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CONTEÚDO DO PRIMEIRO BIMESTRE - FILOSOFIA

AS ORIGENS DA FILOSOFIA - A PALAVRA FILOSOFIA

A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber. Assim, filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, deseja o conhecimento, o estima, o procura e o respeita. Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (que viveu no século V antes de Cristo) a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos. Dizia Pitágoras que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (a festa mais importante da Grécia): as que iam para comerciar durante os jogos, ali estando apenas para servir aos seus próprios interesses e sem preocupação com as disputas e os torneios; as que iam para competir, isto é, os atletas e artistas (pois, durante os jogos também havia competições artísticas: dança, poesia, música, teatro); e as que iam para contemplar os jogos e torneios, para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de pessoa, dizia Pitágoras, é como o filósofo. Com isso, Pitágoras queria dizer que o filósofo não é movido por interesses comerciais não coloca o saber como propriedade sua, como uma coisa para ser comprada e vendida no mercado; também não é movido pelo desejo de competir - não faz das idéias e dos conhecimentos uma habilidade para vencer competidores ou "atletas intelectuais"; mas é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, a vida: em resumo, pelo desejo de saber. A verdade não pertence a ninguém, ela é o que buscamos e que está diante de nós para ser contemplada e vista, se tivermos olhos (do espírito) para vê-la.

* A FILOSOFIA É GREGA

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A Filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um fato tipicamente grego. Evidentemente, isso não quer dizer, de modo algum, que outros povos, tão antigos quanto os gregos, como os chineses, os hindus, os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, os africanos ou os índios da América não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que todos esses povos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem. Quando se diz que a Filosofia é um fato grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas. Vejamos um exemplo. Os chineses desenvolveram um pensamento muito profundo sobre a existência de coisas, seres e ações contrários ou opostos, que formam a realidade. Deram às oposições o nome de dois princípios: Yin e Yang. Yin é o princípio feminino passivo na Natureza, representado pela escuridão, o frio e a umidade; Yang é o princípio masculino ativo na Natureza, representado pela luz, o calor e o seco. Os dois princípios se combinam e formam todas as coisas, que, por isso, são feitas de contrários ou de oposições. O mundo, portanto, é feito da atividade masculina e da passividade feminina. Tomemos agora um filósofo grego, por exemplo, o próprio Pitágoras. Que diz ele? Que a Natureza é feita de um sistema de relações ou de proporções matemáticas produzidas a partir da unidade (o número 1 e o ponto), da oposição entre os números pares e ímpares, e da combinação entre as superfícies e os volumes (as figuras geométricas), de tal modo que essas proporções e combinações aparecem para nossos órgãos dos sentidos sob a forma de qualidades contrárias: quente-frio, seco-úmido, áspero-liso, claro-escuro, grande-pequeno, doce-amargo, duro-mole, etc. Para Pitágoras, o pensamento alcança a realidade em sua estrutura matemática, enquanto nossos sentidos ou nossa percepção alcançam o modo como a estrutura matemática da Natureza aparece para nós, isto é, sob a forma de qualidades opostas. * O LEGADO DA FILOSOFIA GREGA PARA O OCIDENTE EUROPEU
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Por causa da colonização européia das Américas, nós também fazemos parte - ainda que de modo inferiorizado e colonizado - do Ocidente europeu e assim também somos herdeiros do legado que a Filosofia grega deixou para o pensamento ocidental europeu. Desse legado, podemos destacar como principais contribuições as seguintes: -> A idéia de que a Natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais, isto é, os mesmos em toda a parte e em todos os tempos. Assim, por exemplo, graças aos gregos, no século XVII da nossa era, o filósofo inglês Isaac Newton estabeleceu a lei da gravitação universal de todos os corpos da Natureza. A lei da gravitação afirma que todo corpo, quando sofre a ação de um outro, produz uma reação igual e contrária, que pode ser calculada usando como elementos do cálculo a massa do corpo afetado, a velocidade e o tempo com que a ação e a reação se deram. Essa lei é necessária, isto é, nenhum corpo do Universo escapa dela e pode funcionar de outra maneira que não desta; e esta lei é universal, isto é, válida para todos os corpos em todos os tempos e lugares. Um outro exemplo: as leis geométricas do triângulo ou do círculo, conforme demonstraram os filósofos gregos, são universais e necessárias, isto é, seja em Tóquio em 1993, em Copenhague em 1970, em Lisboa em 1810, em São Paulo em 1792, em Moçambique em 1661, ou em Nova York em 1975, as leis do triângulo ou do círculo são necessariamente as mesmas.

-> A idéia de que as leis necessárias e universais da Natureza podem ser plenamente conhecidas pelo nosso pensamento, isto é, não são conhecimentos misteriosos e secretos, que precisariam ser revelados por divindades, mas são conhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade, pode alcançar. -> A idéia de que nosso pensamento também opera obedecendo a leis, regras e normas universais e necessárias, segundo as quais podemos distinguir o verdadeiro do falso. Em outras palavras, a idéia de que o nosso pensamento é lógico ou segue leis lógicas de funcionamento. Nosso pensamento diferencia uma afirmação de uma negação porque, na afirmação,atribuímos alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos que "Sócrates é um ser humano", atribuímos humanidade a Sócrates) e, na negação, retiramos alguma coisa de outra (quando dizemos "este caderno não é verde", estamos retirando do caderno a cor verde).

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Nosso pensamento distingue quando uma afirmação é verdadeira ou falsa. Se alguém apresentar o seguinte raciocínio: "Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal", diremos que a afirmação "Sócrates é mortal" é verdadeira, porque foi concluída de outras afirmações que já sabemos serem verdadeiras. -> A idéia de que as práticas humanas, isto é, a ação moral, a política, as técnicas e as artes dependem da vontade livre, da deliberação e da discussão, da nossa escolha passional (ou emocional) ou racional, de nossas preferências, segundo certos valores e padrões, que foram estabelecidos pelos próprios seres humanos e não por imposições misteriosas e incompreensíveis, que lhes teriam sido feitas por forças secretas, invisíveis, sejam elas divinas ou naturais, e impossíveis de serem conhecidas. -> A idéia de que os acontecimentos naturais e humanos são necessários, porque obedecem a leis naturais ou da natureza humana, mas também podem ser contingentes ou acidentais, quando dependem das escolhas e deliberações dos homens, em condições determinadas. Dessa forma, uma pedra cai porque seu peso, por uma lei natural, exige que ela caia natural e necessariamente; um ser humano anda porque as leis anatômicas e fisiológicas que regem o seu corpo fazem com que ele tenha os meios necessários para a locomoção. No entanto, se uma pedra, ao cair, atingir a cabeça de um passante, esse acontecimento é contingente ou acidental. Por quê? Porque, se o passante não estivesse andando por ali naquela hora, a pedra não o atingiria. Assim, a queda da pedra é necessária e o andar de um ser humano é necessário, mas que uma pedra caia sobre minha cabeça quando ando é inteiramente contingente ou acidental. Todavia, é muito diferente a situação das ações humanas. É verdade que é por uma necessidade natural ou por uma lei da Natureza que ando. Mas é por deliberação voluntária que ando para ir à escola em vez de andar para ir ao cinema, por exemplo. É verdade que é por uma lei necessária da Natureza que os corpos pesados caem, mas é por uma deliberação humana e por uma escolha voluntária que fabrico uma bomba, a coloco num avião e a faço despencar sobre Hiroshima. Um dos legados mais importantes da Filosofia grega é, portanto, essa diferença entre o necessário e o contingente, pois ela nos permite evitar o fatalismo - "tudo é necessário, temos que nos conformar e nos resignar" -, mas também evitar a ilusão de que podemos tudo quanto quisermos, se alguma força extranatural ou sobrenatural nos ajudar, pois a Natureza segue leis necessárias que podemos conhecer e nem tudo é possível por mais que o queiramos.

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-> A idéia de que os seres humanos, por Natureza, aspiram ao conhecimento verdadeiro, à felicidade, à justiça, isto é, que os seres humanos não vivem nem agem cegamente, mas criam valores pelo quais dão sentido às suas vidas e às suas ações. A Filosofia surge, portanto, quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos e as ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma.

