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CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo : UNESP, 2001. Introdução: Monumento e monumento histórico (pp 11 – 29)
Patrimônio1. Esta bela e antiga palavra estava, na origem, ligada às estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo. Requalificada por diversos adjetivos (genérico, natural, histórico, etc.) que fizeram dela um conceito “nômade” 2, ela segue hoje uma trajetória diferente e retumbante. Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilidade e ubiqüidade de seu presente, “patrimônio histórico” tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade. A transferência semântica sofrida pela palavra revela a opacidade da coisa. O patrimônio histórico e as condutas a ele associadas encontram-se presos em estratos de significados cujas ambigüidades e contradições articulam dois mundos e duas visões de mundo. O culto que se rende hoje ao patrimônio histórico deve merecer de nós mais do que simples aprovação. Ele requer um questionamento, porque se constitui num elemento revelador, negligenciado, mas brilhante, de uma condição da sociedade e das questões que ela encerra. É desse ponto de vista que abordo o tema aqui. Entre os bens incomensuráveis e heterogêneos do patrimônio histórico, escolho como categoria exemplar aquele que se relaciona mais diretamente com a vida de todos, o patrimônio histórico representado pelas edificações. Em outros tempos falaríamos de monumentos históricos, mas as duas expressões não são mais sinônimas. A partir da década de 1960, os monumentos históricos já não representam senão parte de uma herança que não pára de crescer com a inclusão de novos tipos de bens e com o alargamento do quadro cronológico e das área geográficas no interior das quais esses bens se inscrevem. Quando criou-se, na França, a primeira Comissão dos Monumentos Históricos, em 1837, as três grandes categorias de monumentos históricos eram constituídas pelos remanescentes da Antigüidade, os edifícios religiosos da Idade Média e alguns castelos. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o número dos bens inventariados decuplicara, mas sua natureza era praticamente a mesma. Eles provinham, em essência, da arqueologia e da história da arquitetura erudita. Posteriormente, todas as formas da arte de construir, eruditas e populares, urbanas e rurais, todas as categorias de edifícios, públicos e privados, suntuários e utilitários foram anexadas, sob novas denominações: arquitetura menor, termo proveniente da Itália para designar as construções privadas não monumentais, em geral edificadas sem a cooperação de arquitetos; arquitetura vernacular, termo inglês para distinguir os edifícios marcadamente locais; arquitetura
“Bem de herança que é transmitido, segundo as leis, dos pais e das mães aos filhos”, Dictionaire de la langue française de É. Littré.
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D´une science à l´autre. Dês concepts nômades, sob a direção de I. Stengers, Paris, Lê Seuil, 1987.

depreciada. obra-prima de F. intocável daqui por diante. na França. Por exemplo. p.Abé. com o da pesquisa arqueológica. editado por I. Lavirotte e pela escola de Nancy -. Para a administração e para a maioria do público. pela adoção do museu e pela preservação dos monumentos como testemunhos do passado. Hoje. destruído em 1970. uma recém-constituída comissão do “patrimônio do século XX”. sendo esta mais dispendiosa que a de muitos monumentos medievais. É verdade que a década de 1870 assistira. Acts of the XXVth Congress of the History of Art (1986). atualmente. de Baltard. o dispensário de Louis Kahn. na Áustria. Até a década de 1960. cidades inteiras e mesmo conjuntos de cidades4. Lês Halles. eles pertenciam a uma época famosa por seu mau gosto. ele agora compreende os aglomerados de edificações e a malha urbana: aglomerados de casas e bairros.2 industrial das usinas. no contexto da abertura Meiji. dos altos-fornos. in World Art. Le Corbusier fez que suas obras fossem protegidas. como mostra “a lista” do Patrimônio Mundial estabelecida pela Unesco. que não conservava seus monumentos senão mantendo-os sempre novos mediante reconstrução ritual. em Stuttgart. mas foi demolido em 1968. apesar dos vigorosos protestos que se levantaram em toda a França e no mundo inteiro. que foi muito efêmera e. de início reconhecida pelos ingleses3. 4 5 Y. os ateliês Esders de Perret (1919). Themes of Unity in Diversity. que vivera suas tradições no presente. como hoje. Lavin. à discreta entrada do monumento histórico no Japão5: para esse país. 855 e ss. por isso. os belgas lamentam o desaparecimento da Maison du Peuple (1896). o domínio patrimonial não se limita mais aos edifícios individuais. as lojas de departamentos Schocken (1924) de Mendelsohn. parte da Paris de Haussmann está tombada e. que não conhecia outra história senão a dinastia. nesse aspecto. por Guimard. . a assimilação do tempo ocidental passava pelo reconhecimento de uma história universal. demolido em 1973. aldeias. demolida em 1968. III. demolidas em 1955. em princípio. na Filadélfia (1954). que não concebia arte antiga ou moderna senão a viva. Na França. 3 A França criou uma seção do patrimônio industrial da Comissão Superior dos Monumentos Históricos em 1986. o quadro cronológico em que se inscreviam os monumentos históricos era. “A jusante” ele não ultrapassava os limites do século XIX. hoje.L. Hoje. “Lês débuts de la conservation au Japon moderne: idéologie et historicité”. Os próprios arquitetos interessam-se pela indicação de suas obras para tombamento. as cidades da região de Wachai. das estações. essas vozes eram de uma pequena minoria diante da indiferença geral. 1989. O mesmo se dá com a arquitetura “modern style” – representada. onde tiveram origem e onde por muito tempo haviam ficado circunscritas. Enfim. na virada do século. A mansão Savoye motivou várias campanhas pela restauração. Enfim. onze delas estão tombadas e catorze inscritas num inventário suplementar. The Pennsylvania State University Press. Além disso. estabeleceu critérios e uma tipologia para não deixar escapar nenhum testemunho historicamente significativo. vol. O próprio século XX forçou as portas do domínio patrimonial. a noção de monumento histórico e as práticas de conservação que lhe são associadas extravasaram os limites da Europa. praticamente ilimitado “a montante”. demolidos em 1960. o Hotel Imperial de Tóquio. que resistiu aos sismos naturais. obra-prima de Horta.Wright (1915). Provavelmente seriam tombados e protegidos. e os franceses. os pavilhões suspensos que Napoleão III e Haussmann haviam construído tinham apenas uma função trivial. que não lhes dava acesso à categoria de monumentos. coincidindo. Por mais prestigiosas que fossem.

