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PEDRO HENRIQUE CARRASQUEIRA ZANEI 21005711 BC&H DIURNO

FREGE,
OU

A VERDADE DA QUESTÃO

HISTÓRIA DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA – O SÉCULO XX PROFESSOR GUSTAVO LEYVA MARTINEZ UFABC SÃO BERNARDO DO CAMPO 2013

portanto. pois. na ―verdade‖ de uma obra de arte. o primeiro número refere-se à paginação da publicação original do texto (em Beiträge zur Philosophie des deutschen Idealismus I. Com efeito. para Frege (ibid. 1918. segundo: o significado de ―verdadeiro‖ que interessa à lógica. por exemplo. Frege concede (p. o fim de todas as ciências e.) seria nada menos que o significado de ―verdadeiro‖ — o qual. na forma de leis da verdade. leis prescritivas — como são as leis morais ou civis —. constitutiva delas enquanto ciências. 325-345). estaria sempre já pressuposto no próprio ato de tomar-se algo por verdadeiro — o que a lógica pretende expor. que. não seriam. e não meras conjecturas. primeiro: Frege concebe a lógica como uma ciência. importa evitar que se confundam o tomar algo por verdadeiro com o provar que algo é verdadeiro — e é esse. p. que é a edição de que me servi na produção deste estudo. O que Frege nega (ibid. se são elas efetivamente leis. G. o perigo que residiria em se confundirem leis da verdade com leis do pensamento enquanto processo ou evento natural. M. Ademais. alguma função na constituição dessa ordem e estrutura. os significados de ―verdadeiro‖ envolvidos. segundo Frege (Der Gedanke. por isso. Observe-se. assim como as leis descobertas e expostas pelas demais ciências. F. O segundo refere-se à paginação da tradução do texto em FREGE. pp. The Frege reader. Que a lógica seja uma ciência descritiva e que. em sua essência. com as quais é sempre possível que os fatos estejam ou não em conformidade. estariam excluídas da lógica. L. 1997 (traduzido como Thought. 1918-1919. 59/326) que as leis da verdade podem ter. precisamente. Em outros termos.) apenas aquela verdade que é o fim das ciências. argui Frege (ibid. segundo Frege. .). BEANEY. e nesse sentido. Essas. A tarefa da lógica seria.) é que as leis da verdade sejam leis do pensamento no sentido vulgar — no sentido de leis descritivas da ordem e estrutura natural dos processos e eventos mentais. à concepção de lógica de Frege interessaria (ibid. as leis da verdade não sejam prescritivas não implica que não tenham consequência prescritiva alguma. e no uso de um termo em seu sentido ―verdadeiro‖. e não apenas seu fim.). ou na ―verdade‖ de um sentimento. o pensar. (ed. portanto. enfim. pela verdade. das leis da verdade certamente se seguem prescrições para o asseverar. observa Frege (ibid. a Frege. portanto. contudo. mas sim leis descritivas. pp. com as quais é de se supor que os fatos sempre estejam em conformidade. e provavelmente têm. Oxford: Blackwell. aliás. as leis da verdade seriam também leis do pensamento. 58/3251). A verdade seria o assunto da lógica.. descobrir e expor as leis da verdade. para Frege ela é constitutiva da lógica também de um modo que não o é de outras ciências.). e mesmo como a ciência em sentido mais próprio.1 INTRODUÇÃO Conquanto a verdade seja. porque inteiramente determinada. é 1 Nas citações deste escrito de Frege. 58-77). o julgar e o inferir.

