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Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Departamento de História HIS 2018 - Limites críticos da arte contemporânea Prof.

Dra. Cecilia Cotrim Martins de Mello

Gabriel Girnos Elias de Souza - nº1113329
01 de Julho de 2011

Isto (não) é um objeto de arte: considerações sobre macro e micropolítica no projeto de Vito Acconci para Arte/Cidade Zona Leste.

A presente proposta de artigo visa uma discussão sobre proposta de intervenção urbana do artista Vito Acconci para São Paulo em 2002 — um “centro de convivência” para moradores de rua no Largo do Glicério — a partir das diferenciações entre macro e micropolítica traçados por Sueli Rolnik. O texto futuro procurará mostrar como a inserção urbana da obra em São Paulo e no evento Arte/Cidade Zona Leste poderia ser encarada como um caso de articulação entre dimensões “micro” e “macropolíticas”; e também colocar a questão de como essa articulação acabaria prejudicada por sua elaboração formal e sua inserção num dado contexto expositivo. O texto começará introduzindo a problematização de Rolnik da dimensão política da arte e da diferenciação subseqüente entre uma esfera de crítica “macropolítica” e outra “micropolítica”; a primeira, referente às divisões e disputa no âmbito do dizível e do visível, seria relacionada pela autora com a dimensão da percepção; e segunda, “presença viva de alteridade como campo de forças que não param de afetar nossos corpos” (ROLNIK, 2009, p. 102), seria identificada com a dimensão da sensação. Retomar-se-á brevemente o problema colocado pela autora (pensando sobre a performance e as classificações questionáveis da arte brasileira dentro de uma narrativa artística global) da desconexão entre as dimensões macro e micropolíticas na arte, e a dificuldade de integrá-las. Depois, o texto introduzirá o campo de ações do Projeto Arte/Cidade em São Paulo. O projeto será apresentado em suas proposta de grandes ocupações artísticas de espaços abandonados ou alternativos da cidade, coordenadas a partir de certos eixos temáticos e discursivos sumulados principalmente por seu coordenador, Nelson Brissac Peixoto. Será apresentada sumariamente a trajetória peculiar do projeto — inicialmente ligado a questões interior ao circuito artístico e institucional paulista e que se torna depois voltado também à discussão da realidade política e econômica metropolitana.

apesar de questões abertamente (macro)políticas não serem adereçadas no início do projeto. instalações e vídeos passando para dispositivos arquitetônicos. e que sua opção por aquela situação determinada já teria se dado a partir de um “menu de questões urbanas” previamente sistematizadas e apresentadas pela curadoria do Projeto Arte/Cidade. De início. Aqui se procurará descrever a complexidade inusitada de situações ambientais procuradas pelo artista e sua situação de ambigüidade entre o público e o privado. deverá se frisar que não teria havido contato do artista com os “usuários” envolvidos por sua proposta. Após essa descrição. Introduzidos a obra do artista e o contexto do projeto Arte/Cidade. depois. espacialidades e temporalidades socialmente 2 . fugindo à representação e à ilustração de enunciados: como colocaria seu curador.A partir do discurso de curadores e de análises já sobre o projeto (SOUZA. a qual proporia a ocupação de um prédio abandonado. Será colocada a questão se. O texto mostrará então que. Será feita então uma descrição detalhada da intervenção inicialmente projetada pelo Acconci Studio. com sobreposição de várias atividades. “retornar da geografia à paisagem” (SOUZA. em 1988. o texto passaria a uma descrição breve da trajetória de Vito Acconci. Será mostrado que seus enunciados curatoriais se iniciaram como crítica a visões “totalizadoras” da cidade e preconizariam e orientaria a discussão e propostas na direção da “sensação”. 2006). discutido à luz da caracterização do ato da performance e das categorias de “conceitualismo” artístico da época (ainda que com atenção aos limites dessa categorização). o texto abordaria sua migração da performance e vídeo-performance para a arquitetura e o design. 2006). em Arte/Cidade Zona Leste (o quarto evento) seu discurso e propostas curatoriais já passariam a defender de certa maneira a construção de uma inteligibilidade dos processos "macropolíticos" de constituição da cidade e do território. será descrita a situação em que Acconci tomara contato com o projeto (convidado como debatedor e participante estrangeiro). Nesse ponto. o desenvolvimento de Arte/Cidade será rapidamente comentado no texto em relação aos termos propostos por Rolnik. de certa maneira. Nesse sentido. culminado na criação do Acconci Studio em Nova York. 2006 e ROIFFE. o corpo não teria se mantido nesse tempo um objeto privilegiado da ação do artista — de atos. o texto passará ao relato e discussão da intervenção de Acconci para o quarto Arte/Cidade — compreendida não apenas como o objeto final concreto. observaria seu trabalho de a partir dos anos 60. criando uma série de espaços de encontro para os sem-teto e estendendo as ocupações ao espaço público com um jogo de passarelas. mas como toda a cadeia de ações em torno da participação do artista. relatando-se sua percepção inicial da cidade e o problema/situação no qual escolhe intervir: os moradores sem-teto da região do largo do Glicério. contudo. em detrimento da “percepção”.

