ROMPER COM O EUROCENTRISMO

ENTREVISTA CONCEDIDA POR ANÍBAL QUIJANO AO JORNAL BRASIL DE FATO – 23/06/2006

A democratização das condições e limites da dominação política, se tiver êxito (na Bolívia), implicaria um processo peculiar de descolonização do Estado e abrirá, sem dúvida, questões cruciais no debate boliviano, latino-americano e mundial BDF - Desde os anos 90, os movimentos indígenas, sobretudo nos Andes, ganharam força, derrubaram governos e impulsionaram mudanças no poder. Quais as semelhanças entre esses movimentos da Bolívia, Peru e Equador? O que pensa da atualidade da proposta do Estado plurinacional e pluriétnico? Quijano - Primeiro, quero chamar a atenção sobre as dificuldades de olhar ou de pensar os "movimentos indígenas" como se se tratassem de populações homegeneamente identificadas. Segundo, o Equador é o único lugar onde a virtual totalidade de todas as "identidades" ou "etnicidades" "indígenas" conseguiram conformar uma organização comum, sem prejuízo de manter as próprias particulares. É também o "movimento indígena" que mais cedo chegou à idéia de que a liberação da colonialidade do poder não consistiria na destruição ou eliminação dos outros agentes e identidades do poder, e sim na erradicação das relações sociais materiais e intersubjetivas do padrão de poder e a produção de um novo mundo histórico intercultural e de uma autoridade política (pode ser o Estado) comum, portanto, intercultural e internacional, mais que multicultural ou multinacional. O projeto de uma Universidade Indígena InterCultural e de seu Instituto de Investigações Interculturais é um dos claros testemunhos desta proposta, apesar de que seus desenvolvimento tenha sido, até agora, mais lento e irregular. Depois de frustradas, por apressadas e equivocadas, alianças políticas que levaram a alguns líderes do movimento a formar parte do governo do Estado central, sob o comando do coronel Gutiérrez - que logo se revelou como agente da colonialidade do poder -, divisões e debates ásperos abriram um período de grave crise na unidade e na organização do movimento. Entretanto, está em curso um claro processo de renovação organizacional e de relegitimação da nova liderança tanto dentro da população "indígena", como em relação a agentes sociais de outras identificações. Isso não permitiu ao movimento indígena equatoriano voltar a ser o principal agente e representante político-cultural da população popular equatoriana, até o ponto de ser o condutor do atual movimento popular que conseguiu bloquear e impedir a aprovação do Tratado de Livre Comércio (TLC) entre Equador e Estados Unidos. Sem dúvida, logo estará dentro do movimento indígena equatoriano, se já não está, o debate em torno do avanço em direção ao governo do Estado. E, nesse caso, as questões da interculturalidade e da internacionalidade do Estado, suas formas de apresentação e de organização institucional para a prática de ambas as propostas, nos convocarão a todos na América Latina. BDF - E na Bolívia? Quijano - No caso da Bolívia, não ocorreu um processo semelhante. Os que se auto-identificam como "indígenas" não conseguiram produzir uma organização comum, nem propostas culturais e políticas comuns. O Movimento ao Socialismo (MAS) não se formou nem se desenvolveu como "movimento indígena", e sim como organização sindical, primeiro, e política, depois, ainda que a população que o integra começando por seu principal líder, Evo Morales, seja identificada ou inclusive possa autoidentificar-se como "indígena", segundo a classificação social fundante da colonialidade do poder, ou seja, em termos de "raça". Entretanto, a Bolívia é o primeiro país latino-americano no qual os "indígenas" (em termos já não só "raciais", mas antes de tudo "culturais") terminaram sendo hegemônicos em um movimento amplo que conseguiu assumir, por votação majoritária da população, o governo do Estado Central do país. BDF - E por que isso ocorreu justamente ali? Quijano - Isso abre à investigação e ao debate um conjunto complexo de questões. A primeira e óbvia é se Evo Morales e o MAS seriam o que são se tivessem se apresentado, desde o primeiro momento, como um "movimento