Menciona-se também a necessidade de inovar e as dialéticas da destruição que. em Veneza. cap. oitenta países dos cinco continentes haviam assinado a Convenção do Patrimônio Mundial. que aconteceu em Atenas (1931) 7. p. no Egito. 226 10 Demolido em 1677 por ordem de Luís XIV. no ano de 1964. organizada pela Sociedade das Nações (SDN). mas pouco se interessavam em conservar aquele construído pelas edificações. Paris. Foi necessário fechar. das 6 P. Por seu lado. Laurens. que continuaria sendo paróquia da cidade. serve atualmente de justificativa a grande número de autoridades para sua oposição aos pareceres dos arquitetos dos edifícios franceses. de charles Perrault) e a faz gravar por Lê Pautre. 9 8 Monuments À la gloire de Louis XV. cronológica e geográfica – dos bens patrimoniais é acompanhada pelo crescimento exponencial de seu público. Sua imagem foi conservada principalmente por J. 1909. Esse crescimento recorde começa a provocar inquietação. com as Mémoires de ma vie. 1976. inadequação aos usos atuais e paralisação de outros grandes projetos de organização do espaço urbano. que ignorava esses valores. que se “abandonasse” 9 todas as construções góticas. No que diz respeito à Île de la Cite. publicado por Icomos – GB. fizeram novos monumentos se sucederem aos antigos. H. 1559) e por Claude Pernault (desenho. para sua tradução de Vitrúvio (1684). A segunda. 24713). Universidade de Kent. como o famoso palácio de Tutele10. ele observa: “Com exceção da Notre-Dame. Charte du tourisme culturel .Icomos. 7 Conferência sobre a conservação artística e histórica dos monumentos. preconizava. Da primeira Conferência Internacional para a conservação dos Monumentos Históricos. em seu plano para restaurar e embelezar Paris. cf. Icomos. IV. manuscritos. a China6. Resultará ele na destruição de seu objeto8? Os efeitos negativos do turismo não são percebidos apenas em Florença e em Veneza. Ryckmans. “The Chinese Attitude Towards the Past”. F. Bonnefon. uma vez que atrapalhavam os projetos de modernização das cidades e dos territórios. para fins de “embelezamento”. basta lembrar as centenas de igrejas góticas destruídas nos séculos XVII e XVIII. por mais prestígio que tenham tido na era clássica. Résolutions de Cantorbery sur lê tourisme culturel. porém.3 Na mesma época. Biblioteca Nacional da França. como em outros lugares. a inflação patrimonial é igualmente combatida e denunciada por outros motivos: custo de manutenção. e considerando apenas a França. o arquiteto de Luís XV. nota 117. e do edifício dos Enfants-Trouvés. cuja proteção é recente e começou por levar em conta as residências individuais das grandes personalidades nacionais. deixaram de ser demolidos. os Estados Unidos foram os primeiros a proteger seu patrimônio natural. a tradição de destruição construtiva e de modernização. começou a abrir e a explorar sistematicamente o filão de seus monumentos históricos a partir da década de 1970. De fato. contou com a participação de três países não europeus: a Tunísia. Pierre Patte. Este último faz uma descrição entusiasmada do edifício no diário de sua Voyage à Bordeaux em 1669 (publicado por P. Nem mesmo os monumentos da Antigüidade. Na Europa. de apresentar algumas dissonâncias. Androuet du Cerceau (Livre d´architecture. só participaram europeus. Bruxelas. Paris. A tripla extensão – tipológica. O concerto patrimonial e o concertamento das práticas de conservação não deixam. Quinze anos mais tarde. ibid. Na França. de que dão provas esses exemplos. os túmulos do Vale dos Reis. ao longo dos séculos. não haveria nada a preservar nesse bairro”. A cidade antiga de Kyoto se degrada a cada dia. 1765. sem remontar à Antigüidade ou à Idade Média. . o México e o Peru. em Bordéus. 1990. documento reprográfico. e substituídas por edifícios barrocos ou clássicos.