a respeito da concepção de verdade como representação 3 — não apenas não excluiriam de todo sua dimensão vivencial. estariam. de todo excluídas da lógica. o que me proponho fazer é. que o pensamento de Frege seria inteiramente isento de reflexões a respeito da dimensão vivencial da verdade?. pois ela aproxima Frege e Heidegger. . e. haveria mesmo. no julgar e no inferir. no projeto fregiano de uma escrita conceitual. pois. segundo Frege. D. não sendo o pensamento de Frege inteiramente isento disso: seriam. 17-25. enfim. É. a essa questão que as reflexões meta-lógicas de Frege a respeito do significado de ―verdade‖ e de ―verdadeiro‖ seriam também reflexões a respeito da dimensão vivencial da verdade — isto é: de como o homem se relacionaria com a verdade e com o ser verdadeiro no pensar. precisamente por não o serem é que se pode pôr a Frege a questão de como seria sequer possível algo como a descoberta e exposição de leis da verdade. é precisamente a exposição da forma geral de uma lei científica2). na concepção de verdade de Frege. de modo que questões acerca dos processos mentais que resultariam em se tomar algo por verdadeiro. e. 3 O interesse desta questão em particular é óbvio. e sem maiores pretensões. a princípio ao menos. pp. Não se poderia. Implicaria isso. Em outros termos. em particular. algo de sua dimensão vivencial que seria constitutivo da própria lógica. o rascunho de uma leitura fenomenológica de Frege. em parte que seja. e. terceiro: à lógica. justamente na medida em que respondem. quarto: Frege concebe o significado de ―verdadeiro‖ relevante para a lógica como inteiramente objetivo. atenta especificamente ao 2 Cf. seriamente duvidar de que a concepção fregiana de verdade é distintamente cientificista e objetivista (e não por acaso: pois uma das coisas que estão em questão.2 somente aquele que importa às ciências. Frege’s logic. MACBETH. elas de fato sugeririam que algo dessa dimensão seria constitutivo da própria lógica. pelo contrário. e mesmo questões acerca da relação entre a verdade e esses processos mentais. mas que. e de como esse relacionar-se é mesmo condição de possibilidade de algo como uma verdade de proposições. e nenhum outro. no asseverar. portanto. que as reflexões de Frege a respeito da verdade — e. ao menos essas reflexões inteiramente isentas de consequências para a lógica ou. Cambridge: Harvard University. Conquanto as leis da verdade que. ao menos enquanto condição de possibilidade da ciência que ela é? O que arguirei. para Frege. competiria descobrir e expor o significado de ―verdadeiro‖ na forma de leis da verdade. para uma discussão dessa questão. é que a resposta para essas duas questões seria negativa. pelo contrário. portanto. todavia. neste breve estudo do pensamento de Frege. 2005. essencialmente. a lógica descreveria e exporia não seriam leis do tomar-se algo por verdadeiro.

observa Frege. Como bem se sabe. por ao menos uma razão. tomado exclusivamente enquanto objeto sensível. é também um retrato nesse sentido. Obviamente — prossegue Frege —. 5 Por ―representação‖ Frege. a cisão entre as tradições filosóficas analítica e hermenêutica teve lugar. implicados na própria possibilidade dessa ciência. nada há de especial que o faça mais ou menos sujeito a ser verdadeiro ou falso que qualquer outro objeto sensível enquanto tal. Que. mais especificamente. sobre a questão da importância da lógica — e. contrariamente à suposição. Desse modo. por exemplo. para ele. Frege imediatamente adverte. A despeito do que pudesse pensar ou não Frege dela. acima de tudo. parece-me algo que importa explorar. é apenas enquanto se pretenda que um objeto retrate algo que se pode pôr. talvez. seguindo Kant. todavia. no entanto. mas uma relação. e um que parece designar uma propriedade comum a retratos4. Uma escultura. pois. mas que estariam. mais que qualquer outro pensador merece ser reconhecido como fundador da lógica matemática. em linguagem natural ―verdadeiro‖ ocorre como predicado. sentenças e pensamentos6. um fator de unidade dessas tradições.3 que Frege teria a nos ensinar a respeito da verdade para além da dimensão estritamente científica de sua obra. designa conteúdos mentais. .). e Frege. Frege atenta. A VERDADE COMO PREDICADO. ao menos na medida em que constitua. julgo que convém tentá-la. em um retrato. dado que a correspondência é uma relação. com seu projeto de uma escrita conceitual. a verdade seria não uma propriedade. a questão de sua verdade ou falsidade. não são representações. sua obra e pensamento ao menos sugiram sentidos de ―verdade‖ não desenvolvidos pela lógica matemática. no entanto. para Frege — como se terá ocasião de discutir —. 1. representações5. Reconheço desde já que é bem pouco provável que Frege ele mesmo concordasse com a leitura que tentarei. no entanto. Sendo esse o caso. e assim também para as representações. a que. 6 Pensamentos. apesar disso. da lógica matemática — para a filosofia. na não correspondência de algo àquilo a que se pretende que corresponda). E A CONCEPÇÃO DE VERDADE COMO CORRESPONDÊNCIA Como Frege observa (ibid. Com efeito. em linguagem natural não é usual que o predicado ―verdadeiro‖ ocorra como um 4 Por ―retrato‖ Frege designa estritamente retratos sensíveis. a respeito da equivocidade envolvida na multiplicidade de aplicações possíveis desse predicado em linguagem natural. é de se supor. parece sugerir-se que a verdade consistiria na correspondência de algo àquilo a que se pretende que corresponda (e a falsidade.

