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Qualificação de gestores públicos em saneamento

Guia do profissional em treinamento

Transversal
Nível 3

Promoção Rede de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental - ReCESA Realização Núcleo Sudeste de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental - Nucase Instituições integrantes do Nucase Universidade Federal de Minas Gerais (líder) | Universidade Federal do Espírito Santo | Universidade Federal do Rio de Janeiro | Universidade Estadual de Campinas Financiamento Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia | Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde | Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades Apoio organizacional Programa de Modernização do Setor Saneamento-PMSS Comitê gestor da ReCESA · Ministério das Cidades · Ministério da Ciência e Tecnologia · Ministério do Meio Ambiente · Ministério da Educação · Ministério da Integração Nacional · Ministério da Saúde · Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) · Caixa Econômica Federal (CAIXA) Comitê consultivo da ReCESA · Associação Brasileira de Captação E Manejo de Água de Chuva – ABCMAC · Associação Brasileira de Engenharia Sanitária E Ambiental – ABES · Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH · Associação Brasileira de Resíduos Sólidos E Limpeza Pública – ABLP · Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais – AESBE · Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento – ASSEMAE · Conselho de Dirigentes dos Centros Federais de Educação Tecnológica – Concefet · Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura E Agronomia – CONFEA · Federação de Órgão Para A Assistência Social E Educacional – FASE · Federação Nacional dos Urbanitários – FNU · Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas – Fncbhs · Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras – Forproex · Fórum Nacional Lixo E Cidadania – L&C · Frente Nacional Pelo Saneamento Ambiental – FNSA · Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM · Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS · Programa Nacional de Conservação de Energia – Procel · Rede Brasileira de Capacitação Em Recursos Hídricos – Cap-Net Brasil

Parceiros do Nucase · Cedae/RJ - Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro · Cesan/ES - Companhia Espírito Santense de Saneamento · Comlurb/RJ - Companhia Municipal de Limpeza Urbana · Copasa – Companhia de Saneamento de Minas Gerais · DAEE - Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo · DLU/Campinas - Departamento de Limpeza Urbana da Prefeitura Municipal de Campinas · Fundação Rio-Águas · Incaper/Es - Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural · IPT/SP - Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo · PCJ - Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí · SAAE/Itabira - Sistema Autônomo de Água e Esgoto de Itabira – MG · SABESP - Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo · SANASA/Campinas - Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. · SLU/PBH - Serviço de Limpeza Urbana da prefeitura de Belo Horizonte · Sudecap/PBH - Superintendência de desenvolvimento da capital da prefeitura de Belo Horizonte · UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto · UFSCar - Universidade Federal de São Carlos · UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce

Qualificação de gestores públicos em saneamento

Guia do profissional em treinamento

Transversal
Nível 3

172 p. Núcleo Sudeste de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental. 2008. Saneamento – Legislação – Brasil. II.). Controle social. Ministério das Cidades. – Brasília : Ministério das Cidades. 7. Nota: Realização do NUCASE – Núcleo Sudeste de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental e coordenação de Carlos Augusto de Lemos Chernicharo.UNICAMP Profissionais que participaram da elaboração deste guia Consultores Berenice de Souza Cordeiro (conteudista) | Sonaly Cristina Rezende (conteudista) Ana Paula Barbosa Vitor (conteudista) | Izabel Chiodi Freitas (validadora). 3. 4. Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (org. Administração pública – Formação profissional. Prestação de serviço. Abastecimento de água – Brasil. 8. desde que citada a fonte. Saneamento – Política governamental – Brasil. 5.081 Catalogação da Fonte : Ricardo Miranda – CRB/6-1598 Conselho Editorial Temático Léo Heller .UFMG Sérvio Túlio Cassini . Bolsistas Christiny Schuery Amaral | João Gilberto de Souza Ribeiro Créditos Consultoria pedagógica Cátedra da Unesco de Educação a Distância – FaE/UFMG Juliane Corrêa | Sara Shirley Belo Lança Projeto Gráfico e Diagramação Marco Severo | Rachel Barreto | Romero Ronconi É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação. Brasil. Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental.UFES Emília Wanda Rutkowski. 2. . Emília Wanda Rutkowski.T772 Transversal : qualificação de gestores públicos em saneamento : guia do profissional em treinamento : nível 3 / Ministério das Cidades. CDD – 628. Saneamento – Administração – Brasil. I. 1. Isaac Volschan Junior e Sérvio Túlio Alves Cassini.

