustenta na avaliação do lu ar da cristiani*ação e das reduç'es para as /oroas /atólicas, mas, sobretudo, no conjunto de temas do próprio te+to, na articulação que ele reali*a entre conceitos e proposiç'es. A Resposta é um constructo espiral que volteia em casos particulares que nada di*em do mundo espiritual, tais como a invasão "olandesaO os ne ócios com cors&rios francesesO a disputa por sesmarias lim!trofes entre a /Kmara do
20

8tuart 8c"\art*. .egredos (nternos, 8$, /ia das <etras, )??Q, p. .1YO :oão Fra oso. “A formação da economia colonial no #io de :aneiro e de sua primeira elite sen"orial Uséculos IJI e IJIIX(, In- :oão Fra osoO Faria Fernanda >ical"o Z Faria de F&tima 6ouv,a. O Antigo Regime nos trópicos! a din/mica imperial portuguesa 0s&culos 12(312(((4% #io de :aneiro- /ivili*ação >rasileira, .YY), p. 1?.
21

$ara o caso, fosse ela espan"ola, sob a 9nião Ibérica, ou portu uesa, após a #estauração.

13

#io de :aneiro e a /ompan"ia de :esusO o pa amento de serviços a !ndiosO rendas e impostos, entre outros, retornando sempre ao ar umento da qualidade das intenç'es e aç'es inacianas para a rande*a da ação coloni*adora, podendo ser assim considerado sua medula. P+emplar desse e+erc!cio em espiral são as menç'es às invas'es "olandesas, tema caro à época. A primeira refer,ncia do jesu!ta equipara a ação do procurador da /Kmara e de seus “sequa*es( à dos "olandeses, pois se os batavos "aviam e+pulsado a /ompan"ia de $ernambuco, os colonos entraram no /olé io di*endo “mata, mata, bota fora, bota fora da terra(. Através da equival,ncia, o autor fa* dos fluminenses inimi os, criando uma primeira impressão que poder& ser recuperada inLmeras ve*es ao lon o do te+to, j& que tantas foram as menç'es da /Kmara ao inimi o "oland,s. Al umas lin"as depois, num uso sa a*, o jesu!ta desclassifica a /ompan"ia de :esus aos ol"os "olandeses para apresent&5la como a mais fiel ao #eino- a Resposta afirma que somente os da /ompan"ia teriam sido e+pulsos de $ernambuco quando da ocupação batava, “dei+ando ficar( os demais, “eclesi&sticos e seculares(. A interpretação de que os "olandeses consideravam os inacianos uma ameaça ao seu projeto coloni*ador aparece como prova de fidelidade da /ompan"ia à /oroa Ibérica, ao que imediatamente se soma a assertiva de que em matéria de “*,lo e assist,ncia e defesa das praças que não a "ouve maior do que a da /ompan"ia( na uerra do >rasil. 0 >rasil não poderia se conservar sem !ndios e os !ndios não se poderiam conservar sem os jesu!tas... H a combinação que carre a a fidelidade inaciana às praças coloniais- na uerra do >rasil, os !ndios são instrumento poderoso e seu manejo, se é que assim podemos di*er, depende da /ompan"ia. /om o artif!cio discursivo, a verdade da lealdade jesu!tica é e+posta como tão verdadeira que mesmo o inimi o a recon"ece e fa* dela motivo de sua e+pulsão. Pm poucos par& rafos, mais do que desqualificaç'es aos colonos tais como Vapani uadosW e Vsequa*esW, tais equival,ncias e citação de casos recon"ec!veis do outro lado do AtlKntico assumem a confirmação da versão jesu!tica para os persona ens em jo o. 8e undo o jesu!ta, a /Kmara fa*ia de tudo para “desacreditar a /ompan"ia da $rov!ncia do >rasil(, especialmente no tocante ao controle dos nativos. 0 discurso da /Kmara cria uma insistente ima em de que os !ndios sob responsabilidade dos reli iosos não seriam confi&veis, permanecendo abertos a alianças e ne ócios com inimi os e dispostos a matar e comer aos portu ueses. Fala5se, por e+emplo, que os !ndios teriam trabal"ado para um cors&rio franc,s, carre ando5l"e a embarcação com pau5brasil, e que
14