o que se pergunta é. e permitiria aos interlocutores deixá-lo subentendido. apesar disso. em linguagem natural. pergunta-se ―Casado com quem?‖. e especificamente como a relação de correspondência de um retrato ou representação a um objeto. mas sim em que a própria estrutura de uma relação exclui a possibilidade de que a verdade seja uma relação. Dizer-se que ―… é casado‖ subentende que ―Há alguém tal que … é casado com esse alguém‖. reside. sendo efetivamente uma relação. Se for também esse o caso do predicado ―verdadeiro‖. não exclui imediatamente a possibilidade de que o segundo argumento do predicado esteja subentendido pela situação discursiva — isto é: que. talvez não fosse objeção suficiente à suposição de que a concepção de verdade operante na linguagem natural seria a de verdade como correspondência. ao menos até que um deles mude de assunto sem que o outro seja advertido disso. mais propriamente. ainda que determinável em princípio. Assim é. quando se diz ―… é casado‖ e o interlocutor quer que se faça explícito o segundo argumento do predicado. então uma reconstrução formal mais adequada dele seria ―Há algum objeto tal que … é verdadeiro desse objeto‖. de resto. simplesmente ―… é verdadeiro‖. Isto porque. a forma aparente de uma propriedade: porque a situação discursiva fixaria o segundo argumento do predicado. justamente. A diferença entre o predicado ―casado‖ e o predicado ―verdadeiro‖. como uma propriedade (pois já a inadequação da concepção da verdade como uma propriedade foi o que conduziu Frege a discutir a possibilidade de que ela fosse uma relação). a dificuldade com a concepção de verdade como uma relação. presumidamente. enfim. o caso do predicado ―casado‖. Para Frege. um . tenha. Que se diga. ou mesmo sempre. a ser ocupado por uma sentença). seja aquilo de que se fala —. exclui a possibilidade de que o enunciado aplique-se a algum objeto não determinado. não em que o predicado ―verdadeiro‖ operaria em linguagem natural no mais das vezes. Por sorte. nada de importante no argumento de Frege depende do testemunho da linguagem natural. por exemplo. que pode ter feito sua semelhança imperceptível a Frege. já. reside em que. enquanto que. ou ―É verdade que …‖ (onde ―…‖ marca o lugar do argumento do predicado. ou. ou ―Há algum objeto tal que é verdade desse objeto que …‖. por si só. muito do que é comunicado por um enunciado depende da situação discursiva em que ele ocorre. pois. ―Do que se está falando?‖ — o que sugere que seria precisamente a situação discursiva em que o enunciado ocorre o que faria que o predicado ―verdadeiro‖. Esse fato. a dificuldade residiria em que a própria concepção de verdade como relação pressuporia.4 predicado de dois argumentos — isto é: na forma ―Isto é verdadeiro daquilo (ou: em r elação àquilo)‖. nem. quando se diz ―… é verdade‖.

se coincidissem. seriam também a mesma coisa. em algum sentido ainda a se especificar. Nesses termos. para retratos ou representações. Mais propriamente. enfim. ou ao menos se supusesse. nesse caso. mas. Contudo. a própria negação de seu estatuto de retrato ou de representação —. que se intencionaria que esse retrato ou representação correspondesse a algo. a correspondência admitiria graus. aparentemente. ainda que por outra via. a verdade) se e somente se o objeto e seu retrato ou representação coincidissem. ou a si mesma (isto é: que se intencionasse saber se ela teria ou não sido adulterada). 60/327) — é que. isso sugere que. a questão da verdade como correspondência poderia naturalmente se pôr para qualquer objeto. é apenas ao se pôr para ele a questão de sua verdade ou falsidade que algo se constituiria efetivamente em um retrato ou representação. e não duas. contudo. Frege constata (pp. ser verdadeira ou falsa nesse sentido. então a verdade seria. mas.5 outro significado de ―verdade‖. 59-60/326-327) que a questão da verdade ou falsidade de um retrato ou representação qualquer sequer poderia surgir sem que se soubesse. mais que na essência do retrato ou representação em si mesmos. a outra peça de ouro (isto é: que se intencionasse saber se ela seria ou não genuína). parece simplesmente . de se admitirem graus de verdade. não explora detidamente. Ora. os exemplos à p. se seria na intenção de verdade ou falsidade. A Frege (ibid. que residiria o fundamento de sua verdade ou falsidade. ou. a noção de verdade não apenas não se poderia conceber adequadamente como correspondência de um retrato ou representação a um objeto. o estatuto de retrato ou representação de um objeto parece implicar precisamente que ele não coincida com o objeto retratado ou representado.) que. Uma peça de ouro poderia. e que uma correspondência seria perfeita (e. assim sendo. é precisamente essa a conclusão a que Frege ele mesmo chega. ou ela seria mesmo contraditória com essa concepção — uma vez que a verdade de um retrato ou representação implicaria. Frege observa (ibid. e. então. Não parece necessário. anterior à própria noção de correspondência. mas. e não apenas. como se supunha a princípio. Uma consequência imediata desse fato — uma que Frege. pois. desde que se intencione que ela correspondesse de algum modo a algo — por exemplo. Com efeito. apesar de tampouco ignorá-la (cf.) essa proposta. que algo seja constitutivamente um retrato ou uma representação para que seja verdadeiro ou falso pela concepção de verdade como correspondência. nada poderia ser inteiramente verdadeiro. portanto. ainda que se soubesse disso com certeza. não se poderia responder à questão de se ele seria verdadeiro ou falso antes que se soubesse com segurança a que se intencionaria que ele correspondesse. pelo contrário.