40 bilhões de reais para investimentos em saneamento. A missão da SNSA ganhou maior relevância e efetividade com a agenda do saneamento para o quadriênio 2007-2010.Apresentação da ReCESA A criação do Ministério das Cidades no Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ReCESA tem o propósito de reunir um conjunto de instituições e entidades com o objetivo de coordenar o desenvolvimento de propostas pedagógicas e de material didático. mas. ainda que para isso tenha sido necessário “contornar todos os meandros do rio. Nesse novo cenário. a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) inaugurou um paradigma que inscreve o saneamento como política pública. com dimensão urbana e ambiental. Por fim. permitiu que os imensos desafios urbanos passassem a ser encarados como política de Estado. manutenção e gestão dos sistemas de saneamento. o alcance de melhorias de desempenho e da qualidade na prestação dos serviços e a integração de políticas setoriais. bem como promover ações de intercâmbio e de extensão tecnológica que levem em consideração as peculiaridades regionais e as diferentes políticas. Nesse contexto. Um grupo. a SNSA conduz ações em capacitação como um dos instrumentos estratégicos para a modificação de paradigmas. O projeto de estruturação da Rede de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental – ReCESA constitui importante iniciativa nesta direção. dos recursos reservados ao Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. em nível nacional. Para a estruturação da ReCESA foram formados Núcleos Regionais e um Comitê Gestor. predominantemente formado por profissionais da engenharia. que compreendeu a necessidade de agregar outros olhares e saberes. cabe destacar que este projeto ReCESA tem sido bastante desafiador para todos nós. Uma concepção de saneamento em que a técnica e a tecnologia são colocadas a favor da prestação de um serviço público e essencial. Comitê gestor da ReCESA . antes de chegar ao seu curso principal”. em 2003. técnicas e tecnologias visando capacitar profissionais para a operação. haja vista a decisão do Governo Federal de destinar. promotora de desenvolvimento e da redução das desigualdades sociais.

prestadores de serviços de saneamento e entidades específicas do setor. foram tomados cuidados especiais com a forma de abordagem dos conteúdos. Os guias têm uma identidade visual e uma abordagem pedagógica que visa estabelecer um diálogo e a troca de conhecimentos entre os profissionais em treinamento e os instrutores. doze sobre sistemas de esgotamento sanitário. tendo como instituições co-executoras a Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Equipe da central de produção de material didático – CPMD . Dentre as diversas metas estabelecidas pelo Nucase. doze relacionados aos sistemas de abastecimento de água. denominados temas transversais. que servirão de apoio às oficinas de capacitação de operadores em saneamento que possuem grau de escolaridade variando do semi-alfabetizado ao terceiro grau. Para isso.Nucase Os guias O Núcleo Sudeste de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental – Nucase tem por objetivo o desenvolvimento de atividades de capacitação de profissionais da área de saneamento. São seis guias que versam sobre o manejo de águas pluviais urbanas. em seus estados. as universidades que integram o Nucase têm como parceiros. nove que contemplam os resíduos sólidos urbanos e três terão por objeto temas que perpassam todas as dimensões do saneamento. tipos de linguagem e recursos de interatividade. a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e a Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Atendendo aos requisitos de abrangência temática e de capilaridade regional. O Nucase é coordenado pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Coordenadores institucionais do Nucase A coletânea de materiais didáticos produzidos pelo Nucase é composta de 42 guias que serão utilizados em oficinas de capacitação para profissionais que atuam na área do saneamento. nos quatro estados da região sudeste do Brasil. merece destaque a produção dos Guias dos profissionais em treinamento.

