You are on page 1of 2

ALIADOS DE DEUS PARA UM MUNDO NOVO

BORTOLINE, Pe. José – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades – Paulus, 2007
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: A – TEMPO LITÚRGICO: 5° DOMINGO TEMPO COMUM – COR: VERDE

I. INTRODUÇÃO GERAL
3.

As comunidades cristãs se reúnem para celebrar a fé no Deus da vida. Somos seus aliados na construção de nova sociedade na qual a justiça tempera e ilumina nossas relações. Como Paulo, sentimo-nos cheios de fraqueza e temor. A expressão da nossa fé não é discurso teórico, mas experiência do Deus que vai cons- 9. Deus não pede nada para si, nem se contenta com truindo conosco a história com seu poder e com o celebrações pomposas. Ele quer que seu povo não poder do Espírito Santo. repita as estruturas injustas do exílio, onde muitos serviam a poucos. Culto separado da justiça social não 4. A Eucaristia é nossa grande aula: Deus partilha funciona. A solução é a partilha dos bens (pão e casa) conosco sua vida, para que aprendamos a dar nosso com os que deles foram privados. "Então chamarás e o pão a quem tem fome e abrigar em nossa casa o que Senhor te escutará, gritarás por socorro e ele dirá ‘Esnão tem onde morar. Se aprendermos isso, seremos o tou aqui!’ " sal da terra e a luz do mundo, nossas ações brilharão e 10. Os vv. 8-9a.10b comparam a justiça social à luz todos irão louvar o Pai que está no céu. do sol que desponta. A partilha é a transfiguração da II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS pessoa, o brilho do próprio Deus, que se torna presen1ª leitura (Is 58,7-10): O jejum que agrada a Deus te onde nascem formas novas de entender as relações 5. O capítulo 58 de Isaías é um oráculo nascido no sociais, exatamente como Deus planejou em seu projetempo em que o povo de Deus já havia encontrado to de vida e liberdade para todos: "Diante de ti maruma forma de se estruturar, depois que os exilados chará a tua justiça e a glória do Senhor te seguirá… retornaram à pátria. Lido por inteiro, o capítulo mostra Então brilhará tua luz nas trevas, e tua escuridão se que a comunidade tinha um culto organizado, do qual mudará em plena luz do meio-dia". Mt 5,13-16 é continuação do Sermão da Montanha, a nova constituição do povo de Deus. Por meio de Jesus, o Pai se dá a conhecer como aliado dos pobres e perseguidos por causa da justiça, confiando-lhes o Reino do Céu (cf. evangelho do domingo passado). Os destinatários deste evangelho continuam sendo as multidões e os discípulos (5,1). Jesus utilizou dois símbolos — sal e luz — para falar da seriedade que 6. De nada adianta jejuar quando o jejum acoberta envolve esse compromisso. injustiças. Seria uma tentativa grosseira de cooptar o a. Parceiros responsáveis de Deus (v. 13) próprio Deus. O que fazer então? Onde encontrar Deus? Como tornar possível sua resposta? 12. O sal lembra muitas coisas. O povo da Bíblia não o via como simples tempero, como fazemos nós. Da7. O profeta não deixa dúvidas: encontra-se Deus no va-lhe grande valor enquanto elemento que purifica e sofrimento dos outros. Ele não pede que as pessoas se dá sabor (Jó 6,6). Nesse sentido, era sinônimo de força aflijam, mas que sintam a aflição dos que passam fotransformadora. Alguns recolhiam pedaços de sal brume, não têm onde morar, não têm o que vestir. O jeto às margens do mar Morto, e com eles avivavam o jum não é uma dieta ou uma fome de poucas horas, fogo caseiro. O sal, portanto, significava preservação, mas é a solidariedade com os famintos de vida, liberalgo que ajuda a manter acesa a chama vital para as dade e dignidade. Jejum autêntico é sentir aquela fome pessoas. Com o sal, o povo da Bíblia costumava esque só os privados dos bens da vida experimentam. fregar os bebês quando nasciam (cf. Ez 16,4), além de Quem passa fome não quer somente um lanche para salgar os sacrifícios oferecidos no Templo (cf. Ex enganar o estômago; quer, isso sim, condições que lhe 30,35; Lv 2,13). Ao selar alianças, os antigos costupermitam viver. mavam comer sal como forma de compromisso perene 8. Deus não dá atenção ao jejum dos repatriados, entre aliados. E no livro dos Números (18,19) enconnem o aprova. O jejum que lhe agrada é este: "Reparte tramos a expressão "aliança de sal": ela recorda que o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa os indi- entre Deus e seu povo há um pacto indestrutível, que gentes e desabrigados! Quando vires uma pessoa sem compromete Deus e o povo numa causa comum a roupa, veste-a, e não te recuses a ajudar o próximo!" serviço da justiça, da liberdade e da vida.
11.

(v. 7). Notemos que não se trata de produzir pão para os que têm fome, nem de construir casas para os semteto. O profeta insiste para que cada um dê, reparta o próprio pão e acolha em sua casa os que não têm moradia. Que sentido teria isso para os sem-terra e os sem-teto?

o povo participava com boa vontade, sem contudo ver os resultados: "Por que jejuamos e tu não vês? Fizemos mortificações e tu não tomas conhecimento?" (v. 3a). É provável que o profeta tenha denunciado a esterilidade do jejum justamente durante uma assembléia popular. Por que Deus parece insensível ao clamor do povo? "O motivo é este: no próprio dia do jejum, vocês correm atrás dos negócios e exploram os trabalhadores" (v. 3b).