ao menos na parte ou sob os aspectos relevantes. mas. se um retrato ou representação não correspondesse inteiramente a um objeto. mas. Frege reconhece (ibid. portanto. o que é a verdade. na medida em que se admita que poderiam corresponder ou não a estados de coisas (o que Frege negará. mas sim na própria pretensão de se definir o predicado ―verdadeiro‖ em geral. Em resumo. assim. . então ele. seria suficiente. uma imagem7 corresponderia a um objeto intencionado (e. nem serviria a ensinar a alguém. também ela implicaria que a noção de verdade como correspondência de um retrato ou representação a um objeto seria contraditória. que se intencionasse um objeto como retrato ou representação de outro somente na parte ou sob os aspectos relevantes. e também para sentenças . então a sentença ―A imagem corresponde ao objeto‖ seria também uma imagem de algo. então ou ele absolutamente não lhe corresponderia. então. 7 Uso ―imagem‖ como termo genérico para retratos. e. lhe corresponderia inteiramente: e. se um retrato ou representação correspondesse a um objeto apenas em parte ou sob certos aspectos. A dificuldade envolvida na concepção de verdade como correspondência. não permitiria em caso algum discriminar se o predicado ―verdadeiro‖ aplica-se ou não. se verdade é correspondência. no caso da concepção de verdade como correspondência. e. a dificuldade envolvida em se definir a verdade como correspondência (ou como qualquer outra coisa).6 inapropriada. e não por inteiro ou sob todos os aspectos. Mas. Isto porque. residiria em que toda e qualquer definição de verdade seria necessariamente não-informativa (porque circular). sempre é possível pôr a questão de se é ou não verdadeiro que o objeto satisfaz essas condições. Ora. uma imagem corresponderia a um objeto intencionado se e somente se fosse verdadeira a sentença ―A imagem corresponde ao objeto‖. dessa feita. para que se repetisse a contradição. Defini-lo seria uma impossibilidade porque — prossegue Frege — toda definição de um predicado envolve a estipulação de condições que um objeto teria que satisfazer para que o predicado a ele se aplicasse. que não já o saiba. não em que essa concepção de verdade seria falsa (ou verdadeira). representações. também absolutamente inútil como definição.). em parte. uma vez que. reside. sugere Frege. ou sob certos aspectos. Em particular. não é difícil adivinhar como esse processo pode ser reiterado ao infinito — e igualmente no caso de outras possíveis definições do predicado ―verdadeiro‖ — de modo a fazer irrelevante qualquer tentativa de defini-lo. e seria verdadeira se e somente correspondesse ao objeto por ela intencionado: e o objeto por ela intencionado não poderia ser outro que não o fato de certa imagem corresponder a um objeto intencionado… Ora. e. por si só. portanto. ou corresponderia ao menos em parte. em última instância). em última instância. seria uma imagem verdadeira desse objeto) se e somente se fosse verdade que essa imagem corresponde a esse objeto.

