rio, são paulo, belo horizonte, salvador e curitiba | agosto a outubro de 2007

novas configurações do mundo

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entre fala e cultura? Se essa palavra “mutações” não é conclusiva. estamos diante das tecnologias. são elas que podem nos levar daqui para outro lugar. condenada ao clima de alerta máximo. Como nossas instituições serão capazes de enfrentar esse sinal dos tempos? Será que o conselho de segurança da ONU que se reuniu para tratar da questão tem algum horizonte a nos oferecer? Que mudanças virão pela frente? Que novos paradigmas socioculturais surgirão desse impasse? Como manteremos nossa diversidade ambiental e cultural nesse novo presente? Daqui para frente. A palavra “biopolítica”. elas é que nos trouxeram até aqui. ” . quando falamos em natureza. talvez porque daqui por diante estejamos cada vez mais voltados para a consideração do “bios”. estaremos nos referindo aos organismos e seres que sobreviveram a esse estágio gerado pelos humanos. Nossas inteligências foram convocadas pelo presente a uma revisão de valores e conceitos que implica a sobrevivência da espécie tal como até aqui existiu. Se luzes vermelhas estão acesas é porque o esclarecimento de gerações não pode iluminar caminhos e perspectivas de futuro. Será que resistiremos à nossa compulsiva dinâmica de consumo e inverteremos as lógicas predatórias existentes. com ou sem utopias. mas ninguém deu ouvidos à questão e agora ela se torna gritante.” é inusitado para o ciclo Cultura e Pensamento O encontro com a palavra “ mutações” . GILBERTO GIL Ministro da Cultura . Seria esse o destino secreto inscrito nas utopias tecnológicas de dominação da vida. Da nanotecnologia aos dispositivos de comunicação digital. Agora a sociedade vive o estado de emergência. Espero que as inteligências aqui reunidas dêem voz às mudanças que a vida nos cobra. seu achado provisório nos leva a crer que os intelectuais estão hoje cada vez mais voltados para o que se tornou a “vida” na atualidade. inventada por Michel Foucault. ou caminharemos para a autodestruição? Há bom tempo que ambientalistas vêm batendo nessa tecla. entre vivência e inteligência. Os alarmes disparados pelo “aquecimento global” estão inaugurando uma nova fase programática no campo político da “globalização”. tem feito muitas cabeças e confundido os campos bem estabelecidos do debate teórico e cultural. Ela provoca reflexões sobre os sentidos contemporâneos do legado civilizatório. que começou com o seminário tematizando “ O silêncio dos em Tempos de Incerteza. temos que erguer uma outra tecnologia-social e restabelecer aquilo que um dia foi o domínio do “humano”. nos sonhos de cyborgs e mutantes? Mas. Haveria na escolha de um nome que se circunscreve no campo biolóintelectuais” gico alguma conclusão à qual se chegou? Estaríamos vivendo um novo ciclo de relações estabelecidas entre linguagem e pensamento.

portanto. expressão da potência de transformação do pensamento. que nos deixam à deriva. na idéia de mutação. excitam o sensível e o inteligível. em particular se elas foram abertas. Lemos em vários autores que toda crise é excesso. racionais. materialistas. quando as trilhas são pouco visíveis ou pouco confiáveis. de idéias muitas vezes secretas. como acontece hoje. constituídas de múltiplas concepções que se rivalizam e que dão vigor dialógico às sociedades.A imagem do caos é o caos Paul Valéry a d a u t o n o v a e s As novas imagens do mundo convidam-nos a esquecer a noção de crise. . pois. algumas aparentemente absurdas. As crises são. das quais nem sempre é fácil se desfazer porque. Por isso. são elas que apontam para o novo que estava oculto pelas contradições no interior de um mesmo processo. só encontramos nelas aquilo que em nós já trazemos. como observa o poeta Paul Valéry. Mutações são passagens de um estado de coisas a outro – passagens muitas vezes indefinidas do ponto de vista conceitual. Pensemos. outras místicas.

formas de existência e visões de mundo que antes pareciam dar sentido às coisas perdem valor. Isso não quer dizer que. na qual concepções políticas. o que marca. sabe-se que são os meios da imaginação. Os mitos são as almas de nossas ações e de nossos amores. É preciso construir. que ajudam a solucionar enigmas. as hipóteses e os pretensos problemas da metafísica não povoassem de imagens e seres sem objetos nossas profundezas e nossas trevas naturais. No estágio hegemônico da técnica. mas a imaginação de si mesmo”. O estilo de vida e as concepções de mundo que hoje nos dominam são superficiais e mecânicas. como escreveu o filósofo Jean Baudrillard em um de seus últimos ensaios: revolução que corresponde “a uma perfeição automática do aparelho técnico e uma desqualificação definitiva do homem. “Pouca coisa. ou de revolução não do tipo das revoluções históricas que a precederam. Mas vejamos o vazio de pensamento com otimismo: “O que seríamos nós sem o socorro do que não existe?” – pergunta Valéry. as abstrações. que é o da potência mundial. Muitos pensadores certamente estariam de acordo com a afirmação: vivemos uma época prodigiosamente vazia. mas uma verdadeira revolução antropológica. certa resignação do saber diante do poder da ciência. tínhamos muita certeza de onde estávamos e para onde íamos. o homem perde não apenas sua liberdade. e nossos espíritos bem desocupados feneceriam se as fábulas. mas pela técnica. as crenças e os monstros. mas de certos meios de expressão desses valores. Só podemos agir movendo-nos em direção a um fantasma. enfim. Estaríamos vivendo o fim de uma idéia . crenças. fracasso do entendimento. pelo menos até agora. Ora. “incapazes que somos de dar-nos uma representação homogênea do mundo” que abarque os dados antigos e novos da experiência. novo itinerário uma vez que já não temos nenhuma garantia de retorno aos velhos roteiros e uma vez que o positivismo da técnica só nos pode indicar caminhos falsos. pois. Ou melhor. Só podemos amar o que criamos”. idéias. A este novo fenômeno pode-se dar o nome de mutação. sensibilidades. como observa Wittgenstein. Alguns pensadores falam de falência da imaginação. vemos não propriamente o desaparecimento dos valores humanos. antes. e as antigas definições são insuficientes para entendê-las. junção de sensibilidade e desejo. da qual nem ele mesmo tem consciência.não propriamente pelo trabalho do pensamento.

do saber ou da história. pergunta Baudrillard. parece objetivo perguntar-se se caminhamos em direção a uma existência que não é mais verdadeiramente humana. o que implica o “desaparecimento de qualquer sujeito. ou Le peu de réalité & le trop de raison. nos quais analisa as idéias de modernidade. . Gottfried Benn e Spengler.. progresso. é sintomática.. muito mais grave do que qualquer fracasso físico?”. em proveito de uma mecânica operacional e de uma falta de responsabilidade total do homem”. Karl Kraus. se nos dirigimos assim ao fim da humanidade. “obsolescência do homem em fase terminal. mais os aparelhos que ajudam no diagnóstico e no tratamento são eficientes. Gottfried Benn. derrota da vontade. estamos na era da capitulação do pensamento diante do seu duplo técnico. a quem seu destino escapa definitivamente (. mais se torna difícil encontrar um bom médico.) e inauguração de um mundo sem o homem (. Karl Jaspers inscreve a medicina no quadro global da tecnização e mercantilização do mundo no qual “mais o saber e o poder científicos aumentam. Jaspers conclui com um diagnóstico “sinistro”. mas quanto mais elas aumentam seu poder maior é o nosso sentimento de distância do entendimento: a velocidade das transformações é tamanha que “o olho do espírito não pode mais seguir as leis e concentrar-se em algo que se conserve” – observa Valéry. é certo – a partir de Wittgenstein. Nietzsche. Baudrillard não está sozinho neste diagnóstico: em dois livros recentes.) capitulação simbólica. alguns deles relegados ao esquecimento. nos ensaios La “conception apocalyptique du monde” ou Le pire est-il tout à fait sûr?. o filósofo Jacques Bouveresse retoma algumas análises clássicas da visão apocalíptica do mundo – nem sempre concordando com elas.. diante de um novo mundo de reprodução automática. Seria ingenuidade negar o grande avanço das pesquisas científicas. A simples retomada destes autores.. A acreditar nas suas descrições trágicas. seja do poder. declínio e fim da civilização ocidental. Em uma conferência feita durante um congresso de médicos em 1958 com o título de “A medicina na era da técnica”.de civilização. como ele mesmo diz: “Nesta situação. ou mesmo um simples médico”. e La vengence de Spengler.

Este momento de passagem pode ser. nesta fase não há mente. é o momento da insuficiência da razão. com deslocamentos conceituais ainda em formação pela filosofia e pela antropologia. trata-se da morte ou do esquecimento de tradições que tinham sido capazes de estabelecer concepções de mundo tidas como claras. ao contrário. com isso. Neste momento de incerteza. portanto. saber que decisão ele toma. ao enfraquecimento de uma racionalidade que se exercia em domínios bem definidos do saber.Mas não saberíamos responder a esta questão objetivamente recorrendo ao nosso saber. somos capazes de reconhecer apenas o caráter transitivo dos acontecimentos e. como para qualquer homem. este momento de passagem: para alguns. ao diagnosticar a “morte da civilização” européia. privilégio do observador absoluto que tudo dominava com um pensamento de sobrevôo. O que há em comum entre estes pensadores? Certamente não só as idéias de progresso e a relação da ciência e da técnica com o homem. Esta perspectiva sinistra pode ocultar a abertura de novas possibilidades de nosso ser”. Muitos vêem como virtude o esquecimento de conceitos como verdade e consciência absolutas. do fim da metafísica ou ainda a expressão de uma ontologia fragmentada ou fraca (Gianni Vatimo). As mutações de hoje são toda uma aventura que se inscreve na nossa história de maneira veloz. sedutor e perigoso ao mesmo tempo: se outros valores ganham novos meios de expressão. é certo. por que ele quer viver e agir. a questão é. Mas duas grandes tendências tentam definir hoje. para outros. mas também a dificuldade de o saber instituído explicar o mundo. por mais sagaz e instruída que seja. antecipação de categorias ainda incertas: não sabemos ainda nomear este novo estado de coisas. Como observa Paul Valéry. uma visão unitária que dava sentido às coisas. Assistimos. em linhas gerais. a primeira pergunta que nos ocorre é: vivemos a continuidade ou a descontinuidade entre o passado e o presente? É certo que tradição e antecipação são duas categorias e dois problemas que acompanham a história do pensamento. corremos o risco de nos perdermos na indefinição do que acontece. Para o médico. A tecnociência pede novos saberes. “que possa vangloriar-se de .

“O espírito de uma sociedade realiza-se. As mutações não só determinam o sentido do curso dos acontecimentos como também anunciam o declínio das formas. “na tensão. em troca. portanto. escreve MerleauPonty em seu comentário ao método de Marx. . no desgosto. “notas” escritas. Enfrentamos. à liberdade e à modernidade – La brèche entre le passé et l´avenir – . é a grande dificuldade. elas sugerem aos homens uma maneira de ser e de pensar”. Um ciclo de conferências sobre as mutações é. de início. Muito menos podemos recorrer a dualidades exacerbadas – a começar pela tentação de comparar o acontecido com o vir a acontecer. um mundo sem a antecipação de concepções políticas e ideais. na ilusão do futuro. René Char descrevia o sentimento dos escritores da Resistência francesa do pós-segunda guerra. No prefácio dos ensaios dedicados à política. no engano. transmite-se e percebe-se através dos objetos culturais que ela se dá e no meio dos quais ela vive. medir a duração provável deste período de confusão de trocas vitais da humanidade”. Ou pelo menos mundo no qual o pensamento nas ciências humanas vem a reboque das invenções tecnocientíficas. as dificuldades postas pelo próprio objeto e seu tempo: nem tudo pode ser descrito hoje em linguagem antiga e pouca coisa pode ser pensada com a ajuda de conceitos que dominaram o saber até bem pouco tempo. na cólera. O poema em prosa de Char faz parte dos textos reunidos em Furor e mistério (1938/ 1944). um irresistível convite a erros e acertos. Hannah Arendt interpreta o aforismo de Char como a perda do tesouro de ideais revolucionários que jamais se realizam completamente.dominar o mal-estar. Podemos dar também outro sentido ao poema: Char antecipa de maneira luminosa a estranheza quase imperceptível ainda hoje de uma grande mutação feita com o vazio de pensamento: pensar um mundo inteiramente novo sem que este mundo tenha deixado um testamento. na amizade e no amor”. Hannah Arendt cita o poeta francês René Char: “Notre héritage n´est précedé d´aucun testament”. isto é. no recolhimento furtivo. no medo. Suas categorias práticas sedimentam-se nela e. na emulação. como ele mesmo diz na apresentação.

. E este foi Kant. Kant qui genuit Hegel. nas ciências. Char conclui com outro aforismo: “Esta guerra se prolongará muito além dos armistícios platônicos.Lemos essas “notas” sobre a ilusão do futuro como uma das últimas resistências de um humanismo consciente de um poeta. A adoção dos conceitos políticos será dada contraditoriamente nas convulsões e sob a cobertura de uma hipocrisia segura de seus direitos. Outros preferem dar a este novo domínio do mundo o nome de revolução tecnocientífica. nos dias de calor. Ele inventou o homem voador. sobre as calçadas das cidades. por exemplo – vemos que elas foram geradas não só por revolucionárias visões de mundo na política. não sabemos dizer onde estamos e para onde vamos porque o movimento da revolução técnica escapa ao entendimento humano. Não sorria.. nas mentalidades e nos costumes etc. que sonhou com a paz universal. mergulhamos de repente em um mundo que. . nas artes.. se foi ao menos parcialmente concebido pelo homem. Nesse sentido. desejando reservar o inacessível campo livre à fantasia dos seus sóis. qui genuit Marx. mas pela ciência-poder. – mas também deram origem a outras revoluções. E este outro crânio é o de Leibniz. outros empregos que não o de ir apanhar neve no cimo dos montes para jogá-la. o poeta Paul Valéry recorre a um Hamlet intelectual para mostrar a multiplicidade de pensamentos de tendências. “discreto nas virtudes.. qui genuit. Afaste o ceticismo e a resignação e prepare sua alma mortal para afrontar intramuros demônios gelados análogos aos gênios microbianos”. certamente não é regido por ele. crânios ilustres que meditam sobre a vida e a morte das verdades: “Esse foi Leonardo . em nossos dias. e decidido a pagar o preço por isso”. mas o homem voador não tem servido precisamente às intenções de seu inventor: sabemos que o homem voador montado em seu grande cisne (il grande uccello sopra del dosso del suo magnio cecero) tem.”. É essa a peculiaridade desta mutação: se tomarmos como referência as que a precederam – o Renascimento e o Iluminismo. Assim. Pela primeira vez na história.

isto é. antes. a aliança da metafísica com a ciência e a técnica. Bouveresse conclui que. Criando o tempo passado e futuro. é. o problema da técnica não seria minimamente abordado se não fosse pensado do ponto de vista da história da metafísica. mas apenas do destino do Ser. . herança sem testamento. uma vez que a técnica não é senão. o homem foge do presente eterno. na medida em que ele se afasta cada vez mais em relação à maneira de manifestar-se entre os Gregos – até que o Ser torne-se uma simples objetividade para a ciência e hoje um simples fundo de reserva para o domínio técnico do mundo”. O filósofo Jacques Bouveresse afirma que Heidegger foi mais incisivo ao afirmar que. a negação desses dois tempos.A partir do que acontece hoje. segundo expressão do próprio Heidegger. de alguma maneira. “que não podem ser separadas. o que acontece hoje não é apesar das invenções anteriores. mas graças a elas. ao mesmo tempo. da questão do ser e do “esquecimento do ser”. Ele não apenas constrói “perspectivas aquém e além dos intervalos de reação como faz muito mais que isso: vive muito pouco apenas o próprio instante”. Na hoje clássica entrevista a Richard Wisser. entendemos melhor o que Valéry queria dizer quando escreveu “nós. como se faz habitualmente. Ela seria um prolongamento técnico de outros pensamentos. Assim. Pode-se perguntar: o que gerou a revolução tecnocientífica? É certo que ela não nasceu do nada. para Heidegger. se existe uma aliança que pode ser fatal para a humanidade. A civilização tecnocientífica é. civilizações. Em síntese. O império da tecnociência não seria um acidente da civilização ocidental. a metafísica acabada e realizada”. “entramos no futuro de costas”. mas sua própria essência. Heidegger diz: “Não falo de uma história decadência. a invenção do passado e do futuro. percebemos mais facilmente que o homem moderno estava afastando-se da cultura ao abandonar uma das mais “extraordinárias invenções da humanidade”. sabemos hoje que somos mortais” e. e uma das hipóteses é que tal revolução técnica pode bem ser o destino de iniciativas humanas acumuladas no curso dos séculos.