Saneamento básico integrado às comunidades rurais e populações tradicionais. alterando a lógica de setorização. destinado aos profissionais da área de saneamento. pois vislumbrar o específico dificulta a visão do todo. mas considera-se que este é um primeiro e importante passo para que se tenha material didático. Os temas abordados nesta série dedicada aos temas transversais incluem: Qualificação de gestores públicos em saneamento. prefeituras.Apresentação da área temática: Temas transversais A concepção da série sob a denominação de Temas Transversais partiu do pressuposto que enxergar a integralidade do saneamento requer abordar todos os seus componentes de uma forma conjunta. instituições de ensino e pesquisa e profissionais da área da Região Sudeste. que raramente têm oportunidade de receber treinamento e atualização profissional. Uso de geoprocessamento em saneamento. Os temas que compõem a série foram definidos por meio de consulta aos serviços de saneamento. buscando apreender aqueles mais relevantes para o desenvolvimento do projeto Nucase na região. Certamente há muitos outros temas importantes a serem abordados. produzido no Brasil. Coordenadores da área temática temas transversais .

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. 33 Estado................ 38 Legislação: Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico e a Lei de Consórcios Públicos ................................... 20 A formação da identidade sanitária nacional ........................ 73 Principais interfaces setoriais do saneamento ......................... 99 Planejamento em saneamento no Brasil: a novidade dos Planos Municipais de Saneamento Básico ............ 91 Planejamento: origem e vertentes ................................................................... 20 A coletivização do bem-estar.......................................168 ..................123 Capacidade de gestão do prestador: alguns avanços e principais gargalos ..................... 38 Estado e políticas públicas ...............Planasa ................... 81 Planejamento e plano de saneamento básico .............................................................................154 Algumas pinceladas teórico-conceituais sobre controle social ......................10 Evolução das ações voltadas para abastecimento de água e esgotamento sanitário no Brasil ........132 Prestação dos serviços de saneamento no Brasil: as novas regras ................... políticas públicas e legislação .............................................................154 Controle social: noção de direito e instrumentos legais ...................................................................................... 91 Planejamento e método ........................... 23 Dicotomia entre saneamento e saúde e o Plano Nacional de Saneamento ..............................................................................................................................123 Organização e prestação dos serviços de saneamento no Brasil: quadro em 2008 ........................................................Sumário Introdução .........................161 Referências bibliográficas ............................................................... 65 Intersetorialidade: aportes conceituais e metodológicos para a gestão pública . 65 O retrato do saneamento no Brasil: per fil do déficit e a falta de foco na gestão integrada .......................................................................................................................................107 Organização e prestação dos serviços de saneamento ....39 Intersetorialidade ........145 Controle Social .........................................................

só a coleta – efetuada por um departamento de limpeza pública não necessariamente preparado para um serviço de tal importância sob o ponto de vista sanitário. que adiam a solução realmente definitiva.Qualificação de gestores públicos em saneamento . E. é a setorização dos serviços. 10 Transversal . milhares de pessoas em uma grande cidade brasileira começam a padecer de um mal que já está extinto dos compêndios da medicina nos países mais desenvolvidos. lançamos mão de práticas convencionais. nas regiões mais ricas e para as pessoas com renda suficiente para custeá-los. é realizada a gestão no setor de saneamento básico? Usualmente. vez por outra. ou seja. práticas essas que se limitam a ações pontuais e isoladas. em épocas de chuva. “de repente”. com diversos responsáveis. Queremos abrir oportunidades a você. como um SAAE. neste guia. Também o manejo das águas pluviais urbanas – em geral tratadas por um setor da prefeitura que lida com todas as obras – é um serviço sempre questionado quando. as enchentes tomam conta das cidades. Em geral. tem sido mantido alienado das principais decisões que envolvem essa prestação de serviço público. Profissional. não pensadas em um conjunto articulado e integrado. Por exemplo. geralmente. estão de fato efetivamente disponibilizados no meio urbano. Outra questão. um município que concede o abastecimento de água a uma companhia estadual de saneamento tem os serviços de esgotamento sanitário – em geral só a coleta dos esgotos – prestados por uma organização federal através de um serviço associado.Nível 3 . restringindo-se à remediação dos problemas. privilegiar a gestão como principal estratégia do poder público e da sociedade para alteração desse quadro. ocasionando as “trágicas” perdas.Introdução Caro Profissional. Essa situação é facilmente verificada quando contemplamos os índices sanitários de nosso País e podemos confirmar que os serviços de saneamento por nós prestados ainda são segregadores. inclusive de entes governamentais distintos. em geral. inclusive de vida humana. como a dengue ou a leptospirose. Propomos. tomam as manchetes dos principais meios de comunicação quando. Você já parou para pensar como. principal interessado nos serviços prestados. e a coleta dos resíduos sólidos – também. o usuário. que também sempre esteve presente.