sustenta que. a redistribuição da representação política de todas as "culturas" e/ou "nações" no mesmo Estado. E enquanto que para uma parte influente da inteligência e da liderança política aymará. Essa democratização das condições e limites da dominação política. As burguesias regionales reivindicam. a Coordenadora da Água e outros equivalentes também formarão parte de um novo universo institucional de autoridade coletiva e pública. mas em um Estado com a mesma estrutura institucional que o atual. pluri-social e pluriétnico). Fundamentalmente. Alvaro García Linera. de seus recursos e de seus produtos. não estão dadas as condições para tratar de ir agora em direção ao socialismo. sobretudo. Tarija e outros centros menores. o controle autônomo de suas respectivas regiões (sobretudo Santa Cruz e Tarija. em seus principais momentos das lutas dos últimos anos.mais perto desse lugar e desse papel. mas as "identidades indígenas" demandam autonomia territorial por questões culturais e jurídico/políticas. obviamente. O "nacionalismo" dominou o debate das esquerdas na América Latina no Século XX. política e jurídica e d) se os organismos constituídos pelas populações pluriidentitárias. Evo Morales é aymará. associada já ao capital global. se um novo Estado. na Bolívia. pois não existe nesse país uma classe operária ampla. Como nenhum "Movimento Indígena" unificado e organizado esteve debatendo aquelas questões durante o processo que levou o MAS ao governo do Estado. implicaria um processo peculiar de des/colonização do Estado e abrirá. sem dúvida. Os conflitos e as associações serão. o estabelecimento de um Estado multicultural e multinacional. García Linera propõe ir mais a um "capitalismo andino-amazônico".E qual a relação do projeto do MAS com uma sociedade socialista na Bolívia? Quijano . Felipe Quishpe. se preferir. latino-americano e mundial. Essa política poderia implicar uma relativa desconcentração do controle do trabalho. como resultaria da recente nacionalização das respectivas jazidas.indígena". esteve . essa fórmula pareceu se referir. autonomia territorial. atualmente em mãos. o vice-presidente. a mais moderna agricultura comercial e algumas indústrias). discutidos e negociados na Assembléia Constituinte e no Referendo que também foi acordado para resolver as questões das autonomias. sua conhecida e respectiva "divisão de poderes". Especialmente acerca de quais poderiam ser as formas de representação multinacional e multicultural e quais as respectivas formas de institucionalização no novo Estado. para redistribuí-la entre as comunidades. ao controle estatal de uma parte maior da renda produzida pela produção mercantil do gás e do petróleo. BDF . Ou seja. Não está ainda esclarecida a relação entre ambas as formas de admnistração do capital. sem dúvida. apelidado El Malqu. da burguesia de Santa Cruz. em vez de formar-se e de se desenvolver como um movimento político "popular" (isto é. b) se tais papéis seriam distribuídos entre indivíduos "indígenas". do outro lado. A próxima história permitirá contestar uma crucial e ineludível questão: A redistribuição multicultural e . proporcionalmente à magnitude de cada uma das "identidades". se tiver êxito. pequenas e médias empresas e serviços públicos. em parte. povoados. por exemplo. para o atual governo do MAS o projeto político central é. porque ambas as vertentes buscavam o controle do mítico Estado-Nação. cuja meta histórica seria o socialismo.e talvez ainda esteja . a Federação de Juntas Vecinais de El Alto. ou seja. o projeto central aymara é o restabelecimento do Collasuyo (nome do âmbito neohistórico aymará dentro do Tawantinsuyo ou "Império Inca"). como já estão reivindicando. onde estão as reservas de hidrocarbonatos. mas em momento algum apareceu como o dirigente aymará de maior autoridade e reconhecimento. com uma associação ideológica com o "socialismo". c) se cada uma das populações que reivindicam identidade diferenciada e própria terão. as opções em debate poderiam ser: a) Se o "multicultural" e o "multinacional" do Estado consistiriam na idéia de indivíduos de todas as várias "culturas" e/ou "nações" terem lugar e papel no governo do Estado. de um lado.Ainda que o termo socialismo esteja inscrito no nome mesmo da organização política governante (o MAS). provavelmente. serão algumas das mais importantes áreas do conflito político durante e depois da Assembléia Constituinte. seria mantido o controle privado-empresarial do restante da acumulação capitalista. Fundamentalmente. Mas. E essas discussões. questões cruciais no debate boliviano. o indispensável debate está apenas começando. muito menos majoritária.