não os objetos de que se ocupa. Mas o caso da lógica é mais difícil: pois nem a lógica. A física ocupa-se de objetos naturais e das relações necessárias entre eles. e assim expõe. no entanto. 342378. ao menos em parte.). os paradigmas em Kuhn. poderiam corresponder ou não a outros objetos: pois só se também imagens fossem objetos faria algum sentido a noção. . por que a lógica. e de objetos a estados de coisas concebidos como objetos. Contudo. contudo. enquanto ciência da verdade. também a física não poderia dizer o que é a natureza a quem não já o soubesse. In: POTTER. M. a respeito de representações somente poderem corresponder a representações). Cambridge: Cambridge University. ainda que uns mais explicitamente que outros e cada um a seu modo. 2010. R. das estruturas das relações em que a verdade estaria envolvida: porque não é possível dizer efetivamente o que é a verdade na forma de uma definição8. à concepção de verdade como correspondência —. nem qualquer outra ciência poderiam dizer coisa alguma que fosse a quem não já soubesse — em algum sentido muito especial de ―saber‖9 — o que é a verdade. haveria de expor o significado de ―verdadeiro‖ na forma de leis — isto é. um universo uniforme (isto é: um universo em que haveria apenas objetos. DO SENTIDO COMO PENSAMENTO. assim. entretanto. parece necessário conceder-se que imagens seriam também objetos. indiretamente e na forma de leis. talvez. e então a questão de como 8 Nesse sentido. segundo Frege (cf. antes de tudo. que aquilo que coincide com algo seja do mesmo gênero daquilo com que coincide. de correspondência perfeita como coincidência — a qual pressuporia. o que é a natureza. (eds. mas também absolutamente irredutível —. The Cambridge companion to Frege. precisamente isso é o que não faria sentido: pois então ter-se-ia. o transcendental em Kant. com a reminiscência em Platão. nem a física. dentre os quais alguns seriam também imagens). o vago entendimento mediano do ser em Heidegger. seu assunto. para que esse movimento seja sequer possível. em certo sentido — vago. ibid. difícil — artigo de HECK. que vai de imagens a sentenças concebidas como imagens. inescapável. RICKETTS. E DO PENSAMENTO COMO PORTADOR DA VERDADE Mas seria mesmo razoável esse movimento — indispensável. cf. T. que a tarefa do conhecimento é. é sempre a natureza. por exemplo. em última instância. (Essa. o excelente — e. os quais. 9 Algo congênere. Tampouco a física. confesso. pp. a tarefa de reconhecimento do que. sim.. O que é relevante para minha leitura de Frege é que todos esses pensadores (Frege incluso) tenham constatado. Assim como a lógica em seu trato com a verdade. já se conhecia. poderia expor o que é a natureza na forma de uma definição.) 2. não é uma impossibilidade que se ponha para a lógica apenas. Frege and semantics.7 Isso explica. pelo qual Frege haveria demonstrado impossibilidade de se definir o predicado ―verdadeiro‖? A questão se põe porque..

a mesma…) Envolvido na relação entre sentenças e aquilo que elas significam. o delírio último dos realistas. dado que não são objetos corpóreos ou mentais. e. e mesmo para sentenças. correspondendo ou não uns aos outros. então (o que. porque eles só corresponderiam se coincidissem — e. e fossem. então o primeiro Wittgenstein haveria incorrido num erro para o qual Frege já alertava. (A verdade como correspondência é. Mas também nesse caso a sentença seria verdadeira se e somente se essas estruturas coincidissem. cada um deles. seria a possibilidade do converso: de que uma concepção imagética da linguagem implicasse uma concepção de verdade como correspondência. pois. portanto. poder-se-ia supor que a estrutura da sentença refletiria algo da estrutura do estado de coisas da qual ela seria a imagem. representações. Se sentenças fossem efetivamente imagéticas.8 esses objetos relacionar-se-iam entre si.) algo que mediaria essa relação: o sentido exprimido pela sentença. antes. Mas já o próprio estatuto de signo do signo parece excluir a possibilidade de coincidência. é o que impõe que se siga a via. seria constatar a presença de objetos. (Mais importante. a questão da verdade sequer se poria: tudo o que haveria a se fazer. O que pode ser verdadeiro ou falso é. de negar que a questão da verdade ou falsidade se ponha para retratos. portanto. essa concepção de verdade simplesmente excluiria a própria linguagem10. no limite. porque somente cada um dos objetos seria imagem de si mesmo —. No melhor dos casos. envolvido na concepção de verdade como correspondência. que é isto: a impertinência de se admitirem sentenças como imagens e estados de coisas como objetos. o sentido das sentenças: e sentidos absolutamente não se prestam a ser concebidos como imagens. Frege reconhece (ibid.) Julgo que essa consequência da concepção de verdade como correspondência. (Não que sentenças se prestem bem a isso. há algo de particularmente importante a se descobrir no absurdo da concepção específica de verdade como correspondência. Embora Frege sustente que qualquer concepção de verdade que se proponha definir o predicado ―verdadeiro‖ incorreria numa impossibilidade de princípio. Ao 10 É de se perguntar — embora eu não tenha condições de explorar esta questão neste estudo — se não seria precisamente esta a causa profunda do ―silêncio‖ de Wittgenstein: o fato de ele não ter atentado suficientemente para a discussão de Frege acerca do absurdo de uma concepção imagética da linguagem. está por algo que o signo significa. também a concepção de verdade como correspondência de imagem a objeto. é o mesmo). 6061/327-328). nesse caso. ou imagens em geral. mas sim em que. em certo sentido. portanto.) . por-se-ia novamente (que é o que argui Frege). para tal discussão. no fundo. ou. no âmbito de uma concepção de verdade como correspondência. reside nem tanto em que também para ela se reproduziria a impossibilidade geral de se definir a verdade. Se é esse o caso. de fato seguida por Frege (pp. mais que qualquer outra coisa. elas o seriam num sentido muito especial — no sentido de que os signos que compõem uma sentença.

