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“Eneida de Virgílio – Canto VIII, versos 624-728: Tradução, notas e um estudo sobre a ekphrasis” Melina Rodolpho

A minha pesquisa teve como objetivo estudar o conceito retórico-poético da ekphrasis, um recurso muito utilizado nas práticas letradas, poesia e prosa, na Antigüidade Clássica greco-latina. Para chegar à definição da ekphrasis, foi preciso estudar também a euidentia - uma figura com definição muito semelhante àquela, o que faz com que sejam, muitas vezes, confundidas. Analisei uma famosa passagem da Eneida, de Virgílio, que faz uso da ekphrasis, trata-se do escudo de Enéias, no canto VIII, entre os versos 624-728, que constituiu o corpus de tradução desta pesquisa, desta maneira pude não só analisar o uso da figura, como também estabelecer algumas distinções com a euidentia. Antes de iniciarmos esta análise, esboçarei primeiro um breve histórico a respeito do assunto. Uma das primeiras aplicações da ekphrasis de que temos conhecimento aparece na obra homérica, é o escudo de Aquiles, que está no canto XVIII da Ilíada. É impossível não estabelecer relação com a ekphrasis da Eneida, assunto do qual trataremos mais adiante. No entanto, alguns estudiosos1, entre eles João Adolfo Hansen, concordam que não há ekphrasis na obra homérica, pois seria anacrônico afirmar tal coisa, uma vez que o conceito de gêneros é posterior a sua obra. Segundo essa lógica da anacronia, considera-se que no texto de Luciano de Samósata, “Zêuxis e Antíoco” (II d.C.), há a primeira ocorrência da figura. *Luciano discursa em favor de sua técnica como orador, ao passo que o público admira somente a novidade dos temas, desvalorizando os aspectos artísticos; para exemplificar, ele descreve o quadro de Zêuxis no qual retrata uma família de centauros - o público se surpreende com a beleza de tal representação, no entanto, não percebe as

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HANSEN, J. A. “As categorias epidíticas da ekphrasis”. 2006 pp.3 – Agradeço ao autor a cópia do texto, ainda não publicado: “(...) vários autores afirmaram que o topos „clássico‟ da ekphrasis é o escudo de Aquiles nos versos 483-608 do canto 18 da Ilíada. Trata-se efetivamente de „exposição‟ de aspectos, mas há duas objeções consideráveis à sua classificação como ekphrasis no sentido generalizado pelos historiadores da arte. A primeira é histórica e critica o anacronismo, pois o poema de Homero é muito anterior à prática do gênero e as retóricas que o doutrinam.”

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também é importante.).C. a consideravam como um tropos. divulgada a partir do século XVIII. por sua vez. A Arte Poética. uma descrição detalhada do quadro que nos permite criar a imagem em nossas mentes.). que consideraram Homero como exemplo a ser seguido no emprego da ekphrasis. seus efeitos já estão colocados pragmaticamente diante dos leitores ou ouvintes.C.) que descreve o escudo de Heracles. a ausência do conceito de gênero não representava impedimento para que determinados procedimentos poéticos já fossem utilizados. pois este é o resultado obtido com o uso desta. Aftonio (IV ou V d.).C. então. ou mesmo. ainda que não tratassem diretamente dessa.C. tais como Hermógenes (160 d. nas quais se menciona a relação existente entre arte verbal e visual. E assim. Temos. não carecendo. No De Anima. obrigatoriamente. de Filóstrato.). o que os latinos chamam de uisio – extremamente importante para o estudo da ekphrasis. Com a idéia de gênero. deste modo. depende do processo adotado e do seu resultado. entendem os retores da Segunda Sofística.* Ainda assim. por outro lado. comparando seus critérios miméticos a partir da famosa proposição Vt pictura poesis.). Há na poesia grega outro conhecido poema em hexâmetro que se utiliza desse recurso – o Escudo de Heracles . o dado de realidade que compreende o próprio texto. livro que consiste na descrição de um conjunto de quadros e outros tipos de artes visuais. a exemplo da descrição do escudo de Aquiles na Ilíada. toma-se como exemplo do gênero ecfrástico os Eikones.estratégias do pintor para criar tal efeito. posto que se não se tem o nome do processo utilizado. pois da mesma maneira estabelece relação entre a arte verbal e a visual. a existência da ekphrasis.C. 2 . Seguindo esse conceito. de uma nomenclatura ou de uma taxonomia retórico-poético-gramatical.C. Muitos outros tratados de retórica e poética já apresentavam conceitos próximos à ekphrasis ou teorias importantes para a compreensão desse recurso.C. Nikolaus de Myra (V a.) foi o primeiro a relacionar a ekphrasis com a descrição de obras de arte. provavelmente do século VI a. de Horácio (I a. devemos destacar a Poética e a Retórica. os “Exercícios de Retórica”. Outros manuais de retórica. também de Aristóteles.um poema pseudo-hesiódico (de datação imprecisa. Nos Progymnasmata. por assim dizer. Aelius Theon (I d. já aparece a noção de phantasía – resultado provocado na mente do público. nos parece. de Aristóteles (IV a.