Em suma, a Filosofia surge quando se descobriu que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos, através da razão, que é a mesma em todos; quando se descobriu que tal conhecimento depende do uso correto da razão ou do pensamento e que, além da verdade poder ser conhecida por todos, podia, pelo mesmo motivo, ser ensinada ou transmitida a todos.

1. Item Aspectos Introdutório ao Estudo da filosofia

AS DISCIPLINAS DA FILOSOFIA

1. ÉTICA A ética é uma matéria teorética, e o filósofo moral está preocupado com a natureza da vida virtuosa, nos valores morais, na validade de determinadas ações e estilos de vida. É uma atividade analítica e está em busca de significados para os termos que aparecem em declarações éticas, do tipo: “bom”, “errado”, “certo”, “responsável”, “deve”, “deveria”, “quem mandou fazer assim” etc. 2. A FILOSOFIA SOCIAL E POLÍTICA Na filosofia ética o filósofo se preocupa com as ações isoladas dos indivíduos. Na filosofia social os filósofos se preocupam com as ações dos grupos ou

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sociedades. As reflexões filosóficas acerca da sociedade, se dividem em duas classes distintas: A que procura examinar por que a sociedade é como se apresenta. Por que a guerra, o crime, a pobreza existem? etc. A segunda classe de reflexões filosóficas sonda os alvos da sociedade e o papel que o estado deve desempenhar para alcançar estes alvos, no suprimento das necessidades dos indivíduos. Todos estes questionamentos e preocupações estão relacionados com outras ciências, como a psicologia, a sociologia, a antropologia, a ciência política e as ciências econômicas. A filosofia social e política analisa os conceitos como a autoridade, o poder, a justiça e os direitos individuais. Está preocupada com perguntas do tipo: Quem deve governar a sociedade? A obrigação política é comparável com outros tipos de obrigação? Qual o significado da democracia? Qual deve ser o papel do governo numa comunidade organizada? etc. 3. A ESTÉTICA A estética faz parte da teoria de valores e em alguns pontos aborda as questões éticas, sociais ou políticas. É interessante para este segmento da filosofia a análise de idéias como beleza, gosto, arte etc. 4. A LÓGICA A lógica é a parte mais fundamental da filosofia, porque a filosofia é uma pesquisa lógica em que sistematicamente se aplica as leis do pensamento e do argumento. Para avaliarmos argumentos informais é necessário a aplicação de princípios lógicos, sem os quais se tornaria impossível chegar-se a uma conclusão coerente. Dentre as falácias mais comuns encontramos as pessoas apelando à autoridade ao invés de apelar à evidência para sustentar seus argumentos. Por exemplo, apelar a autoridade do pai para defender a crença na existência de Papai Noel. Este tipo de apelo não é válido porque a autoridade não é qualificada para avaliar a questão, o pai do indivíduo jamais viu Papai Noel, logo não é argumento evidente para afirmar a sua existência. A lógica se baseia mais nos casos de argumentos formalizados, que são os tipos “dedutivo” e “indutivo”. O dedutivo consiste na aplicação de uma premissa maior, uma premissa menor, e uma conclusão. 5. A FILOSOFIA DA RELIGIÃO

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A filósofo da religião está interessado em analisar e avaliar as informações acerca das religiões, com vistas a descobrir o que significam e se são verdadeiras. Ao tratar da natureza e do conhecimento religioso, tanto o filósofo quanto o teólogo têm interesses idênticos, contudo na interpretação do texto bíblico já não existirá convergência de argumentos. Os assuntos principais que interessam ao filósofo da religião, são as perguntas acerca da natureza da religião; as características definidoras das crenças que se acham em todas as religiões; os argumentos em prol da existência de Deus; os atributos de Deus; a linguagem religiosa; e o problema do mal. No século XVIII “Kant”, argumentou a existência de três argumentos racionais em prol da existência de Deus. São os argumentos “ontológico”, “cosmológico”, e “teológico”. Mais tarde os filósofos da religião acrescentaram o argumento “moral”. Dentro dos filósofos da religião existe um grupo conhecidos como “ateólogos”, que desenvolveram várias provas e argumentos que procuram comprovar a inexistência de Deus. 6. A HISTÓRIA DA FILOSOFIA A história da filosofia é uma tentativa no sentido de demonstrar como as influências ideológicas levaram a certas filosofias e a forma pela qual estas filosofias influenciaram sociedades e instituições; e de aprender acerca dos homens que fizeram a história da filosofia. O historiador da filosofia procura demonstrar a formulação e o desenvolvimento de escolas do pensamento, como o racionalismo e o empirismo. Por exemplo, ilustrar a filosofia de René Descartes, faz parte da história da filosofia, é preciso portanto que o historiador relate o que Descartes disse, e se é verdadeiro ou não; ou de que maneira Descartes influenciou racionalistas subsequentes como “Kant” e outros. 7. A FILOSOFIA DA CIÊNCIA O filósofo da ciência está interessado no exame e avaliação crítica de conceitos-chaves científicos e na metodologia científica. As maiores perguntas dentro da filosofia da ciência são: Como as teorias científicas devem ser construídas e avaliadas? Quais as justificativas e quais os critérios necessários para as teorias científicas? 8. A FILOSOFIA ...
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As filosofias da religião, da história, e da ciência, nos ensinam acerca da pesquisa filosófica. É possível examinar criticamente os termos e métodos primários de qualquer disciplina. Assim, há uma filosofia do direito, da matemática, da educação, da educação cristã, pregação evangelística e muitas outras disciplinas. 9. A EPISTEMOLOGIA A investigação da origem e da natureza do conhecimento, é um dos campos principais da filosofia. Como conhecemos alguma coisa? Qual a justificativa para a alegação de que alguém sabe? A percepção sensória nos dá informações fidedignas acerca de um mundo de objetos físicos? Temos consciência direta do mundo físico? Nossas percepções dos objetos são idênticas a esses objetos? 10. A METAFÍSICA A palavra metafísica vem de um vocábulo grego que significa “depois da física” ou “além do físico”, daí alguns filósofos defenderem que a metafísica é o estudo do ser ou da realidade. Dentro da metafísica alguns filósofos como Aristóteles e Platão, defendiam que os elementos fundamentais da realidade poderiam ser reduzidos ao ar, ao fogo, à água, e à terra. Com base nos conceitos destes filósofos os antigos acreditavam que estes elementos em combinação e interação davam conta da totalidade da realidade. As grandes perguntas da metafísica tradicional são as seguintes: Quais são as partes constituintes fundamentais e objetivas da realidade? Qual é a natureza do espaço e do tempo? Todo evento deve ter uma causa? Há alguma substância ou entidade que sempre permanece constante? O homem tem livre arbítrio? As intenções causam alguma coisa? 11. A FILOSOFIA DA MENTE A filosofia da mente era parte tradicional da metafísica de onde se desvinculou para assumir lugar de maior destaque na discussão filosófica. Em decorrência de nosso maior conhecimento do cérebro humano e da física, a filosofia da mente tem recebido maior atenção e destaque nos últimos anos. As principais perguntas da filosofia da mente são: Existe um nível de realidade que podemos chamar de mental? Se for assim, quais são as marcas distintivas do mental? A consciência está meramente associada com estados do cérebro? Qual o

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relacionamento entre a mente e o corpo? Até onde as máquinas são iguais aos homens? Podemos construir inteligências artificiais que possam funcionar como mentes? 12. A TEORIA DA AÇÃO A teoria da ação se relaciona com todos os demais campos da filosofia, como a filosofia da ética, a filosofia da linguagem, a filosofia da mente etc. Qualquer avanço nessas diversas correntes filosóficas se confrontará com as perguntas cruciais da teoria da ação. Por exemplo: antes de se poder elucidar a natureza da mente, é necessário entender-se o relacionamento entre os estados mentais e as ações. Bem como, as distinções entre os diversos tipos de fala, e seus mútuos relacionamentos que são de valor considerável na investigação da linguagem. Da mesma forma as questões de responsabilidade não podem ser discutidas sem observar-se os critérios de capacidade e incapacidade dos indivíduos, e de uma análise entre atos intencionais e involuntários; e assim por diante. Os questionamentos da teoria da ação são os seguintes: O que é um ato, e como está relacionado com um agente? Qual a conexão entre o ato e o desejo?
Baseado em Augusto Bello de Souza Filho