Did Frege really consider truth as an object?. e também a recusa de Frege a prosseguir na procura de uma solução para a questão do significado da verdade em termos do significado do predicado ―verdadeiro‖. etc. Essays on Frege’s conception of truth.). enquanto se possa pôr para ele a questão de sua verdade ou falsidade. pois. exatamente. a verdade não é. mas sim meta-lógico. em termos de predicados. nem mesmo se comporta de fato como um predicado (pp. D. ―sentido‖ é uma noção primitiva de seu pensamento. ou que é verdadeiro que uma sentença é verdadeira. 125-148. propriamente. cf. ou transcendental — ela é o assunto da lógica. a sentença será verdadeira se e somente se for verdadeiro que a sentença é verdadeira. seria o sentido para Frege. por sua vez. tão celebradas e discutidas na literatura secundária (como as noções de sentido e significado.) O que interessa notar por ora. quantificadores (no caso. o quantificador existencial. In: GREIMANN. por exemplo). a rigor. e assim indefinidamente… Em resumo: o que quer que responda 11 Para uma discussão da difícil questão de por que. porém. Em última observação. 2007. mas perde-se em conteúdo intuitivo. Frege chama (ibid. MENDELSOHN. ao discutir as limitações da concepção de verdade como correspondência. em nada lhe altera o sentido: afinal. 61-62/328-329). a sentença ―p é verdadeira‖ é verdadeira se e somente se a sentença ―a sentença ‗p é verdadeira‘ é verdadeira‖ é verdadeira. (ed. (Dessa feita. dizerse de uma sentença que ela é verdadeira. e nota A da p. na tentativa de resposta fregiana para a questão do que é a verdade. Frege o fez em termos de conceitos lógicos — isto é. Amsterdão: Rodopi. 133-139. eu diria que esta é a descoberta fundamental de Frege.9 sentido de uma sentença. Frege trata formalmente verdade e falsidade como se fossem objetos. apesar disso. 61/328) ―pensamento‖. todavia. e. L. são apenas a via: a descoberta de que ―verdadeiro‖ simplesmente não é e. bem como ao discutir a impossibilidade de definir o predicado ―verdadeiro‖. Não se pode negar que há já sinais desse fato na própria linguagem natural. ou: o pensamento exprimido pela sentença. o que marca essa mudança de nível. condicionais) e. como sugeri). e não um objeto qualquer11. Ora. Ganha-se em riqueza conceitual. um conceito lógico. . Cambridge: Cambridge University. mas. 12 Entenda-se: o sentido da sentença. tal qual ele ocorre em linguagem natural. R. e GREIMANN. pp. Com efeito. pp. The philosophy of Gottlob Frege.. D. 2005. Precisamente a introdução das noções de sentido e pensamento é. e definições envolvendo conectivos (no caso. Ora. Seria difícil explicar o que. tão indefinível quanto ―verdade‖. como já se observou. Em termos mais precisos: a sentença12 ―p‖ é verdadeira se e somente se a sentença ―p é verdadeira‖ é verdadeira. etc. nem tanto é seu eventual sucesso ou fracasso. para a qual outras noções. possivelmente. quanto é a mudança de nível da discussão. a solução de Frege para a dificuldade envolvida na concepção de verdade como correspondência implica tanto um ganho como uma perda.