Tanto em Quintiliano (I d.nestes não há processos. por Theon. chamada de simples por Aftonio. Lausberg. Daí depreendemos que a ekphrasis. tais como os efeitos que ambas provocam no leitor e. mas ressalta o efeito de testemunha ocular que cria sobre o público. sem esta combinação. ou composta. Ambas conferem vivacidade ao discurso. A euidentia foi bastante estudada pelos latinos porque é um recurso comum do gênero epidítico. à elocutio. na Institutio Oratoria. Quando pesquisei a ekphrasis. quando se soma a circunstância temporal à ação. Mais adiante. 3 . Apesar desta aparente equivalência. Ao mesmo tempo. de suas virtudes – a clareza e a vivacidade. por exemplo. percebemos que sempre há uma espécie de divisão da figura. constituem apenas discursos epidíticos. essa relação é possível em razão da semelhança de definições e características relacionadas. a ekphrasis é tida como mista. analisando com mais cuidado os textos consultados.C. são eles: de processos que pertencem à narração. trata da euidentia como a descrição de um quadro que tem caráter essencialmente estático.A euidentia é a figura equivalente à ekphrasis na retórica latina. Ele também faz uma diferenciação no que se refere à euidentia. pois ambas são definidas da seguinte maneira: descrição detalhada que torna visível o objeto descrito. ou de pessoas e coisas . dentre as quais podemos destacar De Oratore. para que isto seja possível. pois trata-se de uma amplificatio que expõe as idéias contidas no texto por meio de ornamentos. relaciona-se à euidentia. no Manual de Retórica. também tornam claro o discurso – a clareza é um efeito que serve não apenas à elocutio. encontramos diversas passagens que tratam da euidentia. a descriptio de processos como a ekphrasis. Entendemos. também. servem. por Aftonio.). Orator e De Partitione Oratoria. aspecto com função de orná-lo. e a ausente de processos.C. como também à dispositio. Tal gênero retórico refere-se a um indivíduo e tem como função louvá-lo ou vituperá-lo e. portanto. elabora-se uma descrição detalhada do aspecto físico e moral que cria um retrato do indivíduo. pois esta pretende retratar ao invés de projetar uma ação. ele mesmo cita a ekphrasis como um procedimento da descriptio.). verifiquei que muitos autores colocam a euidentia como sinônimo. ocorre que esta é um procedimento da descriptio que pode ser de dois tipos. inseridos como digressões na narrativa. Nos Progymnasmata. como euidentia. então. quanto na obra de Cícero (I a.

que veicula narrações que podem ser depreendidas das imagens. não percebe o conteúdo das imagens que parecem enviar uma mensagem: “a glória (kléos) adquirida na guerra tem como preço a perda de sua vida”. diante de nós. enquanto o espaço é o domínio do pintor e do escultor. as armas são feitas por este deus a pedido das mães dos heróis. afinal. 4 . assim como ocorre no escudo de Aquiles. percebemos algumas semelhanças. para os gregos. vale dizer que procurei aplicar os conceitos teóricos estudados ao longo da pesquisa nesta análise e com a tradução pude compreender melhor as estratégias deste recurso. Aquiles. não temos o objeto pronto diante de nós. não constitui simples descrição. irado. Conforme mencionei anteriormente.O herói admira as armas divinas e vai para a luta.A partir da análise teórica vimos que não há exatamente uma diferenciação entre os conceitos. mas seu conteúdo. e ambos usarão o escudo na batalha decisiva da trama. o efeito de sentido produzido é o de visualizar os fatos como uma seqüência de ações. podemos observar as diferenças entre as duas figuras a partir do estudo do uso de uma delas. operada pela mesma divindade – Hefesto. no entanto. há nestas duas ocorrências da ekphrasis um grande contraste: o escudo de Aquiles é descrito durante sua fabricação. a ekphrasis não é um recurso meramente descritivo. portanto. A guerra aparece contrapondo-se a esta vida cotidiana. pois menciona diversos aspectos da vida cotidiana. um escudo não seria suficiente para tantos eventos. Virgílio emulou com poema homérico ao fazer para Enéias um escudo com imagens gravadas nele. Passemos então para a análise da ekphrasis do escudo de Enéias. A princípio. ignorando o conteúdo do escudo. para os romanos. ou seja. ser cuidadosos ao compará-los. Esta progressão temporal pertence ao domínio do poeta. Deste modo. tais como sua fabricação. Devemos. já que tenta tornar visível não apenas o objeto. ou Vulcano. segundo a teoria de Lessing em sua obra Laocoonte. se considerássemos a descrição em seus detalhes. pois temos uma narrativa inserida nas imagens. Hefesto forja diante do leitor as imagens que ganham vida ao mesmo tempo em que são gravadas no escudo. O escudo de Aquiles parece construir. paralelo que pode ser relacionado à própria obra homérica. uma representação do mundo. no entanto.