desde a . sobretudo urbana. e os "negros". uma "cholificação" da população. Historicamente fundado nestas terras. toda a história recente dos movimentos indígenas da área andina-amazônica **. assim. que começou com a funesta ditadura fuji-montesinista. de seus recursos e de seus produtos e sem mudanzas igualmente profundas nos outros âmbitos básicos do padrão de poder? BDF . a uma estrutura de poder configurada segundo essas condições.Bem. sobretudo no campo. Não faltam agora tentativas procedentes de alguns grupos da "ex-esquerda" para formar um "movimento indígena" e até se montou por conta da "primeira dama" do governo Toledo um maquinário burocrático. sobretudo aquelas que enfrentam as corporações mineiras multinacionais.E o que isso gerou? Quijano . Mais recentemente. sobretudo depois de 1945. a maior parte da população que "racialmente" é considerada "índia" ou "indígena" não está incorporada. a quem dentro da "cultura senhorial-crioula" se impôs o nome de "cholo". De todo modo. Segundo o informe da Comissão da Verdade e Reconciliação. sob os impactos dos processos da Bolívia e do Equador. nas cidades da Costa. já acusado de corrupção fiscal. o mapa político da América Latina. Na América Latina. a maioria dos mais de 60 mil assassinados nesse período eram. A "desindianização" produziu. seguindo. No governo. A proposta teórica* para explicar essa diferença é que. onde começou há umas três décadas. começaram a identificar-se como "indígenas" e a se estabelecerem como novos movimentos políticos identitários. o exemplo do Equador. camponeses "indígenas". mas também nas cidades da serra. essas características correspondiam somente ao Chile. os Estados de nações subdesenvolvidas terem se transformados em estruturas de administração local dos interesses do capital mundial? Quijano . há uma safra de presidentes de origem no movimento social ou de orientação de esquerda e nacionalista que chegaram ao poder. precisamente. a idéia de um interesse social chamado "nacional" corresponde à existência de uma sociedade nacional dominada por uma burguesia nacional. tanto em termos territoriais como "culturais" ou "étnicos". para manipular alguns poucos e pragmáticos grupos com um discurso "originário". também aqui está entrando em seu momento de crise mais radical. está mudando notoriamente. especialmente desde a reprivatização do controle do Estado e a profunda reconcentração do controle dos recursos de produção e dos investimentos. entre 1980 e 2000. os grupos de classe média educados por aquela. o agente principal de mudança da sociedade e do poder no Peru. no contexto da migração rural/urbana.E o movimento indígena no Peru? Quijano . principalmente. em boa parte cooptada depois ao alterado padrão de poder pós-oligárquico. cada vez mais. começando com os sucessivos regimes militares que se autodenominaram "revolucionários". da crise do "Estado Oligárquico" e da bancarrota de suas duas expressões de dominação cultural mais afirmadas: a "cultura gamonal-andina" nas relações entre o senhorio proprietário de terra e os "índios". ainda que também rural. nesse caso. BDF . nem parece até aqui interessada em entrar em nenhum "movimento indígena" das mesmas dimensões e impacto que em outros países em referência.Na América Latina. Você acredita que isso tem relação com o fato de que.multinacional do controle do Estado pode ocorrer separadamente da redistribuição do controle de trabalho. essas lideranças têm mantido uma política econômica de clara orientação neoliberal. embora primeiro tenha sido contida e derrotada políticamente.Esse processo de "desindianização" foi abrupto. Os únicos grupos que de verdade se movem nessa direção são as comunidades da Selva Amazônica. Ou seja. Essa população identificada pelos outros como "chola" foi. com um estado nacional. sem dúvida. algumas comunidades camponesas. antes da chamada Revolução Mexicana. e da "cultura senhorial-crioula" nas relações entre a burguesia senhorial. ocorreu uma vasta "desindianização" no processo de urbanização da sociedade peruana. Uma ampla parte da população que não se desindianizou foi vítima da "guerra suja" entre o terrorismo de estado e o do Sendero Luminoso. Mas a questão central destes preocessos é a crise da Colonialidade do Poder. masivo e abarcou todo o país e produziu uma população. com a formação da Coordinadora de Organizaciones Indígenas de la Cuenca Amazónica (Coica).No padrão atual de poder. um de cujos eixos centrais é o capitalismo. "mestiços" e "índios". BDF .