O projeto da modernidade repousa. fatos postos hoje pelo desenvolvimento técnico. A modernidade teve a audácia. ao fim e ao cabo. querido ou levado em consideração. afirma ele. como nós o vemos com um mal-estar crescente. pois – e isso jamais é dito claramente – sobre a utopia cinética: a totalidade do movimento do mundo deve tornar-se a realização do projeto que temos para ele. Ou então podemos optar pelo paradoxo: não sabermos o que nos acontece porque velhos conceitos jamais conseguem esclarecer os novos fatos. a utopia cinética acaba por escapar ao controle do homem: “Inevitavelmente. do coração do empreendimento chamado modernidade. Progressivamente. . como uma segunda phisis. uma vez que. atingem os projetos controlados. Peter Sloterdijk atribui as mutações a uma ação fundamental da modernidade que é o poder-agir. podemos concluir que esta é uma das razões pelas quais recorremos sempre a velhos conceitos quando buscamos respostas para novos fatos. porque fazendo vir ao pensamento e provocando aquilo que deve acontecer. põe-se ao mesmo tempo em movimento algo que não fora pensado. Mas. Somos rodeados por uma epinatureza feita de sucessões de ações. O que tinha ares de ser um ponto de partida controlado em direção à liberdade anuncia-se ser um deslize em uma heteromobilidade catastrófica e incontrolável”.Se levarmos as idéias de Heidegger às últimas conseqüências. que escapa à nossa prática ‘que faz história’. em essência. os movimentos de nossa própria vida identificamse com o movimento do mundo”. As sucessões automáticas do processo moderno do mundo. da consciência de uma auto-atividade espontânea e conduzida pela razão. tudo se passa de outra maneira. de proclamar a organização do mundo apenas através da ação: “O caráter projetivo desta nova era resulta da suposição grandiosa segundo a qual se poderia logo fazer evoluir o curso do mundo de tal maneira que apenas se moverá o que gostaríamos de racionalmente manter em movimento por nossas próprias atividades. surge um fatal movimento estranho que nos escapa em todas as direções. Este algo se move então inteiramente sozinho com um entêtement perigoso. tudo tem a mesma origem.

Ela corresponde – diz Heidegger em uma entrevista a Spiegel – “a uma exigência mais potente que qualquer . é a natureza mesma do movimento que faz história: “Quem se move. em 1935. Sloterdijk segue aqui as idéias de Heidegger para quem a técnica. ao provocar. na essência. as intenções iniciais não têm mais importância”.cristianismo. Ele cita o “jovem conservador” Otto Petras que. este movimento que marcou a história e que foi o mais poderoso formador de nosso planeta. Quem faz história. tentativa de definir as coisas a partir das propriedades intrínsecas. de todas as outras leis”. segundo Sloterdijk é que a modernidade. pois.. em todos os pontos. resumiu assim este estado de coisas: “ . move sempre mais que a si mesmo apenas. esgotou sua força criadora e vivemos a era do post Christum em um sentido mais profundo do que o calendário”. coisas são postas em marcha sem que isso tivesse sido planejado. como a assustadora autonomia da técnica. isto é. Isso antes que o hemisfério oriental se modernize através das técnicas ocidentais de mobilização. a boa mobilidade. Como saída para o Ocidente. é algo que o homem não pode controlar. abandonada a si mesma esgotou suas reservas morais e “não é mais capaz de liberar. Isso equivale a uma visão cosmogônica.as coisas andam como elas querem. faz sempre mais que apenas história”. a segunda conseqüência. pela ação ilimitada. contraforças para barrar sua deriva fatal. Como observa ainda Sloterdijk. a partir de si mesma. o movimento da história. Sloterdijk aponta certa tendência de uma “fração sensível” de intelectuais que se volta para a civilização oriental – ou pelo menos para alguns fundamentos originários desta civilização comuns entre as correntes de pensamento da antiga Ásia que compreendem o sentido do ser como “ser-em-direção-à-quietude-no-movimento”. Seria este o destino da modernidade? Isto é. Destaquemos apenas duas delas: estamos em plena era pós-cristã que não conta mais com os conceitos greco-judaico-cristãos para se compreender... Mais: duvidamos que elas possam ser retomadas pela ação humana para serem conduzidas a caminhos não-fatais – afirma ele.. O descontrole pode ser traduzido. visão que nos aproxima da proposição de Edgar Allan Poe no capítulo oitavo de Eureca: “Cada lei da natureza depende.Sloterdijk aponta quatro conseqüências decorrentes das mutações.

estamos em poder dela. tudo aquilo que Valéry chama de “Coisas vagas”: “Se uma sociedade . “como se. fatos científicos. conduz à era dos fatos. as artes. feita no vazio de pensamentos novos. sem nos darmos conta. Ou.. portanto.determinação de fins pelo homem. com o seu cortejo: o pensamento. a ordem das ficções. o trabalho “paciente e difícil do espírito”. conclui Jacques Bouveresse em comentário às reflexões de Heidegger. Uma exigência que se situa além do homem. Por fim.”. que passam a dominar toda a vida social e política. não é um processo que podemos submeter a restrições e exigências vindas de fora: “. uma vez que as coisas se apresentam como velozes. É este novo sujeito que é preciso entender. entendendo por ficções o trabalho do espírito – essa “potência de transformação”. como escreve Valéry. mas também o sujeito para os objetos. na prática. tendo inventado alguma substância. somos nós que. de outro dispensam e dispersam nossa atenção e. repondo o velho axioma de Marx: o capital cria não apenas objetos para o sujeito. o loisir de mûrir como diz o poeta. com tudo o que nos é dado. a revolução tecnocientífica. em outras palavras. segundo suas propriedades... A técnica não está em nosso poder.. Mais: criações acumuladas.. com necessidades inéditas e desnecessárias. elas são artefatos mecânicos que. Acreditar no contrário é ser vítima de um preconceito e de uma ilusão antropológica”. a doença que ela cura. abolindo. A técnica. é inicialmente uma exigência ilimitada e incondicional à qual estamos submetidos. a metafísica. as teorias. resultado do trabalho do nosso próprio espírito. voláteis e principalmente mecânicas. de seus projetos e atividades”. Seja na versão do “esquecimento do ser” de Heidegger ou na “mobilização infinita” de Sloterdijk. Estas observações nos põem diante de outro paradoxo: a velocidade das mutações e o acúmulo desmesurado das novas criações – que também são o resultado do trabalho do pensamento retiram do pensamento o tempo necessário à reflexão. acabamos por nos acostumar. se de um lado são fáceis de serem manipulados. se inventasse também.. preguiçosamente.

em contrapartida. sobre “Coisas vagas” que repousa toda civilização: “o mundo transcendente. dizia que os deuses foram inventados para punir os crimes secretos”. suporta. que foi um homem profundo. rigoroso que faz figura de “inimigo principal da civilização”. triunfos definitivos da organização que corresponde ao advento do Estadoformigueiro: “Reina ainda certa confusão – escreve Valéry –. É dele a idéia de saber como poder. portanto.. ainda mais um pouco de tempo e tudo será esclarecido e veremos. Isto é. tudo o que podemos. Ele conclui com um exemplo irônico: “Um tirano de Atenas. É. para Valéry. enfim. as idéias de ciência-poder e de “mobilização total” (acrescentemos também a “mobilização infinita” de Sloterdijk) são vistas por Valéry como os maiores perigos. uma idéia de progresso que está tão intimamente ligada à . é o espírito livre. acabou por opor-se ao que somos”. toda sociedade que se constrói sobre o fato é bárbara. isto é. um perfeito e definitivo formigueiro”. Mas isso só foi possível a partir do momento em que a ciência transformou-se em “vontade de potência”. Muitos comentadores tendem a uma nova leitura de O declínio da civilização do filósofo alemão Spengler. não existindo. puro. pois. pirâmides e catedrais”. A ordem exige. surgir uma sociedade animal. Valéry remetenos à grande questão da atualidade. entretanto. As inquietações suscitadas no homem hoje pelas transformações espetaculares dos progressos da ciência e da técnica impostos ao universo natural e ao mundo humano podem ser resumidas neste axioma de Valéry: “Pode-se dizer que tudo o que sabemos. vinculada ao sentido de progresso que a civilização ocidental tanto cultiva. a ação de presença de coisas ausentes”. a ciência-poder opõese hoje ao humano. Ao tratar de um mundo dominado pelos fatos científicos. sociedade da desordem. mas. Forças fictícias são necessárias. saber e poder tornam-se uma única coisa.tivesse eliminado tudo o que é vago ou irracional para entregar-se ao mensurável e ao verificável.. que é a distinção que ele faz entre ciência-saber e ciência-poder. Isso porque. ela poderia sobreviver?” – pergunta Valéry. uma vez que “não existe potência capaz de fundar a ordem através apenas do interdito dos corpos sobre os corpos. No plano da organização social.

a política. Seria correto postular uma nova metafísica – isto é. novas harmonias e novas abstrações – fundada em novas experiências? Indicar à vida confusa dos fatos caminhos em direção a certa ordem? Buscar naquilo que é excessivamente visível e grosseiramente turbulento uma aparência oculta nova? Em síntese. nossa pulsão de conhecimento é muito forte para que sejamos capazes de apreciar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e sólida ilusão. onde a própria física adquiriu conteúdo metafísico. vida real e pensamento. Bouveresse cita ainda Nietzsche: “. Observação final: se vivemos a era do esquecimento das Coisas vagas – isto é. – e se é correto dizer que estamos em uma fase de mutação obscura e confusa. Desejamos para ela um fim no fogo e na luz ou na areia?”. o logos. “catedrais” construídas virtualmente que desaparecem de maneira veloz no momento seguinte? . podemos concluir que isso decorre da não diferenciação entre espírito e realidade. as idéias. hoje como ontem – escreveu Bouveresse –. Se a humanidade não morre de uma paixão.. a ordem. “não perceber como intrinsecamente reacionária toda iniciativa intelectual que tente contestar radicalmente ou simplesmente relativizar seriamente o interesse de um acréscimo ilimitado do conhecimento”. como nos diz Valéry. hoje. isto é.de progresso do conhecimento que é extremamente difícil. O simples fato de imaginar estados desse gênero leva-nos ao suplício.. Esta ambivalência em relação à idéia de progresso ilimitado é inevitável e é assim sintetizada por Spengler: “Somos a primeira civilização que está em condições de saber com certeza o que a espera. então ela morrerá de uma fraqueza. e não há outra escolha entre desejar o que nos vai acontecer inapelavelmente ou nada querer”. que não vejamos na ausência de respostas imediatas apenas um nada ou o refúgio ao niilismo.. a substância. Estas novas evidências nos legam novas questões: se as Coisas vagas ganharam expressão e forma nas construções de pedra. Para tanto. o que preferir? Eis a questão. a estética.. que forma “imortal” adquire o que.. os fundamentos. saiamos do domínio da tecnociência e retomemos o caminho do pensamento em direção ao campo próprio da razão. catedrais e monumentos.. o espírito. além de mortal é também virtual.

j o s é m i g u e l w i s n i k .

um correspondente da especificidade puramente simbólica do humano [O Filho]. O Filho. que se guarda nos animismos. O Pai. do exercício do pensamento crítico. e numa herança primária de fundo. Em outros termos. está em curso em toda a sua tragicidade. sem vinculação com descendências carnais.Se o estado de mutação deflagra a não-correspondência escancarada entre categorias de pensamento vigentes e o estado atual de coisas. espera-se.1 Tento uma paráfrase livre e super-sintética. Na construção de uma Nova Psicanálise. dissipada pela banalização midiático-mercadológica. mas numa arreligião do originário puro (o Haver com’Um e sua fractalidade). está em Fernando Pessoa. ao sebastianismo português e remonta ao sonho bíblico de Nabucodonosor]. é recoberto pela invenção do monoteísmo judaico [O Pai]. ao custo da lapidação das mulheres. trata-se do desafio a uma humanidade não apoiada sobre a trindade familiar Mãe. em que o humano tem que se haver com a loucura fundamental da espécie e com o originário puro que pivoteia entre haver/não-haver (haver desejo de nãohaver. no seu lastro tectônico e esfingético. que se pretende um terceiro passo além de Freud e Lacan. [Pudores bem pensantes serão abandonados ao longo da empreitada. Pai e Filho. tracionada pelos fundamentalismos religiosos. primárias. proponho uma visita a casos de pensamento heterodoxo. que se inscreve no corpo. remete ao profetismo de Antonio Vieira. O vínculo com a mãe/mater/matéria [A Mãe]. no entanto. na intenção de testá-los como pensamento constituído sobre a mutação – heterodoxos na própria medida em que o princípio de mutação lhes é inerente. sem cópula com a Mãe. É no passo seguinte que se coloca a vicissitude da mutação contemporânea: o processo da modernidade pressiona por uma passagem inédita do secundário ao originário [O Espirito]. MDMagno postula a teoria d’Os Cinco Impérios [o tema do Quinto Império. tomado aqui como mote. elevada ao limite do psicologicamente insuportável etc.] 1. que. fazendo do filho direto do Pai. Os Cinco Impérios são A Mãe. que também estará passando por sua prova. um Deus masculino sob o qual o reconhecimento do vínculo primário com a mãe só se faz pela intervenção simbólica do Pai.2 Nada garante a consumação dessa passagem. sem prejuízo. que não há) [Amém]. O Espírito e Amém. . esse vínculo secundário ganha autonomia em relação ao primário na figura do Filho criado ex-nihilo. Na versão de MDMagno. Num terceiro passo. que projeta para o céu.

Laymert Garcia dos Santos (comentando Deleuze/Foucault)4 observa o horizonte contemporâneo de um lançar-se além do par Deus/homem que não se regula mais pela elevação ao infinito (como nos séculos 17 e 18). Em termos filosóficos. No paradigma religioso. Por outro. dialética e dupla diferença [I/D/D]. esvaziando as lógicas identitárias (esvaziamento frente aos quais os fundamentalismos são uma reação e uma revanche). 3. definidora do humano. D e I/D são lógicas dominadas. Luiz Sérgio Coelho de Sampaio postula um esquema simples nos seus elementos constitutivos e complexo nos desdobramentos. Por um lado. nem à finitude . que basicamente são duas – a da identidade [I] e a da diferença [D] – das quais derivam a lógica dialética [I/D] e a lógica clássica ou da dupla diferença [D/D].3 As culturas não operam sem lógicas subjacentes. se o cogito e a lógica fenomenológica partem de I. Em texto recente sobre a propriedade intelectual. o Primeiro Império [A Mãe] é o da Diferença perante o Segundo [O Pai].2. é ao mesmo tempo identidade e diferença. e a redução tecnológica de todos os processos à sua digitalização e redução à distinção mínima 0/1 é obra de D/D. que é o da Identidade. o inconsciente. mutante. o lapso remetem a D. a do politeísmo da diferença [D]. sendo o quarto novamente o problema. Nesse caso. mas que acaba incidindo diretamente sobre a questão da mutação. associadas. a do cristianismo é a da dialética e das vicissitudes do sujeito dividido [I/D]. É tentador relacionar as lógicas de Sampaio com os Impérios de MDMagno. instrumentalizando o desejo D a seu favor. diacrítica. que subsumiria todas as outras. como a própria capacidade de linguagem. ele suscita a passagem a uma lógica “quinquitária”. são as lógicas dominantes do mundo da empresa e da tecnociência. uma construção antropológica e uma filosofia da história”. o significante. e que. no qual Sérgio Paulo Rouanet identificou “um substrato lógico. do terceiro excluído [D/D] (a dimensão religiosa está ausente desta. (I e D/D. a dialética a I/D. com a omissão do traço identitário e a potencialização diferencial da diferença). nesse contexto). ele é a realização da lógica clássica nas suas conseqüências de domínio tecnocientífico de todas as esferas [D/D]. a lógica do monoteísmo é a da identidade [I]. o Terceiro [O Filho] o da a dialética. e a da ciência moderna é a lógica relacional.

