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A imaturidade nossa de cada dia

14/01/2014 15:27:09
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Em novembro de 2012, alunos evangélicos de Manaus se recusaram a apresentar um trabalho sobre religiões afro-brasileiras em uma feira sobre cultura africana. Revoltados, armaram uma tenda fora da escola e decidiram falar sobre missões evangélicas na África. Logicamente, o trabalho não recebeu nota. Uma das reclamações adicionais foi a leitura obrigatória de Jorge Amado, com suas referências ao homossexualismo. Entristeci-me com as implicações do episódio. Não duvido da sinceridade dos meninos, nem de sua fé, de modo algum. Eles acertaram ao identificar tanto as religiões afro-brasileiras quanto o homossexualismo como inseridos em um espírito de antítese à fé cristã. Mas faltou-lhes um terreno bíblico sólido para lidar sabiamente com essa antítese e reagir de um modo que correspondesse ao papel que Jesus espera de nós como agentes transformadores da cultura. Antes de tudo, preciso afirmar que eles pecaram ao desobedecer às ordens dos professores. Diz Calvino, em consonância com a Bíblia (Atos 5.29), que só podemos desobedecer às autoridades caso elas nos ordenem a desobedecer a Deus. Embora escorados em uma cosmovisão não-cristã, como aliás é o estado de toda a educação secular hoje, os professores não lhes ordenaram que pecassem ao pedir tal trabalho, nem ao passar-lhes a leitura de Jorge Amado. Por quê? Porque é possível trabalhar com conteúdos não-cristãos sem aderir a eles, simplesmente. Essa é uma realidade que a igreja brasileira precisa enxergar com urgência. Toda religião pode ser analisada à luz de seu impacto cultural, e mesmo cosmovisões apóstatas têm seus momentos de verdade. Com o tema em mãos, os alunos poderiam ter comunicado algum aspecto positivo nas manifestações culturais e literárias analisadas; e, ainda que não aceitassem nada de positivo nelas, poderiam ter recorrido ao expediente de citar terceiros. Em seguida, acrescentariam uma "opinião pessoal" sobre o assunto, inclusive apresentando informações sobre as missões africanas. Desse modo, não teriam desobedecido, mentido nem ferido suas consciências, e ainda comunicariam aos professores e a todos os participantes da feira alguma verdade sobre a fé cristã. Ouvi mais de um relato de estudantes cristãos que adotaram esse procedimento, com ótimos resultados.

Em vez de procederem à revolta aberta, idealmente os alunos teriam sido despertados por seus pais e pastores para o aspecto louvável da iniciativa da escola, que consiste no seguinte: por décadas a fio, o pressuposto de todo o ensino institucional tem sido materialista e ateu; quando alguém propõe que se fale de determinada religião no ambiente escolar, está quebrando uma gigantesca barreira e indiretamente cavando espaço para que os estudantes também falem de suas crenças. Onde foi apontada uma ordem abusiva e intolerável, havia uma abertura para a pregação do Evangelho — que infelizmente, por imaturidade pessoal e teológica, deixou de ser percebida.

A chave para a compreensão dessa diferença fundamental na segunda atitude em relação à primeira não é um argumento, mas sim uma postura interior, que poderia ser descrita assim: em vez de esperar que o mundo aja em conformidade com a Palavra de Deus e rebelar-se e retirar-se (Jo 17.15) quando isso não ocorre (passividade e ira), nós salgamos o mundo (Mt 5.13), sabendo que todos os que têm algum contato conosco na vida são alvos potenciais da graça de Deus (atuação e amor). No primeiro caso, fechamos os olhos para a cultura e para as