mas não ocorre. temos a expressão “non enarrabile textum” que antecipa a tentativa de representar pelo meio verbal o que pertence a outro gênero de representação. No caso da Ilíada. As imagens. Outra característica que podemos destacar do texto é o uso de expressões adverbiais que ora localizam as imagens no espaço do escudo. por exemplo: “argenteus anser. “pro templo”. o escudo e as figuras gravadas nele. a um só tempo. Isto ocorre em razão do tipo de objeto descrito. Além da localização espacial das imagens. 5 . parte alia. o ponto de vista é o do herói. a descrição do escudo é feita pelo próprio herói no momento em que recebe as armas. os personagens também são localizados dentro delas. desuper. pois é justamente a divindade do artista que confere maior prestígio e veracidade ao discurso. portanto. classis aeratas” e outros. O emprego de verbos do campo semântico da fabricação é muito freqüente. já chama a atenção para a capacidade mimética da linguagem ao mesmo tempo em que cria uma expectativa muito maior no leitor. o ponto de vista é o do poeta. aureae caesaries. Mânlio. curioso para saber qual imagem não se pode traduzir em palavras e. aurea uestis. característica que também nos remete ao meio da representação. como. A tentativa de transformar o objeto em algo visível torna preciso que se mencione em quais materiais as imagens são forjadas. o qual sabemos ter sido forjado por Vulcano. Também notamos este aspecto no escudo de Aquiles. vemos aquilo que Enéias consegue enxergar no escudo. o material serve também para indicar a coloração das figuras. na ekphrasis do canto I. são exemplos disso: “illic. ora ordenam a dispositio para que haja uma seqüência coerente. gradualmente. na Eneida. Rômulo e Tácio estão “ante aram” e. é necessário que haja um ponto de vista para situar as imagens numa certa ordem para que possam ser compreendidas e apreendidas pelo leitor. in medio. apesar disso. por exemplo. Ainda que a ekphrasis seja estruturada como descrição. representando. Antes mesmo da descrição do objeto.No escudo de Enéias a produção não ganha destaque. por exemplo. ao passo que. há um artífice por trás dele que não deve ser esquecido.” e outros. o autor vai fazêlo. hic. Nestes casos. situada logo no começo. nec procul hinc. nas paredes do templo. narram a história romana e profetizam grandes feitos dos romanos. post idem.