2002. 4 Laymert Garcia dos Santos. nas contingências históricas. UniverCidade de Deus (publicação provisória). que impede a realização das potencialidades que ela mesma desencadeia. Imago. entre a afirmação de uma lógica tecnocientífica generalizada e acoplada aos interesses de megaempresas [I + D/D]. em que biologia. 160-162. que inclui as demais e as transforma – exposta. 3 Rouanet. Que se descubra o código genético como regido ainda pelo princípio do “finito ilimitado” (quatro elementos químicos regendo toda a cadeia do código). pois. Editora UFSM. cit. A lógica da diferença. Velut Luna: a clínica geral da nova psicanálise. 8 e 9 de Março de 2007. Dominar esse dominó indominável passa a ser uma disputa feroz do imaginário (a suposta obtenção da chavemestra do segredo humano) inseparável do poder real que ele representa como domínio de todas as esferas pelo capital. Filosofia da cultura – Brasil: luxo ou originalidade. São Paulo. culminando na digitalização. Rio. A interpretação do sonho de Freud. p. que a invenção da escrita alfabética é a decodificação do DNA dessa linguagem. o mesmo princípio que rege a linguagem e as máquinas digitais. A questão se coloca. 2000. Rio. e o salto para uma lógica integradora mais complexa [I/D/D]. 1 Baseio-me na série de seminários de MDMagno. são uma potencialização extrema desse mesmo princípio. .. 1993. em Luiz Sergio Coelho de Sampaio. mas que instaura um “finito ilimitado – se assim denominarmos toda situação de força na qual um número finito de componentes produz uma diversidade praticamente ilimitada de combinações”.(como no 19). É estimulante pensar. Rio de Janeiro. Editora Ágora da Ilha. nos coloca no cerne da questão da mutação. UERJ. no entanto. 1995 e no livro de Maria Luiza Furtado Kahl. Mesa “The effects of intellectual property on cultural creation and diffusion” / “Intellectual Property: Tensions between the Logic of Capital and Social and Developmental Demands” – IEEIBR. Santa Maria. no entanto. 2001. op. e que as técnicas de reprodução. em especial Pedagogia freudiana. trabalho e linguagem participam do mesmo processo em que a sua curvatura avança em direção ao originário. 2 Kahl. à mesma fragilidade com que se montam os estágios mais altos de um castelo de cartas. Rio. “Paradoxos da Propriedade Intelectual” . Baseio-me também em Sampaio. que esse “finito ilimitado” é o próprio princípio que funda a existência da linguagem verbal (combinação ilimitada de um número restrito de unidades distintivas).

pois o que essa revolução sem paralelo ainda reproduz continua sendo capital e toda sua coorte.f r a n c i s c o d e o l i v e i r a Por qualquer ângulo que se observe. que sustenta. . para nossos próprios fins. o essencial e insubstituível ainda que ínfimo trabalho vivo do software de Bill Gates. na tecnologia como uma força produtiva. Eis o nosso problema. e paradoxalmente é essa soma de trabalhos vivos parciais. De fato. surpreendentemente amplificada de miséria e desigualdade. Há. com a diferença talvez de que seu rosto é que resultou imprevisível. qual é a contribuição do trabalho vivo para um software saído dos laboratórios da Microsoft? E no entanto. Mas ainda não estamos no terreno de uma total mutação. o conjunto dos trabalhos vivos em escala planetária foi redefinido a partir daquela ínfima participação. O acento de uma mudança desse porte. extraiu-lhe as conseqüências mais radicais exatamente no campo do trabalho. que já não têm o condão de determinar os rumos e ritmos da acumulação de capital. há poucas dúvidas de que nossa época é uma daquelas curvas em que a história dobra e muda de rumo. Marx apontou esse caminho e sobretudo. e no entanto o redefine completamente. isto é. é posto prioritariamente na explosiva combinação da ciência e processos produtivos. e com ele toda a trama das relações sociais e da sociabilidade. Melhor dizendo: os processos cumulativos explicam quase inteiramente nossa época. muito de um processo cumulativo que faz com que essa “curva” não seja inteiramente um “raio num dia de céu azul”. certamente. freqüentemente classificado no rol das mutações biológicas ou genéticas. eis o enigma. lá na ponta. Aqui é que a intensificação da acumulação produz uma verdadeira mutação: o trabalho produtivo como consumo do trabalho vivo reduz-se a ínfimas porcentagens do produto total.

em “Aceleração. Como escreve o sociólogo: “A escola da aceleração-para-a-Singularidade. o sociólogo Hermínio Martins observa que a “elite de digerati” preconiza uma mutação inédita. o essencial da visão trans-humanista. no mínimo a perspectivação do sucessor legítimo do homo sapiens como sumidade . e de toda a História..”1 Ora. porém mais que um significado histórico-mundial.) e do cérebro. um salto para um novo modo de existência. do aceleracionismo escatológico (alguns deles chamam-se a si próprios Singularitarians) pelo menos dá um sentido de transcendência potencial e uma direção privilegiada bem definida para os processos tecnoeconômicos em curso. progresso e experimentum humanum”. para designar uma mutação absolutamente extraordinária. um sentido ainda mais profundo. mais tarde cientistas. “Hoje. “que se poderia denominar ontológica (ou des-ontológica)”. para um futuro pós-humano.l a y m e r t g a r c i a d o s s a n t o s Avaliando. da mente (. expresso pelo termo “Singularidade”. No entanto. pós-biológico. escreve o sociólogo. entusiastas da tecnociência e autores de ficção científica dele se apropriaram para nomear a passagem para o pós-humano ou transhumano. o projeto transhumanista está essencialmente vinculado aos avanços da tecnologia computacional do ponto de vista prático. em que consiste essa aceleração para a Singularidade? J. ontúrgico e cosmogônico.. à extensão das ciências ciberneticizadas da vida. os estudos que vêm sendo realizados sobre a temática da aceleração na civilização tecnológica. Von Neumann teria cunhado o termo “Singularidade” nos anos 50. e à permeação do nosso modo de pensar por uma metafísica informacionista do ponto de vista teorético. uma viragem para uma nova civilização.

e em particular para tornar os humanos mais aptos para as viagens espaciais. centrando-se na mente e no indivíduo. que poderia ter definido também uma época.”3 Como bem observa Martins.cognitiva. ou pelo menos do seu epitáfio e do seu testamento. mas já será tarde demais para isso. the flesh and the devil – Three enemies of the rational soul. foi formulado antes do grande surto das máquinas inteligentes depois de 1945. nem . Há muita discussão sobre o caráter utópico ou realista dessa empreitada que mais parece literatura de ficção científica. e mesmo sem a antecipação clara desta linhagem tecnológica. De todo modo. por uma série de transformações endosomáticas ou endopsíquicas. The world.”4 A Questão do Homem. no entender de Martins. seria a Questão do Homem. como diria um autor coevo. de um projeto de superação dos limites do humano com vistas a realizar a “Tarefa Comum”. das nossas ‘formas de intuição sensorial’. da antropodicéia. entendida como a maximização do conhecimento tecnocientífico como fim último e exclusivo. o biólogo neokantiano J. entendidos sob a ótica das tecnologias da informação. Uexkül. todavia. da apologia do humano. cujo veículo seria um ente pós-biótico. e chovem argumentos dos dois lados. Mas se a intenção foi mantida e alimentada ao longo de todo o século XX. o foco.”2 É que Martins identifica no ensaio de John D. Hoje a ênfase deslocou-se das viagens espaciais e do cosmos para os microcosmos. publicado em 1929.” “A motivação essencial parece ter sido a necessidade de pensar a melhor maneira de superar os limites do progresso do conhecimento científico que decorrem das nossas características contingentes de meros primatas inteligentes. realizado através de uma auto-evolução. está colocada a “Grande Questão”: “A nova Questão. não vem a ser propriamente a elaboração de uma nova resposta para a pergunta “O que é o Homem?”. aproveitando a tecnociência disponível a cada momento. portanto. tratava-se.V. a matriz do pensamento da Singularidade: “a perspectiva era da constituição de que se poderiam chamar hoje ciborgs epistêmicos. É por aí que se acredita ser possível operar a Singularidade. no caso. Bernal. da nossa Umwelt e Wirkwelt. mudou.

Jürgen Habermas (Die Zukunft der menschlichen Natur – O futuro da natureza humana). Por isso. 1 MARTINS. in Martins.). H. seja uma intervenção dos governos seja uma mobilização da sociedade civil. especialmente no projecto tecnocibernético trans-humanista. 3 Idem.p. Minha intervenção procurará privilegiar a confrontação do pensamento de Martins e de autores da Singularidade. Parte das manifestações favoráveis ao estabelecimento de limites ao progresso da engenharia genética vem de autores humanistas que a rejeitam pura e simplesmente. com as perspectivas de Francis Fukuyama (Our post-human future). 36. ser tolerado. Porém.”. poderíamos dizer que surgiu o projecto do “Experimento-sobre-oHomem”. 2003..) Dilemas da civilização tecnológica. p. sobre o seu próprio ser ou natureza (. na medida em que este pressupõe a superação do humano e a desconstrução da natureza humana. muitas vezes retóricas. isto é. 29.L. e Garcia.” Para muitos críticos. tendo em vista sua obstinação em ignorar o terreno. “Aceleração. 7. cit. Peter Sloterdjik (Regeln für den Menschenpark – Regras para o parque humano) e Slavoj Zizek (Organs without bodies). conduzindo à abertura de uma segunda linha de evolução da espécie.. ou não. 4 “Aceleração. progresso e experimentum humanum”. 2 Idem. não me parece interessante tentar problematizá-las porque elas soam irrealistas e. como Vernor Vinge e Ray Kurzveil. 29. (org. op. Lisboa: Imprensa das Ciências Sociais.. que ocupa enfim um lugar cada vez mais saliente na agenda tecnológica.mesmo a tentativa de se considerar o Homem-como-Experimento. o problema político da genética exige a discussão e o estabelecimento de limites que impeçam o advento do Experimento. p.. nos últimos anos tem crescido nos países do capitalismo avançado o coro dos que alimentam o debate visando. p. . de certo modo. como ser lançado numa grande aventura: “Mais propriamente. pelo Homem. J. em favor de uma regulação do que pode e deve. as condições e as forças que tornam o Experimento factível. H.

quando escrevia: “O caráter aberto das ciências contemporâneas da natureza nos permite supor que. Neste estágio. seria pôr em prática as técnicas que ele aprendeu a dominar para projetar-se num futuro pós-humano. a máquina e o computador. . mais ou menos fantasmagóricas. Inclui também o discurso segundo o qual a única possibilidade do homem escapar de sua incompletude. quer se trate de clonagem.* conferência em francês com tradução simultânea A x e l K h a n * O anti-humanismo moderno não somente se funda na rejeição do antropocentrismo e na contestação do especismo. em todo caso. de aperfeiçoamento genético germinal ou da criação do cyborg híbrido entre o homem. os incondicionalmente favoráveis e os detratores do Progresso rivalizam em imaginação e em previsões que aparecem. Francis Fukuyama anunciava tal coisa em 1999. a biotecnologia nos dará os instrumentos que permitirão finalizar o que os especialistas de engenharia social não conseguiram fazer. daqui a duas gerações. de sua natureza animal. Tal seria a condição para que possa usufruir de uma verdadeira dignidade. teremos definitivamente terminado com a história humana porque teremos abolido os seres humanos enquanto tais”1. A atualidade é rica hoje de evocações de tentativas mais ou menos reais. segundo o campo em que se agrupam seus autores. e. Neste campo. de aspirações de alguns de aí chegar através de meios diferentes.

são as seguintes: para uns. Dominique.luminosos ou baços2. Em resumo. Lá — e apenas lá. entretanto. . 17 de julho de 1999. Graças ao saber cumulativo do gênio humano. Elas constituem as condições do surgimento das origens de nossa espécie. a importância da produção literária. É graças a tais qualidades da natureza que o homem soube criar este mundo de cultura e de conhecimentos. de comentários e debates dedicados às perspectivas alegadas testemunham a consistência. Para outros. ao menos psicológica e social. a animalidade do homem (ver a ‘humanidade’ de certos animais) não justifica esta pretensão a um direito exclusivo dos seres de nossa espécie à dignidade. nem por ela nem por nós. ao contato do qual se forja a personalidade de cada um. 2003. que animalidade. post-humain. fundando a evidência de um pensamento humano renovado. Em contrapartida. Le Monde. 1 FUKUYAMA. plenamente conscientes das razões psicológicas de todas as nossas ações. assimetria entre um ser responsável pelas conseqüências do exercício de seu poder sobre um mundo de natureza que em nada é responsável. nem no cume do mundo dos vivos. Paris. 2 LECOURT. esta reivindicação só se tornaria legítima se o homem chegasse a superar-se pela aplicação de seus próprios artifícios científicos e técnicos. e com as quais será necessário ainda contar para que possamos nos engajar sempre mais distante no futuro. Penso. Ainda que estejamos aqui cheios de delírio. nem mesmo. diz ans après. conseqüentemente — qualquer que seja. nem no centro do Universo. e. as duas raízes do anti-humanismo moderno. sem dúvida sensíveis a esta argumentação. Humain. Francis. sabemos que não estamos fora da natureza. de tais aspirações ou repulsas. PUF. o caráter às vezes ilusório desta reivindicação — de nos sabermos responsáveis por nossas ações. mas isto muda tudo — encontra-se esta assimetria de situação. opostas mas convergentes. humanidade e superação de si ou sobrehumanidade são facetas indissociáveis da natureza humana. de fato. a evolução biológica dotou-nos desta duvidosa propriedade de nos reivindicarmos livres. desde Freud. La fin de l’Histoire.

O caráter abrupto das mudanças. sentimos que tudo . tudo isso aparece como um testemunho tardio de que o tempo. o paradoxo dos pequenos intervalos vividos como longas distâncias. em que a experiência da sucessão é marcada mais pelas rupturas do que pela continuidade. aquela em que o devir se mostra – nas palavras de Foucault – como um “declive suave”. Por outro lado. a rapidez das superações que ocorrem por via do esquecimento. é distensão subjetiva e não o transcurso das coisas. Vivemos aquilo que se tem designado como a aceleração do tempo histórico. ao experimentar essa velocidade. como dizia Agostinho.f r a n k l i n l e o p o l d o e s i l v a Os futuros historiadores da nossa contemporaneidade provavelmente terão que renunciar a fazer uma história de longa duração.

A conseqüência dessa perda do horizonte das mutações é um certo empobrecimento existencial e histórico que nos faz viver o efêmero como o descartável e a facilidade com que transitamos entre essas duas significações implica a banalização da experiência. mas também daquilo que a história vem fazendo de nós. apreciamos a extensão e o alcance das mudanças. recuamos perplexos diante da intensidade com que deveríamos vivê-las. E aí estaria a raiz do drama contemporâneo enquanto tensão entre um sujeito exacerbadamente ativo e ao mesmo tempo inteiramente passivo quanto à recepção do resultado de suas ações. Assim. e que mal podemos compreender ou controlar. . do que pelo acúmulo do que nos é trazido pelas transformações. Há que se observar ainda um paradoxo decorrente de que o acúmulo das mutações e a multiplicidade dos conteúdos da experiência temporal não a torna mais densa e sim. Assim. pela impossibilidade de que essa experiência se dê rente ao tempo real. o sujeito é agente de uma história que. Por um lado. Tudo se passa como se a quantidade das mutações nos impedisse de experimentar a qualidade de um tempo vivido como transformação. Em outras palavras. parece que ele nos escapa. o fenômeno que Husserl chamou de “consciência íntima do tempo” manifesta-se também como estranhamento já que. Elas provêm da história que fazemos. Daí deriva a ambigüidade que afeta o significado das mutações. lhe escapa. no próprio ato de representar o tempo. O que se reflete na dificuldade de se apreender o significado do devir histórico: por que mudamos e para onde nos levam tantas mudanças. de modo que o sujeito pudesse vivê-lo plenamente. a compreensão do tempo histórico fica como que suspensa numa hesitação entre a pretensão subjetiva de dominar o tempo através da liberdade de vivê-lo e a necessidade que nos arrasta num fluxo de mutações mais rápido do que o ritmo de nossa experiência da temporalidade. por se revelar num fluxo acelerado de mutações. pelo contrário mais fluida. frustra suas intenções e o destitui de sua autonomia. por outro lado. que nos revelariam o “progresso”.depende dos acontecimentos que se dão na dimensão objetiva de uma rede de determinações históricas que dominamos cada vez menos. Como não apreendemos inteiramente o significado do devir histórico. resignamo-nos a tomar esse fluxo acelerado como um fim em si mesmo. menos pela sucessão do que perdemos devido ao caráter efêmero das coisas.

o s w a l d o g i a c o i a j ú n i o r .

há também um lado positivo e afirmativo em sua filosofia. com sua reflexão sobre o niilismo. sugiro que o pensamento de Nietzsche é. Com a morte de Deus. Um dia. nesse sentido. proveram uma perspectiva de sentido para a existência e para a história humana. Com tudo isso. otimismo que anima a crença na onipotência da razão. e. se contraposto à de seus ataques arrasadores contra todos os bastiões que protegem as principais esferas da cultura. santificado. para ele. Sou dinamite. a derrocada. em seu estrato mais fundamental. meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo – de uma crise como jamais houve sobre a Terra. Eu não sou um homem.o mestre supremo do logos científico. esta. requerido. que assentaram os trilhos para a marcha da história universal. de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado. “Quem alguma vez tornou visível para si como depois de Sócrates. o curso da história se desvela. Assim. o . a partir de duas mutações epocais. dá lugar ao processo de decadência cultural que culmina na modernidade. Nietzsche anuncia a mais radical e profunda crise da razão na modernidade e. da religião à política. ao fazê-lo. guiada pelo fio condutor da causalidade. da mais profunda colisão de consciências. a perda de sentido e contingência por parte dos supremos valores que até agora determinaram o curso do processo civilizatório no Ocidente. que sempre empalidece. uma grande mutação dá origem à cultura científica do Ocidente e se reflete na figura de Sócrates .e não somente solucioná-los. o esgotamento. colocar-se-ia na condição de decifrar todos os enigmas do universo .a perempção da cultura trágica na antigüidade grega. mas também de corrigi-los. Uma primeira mutação ocorre na antiguidade clássica e dá início a um longo e ainda em curso processo de decadência .Nietzsche é conhecido sobretudo pelo ímpeto disruptivo de sua crítica: “Conheço a minha sina. uma filosofia da mutação. como o signo maior do otimismo ínsito à essência da lógica e da dialética. Esse ocaso pode ser simbolizado na figura de Sócrates.” 1 Contudo. da educação à estética. E. da moral à economia. justamente porque é capaz de pensar a catástrofe até suas derradeiras conseqüências.