A consciência da presença da cultura no próprio ato de evangelização é uma constante nele. que não precisa dos homens (os deuses atenienses precisavam de ofertas constantes) nem habita em templos. Paulo se utilizou magistralmente de conteúdos da cultura grega. a um tipo de conservadorismo cuja postura dominante é a desse afastamento murmurador e autoprotecionista. a quem Deus ressuscitou dos mortos. acabamos desprezando a humanidade que nos é comum. Nesse arremedo de santidade. No mesmo capítulo. a adesão. já no Areópago (Atos 17. se ignoramos os dados da cultura e nos fechamos para a voz do outro. além de ignorantes quanto a nosso próprio acolhimento inadvertido de influências culturais na mensagem evangélica. Venho testemunhando nos últimos tempos. para falar do Deus da Bíblia. Com grande frequência. o conhecimento das Escrituras. Acreditamos assim que estamos acima da cultura. que ainda é bastante atuante na alma da igreja brasileira. Se a preocupação dos alunos era apologética. Ele começa com a menção a um “deus desconhecido”. por pessoas cristãs. equiparamo-nos a um ídolo (fora do tempo. Na sinagoga (Atos 17. mas sem nos deixarmos submergir por ela. diante de judeus eruditos. a identificação de Jesus como o Messias. que deveriam manifestar uma postura mais madura. ignorando tanto pecados quanto momentos de verdade. embora a maioria dos presentes tenha zombado dele — pois falou em “ressurreição dos mortos” a um público que só queria saber das “últimas novidades” e provavelmente não levava a religião a sério ao ponto de crer em milagres — . Mas. tornando-nos soberbos como deuses. infelizmente. da humanidade). várias almas foram salvas naquele dia.27).19-34).2-4). . A tenda fora da escola simbolizou o desejo de falar sem ouvir em um espaço "neutro": pura fantasia. sem ceder um milímetro nas considerações acerca da verdade do Evangelho. seu ponto de partida é a cultura comum daquele ambiente. pois só o cristão verdadeiro pode assumir sua missão de "estar no mundo sem ser do mundo". partindo disso. da cultura. como se vivêssemos fora do tempo. Mas. aparentemente distante de todas as excessivas humanizações atribuídas aos deuses conhecidos que reinavam em Atenas. Em Atos 17. o conservador — ou seja. e experimentamos uma espiritualidade fechada para os desafios seculares. com preocupação crescente. Paulo inicia sua explanação de um modo totalmente diferente com os gregos que ali estavam — filósofos estoicos e epicureus —. e. lamenta a galopante descristianização do Ocidente e deseja o atraso ou a interrupção desse processo — se comporta desse modo opaco. ou seja. recusando-se a compreender e assumir temporariamente o olhar do outro para melhor comunicar sua cosmovisão. E. eles deveriam ter sido orientados para a compreensão de que não há apologética sem diálogo. no segundo. atestamos a capacidade de adaptação do apóstolo na apresentação da mensagem. comprometer-se com o bem ao mesmo tempo em que se guarda do mal (Tg 1. Entendo que um não-convertido se sinta assim. mas imbuído do mesmo princípio: ele parte da cultura comum daquele ambiente para apresentar o mesmo Cristo como o Messias. Podemos seguir seu modelo. mesmo entre adultos e até líderes. ou seja.percepções alheias. uma das passagens bíblicas mais interessantes do Novo Testamento. A Bíblia nos fornece um exemplo emblemático de um tratamento equilibrado e eficaz da cultura nas palavras do apóstolo Paulo. aquele que acalenta os valores cristãos remanescentes na cultura. Ele começa a combater a idolatria reinante ali partindo de algo que já estava presente naquela cultura. trabalhamos com a cultura.

E um dos mais constantes é uma consequência do autoprotecionismo: a ira pecaminosa. O conservador cristão que coloca seu conservadorismo no lugar das ênfases bíblicas adota a ira como modo preferido de reação. mas devemos abordar o assunto em público. Trata-se de um desvio monstruoso na cosmovisão que o localiza mais perto do farisaísmo que de Cristo. possibilita uma base sólida para examinar todos os temas em pauta na sociedade. em vez de compaixão. rev. No dia 28 de fevereiro de 2013. muitos conservadores se refugiam na memória de tempos mais morais e se entrincheiram ali. Isso diz muito sobre o estado da igreja cristã protestante entre nós. com dores.. por indignar-se com a malignidade do mundo. estando grandemente em desacordo com o que a Bíblia nos ensina. ainda regida sob o mandato inconfessado do não-vejo. E quem não consegue aceitar a realidade do pecado se revela incapaz de se posicionar redentivamente. Mas essa certeza bíblica deveria suscitar em nós apenas isso? A indignação. é a resposta emocional de quem espera que o mundo naturalmente obedeça a Deus. Afinal. Davi Charles Gomes — em quem eu confio o suficiente para dizer com segurança que não é de esquerda —. Na tímida publicidade do evento. Se a ideologia LGBT tem alcançado projeção em todo o mundo ocidental. Mas aprendi na carne. nãofalo. sem nossa intervenção como anunciadores de Cristo.. Mas a questão merece ser examinada. Preciso explorar reações comuns a outros episódios. vive irado. pois percebe o incrédulo como um alvo primordial de ira (humana!).. não-ouço. entre outros. como a dos fariseus. O mesmo escândalo ocorreu entre antiesquerdistas confessos quando o Mackenzie convidou certos preletores para um debate no dia 13 de novembro. como se o máximo a fazer fosse alvejar a bagunça do mundo com cusparadas. não só podemos. foi realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie um debate entre o dr..enquanto o esquerdista inventa uma moralidade própria para sentir que age em nome do amor (e promove destruição. ou seja. se o pecado alheio só suscita surpresa e indignação. Os mais afoitos denunciaram um suposto processo de liberalização da Igreja Presbiteriana do Brasil. que não posso reproduzir acriticamente um comportamento comum de meu meio. O chanceler da instituição. por iniciativa do DA da Faculdade de Direito. Marina Silva e Ariovaldo Ramos. de modo consciente ou inadvertido). Dedos acusatórios se voltaram contra os líderes da instituição. pois a cosmovisão bíblica. em São Paulo. fez o contraponto tanto de Ariovaldo quanto de . O pecado de um homossexual seria tão grave ao ponto de impedi-lo de comparecer às instituições cristãs? Mais grave que o ateísmo ou que a idolatria? Pensar (e sentir) assim não é bíblico. E uma universidade cristã é o ambiente ideal para isso. não de pregação. enquanto outros foram qualificados como “heróis” por divulgarem o acontecimento. isolada. Que dolo houve em receber em suas dependências um militante LGBT para um debate? Há anos o Mackenzie recebe personalidades não-cristãs para discutir temas das mais variadas áreas. Guilherme Schelb. provavelmente a santidade é superficial e exteriorizada. se bem desenvolvida. estiveram no campus de Campinas para o V Simpósio de Ética e Cidadania. jurista. Jean Wyllys? O nome causou rebuliço. Que o leitor não se engane: eu sou conservadora. e o deputado e militante LGBT Jean Wyllys. também recentes. como se um debate público em uma universidade de peso pudesse ser ocultado. alguns chegaram a enxergar uma estratégia de “abafa”.