na França. de difícil acesso. De antemão. De sua parte. justapostos e articulados. nas cidades históricas. porém. Ele continua. Eles desejam. Para me orientar. ou condenados. a prevalecer nos Estados Unidos. . The Tourist: A New Theory of the Leisure Class. recuarei no tempo em busca das origens. assim como na Síria ou no Irã. os estilos também coexistiram. Elas não lhe esgotam o sentido. uma reação contra a mediocridade da urbanização contemporânea. memoriais. ao menos provisoriamente. elemento-chave de um conjunto neoclássico único na região. Suíça. 1976. porém. A história da arquitetura. marcar o espaço urbano: não querem ser relegados para fora dos muros.4 Comissões dos Monumentos Históricos e dos setores sob proteção do Estado. fria e ao mesmo tempo abrasadora. mas sim manter sua dinâmica: este é o caso da pirâmide do Louvre. Contudo. Os proprietários. onde a limitação do uso do patrimônio histórico privado é considerada um atentado contra a liberdade dos cidadãos. reivindicam o direito de dispor livremente de seus bens para deles tirar o prazer ou o proveito que bem entendam. McMillan. para explicar seu extraordinário desenvolvimento. por um centro cultural polivalente. Nos países do Magreb e no Oriente Próximo ainda se usam os mesmos argumentos para justificar a destruição ou a adulteração dos bairros muçulmanos: na Tunísia11. A sedução de uma cidade como Paris deriva da diversidade estilística de suas arquiteturas e de seus espaços. 12 13 P. Inflação: foi atribuída a uma estratégia política. que são oficialmente defendidas em nome dos valores científicos. ao pastiche. da época romana ao gótico flamejante ou ao barroco. Presses du CNRS. Foi em nome do progresso técnico e social e da melhoria das condições de vida de seu entorno que se substituiu o teatro de Nîmes. em Sarraz. de Valência. Paris. fundados em 1928. como seus predecessores. La Medina de Tunis. pela mediação do turismo de arte. mas não de uma história. pode ser lida numa parte dos grandes edifícios religiosos europeus: catedrais de Chartes. o 11 D. a vontade política de modernização foi auxiliada pela ideologia do movimento dos CIAM12 e de suas vedetes. as ameaças permanentes que pesam sobre o patrimônio não impedem um amplo consenso em favor de sua conservação e de sua proteção. mas sem a preocupação de fazer um inventário. O que me interessa é precisamente o enigma desse sentido: zona semântica do patrimônio construído durante sua constituição. de Nevers. numa mesma cidade ou num mesmo edifício. os arquitetos invocam o direito dos artistas à criação. Consenso/contestação: as razões e os valores invocados em favor das duas respectivas posições requerem uma análise e uma avaliação críticas. Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. é necessário precisar. As vozes discordantes desses opositores são tão poderosas quanto sua determinação. O argumento se choca. Londres-Nova Iorque. comporta evidentemente uma dimensão econômica e marca. Essas interpretações das condutas patrimoniais não bastam. com certeza. de Toledo. 1990. Lembram que. sociais e urbanos. utilizarei figuras e pontos de referência concretos. Abdelkafi. com uma legislação que privilegia o interesse público. o patrimônio representado pelas edificações constituirá o elo federativo da sociedade mundial13. ao longo dos tempos. Cada dia traz uma nova mostra disso. Arquiteturas e espaços não devem ser fixados por uma idéia de conservação intransigente. Um antropólogo americano pode afirmar que. representados por esse patrimônio nas sociedades industriais avançadas. Mac Canell. de aix-em-Provence. por sua vez. estéticos.

de forma direta. são belos monumentos da grandeza dos reis do Egito. durável. constitui a essência do monumento. ora com parcimônia. Já o constatamos no que diz respeito aos seus destinatários. de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente. da República romana”. “no último caso. não é um passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais. tranqüiliza. magnífico. chegando às vezes a se deixar cobrir por elas. essa palavra “designa um edifício construído para eternizar a lembrança de coisas memoráveis. contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa. As pirâmides do Egito. em detrimento de seu valor memorial: “Testemunha que nos resta de alguma grande potência ou grandeza dos séculos passados. Em primeiro lugar. Para aqueles que edificam. sacrifícios. portanto. ele parece presente em todos os continentes e em praticamente todas as sociedades. ora de forma bem liberal. foi perdendo progressivamente sua importância nas sociedades ocidentais. Essa evolução se confirma um século mais tarde. acalma. ou concebido. Mas esse passado invocado. que por sua vez deriva de monere (“advertir”. nacional. aquilo que traz à lembrança alguma coisa. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. entendido em seu sentido original. Desafio à entropia. tendendo a acumular outras funções. assim como para os destinatários das lembranças que veiculam. o Dictionnaire de l´Académie situa de forma clara o monumento e sua função memorial no presente. Os léxicos atestam-no.5 conteúdo e a diferença dos dois termos subentendidos no conjunto das práticas patrimoniais: monumento e monumento histórico. tribal ou familiar. porém. arco de triunfo. mas de tocar. Alguns anos mais tarde. convocado. enquanto o próprio termo adquiria outros significados. a idéia de monumento. O monumento. O papel do monumento. recusa as inscrições ou as acolhe. conjurando o ser do tempo. o que se deve entender por monumento? O sentido original do termo é o do latim monumentum. Furetière já parece dar ao termo um valor arqueológico. mas seus exemplos traem um deslocamento. na medida em que pode. coluna. um dispositivo de segurança. à ação dissolvente que o tempo exerce sobre todas as coisas naturais e artificiais. Não apenas ele a trabalha e a mobiliza pela mediação da afetividade. erguido ou disposto de modo que se torne um fator de embelezamento e de magnificência nas cidades”. dependendo do caso. com Quatremère de Quincy. E ele continua indicando que. O resto é contingente e. pela emoção. o Coliseu. sua função antropológica. Em 1689. O monumento assegura. totem. templo. glorioso” 14. soberbo. “aplicada às obras de arquitetura”. dito de outra forma. obelisco. O monumento muito se assemelha a um universo cultural. desta vez em direção a valores estéticos e de prestígio: “Monumento ilustre. Sua relação com o tempo vivido e com a memória. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação gerada pela incerteza dos começos. de dar uma informação neutra. uma memória viva. de certa forma encantado. ele tenta combater a angústia da morte e do aniquilamento. A natureza efetiva do seu propósito é essencial: não se trata de apresentar. Sob múltiplas formas. ritos ou crenças. chamar-se-á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos. Nesse sentido primeiro. diverso e variável. 1694 . tendendo a se empanar. e o mesmo acontece em relação aos seus gêneros e formas: túmulo. ou. Este observa que. o monumento é uma defesa contra o traumatismo da existência. dotadas ou não de escrita. estela. mais 14 Primeira edição. “lembrar”).

. Renaissance Thought and the Arts. exigiam daqueles que os construíam o trabalho mais perfeito e mais bem realizado. a partir do Renascimento. a partir daí. ajusta-se e aplicase a todos os tipos de edificações” 15. 1o diálogo. Exemplos: o edifício do Lloyd´s em Londres. É verdade que os revolucionários de 1789 não pararam de sonhar com monumentos e de construir no papel os edifícios pelos quais queriam afirmar a nova identidade da França16. Ao prazer suscitado pela beleza do edifício sucedeu-se o encantamento ou o espanto provocados pela proeza técnica e por uma versão moderna do colossal. Collected Essays. as limitações que pesavam sobre a memória: “hoje (. 1972. Kristeller. p. A evolução que se depreende dos dicionários do século XVII era irreversível. o primeiro teórico da beleza arquitetônica. A hegemonia memorial do monumento não foi. de phármakon.. J. aperfeiçoamento e difusão das memórias artificiais. ele não se dá conta de que o imenso tesouro do 15 Dictionnaire de l´arquitecture. fazendo dela o fim supremo da arte. ano IX M. XII. Platão fez da escrita seu paradigma venenoso18. tenha conservado. Harper and Row. Paris. Paris. Ozouf. Dando à beleza identidade e seu estatuto. ameaçada antes de a imprensa ter trazido à escrita uma força sem precedentes no que diz respeito à memória. A primeira refere-se à importância crescente atribuída ao conceito de arte17 nas cidades ocidentais. Derrida. vol.. A partir daí. “Monumento” denota. 1951 . o poder.). 1789-1799. não aprendemos quase mais nada de cor. substituindo seu antigo status de signo pelo de sinal. 2. o sentido de “monumento” evoluiu um pouco mais. t. Embora o próprio Alberti. A progressiva extinção da função memorial do monumento certamente tem muitas causas. 19 Parallèle des anciens et des modernes. falar à sensibilidade estética. o monumento se impõe à atenção sem pano de fundo. 63 e ss. Le Seul. piedosamente. 16 17 P. Mencionarei apenas duas. 1970. 1688 a passagem inteira merecia ser citada. 1965. La Fête révolutuinnaire. Não se pensava em beleza. “La pharmacie de Platon” in La Dissémination. 18 O que ele chama. esses projetos funcionam também em um outro nível. Cf. os monumentos. Paris. t. no mito do Fedro. a beleza: cabe-lhe. afirmar os grandes desígnios públicos. promover estilos. eventualmente a profusão das luzes e o ornamento da riqueza. o Arco da Défense em Paris. Paris. . O. a torre de Bretanha em Nantes. Embora efetivamente destinados a servir à memória das gerações futuras. publicado in Journal of the History of Ideas. no qual Hegel viu o início da arte nos povos da alta Antiguidade oriental. Entregue ao seu entusiasmo de letrado. porém. o Quattrocento a associava a toda celebração religiosa e a todo memorial. a grandeza. e cujas passagens podem ser citadas de forma mais segura transcrevendo-as do que confiando na memória. Nova Iorque. destinados a avivar nos homens a memória de Deus ou de sua condição de criaturas. porque habitualmente temos os livros que lemos e aos quais podemos recorrer quando necessário. explicitamente. Gallimard. pela multiplicação dos livros. A segunda causa reside no desenvolvimento. a noção original de monumento. atua no instante. em especial “The Modern system of the Arts”. ele abriu caminho para a substituição progressiva do ideal de memória pelo ideal de beleza. O perspicaz Charlez Perrault se encanta por ver desaparecer.6 ligada ao efeito produzido pelo edifício que ao seu fim ou destinação. ambas vigentes em longo prazo. como se fazia outrora” 19. Hoje. A princípio. 1.

