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O DIREITO COMO CIÊNCIA

Quando alguém decide estudar Direito, imagina que ingressará no Ensino Superior a fim de aprender uma profissão. Em linhas gerais, as pessoas comuns têm em mente que o curso de Direito prepara o estudante para conhecer a leis e normas brasileiras de modo que possa escolher uma dentre as diversas carreiras que a formação jurídica lhe proporciona. O futuro estudante de Direito se vê como um advogado, juiz, promotor público, defensor público, delegado de polícia ou qualquer outra profissão ligada ao Direito.

O papel do profissional do Direito é 'interpretar' e 'aplicar' o direito em questões práticas do seu cotidiano. De fato, espera-se que todo aquele que se forma em Direito tenha domínio de um mínimo de conhecimento para analisar situações concretas - os chamados 'casos concretos', como os juristas gostam de falar - e apresentar o seu devido enquadramento jurídico, nos termos das normas jurídicas existentes.

Realmente, a principal vocação da formação superior em Direito é habilitar profissionais aptos a atuarem nas diversas carreiras jurídicas. Grande parte das disciplinas da grade curricular tem por objetivo apresentar a legislação e os conceitos jurídicos dos diversos ramos do Direito voltados para a prática profissional (Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito Penal, Direito do Consumidor, etc...). Diz-se, que o estudante, ao final do curso, se torna um 'operador do Direito' ou ainda um jurista prático. Ele absorve conhecimento sobre o Direito para aplicálo em uma questão prática - como dito, nos chamados casos concretos.

Mas existe outra dimensão na formação jurídica que o estudante somente conhece depois de ingressar no ensino superior: a de que o Direito também é uma ciência. Essa afirmação soa estranha aos ouvidos do leigo em Direito, pois a imagem que temos de ciência é aquela prática social que se desenvolve em laboratórios e institutos de
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pesquisa, com pessoas vestidas de jaleco manuseando tubos de ensaios e instrumentos de precisão. Não é a imagem que fazemos de juízes e advogados quando estão em busca de respostas corretas e precisas para as questões controversas que perpassam a aplicação do Direito.

Mas os juristas também podem ser 'cientistas' ou, para soar melhor, pesquisadores. Isto ocorre quando estudiosos do Direito se dedicam a produzir conhecimento sobre o Direito. Construir saber jurídico nada mais é do que elaborar trabalhos acadêmicos em textos escritos que buscam estabelecer afirmações verdadeiras e/ou corretamente fundamentadas sobre o modo de se interpretar e aplicar o Direito. Para ilustrar com um exemplo simples, pense em um Manual de Introdução ao Direito Penal. O estudante de Direito que deseja aprender como o crime de homicídio é tratado no Direito brasileiro buscará esta obra na biblioteca e nela irá encontrar a afirmação de que o crime de homicídio é punido no Direito brasileiro com a pena de reclusão de 6 a 20 anos mais multa. Para escrever a obra, o doutrinador estudou a legislação penal e as decisões dos tribunais para ao final, concluir que essa afirmação sobre o Direito Penal brasileiro é correta e verdadeira. Da mesma maneira, o ministro do Supremo Tribunal Federal que precisa decidir acerca da constitucionalidade do sistema de cotas para ingresso nas universidades públicas irá consultar diversos artigos científicos que reúnem os argumentos das posições favoráveis e contrárias a essa medida.

Este é o produto da ciência do Direito. Ele desempenha um papel muito importante na prática social do Direito de difundir um conhecimento cada vez mais correto e bem fundamentado acerca de como deve ser aplicado o Direito. Pois como em toda aplicação do Direito estão em jogo direitos e deveres que o Estado distribui aos seus cidadãos, juízes, advogados e demais membros da estrutura do Estado assumem uma enorme responsabilidade em sua tarefa de concretizar o Direito. Afinal, um enquadramento jurídico impreciso, incorreto ou pouco fundamentado
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mas conhecer bem o Direito. ambiguidades. b) livros jurídicos.também chamada de hermenêutica . precisos e bem fundamentados dos conceitos e institutos jurídicos. o papel da ciência do Direito é transmitir à comunidade jurídica conhecimentos correto. que são textos de 15 a 30 páginas. Mais ainda: por se tratar de um saber interpretativo e argumentativo. o estudante logo percebe que a aplicação do Direito quase nunca é mecânica ou matemática. em média.pode ser fatal na aplicação de uma sentença por um juiz ou na elaboração de uma linha de defesa por um advogado. que resultam da pesquisa empreendida durante a conclusão de um curso de graduação ou pós-graduação em Direito.do Direito é uma atividade complexa que quase sempre resulta em dúvidas. Esses textos se apresentam sob a forma de: a) artigos científicos. c) trabalhos acadêmicos propriamente ditos. 3 . publicados em revistas periódicas especializadas na divulgação de conhecimento jurídico. incongruências e dificuldades que colocam o jurista prático em situações de incerteza. esse trabalho é feito por meio da produção de textos científicos que investigam. os juristas práticos necessitam não só conhecer. como os Trabalhos de Conclusão de Curso. de modo a contribuir para a eliminação das dúvidas e incertezas que naturalmente surgem no processo de aplicação do Direito na sociedade. A interpretação . d) manuais de doutrina. que são livros de apresentação dos conceitos fundamentais e essenciais para o estudo de um ramo do Direito. E isto é feito por meio do estudo dos livros e artigos científicos produzidos pelos cientistas do direito. que são resultado de pesquisas jurídicas mais aprofundadas sobre um determinado tema e livremente conduzidas por seus autores. Por isso. Por isso. Como dito. Dissertações e Teses. analisam e esclarecem as soluções para as controvérsias e obscuridades existentes na aplicação do Direito.