mas não ocorrera na Bolívia. BDF . antes de tudo. levou-se a cabo uma contra-revolução. como no Brasil desde o golpe de 1964 ou no Peru desde 1990. como ocorre na Bolívia. Desde essa perspectiva. Foi com elas que os trabalhadores e seus associdados nas classes médias chegaram com Allende ao governo do Estado em 1971. Por isso hoje. da reconcentração mundial do controle do trabalho e do estado por parte das corporações globais e de seu Bloco Imperial Global. O "nacionalismo" dominou virtualmente todo o debate das esquerdas na América Latina durante o Século XX. precisamente. e às necessidades da globalização. Mas se esse processo chegar a ser vitorioso. E mesmo com José Carlos Mariátegui (pensador peruano) insistindo que na América Latina não havia fundamento histórico para nenhuma "burguesia nacional". culminaram nos anos 1930 com o Governo de Frente Popular.denominação imposta a uma população de "índios" de diversas origens. ou seja. foi. ao regressar agora mostra que aprendeu ao contrário a lição política dessa história. Essa lição não . Também não ocorrera em um país como o Peru. precisamente em países nos quais. pelos quais levou seu povo a uma derrota cujas conseqüências não terminamos de pagar. entre 1985 e 1990. com uma associação puramente ideológica com o "socialismo". produziu na América Latina desvarios históricos. mas sim. teórico. e sim um multinacional. que é a única forma de democratizá-lo. foi um erro trágico. A propensão homogenizante. desde a segunda década do Século XIX. apesar de que também ali ditaduras militares ferozmente represivas atuaram desde há mais tempo e durante os mesmos anos.E esse processo foi localizado? Quijano . E. Nos demais países. mas foi também sua lealdade com elas que facilitou sua derrota a um sangrento golpe militar em 1973. práticas políticas errôneas e que não levavam a lugar nenhum e derrotas cujas vítimas foram e são os trabalhadores e todas as vítimas da colonialidade do poder. sobretudo porque ambas as vertentes buscavam o controle do mítico Estado-Nação. ou melhor. reducionista e dualista do Eurocentrismo se expressava também nesse "materialismo histórico" pós-Marx. ou seja. a demanda das populações que. diferentemente de outras áreas. internacional. mas cuja burguesia não deixou de praticar a rapina desde o começo mesmo da República. político e histórico. um dos agentes de tais desvarios teóricos e erros políticos. como obviamente nos "andinos". Na imposição global do "neoliberalismo". a colonialidade do poder havia feito historicamente inviável o projeto liberal/eurocêntrico de um moderno estadonação. foram vítimas de Estados nãonacionais e não-democráticos não é mais "nacionalismo" e mais Estado. o novo estado não poderá ser um Estado-nação ou um Estado nacional.República Portaliana. da reconcentração mundial do controle do trabalho e do Estado. por exemplo. a erosão da autonomia dos Estados menos democráticos e menos nacionais é contínua. ou seja. Uma ditadura sangrenta foi imposta enquanto eram removidas e alteradas as bases sociais mais corroídas deste Estado para adequá-las à neoliberalização do capitalismo. pior. para consolidar as normas e instituições da democracia liberal/burguesa. presidente eleito. em associação com o capital imperialista. Tal Estado Nacional Oligárquico foi consolidado com o extermínio genocida dos "mapuches" . ou mais tarde na Argentina ou Uruguai. sobretudo das classes médias e do proletariado mineiro rumo a um Moderno Estado-Nação que se desenvolviam desde os anos 20 do Século XX. a doutrina da burguesia nacional e da aliança nacional dos trabalhadores com ela foi imposta sobre a imensa maioria das "esquerdas" quando da sua morte. a proposta da Terceira Internacional de que todos os países submetidos ao imperialismo tiveram "burguesias nacionais" com as quais os dominados/explorados/reprimidos tinham que fazer alianças porque supostamente havia um terreno comum de interesses diante da dominação imperialista. de longe melhor dotado em termos de recursos.Essa condição é o que explica que o que ocorre hoje com o capitalismo no Chile. Os movimentos sociais. outro Estado. que implicou numa espécie pacto político entre a burguesia chilena e os partidos políticos dos trabalhadores e das classes médias. Sob o Pinochetismo. Assim. como na Ásia. des/colonializar esse Estado. Mas isso produziu também uma nova sociedade capitalista nacional e seu respectivo novo estado-nação. Como toda teoria eurocêntrica. processos que iam nessa direção foram derrotados. no Peru. Alan García Pérez. que foi precisamente iniciado ali e nesse momento. por exemplo.