teriam di*imado a povoação de 8anta /ru* em $orto 8e uro, desvir inando mul"eres e canibali*ando a todos, e tudo isso com a coniv,ncia dos padres. P o Vtempo dos "olandesesW teria dado maior visibilidade ao conluio, pois o te+to da /Kmara identifica os !ndios catequi*ados como aqueles que teriam bandeado para o lado dos "olandeses, quando estes c"e aram a $ernambuco, bem como avalia que seria a possibilidade de uma derrota portu uesa que estaria permitindo aos !ndios sentirem5se à vontade para di*erem impropriedades como a que tomariam mul"eres e fil"as dos colonos, tudo apresentado como evid,ncia de que os padres os criavam cultivando ódio aos colonos. 0 tema dos "olandeses é, então, utili*ado por ambos os lados da contenda para e+pressar seu posicionamento. Bo caso do te+to jesu!tico, v,5se a afirmação de que “traiç'es e fal,ncias domésticas(, ou seja, causadas por colonos lusos, foram mais prejudiciais à uerra do >rasil contra dos "olandeses do que as armas estran eiras. A idéia de traição à /oroa serve de camin"o para desacreditar os colonos nas acusaç'es que reali*am contra os reli iosos. 0bserva5se que são destacadas caracter!sticas de viol,ncia E quando arrombam as portas do /olé io à mac"adadas 5, de traição E no caso "oland,s E bem como capa*es de mentiras e insubordinaç'es diante das determinaç'es do papado, afinal, foram os colonos que não acataram o >reve. Fas os discursos estão afiados em tens'es anti as, que não di*em dos "olandeses ao Borte, mas sim dos dom!nios da capitania do #io de :aneiro. Bo caso da representação camer&ria, os insultos falam de padres que queriam os !ndios “somente em seu poder por seu comodo particular e interesse(, “sem que os ditos ne ros da terra sirvam a nen"um morador( ou ainda afirmando que os padres “se aproveitam das datas e terras dos !ndios trocando5as e vendendo5as( para seu bem. /omo dito anteriormente, o fato dos jesu!tas terem fa*endas prósperas era alvo de cobiça e intri a, porém, o ponto sobre o qual a >ula deliberava era o mais ravecomo respons&veis pelos !ndios dos aldeamentos, os jesu!tas intermediavam os serviços prestados por eles aos colonos e, na busca de evitar abusos que caracteri*avam trabal"os compulsórios, muitas ve*es entravam em contendas com os colonos. 8ua simples presença normati*ando a vida do aldeamento podia ser vista como empecil"o, pois ao coibirem certas pr&ticas nativas como as beberra ens acabavam por coibir também uma moeda de troca, pois "avia colonos que atra!am !ndios e facilitavam tais pr&ticas para os terem a seu serviço. Bão fosse o trato com os !ndios, o trato com as terras dos !ndios sur em como desqualificação dos inacianos na vo* do procurador da /Kmara. 0 interesse nas
15

sesmarias de !ndios pode ser atestado nos documentos que indicam as muitas solicitaç'es dos jesu!tas para a medição de terras e consolidação das datas dos !ndios, na correspond,ncia das tantas muitas as ve*es que os padres se viam em contendas para retirar colonos de terras dos aldeamentos. Fas não podemos esquecer, tais insultos não nos c"e am em primeira mão, mas no filtro da Resposta elaborada pelo $e. /arneiro. Ruando ale a tais acusaç'es, ele espera que a sombra da desconfiança esteja presente, levantando a dLvida daquele que l, os cap!tulos da /Kmara. 0 padre aconsel"a- é preciso acautelar5se na verificação dos documentos apresentados ou ditos e+istentes pelos colonos, pois o que fa*em é para “escurecer( a verdade, e+i indo permanente suspeita. A estraté ia, porém, é utili*ada pelo próprio jesu!ta que retoma anti as dili ,ncias entre as partes e as coloca à serviço da nova situação. Ple recupera as disputas entre as terras lim!trofes entre /ompan"ia e /onsel"o, utili*ando5as para di*er tanto do uso adequado das terras por parte dos reli iosos como da necess&ria desconfiança junto aos colonos. #espondendo à acusação de que os jesu!tas disp'em das terras ind! enas em seu proveito, padre /arneiro não se satisfa* em ne ar ou assinalar que naquele momento, ao contr&rio, e+istiam !ndios em terras da /ompan"ia E como os aldeamentos de 8ão >arnabé e de 8ão Francisco Iavier. Ple avança. 2i* que as terras utili*adas pelos reli iosos “não são do /onsel"o(, reapresentando a le itimidade da concessão de sesmarias por Pst&cio de 8& quando da fundação da cidade, e+pediente que procura e+ibir a fal"a na acusação e reaviva a memória dos acordos entre a /oroa e a /ompan"ia. 0 par& rafo final da Resposta enfati*a cr!tica rave aos colonos ao questionar sua catolicidade. Jale a reprodução“..da nação portu uesa tão católica, tão pia, tão firme na fé, que para a estender pelo mundo foi escol"ida, por /risto no /ampo de 0urique, e cuja conta muitos var'es portu ueses t,m aberto mares nunca nave ados, descobertas re i'es nunca vistas nem sabidas, arriscando em umas partes as vidas, e derramando em outras seu próprio san ue por promul ar a fé, "aja nesta mesma nação, a troco de um bem miser&vel interesse, de perder essa lória e manc"ar o lustre de tão loriosas empresas, com ser causa dos entios por se bati*arem se "ouveram de forrar, dei+em de se bati*ar, e fa*er cristãos pelos não fa*erem escravos...(