Os cientistas do Direito são também chamados de juristas acadêmicos. advogados. mas também uma atividade científica. que se dedicam a produção de conhecimento sobre o Direito. professores universitários que se dedicam quase que exclusivamente à tarefa de estudar e escrever textos acadêmicocientíficos sobre o Direito.. Daí que a primeira distinção que o estudante de Direito deve ter em mente é que os cursos de Direito formam tanto juristas práticos. etc. quanto juristas acadêmicos. recebe o nome de doutrina..) também podem produzir conhecimento científico sobre o Direito. juristas práticos (juízes. voltado ao exercício de uma profissão que resolve questões do cotidiano. adestrado . via de regra. que procura produzir conhecimento verdadeiro e correto sobre o Direito. mas também vocação. promotores. O conjunto dos estudiosos acadêmicos e práticos que se tornam autores de obras consagradas e influenciam o estudo e a interpretação do Direito por sua autoridade científica recebe o nome de ‘doutrinadores’. Recapitulando.no conhecimento do direito por meio de conceitos que refletiam o exato teor do texto da lei e dos códigos.ou melhor. por sua vez. Essa denominação é herança de um tempo em que o jurista deveria ser 'doutrinado' . Eles podem ser professores-pesquisadores associados a programas de pós-graduação em Direito e não necessariamente são juristas práticos. o Direito pode ser não somente um saber prático. Para se tornar um jurista acadêmico é preciso muito estudo. E os juristas acadêmicos são justamente aqueles que chamamos de cientistas do Direito. eles também contribuirão para a ciência do Direito. que desempenham profissões jurídicas ligadas à aplicação do Direito. São. O saber jurídico por eles produzido. No entanto. Nem todos os estudantes de Direito serão juristas 4 . Ao abandonarem seus gabinetes e escritórios e se dedicarem ao estudo e à investigação de um tema de sua área de atuação para escrever trabalhos acadêmicos sobre o Direito.

Pelo contrário. Nessa etapa ele dará início aos estudos de pós-graduação. A especialização é um curso de duração de um ano e tem a finalidade de preparar o jurista para desenvolver um estudo sobre um determinado 5 . somado ao desejo de ampliar seu conhecimento sobre o Direito. sob a forma de uma monografia. que define as diretrizes curriculares dos cursos de Direito. Muito pelo contrário. que é a produção de um trabalho acadêmico sobre um tema do universo jurídico. os alunos deverão elaborar um Trabalho de Conclusão de Curso. A disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa Jurídica tem a finalidade de introduzir o estudante de Direito no universo da Ciência e da pesquisa jurídica. mestrado e doutorado. por força da Resolução CNE/CES nº 9 de 29/09/2004. a ensinar os estudantes a desenvolver as habilidades mínimas necessárias à formação de um jurista acadêmico. Além disso. Mas a formação de um jurista acadêmico não termina na graduação. poderão se tornar juristas acadêmicos. Estes cursos aprimoram a capacidade de realizarmos pesquisas jurídicas cada vez mais aprofundadas e complexas e são complementadas com ciclos de estudos cada vez mais especializados e densos. é após a formatura que verdadeiramente se inicia o processo de amadurecimento do jurista acadêmico. o aluno também poderá participar dos grupos de pesquisa existentes na Instituição por meio dos programas de iniciação científica. Ao final do curso de Direito. os 'produtos finais' são trabalhos acadêmicos que desenvolvem no aluno a habilidade de produzir textos científicos. a grande maioria se contentará com a obtenção do grau de bacharel em Direito para exercer alguma das profissões jurídicas que o curso prepara. Mas aqueles que possuírem espírito crítico e investigativo. Especificamente na Faculdade Novos Horizontes. A pós-graduação se desenvolve envolve três níveis: especialização.acadêmicos. Os cursos de Direito são obrigados. Além de colocar o aluno em contato com temas jurídicos interdisciplinares. o aluno será gradualmente introduzido na pesquisa jurídica por meio do Projeto Interdisciplinar.

A 6 . maior tende a ser o seu reconhecimento na comunidade acadêmica (muito embora não seja uma regra que os doutrinadores possuam necessariamente o título de doutor para obterem destaque e prestígio em seus trabalhos). pode-se afirmar que a ciência é uma prática social em que pensadores e estudiosos da sociedade empreendem um esforço coletivo voltado à busca de conhecimento correto. antes de iniciarmos nosso estudo sobre a ciência do Direito. No doutorado o pesquisador precisa defender uma tese que apresenta alguma contribuição inovadora e original à comunidade científica do Direito. O doutorado é a mais alta titulação da academia e é conferida após a conclusão de um curso de duração média de quatro anos. Agora que você já sabe o que existe a ciência do Direito. de professor. preciso e fundamentado sobre o universo físico e cultural em que vivemos. como também de capacitá-lo a assumir a função docente. vamos dar continuidade ao curso para saber como se faz constrói uma pesquisa jurídica. isto é.tema do Direito voltado para o dia-a-dia profissional e ao mesmo tempo introduzi-lo no universo da pesquisa jurídica especializada. é preciso fazer uma pequena introdução sobre o que é ciência e sobre a história e a importância do conhecimento científico. A CIÊNCIA E AS CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Em linhas gerais. Quanto mais o jurista acadêmico avança nessa formação e conquista as titulações dos cursos de pósgraduação. 2. Entretanto. O mestrado é um curso de duração média de dois anos e têm a finalidade tanto de formar um pesquisador em Direito que demonstra um amplo domínio sobre um ramo do direito. quem a realiza e para quê ela serve. Atividades respondidas na página 17.

e porque não. uma doença transmitida pelos ratos.preocupação central dessa prática social é a de produzir afirmações que podem ser chamadas de verdadeiras e que. desde a construção de inovações e utilidades tecnológicas até saberes sobre a dinâmica da sociedade.para explicar um acontecimento do universo natural . Desde os pré-socráticos. A história dessa prática social se inicia na Grécia Antiga. com um determinado povo grego. possam servir de um alicerce seguro para ser utilizado pelo homem para diversas finalidades. grande parte das explicações para os fenômenos naturais. por exemplo. dizia-se que a causa da calmaria era a insatisfação de Poseidon. do conhecimento mitológico baseado em crenças e superstições. Naquela época.a calmaria dos mares. da economia. assim. se os mares estavam parados e sem vento e as embarcações não conseguiam navegar de um porto a outro. recorria-se a uma explicação sobrenatural . da política. fazendo brotar as raízes do conhecimento científico. 7 . portanto. Essa forma de conceber o mundo perdurou por muito tempo. Na Idade Média acreditava-se que a Peste Negra ou bubônica.e não na mitologia . os deuses possuíam atributos e características humanas. da cultura.um ato de vontade de um deus . Na mitologia grega. deus dos mares. dentro da concepção mitológica de mundo. também do Direito. Os filósofos da antiguidade introduziram a busca por explicações racionais para os acontecimentos do universo. O surgimento da filosofia grega marcou a primeira ruptura nessa forma de se conceber e de se explicar os fenômenos naturais. o conhecimento filosófico teve o cuidado de trazer fundamentos e razões baseadas na própria dinâmica do universo natural . Acreditava-se que os deuses regiam o destino do universo. Ou seja. afastando-se. da história . Assim. era fruto da ira de Deus em relação aos homens.para as afirmações científicas. sociais e psicológicos era atribuída à vontade de entidade divinas que intervinham nos fatos e acontecimentos do mundo.