O studium designa um atrativo sensato. por sua circulação e difusão. Todas as citações foram extraídas de op. mergulhando nele aqueles que o olham. A fotografia contribui. O êxtase. 1980. condenado à morte pela invenção da imprensa21. de 1832. Paris. 21 Notre-Dame de Paris. “a história só se constitui quando é olhada. 134. 22 . capítulo “Ceci tuera cela [Isto matará aquilo]”. nem rejeitar a pintura.. nem que as novas próteses da memória cognitiva são nefastas para a memória orgânica. Ora. Barthes. que esses sinais se dirigem às sociedades contemporâneas. é preciso colocar-se fora dela” 20: a fórmula demonstra a diferença e o papel inverso do monumento. para olhá-la. lhe conferem também o poder de ressuscitar. traz consigo a prática do esquecimento. é um momento revulsivo. Ela aparece assim como uma prótese de um gênero inédito: traz “um novo tipo de provas”. as duas faces desse novo phármakon que tem o singular poder de jogar com os dois planos da memória: abonar uma história e ressuscitar um passado morto. “memórias” dos sistemas eletrônicos mais abstratos e incorpóreos. ao mesmo tempo. para a semantização do monumento-sinal. O encantamento imemorial realiza-se doravante de forma mais livre. acumulado e conservado de forma cada vez melhor. Cit. muitas vezes. que aprisionam e restituem o passado sob uma forma mais concreta. em particular. à custa de um trabalho modesto sobre essas imagens que conservam uma parte de ontologia.7 saber. segundo a qual a sociedade moderna renunciou ao monumento. além disso. Daí vêm os riscos de confusão e de usurpação. Barthes conseguiu perceber e analisar a duplicidade da fotografia. então. 183. Gallimard-Le Seuil. a volta dos mortos. Porque pela mediação de uma emulsão de prata “a foto do ser desaparecido chega até mim como os raios de uma estrela”. 120. é cada vez mais pela mediação de sua imagem. “história” designa uma disciplina cujo saber. Vejamos o caso da fotografia. Sua intuição visionária foi confirmada pela criação e pelo aperfeiçoamento de novas formas de conservação do passado: memória das técnicas de gravação da imagem e do som. Esse poder de conferir autenticidade relaciona-se certamente às reações químicas que fazem da fotografia “uma emanação do referente” e. nem de Comunicação: a ordem fundadora da fotografia é a Referência”. lhe empresta as aparências da memória viva. em 20 R. colocado à disposição dos doutos. a palavra loucura. encarregado. 126. afirmando que a fotografia é uma de suas formas adaptada ao individualismo de nossa época: o monumento da sociedade privada. acrescentado na oitava edição. Roland Barthes compreendeu que esse “objeto antropologicamente novo” não vinha fazer concorrência. nem contestar. que faz voltar à consciência “a própria letra do tempo” 22. essa loucura da fotografia que faz coincidir o ser e o afeto é da mesma natureza que o encantamento pelo monumento. um interesse externo. porque se dirigem diretamente aos sentidos e à sensibilidade. privados ou públicos. Vamos contrabalançar. Cahiers du cinema. “essa certeza que nenhum escrito pode dar”. p. na televisão e no cinema. a afirmação de La Chambre claire. ao mesmo tempo em que a suplanta e lhe tira as forças. Com efeito. “Não se trata de Arte. mas de qualquer modo afeto. Victor Hugo pronunciava a oração fúnebre do monumento. por sua presença como objeto metafórico. de ressuscitar um passado privilegiado. A partir do final do século XVIII. La chambre claire. que fundam sua identidade. alucinatório. que permite a cada um conseguir. na imprensa. Contudo. Barthes os denuncia nomeando as duas formas como a fotografia atua sobre nós. a propósito do qual se evoca. Eles só se constituem signo quando metamorfoseados em imagens. 125. e. Um século e meio depois da apologia de Perrault.