— o que é uma proposição. the acknowledgement of the truth of a thought – the act of judgement. ―Quem…?‖. v. também não interessará à lógica o sentido de qualquer espécie de sentença. a qual. And even when we do use it the properly assertoric force does not lie in it. In: Mind. So it is possible to express a thought without laying it down as true. e exclamações puras tampouco. o artigo de RUMFITT. por sua vez. We have already performed the first act when we form a propositional question. a questão proposicional ―É Frege o autor do Begriffsschrift?‖. da resposta à questão interrogativa ―Quem é o autor do Begriffsschrift?‖. é a resposta à questão interrogativa original. portanto. which it has in common with the corresponding propositional question. Oxford: Oxford University. Mas. e o que uma asserção? Talvez o modo mais simples de se dizer o que é uma proposição seja relacioná-la a uma outra espécie de sentenças: a questão. The former is the thought or at least contains the thought. The two things are so closely joined in an assertoric sentence that it is easy to overlook their separability. (…). cf. mais propriamente. I. the manifestation of this judgement – assertion. Obviamente. equivaler ia asserção ―Frege é o autor do Begriffsschrift‖. Em particular. 62/329). and assertion. pela importância da passagem (pp. (…) We express acknowledgement of truth in the form of an assertoric sentence. ou. pedidos. 781-823. but in the assertoric sentence-form.º 436. n. 62-63/329-330): (…) two things must be distinguished in an assertoric sentence: the content. pois. é a resposta de uma questão de sim-ou-não — aquilo que Frege chama ―questão proposicional‖ (ibid. sentenças que exprimam comandos. é fácil notar que apenas proposições e asserções exprimiriam pensamentos no sentido intencionado por Frege (p. A respeito do quão fundamental para a lógica é a conexão de proposições e questões proposicionais. Uma proposição é uma sentença que pode ser a resposta de uma questão interrogativa (isto é: uma pergunta da forma ―O que …?‖.. Consequently we distinguish: (1) (2) (3) the grasp of a thought – thinking. que contém um pronome interrogativo qualquer)13. unida à resposta ―Sim‖. independentemente de ajuntar-se-lhe ou não o predicado ―verdadeiro‖. . Explica. não é para qualquer sentença que se pode pôr a questão de sua verdade ou falsidade. e. etc. afinal. 2000. trata-se de algo que pertence já à sentença em si mesma. em especial. etc. “Yes” and “No”.). a unidade formada por uma questão proposicional e sua resposta afirmativa ou negativa14. 13 Isto é: uma vez que da resposta de uma questão interrogativa sempre se poderia formar uma questão proposicional — por exemplo. que. pp. Intuitivamente. We do not need the word ‗true‘ for this. 109. no entanto. desejos. não exprimiriam pensamentos.10 pela possibilidade de verdade ou falsidade do sentido de uma sentença. 14 A remissão da proposição à questão proposicional correspondente é mais que um mero recurso para se explicar o que seja uma proposição. Frege — que ora cito direta e integralmente.

por uma questão proposicional. — não haveria também algo mais que pertenceria à questão enquanto questão?… 3. pois. nada mais é que aquilo que é exprimido. enfim. a bem dizer. e. contudo. a questão da verdade ou falsidade do sentido de uma sentença parece adquirir realidade linguística. a rigor. também é verdade. Frege. operando em seu pensamento. assim como Frege a apresenta. em sua forma mais pura. exatamente nas mesmas condições que lhe permitiriam enunciar uma asserção sem força assertórica?… Se é verdade que uma questão proposicional. Isso. que é aquele envolvido na (chamemo-la assim) força questionadora de uma questão. aliás. no entanto. na força assertórica com que a sentença é enunciada. também a forma sentencial da apreensão de um pensamento. pode-se então perguntar: e o mesmo não valeria para a questão (e. . e em especial com a constatação da redundância intrínseca a esse predicado. portanto. não parece atentar suficientemente a que. em última observação. unida a sua resposta (afirmativa ou negativa). uma expressão apenas: pois a asserção é a forma sentencial da manifestação de um juízo. A VERDADE E A FORÇA ASSERTÓRICA. haveria um significado anterior de verdade. Ora. na forma da asserção. que isso só ocorre no caso de uma resposta a uma questão proposicional efetivamente enunciada com força questionadora. é condizente com suas reflexões a respeito do predicado ―verdadeiro‖. Mas a expressão de um sentido por uma questão proposicional sequer é. primeiramente. por certo. em última observação. um ator enunciar uma questão sem força de questão (ou um comando sem força de comando. Frege argui (p. nada há de especial na forma linguística (isto é: sintático-gramatical) de uma asserção que a possa constituir absolutamente como tal: de modo que é possível que um ator. constitui uma asserção. Há algo mais. uma expressão apenas: porque a questão proposicional é. tampouco a expressão de um sentido por uma asserção seria.11 Um pensamento — isto é: o sentido de uma sentença para a qual se põe a questão de sua verdade ou falsidade (ou seja: o sentido de uma proposição) —. então.). que é a sua força assertórica. então. mas. etc. não seja uma. 63/330) que. por exemplo. também para o comando. enuncie algo que tenha forma de asserção e. que pertence à asserção enquanto asserção. Mas. mais propriamente ainda. e todas as outras espécies de sentenças)? Não poderia. Do mesmo modo. A VERDADE E A FORÇA QUESTIONADORA Para Frege.