o texto visará mostrar como a proposta encolheu e foi se tornando crescentemente concentrada em algumas das funções que propiciaria para seus ocupantes temporários (banho.100). 2009. A partir das críticas 3 . uma certa leitura “macropolítica” não se imporia excessiva sobre a obra e a experiência de “visitar sem-teto” se tornaria carregada de significados pré-estabelecidos. um segundo projeto teria sido feito por Ary Pérez. a aparente precariedade da constituição física do dispositivo ocupado por sem-teto e a falta de maior elaboração espacial e material não fragilizaria o impacto corporal com a alteridade do lugar. quase inevitavelmente. p. 2010). a partir da idéia de Acconci. indissociável de “seu rigor enquanto atualização da sensação que provoca tensão” (ROLNIK. especula-se sob o que esse “dispositivo”. e se. Mais ainda: considerando-se os visitantes como. o texto passará à descrição da intervenção que acabou sendo realizada: em virtude da falta de recursos e da impossibilidade de ocupação do edifício. O texto pontuará então como. engenheiro e co-coordenador do evento. acusando-a de pouco diferir do tipo de projeto institucional feito para os sem-teto (ACCONCI. seria preciso perguntar se a relativa precariedade desta e o fato de se constituir debaixo de um viaduto não reforçariam percepções e sensações socialmente preconcebidas a respeito de sem-teto. a falta de teto que não os viadutos — mas que ainda assim. Aqui será retomada a reflexão de Rolnik sobre a necessidade de elaboração formal da obra em sua performatização. suas soluções seriam menos sofisticadas e ousadas. Ao mesmo tempo dispositivo de estranhamento espacial e de choque social. na ordem da sensação corporalmente vivida. a busca de caracteres materiais e espaciais muito diferenciados permaneceriam na intervenção construída — a ausência de portas. lança-se como questão se essa obra inicial poderia chegar a operar ao transeunte ou visitante e a seu ocupante um tipo de tensão “micropolítica”. numa posição superior no diagrama da sociedade à das pessoas às quais a obra abrigaria. assuntos do discurso curatorial de Arte/Cidade Zona Leste.distintas. descanso). poderia ter chegado a ser. do ponto de vista do visitante do evento. A pergunta que se coloca. seria a de se. Perguntar-se-á se. nessa situação. enfim. enquadrada num campo de representações sobre “miséria” ou “assistencialismo”. Após essa discussão da proposta. ao mesmo tempo. Delineandose as diferenças entre as duas propostas e as novas características da realizada. Aqui se fará referência à polêmica na qual o próprio artista acabaria por negar a autoria da intervenção concretizada por Arte/Cidade. 23 jan. a translucidez. Nesse ponto. proposto a partir de uma das condições sociais mais limítrofes da metrópole. enquanto o caráter original de sua espacialidade e materialidade foi se enfraquecendo. poderia articular essa tensão a um apreensão “macropolítica” das implicações do desenvolvimento de São Paulo e sua condição urbana de megalópole subdesenvolvida. água. ao contrário do que a fala do artista indicaria.