ela é também prenúncio de nova mutação: a transvaloração de todos os valores. conduziu a ciência ao alto mar. uma escola filosófica é substituída pela outra. para além de toda culpa e de toda necessidade de expiação. Trad. DTV. como. F. vol. quem tornou presente para si mesmo tudo isso. como a onda pela onda. 2 NIETZSCHE. São Paulo: Companhia das Letras. como. Colli und M. Mas. G. a auto-supressão da moral cristã atualmente secularizada no idealismo da vontade de verdade. München: de Gruyter. Ecce Homo Por que sou um Destino. 1995. a conseqüência e o aprofundamento dessa mutação deu gerou a confluência helenística entre a racionalidade socrática e a religiosidade cristã. entendido como lógica da decadência. depois de avatares e peripécias culturais.mistagogo da ciência. F. 109. Montinari. 1. parágrafo 15. desde então. que constitui o autêntico significado do niilismo. 1 NIETZSCHE. New York. como a catástrofe trágica. sim com vistas à legalidade de um sistema solar inteiro. a catástrofe da razão. engendrou a situação crítica que. lastreada numa cumplicidade velada com a ciência moderna. nos mais remotos domínios do mundo cultivado e como a autêntica tarefa para toda aptidão mais elevada. Por outro lado. Esta. p. 99s. uma universalidade da ânsia de saber. nunca suspeitada. é também o anúncio e aurora de uma nova mutação – aquela que se instituirá como o resgate da inocência do vir-a-ser. ela jamais pôde ser de novo completamente removida. bem como o imperativo de instituição de novas tábuas de valor. se abisma numa espécie de catástrofe dos valores superiores. 1. uma rede comum do pensamento foi estendida sobre o conjunto do globo terrestre. In: Sämtliche Werke Kritische Studienausgabe (KSA) Ed. . Die Geburt der Tragödie. Paulo César de Souza. Berlin. p. a avaliação da gênese dos valores culturais dominantes. em nossos dias. E assim. Sob tal perspectiva seria necessário repensar temas como o Além-do-Homem. junto com a surpreendente pirâmide de saber da atualidade . do qual. primeiramente por meio dessa universalidade. 1980.esse não pode se recusar a ver em Sócrates o ponto de inflexão e o vértice da assim chamada história universal” 2.

o tempo ou o homem que o positivismo chama de “metafísicas” para melhor esvaziá-las.* conferência em português j e a n . sobretudo. o mérito de nos lembrar que os cientistas fazem metafísica. segundo Karl Popper. entretanto. porque nada há a dizer sobre esse assunto. Um papel modesto e. No pano de fundo de todo programa de pesquisa científica ou tecnológica.a “nanoética” como a chamam agora . responder a esta questão fundamental: a ciência e a técnica. sobre a ética da denominada “convergência NBIC”. É inútil esperar uma democracia científica sem este trabalho.p i e r r e d u p u y * Os homens sonham com a ciência antes de fazê-la. ao contrário. quase sempre sem o saber. que dominam nossas sociedades. mais precisamente. pelo menos. submetê-la à crítica da Cidade. que . para apreciar sua coerência e. consistindo em evidenciar e sistematizar esta metafísica implícita. Mas é igualmente assim que o filósofo poderá. podem ajudar a preencher o vazio de sentido que parece afetá-las? Ou. Os discursos visionários ou ideológicos que acompanham o desenvolvimento das tecnologias de ponta têm. encontram-se visões de mundo. respostas às grandes questões sobre o ser. não seriam elas as principais responsáveis por este vazio? Faz agora alguns anos que eu trabalho como filósofo sobre a ética das nanotecnologias . que. na verdade. essencial que pode e deve representar o filósofo. jamais poderá ser eliminado. talvez.ou.

que teve que levar um embate duro para expulsar do ensino público todo vestígio de criacionismo. Encarnaria aqui o desenho que Descartes confere ao homem graças à intermediação da ciência: tornar-se mestre e possuidor da natureza. por provocar na natureza processos complexos irreversíveis. Outro visionário influente. se nós não sentimos inquietude diante de uma técnica. como a inteligência design. Seria deixar de lado o essencial. de tentar responder às questões que acabo de apresentar. O filósofo poderia se encontrar em terreno conhecido. com o homem doravante no papel do demiurgo. venham a dar um curto-circuito em toda esta idéia errática darwiniana. . A natureza torna-se artificial. reencontrar através do programa nanotecnológico a problemática do design. Bio. pois. em minha conferência. à sua incapacidade de nos surpreender. concebidos pelo espírito humano. falou sobre todo o desprezo que lhe inspirava a natureza tal qual o homem a encontrou: “Não se pode pensar que nanosistemas. O verdadeiro design. um dos mais influentes visionários neste domínio. inclusive da natureza humana. disse o seguinte: “Foi necessário um longo tempo para compreender que o poder de uma técnica era proporcional à sua falta intrínseca de controle. É a propósito desta convergência que eu gostaria. não é o controle. é porque ela não é revolucionária o suficiente”. em última instância. hoje. Infotecnologias e Ciências Cognitivas. Damien Broderick. mas também o fato de que nasça do ventre de uma mulher e. O “nano-sonho” estando. mas por desenho (design).é a convergência entre Nano. mas o seu contrário. Na verdade. antes de tudo. o homem rebela-se contra o instituído. o engenheiro de amanhã não será um aprendiz-feiticeiro por negligência ou incompetência. contra tudo o que constitui sua finitude: sua mortalidade. inclusive em seus avatares mais recentes. para precipitar-se diretamente rumo ao sucesso do design?” É fascinante ver a ciência americana. e. não seja mestre de seu processo de fabricação. engendrando o radicalmente novo. O componente mais visível do sonho nanotecnológico é o de tomar o lugar da bricolagem. Kevin Kelly. que constituiu até agora a evolução natural e biológica para substituir o paradigma da concepção (design).

l u i z

f e l i p e

d e

a l e n c a s t r o

A história dos povos e dos indivíduos flui, muda sempre, como um curso d’água em caudal contínuo. Ninguém vive duas vezes os mesmos eventos. “Não é possível mergulhar duas vezes no mesmo rio”, escreveu o filósofo grego Heráclito no final do século VI a.C. Todavia, o sentido da mutação é embaciado pelo peso das tradições, pela contingência dos fatos e pela abrangência das rupturas. Refletindo sobre estes temas, Fernand Braudel, num texto que se tornou um dos clássico das Ciências Humanas contemporâneas, distingue os três arcos concêntricos do tempo histórico.1 No arco de fundo desenrola-se o tempo longo, “uma história lenta, quase imóvel, a história do tempo geográfico onde vem se inscrever as sociedades e as civilizações brevemente agitadas pelas oscilações curtas da história dos acontecimentos”. No arco ou na cena mediana sucede o tempo social composto por “uma história lentamente ritmada, ...uma história dos grupos e das comunidades”. Enfim, na cena de primeiro plano corre o tempo curto ou tempo individual. É o tempo da história tradicional, na dimensão do indivíduo e não do homem provido de sua consciência coletiva. Aqui intervém uma história dos acontecimentos (événementielle) ... marcada por “uma agitação de superfície, pelas ondas que as marés levantam no seu possante movimento; uma história de oscilações breves”.

Na concepção braudeliana, o historiador – envolvido pela movimento curto dos eventos cotidianos – procura divisar o tempo social mediano e, mais além, o tempo longo, para compreender a verdadeira dimensão da temporalidade histórica. Há acontecimentos da atualidade brasileira que ilustram a mutação no contexto da concentricidade temporal explicada por Braudel. Assim, o sucesso do agronegócio e, em particular, da agroindústria sucroalcoleira, remete a um tempo longo que incorpora o tempo social mediano e também o tempo curto dos eventos imediatos. No tempo longo, os fatos são conhecidos. A colonização portuguesa nasceu em torno do engenho de açúcar. O Brasil entrou no mapa do mundo porque exportava açúcar. Tido como a mais importante commodity da época, o açúcar sustentou a colônia nos dois primeiros séculos. Mesmo no século XVIII -, o século das Minas Gerais –, a produção açucareira proporcionou maiores rendimentos do que a produção de ouro, como demonstrou Stuart B. Schwartz. Gilberto Freyre vai mais longe em suas análises para situar as relações sociais engendradas nos engenhos no cerne da sociedade colonial e imperial. Agora, embalado pela baixa das tarifas de importação na União Européia e nos EUA, e pelo consumo crescente de biocombustíveis, a cultura canavieira ganha de novo grande destaque. Lula vê no etanol a salvação da lavoura, do Brasil e do mundo. Quem conhece a história do Brasil sabe como a grande lavoura açucareira carrega uma tradição de escravismo, de trabalho compulsório, de exploração de assalariados, de miséria social e de ruína do meio ambiente. Sabe também como esta atividade deu lugar às oligarquias mais atrasadas de nosso país e a um mandonismo regional autoritário e tinhoso. Os estragos sociais não cessaram. Pago pela quantidade de cana cortada, o trabalhador rural se submete a uma forma precária de assalariamento. Como no início da Revolução Industrial oitocentista, o aumento da produtividade intensifica a cadência do trabalho. Segundo os especialistas, nos anos 80, um trabalhador cortava quatro toneladas

e ganhava o equivalente a R$9,09 por dia. Hoje, corta na média 15 toneladas e ganha cerca de R$6,88 por dia. Um milhão de homens, mulheres e crianças trabalham no corte de cana no Brasil. Neste contexto, o passado mal sarado de três séculos de escravidão de volta à tona. No mês de março, quando Lula saudava os usineiros como “heróis nacionais e mundiais”, o Ministério do Trabalho descobria cortadores de cana submetidos a uma situação sub-humana numa grande usina paulista. De quebra, o Ministério Público do Trabalho, afirmou que esta situação é comum em São Paulo, estado de onde sai 60% da produção nacional de etanol. Por detrás do sucesso do agronegócio prenuncia-se o espectro da vulnerabilidade econômica do país, de novo fascinado por sua “vocação agrícola”. Regressão ou progresso? Mutação ou continuidade? Trazendo para o presente cinco séculos de história, a agroindústria açucareira serve de ilustração para pensar o Brasil na nova divisão internacional do trabalho.

1 Fernand Braudel, Ecrits sur l’histoire, éd. Flammarion, Paris, 1969, rééd. 1977. Ver ainda a este respeito, Gérard Noiriel, “Comment on récrit l’histoire. Les usages du temps dans les Écrits sur l’histoire de Fernand Braudel”, na Revue d’Histoire du XIXème. Siècle, n. 25, 2002. Número dedicado ao tema “O tempo e os historiadores”.

* conferência em francês com tradução simultânea

l i o n e l

n a c c a c h e *

As neurociências cognitivas exploram as propriedade psicológicas e as bases cerebrais dos processos mentais os mais diversos, utilizando uma abordagem dinâmica que conjuga o estudo de pacientes com lesões cerebrais, a psicologia experimental e as imagens cerebrais funcionais. No campo da consciência e do inconsciente esta abordagem permitiu, no espaço de uns quarenta anos, transformar a concepção científica da vida mental inconsciente através de três grandes resultados experimentais. Falemos primeiro sobre a definição funcional e descritiva do que se entende por “consciente” e “inconsciente” a fim de dissipar todo mal-entendido. Assim como Freud o formulava desde 1912, em Nota sobre o inconsciente em psicanálise, é possível partir de uma definição descritiva, em negativo, do que se entende

torna-se possível pesquisar dissociações entre quaisquer performances cognitivas (perceptivas.como era o caso da memória . categorização semântica. inexpressivos. simplórios. muito sensíveis ao nosso comportamento consciente. se dirige às relações entre nossa atividade mental consciente e os inconscientes multicoloridos que nos habitam. emocionais. e digamos que é o único significado do termo ‘consciente’. motoras. se nós temos qualquer razão para supor que elas existem no espírito . mas eles são. 1991). automáticos.por inconsciente: “Chamemos agora de ‘consciente’ a representação que está presente em nossa consciência e da qual temos conhecimento. revelando tais dissociações sob formas muito variadas. mas se pode encontrá-las virtualmente dentro de qualquer região neo-cortical: o inconsciente é ‘corticado’! Enfim. Alguns desses processos inconscientes não se desdobram de maneira independente de nossa atenção e de nossas estratégias conscientes. O significado de uma palavra não percebido conscientemente pode ser inconscientemente representado. A este princípio de diversidade e de riqueza psicológica da vida mental inconsciente faz eco a ausência de setorização anatômica estrita dos correlatos cerebrais dos processos cognitivos inconscientes. As representações mentais inconscientes não estão imprensadas nos andares “inferiores” do sistema nervoso. À luz deste critério de “capacidade de relação mental”. rígidos. na ausência de uma relação consciente. as diferentes concepções anatomicamente compartimentadas da vida mental consciente e inconsciente. Longe de serem reduzidas a processos arcaicos. ao contrário.elas serão designadas pelo termo ‘inconsciente’ (Freud. O primeiro resultado experimental maior neste campo de pesquisa diz respeito à diversidade e à riqueza das operações mentais realizáveis inconscientemente. operações lingüísticas etc. A neuropsicologia cognitiva contemporânea teve aqui um papel particularmente original. quer dizer. Este segundo resultado pulverizou. nós agimos sem o conhecimento sobre alguns . Quer dizer. Quanto às representações latentes.) que surgem inconscientemente. estas operações extremamente variáveis chegam a ser altamente complexas como a representação inconsciente de certos atributos semânticos de palavras escritas. cujo alcance nós só conseguimos entrever. definitivamente. o terceiro resultado importante.

que desaparecem em algumas centenas de milésimos de segundos. A segunda grande limitação trata do que se chama a dinâmica do controle estratégico: a adoção de uma nova estratégia de tratamento da informação. a invenção de um novo modo de tratamento. Estes três avanços maiores devem ser confrontados a dois outros resultados particularmente importantes: essas representações inconsciente plurais não são em nada comparáveis a nossos pensamentos conscientes. parece consciente demais! Exercer o controle cognitivo sobre as representações inconscientes a fim de impedir o acesso ao sistema preconsciente-consciente. mas igualmente os motivos de divergência. levando em conta a evolução própria de seu pensamento (exemplo: através dos dois tópicos). a pedra angular do edifício freudiano. é possível destacar os pontos de convergência. Quando se relê os escritos de Freud sobre o inconsciente. a modificação do nível de controle executivo necessitam da tomada de consciência do parâmetro que justifica essas mudanças (Dahaene e Naccache. que é o conceito de recalque. Esta plasticidade e esta sensibilidade de certos aspectos de nossa vida mental inconsciente poderiam conduzir a alguns progressos terapêuticos e ergonômicos interessantes. por exemplo a oposição radical entre o “sistema Ics” e o conjunto dos processos cognitivos inconscientes objetivados pelas neurociências contemporâneas. Sem entrar aqui nos detalhes desta confrontação. Existem propriedades que parecem exclusivamente reservadas a nossas representações mentais conscientes: a capacidade de manter ativamente uma representação por um tempo virtualmente ilimitado precisa de um modo de tratamento consciente. evidentemente) de Freud sobre o conteúdo de nossa vida mental inconsciente. eis que o modelo freudiano do inconsciente apresenta uma incompatibilidade maior com nossa concepção contemporânea. descritos por Freud em sua conferência de Worcester. à imagem destes “guardiões da paz mental”. O conjunto de situações de cognição inconsciente revela o caráter muito evanescente das representações mentais inconscientes. Para além das intuições geniais (elas existem. 2001). proferi- .de nossos processos cognitivos inconscientes.