mas sobretudo a força questionadora com que uma questão proposicional é enunciada. apesar de Frege não atentar para ele. haveria um sentido de verdade operando já na questão (sobretudo se concebida enquanto forma linguística da apreensão de um pensamento) que seria de fato anterior à verdade envolvida na força assertórica. são aspectos vivências da lógica e. 15 Cf. pp. irredutíveis à semântica ou à sintática de uma linguagem formal: são. é precisamente nos aspectos pragmáticos da lógica que parece residir o que. já a força assertórica com que uma proposição é enunciada. 43-44. Para dizê-lo sem mais: apreender um pensamento é questionar. Oxford: Blackwell. dir-se-ia. na constituição mesma do pensamento enquanto pensamento — não apenas é temporalmente anterior à verdade envolvida no juízo ou na asserção (pois. não é sem consequências para a lógica. dessa feita. é o nada menos que o assunto dessa ciência15.12 Mas. Frege – A critical introduction. aspectos pragmáticos. . se num pensamento. Ora. seria constitutivo da lógica. mas é um ato necessariamente referido à verdade ou falsidade daquilo que se apreende. W. enfim. e o sentido de verdade envolvido na apreensão de um pensamento — envolvido. Com efeito. mas o sentido de uma proposição — o sentido de uma sentença para a qual se pode pôr a questão da verdade ou falsidade de seu sentido. não é nem pode ser um ato neutro. porque pressuposto pelo próprio sentido de verdade envolvido no juízo e na força assertórica com que uma proposição é enunciada. ele mesmo. consequências para o formalismo lógico. CONCLUSÃO Nas reflexões de Frege acerca da verdade concebida como assunto e como fim da lógica. parece-me estar inscrito um sentido de verdade a que Frege ele mesmo não atenta e que. para Frege. está sempre já inscrita a possibilidade de sua verdade ou falsidade. enquanto tais (para dizê-lo em termos contemporâneos). mas é também anterior porque pressuposto pela própria asserção. naturalmente. NOONAN. a própria possibilidade de uma proposição apresentar-se na forma de uma questão proposicional unida a sua resposta não é um acidente. então o ato de apreensão de um pensamento. um pensamento não é um sentido qualquer de uma sentença qualquer. Contudo. H. para Frege. — porque que o conteúdo julgável de uma proposição é. Em última observação. para Frege. mas testemunha dessa anterioridade. contudo. Esse sentido. a apreensão do pensamento sempre ou antecede ou é contemporânea ao juízo). Ora. para a discussão de ao menos um ponto em que um aspecto pragmático teria. um pensamento. 2001. precisamente.

Frege – A critical introduction. HECK. (ed. W. .). BIBLIOGRAFIA BEANEY. 2005. Cambridge: Harvard University. R. 1997. D. 342-378. RICKETTS. M. a bem da verdade. “Yes” and “No”. 781-823. pp. In: GREIMANN. Did Frege really consider truth as an object?.º 436. Essays on Frege’s conception of truth. 125-148.). 2010. o que eu queria demonstrar — ou. In: Mind. n. mais sugerir que demonstrar. Cambridge: Cambridge University. v. Oxford: Blackwell. pp. MENDELSOHN. GREIMANN. M. In: POTTER. D. L.). The Cambridge companion to Frege. 2001. 2000. pp. D. H. 2005.. pp. Oxford: Blackwell. (eds. Oxford: Oxford University. R. Frege and semantics. enfim. Frege’s logic. (ed.13 Era isso. NOONAN. 133-139. T. 109. The philosophy of Gottlob Frege. 2007. The Frege reader. Amsterdão: Rodopi. na medida em que me foi possível fazê-lo. MACBETH. Cambridge: Cambridge University. RUMFITT. I.