Mas o importante é que uma nova forma de conhecer e de investigar o mundo havia sido inaugurada. Ao elaborar um experimento para testar a relação entre a massa de um objeto e a sua velocidade em queda livre . Nessa época. uma série de descobertas. verdadeiras e comprováveis.como fez Galileu. explicava o fenômeno da queda livre dos corpos dizendo que uma pedra atirada ao alto retornaria ao chão porque o lugar comum dos objetos sólidos é a terra. a filosofia antiga inaugurou um modo de conhecer distinto do conhecimento vulgar e do conhecimento mítico ou religioso. responsável por dar-lhe as principais características que nela se verificam até os dias de hoje. colocou em xeque as crenças científicas que até então eram aceitas sem questionamento. No período do renascimento e do início da era moderna a prática social da ciência sofreu uma transformação radical. além de serem precisas. por exemplo. foram produzidas a partir do desenvolvimento de um novo método de investigação e de produção de conhecimento: o método experimental. Mais do que aprender com a realidade empírica do universo natural. A grande novidade dessas descobertas estava no fato de que elas.Assim. a grande maioria dessas suposições se mostrou incorreta à medida que o conhecimento científico foi avançando. Diferentemente destes últimos. Aristóteles. ele pode testar repetidas vezes 8 . o método experimental permitiu que os cientistas pudessem controlar as condições de testagem e verificação dos resultados sobre os fenômenos naturais observados. o conhecimento científico exigia uma fundamentação em razões que deveriam ser encontradas no próprio universo natural. nascidas de uma nova forma de se fazer ciência.o cientista isola o fenômeno que deseja observar de todas as demais condições que possam vir a influenciar o resultado de sua investigação. Com isso. É claro que diante da insuficiência de informações sobre a composição e dinâmica do universo natural. por exemplo .

o cientista precisa 'planejar' a sua pesquisa. um cientista se depara com dois fenômenos sucessivos. portanto. para depois testá-la em um experimento ou em uma pesquisa de campo. Por exemplo. de modo que o seu resultado não seja fruto de um episódio isolado e casuístico.a mesma experiência. as regras e o método utilizados na construção e na condução do experimento e da pesquisa devem ser rigorosamente observados. social e cultural. O filósofo David Hume definiu a essência do conhecimento científico sob a expressão 'imputação causal'. construir o experimento que irá testar a veracidade ou inveracidade dessa suposição. 9 .que nada mais é do que uma antecipação do resultado da pesquisa . Ele supõe. para em seguida submetê-lo aos seus experimentos a fim de obter respostas verdadeiras e precisas acerca do conhecimento do universo. como o aquecimento de um metal e sua posterior dilatação. o método experimental colocou o cientista no papel de investigador da realidade física. Quando cientista desenvolve uma hipótese de pesquisa. Por fim. sob pena de se contaminar o resultado e não se chegar a um resultado que realmente corresponda à realidade. então. o que ele busca é construir uma explicação de tipo ‘causa e efeito’ para dois fenômenos sucessivos. para que um conhecimento acerca do universo natural pudesse ser chamado de cientificamente verdadeiro.nesse caso massa. velocidade e tempo. Com isso. Logo. a partir do desenvolvimento do método experimental.para. mas confirme um resultado concreto e seguro acerca das variáveis sob investigação . Isto significa que ele precisa antever o resultado que deseja conhecer por meio de uma hipótese de trabalho . era preciso que ele tivesse sido testado e comprovado segundo as regras de verificação do experimento que asseguram a neutralidade da experiência. No método experimental. Isto quer dizer que ele elabora questionamentos sobre seu objeto de pesquisa.

tradições e simpatias que proliferam no imaginário popular. mas em toda e qualquer situação em que se verifica a conjunção desses dois fenômenos . É o também o conhecimento que acumulamos com nossa experiência cotidiana.que o calor causa a dilatação dos metais. Ou seja.isto é uma imputação causal . se confirmados e comprovados os resultados. Pode até ser que isso seja realmente verdade. em laboratório. Contudo para que essa afirmação possa ser considerada científica é preciso que essa imputação causal seja válida não apenas naquela experiência observada.universalmente válida de que o calor dilata os metais. até é provável que se verifique. Assim. pode-se dizer que uma nova forma de conhecimento passou a ser produzida em oposição ao chamado conhecimento vulgar .aquecimento. a criança não sofrerá enjôo em uma viagem de automóvel.também conhecido como senso comum . Veja o seguinte exemplo de um conhecimento típico do senso comum: há uma crença popular que diz que se enchermos o umbigo de uma criança com bastante algodão e o prendermos com esparadrapo. de modo casuístico. principalmente. Assim. além de não existir nenhuma certeza sobre essa suposição. ele imputa ao efeito 'dilatação do metal' a causa 'calor'. não há. ele pode realizar uma afirmação científica . seguido da dilatação de um metal. Contudo. a partir do desenvolvimento da ciência moderna. Para isso o cientista necessita do experimento que testará e eventualmente comprovará a imputação causal. nenhum tipo de explicação racional sobre essa 10 . ele irá isolar todos os fatores externos à investigação a partir da construção. pois via de regra as tradições e saberes populares se constroem a partir da confirmação empírica de suas suposições (ou seja. a conjunção entre os dois fenômenos). de um experimento que permita verificar apenas a relação entre calor versus dilatação do metal.e o conhecimento religioso: o conhecimento científico. Feitos os testes. O conhecimento vulgar é aquele que construímos a partir de crenças.