1. O Método da Filosofia: A Lógica. A coerência ou a conclusão de algo a partir de conhecimentos suficientes pode ser caracterizada por algo lógico ou ilógico. Tendo origem da Filosofia grega, quando a palavra logos – significando linguagem e discurso e pensamento-conhecimento – conduziram os filósofos a indagar se o logos obedecia ou não a regras, possuía ou não normas, princípios e critérios para seu uso e funcionamento. A lógica surge como que para solucionar questões de contradição humana, através da dialética, que seria um diálogo entra dois interlocutores que discutem e argumentam sobre determinado assunto, dividindo os contrários para saber quais das imagens seria a falsa e outra a verdadeira. A dialética seria um debate, uma discussão, um diálogo entre opiniões contrárias e contraditórias para que o pensamento e a linguagem passem da contradição entre as aparências à identidade de uma essência.

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Cabe à Filosofia conhecer como e porque as coisas, assim, substituindo a dialética por um conjunto de procedimentos de demonstração e prova, Aristóteles criou a lógica, que ele chamava de analítica. Esta lógica é um instrumento que antecede o exercício do pensamento e da linguagem, oferecendo-lhes meios para realizar o conhecimento e o discurso. Para Aristóteles, a lógica é um instrumento para o conhecer. A Educação e a Racionalidade.

A lógica que rege o pensamento científico na atualidade está centrada na idéia de demonstração e prova, construindo o objeto do conhecimento por suas propriedades e funções e de sua posição. Empregar a racionalidade no ensinar significa empregar formas lógicas na busca do conhecimento pelo aluno, mas esta racionalidade fora adaptada ao movimento de “administração científica” em que a educação profissional começa como resposta às necessidades específicas de treinamento para o trabalho apresentado pelo empresariado. Em um movimento que antecede a Primeira Grande Guerra, a escola secundária – através de inúmeras crianças da classe trabalhadora – passou a um sistema de estratificação. A manutenção de certas disciplinas e a eliminação de outras com base no “desempenho” e dos chamados “testes vocacionais” – de viés classista – encaminhavam estudantes a cursos diferentes da mesma escola secundária, com base em suas aptidões profissionais aparentes, ou seja, a racionalidade empregada a serviço das classes dominantes. A Educação e a formulação de juízos sobre a realidade.

O pensar investigativo é uma questão de sobrevivência e para que o indivíduo possa acertar nas escolhas durante sua vida. Mas será que a criança tem condições de investigar de maneira acertada dentro de um processo de educação? O aprender a pensar e o aprender a investigar devem ser aprendidos no processo educacional, fazer escolhas com base em um entendimento sólido (usando a lógica), e não em informações prontas, acabadas, mas provocar na criança as etapas de um raciocínio, estimular a irem à luta pelas informações, pelos dados, estimulando-os a construir entendimentos ou explicações (conhecimentos) que os ajudem na orientação de suas formas de agir, incentivando-os a realizar investigações sobre suas realidades e a formar juízos acertados.

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Pensar bem e investigar são aprendidos e a ajuda educacional deve ser competente: isto colabora para a máxima “Saber fazer algo correto”. Desenvolver algumas habilidades nos alunos é corresponder aos métodos de uma investigação científica, torna o aprendizado produtivo e estimula a educação escolar. Assim, desenvolver nos alunos o observar bem, fazer com que eles formulem hipóteses para algumas questões e dúvidas, buscar comprovações e torná-los dispostos a autocorreção são algumas formas para que no futuro as crianças possam saber fazer escolhas com base em seus entendimentos sobre a realidade. Textos Complementares Lógica Reparei que os povos que, tendo sido outrora semi-selvagens, civilizaram-se pouco a pouco fazendo leis senão à medida que a pressão dos crimes e querelas a isso os obrigou, não poderiam ser tão bem policiados como aqueles que, a partir do momento em que se organizaram, observaram as constituições de prudente legislador. Julgo que se Esparta foi outrora florescente, não o deveu à bondade de cada uma das leis em particular – algumas muito extravagantes – mas ao fato de, tendo sido inventadas apenas por um só, tendem todas para um mesmo fim. Lembrando-me disto persuadi-me de que, na verdade, não fazia sentido que um simples particular intentasse reformar um Estado, mudando-lhe tudo desde os alicerces, derrubando-o para o levantar do novo. Não aprovo estes temperamentos e iniciativas conflituosas e inquietas que, não sendo convocadas nem pelo nascimento nem pela fortuna à administração dos negócios públicos, jamais prescindem de neles introduzir qualquer reforma. E se este escrito contiver algo que possa ser suspeito de semelhante loucura, desgostarme-ia muito. Nunca meu intento foi mais longe que procurar reformar meus próprios pensamentos. A simples resolução de nos libertarmos de todas as opiniões que antes aceitávamos como verdadeiras não é exemplo bastante. O mundo é quase composto de duas espécies de espíritos: aqueles que, julgando-se mais hábeis do que são, não resistem a precipitar seus juízes, nem têm paciência bastante para conduzir por ordem

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seus pensamentos, e os outros que, por razão ou modéstia, achando que não são menos capazes, contentam-se em seguir as opiniões dos outros. De minha parte acho que nada se pode criar ou imaginar de tão estranho que já não tenha sido criado ou pensado anteriormente por artistas ou filósofos. Ao viajar pelo mundo percebi que os que têm sentimentos contrários aos nossos nem por isso devem ser chamados de bárbaros. Muitos desses povos usam, tanto ou mais do que nós, da razão. Como um homem que anda só e na treva, resolvi ir lentamente, o que me levou a imaginar um método diferente dos até então usados (lógica análise e álgebra). Como a diversidade das leis serve muitas vezes de desculpa aos vícios, de sorte que um Estado é muito melhor administrado quando, tendo embora muito poucas, se aplicam rigorosamente, julguei conveniente tomar emprestados da lógica apenas quatro postulados: o primeiro consistia em nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa sem a conhecer evidentemente como tal; o segundo – dividir cada uma das dificuldades no maior número de parcelas; terceiro, – conduzir meu pensamento ordenadamente, começando pelos mais simples para chegar aos mais difíceis; quarto – fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão amplas que impeçam alguma omissão. Isto me sugere que todas as coisas que podem cair sob o conhecimento do homem se encadeiam da mesma maneira e que, contanto que nos abstenhamos de aceitar como verdadeiro algo que não o seja e que observemos sempre a ordem necessária para deduzir uma coisa da outra, nenhuma razão pode estar tão abastada a que ela não se chegue por fim, nem tão oculta que não se descubra. Estabeleci então três máximas: a primeira – conduzir-me segundo as opiniões mais afastadas do exagero e dos extremos. Em especial, incluía entre os extremos todas as diminuições por menores que sejam da liberdade; a segunda – consistia em ser o mais firme e resoluto nas minhas ações, imitando os viajantes que perdidos numa floresta caminham decididamente para um determinado rumo ao invés de vagar tontamente; a terceira – vencer a mim próprio antes de vencer a fortuna, modificando meus desejos e paixões antes de modificar o mundo. É nisto que reside o segredo dos antigos filósofos que souberam outrora se subtrair ao império da fortuna. Ocupando-se constantemente em considerar os limites que eram prescritos pela natureza, persuadiu-se de que nada estava em seu poder além dos próprios