por isso está localizada no meio do escudo e também praticamente no meio da ekphrasis. na verdade. e muitos outros acontecimentos sucedem a narração. não se introduz as imagens que representam Cocles destruindo a ponte ou Clélia atravessando o rio. dirigindo-se ao leitor e transmitindo a idéia de que ele verá algo que acaba de acontecer. são ações que estão implícitas numa única imagem . Uma das imagens é introduzida pelo verbo “adspicio” na segunda pessoa do singular. para ele. as orações adverbiais estruturam a narrativa e auxiliam na ordenação dos fatos temporalmente. desde já se desenha o ethos dos romanos. mencionando-se dois fatos que ocorrem anteriormente. A guerra é ressaltada para mostrar o lado vencedor. Este aspecto contraria o que Lessing afirma a respeito do escudo de Enéias. provavelmente para que o leitor não disperse sua atenção. isto ocorre no momento em que se inicia a grande batalha.a raiva de Porsena. isto passa a sensação de que. Os eventos sucedem-se muito rapidamente.Temos no escudo a narração que começa pela fundação. Em seguida. pois novos fatos são introduzidos depois de tais expressões. conforme já disse. com os meninos sendo amamentados pela loba. os personagens estavam ainda executando as ações mencionadas. Ainda nesta parte. Aqui aparece um símile que compara a luta dos homens ao choque de dois grandes montes. os fatos não podem estar no futuro porque apenas saberíamos o que aconteceria. que aqui é sempre o dos romanos. tamanha é a força daqueles. explicam-se as causas da raiva de Porsena. a freqüência do pretérito imperfeito diminui para dar lugar ao presente. representados aqui pelos meninos “impávidos”. a pintura permanece parada. enquanto as imagens do escudo de Aquiles deixam subentender muitos outros acontecimentos. no imperfeito do subjuntivo. narra-se o roubo das Sabinas. importante acontecimento para o povoamento de Roma. para representar o 6 . por esta razão. Os acontecimentos bélicos são objetos comuns da descrição. decisiva para a consolidação do poder de Augusto. quando se apresenta o conflito com Porsena. mas não teríamos a impressão de ver os fatos acontecendo. Notamos que o uso do tempo pretérito imperfeito predomina na maior parte desta passagem. introduzido pelo verbo “credo” na segunda pessoa do presente do subjuntivo. pois assim ele se prende à dinâmica da narração. A partir do verso 691. conforme vemos as imagens. os conflitos ganham destaque no escudo. Apesar de proféticos. A narração caminha para a batalha de Ácio a partir do verso 675.

7 . de um lado. suspenso numa rocha. conteúdo ideológico veiculado em todo o poema. Tanto os acontecimentos bélicos.acontecimento mais importante da história romana. Uma imagem aterrorizante é descrita para representar Catilina sendo condenado por seus crimes. que é justo. o meio de representação do objeto é lembrado. a vitória de Augusto e a celebração dela. pois notamos que o narrador mostra-se indignado com o fato. No momento seguinte. Tal efeito é capaz de delectare e mouere. quanto às festas são típicas da ekphrasis. além. portanto. temos uma parentética que utiliza a apóstrofe. separa os honestos. um exemplo de virtude. o inimigo de Roma. Prova disso é que a ekphrasis se volta a partir daí só para a descrição da batalha. e do outro. auxilia na comoção do leitor. quase caindo no Tártaro. é um recurso muito adotado nesta ekphrasis para intensificar as idéias. são figuras que operam a amplificatio para tornar o discurso visível para o público. por essa razão. no ataque de Apolo aos inimigos e no desfile dos povos vencidos. surge Antônio. pois o herói nesta história é Augusto. na luta entre os deuses. a violência dos acontecimentos é transmitida constantemente com termos que remetem à coloração do sangue em meio às carnificinas: os espinheiros cobertos de sangue. universo do deus Apolo que aparece aqui auxiliando os romanos. saem-lhe das têmporas chamas que nos remetem à luz. em razão disso. quanto a euidentia. Tanto a ekphrasis. Cria-se um quadro moral que nos dá. mas isto não interfere no objetivo da figura. As guerras são então mostradas como instrumento necessário para a conquista do poder. mas que desonrou seu próprio povo por causa da esposa egípcia – ele é. em seguida. é claro. o texto utiliza recursos para impressionar e comover. Augusto é apresentado como uma figura divina. Mais uma vez. de surpreender com a mudança inesperada. isto tem um efeito patético. esta consiste em dirigir a palavra à outra pessoa que não seja o público para o qual se fala até então. por isso. temos Catão. a enumeração ocorre no conflito com os gauleses. No verso 643 do canto VIII. retratado como alguém poderoso por meio da enumeração dos povos vencidos. os campos netúnios tingidos de sangue e o flagelo ensangüentado. do lado de Augusto. ou seja. ao contrário. um representante do vício. A enumeração é comum nas descrições. pois o procedimento nos leva a criar imagens mentais. sobretudo neste contexto bélico.

Otávio observa os presentes dos povos vencidos no templo de “Febo incandescente”. Tais termos nos remetem à luz. 8 . que ganham vida diante da visualização de tais presentes. Por ora é só isso e espero ter conseguido explicar o conceito da ekphrasis por meio de seu estudo no escudo de Enéias. lembrando o leitor de que os eventos são iluminados para que possamos vê-los. a rainha Cleópatra não pode ver atrás de si as serpentes.Durante a batalha. Ao celebrar a vitória. de modo que os presentes simbolizem os próprios povos. vemos com os olhos de Enéias. mas o leitor pode enxergar tudo aquilo que o herói vê. O poeta adotou o verbo “incendo” no presente do indicativo que lembra lingüisticamente o epíteto com o qual o deus é mencionado “candentis Phoebi”.