qualquer que seja o seu destino.. traduzido por H. que se trata de palavra de empréstimo a A. luzes e transparências com que ornava a fotografia de seus desenhos e maquetes. Nessas condições. a partir do pátio quadrado. Bastou arrumar um pouco e aplicar algumas etiquetas: de uma antiga morada.). Toda construção. retalhado e torturado pelos combates. dos quais se tornou necessário dizer que são “comemorativos”. Ele continua: “O turista que se encontrar no jardim de Bercy poderá tirar fotos realmente inesquecíveis dessa biblioteca (. O sucesso do projeto será a possibilidade de se fazerem magníficos cartões postais desse lugar”. Os únicos exemplares autênticos que nossa época logrou edificar não dizem seu nome e se dissimulam sob formas insólitas minimalistas e não metafóricas. os monumentos aos mortos e os cemitérios militares das últimas guerras. 24 Esse campo foi tombado pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco em 1979. . ainda teriam um papel nas sociedades ditas avançadas? Afora os numerosos edifícios de culto que conservam seu uso. 11 de setembro de 1989. Entre as duas guerras mundiais.8 réplicas sem peso. La Découverte. com seus barracões e suas câmaras de gás. porque parte integrante do drama comemorado são os próprios campos de concentração. cujo horror proíbem de confiá-los somente à memória histórica. Empreguei o termo judeócide. os mortos e seus carrascos haverão de advertir eternamente aqueles que vão a Dachau ou a Auschwitz24. primeira. Paris. das Tulherias e de Paris. Mayer. significam ele mais que uma mera sobrevivência? Ainda se edificam novos deles? Os monumentos. levados pelo hábito. para fazer dele o memorial de uma das grandes catástrofes humanas da história moderna. Eles lembram um passado cujo peso e. na realidade. que se tornaram monumentos. bastou demarcar um percurso. sua função é legitimar e conferir autenticidade ao ser de uma réplica visual. hoje. La “solucuin finale” dans l´histoire. não obstante a rugosidade do edifício real e o desconforto dos escritórios nele instalados. Perguntando sobre a inserção desse edifício em Bercy. A pirâmide do Louvre existia antes que se iniciasse sua construção. a lembrança do judeocídio da Segunda Guerra Mundial. As fotografias do Arco da Défense ainda lhe conservam um atrativo simbólico. Melhores que símbolos abstratos ou imagens realistas. Pouco importa que a realidade construída não coincida com suas representações midiáticas ou com suas imagens sonhadas. pode ser promovida a monumento pelas novas técnicas de “comunicação”. à qual doravante se delega seu valor. no mais das vezes. Carlier.-G. daqui a dez ou vinte anos. como uma via-crúcis. os monumentos. Enquanto tal. as sociedades atuais quiseram conservar viva.. ela lembre antes a entrada de um centro comercial e que sai opacidade tire a visão. para as gerações futuras. 1990. frágil e transitiva. Aqui. ainda que. o peso do real. seguem. de uma realidade intimamente associada à dos acontecimentos 23 Lê Quotidien de Paris. o campo de batalha de Verdun constituiu um precedente: imensa parcela da natureza. o centro de Varsóvia. lembra ao mesmo tempo a identidade secular da nação polonesa e a vontade de aniquilação que animava seus inimigos. no sentido primeiro do termo. Depois da Segunda Guerra Mundial. Ela continua a fazer rebrilhar. Não se poderia fazer uma descrição melhor do esvaziamento do que se chama hoje monumento e de seu modo de existir que a do arquiteto da “Grande Biblioteca”. melhor que fotografias. se façam os mais belos cartões postais deste lugar” 23. ele responde: “É preciso que. uma carreira formal e insignificante. Do mesmo modo. Não será necessária a intervenção de nenhum artista – uma simples operação metonímia. abandonada para sempre. fielmente reconstruído. e J. nas quais se acumula seu valor simbólico assim dissociado de seu valor utilitário.

além disso. A noção não pode ser dissociada de um contexto mental e de uma visão de mundo. Paris. O monumento simbólico erigido. no entanto. La Boisserie. a progressiva dissociação que se opera entre a memória viva e o saber edificar. que hoje muitas vezes se confundem. transformado em monumento. do Ocidente. Todo objeto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem que para isso tenha tido. sem atribuir um valor particular ao tempo e à duração. que esse relacionamento planetário continua sendo superficial. Os relatórios das organizações internacionais mostram. Der moderne Denkmakkultus. bastou colocar setas em alguns caminhos do parque e alguns cordões de proteção no edifício. Marcas que basta escolher e saber nomear. Le Culte moderne des monuments. com uma fidelidade comprovada. oponíveis. De môo inverso. depois de sua morte. desejado (ungewollte) e criado como tal. em muitos aspectos. As multidões que para lá acorrem não se enganam quanto a isso.9 comemorados. transformadas em monumentos à sua glória. Wieczorek. À medida que estas dispunham de técnicas mnemônicas mais eficientes. onde as residências dos heróis nacionais. Essa forma de celebração é especialmente apreciada nos Estados Unidos. Daí vêm esses entusiasmos que multiplicam os absurdos ou ainda dissimulam álibis. como a de Jefferson. Riegl 26. entre outras coisas pela fotografia. 1903. O campo. aos poucos deixaram de edificar monumentos e transferiram o entusiasmo que eles despertavam para os monumentos históricos. sem ter colocado a arte na história. e. de forma imediata. dentre os quais os monumentos representam apenas uma pequena parte. é tão desprovido de sentimento quanto praticar a cerimônia do chá ignorando o sentimento japonês da natureza. Adotar as práticas de conservação de tais monumentos sem dispor de um referencial histórico. assim como os fatos que eles trazem à memória dos homens. ex nihilo. Monticello. mas sua casa. Para transformar essa residência em monumento. o xintoísmo e a estrutura nipônica das relações sociais. porém. Viena. na origem. é da mesma natureza da relíquia25. Riegl. uma destinação memorial. relíquias e relicários ao mesmo tempo. Ela está bem de acordo com o temperamento de um povo que sempre praticou o culto do indivíduo. para fins de rememoração. foram. ele é constituído a posteriori pelos olhares convergentes do historiador e do amante da arte. Também aí o homem e a história que ele escreveu estavam ligados pela contigüidade a esse ambiente que ele escolheu e organizou. O sentido do monumento histórico anda a passos lentos. bem datada. O verdadeiro monumento erigido em honra de Charles de Gaulle não é a gigantesca cruz de Lorena “comemorativa” que domina o planalto de Champagne. Em primeiro lugar. contudo. senão antinômicas. é mais poderoso que o de qualquer símbolo. 