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pensamentos. E sendo senhores apenas de seus pensamentos podiam considerar-se mais ricos e poderosos, livres e felizes que quaisquer outros que, não tendo esta filosofia, por muito que sejam favorecidos pela natureza e fortuna nunca chegam a este poder. (Descartes, René. Banco de Dados, Folha de São Paulo. Galerias, jul-2003) Razão [...] Enganam-se redondamente os sábios que supõe apenas agrupar e descrever fatos, os fatos em si mesmos não são da menor utilidade para a ciência, mesmo para ciências como a zoologia, a botânica, a história, a geografia. A ciência precisa de teorias, isto é, do que miraculosamente transforma os acontecimentos uma vez, o que aos olhos vulgares é apenas contingente em necessário. Negar à ciência esse direito soberano é derrubá-la de seu pedestal, é torná-la impotente. A mais singela descrição do mais vulgar dos fatos pressupõe a suprema prerrogativa, a prerrogativa do juízo final. A ciência não verifica, julga. Não reflete a verdade: cria-se na conformidade de suas leis autônomas, por ela mesma estabelecida. Em outras palavras: a ciência é a vida perante o tribunal da razão. É a razão que decide o que deve e o que não deve ser. E decide – não esqueçamos – segundo as suas próprias leis, sem levar em conta o que ela chama de “humano, demasiado humano” (alusão a Nietzche). (…) A razão conduziu o homem ao cume de uma alta montanha e, fazendo-o contemplar o universo inteiro, disse-lhe: – Tudo o que vês te darei, se ajoelhado aos meus pés me adorares”. O homem ajoelhouse, adorou e recebeu o que lhe fora prometido. Mas nem tudo. Desde então, o dever prioritário do homem passou a ser a razão. É impossível conceber que não seja assim. Quanto a Deus, há um mandamento: – ama a Deus sobre todas as coisas. A razão dispensa mandamentos, porque os homens devem amá-la de modo próprio. A teoria do conhecimento canta a audácia de interrogar ou duvidar de seus direitos soberanos. [...] (Chestov, Leon. Banco de Dados), Folha de São Paulo. Galerias, jul-2003) Conhecer

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Desde seus primórdios, a Filosofia se ocupou do problema do conhecimento. Os primeiros filósofos na Grécia que questionaram sobre o mundo (cosmos), sobre o homem, a natureza e etc., tentaram encontrar a verdade em um princípio único (arché) que abarcasse toda a realidade, isto é, sobre o Ser. Confiantes de que somos seres capazes de conhecer o universo e sua estrutura, os gregos se perguntavam como era possível o erro, a falsidade e a ilusão, já que não era possível falar sobre o Não-Ser e sim somente sobre o Ser. Foi preciso, pois, estabelecer a diferenciação entre o mero opinar e o conhecer verdadeiro, entre o que percebemos pelos sentidos e aquilo que compreendemos pelo pensamento, raciocínio ou reflexão, estabelecendo, assim, graus de conhecimento e até mesmo uma hierarquia entre eles. Isso porque o conhecimento não era entendido como a mera apreensão particular de objetos (pois isso seria conhecimento de algo), mas pretendido como o modo universal de apreensão (não o conhecimento de várias coisas, mas o que é realmente o conhecer). Com o advento do cristianismo, a verdade que os homens poderiam conhecer estava sujeita à autoridade da fé revelada. Na concepção cristã, que vê o homem como um degenerado do paraíso, sua salvação depende de Deus e não da sua mera vontade e só através da fé o homem poderia compreender o mundo e a si mesmo, alcançando, assim, a verdade. O homem, tido como um duplo corpo/alma, tem acesso a duas realidades, uma temporal e finita (corpo) e a outra eterna e semelhante ao divino (alma) pela qual poder-se-ia chegar à verdade e à salvação. A fé auxilia a razão para que não sofra desvios por conta da vontade e liberdade de uma alma encerrada em um corpo. Mas foi somente com a Modernidade que a questão do conhecimento foi devidamente sistematizada. Retomando os antigos, a Filosofia procurou não só saber quantos conhecimentos existiam nem de quantos objetos, mas questionar a sua possibilidade e condições de realização. Eis as perspectivas mais adotadas nesse período: • Ceticismo – posição filosófica que afirma a impossibilidade do homem conhecer seja qual for o objeto, negando a verdade do saber e que tudo em que acreditamos não passa de hábitos. (Hume); • Dogmatismo – posição que afirma ser nossa razão portadora de capacidades inatas para conhecer o mundo, capacidades estas independentes da experiência sensorial. Aqui, o sujeito do conhecimento é valorizado em detrimento da experiência sensível (Descartes, Leibniz);

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• Empirismo – doutrina que nega a existência de ideias em nossa mente antes de qualquer experiência. Além disso, afirma que tudo que conhecemos tem origem nos dados dos sentidos. Nessa filosofia o objeto determina por suas características o conhecimento do sujeito (Hobbes, Locke); • Criticismo – posição que visa ao mesmo tempo criticar as anteriores, porém sintetizando-as. Desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant, visa mostrar as condições de possibilidades que um sujeito tem para conhecer um objeto. Para Kant, não podemos conhecer os objetos em si mesmos, mas somente representá-los segundo formas a priori de apreensão da nossa sensibilidade (tempo e espaço). Significa dizer que conhecemos o real não em si, mas como podemos organizá-lo e apreendê-lo segundo modelos esquemáticos próprio do nosso intelecto. Todo esse desenvolvimento dos filósofos modernos culminou com o debate contemporâneo sobre o conhecer. Até aqui, percebe-se que o conhecimento necessitava de provas e demonstrações racionais tendo um correspondente na realidade que seguisse leis como causalidade, reversibilidade, publicidade etc. Hoje, a ciência cada dia mais especializada se preocupa não em provar uma teoria, mas refutá-la ou falseá-la, pois os critérios de cientificidade dependem da ação do homem ao construir seu mundo e não mais desvendar as leis ocultas da natureza, já que em todos os períodos da história esses critérios são elaborados segundo paradigmas vigentes que influenciam nossa visão de mundo. Por João Francisco P. Cabral

Ser O Problema do Ser - Introdução INTRODUÇÃO De todos os problemas da filosofia, aquele que constitui o ponto capital, por onde se definem os sistemas e divergem as escolas é o problema do ser. Uma filosofia se apóia tanto mais sobre o senso natural, sobre a experiência quotidiana e sobre os primeiros princípios da Inteligência, quanto mais se orienta para uma ontologia realista. E se afasta tanto mais do senso natural e dos princípios da Inteligência quanto mais se encaminha para o subjetivismo idealista e para o materialismo, duas atitudes no fundo correlatas, que traduzem igualmente uma negação do ser substancial ou da faculdade
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que tem a inteligência de penetrá-lo na sua objetividade essencial. Em linhas gerais, três diversas atitudes diante do problema do ser produzem respectivamente o realismo, o idealismo e o materialismo. Estas três atitudes respectivamente teocêntrica, antropocêntrica e materialista se caracterizam: o realismo pela afirmação dos seres e do Ser, seja sob a forma do realismo natural ou do realismo crítico; o fundo comum de todo realismo é o reconhecimento da existência de cousas reais independentes da consciência do sujeito do conhecimento. — O idealismo pela negação ou a problematização do ser substancial, seja sob a forma do idealismo psicológico, para o qual a realidade não existe fora da consciência do sujeito; seja sob a forma do idealismo lógico, para o qual a realidade é um produto do pensamento, um sistema de juízos, não existindo fora da consciência geral do conhecimento; o fundo comum de todo idealismo é considerar o objeto do conhecimento como ideal e não como real e o seu ponto de partida está na subordinação do ser ao conhecer e da realidade às formas a priori da razão. O materialismo, a seu turno envolve a negação pura e simples do ser subsistente como realidade ou mesmo como problema: considera a filosofia superada pela ciência e afirma o relativo com a negação do absoluto e os acidentes com a negação da substância. Como é evidente, toda ontologia não realista, todo idealismo e todo materialismo, vêm desde sua origem falseados pela afirmação implícita do ser que negam, desde que não se pode pensar sem pensar o ser e desde que não se pode afirmar um ou outro dos aspectos da realidade, sem afirmar essa realidade como subsistente em si mesma como ser e como existência. Historicamente, estas três atitudes representam e acompanham o gradual declínio do homem religioso para o homem político e deste para o homem econômico. Mas isto não significa que as atitudes da filosofia tenham uma explicação histórica, porque o fundamento da filosofia são os primeiros princípios da Inteligência, não susceptíveis de transformações históricas, pelo que se vê que a ciência progride sempre, mas a filosofia gira sempre em torno dos mesmos problemas.