Da interpretação. segundo Freud. exige a consciência. essas construções interpretativas conscientes não deixam de guiar o rumo de nossas ações e acabam. Numerosas experiências implacáveis e elegantes da psicologia cognitiva contemporânea nos ensinaram de fato que sem consciência do estímulo a controlar. distinguindo claramente os “inconscientes contemporâneos”? A tese que eu sustento visa a defender a idéia de que. com certas idéias desenvolvidas por Paul Ricoeur em sua obra sobre a psicanálise freudiana. por inscreverem-se em nossa realidade. ou podemos tentar propor uma nova interpretação do discurso freudiano sobre o inconsciente. O inconsciente freudiano só existe como uma crença fictícia que permite à nossa consciência encontrar um significado para os acontecimentos de nossa vida psíquica. O recalque de Freud não é um mecanismo de negação consciente. 2006). Suas afirmações teóricas sobre a natureza de nosso psiquismo (em particular de nosso “inconsciente”) são. atrás deste “erro de Freud”. O segundo problema diz respeito à duração de vida destas representações mentais inconscientes. representações que parecem. em relação a este ponto. e de reconhecer sua importância vital em nossa existência. mas o trabalho muito específico que ela põe em marcha desenvolve-se diretamente a partir do interior do sujeito em nível pertinente à sua economia psíquica. Como decorrência desta comparação parece assim que Freud provavelmente não descobriu o inconsciente. mas antes de tudo o inventou: o inconsciente freudiano visto como uma ficção consciente de Freud (Naccache. nós descobrimos a propriedade fundamental não de nosso inconsciente mas de nossa consciência: a necessidade vital que nós temos de inventar conscientemente as ficções mentais para chegar a existir. o controle estratégico não pode ser exercido. O que resulta deste exercício de exegese? Basta destacar essas conclusões. elas também. pois. Ainda que sendo construções fictícias. tais como os cisnes majestosos e atravessar a existência de um indivíduo desde a sua primeira infância: a eternidade deste inconsciente contrasta de maneira palpável com a inelutável evanescência mencionada anteriormente. A leitura de Freud que proponho aqui me parece estar de acordo. deslizar imperturbavelmente. na qual .da em 1909. altamente fictícias. A psicanálise freudiana é a primeira tentativa séria e capaz de interessar-se por ficções mentais.

Paris : Gallimard. 1997. Cognition 79 (1-2): 1-37. De l’interprétation.. Freud. . Assim Freud abriu. Paris : Odile Jacob. Métapsychologie. Christophe Colomb des neurosciences. Paris : Seuil. 1995). Prog Brain Res 150C : 185-195. FREUD. NACCACHE. S. Le nouvel inconscient. faculdade fundamental de nossa atividade mental consciente. 1995. 2001. as portas das neurociências da arte da ficção. L. P. Consciousness lost and found : a neuropsychological exploration. arte da ficção que nós apenas começamos a explorar nos laboratórios das neurociências cognitivas. L. sem dúvida de maneira intencional. L. 2005. RICOUER. 1991. NACCACHE. O conteúdo desta passagem soa harmoniosamente com nossa proposição de que a psicanálise freudiana é uma abordagem imediatamente interpretativa e não precedida de uma fase descritiva dos fenômenos psicológicos (Ricoeur. New York: Oxford University Press. NACCACHE. S. Towards a cognitive neuroscience of consciousness: basic evidence and a workspace framework. 2006. L. Referências bibliográficas DAHAENE. Visual phenomenal consciousnes : a neurological guided tour.há o seguinte subtítulo: A psicanálise não é uma ciência de observação. WEISKRANTZ.

à desorientação existencial. que se desprendeu do humanismo da Renascença e do Iluminismo. à incapacidade de pensar o homem e seu futuro. . num mundo privado de certezas. No primeiro caso. frutos lamentáveis de uma corrupção que já aconteceu. ou se é transição para uma mutação ainda por vir. somos vítimas de uma mutação ocorrida com o advento da modernidade. cataclismo histórico que destruiu valores e referências fixas. Ficamos entregues a uma tecnociência cega. Para essa concepção.s é r g i o p a u l o r o u a n e t Nosso ciclo de palestras parte do pressuposto de que estamos vivendo uma época de mutação. o conceito de mutação está associado a uma visão pessimista da história. e toda a questão se resume em saber se nosso presente é fruto de uma mutação já consumada. e nos expôs à anomia. somos todos mutantes. Para ela. e nos deixou órfãos de sentido. Mas mutação é passagem de um a outro estado de coisas. tristes descendentes de uma humanidade perdida para sempre.

em vez de ser arrastado por uma tecnociência que lhe tira a visão do todo e o arrasta. O progresso da ciência só se tornou possível graças à divisão intelectual do trabalho. no outro caso. mostrando que grande parte de nossa sensação de impotência diante do desdobramento aparentemente incontrolável da técnica vem do fato de que a extrema fragmentação do saber nos impede de aceder a uma visão clara do processo de conhecimento como um todo. algo a ser construído pelo homem. sem o que a democracia seria substituída pela logocracia. Mas o desejo de vislumbrar o conjunto não deve ser confundido com a aspiração fáustica de aceder ao saber soberano. e sim uma conseqüência natural da extrema complexidade e diversificação alcançada pela ciência pelo menos desde Galileu. realidade já dada. de cuja redação o homem não participou. a mutação é um fato. um Fatum latino. Mesmo que nosso presente seja tão assustador quanto o descrevem os partidários da versão pessimista. o que justifica um certo otimismo. Sem dúvida. Mas a perda de sentido gerada pelo desaparecimento da visão de conjunto não foi o efeito de uma mutação trágica. em direção a um futuro não desejado. em que o homem recupere a capacidade de pensar o ser e programar seu destino. Segundo Adorno. . mas não foram gerados por nenhuma grande mutação. Os resultados são terríveis. ele nos oferece os instrumentos para preparar uma verdadeira mutação.No segundo caso. Num caso. totalidade e totalitarismo são termos correlatos. a obsessão com o todo não deve levar o homem a subestimar o conhecimento do particular. como um turbilhão. a passagem para uma etapa em que o homem volte a ser sujeito do processo de geração e aplicação do conhecimento. no bojo de uma teologia da história que não perdeu inteiramente o contato com a idéia messiânica. a mutação ainda não se deu. um Fado. é utopia. A mutação que pretendemos deverá devolver ao homem a capacidade de ter uma visão de conjunto das atividades técnico-científicas. mas essa mesma divisão bloqueou a possibilidade de qualquer sobrevôo generalista. decreto do destino. A mutação está à nossa frente. Gostaria de explorar a segunda concepção. se me permitem um jogo de palavras. sem o qual não temos como dar sentido e direção ao desenvolvimento científico-tecnológico. ou. É preciso que haja uma inflexão. É agora que ela se impõe.

“e todas elas se comunicando por um laço natural e insensível que liga as mais afastadas e as mais diversas. inventor. Ele exprime. a idéia de uma unidade da linguagem científica. simplesmente.” . ou conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes. filósofo e teólogo. defendia. A mutação que queremos é a que foi prenunciada na Encyclopédie. ele próprio pensador sem fronteiras. Mas é sobretudo a que foi antevista por Pascal. matemático. a vontade de não se resignar à impotência. escreveu Pascal. na Encyclopaedia of Unified Science. mesmo que não se alcançasse a unidade das leis. que partindo do princípio da unidade ontológica do real. de não aceitar passivamente um sacrificium intellectus que nenhuma divindade impôs.cujo verdadeiro nome é poder. É também em parte a que foi imaginada pelo Círculo de Viena. “Todas as coisas sendo causadas e causantes”. de não abdicar diante de um processo que se passa à nossa revelia. mas procurava facilitar a comunicação entre as várias áreas do conhecimento. considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo. que reconhecia as fronteiras disciplinares. de não aceitar a interdição imposta à razão humana de compreender o movimento do todo.

cuja finalidade passou a ser a administração da vida biológica dos homens. diferentes daquelas às quais estávamos acostumados.n e w t o n b i g n o t t o Foucault dizia que o poder no mundo contemporâneo deixou de operar segundo os velhos cânones da modernidade. visados como corpos naturais e não mais como animais políticos. como afirma Giorgio Agamben. quando se constituiu num bio-poder. nessa perspectiva. quando estudávamos os regimes ditatoriais e tirânicos. mas. a realização plena de um novo paradigma da contemporaneidade. Os regimes totalitários não foram. Essa mutação do poder foi acompanhada pelo surgimento de nossas formas de dominação. um acidente histórico. .

pode realizar obras extraordinárias e com isso se igualar aos deuses. ou pode mergulhar no horizonte sombrio da desmedida e igualar-se às bestas. o filósofo italiano Pico della Mirandola afirmou que o homem é o único animal capaz de criar sua própria condição. o velho problema do mal. Tudo se passa como se a partir de agora não pudéssemos mais esquecer da besta. O século da técnica e dos avanços espetaculares da ciência foi também o século dos massacres e do aparecimento da morte em escala industrial. como se os regimes totalitários fossem apenas equívocos de um percurso destinado ao sucesso. aceitando suas limitações. Nessa perspectiva. através do uso sistemático da razão. evita a armadilha da indiferença e da nostalgia. que nasce no seio das organizações destinadas a ordenar a vida em comum dos homens. que mudam o mapa de nossas inquietações. A crueldade dos carrascos contemporâneos deve ser olhada pelo prisma de uma razão que. O século XX viu essas trevas ocuparem o centro da cena mundial e enterrou para sempre a idéia de que o progresso da civilização iria nos livrar de nossas fraquezas e defeitos. . Trata-se aqui de pensar a barbárie. Essa nova realidade. que Pico della Mirandola via como uma das possibilidades de nossa natureza.Essa nova configuração da política operou uma mutação da própria investigação sobre a condição humana. descortina dois horizontes de investigação. O surgimento das sociedades totalitárias mudou nosso modo de ver a condição humana e seus caminhos. é revisitado à luz de um conjunto de práticas. Em pleno Renascimento. Servindo-se de sua liberdade. para a busca de conhecimentos que o libertassem das muitas amarras que o prendiam ao passado de trevas. que teimosamente alguns insistem em esconder. O primeiro diz respeito àqueles que praticam atos bárbaros respaldados pelo poder de Estado. que não podem ser compreendidas apenas com um desvio do bem. A modernidade se apresentou para muitos filósofos como o momento histórico no qual o homem se lançou na busca de sua vertente solar. que faz parte da tradição filosófica desde a antiguidade.

com Hannah Arendt. que não podia ser antevista pelos viajantes literários que. vamos tentar compreender. que forjaram as condições para que a experiência radical do degredo pudesse existir no interior da contemporaneidade. que não pode ser demarcado pelas fronteiras de uma moral convencional. Antes. A partir dos relatos dos que voltaram. que se limita a nos ensinar a compaixão pelos que sofrem. . A verdadeira descida aos infernos dos que foram internados nos campos de concentração nos obriga a pensar os limites de uma natureza submetida ao quase aniquilamento. O mundo contemporâneo nos ensinou a viver sem a expectativa do paraíso e com limites que a modernidade lutou para afastar. A palavra dos sobreviventes abre um campo de investigação. Nossa tarefa será a de acompanhar alguns passos da descida aos infernos. que os regimes totalitários nos obrigaram a fazer. procuraram explorar os reinos infernais.Os regimes totalitários nos forçam também a buscar compreender o território ético surgido com a narração das experiências daqueles que foram vítimas das políticas de extermínios dos regimes extremos. como Dante. a partir da obra de alguns sobreviventes como Primo Levi. Essa nova fronteira da dor abre a possibilidade de explorar uma dimensão de nossa humanidade. as mutações ocorridas nas sociedades políticas. Jean Améry e Jorge Semprun. pretendemos esclarecer os problemas éticos que surgem com a produção de um lugar de existência nas fronteiras do humano. nos defrontamos com uma viagem que não possuía um guia genial e não termina com a libertação do último círculo de provações. porém. Com esse passo.

. a poesia se extenua..m i c h e l d é g u y * * conferência em francês com tradução simultânea O destino da poesia nas sociedades avançadas contemporâneas é ontológico e temático. “Não existem normas. “. “A bio-arte é uma arte in vivo”. sobe no vagão do trem capitalista da mundialização... O que importa é o que vocês sentem em vida”. se preferirmos. do linguageiro e lingüístico (logikon).somos naturalmente seres trangênicos”. Podemos (nós. ou ainda daquilo que Barthes (no último curso no Collège de France) chamava a frase. Ora. Ou seja.. Passado por esta prova. em breve nem mesmo de Dante restará grande coisa. “A mutação é inicialmente um médium da mesma maneira que o óleo para a pintura”.. Pode a poesia tornar-se outra coisa? Penso em uma entrevista dada por Eduardo Kac à revista Critique. sua “influência”desaparece. herdeiros da poesia ocidental) confiar o destino da poesia a outro médium diferente do seu. a linguagem da palavra? Não. tomado no sentido arcaico grego. O que muda na poesia? Qual sua mutação? Eis o que diz Kac quando teoriza sobre “o uso artístico da mutação”: “Foi a poesia que me levou a usar os novos mídia a partir dos anos 80” . a partir do momento em que uma sociedade avança ou. no número sobre “Mutants”.. da palavra ( logos) . ou seja.. Porque a língua não é “um médium”. do poema enquanto proposição. Só existem mutantes. Trata-se nada menos que da expulsão da poesia para fora da esfera do lógico .. julgamento. seu valor mercadoria baixa... articulação gramatical e lógica interessada em verdades e na verdade.

percebidas quase sempre como inquietantes. constata-se que a amizade transformou-se profundamente. de Sêneca a Stendhal ou a Simmel. Atualmente. é exatamente a das relações afetivas essenciais: o amor e a amizade. e que o amor adquiriu cores novas. As pessoas referem-se freqüentemente a esses escritos canônicos. uma . nada há de mais diferente e mais oscilante no tempo e no espaço. são testemunhos eloqüentes disso. O sucesso sempre atual dos textos antigos que tratam desta questão. entretanto. que parecem ter abordado todos os aspectos destas relações e cobrir todo o leque de respostas possíveis. Não poderia ser diferente.* conferência em francês com tradução simultânea e u g è n e e n r i q u e z * Se há uma relação humana e social que a maioria dos indivíduos pensa ser imutável. E.

e. um deslocamento da sociedade. regiões. apesar dos esforços meritórios desenvolvidos por numerosas pessoas para manter a solidariedade entre os seres que formam a espécie humana. sobre a ausência de engajamento e de responsabilidade que as acompanham. indicar os traços marcantes desta mutação. sobre a perversão que as caracterizam mais de uma vez. Elas têm dificuldade de manifestar-se de outra forma – ainda que aspectos antigos e contraditórios subsistam – de uma sociedade que proclama o “cada um por si”. o desprezo pelo mais fraco. a luta de todos contra todos. mas. Não é possível. sem deixar de caricaturá-los. A conferência terá por objetivo sublinhar as transformações profundas que afetam as “afinidades eletivas” e as suas razões que têm a ver com a aparição de uma nova economia psíquica e também com a evolução da dinâmica social. em que. Digamos somente que a palestra insistirá sobre o lado efêmero (líquido. nações. sobre a incomunicabilidade que elas promovem (uma vez que elas exigem comunicação autêntica). sobre a busca do prazer imediato que elas manifestam. . tais como cidades. sobre sua diversidade. como Freud o demonstrou. na força da libido (libido sexual encarnada por Eros [amor] e libido sublimada [amizade]. que favoreciam um mínimo de coesão entre os diversos grupos sociais e lhes permitia perdurar. de um modo geral. até mesmo. tudo parece menos sólido e menos duradouro. sobre a tristeza. a desigualdade generalizada. sobre seus aspectos problemáticos.vez que os laços sociais. Ora. que unem os indivíduos e os faz entrar progressivamente nas “unidades cada vez maiores” [Freud]. a injustiça e a insegurança social. parecem esgarçar-se e produzir uma fragmentação. diria Bauman) das relações instauradas. conjuntos internacionais ou mundiais). a solidão ou o cinismo aos quais elas acabarão por chegar. os laços sociais estabelecem-se não somente no trabalho em comum e na confrontação não violenta dos interesses.

em fragmentos e citações. Aos espectros barrocos – cujo fantasma hamletiano é o emblema – sucedem as fantasmagorias do capital. do espaço comum compartilhado ao cinturão vermelho operário e suas barricadas. a perda da experiência e da qualidade dialética do vivido. Benjamin os analisará referidos à vida política e às formas de bastilização da cidade. com sua transformação de qualitativo em quantitativo. da pólis grega à Paris urbanizada por Hausmann. a monotonia vinculada. ao medo o pânico. no consumo anômico. mas os multiplica ao infinito. na produção em massa (circulação de produtos padronizados). instalando-se a Langeweile. da melancolia barroca ao tédio baudelairiano. dá-se o confisco da dimensão do futuro. no capitalismo que não satisfaz necessidades nem desejos.o l g á r i a m a t o s Trata-se de compreender as mutações contemporâneas do tempo. na constituição de personalidades desengajadas. esta. o tempo tem impacto na constituição das subjetividades modernas. Walter Benjamin indica. com a espacialização da duração. Em suas Passagens. constituindo uma patologia da experiência axiológica e da liberdade. pois juramento e promessa diziam respeito ao tempo longo e à longa duração. um diagnóstico do tempo homogêneo e vazio que inviabiliza criar ou reconhecer valores. . Na época de sua aceleração e contração. estritamente à repetição no processo produtivo (de um mesmo gesto. Da akedia grega à acídia medieval. o do trabalhador com a máquina).

produz obsolescência na produção e insegurança jurídica na vida política e social. Com isso. “Arquivo N. Neste horizonte. terrorismos. Teoria do Progresso”. As luzes do pensamento cresciam a cada dia” (Turgot. ed. tempo fetichizado preenchido por esportes radicais. dominado pelo poder da contingência sobre a vida de cada um. Benjamin enfatiza a importância do tempo na democracia. guerras. obesidade mórbida. UFMG. Passagens. pelo culto da insegurança. para Benjamin. N 12. p. trad. Benjamin analisa o mal-estar da temporalidade aproximando Blanqui e A eternidade pelos astros. a coragem sempre excitada. pois a cultura capitalista produz arcaísmos e regressões. a modernidade substitui o tema metafísico das incertezas da vida e da história. todos os descontentes da civilização. O capitalismo é.na fusão entre economia de mercado e sociedade de mercado. . a teoria crítica benjaminiana revela a identidade contemporânea da economia e do tempo. anorexia. monotonia que corresponde ao tempo plasmado no presente.Em uma referência à Grécia clássica. 2006. Cultura do medo e do pânico. apud Benjamin. Irene Aron (alemão) e Cleonice Mourão (francês). o spleen baudelairiano e o fetichismo de Marx com os quais reflete sobre a Langeweile. “Teoria do Conhecimento. 520. o Eterno Retorno de Nietzsche.a monotonia se expressa na “consciência sonolenta” e no desejo de “matar o tempo”. tempo dedicado ao debate público e ao pensamento: “[nos povos da Grécia] os espíritos estavam sempre em atividade. o “ estado de exceção” em permanência. o mal-estar na temporalidade contemporânea resulta em uma inatividade de pensamento. da política e do mercado. Procedendo a uma heurística do medo.3).