1984. elas testemunham. Vimos com que sucesso o conceito foi exportado e como progressivamente se difundiu fora da Europa a partir da segunda metade do século XIX. longe de apresentar a quase universalidade do monumento no tempo e no espaço. está praticamente fora de uso em nossas sociedades desenvolvidas. 26 A. . que o selecionam na massa dos edifícios existentes. por exemplo. a cidade destruída. 25 As forças memoriais da relíquia às vezes ainda são postas a serviço de causas menos trágicas. no começo do século XX: o monumento é uma criação deliberada (gewollte) cuja destinação foi pensada a priori. o monumento histórico é uma invenção. Mesmo o novo centro de Varsóvia só é um monumento porque é uma réplica: ele substitui. tradução francesa de D. Esses memoriais gigantes. continuam. sendo excepcionais. Quanto ao prazer proporcionado pela arte. enquanto o monumento histórico não é. Le Senil. tampouco é apanágio exclusivo do monumento. cumpre lembrar que todo artefato humano pode ser deliberadamente investido de uma função memorial. desde o princípio. As duas noções. são. Outra diferença fundamental observada por A.

Em contrapartida. O projeto de conservação dos monumentos históricos e sua execução evoluíram com o tempo e não podem ser dissociados da própria história do conceito. de modo permanente. Panofsky nos ofereceu uma edição. tais como os japoneses. 1946. e bem datada. no decorrer da década de 1130. as marcas do tempo em seus monumentos. Paris. a memória e o saber. ideológica. 27 . uma conservação incondicional. e ao menos teoricamente. essa noção é consubstancial aos dois. seu valor cognitivo relega-o inexoravelmente ao passado. expostos às afrontas do tempo vivido. ou antes à história geral. uma vez que se insere em um lugar imutável e definitivo num conjunto objetivado e fixado pelo saber. E. ele se justifica longamente. Uma tradução e um comentário notável sobre ele em Abbot Suger on the Abbley Church of SaintDenis and its Art Treasures. ao contrário. Suger mandou destruir em parte. determinam uma diferença maior quanto à sua conservação. no livro em que trata de sua administração da abadia de Saint-Denis. pois. um O conceito heurístico de Kunstwollen permite a Riegl marcar a distinção capital entre o valor artístico próprio ao monumento e seu valor para a história da arte. A destruição deliberada28 e combinada também os ameaça. O esquecimento. tem muitos exemplos na Europa. é lembrada com mais freqüência: política. ela prova a contrario o papel essencial desempenhado pelo monumento na preservação da identidade dos povos e dos grupos sociais. o desapego. os monumentos são. A outra. não foi demolida depois de quase doze séculos. 1959. os monumentos e os monumentos históricos com o tempo. cap. ou à história da arte em particular -. constroem periodicamente réplicas exatas de templos originais. que. Uma. Lês monuments détruits de l´art français. mas sem a mediação da memória ou da história. IV e nota 109. Ela se apresenta sob modalidades diferentes. chama menos a atenção. pelo desejo de escapar à ação do tempo ou pelo anseio de aperfeiçoamento. inspirada seja pela vontade de destruir. a ruína e o mau funcionamento do edifício original e não deixa de salientar o cuidado com que conservou “tudo o que era possível das antigas paredes nas quais. por uma decisão de Júlio II? Tratava-se de substituí-la por um edifício grandioso. Ou ele é simplesmente constituído em objeto de saber e integrado numa concepção linear do tempo – neste caso. p. respectivamente. Histoire du vandalisme. além disso. Ele lembra. A incorporação de um neologismo pelos léxicos marca o reconhecimento oficial do objeto material ou mental que ele designa. Esse texto constitui um dos mais interessantes testemunhos remanescentes sobre “o funcionamento” do monumento. As relações diferentes que mantêm entre si. ritual. Contudo. a catedral de São Pedro. Cf. A primeira forma. negativa. dirigir-se à nossa sensibilidade artística. a basílica carolíngia que a tradição atribuía a Dagoberto 29.10 O monumento tem por finalidade fazer reviver um passado mergulhado no tempo. ao nosso “desejo de arte” 27 (Kunstwollen): neste caso. Mas ainda é preciso determinar os critérios dessa datação. religiosa. seja. dizíamos nós. criativa. também generalizada. cujas cópias anteriores são então destruídas. Princeton Universitu Press. a falta de uso faz que sejam deixados de lado e abandonados. segundo o testemunho de autores antigos. Por isso. como nós. sobretudo. Para engrandecer e dar mais esplendor ao santuário onde o “bem-aventurado Denis permaneceu durante quinhentos anos”. sem reverenciar. A destruição positiva. O monumento histórico relaciona-se de forma diferente com a memória viva e com a duração. cuja magnificência e cenografia pudessem lembrar o poder conquistado pela Igreja desde a época de Constantino e as novas inflexões de sua doutrina. O mais precioso e venerável monumento da cristandade. como obra de arte. em Roma. 28 L. 169. Essa consagração apresenta. Invenção do Ocidente. 29 Suger tem plena consciência da interpretação sacrílega que se pode dar a seu gesto. Hachette. Nosso Senhor Jesus Cristo colocou sua mão”. ou então ele pode. ele se torna parte constitutiva do presente vivido. Aparentemente. Réau. é própria de certos povos.