Os problemas da filosofia têm uma natureza permanente porque são problemas cujo centro está precisamente no que É e o desenvolvimento da filosofia se processa no sentido da profundidade e não no sentido da horizontalidade, como as técnicas e as ciências. Não há um "progresso" da filosofia por substituição, mas sim um aprofundamento dos mesmos problemas. Assim uma doutrina fundada na realidade ôntica e nos princípios primeiros da Inteligência, será sempre a mesma filosofia e o seu desenvolvimento não será um progresso por substituição, mas um crescimento do

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interior para o exterior, como num processo de assimilação gerado por uma série de perspectivas sempre novas da mesma realidade: augere non addere. Incorporando o vir-a-ser no ser, a filosofia terá que explicar o próprio progresso técnico-científico, o progresso por substituição, revelando a interior unidade da variedade e a permanência do que É no fluxo do que vai se tornando. Assim a filosofia pode explicar o progresso das ciências, mas as ciências não podem explicar o desenvolvimento da filosofia. Caso contrário, os problemas da filosofia poderiam ter alguma suposta explicação histórico-sociológica, as teorias seriam expressões de classes dominantes ou dominadas (Marx); haveria moral de senhores e moral de escravos (Nietzsche); explicar-se-ia paradoxalmente Sócrates pela sua origem plebléia e Platão pela sua ascendência aristocrática; dir-se-ia que o idealismo é uma filosofia burguesa; o intuicionismo bergsoniano a expressão do desespero de uma ordem social em vias de ruína, e o materialismo histórico a filosofia natural da classe operária. Interpretações essas, totalmente absurdas, totalmente insubsistentes e dignas unicamente de espíritos perturbados pela sociologia de Durkheim e o positivismo de Comte. Em primeiro lugar a mesma sociologia atual rejeita essas falsas interpretações com as leis da capilaridade social e da circulação das elites, com a análise da estrutura da sociedade, enquanto por outro lado se sabe hoje claramente que a interpretação econômica da história se funda numa crassa ignorância dos fatos históricos e do verdadeiro papel (negativo e não positivo) dos fatores econômicos e geográficos na história. E em segundo lugar porque tais interpretações grosseiras do pensamento filosófico confundem a essência da filosofia, com a ossatura das suas manifestações históricas, e partem de uma esquematização, de uma "racionalização" da realidade, que pretende reduzir a experiência humana à menor e menos significativa de suas partes, qual seja, a experiência sensível, que não tem nenhum sentido fora dos primeiros princípios do Ser e da inteligência. Essas interpretações "científicas", peculiares aos dias fúteis que estão acabando de correr, longe de explicar, em tudo falsificam as verdades do espírito, fazendo da realidade concreta um mito matemático, do homem que pensa, quer e sente, um animal puramente econômico e da existência dos seres e do Ser uma pura invenção social, explicável sociologicamente (Durkheim). A extrema degradação a que chegou a filosofia com o positivismo, o materialismo, o sociologismo e todos os filosofismos correlatos, combatendo as verdades da consciência natural pela utopia das fórmulas físico-químicas, gerou toda a angústia contemporânea, cujo único remédio consiste precisamente em sair do círculo vicioso de um pensamento que nega verbalmente o ser com os seus princípios e depois reduz o ser aos acidentes e os princípios da inteligência aos princípios da matemática para completar a falsificação
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do mundo e da vida. A solução deve consistir na restauração da filosofia autêntica do ser, fundada na experiência quotidiana, esclarecida pelos princípios imutáveis da inteligência, os quais nos conduzem à essência do ser, princípios esses que se nutrem da experiência sensível, da experiência volitiva que intui a existência do ser, da experiência emotiva que intui o valor do ser e da vida. A restauração da filosofia do ser não é outra cousa senão o retorno ao senso natural, a abolição do esforço contranaturam do pensamento moderno com suas raízes cartesianas e do pensamento contemporâneo com suas raízes kantianas. No entanto, esta restauração teria parecido geralmente impossível, enquanto se acreditasse na infalibilidade dos métodos matemáticos do conhecimento científico, com a sua visão físico-química e homogênea da realidade. Mas depois da revisão do valor filosófico da ciência contemporânea, pela crítica principalmente de Boutroux e Bergson, havendo caído o castelo de cartas sobre o qual se apoiava todo positivismo e todo materialismo, juntamente com o sociologismo e o fenomenismo evolucionista, o caminho que se abre, não é o de uma nova contradictio in adiecto, qual por exemplo a do "existencialismo" que toma por necessária uma existência contingente. O caminho que se abre é o de um retorno, não à filosofia do passado, (porque a filosofia verdadeira ou é perene ou não é filosofia) e sim um retorno à filosofia da consciência natural, esclarecida pelos princípios da inteligência, apoiada pela tríplice intuição intelectiva, volitiva e emotiva do mundo e da vida: aquela filosofia em suma, que não pretende forjar e sim descobrir a verdade, reabilitando a razão contra o racionalismo e levando a intuição intelectiva da realidade até suas últimas conseqüências, sem se confinar ao matematismo, no qual redundou toda visão racionalista da realidade.

Valores

Miguel Reale e o sentido da vida

POR JOSÉ MAURICIO DE CARVALHO

Tudo o que o homem concebe só é possível porque ele existe primeiro. Esta experiência das manifestações espontâneas naturais do viver comum Husserl cognominou Lebenswelt. O mundo do existente é resultado de escolhas contínuas e irreversíveis que

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se faz sobre este alicerce. Esta questão formulada por Husserl no final de sua existência aparece como um desafio para Miguel Reale. Nosso mundo é único porque o construímos sobre base singular. Além deste mundo vivido, cada qual faz escolhas que também o distingue dos demais. A diversidade biológica e de temperamento igualmente diferenciam as pessoas. No entanto, o homem possui algo que o aproxima dos demais. O que faz dele partícipe de uma humanidade comum é a capacidade de realizar o seu dever-ser, isto é, trazer para a vida pessoal os valores da comunidade em que vive. Ao componente existencial que a análise fenomenológica da vida feita por Reale revela soma-se, pois, o dever-ser, uma espécie de comportamento ideal que expressa "a conduta desejável ou exigível". Esta tese remonta a Emannuel Kant. Os desdobramentos desta compreensão lhe permitem falar da pessoa como liberdade. Como ele explica a liberdade? Ser e dever-ser são considerados, inicialmente, como categorias lógicas, espécie de paradigma com o qual cada um pensa a realidade. Aristóteles, usando a fórmula ato e potência, foi quem primeiro afirmou que o ser segue um caminho na direção de sua realização. Este roteiro é diverso quando se trata de uma semente de laranja e da vida de um homem, diferenciam os filósofos de hoje. Para Reale, o assunto ganha outras implicações e uma dimensão: intelectual, intuitiva, volitiva e imaginativa O valor é fundamental nas escolhas. Miguel Reale entende que esse é um assunto inalcançável pela ciência positiva. O motivo é porque a escolha do valor envolve a liberdade individual, capacidade que o homem tem de optar na circunstância em que se encontra. Embora seja um problema que a ciência não resolva, ele é relevante para o funcionamento da vida social. Entendida a forma de conhecer o problema, podemos apresentar então o objeto da Ética. Segundo afirma Reale em Introdução à Filosofia (1989), "o problema do valor da conduta ou do valor da ação, do bem a ser realizado constitui capítulo do estudo denominado Ética" (p. 26). Na perspectiva ôntica, o valor é o "que constitui o ser de certos objetos. Reale afirma que existem seres como a justiça que só podem ser conhecidos por juízos axiológicos e, finalmente, que há correlação entre valor e ação. Há ainda uma dimensão teleológica do valor que pode ser percebida quando se cria uma universidade, por exemplo. O propósito dos criadores é concretizar valores ligados ao conhecimento, à pesquisa e à dignidade humana. A universidade agrega determinados ideais de nossa cultura.