provas e evidências. Essa teoria defende que um determinado conhecimento científico. não há nenhum tipo de comprovação.crença. se converte em conhecimento científico. testado e comprovado segundo as regras e métodos disponíveis à época de sua investigação. Outra importante característica do conhecimento científico é que ele aprofunda e desenvolve nosso vocabulário sobre seus objetos de conhecimento. Quando isso ocorre. com base em testes. o saber popular. Enquanto. Há muitas pesquisas que são conduzidas no sentido de comprovar e confirmar as crenças populares . Karl Popper.a indústria farmacêutica. Mais ainda. inútil ou inverídico. um importante pensador sobre a ciência desenvolveu uma teoria chamada de teoria da falseabilidade. deverá ser considerado verdadeiro até que seja contestado e questionado por outra pesquisa que demonstre a incorreção dos resultados e da pesquisa anterior. Pode-se dizer ainda que uma das diferenças do conhecimento científico para o senso comum é que ele não aceita as respostas e saberes apresentadas pelos ditos populares sem questioná-lo. É para isso que servem os experimentos: para colocar à prova os saberes comuns e até da própria ciência que o cientista não se conforma ou não concorda. as pessoas comuns se referem aos órgãos de nossa cavidade abdominal como 'vísceras' ou 'barriga' um médico saberá diferenciar claramente cada um dos órgãos e suas 11 . Logo. não é possível realizar uma imputação causal de que algodão no umbigo da criança evita enjoos em viagens de automóvel. contudo. testado e comprovado em experimentos. conduz várias pesquisas no sentido de descobrir as propriedades químicas e princípios ativos de plantas e raízes utilizadas no curandeirismo popular para transformá-los em remédios e medicamentos. por exemplo. principalmente. Isso não quer dizer que todo saber popular seja falso. de que esse conhecimento seja universal ou mesmo correto.

em seu livro chamado A Estrutura das Revoluções Científicas. exigindo a necessidade da construção de um novo paradigma. Paradigmas consistem em grandes modelos de compreensão do universo construídos pelo saber científico disponível em cada época histórica. iniciada por Galileu Galilei. Como pano de fundo. ele irá se familiarizar com termos e expressões técnicas que apenas os estudiosos do Direito conhecem. a ciência constrói um vocabulário técnico e preciso acerca da realidade sob sua investigação. O estudante que está iniciando o seu conhecimento da ciência do Direito logo perceberá que. Esse paradigma foi desenvolvido na antiguidade e incorporado também durante a Idade Média nos estudos científicos. por exemplo. permitiram ao físico britânico Isaac Newton construir o paradigma científico da era moderna. que a Terra era o centro do universo. até que o acúmulo de conhecimento científico indique que o paradigma ficou obsoleto e ultrapassado. 12 . que os objetos eram movidos por 'intenções' e 'causas' e que existia uma força motriz que era responsável pela dinâmica do universo. se baseava no paradigma da ciência aristotélica. aponta que todo conhecimento científico se constrói dentro daquilo que ele denomina de 'paradigmas'. pouco a pouco. O conhecimento científico da antiguidade. que sustentava.respectivas partes. Nos dias de hoje esse modelo de ciência construído durante a era moderna vem sendo objeto de reflexão e discussão entre os próprios cientistas. Assim. Os paradigmas irão orientar e moldar as perguntas e respostas dos cientistas durante uma determinada era. Esse paradigma se assenta na construção de relações causais entre os fenômenos naturais e de fórmulas matemáticas precisas que descrevem essas relações. Um filósofo chamado Thomas Khun. As investigações da chamada 'nova ciência'. esse paradigma pressupõe a concepção de um universo em que o tempo e o espaço são planos invariáveis e inflexíveis. dentre outras coisas.

galáxias e buracos negros. vamos ver abaixo algumas considerações sobre o que é 'conhecimento' e sobre quais são os ideais de 'verdade' buscados pelo cientista. baseado na descrição matemática precisa dos experimentos e testes.Contudo. significa realizar uma projeção mental em nosso intelecto. posso dizer que conheço a história do 13 . esse modelo físico desenvolvido por Newton não é capaz de fornecer respostas adequadas para fenômenos que ocorrem tanto no campo subatômico – isto é das partículas que compõem os átomos – nem no infindável mundo dos universos. conforme o objeto que estamos representando em nossa mente. A filosofia trabalha com a noção de conhecimento como uma ‘representação da realidade dotada de significado’. é preciso ainda abordar um importante conceito que é muito utilizado na prática social da ciência: a verdade. Segundo o filósofo Boaventura de Sousa Santos. existem diversos tipos de conhecimento. dissemos acima. da química (teoria das estruturas dissipativas de Ilya Prigogine) e da biologia (teoria da autopoiéses dos sistemas dos biólogos Maturana e Varela). Quando faço uma representação do Jardim do Éden e da expulsão de Adão e Eva do paraíso. Antes de encerrar este capítulo sobre a apresentação da ciência e do conhecimento científico. o paradigma da ciência pós-moderna vem sendo construído a partir de algumas descobertas no campo da física quântica (a teoria da relatividade de Einstein e a teoria da incerteza de Heisenberg). o paradigma de ciência moderna. O papel da ciência. desde o desenvolvimento da física quântica. vendo sendo questionado por um modelo de ciência chamado de pós-moderno. Logo. Pois bem. é produzir conhecimento verdadeiro sobre o universo natural e cultural. Representar. aqui. Assim.

O conhecimento técnico é aquele em que as pessoas dominam um saber-fazer algo. a fim de aprofundar nosso conhecimento sobre os fundamentos nos quais nos embasamos para construir aquilo que chamamos de nossa realidade. o belo e a arte (a estética) e o correto (a ética. Segundo a filosofia tradicional. Trata-se de uma forma de conhecimento religioso.surgimento da humanidade segundo a doutrina religiosa cristã. os sábios e os curandeiros costumam transmitir por meio de receitas. diz-se que essa pessoa representa para si um conhecimento técnico. cuja característica principal é que as afirmações e informações que ele produz sobre o universo natural e cultural podem ser testadas. É o saber herdado da tradição de seus antepassados. Ou seja. Quando alguém domina a habilidade de consertar o motor de um automóvel. E. indagações e questionamentos sobre os saberes existentes. além de serem construídas com base em fundamentos racionais. Qualquer uma dessas formas de conhecimento pode ser considerada 'verdadeira'. Já o conhecimento vulgar ou do senso comum é aquele que as pessoas mais velhas. a moral e a justiça). comprovadas. instalar uma estrutura hidráulica de uma casa ou semear uma plantação. quando a descrição que 14 . diferenciando de todas essas outras formas de conhecimento. Há também o conhecimento filosófico. sem que necessariamente conheçam o como e o porquê dos processos em questão. para que isso ocorra é preciso que haja uma relação de adequação ou correspondência entre o objeto do conhecimento presente na realidade e a representação que fazemos dele em nosso intelecto. São as reflexões sobre a ciência e a realidade (a epistemologia e a ontologia). por fim. máximas da experiência e fórmulas. que se constrói a partir de reflexões. há o conhecimento científico. experimentadas.