16

/onsiderando que o catolicismo era elemento nevr&l ico nas composiç'es da identidade lusa.. E o que se e+emplifica na Resposta na desqualificação do "oland,s como "ere e 5, a declaração é ri orosa, pois sem tal oposição não podemos considerar que a produção e a mão5de5obra não fossem um “miser&vel interesse( para o mundo colonial, muito ao contr&rio, eram lastro de seu sentido. H pela articulação à catolicidade que a ravidade se instaura. A combinação de discurso laudatório da nação portu uesa como cristã 5 nação de "omens que vertem san ue e vidas para arantir a fé E com a indicação de que são al uns que desonram a escol"a divina, pontua justamente o lu ar= valor da /ompan"ia na perman,ncia dessa identidade, atuando como remédio aos seus desvios. Fais do que isso. Ao citar 0urique, $e. /arneiro atuali*a compromissos entre 2eus e o overnante, associando reli iosos e Pl5#ei. /aso as cr!ticas sobre os colonos ali redi idas tivessem maculado a confiança ré ia na /ompan"ia, as palavras finais poderiam curar as c"a as abertas e novamente estreitar laços. 0 #eino e a nação portu uesa continuam pios e merecedores da raça divina, e se sementes podres e+istem, deveriam ser deitadas fora para a rande*a do destino luso. 8ementes podres são apenas parte de um todo maior que é qualificado. 0 discurso inaciano , deste modo, ainda que e+tremamente cr!tico às aç'es do procurador da /Kmara e daqueles que o acompan"aram procura separar tri o do joio e recuperar a articulação entre a fé e a conquista que animou as aç'es coloni*adoras. 0bservando a estraté ia discursiva pudemos ver que no in!cio do te+to a /ompan"ia definiu para si mesma um papel de leal a ente coloni*ador, mais efica* do que os a entes laicos, e ao final, soma à catolicidade, utili*ando5a como divisor entre os bons e maus vassalos dWPl5#ei. 2estacadas as refer,ncias às situaç'es na capitania do #io de :aneiro estrito senso, podemos perceber que a despeito da >ula ou da uerra aos "olandeses, e+istiam quest'es mal resolvidas entre a /ompan"ia e a /Kmara que ofuscavam as alianças que permitiram a fundação da cidade ou mesmo o trabal"o de catequese como viabili*ador da mão5de5obra tão desejada. 0 /olé io de 8ão 8ebastião, nestes termos, não era visto por representantes overnativos como parte en rena em da coloni*ação, ao contr&rio, aparecia como obst&culo ao crescimento e traidor dos interesses ré ios. 0 discurso da /Kmara não pode ser desconsiderado e a /ompan"ia de :esus se mobili*a para desfa*er
22

Antonio Fanuel 7espan"a Z Ana /ristina Bo ueira da 8ilva,. “A identidade portu uesa(, In- :osé Fattoso Udir.X. História de Portugal$ volume 3, <isboa, Pditorial Pstampa., )??A

17

essa percepção e reativar os pactos antes estabelecidos. Fobili*a5se para validar o que fora lavrado por Pl5#ei em carta à Fem de 8& em )QSA“...P porque eu desejo que nestas partes "aja todos os mais que nela forem necess&rio e que sejam fundados e dotados de maneira que possa "aver nisso perpetuação porque quanto eles mais forem tanto maior poder& ser o nLmero de reli iosos que neles residirem e que nessas partes são tão Lteis e necess&rios como pela e+peri,ncia se tem até a ora visto, vos encomendo muito que não consintais que as tais terras e roças e quaisquer outras propriedades que por qualquer via até a ora são dadas aos ditos padres dos ditos /olé ios l"e sejam por nen"um modo tirados....(.1 2estacando os espaços e os poderes, procurei e+por a cone+ão estreita entre a /oroa e a /ompan"ia de :esus em suas aç'es de conquista e coloni*ação na América portu uesa, cone+ão que se materiali*a na ereção dos /olé ios. A construção do /olé io materiali*a uma si nificação, ancora uma pr&tica, remete a uma mensa em, ao mesmo tempo em que a multiplica. Bos mais distantes lu ares onde foi o coloni*ador portu u,s, a aliança forjada com os jesu!tas arantiu uma transformação da paisa em nativa, qualificando diferentemente o espaço. Besse sentido, os /olé ios se inseriam na demarcação do dom!nio portu u,s dentro da América portu uesa. As vilas e cidades, sinDnimos de recon"ecimento com o mundo europeu, efetivavam uma dominação intensa através da transformação do espaço- as edificaç'es E inclusive reli iosas 5 a iam como suportes do padrão reinol, atuali*adas constantemente pela comunicação com a metrópole e=ou seus representantes e por rituais de identificação e demarcação, como em entre as de “c"aves da cidade( a visitantes ilustres ou em prociss'es.3. Bo caso espec!fico dos /olé ios deve5se ainda ressaltar que as obri aç'es e os ritmos se uiam as definiç'es da comunidade jesu!tica- o ano letivo, as disciplinas, as con re aç'es ou mesmo os jardins poderiam ser comparados aos /olé ios portu ueses.Q.
23