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Qual é a relevância dos valores? Sabemos que o filósofo distingue três tipos de objetos: os naturais, os ideais e os valores. Os primeiros são de duas ordens: físicos ou psicológicos; os ideais também se exprimem por dois modos: os matemáticos e os lógicos, enquanto que o terceiro tipo é constituído autonomamente pelos valores. Por que ele separa os valores dos outros objetos, dando ao seu estudo o status de ciência autônoma? Reale explica que essa distinção foi iniciada por Kant quando ele distinguiu Ser e dever ser. Kant empreou os verbos Sein e Sollen para indicar que o homem vive duas dimensões diferentes: a primeira, como membro da natureza e submetido às suas regras, e a outra, enquanto formulador de um projeto de correção do mundo natural, expresso como dever ser. Apesar dessa distinção básica que marcou a evolução do kantismo, ora apresentando-o como reflexão sobre os limites do conhecimento, ora como teoria da liberdade, não houve entre os neokantianos o reconhecimento da autonomia dos valores, como fez Reale, que justifica tal autonomia estudando a evolução do problema na história. O que Reale destaca nesta história? No final do século XIX, os estudos de Ética evoluíram para afirmar a autonomia dos valores. Quem mais contribuiu para isto foi Max Scheler, com sua obra O formalismo na Ética e a Ética material dos valores, livro em que estabelece as bases de uma Ética dos valores. Seguindo as indicações de Scheler, entende Reale que cada homem vive orientado por um foco de estimativa que organiza, a seu jeito, a hierarquia de valores sociais. Há aqueles que dão preferência a valores estéticos (os artistas), os que optam por valores econômicos (os empresários), os que se guiam pelos valores religiosos (os santos), os que respondem aos apelos da justiça (os juristas), etc. Todos estes valores mantêm um vínculo com um valor central. O que caracteriza os valores? Ao retirar os valores do mundo ideal e lançá-los à história, Reale assume-os como realidades autônomas, manifestação do dever ser sugerido por Kant. A autonomia permite identificar a sua bipolaridade, isto é, não se pode falar de algo como correto sem compará-lo ao incorreto. A bipolaridade significa a dupla implicação dos pólos opostos. Além dessas duas características mencionadas, nosso filósofo reconhece outras, hierarquia e graduação, aprendidas de Nicolai Hartmann; historicidade e objetividade retiradas do raciovitalismo de Ortega y Gasset e inexauribilidade ou reconhecimento de que o valor ganha novas formas no tempo e não se realiza perfeitamente nos seres. Esta característica ele acrescenta às anteriores. Em resumo, o que ele pensa dos valores? Para Reale, o valor não é um ser, não é espacial, não se realiza fora do tempo e não se resume aos objetos ideais. O valor existe apenas nas coisas, nos seres valiosos. Situa-se na ordem do dever ser; é bipolar, além de
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implicar outros valores. Não é um fato, mas implica avaliação dos fatos. Ele tem como características: a referibilidade, pois se refere a um sujeito; a preferibilidade, porque se mostra numa ordem hierárquica. O valor é objetivo, histórico histórico e inexaurível. Se existem muitos valores, e se eles constituem hierarquias diferentes para as pessoas, podemos dizer que há valores reconhecidos objetivamente como mais relevantes? Há algum que é central dentre eles? Miguel Reale entende que sim. Há Há valores que mudam com o tempo e a circunstância, mas para a cultura ocidental, a pessoa é o maior valor. O homem enquanto fonte de valor é pessoa e como pessoa dá signifisignifi cação ao mundo em que habita. Explica o filósofo: "Há um valor que deve ser reputado reputado valor fundamental, ou valor fonte, como condição que é de todos os demais valores. Trata-se Trata daquele que chamamos valor da pessoa humana". Porque motivo a pessoa é o valor fundamental? Por que os demais dependem dele. O ser humano tem capacidade de saber as razões da sua ação e pode escolher o rumo da sua vida. A liberdade de escolha, que tem os valores por referência e consciência de si, é a capacidade de perceber os limites nos quais se dá o viver. Assim pensando, Reale aprofunda o eixo central do raciovitalismo raciovitalismo de Ortega, que ganha uma nova sistematização. Eu sou eu e minha circunstância e se não mudo ela não mudo também a mim, diz Ortega. Acrescenta Reale: sendo consciente de que minha vida ocorre na relação com a circunstância, entendo que ela é única. única. Nas palavras de Reale (1989), a singularidade vem da "autoconsciência primordial, em função da circunstancialidade em que vive".

OS FILÓSOFOS CLÁSSICOS DA FILOSOFIA: SÓCRATES, PLATÃO, ARISTÓTELES
SÓCRATES

A Vida Quem valorizou a descoberta do do homem feita pelos sofistas, orientando-a orientando para os valores universais, segundo a via real do pensamento grego, foi Sócrates. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a.C., em Atenas, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Aprendeu a arte
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paterna, mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico, sem recompensa alguma, não obstante sua pobreza. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. Combateu a Potidéia, onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium, onde carregou aos ombros a Xenofonte, gravemente ferido. Formou a sua instrução, sobretudo através da reflexão pessoal, na moldura da alta cultura ateniense da época, em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. Inteiramente absorvido pela sua vocação, não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Quanto à família, podemos dizer que Sócrates não teve, por certo, uma mulher ideal na quérula Xantipa; mas também ela não teve um marido ideal no filósofo, ocupado com outros cuidados que não os domésticos. Quanto à política, foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. Mas, em geral, conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea, que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes, vivendo justamente e formando cidadãos sábios, honestos, temperados diversamente dos sofistas, que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas, capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. Entretanto, a liberdade de seus discursos, a feição austera de seu caráter, a sua atitude crítica, irônica e a conseqüente educação por ele ministrada, criaram descontentamento geral, hostilidade popular, inimizades pessoais, apesar de sua probidade. Diante da tirania popular, bem como de certos elementos reacionários, aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se, tomou forma jurídica, na acusação movida contra ele por Mileto, Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juízes e da justiça humana, humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena, e sim o juízo eterno da razão, para a imortalidade. E preferiu a morte. Declarado culpado por uma pequena minoria, assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal, que o condenou à pena capital com o voto da maioria. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere - pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos - o discípulo Críton preparou e propôs a fuga ao Mestre. Sócrates, porém, recusou, declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos, depois de ter sorvido
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tranqüilamente a cicuta, foram: "Devemos um galo a Esculápio". É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. Morreu Sócrates em 399 a.C. com 71 anos de idade. Método de Sócrates É a parte polêmica. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam, concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade, determinando o verdadeiro objeto da ciência. O objeto da ciência não é o sensível, o particular, o indivíduo que passa; é o inteligível, o conceito que se exprime pela definição. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consistem em comparar vários indivíduos da mesma espécie, eliminar-lhes as diferenças individuais, as qualidades mutáveis e reterlhes o elemento comum, estável, permanente, a natureza, a essência da coisa. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico, que vai do fenômeno à lei, mas é um meio de generalização, que remonta do indivíduo à noção universal. Praticamente, na exposição polêmica e didática destas idéias, Sócrates adotava sempre o diálogo, que revestia uma dúplice forma, conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido), multiplicava ainda as perguntas, dirigindo-as agora ao fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, o denominava maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das idéias. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo - isto é, torna-te consciente de tua ignorância - como sendo o ápice da sabedoria, que é o desejo da ciência mediante a virtude. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais, que se concretizava, se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. Como é sabido, Sócrates não deixou nada escrito. As notícias que temos de sua vida e de seu