A reflexão de pensadores como o filósofo alemão Jürgen Habermas nos mostrou que a verdade é uma construção intersubjetiva e dialógica. Na atualidade. definições e conceitos corresponde exatamente à realidade verificada. Esses ideais de verdade estão relacionados às três dimensões da linguagem existentes. seja ela a comunidade científica. por exemplo. para que um conhecimento seja considerado verdadeiro. a representação que faço do conhecimento sobre esses objetos é equivocada ou inverídica. Não basta que a representação sobre o conhecimento de algo por uma única pessoa seja suficiente para que algo seja caracterizado como verdade. Isto quer dizer que para um conhecimento ser considerado verdadeiro ele precisa ser reconhecido como tal no seio de uma comunidade de pessoas. Somente posso dizer que haverá verdade quando houver uma correspondência entre o pensamento e a realidade. Isto quer dizer que toda verdade é social e culturalmente construída. Se digo que Adão e Eva viveram felizes para sempre no Jardim do Éden ou que a melhor maneira de consertar o motor de um automóvel é dando-lhe marretadas até começar a funcionar. Podemos dizer que existem três ideais de verdade buscados pelos cientistas quando estão construindo suas afirmações científicas. Por fim. O primeiro ideal de verdade diz respeito à produção de afirmações e enunciados que sejam claros. é preciso ainda algo mais. Não posso afirmar. falta tratarmos da questão dos ideais de verdade buscados pelo cientista na construção de seu saber. Essa informação será importante quando estivermos estudando a construção do saber científico pela ciência do Direito. dizemos que o conhecimento é verdadeiro.fazemos do nosso objeto de conhecimento por meio de afirmações. a comunidade religiosa ou a sociedade como um todo. contudo. que todos metais dilatam com o calor 15 . compreensíveis e livres de contradições.

Afinal. Não adianta nada um cientista produzir conhecimentos logicamente corretos. não se converte em uma verdade. Se um cientista afirma que o campo magnético formado por um imã atrairá objetos de madeira. Agora que já fizemos uma breve abordagem sobre a ciência e o conhecimento científico. Trata-se do ideal de verdade semântica. um cientista não pode produzir afirmações que não façam sentido ou que sejam incompreensíveis para aqueles que queiram conhecer suas descobertas científicas. pois a afirmação não corresponde à realidade. Trata-se do elemento de adequação entre o que está sendo dito e o que está sendo observado pelo cientista em suas pesquisas e na realidade. pois diz respeito à correspondência entre as palavras e seu respectivo sentido. se ele não for capaz de convencer o restante da comunidade científica e da sociedade em geral que esse conhecimento deva e possa ser aceito como verdadeiro. à capacidade de veicular informações que correspondam de maneira fidedigna à realidade investigada. O segundo ideal de verdade diz respeito àquilo que foi tratado algumas linhas acima. utilizado e incorporado pela sociedade. bem como que expressem fidedignamente a realidade. Da mesma forma. Trata-se do ideal de verdade sintática. isto é.e. O terceiro e último ideal de verdade é chamado de verdade pragmática. podemos passar ao estudo da ciência do Direito. ele está veiculando uma informação incorreta e inverídica. uma pesquisa que não serve para nada ou que não passa a integrar o conjunto de saberes efetivamente aproveitado. claros e objetivos. ao mesmo tempo dizer que o cobre não dilata com o calor (já que o cobre também é um metal). 16 .

b) Por que a filosofia grega foi importante para o desenvolvimento da ciência? Foi lá que surgiu a filosofia. a) O que é a ciência e qual a sua finalidade? É uma prática social em que pensadores e estudiosos da sociedade se esforçam no sentido de produzir explicações e conhecimento correto. acrescentar um ponto de vista novo sobre o tema em questão d) Quais são os níveis de titulação da pós-graduação? Especialização. etc. preciso e fundamentado sobre o universo físico e cultural em que vivemos. obra dos conhecidos como juristas acadêmicos ou cientistas do direito. livros. A filosofia combatia os mitos que eram tidos como explicação para tudo que acontecia. Jurista acadêmico é aquele que se dedica à produção de conhecimento sobre o Direito. ou seja. os fenômenos naturais inclusive.Fixação de aprendizagem: páginas 01 até 06. A partir daí tem-se uma base para quem sabe produzir um outro trabalho que venha talvez negar. como juízes. a) O que é a ciência do Direito e qual o seu papel na comunidade jurídica? É a ciência que busca o entendimento das leis a fim de aplicá-las aos casos concretos do cotidiano e produzir novos conhecimentos através das doutrinas. etc. completar. Fixação de aprendizagem: páginas 07 até 16. b) Qual a diferença entre o jurista prático e o jurista acadêmico quanto a sua atividade? Jurista prático é aquele que se dedica basicamente à aplicação das normas. c) Como se faz ciência do Direito e quais os seus produtos? Faz-se através de interpretação de leis. artigos. leitura de doutrinas sobre o assunto que pretende estudar. promotores. apoiar. A filosofia buscava o pensamento racional e combatia o pensamento mítico. 17 . mestrado e doutorado. advogados.