As depressões representam. “Mal-estar” foi o termo designado por Freud para referir-se ao custo subjetivo das condições da vida em sociedade. a manifestação predominante de expressão do “mal-estar” no mundo industrializado. hoje. aliadas a novas formas de sofrimento mental como as anorexias. Penso que uma das causas mais significativas das depressões na sociedade contemporânea – uma sociedade aparentemente “antidepressiva” – tenha sua origem na sedução exercida pelas formações imaginárias . dados da OMS indicam um crescimento expressivo dos casos de depressão nas sociedades ditas desenvolvidas do Ocidente.m a r i a r i t a k e h l Desde a década de 1990. as drogadições e as manifestações delinqüenciais aparentemente gratuitas.

Nas sociedades industriais do século XXI. O gozo. O que o Outro exige do sujeito contemporâneo é que ele goze. A dimensão subjetiva dos prazeres. o modo como o imperativo do gozo se articula aos ideais de eficácia econômica. Há que se levar em consideração. é como se o fantasma.do estágio atual do capitalismo. Tal articulação subverteu os ideais de renúncia pulsional que oprimiam os contemporâneos de Freud. na mesma velocidade em que se produzem as concentrações do capital virtual na bolsa de valores: um dinheiro a que não corresponde nenhuma produção de riquezas. dos afetos. deixasse de ser inconsciente – e as respostas fantasmáticas à pergunta “o que o Outro quer de mim?” já não estivessem a cargo dos neuróticos. ainda. Na sociedade de consumo. gozar é a forma mais eficaz de trabalhar para o Outro. em sua face imaginária. o que implica que seus enunciados deixem de ser inconscientes. ainda mais angustiante e opressiva para os sujeitos. Muito. promovida a condição organizadora do laço social. como seria de se esperar. manifesta-se através do espetáculo. A onipresença da indústria do espetáculo emite uma repetição coerente de mensagens. das pulsões. O que este trabalho produz? Nada menos do que os sujeitos de que o atual estágio do capitalismo necessita: sujeitos esvaziados do que lhes é mais próprio. Este mandato advém de formações do imaginário produzidas pela indústria das chamadas comunicações. transformou-se em força de trabalho na sociedade regida pela indústria da imagem3. portanto disponíveis para os objetos e imagens que os convocam. De certa forma. Isto gira no vazio. Que esta seja uma das faces contraditórias do imperativo superegóico – “goze!/não goze!2” só faz tornar esta exigência. na sociedade contemporânea. que situa o sujeito junto ao Outro. cujos principais arautos são as mensagens publicitárias emitidas pela televisão. cuja oferta de imagens recobre quase toda a face do planeta1. não se obtém nos intervalos de tempo roubados ao trabalho alienado. convocados a sacrificar seu gozo a favor da produtividade na fase de consolidação do capitalismo industrial. o Outro. . uma diversidade de sentidos. que aparentemente se diversificam para repetir sempre o mesmo mandato. Eles partem da esfera pública. A tal abundância de ofertas não corresponde.

numa escala sem precedentes na história. servidão e fatalismo.Ao apropriar-se dos signos de gozo circulantes no imaginário social. Se não há como divergir de tal demanda-oferta de gozo proposta pelos “vencedores de turno”. no estágio atual do capitalismo. que se escuta na clínica dos depressivos. As obras da cultura do divertimento já não disfarçam seu caráter de documentos da barbárie. para a qual todo passado é remoto e toda a experiência. deve ser complementada com a advertência de Tomás Abraham4: “uma sociedade sem valores extra-econômicos tende a uma deriva perigosa”. vende a si mesmo como objeto de gozo para o Outro. tomados tanto em sua singularidade desejante como em sua dimensão criativa. Nunca a frase de Adorno esteve tão certa: “divertir-se é estar de acordo7”. O reconhecimento buscado é do valor de venda de cada um. Podemos nos referir. Nas condições atuais do mercado de trabalho tal valor é cada vez mais supérfluo. A articulação entre angústia. de agentes capazes de produzir transformações na vida social5. a uma possível ressonância cínica da predominância do econômico sobre o político. sem pudor. Gozar para se fazer instrumento do gozo do Outro e. Só que já não é mais o trabalho alienado aquilo que se vende. supérflua. sobre o moral. a condição do sujeito contemporâneo pode ser resumida em: tem valor porque se vende. para quem “o capitalismo colonizou o inconsciente”. A afirmação de Frederic Jameson. fala por si mesma: o nó que amarra esses três componentes das depressões é o sentimento de superfluidade dos sujeitos. O sujeito não vende seu tempo de trabalho. os valores da eficiência econômica estendem-se a todos os âmbitos da vida. é a dimensão mais íntima dos sujeitos. privadas de valor. ávidos pelo consumo de imagens8 que lhes indiquem quem eles são. . dessa forma. seu próprio valor de gozo6. é inevitável que a banalidade se imponha no campo das ações humanas. Sua função é instaurar o eterno presente da vida espetacular. gozar ainda mais: trata-se de um imperativo verdadeiramente irrecusável. O que se vende. sobre tantas outras dimensões da vida social: se o mercado é a medida de todas as coisas. Assim se produzem os sujeitos expropriados da experiência do inconsciente e do desejo.

ver Ricardo Goldenberg (org. São Paulo: Boitempo..Tais considerações atestam a atualidade da proposta de Walter Benjamin. A sociedade do espetáculo (1967). articulando a melancolia ao sentimento de fatalidade que se produz quando a vida social transcorre em um mundo vazio do valor da ação humana. 3 Ver Maria Rita Kehl. 2004. 7 T. 5 Hanna Arendt insiste nesta dimensão humana pouco contemplada pela psicanálise: a capacidade de criar o novo a partir da ação. “Três observações sobre os reality shows” em: Eugênio Bucci e M. Divertir-se significa estar de acordo”. em Televisão objeto. 1958. Videologias . p. Adorno. “A indústria cultural” (1947) em: Adorno e Horkheimer. À p. as imagens que ocupam a esfera pública são acessíveis a todos.(cit). 1 Ver Guy Débord.17: “O espetáculo é o sol que nunca se põe no império da passividade moderna”. “O neoliberalismo quer ser sociável e se maquia” em: Goldenberg. Goza! cit. 1996.R. 4 Tomás Abraham. Ver Arendt. À p 135: “Mas a afinidade original entre os negócios e a diversão mostra-se em seu próprio sentido: a apologia da sociedade. Dialética do Iluminismo. 2 Para uma boa discussão do imperativo superegóico do gozo. 173.. desenvolvida desde A origem do drama barroco alemão até as Teses sobre o conceito de história. 55. . Rio de Janeiro: Zahar. . 2002. Tradução de Estela dos Santos Abreu.Kehl. p. The Human Condition. Rio de Janeiro: Contraponto. 1994. 6 O conceito de valor de gozo é de autoria de Eugênio Bucci. ou do trabalho. Tradução de Guido Antonio de Almeida. 8 Embora poucos possuam recursos para consumir os bens em oferta..): Goza! Salvador: Ágalma. Chicago: The University of Chicago.

l u i z a l b e r t o o l i v e i r a Desde que Aristóteles identificou o acaso com a operação de causas eficientes indeterminadas. Mesmo processos estritamente deterministas. ou seja. O acaso como ignorância. o Ocidente buscou capturar e confinar a casualidade através de três figuras redutoras: eventos imprevistos. abrem-se numerosos. . quer pela convergência fortuita de séries causais independentes. transgressões. e as classificou segundo as figuras de tyché e automaton. e que podem exibir diversos níveis de organização. hierarquicamente estruturados . como variância. Algo. Tal incomensurabilidade entre passado e futuro é especialmente importante no caso de sistemas complexos. acabou de mudar. na aplicação de regras de outro modo plenamente determinadas. podem exibir essa sensibilidade não-linear a flutuações das condições iniciais. porém.sintomas ou máscaras do casual . pequenas causas podem dar lugar a grandes efeitos. acumulação e amplificação dessas flutuações ao longo de um período suficientemente largo.como os organismos vivos e os agentes econômicos. um dos avanços mais significativos das Matemáticas no século XX se deu com o estabelecimento das chamadas Teorias do Caos: resumidamente. compostos por muitos elementos capazes de fazer muitas ligações entre si. mediante a reiteração. o que implica que a longo prazo o comportamento do sistema se torna rigorosamente impredizível – ou “caótico”. como coincidência. De fato. a realização de que diferenças minúsculas na configuração inicial escolhida para a evolução de um sistema dinâmico podem conduzir a estados finais vastamente distintos. enfim. ou seja. e logo a uma imprevisibilidade radical. incalculáveis estados futuros. quer. ou fortuitos. ou acidentais . descritos por relações em que causas e efeitos estão univocamente relacionados. em menor ou maior grau desvinculadas das correspondentes causas finais. por desvios. a uma genuína aleatoriedade: desde um estado passado. A razão é que.sucederiam quer por desconhecermos causas indispensáveis para a correta descrição da origem de um acontecimento.

Ao que tudo indica. . esses sistemas podem autoafetar-se. se o conjunto das atividades produtivas dessa espécie alcança uma escala planetária. por ambas as vias. profunda o bastante. Hesíodo nos apresentava a origem do Cosmos a partir de um Chaos que é fenda. a produção torna-se contexto para a própria produção. Ora. a economia passa a ter por horizonte a ecologia. nos brindará em breve com uma visita. por outro. Em A loteria em Babilônia. e sorteios de sorteios – seria indistinguível da vida. a coexistência de dois movimentos díspares: por um lado. uma Fortuna que é também Parca. um alienígena terrestre. Borges nos sugere que um sistema de acasos suficientemente complexo – com prêmios. rumo à prevista Singularidade – o surgimento de uma inteligência não-humana. abertura. Duplo dobramento. o concomitante esforço de se administrar a sobrevivência – ou o destino final – de uma humanidade excessiva. então. fundação. Que seja.ou tendência . ou seja. apresentam-se as condições para um desenvolvimento caótico. surge a possibilidade . a macroabrangência do capital visando assegurar a conversão do horizonte em contexto. Ora.A razão é que sistemas complexos são caracterizados por uma mediação – realizada pela hierarquia de modos de organização – entre o todo (o sistema) e a parte (os elementos).de substituir-se a seleção natural como o operador da evolução biológica das espécies. obsoleta. dupla indeterminação: a microinerência da técnica visando assegurar a realização da finalidade. Talvez se possa antecipar. da vida quotidiana de sempre. destruição última de todo fundamento. acompanhando esta caotização da civilização contemporânea. assim. o engendramento técnico de entidades pós-humanas. o mercado tem como limite a continuidade dele mesmo. castigos. quiçá dispensável. um novo tipo de acaso. isto é. seu comportamento pode alterar sua própria estrutura e remodelar sua própria evolução. ademais das ações que exercem e sofrem sobre e desde o meio externo. se uma espécie adquire a capacidade de manipular as cadeias moleculares que constituem os genomas dos organismos. uma nova errância fundadora. Recordemos que três séculos antes de Platão anatemizar a figura do caos como extremo absoluto da desordem. artificial. uma neofinalidade tecnicamente administrada envida deslocar a casualidade darwiniana. Em ambos os casos. através das biotécnicas e da nanotrônica.

f r é d é r i c g r o s * * conferência em francês com tradução simultânea .

Porque o modelo clássico da guerra supunha. Estas grandes violências coletivas e armadas aparecem sempre mais irredutíveis ao modelo clássico da guerra. um confronto com o inimigo em que se teria de manter-se firme diante de uma ameaça de morte.. a superação de si em Nietzsche problematizam-se a partir da experiência de guerra como troca regulada pela morte. A Europa moderna por outro lado foi construída. “intervenções “ militares de altíssima tecnologia. para o soldado. política e jurídica da violência. num primeiro momento. ao que a cultura ocidental construiu sob o nome de “guerra”. massacres e predações praticados por “senhores da guerra” nos países dilacerados à beira do Golfo. depois do fim da Idade Média e do desaparecimento do sonho do Império. o engenheiro calculando o trajeto de mísseis teleguiados. Mas. Ora. Fala-se sempre de reviravoltas políticas e econômicas resultantes da “mundialização”.. a obediência em Maquiavel. de Platão a Hegel. É assim que a coragem em Platão. Cada Estado devia definir seu lugar numa relação de . decididas e coordenadas por grandes potências em lugares longínquos. A filosofia moral sempre encontrou na guerra um lugar privilegiado de exemplos. Numerosas virtudes éticas. foram construídas a partir de uma idealização da figura do guerreiro. o terrorista. como forma ética. poder-se-ia questionar também sobre a mudança profunda dos regimes de violência em nosso mundo “global”. a ética foi definida por muito tempo como a capacidade de afirmar valores superiores à vida simplesmente imanente. como um espaço político constituído por uma pluralidade de Estados soberanos. Novos personagens surgiram: a criança-soldado.. Para refletir esta mutação em toda a sua amplitude.A violência hoje mudou de cara: atentados terroristas que atingem o coração das grandes cidades do mundo ocidental. como invenção cultural.. o sacrifício em Hegel. é necessário retornar.

respeito aos prisioneiros e às populações civis. a guerra construiu-se amplamente como uma relação de violência permeada por uma dimensão jurídica. uma afirmação política (manter a soberania do Estadonação) e um quadro jurídico (o modelo das guerras justas). A guerra definiu-se pois amplamente. improvável um conflito clássico entre as grandes potências. ao longo da Guerra Fria. a ameaça nuclear simplesmente favoreceu as guerras de baixa intensidade. na tradição ocidental. Só um estado de guerra permanente em suas fronteiras permitiria a um Estado assegurar a paz civil interna. público e justo”. Mas hoje tudo se transformou. de Hobbes a Schmitt) como uma necessidade: ela era o que deveria permitir aos Estados sobreviverem uns perante os outros. Além disso. a guerra é concebida como julgamento de Deus: ela dita o direito.forças permanentemente em movimento. Para tanto. Enfim. Gentilis: “A guerra é um conflito armado. a ameaça de um inimigo comum permitia ao Estado consolidar sua unidade interna. em nome dos Estados. Mas depois da queda do Muro de Berlim é a forma da própria violência que se transformou. como uma reação de violência permeada por uma tensão ética (os valores marciais). tentaram mais tarde definir as justas razões que podiam permitir a um príncipe declarar guerra. de Santo Tomás a Vitória. É quase impossível hoje em dia falar de “guerra” para designar as novas formas que não se enquadram mais no conceito clássico. Enfim. separando o vencedor do vencido. os teóricos dos direitos humanos quiseram editar. A guerra foi então amplamente definida na filosofia política (de Bodin a Spinoza. . a de A. etc). Em uma concepção arcaica. há mais de 50 anos. A introdução da bomba nuclear tornou. regras que os beligerantes deviam respeitar em momentos de conflito (necessidade de uma declaração. Os teólogos. Podese encontrar aqui a estrutura de uma das mais antigas definições da guerra.