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pensamento, devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão , de feição intelectual muito diferente. Xenofonte, autor de Anábase, em seus Ditos Memoráveis, legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Xenofonte, de estilo simples e harmonioso, mas sem profundidade, não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias, não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates, sendo mais um homem de ação do que um pensador. Platão, pelo contrário, foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates; nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. Seja como for, cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates, bem como o seu biógrafo genial. Com efeito, pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. "Conhece-te a ti mesmo" - o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral, o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. A psicologia serve-lhe de preâmbulo, a teodiceia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. Em psicologia, Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma, distingue as duas ordens de conhecimento, sensitivo e intelectual, mas não define o livre arbítrio, identificando a vontade com a inteligência. Em teodiceia, estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico, formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência; b) com o argumento, apenas esboçado, da causa eficiente: se o homem é inteligente, também inteligente deve ser a causa que o produziu; c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem, um legislador, que a promulgou e sancionou. Deus não só existe, mas é também Providência, governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. Apesar destas doutrinas elevadas, Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. Moral. É a parte culminante da sua filosofia. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus, fim supremo do homem, é a prática da virtude. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou, antes, com ela se identifica. Esta doutrina, uma das mais características da moral socrática, é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa, virtude e ciência, ignorância e vício são sinônimos. "Se músico é o que sabe música, pedreiro o que sabe edificar, justo será o que sabe a justiça". Sócrates reconhece também, acima das leis mutáveis e escritas, a existência de uma lei natural - independente do arbítrio humano, universal, fonte primordial de todo direito
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positivo, expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética, Sócrates, em prática, sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano, espiritual, com finalidades práticas, morais. Como os sofistas, ele é cético a respeito da cosmologia e, em geral, a respeito da metafísica; trata-se, porém, de um ceticismo de fato, não de direito, dada a sua revalidação da ciência. A única ciência possível e útil é a ciência da prática, mas dirigida para os valores universais, não particulares. Vale dizer que o agir humano - bem como o conhecer humano se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. O fim da filosofia é a moral; no entanto, para realizar o próprio fim, é mister conhecê-lo; para construir uma ética é necessário uma teoria; no dizer de Sócrates, a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. Mas, se o fim da filosofia é prático, o prático depende, por sua vez, totalmente, do teorético, no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio, malvado, o ignorante. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo, racionalismo, que está contra todo voluntarismo, sentimentalismo, pragmatismo, ativismo. A filosofia socrática, portanto, limita-se à gnosiologia e à ética, sem metafísica. A gnosiologia de Sócrates, que se concretizava no seu ensinamento dialógico, donde é preciso extraí-la, pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia, maiêutica, introspecção, ignorância, indução, definição. Antes de tudo, cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados, dos preconceitos, opiniões; este é o momento da ironia, isto é, da crítica. Sócrates, de par com os sofistas, ainda que com finalidade diversa, reivindica a independência da autoridade e da tradição, a favor da reflexão livre e da convicção racional. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro, a ciência, mediante a razão. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente, mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo, pela razão imanente e constitutiva do espírito humano, a qual é um valor universal. É a famosa maiêutica de Sócrates, que declara auxiliar os partos do espírito, como sua mãe auxiliava os partos do corpo. Esta interioridade do saber, esta intimidade da ciência - que não é absolutamente subjetivista, mas é a certeza objetiva da própria razão - patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que, no pensamento de Sócrates, significa precisamente consciência racional de si mesmo, para organizar racionalmente a própria vida. Entretanto, consciência de si mesmo quer dizer, antes de tudo, consciência da própria ignorância inicial
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e, portanto, necessidade de superá-la superá pela aquisição da ciência. Esta ignorância não é, por conseguinte, ceticismo sistemático, mas apenas metódico, um poderoso impulso para o saber, embora o pensamento socrático fique, de fato, no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica, pois, Sócrates Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência, não o seu conteúdo. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro, científico, conceptual é, antes de tudo, a indução: isto é, remontar do particular ao universal, da opinião à ciência, da experiência ao conceito. Este conceito é, depois, determinado precisamente mediante a definição, representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático, e nos dá a essência da realidade. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral, geral, mediante a doutrina do conceito, assim é o fundador, em particular da ciência moral, mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade, ação racional. Virtude é inteligência, razão, ciência, não sentimento, rotina, costume, tradição, lei positiva, sitiva, opinião comum. Tudo isto tem que ser criticado, superado, subindo até a razão, não descendo até a animalidade - como ensinavam os sofistas. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que, identificando ficando conhecimento e virtude - bem como ignorância e vício - tornava impossível o livre arbítrio. Entretanto, como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica, precisa - afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos - assim a ética ét socrática carece de um conteúdo racional, pela ausência de uma metafísica. Se o fim do homem for o bem - realizando-se se o bem mediante a virtude, e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe, nem pode precisar este bem, esta felicidade, precisamente precisamente porque lhe falta uma metafísica. Traçou, todavia, o itinerário, que será percorrido por Platão e acabado, enfim, por Aristóteles. Estes dois filósofos, partindo dos pressupostos socráticos, desenvolverão uma gnosiologia acabada, uma grande metafísica metafísica e, logo, uma moral.

PLATÃO

A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e

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dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas. Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos,
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porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltam-lhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos - em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo . O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível
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explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim, sem saber por que o estão, ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão, precisamente porque é ciência, isto é, conhecimento das coisas pelas causas. Sócrates estava convencido, como também Platão, de que o saber intelectual transcende, no seu valor, o saber sensível, mas julgava, todavia, poder construir indutivamente o conceito da sensação, da opinião; Platão, ao contrário, não admite que da sensação - particular, mutável, relativa - se possa de algum modo tirar o conceito universal, imutável, absoluto. E, desenvolvendo, exagerando, exasperando a doutrina da maiêutica socrática, diz que os conceitos são a priori, inatos no espírito humano, donde têm de ser oportunamente tirados, e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem, e sim a ocasião para fazê-los reviver, relembrar conforme a lei da associação. Aqui devemos lembrar que Platão, diversamente de Sócrates, dá ao conhecimento racional, conceptual, científico, uma base real, um objeto próprio: as idéias eternas e universais, que são os conceitos, ou alguns conceitos da mente, personalizados. Do mesmo modo, dá ao conhecimento empírico, sensível, à opinião verdadeira, uma base e um fundamento reais, um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis, como as concebiam Heráclito e os sofistas . Deste mundo material e contingente, portanto, não há ciência, devido à sua natureza inferior, mas apenas é possível, no máximo, um conhecimento sensível verdadeiro - opinião verdadeira - que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. Este mundo ideal, racional - no dizer de Platão - transcende inteiramente o mundo empírico, material, em que vivemos. Teoria das Idéias