o que era. persistem em sustentar que todo país. o senhor afirmou que a globalização impulsionou uma nova relação entre capital e trabalho. E na perspectiva do futuro. poderia estar fora ou livre dos conflitos. portanto. Muito pior. por exemplo. no sentido específico de que um único padrão de poder controlava toda a população do "globo". Japão) já aceitam um papel subalterno ao dos EUA na divisão do poder global? Quijano . em qualquer contexto histórico. não tinha sentido esperar rupturas ou enfrentamentos violentos. assim como suas organizações políticas diferenciadas e geraram a crise de identidade social dessas populações em termos de classes sociais. onde aconteceu a maior manifestação política de todos os Primeiros de Maio da história desse país). teríamos direito a imaginar uma Comunidade Sulamericana de Nações. E na medida em que os estudos e os debates sobre o alterado mundo que a crise da colonialidade do poder produziu.O conflito no Iraque gerou uma disputa momentânea . o mundo emergiu como "unipolar". no entanto. como os autores do muito vendido "Império" (Michael Hardt e Antoni Negri).foi tampouco aprendida por seus adversários.Obviamente. é claro. as tendências apontam para a formação de novos participantes das disputas hegemônicas no mundo. todos os eurocentristas do debate mundial atual. a precarização e a flexibilização do trabalho foram mais longe que nos países 'centrais'. 3) a re-expansão das formas não-salariais de exploração. Como isso está se refletindo na América Latina? Quijano . há possibilidade de haver rachas nesse bloco? Ou todas as outras potências globais (União Européia. Por isso. acreditando que o "nacionalismo" produz "nações" e Estados-nação em sociedades configuradas em torno da colonialidade do poder e com universos pluriculturais e também plurinacionais. a prolongação arbitrária da jornada de trabalho. Índia. Como se percebe. a resistência dos "migrantes" nos centros mesmos do Bloco Imperial Global (as lutas na França. não se trata somente de disputas entre "Estados". Mas. as tensões nesse Bloco Imperial poderiam ser ainda mais fortes. a resistência social mundial dos trabalhadores contra as tendências extremas do poder. deveria imaginar sequer que entre as crescentes perversões dos dominadores/exploradores/repressores e as lutas de resistência de suas vítimas pode ser neutro. Dados os notórios problemas do capitalismo nos EUA. mas também de conflitos no padrão mesmo de poder. BDF . em nenhum espaço dentro deste padrão de poder. deixaram de atuar. No entanto. a luta dos "indígenas" na América Latina e na Ásia. assim como os maiores déficits fiscal e comercial do mundo. talvez Brasil. . quase desmantelaram suas organizações gremiais. também estão se levantando outros horizontes históricos em direção aos quais encaminhar nossas lutas. Ninguém. os conflitos e tensões internas não podiam deixar de existir nesse Bloco Imperial Global. em relação à invasão do Iraque.Em um artigo. um Bloco Imperial Global com os EUA como seu Estado Hegemônico. foi percebido por muitos como virtualmente um único Estado todo poderoso.Três modalidades principais: 1) a precarização e a flexibilização do trabalho foram muito mais longe que nos países "centrais". cujas expressões são esses Estados. Estes seguem. que os interesses particulares. e até como o centro mesmo de um único império global. se poderia dizer que os conflitos terminaram. como a escravidão (como no Brasil e no conjunto da Bacia Amazônica). com a desintegração do "campo socialista". por isso. "Na América Latina. ou seja. por exemplo. 2) a re-primarização e a terceirização da estrutura produtiva reduziram drasticamente a população operária industrial-urbana. a maior dívida internacional mundial. na Espanha e nos EUA. como China. a servidão pessoal e a pequena produção mercantil independente.hoje superada . dos outros membros do Bloco Imperial Global. inclusive.entre os interesses dos EUA e de parte do bloco imperialista mundial. visto que ocorriam dentro de um Bloco Imperial Global. a extensão do que Marx chamou de "mais-valia absoluta" BDF . obviamente. Ninguém. inclusive nacionais. talvez. é por definição uma nação e que todo estado central é. a extensão do que Marx chamou de "mais-valia absoluta". da exarcebação da crise e de suas violências. um bloco de interesses sociais e políticos comuns. um estado-nação. e em alguns casos para realinhamentos conjuntarais de interesses possíveis nessas disputas. Se os EUA continuarem a insistir com ações unilaterais. suas crescentes dificuldades nas guerras colonial/imperialistas no Iraque e no Afeganistão. e ainda é. De nenhum modo. Rússia.