Evangelho (Mt 5,13-16): Os aliados de Deus

13.

No Sermão da Montanha Jesus confiou o Reino aos pobres em espírito e aos perseguidos por causa da justiça (5,3.10). Agora ele diz a seus discípulos: "Vocês são o sal da terra". Em outras palavras, eles são os aliados de Deus para a construção do Reino de justiça. (Não nos esqueçamos que, em Mateus, Jesus é o Mestre da Justiça.) Pelo que consta, o sal jamais perde seu sabor. Mas os que seguem a Jesus podem, a certo momento, omitir-se na luta pela justiça que dá expressão ao Reino: "Se o sal perde o gosto, com que poderemos salgá-lo? Não serve para mais nada, serve só para ser jogado fora e ser pisado pelas pessoas". Grave alerta para todas as comunidades!

obras que vocês fazem, e louvem o Pai que está no céu" (v. 16).
17.

Comparados ao sal, os aliados de Deus eram alertados contra a omissão. Comparados à luz, contra a presunção e a idolatria: é justo que a prática da justiça seja divulgada, mas o louvor pertence unicamente a Deus, autor do projeto de vida e liberdade para todos. 2ª leitura (1Cor 2,1-5): A força que vem dos fracos Paulo fundou a comunidade de Corinto depois de ter passado por Atenas, onde se confrontou com a elite intelectual, decepcionando-a e decepcionando-se com ela. Se dermos crédito à forma como ele agiu e falou no Areópago segundo os Atos dos Apóstolos (17,1634), podemos afirmar que, a partir de Corinto, nasce um novo perfil de evangelizador e um novo modo de ser Igreja. De fato, ao chegar a essa cidade, Paulo abandona a oratória, trabalha para ganhar seu pão e forma comunidade com os pobres, anunciando-lhes o Evangelho de Jesus Cristo (cf. 2ª leitura do domingo passado). Atitude bem diferente da maioria de pregadores itinerantes daquele tempo que conseguiam adeptos à custa da lábia, fazendo-se depois sustentar por eles. Paulo encontrou o lugar social certo para anunciar Jesus Cristo entre os pobres e marginalizados da cidade, os trabalhadores dos cais, mão-de-obra barata ou gratuita.

18.

b. A glória de Deus resplandece nas comunidades (vv. 14-16)
14.

No evangelho de João, Jesus declara: "Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo" (9,5). No evangelho de Mateus temos esta afirmação: "Vocês são a luz do mundo". Para o povo da Bíblia, a luz recorda o primeiro ato do Criador (cf. Gn 1,3), momento a partir do qual foi desencadeado o processo de harmonia do universo. Por isso as mães judias celebravam, ao cair da tarde, o rito da luz, ao acender a lâmpada que marcava o início do sábado, cercada dos filhos mais novos e recitando extensa oração. Essa lâmpada "faz o céu descer em todas as casas dos judeus, enchendo-as de uma paz há muito esperada e saudada com alegria; fazendo de cada casa um santuá- 19. Mais tarde, escrevendo à comunidade por ele rio, do pai um sacerdote, e da mãe que acende as velas fundada, recorda-lhe os inícios, o modo como se apresentou "cheio de fraqueza e tremendo de medo" (v. 3), um anjo de luz" (A. E. Millgram). sem usar os artifícios da oratória ou da sabedoria hu15. O Servo de Javé será "luz das nações" (Is 42,6), e mana (vv. 1.4), recursos tidos como indispensáveis a própria Lei é chamada de luz. Em Is 60,1-3 Jerusapelos mestres da sabedoria da época. lém é convidada a se levantar e resplandecer, porque chegou sua luz e a glória de Javé desponta sobre a 20. Por que Paulo e, mais do que ele, a pessoa de cidade. À luz de Jerusalém caminharão todas as na- Jesus crucificado, foram aceitos por essa gente, ao contrário do que aconteceu em Atenas? A resposta é ções. muito simples: é que Paulo anunciava Jesus Cristo 16. Para Jesus, a nova cidade-sociedade são os pobres crucificado (v. 2) para pessoas que também estavam em espírito e os perseguidos por causa da justiça que sendo crucificadas. Só quem passou ou está passando brilha para todos ("luz do mundo"). Mais ainda: os por essa experiência compreende quem é Deus, e a ele destinatários das bem-aventuranças são filhos da luz, a se entrega, porque da morte de Jesus crucificado veio cidade que resplandece na noite escura, esplendor da a ressurreição e a vida nova. A sabedoria humana não glória de Deus, seus aliados aos quais é confiado o entende nem aceita isso. Esta é, porém, a força que Reino de justiça: "Assim também, que a luz de vocês vem dos fracos, o poder de Deus e do seu Espírito, brilhe diante das pessoas, para que elas vejam as boas agindo em Paulo e na comunidade de Corinto. III. PISTAS PARA REFLEXÃO
21.

O jejum que agrada a Deus. Não existe culto a Deus separado da justiça social. Isaías nos convida a experimentar Deus a partir dos sofrimentos humanos. Onde poderemos encontrá-lo hoje?

22. Os aliados de Deus. Jesus escolheu o sal e a luz para falar da aliança que compromete Deus e as pessoas. Quando nossas comunidades foram sal e luz para o mundo? (Sugestão: trabalhar com símbolos que traduzem as lutas e vitórias das comunidades em favor da justiça.) 23.

A força que vem dos fracos. Confrontar as comunidades e seus agentes de pastoral com os cristãos de Corinto e a atitude de Paulo.