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Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. A ciência é objetiva; ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Ora, de um lado, os nossos conceitos são universais, necessários, imutáveis e eternos (Sócrates), do outro, tudo no mundo é individual, contingente e transitório (Heráclito). Deve, logo, existir, além do fenomenal, outro mundo de realidades, objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. Estas realidades chamam-se Idéias. As idéias não são, pois, no sentido platônico, representações intelectuais, formas abstratas do pensamento, são realidades objetivas, modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. Todas as idéias existem num mundo separado, o mundo dos inteligíveis, situado na esfera celeste. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides , sem, com ele, negar a existência do fieri. Tal a célebre teoria das idéias, alma de toda filosofia platônica, centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. A Metafísica - As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias; e estas se contrapõe a matéria obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas, através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem, que está no vértice. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica, um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Esse conhecimento, aliás, se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível, para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. E, em geral, o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores, o dever ser, de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. Visto serem as idéias conceitos personalizados, transferidos da ordem lógica à ontológica, terão consequentemente às características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência, serão universais, imutáveis. Além disso, as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos, que se obtém mediante a divisão e a classificação, isto é, são ordenadas em sistema hierárquico, estando no vértice à idéia do Bem, que é papel da dialética (lógica
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real, ontológica) esclarecer. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas, assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. Logo, a idéia do Bem, no sistema platônico, é a realidade suprema, donde dependem todas as demais idéias, e todos os valores (éticos, lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível; é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. Portanto, deveria representar o verdadeiro Deus platônico. No entanto, para ser verdadeiramente tal, falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. Desta personalidade e atividade criadora - ou, melhor, ordenadora - é, pelo contrário, dotado o Demiurgo o qual, embora superior à matéria, é inferior às idéias, de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. As Almas A alma, assim como o Demiurgo, desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria, à qual comunica o movimento e a vida, a ordem e a harmonia, em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. Assim, deveria ser, tanto no homem como nos outros seres, porquanto Platão é um pampsiquista, quer dizer, anima toda a realidade. Ele, todavia, dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte, de superioridade, em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos, religiosos e místicos. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias, ao Demiurgo e à matéria), de natureza espiritual, inteligível, caído no mundo material como que por uma espécie de queda original, de um mal radical. Deve portanto, a alma humana, libertar-se do corpo, como de um cárcere; esta libertação, durante a vida terrena, começa e progride mediante a filosofia, que é separação espiritual da alma do corpo, e se realiza com a morte, separando-se, então, na realidade, a alma do corpo. A faculdade principal, essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal, transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana, e da qual depende totalmente a ação moral. Entretanto, sendo que a alma racional é, de fato, unida a um corpo, dotado de atividade sensitiva e vegetativa, deve existir um princípio de uma e outra. Segundo Platão, tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas - ou partes da alma: a irascível (ímpeto), que residiria no peito, e a concupiscível (apetite), que residiria no abdome - assim como a alma racional residiria na cabeça. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. Logo, segundo Platão, a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca, até violenta. A alma não encontra no corpo o seu complemento, o seu instrumento adequado. Mas a alma está no corpo como num cárcere, o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias, que devem ser trabalhosamente relembradas. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. E, apenas mediante uma disciplina ascética do corpo, que o mortifica
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inteiramente, e mediante a morte libertadora, que desvencilha para sempre a alma do corpo, o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo mu ideal. O Mundo O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos, as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas, introduzindo no caos a alma, princípio de movimento e de ordem. ordem. O mundo, pois, está entre o ser (idéia) e o não-ser ser (matéria), e é o devir ordenado, como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber, não saber, e é a opinião verdadeira. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica, haveria, antes de tudo, uma alma do mundo e, depois, partes da alma, dependentes e inferiores, a saber, as almas dos astros, dos homens, etc. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser, não da ordem e da desordem, do bem e do mal, que aparecem aparecem no mundo. Da idéia - ser, verdade, bondade, beleza - depende tudo quanto há de positivo, de racional no vir-a-ser vir da experiência. Da matéria - indeterminada, informe, mutável, irracional, passiva, espacial depende, ao contrário, tudo que há de negativo negativ na experiência. Consoante a astronomia platônica, o mundo, o universo sensível, são esféricos. A terra está no centro, em forma de esfera e, ao redor, os astros, as estrelas e os planetas, cravados em esferas ou anéis rodantes, transparentes, explicando-se explicando se deste modo o movimento circular deles. No seu conjunto, o mundo físico percorre uma grande evolução, um ciclo de dez mil anos, não no sentido do progresso, mas no da decadência, terminados os quais, chegado o grande ano do mundo, tudo recomeça de novo. É a clássica concepção grega do eterno retorno, conexa ao clássico dualismo grego, que domina também a grande concepção platônica.

ARISTÓTELES

A Vida e as Obras Este grande filósofo grego, filho de Nicômaco, médico de Amintas, rei da Macedônia, Maced nasceu

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em Estagira, colônia grega da Trácia, no litoral setentrional do mar Egeu, em 384 a.C. Aos dezoito anos, em 367, foi para Atenas e ingressou na academia platônica, onde ficou por vinte anos, até a morte do Mestre. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos, que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia, como preceptor do Príncipe Alexandre, então jovem de treze anos. Aí ficou três anos, até a famosa expedição asiática, conseguindo um êxito na sua missão educativo-política, que Platão não conseguiu, por certo, em Siracusa. De volta a Atenas, em 335, treze anos depois da morte de Platão, Aristóteles fundava, perto do templo de Apolo Lício, a sua escola. Daí o nome de Liceu dado à sua escola, também chamada peripatética devido ao costume de dar lições, em amena palestra, passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. Morto Alexandre em 323, desfezse politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência, estourando uma reação nacional, chefiada por Demóstenes. Aristóteles, malvisto pelos atenienses, foi acusado de ateísmo. Preveniu ele a condenação, retirando-se voluntariamente para Eubéia, Aristóteles faleceu, após enfermidade, no ano seguinte, no verão de 322. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. A respeito do caráter de Aristóteles, inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico, sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais, temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão, em que, ao contrário, os motivos políticos, éticos, estéticos e místicos tiveram grande influência. Do diferente caráter dos dois filósofos, dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas, mais uniforme e linear a de Aristóteles, variada e romanesca a de Platão. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura, de estudo, de pesquisas, de pensamento, que se foi isolando da vida prática, social e política, para se dedicar à investigação científica. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa, como a sua cultura e seu gênio universal. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio, fruto de muita observação e de profundas meditações. Escreveu sobre todas as ciências, constituindo algumas desde os primeiros fundamentos, organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência, agudeza de penetração, vigor de raciocínio, poder admirável de síntese, faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam, poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". A primeira edição completa

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das obras de Aristóteles é a de Andrônico de Rodes pela metade do último século a.C. substancialmente autêntica, salvo uns apócrifos e umas interpolações. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte, tendo presente a edição de Andronico de Rodes. I. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde, não por Aristóteles. O nome, entretanto, corresponde muito bem à intenção do autor, que considerava a lógica instrumento da ciência. II. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia, e pertencentes à filosofia teorética, juntamente com a metafísica. III. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa, em catorze livros. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos, referentes à metafísica geral e à teologia. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico, que a colocou depois da física. IV. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco, em dez livros, provavelmente publicada por Nicômaco, seu filho, ao qual é dedicada; a Ética a Eudemo, inacabada, refazimento da ética de Aristóteles, devido a Eudemo; a Grande Ética, compêndio das duas precedentes, em especial da segunda; a Política, em oito livros, incompleta. V. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica, em três livros; a Poética, em dois livros, que, no seu estado atual, é apenas uma parte da obra de Aristóteles. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam - manifestam um grande rigor científico, sem enfeites míticos ou poéticos, exposição e expressão breve e aguda, clara e ordenada, perfeição maravilhosa da terminologia filosófica, de que foi ele o criador. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles, a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo, em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. O seu problema fundamental é o problema do ser, não o problema da vida. O objeto próprio da filosofia, em que está a solução do seu problema, são as essências imutáveis e a razão última das coisas, isto é, o universal e o necessário, as formas e suas relações. Entretanto, as formas são imanentes na experiência, nos indivíduos, de que constituem a essência. A filosofia aristotélica é, portanto, conceitual como a de Platão mas parte da experiência; é dedutiva, mas o ponto de partida da dedução é tirado - mediante o intelecto da experiência. A teorética, por sua vez, divide-se em física, matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia); a filosofia prática divide-se em ética e política; a poética em estética e técnica. Aristóteles é o

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criador da lógica, como ciência especial, sobre a base socrático-platônica; é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles, porque aí está a sua gnosiologia. Foi dito que, em geral, a ciência, a filosofia - conforme Aristóteles, bem como segundo Platão - tem como objeto o universal e o necessário; pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente, conhecidos sensivelmente. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos, mas abandonando a solução do mestre, Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. Os caracteres desta grande síntese são: 1. Observação fiel da natureza - Platão, idealista, rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. Aristóteles, mais positivo, toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias, buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. 2. Rigor no método - Depois de estudas as leis do pensamento, o processo dedutivo e indutivo aplica-os, com rara habilidade, em todas as suas obras, substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão, em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. Geralmente, no estudo de uma questão, Aristóteles procede por partes: a) começa a definirlhe o objeto; b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas; c) propõe depois as dúvidas; d) indica, em seguida, a própria solução; e) refuta, por último, as sentenças contrárias. 3. Unidade do conjunto - Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema, uma verdadeira síntese. Todas as partes se compõem, se correspondem, se confirmam.

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