para. exigindo a necessidade da construção de um novo paradigma. conforme o objeto que estamos representando em nossa mente. Os paradigmas irão orientar e moldar as perguntas e respostas dos cientistas durante uma determinada era. Ainda podemos dizer que o conhecimento científico não aceita as explicações míticas e as baseadas nos ditos populares. tradições e simpatias que proliferam no imaginário popular. aqui.que nada mais é do que uma antecipação do resultado da pesquisa . construir o experimento que irá testar a veracidade ou inveracidade dessa suposição. g) O que é o conhecimento? Quais os tipos de conhecimento existentes? A filosofia trabalha com a noção de conhecimento como uma ‘representação da realidade dotada de significado’. significa realizar uma projeção mental em nosso intelecto. então. No método experimental. e) Quais as diferenças entre o conhecimento vulgar e o conhecimento científico? O conhecimento vulgar é aquele que construímos a partir de crenças. Já o conhecimento científico é obtido através de pensamentos racionais e experiências. para depois testá-la em um experimento ou em uma pesquisa de campo. É também o conhecimento que acumulamos com nossa experiência cotidiana. Isto significa que ele precisa antever o resultado que deseja conhecer por meio de uma hipótese de trabalho . Ele é também. d) O que é a imputação causal? Qual a sua relação com o conhecimento científico? Quando cientista desenvolve uma hipótese de pesquisa. o cientista precisa 'planejar' a sua pesquisa. Assim. como o conhecimento científico.c) O que é o método experimental e quais as suas características? É um método onde o cientista faz um experimento para provar uma teoria. 18 . Representar. existem diversos tipos de conhecimento. f) O que são paradigmas e qual a sua importância para a ciência? Paradigmas consistem em grandes modelos de compreensão do universo construídos pelo saber científico disponível em cada época histórica. o que ele busca é construir uma explicação de tipo ‘causa e efeito’ para dois fenômenos sucessivos. oposto ao conhecimento vulgar uma vez que se baseia em forma racional de obtenção de conhecimento. até que o acúmulo de conhecimento científico indique que o paradigma ficou obsoleto e ultrapassado.

isto é. vulgar. claros e objetivos. Não adianta nada um cientista produzir conhecimentos logicamente corretos. filosófico e científico. bem como que expressem fidedignamente a realidade. se ele não for capaz de convencer o restante da comunidade científica e da sociedade em geral que esse conhecimento deva e possa ser aceito como verdadeiro. compreensíveis e livres de contradições. O terceiro e último ideal de verdade é chamado de verdade pragmática. O segundo ideal de verdade diz respeito àquilo que foi tratado algumas linhas acima. h) Quais as características de cada um dos três ideais de verdade buscados pela ciência? O primeiro ideal de verdade diz respeito à produção de afirmações e enunciados que sejam claros. à capacidade de veicular informações que correspondam de maneira fidedigna à realidade investigada. 19 . técnico.Os tipos de conhecimento são: religioso.

pode-se não somente estabelecer com clareza o que é e o que não é apropriado investigar dentro das fronteiras daquela ciência. quando se define o objeto de uma ciência. veremos qual é o objeto da ciência do Direito. Na aula de hoje. Veja o exemplo a seguir: se alguém estuda. como também construir o método mais adequado para se fazer isso.3. diz-se que ela constrói as suas 'fronteiras metodológicas' e. Quando uma ciência define com clareza o seu objeto de investigação. O que torna o Direito uma ciência muito peculiar em relação às demais é que tanto seu objeto. A CIÊNCIA DO DIREITO E SEU OBJETO Para que o Direito possa ser considerado uma ciência. Quando se sabe com clareza o quê alguém irá estudar. 20 . é possível construir de modo mais preciso quais serão os modos e formas de investigação desse objeto de estudo. O objeto de uma ciência define o campo de estudo que deverá ser pesquisado e conhecido pelos cientistas daquela ciência. Se alguém estuda as relações de produção e circulação de mercadorias. as relações de poder nos grupos sociais humanos. Note como é a partir do objeto de estudo que podemos saber a que ciência se refere um determinado estudo. é preciso. em grego. se diferencia de outras ciências. é preciso destacar outra consequência muito importante do fato de se definir o objeto de estudo de uma ciência. Antes disso. quanto o seu método são motivo de enormes controvérsias entre os próprios cientistas do Direito. antes de mais nada. contudo. portanto. diz-se que ele está dentro do campo das Ciências Políticas. Sendo assim. diz-se que ele está no campo das Ciências Econômicas. Sua função é traçar os limites daquela ciência em relação a outras áreas do saber. o modo como o cientista deverá abordar e estudar seu objeto de estudo. A expressão 'método' significa. Pode-se. assim. construir o que se denomina 'método'. portanto. O método indica. caminho. que os seus estudiosos definam com clareza qual é o seu objeto.

que não a confunde com outras ciências. diz-se que uma ciência tem um objeto definido quando ela possui um campo de investigação preciso e determinado.a arte da busca do justo e do equitativo.isto é da interpretação de códigos. em que há leis que veiculam em linguagem escrita e com um alto grau de clareza quais são os direitos e deveres que os cidadãos possuem e quais são os comportamentos que o Estado lhes exige. a aplicação do Direito decorria mais da interpretação de costumes e outras máximas da boa convivência entre os homens do que da hermenêutica de textos normativos escritos . Não por menos. por exemplo. um saber prático. Ou seja. Todo jurista daquela época aprendia a dominar com maestria essas habilidades. era muito comum que casos semelhantes tivessem resultados distintos. uma técnica que os juristas desenvolviam individualmente a partir do estudo. Pelo contrário. Naquela época. 21 . à maneira da matemática ou da física. isto é. pois a aplicação do Direito era bem menos objetiva do que nos dias de hoje. para os romanos o conhecimento sobre Direito não poderia ser qualificado de uma scientia. Por isso. Essa característica do Direito na antiguidade abria um campo enorme para o uso da retórica e da oratória na solução dos casos. Faltava-lhe a característica de ser um saber preciso e universal. Os romanos. do treinamento e até mesmo da intuição. os romanos concebiam o Direito como uma prudentia. Esta questão nunca foi totalmente clara para os estudiosos da ciência do Direito. o que a história do pensamento jurídico nos mostra é que a visão do que é o conhecimento jurídico e de sua natureza é motivo de permanentes debates.Como já dito. conforme a capacidade do jurista que estivesse a sua frente. A retórica consiste na técnica de convencer e persuadir por meio do emprego de bons argumentos. leis e decretos. Com isso. definiam o Direito como uma 'arte' . enquanto a oratória na arte de falar bem em público.