Só quanto as vítimas do controle em cada um desses âmbitos puderem ganar autonomia. em termos de aglutinação de outras nações. da dominação/discriminação/exploração/repressão no controle do sexo. porque os mercados locais são considerados pequenos.Como o senhor avalia o processo bolivariano conduzido por Hugo Chávez? Qual o potencial dessa proposta.BDF . que está empenhado em obter a retomada das suas negociações. Como o senhor avalia o esforço de construção de uma integração sócio-política na América do Sul a partir dos atuais Estados? Quijano . não pode ocorrer a não ser pelo desenvolvimento da capacidade de auto-organização de auto-governo dos povos do mundo. A derrota mundial entre meados dos anos 70 e final dos anos 80 no século XX foi. sob a hegemonia do capital. estamos de novo na resistência mundial. salvo de modo parcial e distorcido. É o caráter central mesmo desse padrão de poder. BDF .A Colonialidade não tem somente uma relação profunda com o padrão de poder hoje mundialmente dominante. as tentativas se fazem em termos de mercado. antes de tudo.org/active/12103&lang=es . O eurocentrismo é um modo de distorcer a percepção da experiência atual e histórica e como conseqüência impede resolver nossos problemas. uma conseqüência do domínio do eurocentrismo. por meio de propostas como a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba)? Quijano . esse processo tem uma inegável importância. nem o tamanho de nossas populações.Por que o senhor crê que a "colonialidade do poder" tem uma relação profunda com o atual padrão de poder? Quijano .Muito se tem escrito sobre as rivalidades e as disputas de Argentina e Brasil no Mercosul (agora. do trabalho. entre Argentina e Uruguai). Não está claro o que poderia implicar em termos da destruição do padrão de poder como tal. E isso não ocorre. capacidade aquisitiva das maiorias. em suas fase de tecnocratização e aprofundamento de suas propensões distorcivas sob o domínio de capital finaceiro novo e mais predatório. e além disso.Como o senhor avalia a posição do governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC). me parece difícil que a integração da América Latina possa avançar e se consolidar.É possível um movimento revolucionário ter sucesso na América Latina tendo uma visão eurocêntrica? Quijano . dada a limitada.Dificilmente. nem contestada. Até agora. não é tempo de nos perguntarmos por que a Suíça ou a Bélgica. que não têm os recursos de nossos países.Enquanto a maioria das populações da América não conquistarem a igualdade básica e a des/colonialidade do poder. não seria possível de outro modo. http://alainet. de negociação entre a burguesia brasileira e os grupos dominante da burguesia global. BDF . ou seja.Desde o ponto de vista da ampliação e defesa das margens de autonomia relativa dos países latinoamericanos frente ao Bloco Imperial Global e antes de tudo frente ao imperialismo dos Estados Unidos. Mas. a derrota vai ficando para trás. BDF . A associação entre o novo sistema de dominação social fundado na idéia de "raça" e de um novo sistema de exploração do trabalho. Agora. da autoridade pública e das relações com as demais espécies animais e o resto do universo. têm entretanto grandes mercados internos? Essa questão não pode ser indagada. a produção democrática de uma sociedade democrática entre iguais/heterogêneos pode avançar.Não vejo nada de surpreendente no comportamento ambíguo do atual governo brasileiro nesse cenário. em rigor decrescente. BDF . da subjetividade. Isso implica na redistribuição do acesso ao controle dos recursos de cada um de tais âmbitos. que consiste na combinação de todas as formas de exploração em uma única estrutura de produção de mercadorias para o mercado mundial. ou seja. usando sobretudo o status de liderança dos países subdesenvolvidos para convencer as outras nações da pertinência de um acordo? Quijano . Corresponde a uma linha de política de Estado estabelecida já há um bom tempo. e estamos começando a produzir outro horizonte histórico. formando em seu conjunto o capitalismo mundial. a não ser em termos da colonialidade do poder.

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