o fato do discurso dos monitores “explicarem” a obra a visitantes ora em termos de “experiência artística”. Como colocaria Rolnik. e tudo permanece no mesmo lugar” (2009. dependendo da discussão e do interlocutor. por um lado. Para isso. para nos proteger do incômodo ruído. questionando se as próprias características que a exposição tomou como evento de grande porte — e a inserção particular da intervenção de Acconci/Perez dentro desse evento — não trariam problemas para uma articulação micro-macropolítica mais sutil. a obra construída e. A questão a ser colocada enfim. sua formatação expositiva e institucional. o texto colocará então a questão de se. de certa forma. será se essa ambigüidade do conjunto de “aparatos de apresentação” — o(s) discurso(s) do evento. o incômodo aparato sugerido por Acconci. Obviamente. a questão seria o que estes respectivos aparatos fariam olhar — ou melhor: o que apresentariam à percepção e à sensação. ora como “arquitetura”. mas de maneira que. por outro lado. ora como “política”. A proposta de Acconci. o próprio evento Arte/Cidade poderiam ser entendidos de certa forma como “aparatos de apresentação”. por outro: “categorizações” da obra que diluiriam a possibilidade micropolítica de desestabilizar a experiência do espaço urbano dos visitantes numa estranheza vivida corporalmente. nenhuma forma de apresentação pode “garantir” a atualização da fusão entre o 4 . Retomando as críticas feitas à obra na imprensa. o equipamento teria acabado por ser percebido por grande parte do público como uma “denúncia” da miséria. “se o que aí experimentamos não é reconhecível na arte. 103). O texto então fará uma reflexão sobre o caso a partir do problema e noção de presentational device (“aparato de apresentação”) discutida por Thierry de Duve (2000). o texto comentará como. aparentemente. como dissera Rolnik. no fim tudo permanecesse no lugar. E aqui o texto colocará em questão a especificidade de Arte/Cidade Zona Leste como “aparato de apresentação”. legitimação da intervenção no evento.e leituras da obra feitas na época. será examinada a relativa ambigüidade com a qual as diferentes dimensões da exposição tratariam o caso particular da obra de Acconci: por um lado. o fato do prestígio do nome de Vito Acconci dentro do circuito artístico ter sido ele mesmo apropriado por Arte/Cidade como meio de apresentação e. a insuficiência de elaboração formal do “dispositivo” da intervenção (o abrigo) — acabaria por reporia a distância entre micro e macropolítica que (segundo se supõe aqui) se buscaria abolir no projeto de Acconci. o categorizamos na política. a partir de discursos curatoriais e de depoimento de monitores do evento. ora como proposta experimental de política pública. então. ora em termos de equipamento arquitetônico. formatado e realizado por Ary Pérez e apresentado por Arte/Cidade não acabaria por ser criticado e defendido a partir do registro menos perturbador para cada ocasião: ora como “arte”. especialmente. p. e mesmo como uma “proposta de política pública”.

CAMNITZER. 23/01/2010. São Carlos: Escola de Engenharia de São Carlos. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. ano XVII.br/artecidade/novo/vito_st. criação em sentidos: o projeto Arte/Cidade e seus conceitos em tensão. de. 1999. . Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais – EBA. 2001. Como Intervir em Grande Escala? Disponível em: http://www. D. Percepções e Intervenções na Metrópole: a experiência do Projeto Arte/Cidade em São Paulo (1994/2002).br/IFCS_M/AnaGabrielaDicksteinRoiffe. Furor de Arquivo. Thierry de. com a alteridade da metrópole.ufrj.artesquema. E. Revista digital Artesquema. número 19.com/escritos/vito-acconci-arte-e-politica-da-performance-aarquitetura/>. G. G. 5 BIBLIOGRAFIA ACCONCI. Nelson Brissac. Luis. New York: Queens Museum of Art. Criação em atos. DUVE.eba. 2006. Sem título (breve reflexão desencadeada por minha experiência no trabalho de monitoria externa na exposição ArteCidadeZonaLeste). Projeto preliminar para o Largo do Glicério.php?media=revista:e19:suely_rolnik. Revista USP. 96-105. a ilustração de um dado problema social ou conceitual) e a experiência do contato tenso com outras vivências simbólicas e corporais do espaço urbano relacionadas à miséria — enfim. set-out-nov. 2006.UFRJ. Website do Projeto Arte/Cidade. Dissertação de mestrado. Dissertação de Mestrado. CARDIM. Acesso em: 21/03/2010 ACCONCI STUDIO. PEIXOTO. Entrevista concedida a Daniela Labra. Sueli.br/artecidade. Disponível em: http://teses. URL: http://www. pp.ufrj. Url: <http://www. Vito Acconci: arte e política da performance à arquitetura. nº59.pucsp. a elaboração desse ato fundamental de apresentação pode significar a diferença entre a experiência de “ver moradores de rua” ou “ver experimento artístico” (ou seja. ROIFFE.br/ppgav/lib/exe/fetch. pp/264-269.pucsp. mesmo assim.macro e micro. Acesso: 05/01/2011. Mônica. In Look!: 100 years of Contemporary Art.pdf SOUZA. A. entre “percepção” e “sensação”. Ghent: Ludion. 2002. 2003. Global Conceptualism: points of origin 1950-1980. Disponível em: http://www. Vito. São Paulo.pdf ROLNIK. Presentations. G. 2009.htm.