Eis o que é preciso pensar atualmente: o fim da guerra não significa a instituição de uma era eterna de paz. uma intervenção decidida por grandes nações visando estabelecer a ordem em um país longínquo. O que pode haver de comum entre um ato terrorista no coração de uma capital do mundo ocidental. o interior e o exterior? Nós entramos na idade dos “estados de violência”. público e justo’ apaga-se lentamente. regulados por processos de segurança permitindo diminuir os riscos. suas atrocidades e reconfortos. sem vitória nem derrota. fluxo mundializado das riquezas e das populações. com suas mentiras e gentilezas. e operações selvagens conduzidas por bandos armados contra populações civis desarmadas? É que são todas elas irredutíveis ao modelo clássico da guerra. abre-se diante de nós. com seus exércitos convencionais e suas batalhas decisivas. . mas o advento do tempo indefinido da segurança.O que é de fato uma guerra. Estes estados de violência estruturam-se segundo as novas linhas de força que desenham a nervura de nosso mundo contemporâneo: reino da imagem. A guerra como ‘conflito armado. nascidas de um novo regime: o dos “estados de violência”. em que o comando de mísseis teleguiados é feito a partir da tela de computador? Onde o homem se faz explodir no meio de uma multidão de passantes desarmados? E sobretudo: o que é uma guerra sem exércitos confrontando-se para batalhas decisivas. O futuro dos estados de violência. ‘aparição’ das vítimas. sem começo nem fim. exigindo que o pensamento inspire novos vigilantes e invente novas esperanças. multiplicação das violências unívocas e unilaterais. sem separação entre o criminoso e o inimigo.

Ao contrário. . decerto. É dos predicados atribuídos aos humanos e da definição de requisitos para sua duração e persistência que modelos de ordem e de sociabilidade podem ser imaginados. O animal que fala é um ser cuja identidade é dada pelos seus nexos. que os seres humanos nascem como náufragos que atendem às ilhas nus. sem qualquer proteção ou inscrição prévia no mundo. trata-se de uma indagação matricial e compulsória a toda filosofia política e moral. certa feita. O sentido de tomar a questão brechtiana como mote deriva da sensação de que. Althusius disse. ao ouvi-la. não estamos diante de uma pergunta ordinária. Há.r e n a t o l e s s a 1. A pergunta “o que mantém um homem vivo?” é a mãe de todas as perguntas. 2. O laço social é o antídoto dos naufrágios. um forte eco aristotélico na imagem: Althusius fala de seres cuja viabilidade existencial decorre do natural ímpeto à sociabilidade. pelo que retira e acrescenta ao mundo.

Um espaço eminentemente confuso e avesso à inscrição. Hobbes. pela operação do espectro da morte violenta. predomínio de padrões sociais crescentemente inóspitos. demonstrou o parentesco entre vida náufraga e impossibilidade da própria vida. a hipótese do naufrágio incurável é logicamente inconsistente. Em uma fase menos do que larvar. Como no grafite escrito no acesso ao elevador da Bica (Lisboa): “Já não há drama. um corolário do naufrágio. A definição do que é humano dependerá da gravitação exercida sobre nossas crenças por esses pólos opostos. 5. otimismo na coisa. Há sinais eloqüentes na história daquele século que desafiam o conforto da macro metáfora do acolhimento: holocausto. Falo de transfiguração e não de dessubstancialização. mais do que todos. de supor que há substâncias originais. A idéia inicial é operar a partir das imagens contrapostas do naufrágio e do acolhimento como antípodas lógicos e como indicadoras de padrões distintos de sociabilidade. mitigar a condição náufraga. o acolhimento é complementar ao naufrágio: ali não se vislumbra a hipótese da terminalidade do naufrágio absoluto. Há. ao menos. E mais. com certo sabor straussiano. erodidas pelo tempo e pelos azares da história. . que acabou por se impor como marca da normalidade. julgo ser relevante pensar a respeito de algumas transfigurações do humano. 6. 4. na metáfora de Althusius. tudo é intriga e trama”. talvez seja importante pensar a respeito de uma condição híbrida e liminar. Por certo. algo entre o naufrágio e o pertencimento.3. A macro hipótese do acolhimento constitui o mito de origem comum de toda filosofia política. O século XX exige que pensemos a hipótese do naufrágio como uma definição terminal possível da condição humana. guerra aérea. pois. A salvação é. dessa forma. 7. A diversidade no campo da filosofia política diz respeito – para retermos a metáfora – a formas distintas de erradicar ou. para não incorrer no pecado. genocídios em geral. A razão é simples: por ser ela uma tradição intelectual constituída por diversas imagens de vida social.

do caráter assertivo da evidência. Razão do descrédito em que caiu essa fábrica do otimismo conservador dos anos 1960 que foi a futurologia (lembremo-nos de Herman Kahn.j o ã o c a m i l l o p e n n a Pensar a mutação é pensar a imponderabilidade do futuro. no entanto. fonte do personagem do filme de Stanley Kubrick. por mais remota que seja. O prognóstico é sempre um “mundo possível”. não deixamos de estabelecer prognósticos. Estes prognósticos constituem modelos de coisas não-existentes. Strangelove. sempre destituídos. que transcendem o mundo conhecido. Fantástico [Dr. e têm como horizonte a possibilidade virtual. de sua realização. . Dr. 1964]). Embora seja impossível determinar precisamente o futuro.

ao mesmo tempo. moldado a partir do movimento das evoluções científicas. “romance científico” (H.. segundo o escritor polonês Stanislaw Lem. revela ao mesmo tempo algo sobre o tempo em que esse padrão de representação foi estabelecido. O que não impede que a ficção científica acerte: as representações que produz. jogada contra outros mundos possíveis. Assim também a sua inversão. contêm elementos às vezes proféticos. projetá-lo linearmente como evolução no futuro.G. a fronteira que separa o “mundo possível” do que conhecemos torna-se cada vez mais permeável. a “distopia” (ou antiutopia) – Nós de Yevgeny . que diagnosticam o caos moral e/ou material em volta do autor. ou o do autor. completa e fechada em si mesma. que reconhecemos como o nosso mundo. ao mesmo tempo. Os estudos já clássicos sobre ficção científica. conforme escreve o crítico croata Darko Suvin. de construir um “mundo possível”. por exemplo. e o seu erro. As utopias hoje são escritas como ficções científicas e consistem basicamente em programas negativos. ou “romance especulativo”. Tratase. já passado. A tecnologia do futuro. e a fábula utópica como um todo (As viagens de Gulliver de Jonathan Swift [1726] etc. Wells). A ficção científica consiste assim. i. radicalizações mais ou menos perceptíveis de modelos extraídos do mundo conhecido. O cômico involuntário da projeção das tecnologias futuras na ficção científica do passado – basta lembrarmo-nos. entendido como uma pequena ilha de espaçotempo. de filmes de ficção científica dos anos 1950 ou 1960 – reside precisamente nisso: a tecnologia (como o futuro.) como. inclusive o nosso. Sabemos que as modificações verdadeiramente determinantes da ciência são em geral surpreendentes. invocando uma ordem alternativa. moralizante. a diferença reduzindo-se a certos traços sutis. ou a mutação em geral) não evolui segundo padrões lineares. descreve precisamente a operação da ficção científica. em uma teoria sobre o futuro e em um ponto de vista exterior para observarmos o presente (ou o passado). Daí seu status didático. uma das fontes do gênero e um de seus subgêneros praticados até hoje.O procedimento aqui resumido. Em exemplos contemporâneos. identificam a Utopia de Thomas Morus (1516).e. imponderáveis. A partir do estabelecimento de um certo padrão do estado de coisas no presente. não nos cansamos de dizer. contra-projetos.

Zamyatin (1921). diferentes tratamentos nas representações clássicas da tecnologia em ficção científica: a robótica. uma segunda: a “culpa” seria uma construção social. Frankenstein.e. i. e o pesadelo antiutópico. propondo uma alternativa diferente ao mundo que conhecemos. A fábula contém. que sempre pressupõe implicitamente a sua própria utopia. os andróides. pelo preconceito cruel. o perfeito escravo e o possível revoltado. o romance abre. se recusou a aceitá-lo pelo que é. que se . fica claro que a “criatura” – encarnação do bom selvagem de Rousseau – só virou o monstro destrutivo em que se tornou por que a sociedade. no interior do romance. criando homens – a “criatura”. uma dupla moral: junto com a crítica à tecnologia. a inteligência artificial. e a leitura do desenlace trágico como punição pela desmesura do cientista. A máquina é ao mesmo tempo o objeto utópico por excelência. assombrado pela húbris prometéica de haver almejado igualar-se aos deuses. 1984 de George Orwell (1949) — críticas ao “totalitarismo” da tecnociência. e não estaria contida na máquina. extraindo o romance gótico da referência arcaizante. O admirável mundo novo de Aldous Huxley (1932). portanto. teríamos renegado os princípios iluministas (“Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos” diz a Declaração dos direitos do homem e do cidadão de 1789) que governam o projeto “blasfemo” de desmistificação científica que está na origem da experiência de Frankenstein. Recentemente a ficção científica tornou-se mais e mais distópica ou simplesmente heterotópica. no entanto. Surge basicamente aí a ficção protagonizada pelo cientista mais ou menos “louco”. Além da interpretação mais conhecida da “revolta das máquinas”. o “monstro” – cujo destino irônico será ser conhecido pelo nome do criador que o rejeitara. Ao se rejeitar o pedido da criatura de ser tratada como humana. Por detrás do monstro há um pedido de aceitação do desigual e uma recusa da sociedade que só se explica. adiante. É essa mesma dupla moral que receberá. e introduzindo a proposição científica iluminista da tecnologia como possibilidade do futuro. a começar pelo seu criador. ou o Prometeu moderno (1818) de Mary Shelley funda o gênero.

Em Neuromancer (1984) de William Gibson. contém a moral distópica do estado de exceção contemporâneo.autonomiza. qual é a sua diferença específica com relação à máquina? A resposta. a que se opõe um humanismo regressivo. ultra-eficiente que se insurge contra o homem. 2003). o cientista será transformado na figura desviante do hacker ciberpunk e. mas as “democráticas”. Em O caçador de andróides (Blade runner. mais adiante ainda. À humanidade. Clarke). o destino de ser depositária da fraqueza humana. de Ridley Scott [1982]. que humanizaram suas máquinas. cria vontade própria. tecnologia. 2003. andróides são tão humanos ou mais humanos que os humanos. baseado no romance de Philip K. Dick. configurada como fábula medieval sobre a sobrevivência do humano em um mundo controlado. formulada por Jean Baudrillard. antes de mais nada. A máquina contém em suma a pergunta sobre o humano: o que de fato o define. ou o supertripulante. . A hipótese sobre a construção virtual da realidade. mas as caçam quando estas reivindicam serem tratadas como humanas. guerreiro da resistência humana. É a tecnologia futura que permite que a diferença humana se identifique. no hacker. em comparação com a raça de super-homens-escravos que produzimos. crístico. acaba-se por descobrir. portanto. já que o humano é. O humano afinal se define por oposição às máquinas das quais no entanto mal se diferencia. no entanto. é ambiguamente humanista. como em 2001: uma odisséia no espaço (1968) de Stanley Kubrick (e Arthur C. O robô é o escravo ideal em Isaac Azimov. Os andróides não sonham com ovelhas elétricas? [1968]). na trilogia Matrix dos irmãos Wachowski (1999. Ou se diferencia projetando nelas o “mal” do futuro que está nele próprio. Ele é o policial que nos vigia no estado de exceção em que se tornaram não mais as sociedades “totalitárias” das antigas distopias. e se volta contra o seu senhor e criador.

p a u l o s é r g i o d u a r t e .

começou a ser constatada uma reviravolta no campo das artes visuais que indicaria se não uma ruptura ao menos uma disjunção com o campo da grande arte do século 20: aquele que tinha se constituído de Cézanne até o expressionismo abstrato norte-americano. queimando muitas instâncias mediadoras antes existentes. particularmente. políticos e culturais.As peças íntimas das relações entre arte e mercado: o novo vestuário do meio de arte São muitas as transformações que ocorreram desde que. em meados da década de 1960. O meio artístico acompanha a mercantilização generalizada de todos os processos sociais. a interação entre mercado e instituições. Mais do que isso. no campo da arte contemporânea passou a ser mais direta. os museus. Em primeiro lugar. . andando no compasso do mundo. cresceu muito a importância das leis do mercado no meio de arte. Eram dados claros sinais de o fim de uma era sem que necessariamente pudessem ser detectadas com clareza as características do novo território em formação.

Outro exemplo poderia ser o que não está descartado na Hamburger Banhof que abriga igualmente uma coleção privada num espaço público. Seu diretor jura que nunca mais aceitará coleções em comodato. era “melhor isto do que nada”. as valorizam pela permanência num museu público e. A instituição fica exposta a essas investidas em face da retração dos fundos disponíveis capazes de dar autonomia de escolha às equipes de curadores e pesquisadores. o crescimento dos acervos se dá pela intervenção direta de marchands e mecenas oferecendo obras de determinados artistas. Em boa parte dos casos. cuidadosamente traçadas por curadores-pesquisadores à luz da história. no início dessa nova conjuntura. e depois vendidas a preços altos valorizadas pela sua estada no museu. Seria longa a lista de exemplos desse tipo de relação às vezes agressiva. mais que isso. foi valorizada e foi adquirida a preços baixos aos artistas que acreditavam que suas peças eram destinadas a um museu público. para posterior apresentação a mecenas e patrocinadores. Vou mais longe: instituições nos países mais ricos estão expostas às decisões de proprietários de coleções que cedem em comodato suas peças. entre mercado e instituição no campo das artes visuais. às vezes promíscua. À força da permanência dessa situação ao longo dos anos perde-se a memória de como as coisas se passavam antes da vigência da clara hegemonia das forças do mercado no campo da arte. negociam com os artistas preços privilegiados pelo seu destino original e depois as destinam ao mercado. O que estou narrando é um fato. . Trata-se de algo que se passou no Museu de Frankfurt.Por exemplo: o planejamento de prioridades de aquisições para preencher lacunas de coleções. O raciocínio. hoje é privilégio de algumas raras instituições de alguns países avançados. Uma coleção ficou sediada no museu.

por exemplo. se ordenam. ou a estatuária eqüestre. quando são significativos. as questões de linguagem da obra. É preciso lembrar a progressiva constituição dessa autonomia que se identifica em grande parte com o que chamamos de crise da representação. novos regimes de fruição Mas desde os anos 1960 detectou-se uma transformação de maior vulto na produção artística que parecia destituir os parâmetros modernos que estabeleciam os princípios da autonomia da arte. A autonomia da forma na arte moderna deriva do processo histórico mais geral que decorre do progresso da ciência e da técnica e o conseqüente advento das especialidades. da revolução industrial. Ela se confunde com o crescente declínio dos temas ou motivos a favor de uma maior força dos elementos estruturais da forma da obra na sua constituição. a representação de figuras mitológicas. a partir de necessidades internas da obra de arte e não mais se impõem de “fora para dentro” como na arte pré-moderna. Se antes uma série de convenções formais estava submetida aos temas.Novos regimes de visibilidade. A conquista da autonomia da arte não é nenhuma invenção perversa do formalismo como pode levar a crer certas leituras excessivamente sociológicas da cultura. de dentro para fora. como aqueles na pintura religiosa regendo a hierarquia dos anjos. se despregam claramente dessa subordinação. a partir de Manet. Paralelamente a essa vertente que atinge seu ponto culminante no Expressionismo Abstrato norte-americano do segundo pós-guerra. digamos. como um campo cognitivo específico submetido a princípios de ordem formal para constituição e ancoragem de suas poéticas. e da cada vez mais complexa divisão social e técnica do trabalho. A figura social do artista. Os temas. sua prática e sua . desenvolvem-se correntes críticas como o dadaísmo e o surrealismo. Essas transformações culminam na segunda década do século passado com a arte abstrata e o surgimento da fruição estética visual completamente desprovida de vínculos temáticos tal como já acontecia na fruição musical. Esta é a própria emergência da arte moderna durante a segunda metade do século XIX e início do século XX. do acelerado deslocamento da importância da vida do meio rural para o urbano.

produção. Agora é objeto que só se completa quando o sujeito da fruição se investe em “co-autor” e parte da obra. Todas essas obras. Aqui também obras como a “Tropicália”. e logo a escultura. de ‘instalações’. São exemplos pioneiros dessas manifestações os “bichos” de Lygia Clark e os “Parangolés” de Hélio Oiticica. As obras são produzidas para um lugar específico. continuavam submetidas ao regime da contemplação para sua plena fruição. passam a campo de investigação específicos a partir de sua lógica interna na produção de sensações como claramente já demonstra a obra de Cézanne que prepara a revolução cubista. A pintura. para logo se transformar em parte indispensável da própria realização da obra. Desaparece a figura dominante desde o Renascimento do artista da corte e surge o profissional liberal cuja produção não está mais dependente diretamente da nobreza ou da igreja e passa a ser mediada pelo mercado. . não estão imunes e impermeáveis a todas essas mudanças. eram chamados ‘ambientes’ e que vieram a ser chamados. vazia. Nos anos 1960 esse modo de “consumir” a obra de arte sofre múltiplas transformações. era concebida para o espaço idealizado por Platão: aquela entidade neutra. mesmo depois da conquista da verdade planar na pintura pelo cubismo e das aventuras do plano no espaço iniciadas por Tatlin. Desdobram-se daí as experiências que. Em primeiro lugar é introduzido o observador participante que inicialmente altera a configuração da obra com sua intervenção. nos anos 1960. Agora surgem as obras in situ (site specific). salvo murais. A obra não está no mundo para ser objeto do juízo estético e alcançar o “subjetivo universal” pensado por Kant na sua terceira Crítica através da contemplação. posteriormente. “Ninhos” e “Penetráveis” de Hélio Oiticica estavam desbravando trilhas ainda pouco conhecidas na arte do século 20. Toda obra de arte moderna. sua presença não apenas altera o lugar como o incorpora como parte da obra. extensa e a mesma em qualquer de seus pontos. Outra mudança importante ocorre no próprio conceito de espaço para a produção artística.

gravura. chegando até mesmo ao seu apagamento no mundo substituído por reflexões teóricas como no caso do movimento inglês Art & Language. O ressurgimento dos temas como núcleos centrais das próprias obras é outra profunda modificação em relação ao passado moderno. a referência ao medium (pintura. Por fim. escultura. . Ambos operam nos interstícios deixados pelas metamorfoses da visibilidade na arte contemporânea e parecem manter uma relação positiva com o legado moderno da primeira metade do século passado. Algo como se o pai moderno não precisasse ser assassinado para viabilizar a passagem dessas novas investigações. arte gay) restauram o conteúdo de modo tão ou mais intenso que o próprio investimento formal. desenho) perde o valor arquetípico que possuía na história da arte. Fazendo interagir a herança da grande arte moderna com experiências do presente. Nestas manifestações a política e a arte de gênero (arte feminista. Em torno dessas transformações que apontam um período de aparente declínio da qualidade artística podemos detectar manifestações de elevado teor poético que se desenvolvem em torno de dois pólos na arte contemporânea: a ‘estratégia do espetáculo’ e as ‘manobras da delicadeza’.Três outras mudanças precisam ser sublinhadas: o fenômeno definido por Lucy Lippard como “desmaterialização da obra de arte” que coincide com a emergência da arte conceitual na qual o modo como a arte é pensada se sobrepõe à sua própria evidência plástica. constituem a produção mais instigante para a arte do novo século.