<ivro de Combo do /olé io de :esus do #io de :aneiro, In- Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, v. @., #io de :aneiro, )?S..

24

/f. Pun!cia. Fernandes Cardim e a colonialidade, dissertação de mestrado, $9/ E #io, )??Q, especialmente a p& . ?3, e #onald #aminelli. “8imbolismos do espaço urbano colonial(, In- #onaldo Jainfas Uor X. Am&rica em tempo de conquista$ #io de :aneiro, :or e ]a"ar Pditor, )??..
25

0 fra mento de Fernão /ardim, quando da visita ao /olé io de $ernambuco é si nificativo do mencionado padrão reinol- “... o jardim é o mel"or e mais ale re que vi no >rasil, e se estiveram em $ortu al se pudera c"amar jardim(, Barrativa Ppistolar de uma Jia em e Fissão :esu!tica, Tratados da Terra e )ente do Brasil, >elo 7ori*onte, Itatiaia, )?@Y, p. )S).

18

2e modo pr&tico, era do /olé io 5 mesmo quando consideramos as casas professas, j& que estavam subordinadas aos mesmos E que partiam as e+pediç'es de recon"ecimento, as visitas às aldeias j& identificadas, bem como era ao colé io que os reli iosos voltavam das aldeias e, posteriormente, dos aldeamentos. Psse flu+o, unido à interpretação anterior sobre seu papel dentro da territoriali*ação portu uesa, é que me condu* à compreensão de que os /olé ios incorporaram, nos lu ares onde foram eri idos, os sentidos de marca e matri* da coloni*ação.S. Cal centralidade é vis!vel no caso fluminense na rede estabelecida que espacialmente alar a o território luso e economicamente administra o rande contin ente de mão5de5obra, para além de suas funç'es reli iosas e educacionais junto à comunidade do #io de :aneiro. Psse espaço conquistado e transformado pelos inacianos, entretanto, nem sempre ser& visto pelos contemporKneos como espaço aliadona disputa pelas terras na cidade, na cobiça pelas terras das fa*endas ou das sesmarias dos !ndios administrados pelos jesu!tas, ver5se5& cis'es nos poderes. Fantendo a centralidade do /olé io, é nele que são reali*adas as mac"adadas dos opositores, porém a importKncia recon"ecida serve ali de lu ar para e+posição da oposição. 0s conflitos derivados da >ula serão imediatamente administrados- 8alvador /orreia de 8& e >enevides intercede pelos jesu!tas, impede que sejam e+pulsos da capitania e a bula não ser& efetivamente cumprida, firmando5se acordos entre as partes. $orém, ecos do enfrentamento permaneceram em momentos posteriores- de modo mais pró+imo, na refer,ncia a uma constante animosidade dos moradores em relação aos jesu!tas, o que se pode ver nas cartas jesu!ticas da década de 3Y do século IJII, e de modo mais lon !nquo, na crescente distinção entre os espaços e os poderes.

26

“H preciso compreender a paisa em de dois modos- por um lado ela é vista por um ol"ar, apreendida por uma consci,ncia, valori*ada por uma e+peri,ncia, jul ada Ue eventualmente reprodu*idaX por uma estética e uma moral, erada por uma pol!tica, etc. e, por outro lado, ela é matri*, ou seja, determina em contrapartida, esse ol"ar, essa consci,ncia, essa e+peri,ncia, essa estética e essa moral, essa pol!tica etc.(. Au ustin >erque, “$aisa em5marca, paisa em5matri*- elementos da problem&tica para uma eo rafia cultural(, In- #oberto <obato /orrea e ]enT #osenda"l. Paisagem$ Tempo e Cultura, #io de :aneiro:, Pduerj, )??@, p. @S.

19