O Direito começou a deixar de ser encarado como um saber casuístico e retórico a partir da era moderna. Era um saber construído caso a caso. em princípio. E. Mas ao mesmo tempo em que o jusnaturalismo produziu um conhecimento jurídico mais objetivo. XVI. nenhum argumento retórico que excepcionasse o seu emprego. o casuísmo e a retórica deram lugar ao racionalismo e ao raciocínio dedutivo. não foi possível chamar o conhecimento jurídico de 'ciência'. Um princípio como o pacta sund servanda (os pactos são fonte de obrigações entre os pactuantes) seria autoevidente e sua aplicação nos casos concretos envolvendo disputas contratuais seria uma derivação lógica. o conhecimento sobre o Direito foi se tornando cada vez menos casuístico e mais próximo das exigências do discurso científico A concepção jusnaturalista do Direito deu um importante passo nesse sentido. Na 22 . Pouco a pouco a sociedade sentia a necessidade de estabelecer regras jurídicas mais precisas e exatas de organização da vida social. Não sem razão. portanto. Esse caráter 'casuístico' do Direito se contrapunha à exigência de universalidade do conhecimento científico. assim. isto o saber técnico / prático que se adquiria para solucionar as controvérsias da aplicação do Direito.Enquanto a retórica e a oratória exerceram forte influência na prática jurídica. Não haveria. também criou um problema para fazer do Direito uma ciência. situação a situação. durante toda a Antiguidade e Idade Média o Direito não foi considerado uma ciência. Consequentemente. o nome que se dava ao estudo do Direito era Juris prudentia. racional e universal e. mais próximo do discurso científico que se construiu a partir do séc. a partir de relações lógicas que se assemelhavam às demonstrações de geometria. Os jusnaturalistas descreviam as normas do Direito Natural como sendo regras universalmente válidas descobertas pela Razão. Com o jusnaturalismo.

Com isso. por exemplo. Economia e Política eram ramos do saber que. o Direito não poderia ser um conhecimento autônomo. acreditava-se que a interpretação da legislação de outros saberes deveria recorrer a métodos empregados por saberes que. o conhecimento jurídico produzido pelos juristas. o conhecimento jurídico encontrava-se impregnado de Filosofia Moral. como o conhecimento jurídico ainda não havia construído com clareza as suas fronteiras metodológicas. Assim. contudo. Portanto. a Economia marxista justificava o sistema da propriedade privada e das liberdades constitucionais como uma forma de preservação do modo de produção capitalista e a Política. códigos e leis. Sociologia. No entanto. nos séculos XVIII e XIX. outro importante passo em direção a tornar o Direito uma ciência se deu com o fenômeno da positivação do Direito nas constituições.concepção jusnaturalista. à Sociologia e à Política 23 . Após isso. Assim. Juízes e advogados podem até recorrer à Economia. se constituíram enquanto ciência. buscavam apresentar explicações para o fenômeno jurídico a partir das fronteiras metodológicas e do olhar de suas próprias disciplinas. a Sociologia de Durkheim explicava o sistema de trocas contratuais e da repressão penal a partir da figura da solidariedade social. Nenhuma dessas abordagens foi capaz de explicitar. ficava cada vez mais claro que a interpretação e o estudo dos textos normativos era assunto dos juristas e não de estudiosos de outros ramos do conhecimento. por sua vez. durante esse período foram feitas algumas tentativas de aproximar o Direito do discurso científico até então vigente a partir dessas novas disciplinas que começavam a ser criadas. de fato. o que seria. já que seu objeto se confundia com o de outro saber. era fator determinante para se discutir a Constituição na disciplina que se denominava 'Direito do Estado'. de modo mais precoce.

o faz a partir de fatos já ocorridos. que podem ser constatados por meio da observação e de documentos. que tivemos a clareza dessa distinção. Uma ciência como a Sociologia estuda as relações sociais entre os homens enquanto membro de grupos sociais. primeiramente. construir relações de causa e efeito 24 . por exemplo. construir um método próprio para o Direito exigiu. conhecido e explicitado. isto é. que o cientista do Direito assumisse uma postura dogmática em relação ao direito positivo. com o estudo do Direito que emana das leis. O primeiro passo nesse sentido foi realizar o que se chama de 'recorte metodológico'. De um modo geral. Foi apenas a partir do trabalho do jurista austríaco Hans Kelsen. que o aceitasse como um dado inquestionável da realidade. Logo. portanto. Contudo. Em segundo lugar Kelsen delimita o plano de investigação do cientista do Direito. O cientista social pode. Isto significa que Kelsen pretendia construir uma ciência jurídica que não recorresse ao método de outras ciências para estudar e conhecer o Direito. portanto. Kelsen propunha. isto é que acontecem em algum lugar do tempo e do espaço. isto é. em sua Teoria Pura do Direito. definir o objeto da ciência do Direito. Esse mundo é composto por fatos que 'são'. Isto significa eliminar do campo de investigação do jurista assuntos e temas que pudessem 'contaminar' o estudo do Direito com a influência de outras ciências e seus respectivos métodos. ao estudar o fenômeno da Religião. há uma distância muito grande entre o que os juristas fazem ao aprofundar seu conhecimento sobre o Direito e os estudos produzidos no interior dessas outras ciências. as ciências buscam estudar e compreender o universo natural ou social. que precisa ser investigado. códigos e demais diretrizes normativas promulgadas pelo poder político do Estado. O propósito de Kelsen nesta obra era o de construir uma teoria pura do Direito.para conhecerem melhor o Direito e a cultura da sociedade em que ele se insere. Assim. Ora. Kelsen deixou bem claro que a ciência jurídica somente se preocuparia com o estudo do direito positivo.

A ciência do Direito estuda. isto é das normas que devemos seguir em razão do direito positivo a que estamos vinculados. Já a ciência do Direito não estuda fatos ou acontecimentos já ocorridos. diz Kelsen. Um estudioso do Direito quer saber quais deveres e direitos uma pessoa passa a ter em razão do fato de se tornar proprietário de um automóvel. são projeções que os indivíduos fazem em suas mentes. relações que explicitam quais fatores causam quais comportamentos . antes de mais nada. O que diferencia o conhecimento jurídico de outros saberes é que os juristas se dedicam a estudar e conhecer aquilo que as pessoas devem fazer segundo as imposições do Direito positivo. Em primeiro lugar.isto é. Assim.a partir daquilo que ele constata em suas pesquisas (Durkheim. Representações. Normas jurídicas são o objeto de investigação do jurista. Portanto. O jurista também não está preocupado e saber o quê causa o quê. quando nos deparamos com uma placa em formato circular com uma linha diagonal que atravessa o desenho de um cigarro. como visto na aula anterior. Por exemplo. 25 . Ela não se confunde com o signo existente na realidade do qual extraímos o seu significado. Logo. é preciso ter em mente que uma norma é. o que os juristas estudam são os deveres jurídicos que os cidadãos possuem e quais fatos os desencadeiam. por exemplo. constatou que a taxa de suicídios aumentou à medida que a sociedade se tornou mais industrializada). uma representação de um dever. um estudioso do Direito não está preocupado em saber se as pessoas estão comprando mais ou menos automóveis ou se a razão disso é o elevado preço dos impostos. Deveres são expressos através daquilo que chamamos 'normas'. o plano do 'dever-ser'. portanto. representamos para nós mesmos a norma: "É proibido fumar". Mas o que são normas no sentido técnico da palavra? Lei e norma jurídica são a mesma coisa? Vamos aprofundar essa distinção.