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Tempo e história (Prêmio Jabuti). 1995). reeditado com CD em 1999) e teve ensaios publicados em Os sentidos da paixão. em revistas como Third Text. entre outros. Antony’s College. Zehar. Rede imaginária – televisão e democracia. entre outros: Desregulagens . A crise da razão. alemão e português. a maioria editada pela Companhia das Letras. Tempo de ensaio (1989).(1982). ensina Sociologia da Tecnologia. com Ênio Squeff (Brasiliense. Francisco de Oliveira é doutor pela USP. Parachute.Educação. espanhol. os seguintes ciclos de conferência. A economia brasileira: crítica à razão dualista (Vozes. O olhar e Ética. . Vozes. planejamento e tecnologia como ferramenta social (1981). 1993). a falsificação da ira (Imago. professor titular de sociologia do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP e ex-presidente do Cebrap-SP (1993-95). Em 199293 foi Professor Visitante do St. nos quais publicou ensaios: Os sentidos da paixão. fundou a empresa de produção cultural Artepensamento. 1999). Publicou Coro dos contrários – A música em torno da Semana de 22 (Duas Cidades) e O nacional e o popular na cultura brasileira – Música. Muito além do espetáculo (Editora Senac São Paulo) e Poetas que pensaram o mundo. Elegia para uma religião (Paz & Terra. Seus ensaios foram publicados em inglês. José Miguel Wisnik é professor de literatura na USP. Collor. O elo perdido (Brasiliense. A outra margem do Ocidente. Alienação e capitalismo. Publicou. Organizou. O avesso da liberdade. O olhar. A descoberta do homem e do mundo. 2004).Adauto Novaes é jornalista e professor. entre outros. Pela Companhia das Letras. 1982). Artepensamento. 1990). foi diretor durante 20 anos do Centro de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional de Arte/Ministério da Cultura. Libertinos/libertários. francês. O desejo. Participou do livro A crise do Estado-Nação (Record. 1986). Laymert Garcia dos Santos é professor Titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Nada e outros periódicos. Via Regia. A crise do Estado-nação (Civilização Brasileira). 1988). A economia da dependência imperfeita (Graal. O homem máquina. lançou O som e o sentido (1989. Civilização e barbárie. Publicou. Em 2000. árabe. Ética. os livros: Os sentidos da democracia (organizado com Maria Célia Paoli. que depois viraram livros. Universidade de Oxford. Politizar as novas tecnologias – O impacto sócio-técnico da informação digital e genética (2003). Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris 7 em 1980.

entre outros: Os labirintos da Alma (1997). metafísica da modernidade (Moderna) e Bergson: intuição e discurso filosófico (Loyola).Axel Kahn é médico. geneticista. Petite métaphysique des tsunamis (Seuil) e Retour de Tchernobyl (Seuil) Luiz Felipe de Alencastro é professor titular da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris 4 Sorbonne. Oswaldo Giacoia Júnior é professor do Departamento de Filosofia da Unicamp. publicou.S. editados pela Companhia das Letras. Pour un catastrophisme éclairé (Seuil). Publications). e Muito além do espetáculo (Editora Senac São Paulo). Avions-nous oublié le mal? Penser la politique après le 11 septembre (Bayard). da qual é também pesquisador e membro do Programa de Ciência-Tecnologia-Sociedade e do Forum de Sistemas Simbólicos. Publicou: Descartes. Self-deception and paradoxes of rationality (C. publicou O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (Companhia das Letras). de Paris). Tem ensaios nos livros A crise da razão. Franklin Leopoldo e Silva é professor do Departamento de Filosofia da USP. . especialista em biotecnologias. e (com a colaboração com Fabrice Papillon) Copies conformes (os dois livros pela Nil Editions. Doutor em Filosofia com tese sobre a filosofia da cultura de Friedrich Nietzsche na Universidade Livre de Berlim. Nietzsche como psicólogo (2004) e Sonhos e pesadelos da razão esclarecida (2005).I. Publicou Et l’homme dans tout ça?.L. Publicou: The mechanization of the mind – on the origins of cognitive science (Princeton University Press). La Panique (Les empêcheurs de penser en rond). Jean-Pierre Dupuy é professor na Escola Politécnica de Paris e na Universidade de Stanford. Organizou o volume 2 da coleção História da vida privada no Brasil: Cotidiano e vida privada no Império (Companhia das Letras). Tempo e história. Além de artigos no Brasil e no exterior e do ensaio A economia política do descobrimento em A descoberta do homem e do mundo (Companhia das Letras). membro do Comitê consultivo nacional de ética francês. O avesso da liberdade.

uma Arqueologia da Desigualdade. São Paulo. Um perfil de Francesco Guicciardini (Editora da UFMG). O olhar. pelo Departamento de Filosofia da FFLCH-USP. Publicou. Além de ensaios nos livros Ética. Colaborou na edição brasileira de Passagens de Walter Benjamin e elaborou a apresentação em Aufklârung na Metrópole – Paris e a Via Láctea. 1999).Lionel Naccache é neurologista do hospital de La Pitié-Salpêtrière em Paris e pesquisador em neurociências cognitivas. Haroche. publicou: Maquiavel republicano (Loyola). La face obscure des démocraties modernes (com Cl. Foi presidente do Comitê de pesquisas de sociologia clínica da Associação Internacional de Sociologia. Paris. . Maquiavel (Zahar) e Republicanismo e realismo. Tempo e história. e A crise do Estado-nação (Civilização Brasileira). Olgária Matos é doutora pela École des Hautes Études.a Escola de Frankfurt. a melancolia. A descoberta do homem e do mundo. Publicou. 2007). é autor de Édipo e o anjo. Le nouvel inconscient – Freud. traduzido no Brasil pela Jorge Zahar em 1990. a revolução (ed Brasiliense). A crise da razão. entre outros livros: De la horde à l’État (Gallimard. As figuras do poder (Via Letteras. 2006) Sérgio Paulo Rouanet é doutor em ciência política pela USP. Civilização e barbárie. 2002) e Clinique du pouvoir (ERES. 1983). Os arcanos do inteiramente outro . O tirano e a cidade (Discurso Editorial).Publicou. ERES.sombras e luzes do Iluminismo. A crise da razão.Paris.Denis Diderot. e ensina filosofia política na UFMG. A razão cativa. e professora de Filosofia da UNIFESP(Universidade Federal de São Paulo). Eugène Enriquez é professor de sociologia de Paris 7 . Newton Bignotto é doutor em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Origens do republicanismo moderno (Editora da UFMG). entre outros. editados pela Companhia das Letras. Discretas esperanças? reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. Publicou ensaios nos livros Os sentidos da paixão.Christophe Colomb des neurosciences (Odile Jacob. Le goût de l’altérité ( Desclée de Brouwer. A Escola de Frankfurt . As razões do Iluminismo e O espectador moderno. O avesso da liberdade. todos editados pela Companhia das Letras. 2007). entre outros: Rousseau. Brasil 500 anos: a outra margem do Ocidente e O avesso da liberdade.

e professor de História e Filosofia da Ciência do Centro de Pesquisas Físicas – CBPF/CNPq. 2004). ed. Estabeleceu. É autor de livros sobre a história da psiquiatria e filosofia penal. pesquisador do Laboratório de Cosmologia Física Experimental de Altas Energias. Boitempo). Autora de varios artigos na imprensa brasileira desde 1974. Renato Lessa é professor titular de Teoria Política do Iuperj e da UFF e desde 2003 presidente do Instituto Ciência Hoje. O avesso da liberdade e O homem máquina. . Ceticismo. Publicou ainda: États de violence – Essai sur la fin de la guerre (Éditions Gallimard. Pensar a Shoah (Relume Dumará). crenças e filosofia política (Gradiva). Gallimard. doutor em Cosmologia.Maria Rita Kehl é psicanalista. Da série publicada pela Companhia das Letras. Agonia. a sair em 2007 pela ed. Frédéric Gros é professor da Universidade de Paris-XII e editor dos últimos Cursos de Michel Foucault no Collège de France. destacam-se: Veneno pirrônico: ensaios sobre o ceticismo (Francisco Alves). Crise da razão. Seus ultimos seus livros sao: Sobre ética e psicanálise (Companhia das Letras). Luiz Alberto Oliveira é físico. entre as quais varias organizadas por Adauto Novaes. tem ensaios em Tempo e história. aposta e ceticismo: ensaios de filosofia política (Editora da UFMG). No momento escreve um novo livro sobre as depressões. com Arnold Davidson uma antologia de textos de Foucault. Boitempo. intitulado O tempo e o caos. Videologias (em parceria com Eugenio Bucci. Formou-se em ciências sociais pela UFF e obteve seus títulos de mestre e doutor em ciência política pelo Iuperj. doutora em psicanalise pela PUC de SP e escritora. 2006). Philosophie (Folio essais 443. Ressentimento (Casa do Psicologo). Publicou ensaios em diversas coletaneas. Entre os livros e ensaios sobre filosofia política que publicou. Seu livro mais recente – Presidencialismo de animação e outros ensaios sobre a política brasileira (Vieira & Lent) – reúne um conjunto de ensaios sobre “filosofia pública” em torno da política brasileira contemporânea.

João Camillo Penna é professor de Literatura Comparada e Teoria Literária da UFRJ. A dúvida depois de Cézanne (em: Artepensamento. O que Seurat será? (em: O olhar. 2004). Gôngora. com Virgínia de Figueiredo. é diretor do programa Collège International de Philosophie. História. 1979). escreveu: “Este corpo. São Paulo: Companhia das Letras. 1994). (Paz e Terra. literatura. 2000). é redator-chefe da revista Poésie (Éditions Belin). Waltércio Caldas (São Paulo: Cosac & Naify. 2003). poeta e ensaísta. traduções de Dante. Hölderlin. memória. Imitação dos modernos de Philippe Lacoue-Labarthe. 1998). São Paulo: outubro de 1990). in SELIGMANN-SILVA. Organização: Adauto Novaes. . da comissão de redação das revistas Critique e Temps Modernes e do periódico Temps de Réflexion (Gallimard). Carlos Vergara (Porto Alegre: Instituto Santander Cultural. São Paulo: Companhia das Letras. Estéticas da crueldade (Atlântica. membro do comitê de leitura da Editora Gallimard. esta fome: notas sobre o testemunho hispano-americano”. Michel Déguy é filósofo. que dirigiu de 1964 a 1968 e na qual publicou. Amílcar de Castro ou a aventura da coerência (em: Novos Estudos CEBRAP. Professor de literatura francesa na Universidade de Paris 8. professor de História da Arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados – CESAP da Universidade Cândido Mendes. Entre seus ensaios e artigos destacam-se: A trilha da trama (em: Antônio Dias. esta dor. Kleist. É autor. em colaboração. 2000). dos livros Anos 60 – transformações da arte no Brasil (Rio de Janeiro: Campos Gerais. Marcio (org. Organização: Adauto Novaes. No. 28. Ângela e GLENADEL. in DIAS. entre outros.). O testemunho na era das catástrofes (UNICAMP. Rio de Janeiro: Funarte. Co-organizadou e co-traduziu. Paulo Sérgio Duarte é crítico. Desde 1990. 2004). entre outros. Fundou La Revue de Poésie. “Marcinho VP: estudo sobre a construção do personagem”. 1998). Paula.

heterodoxa mutação RJ 20 ago 21 ago 22 ago 27 ago 28 ago 29 ago 03 set 04 set 05 set 10 set 11 set 12 set 12 set 17 set 18 set 19 set 24 set 25 set 26 set 02 out - BH 21 ago 22 ago 23 ago 28 ago 29 ago 30 ago 04 set 05 set 06 set 11 set 12 set 13 set 18 set 19 set 20 set 25 set 26 set 27 set 03 out - SP 22 ago 23 ago 24 ago 29 ago 30 ago 05 set 06 set 12 set 13 set 14 set 19 set 20 set 21 set 26 set 27 set 28 set 04 out 05 out José Miguel Wisnik revoluções. duas conferências no mesmo dia no RJ : 17h Michel Déguy e 18h30 Eugène Enriquez www.gov. mutações.novos estados de violência o que mantém o homem vivo: devaneios sobre algumas transfigurações do humano Renato Lessa máquinas utópicas e distópicas João Camillo Penna metamorfoses da visibilidade Paulo Sérgio Duarte as duas mutações de Nietzsche Oswaldo Giacoia Júnior 12 de set. transumano Laymert Garcia dos Santos Axel Kahn anti-humanismo e pós-humanidade descontrole do tempo histórico e banalização da experiência Franklin Leopoldo e Silva as duas mutações de Nietzsche Oswaldo Giacoia Júnior Jean-Pierre Dupuy a fabricação do homem e da natureza os três tempos da mutação o novo inconsciente Lionel Naccache Luiz Felipe Alencastro por um saber sem fronteiras Sérgio Paulo Rouanet Newton Bignotto as mutações do poder e os limites do humano poesia sem palavras? Michel Déguy novas afinidades eletivas Eugène Enriquez Olgária Matos metamorfoses do tempo depressão e imagem do novo mundo Maria Rita Kehl sobre o caos e novos paradigmas Luiz Alberto Oliveira Fr édéric Gros fim da guerra clássica .cultura. pós-humano.. Francisco de Oliveira humano..br/culturaepensamento .

mutações. para as principais universidades do país. pós-humano. Francisco de Oliveira sobre o caos e novos paradigmas Luiz Alberto Oliveira descontrole do tempo histórico e banalização da experiência Franklin Leopoldo e Silva as mutações do poder e os limites do humano Newton Bignotto as duas mutações de Nietzsche Oswaldo Giacoia Júnior metamorfoses da visibilidade Paulo Sérgio Duarte máquinas utópicas e distópicas João Camillo Penna As conferências do Rio de Janeiro serão transmitidas ao vivo.heterodoxa mutação José Miguel Wisnik CURITIBA 23 ago 24 ago 27 ago 28 ago 30 ago 31 ago 03 set 04 set o que mantém o homem vivo: devaneios sobre algumas transfigurações do humano Renato Lessa humano. UFBA e UNICURITIBA .. transumano Laymert Garcia dos Santos metamorfoses da visibilidade Paulo Sérgio Duarte sobre o caos e novos paradigmas Luiz Alberto Oliveira as duas mutações de Nietzsche Oswaldo Giacoia Júnior metamorfoses do tempo Olgária Matos descontrole do tempo histórico e banalização da experiência Franklin Leopoldo e Silva heterodoxa mutação José Miguel Wisnik SALVADOR 10 set 11 set 12 set 13 set 14 set 18 set 19 set 20 set 21 set 24 set a fabricação do homem e da natureza Jean-Pierre Dupuy o que mantém o homem vivo: devaneios sobre algumas transfigurações do humano Renato Lessa revoluções. Curso de extensão universitária reconhecido pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ . na forma de videoconferência..

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