pelo contrário. Se agirmos conforme o mundo. como o oponente declarado Richard Dawkins. convidado por muitas universidades confessionais americanas para debater com cientistas cristãos. A quem suspeita de que estou apenas preocupada com a reputação de instituições e líderes presbiterianos. Enquanto o Mackenzie sempre convidou cientistas ateus para debater com cientistas cristãos em eventos sobre darwinismo. nas ruas. representantes desses setores não hesitam em usá-lo. fazei -o vós também a eles” (Mt 7. E isso pressupõe ouvir até mesmo o pior inimigo da fé cristã. de longe. em uma igreja. deve abarcar todos os lados das questões públicas. qual será nossa utilidade nesta cultura? Nossa época é de um proselitismo arrogante nos mais variados setores. Infelizmente. o pregador se expressa do púlpito com autoridade espiritual. é instintiva uma aversão ao contato com descrentes. pressupõe-se que o convidado para falar sempre esteja em consonância com os conteúdos da fé cristã. mesmo confessional. diante da notícia. 2 . Quando contam com algum poder coercivo. mais que nunca. zero para religiosos e conservadores. sim. e trazê-lo para nosso meio. não pode ser contra a presença de militantes gays ou de esquerda no Mackenzie.Marina. Mas não pude deixar de ouvir mais uma vez as vozes dos contrariados que. Outros não entendem que universidade não é igreja. teceram seus prognósticos sombrios sobre a instituição e a denominação. Pelo contrário: nesses casos. colocar sobre a mesa um dado inequivocamente identitário do discipulado de Jesus.12). seremos pisados. Além de trazer à baila pontos controversos da atualidade — algo que jamais deveríamos estranhar —. em geral travestido de neutralidade. pois. Se devolvermos o desprezo com que somos tratados. a Unicamp cancelou de véspera . A palavra "tolerância" nunca foi usada tão seletivamente: infinita para materialistas e relativistas. neles. Já a universidade. Algo que poderá lhes ser lembrado da próxima vez que erguerem a voz para defender os projetos de lei autoritários que estão em voga ou que proibirem os cristãos ortodoxos de falar nas arenas públicas. “a esquerda quer ajudar a implantar leis no Brasil que impeçam a liberdade cristã de expressão. “Mas Norma”. Pressão estudantil? Não: pressão indignada dos próprios professores da universidade. por purismo farisaico ou medo do confronto. Um deles chegou a vociferar: "Que façam isso numa igreja". O problema não é pequeno. ele afirma: “Tudo o que quereis que os homens vos façam. sendo ecclesia (de onde se origina o termo) a reunião dos remidos por Cristo. devo lembrar que urge. Por acaso Jesus diz que devemos pagar aos outros na mesma moeda? Não. o I Fórum de Filosofia e Ciência das Origens. do qual participariam evolucionistas e criacionistas. a universidade deu a essas pessoas um excelente exemplo de comportamento cristão. Se você não é contra a presença de Dawkins em debates nas universidades cristãs americanas. De que lugar exato bradam os desgostosos? Muitos não têm uma cosmovisão bíblica adequadamente formada. a maturidade cristã consiste em compreender que o contraditório está por aí. Seria um contrassenso. caso não devêssemos obedecer a Jesus. não passa de nossa obrigação — por amor a quem se deixa seduzir pelos encantos do pensamento apóstata. em outubro de 2013. não estive lá para fornecer minhas impressões sobre debates e debatedores. com cristãos aptos para enfrentar seus desafios. É um contrassenso receber LGBTs e esquerdistas para falar”. que não queriam a presença de criacionistas em seu espaço sacrossanto. imagino a objeção do leitor.

br/teologiadet. [http://www.com.br/reportagens/331557_DEUS+FORA+DA+UNICAMP?pathImagens=&pa th=&actualArea=internalPage] http://www.Vamos responder na mesma moeda de ira ou continuar dando e aprovando exemplos de amor cristão? A escolha é sua — mas.com/noticias/amazonas/evangelicos-se-negam-a-fazer-projeto-sobre- cultura-africana/73155] 2 [http://www.com.asp?codigo=363 .d24am. antes de falar ou agir.istoe. tenha a certeza de conformar-se ao padrão __________________ 1 bíblico.teologiabrasileira.