não é possível tomarmos conhecimento de nossas obrigações jurídicas sem nos aprofundarmos no conhecimento da lei. as verdadeiras obrigações jurídicas nascem do processo mental que processa e interpreta esses signos. A grande maioria das pessoas acha que o objeto da ciência do Direito é a Lei.de um determinado Estado consiste o que se costuma chamar de ordenamento ou ordem jurídica. atos administrativos. De fato. Kelsen nos ensina que as leis são os signos exteriores por meio do qual o direito positivo se manifesta. a totalidade das normas jurídicas editadas pelo Estado brasileiro consiste no ordenamento jurídico brasileiro. atos administrativos e decisões judiciais. O verdadeiro objeto da ciência do direito consiste na representação normativa que a comunidade jurídica faz dessas diretrizes normativas. Essa distinção é muito importante para compreendermos o objeto da ciência do Direito. por exemplo). a Constituição é a instância que possui a mais alta capacidade de criar regras jurídicas escritas.que veicula a norma jurídica. etc. a lei e as demais diretrizes normativas provenientes do Estado são apenas o signo . sabemos que o ordenamento jurídico é composto de uma infindável quantidade de leis. O mesmo acontece com as normas jurídicas.) e individuais (decisões judiciais). Ou seja. Ela também cria os demais órgãos do poder executivo. Contudo. Contudo. de um lado há o signo (a placa) e de outro a representação feita em nossa mente (a imagem que construímos em nossa mente de que é proibido fumar em um determinado contexto. O conjunto das normas jurídicas de uma determinada unidade política e territorial . 26 .com o exemplo fica claro que. Muito bem. legislativo e judiciário e lhes atribui o poder de criar outras regras gerais (leis..ou aquilo que você aprenderá na disciplina de Introdução ao Direito sob o nome de 'fontes' do Direito . para ao final construir os deveres impostos pelo Direito. como em sala de aula. No Direito brasileiro.

Imagine se juízes e advogados tivessem que consultar todo esse material a cada ocasião em que necessitam atuar em um caso. deverá pagar IPVA'. a seguinte forma: 'Segundo o direito brasileiro. Assim. que um proprietário de automóvel deverá ser preso. isso tornaria a prática social do Direito totalmente impraticável. Com o perdão do trocadilho. falsa). o papel do cientista do Direito é descrever essa informação em algum trabalho acadêmico que será divulgado para o restante da comunidade jurídica . representamos para nós mesmos que 'Todo proprietário de automóveis deve pagar IPVA'. Por essa razão necessitamos da ciência do Direito. Mais ainda: imaginem a quantidade de decisões contraditórias que teríamos se cada juiz e cada advogado trouxesse a sua própria interpretação à resolução dos casos mais complexos e que demandam uma análise mais profunda de um determinado instituto do Direito. essa informação não corresponde ao teor da norma que emana da legislação brasileira e será. seria a mais correta de se interpretar e conhecer as normas daquele instituto. todo aquele que possuir um automóvel. Essa afirmação terá. por exemplo.Todo esse material jurídico encontra-se registrado nos arquivos oficiais do Estado . em linhas gerais. a tarefa do jurista é produzir proposições jurídicas que possam ser chamadas de verdadeiras aos olhos do restante da comunidade jurídica (Se algum jurista disser. por exemplo .o direito dos contratos ou o direito tributário. O jurista irá se debruçar sobre um determinado aspecto da legislação que ele deseja conhecer melhor . segundo seus estudos.afinal. portanto. Kelsen diz que afirmações desse tipo são chamadas de proposições jurídicas. se a partir da análise da legislação tributária. todas as leis e decisões devem ser publicadas no Diário Oficial do Estado.um manual de doutrina. Assim. um livro. Kelsen diz que a tarefa do cientista do Direito é a de apresentar uma descrição daquela representação mental que dá origem à norma jurídica.e buscará descrever a forma que. 27 . um artigo científico ou uma tese de doutorado.

essa tarefa parece fácil. o cientista do direito busca. Contudo.a última palavra sobre como o direito será aplicado será sempre dos juízes . Descrita dessa maneira. muito embora não seja papel dos cientistas do Direito resolver diretamente os casos . isto é.eles exercem uma função muito importante na prática social do Direito. já que seus estudos quase sempre influenciarão o modo como juízes e advogados conhecem e interpretam o Direito. a norma prescrita pelo Direito. construir um vínculo entre um determinado fato do mundo da vida e uma consequência jurídica a ele associada. Por essa razão. 28 .Por um processo mental denominado de ‘imputação normativa’. nem sempre a legislação deixará transparecer com tanta clareza e de maneira tão unívoca qual o sentido de dever. É aí que a tarefa do cientista do Direito se torna mais importante. Ele recorrerá aos estudos já realizados por um cientista do Direito a fim de se instruir sobre como solucionará da maneira mais correta aquele caso complexo que tem diante de si. Juízes e advogados estão muito envolvidos em suas rotinas cotidianas de aplicação do Direito para ter tempo disponível para se aprofundar em um estudo que exige conhecimento especializado sobre um determinado aspecto da legislação. Seu trabalho é o de demonstrar que essa conexão criada pela imputação é verdadeira segundo as disposições do ordenamento jurídico vigente em um determinado país. por meio das proposições jurídicas.

Fixação de aprendizagem: a) O que é o objeto de uma ciência? Por que uma ciência precisa de um objeto? b) c) Qual a relação entre o método e o objeto de uma ciência? Por que a ciência do Direito demorou a construir o seu objeto e o seu método de estudo? Quais fatores foram relevantes nesse processo? d) e) f) Qual a proposta de Kelsen para a ciência do Direito? O que são normas jurídicas? O que são as proposições jurídicas e qual o seu papel na ciência do direito? g) Qual a relação entre proposições jurídicas e a imputação normativa? 29 .