77. já se difundira desde o começo do século e fora consagrado por Guizot. 1790-1798. Lês Origines de la conservation dês monuments historiques em France. depois de monumentos históricos. 1980. no monumento em que. 76 e ss. De estudar e conservar um edifício unicamente pelo fato dele ser um testemunho da história e uma obra de arte. 208.11 descompasso cronológico. tombamento. ed. Millin 30. avaliar as motivações – assumidas. quando recém-nomeado Ministro do Interior. Não me 30 31 L. . É por esse motivo que tentei. Alberti. Revue de l´art. Não podemos nos debruçar sobre o espelho do patrimônio nem interpretar as imagens que nele se refletem atualmente sem procurar. arquitetos e eruditos da época do Iluminismo. sem exigir. p. Babelon e A. até então impensável. “Emergence et cheminements du mot patrimoine”. previamente. porém. Millin. O punhado de homens que o combateram no interior dos comitês e Comissões revolucionários cristalizavam. pois. Cf. elaboraram-se o conceito de monumento histórico e os instrumentos de preservação (museus. de seu referente. à fase de consagração que institucionaliza a conservação do monumento histórico estabelecendo uma jurisdição de proteção e fazendo da restauração uma disciplina autônoma. em 1830. tácitas ou ignoradas – que estão na base das condutas patrimoniais. escavação exaustiva ou mesmo extensiva. um tal projeto não pode deixar de voltar às origens. A. Cf. Léonj. mas restrita à França. como é o meu desejo. 1994. contudo. editada em livro pelas Éditions Liana Lévi. confessadas. 1951. porém. em primeiro lugar. Não esmiucei.. 1966. sob a urgência do perigo. recuar ainda mais no tempo. tentar. reutilização) a ele associados31. II Polifilo. Paris. Antiquités nationales ou Recueil de monuments. Para rastrear a gênese desse conceito. Picard. Paris. criou o cargo de inspetor dos Monumentos Históricos. G. Essa arqueologia era necessária. De re ædificadorria. compreender como a grande superfície lisa desse espelho foi pouco a pouco sendo constituída pelo acréscimo e pela fusão de fragmentos a princípio chamados de antiguidades. n. nas fronteiras de dois mundos. Paris. 1995. Nem por isso o vandalismo da Revolução de 1789 deve ser subestimado. ver P. Orlandi. A expressão aparece já em 1790. p. eles próprios. muito provavelmente pela primeira vez na pena de L. 6 v. Paris. portanto. chastel. colocar o patrimônio histórico33 no centro de uma reflexão sobre o destino das sociedades atuais. Paris. 32 L. Querer. assegurar a glória do arquitetoartista e conferir autenticidade ao testemunho dos historiadores32. 1913. 33 Deve-se a J. p. L avie dês monuments français. A origem do monumento histórico deve também ser buscada bem antes da aparição do termo que o nomeia. A expressão monumento histórico só entrou nos dicionários franceses na segunda metade do século XIX. 13. Desvallées. uma bela síntese de “La notion de patrimone”. B. as idéias comuns aos amantes da arte. repentino oi longamente preparado. 34 Para uma visão de conjunto. Esses letrados eram. é necessário remontar ao momento em que surge o projeto. Seu uso. em relação aos primeiros usos do termo e ao aparecimento. em que os monumentos escolhidos pertencem exclusivamente à Antigüidade. definir um momento de emergência e reconstituir as etapas essenciais dessa progressiva instauração do patrimônio histórico edificado. Cf. a história e as particularidades34 de cada nação européia na sua relação com os conceitos de monumento e de patrimônio históricos. no contexto da Revolução Francesa. 49. inventários. Musées. maior ou menor despendendo do caso. Milão. celebra então a arquitetura que pode ao mesmo tempo fazer reviver nosso passado. Jouve. herdeiros de uma tradição intelectual que tem origem no Quattrocentos e na grande revolução humanista dos saberes e das mentalidades. F Rücker. Paris.. Alberti. Prólogo. Devemos. da fase “antigüizante” do Quattrocento. A. também A. n.

o patrimônio histórico deriva de uma mesma mentalidade em todos os países da Europa. .12 debrucei sobre o conteúdo das jurisdições de conservação. ele termina por fazer todos os países se defrontarem com as mesmas interrogações e urgências. Meus exemplos freqüentemente referem-se à França. Em uma palavra. Nem por isso eles são menos exemplares: como invenção européia. nem sobre o universo complexo da minha demonstração. Na medida em que se tornou uma instituição planetária. mas o sujeito de uma alegoria. não quis fazer da noção de patrimônio histórico de seu uso o objeto de uma pesquisa histórica.