como atividade final de avaliação e aprendizado. na regulação e no controle social. demonstrando seus conhecimentos prévios sobre o tema deste guia.ReCESA 11 . você tem de tomar várias decisões em face da problemática diagnosticada no seu município. o grupo poderá comparar as respostas e a forma de apreensão antes e depois da oficina.de apreender novos paradigmas de gestão que. Para cumprirmos esse objetivo. Assim. baseados no planejamento integrado. nos levem à universalização do acesso ao saneamento e à melhoria da qualidade dos serviços prestados à população. onde estão descritos os vários aspectos relacionados às cidades. organizamos este guia em seis conceitos-chave: ∙ Evolução das ações voltadas para o abastecimento de água e o esgotamento sanitário no Brasil ∙ Estado. Cada cenário propõe um roteiro de atividade que o grupo deverá realizar. O objetivo desta atividade é que você trabalhe as diversas situações apresentadas em dois cenários de municípios fictícios e proponha soluções para resolvê-los. aferindo por si mesmo o nível de conhecimento agregado durante o processo. cabe esclarecer que esta atividade introdutória da oficina será retomada pelo mesmo grupo ao final da capacitação. para iniciarmos. Atividade Na sua atividade profissional. Os cenários podem ser visualizados na mídia educativa da Bacia Hidrográfica Virtual (BHV). muitas e frutíferas trocas de experiências e debates que lancem luzes ao seu cotidiano de trabalho no saneamento! E. inclusive as principais informações sobre os serviços de saneamento básico existentes. políticas públicas e legislação ∙ Intersetorialidade ∙ Planejamento e plano de saneamento básico ∙ Organização e prestação dos serviços de saneamento ∙ Controle social Desejamos-lhes bons estudos. Guia do profissional em treinamento . Por fim. sugerimos que você faça a atividade a seguir.

onde existem domicílios comerciais e residenciais. em larga medida. para os esgotos sanitários. O entorno do território do município é bem preservado. a cerca de 5 km a montante da área urbana da cidade.000 habitantes. foram as que mais sofreram os impactos dessa mudança quando passaram a se ocupar. muitas vezes em família. remanescentes de áreas de quilombos. a Prefeitura ou algumas pessoas que catam lixo no local verificam ossadas de animais despejadas clandestinamente no lixão. em alguns casos. instalado às margens do Córrego Maxacali.Nível 3 . Contudo. eventualmente. Os lotes não são adensados. A economia local da cidade é baseada principalmente na atividade comercial. da capacidade de consumo interno sustentada principalmente pela Prefeitura Municipal. O município tem população total de 27.Município de Andorinha O município de Andorinha se encontra mais a montante da bacia. e áreas livres não impermeabilizadas. com recursos do Governo Federal em parceria com uma escola técnica do município de Ararajuba (município de maior porte e mais urbanizado da bacia. da casa e da família dos fazendeiros. coletiva. que depende.Cenário I . em parceria com a Associação de Produtores Rurais. logo depois da posse do novo diretor da Associação. para realizar as tarefas na produção da farinha e que podiam acompanhar suas crianças de perto. foram trabalhar nas fazendas e algumas no matadouro. como principal agente empregador da cidade. com quintais de árvores frutíferas. a Prefeitura foi selecionada para acessar um financiamento “a fundo per- 12 Transversal . Há três meses. que funciona às margens do Córrego Maxacali e atende aos fazendeiros associados. O abastecimento de água do município é feito por captação no próprio córrego que corta a região. cada uma por si. da cozinha. São vilarejos.Qualificação de gestores públicos em saneamento . o trator foi retirado do lixão e. que estudavam na escola rural bem próxima. A grande maioria dos domicílios urbanos mantém a fossa séptica como solução individual. possuem ótimo índice de área não construída. Várias pessoas dos vilarejos. situado a 150 km de Andorinha. que têm na produção de farinha o principal meio de trabalho e de sustento das famílias. que convivem com grandes fazendas de criação de gado. Os resíduos são levados para um lixão. No bairro central. Na área urbana a ocupação do solo é esparsa e predominantemente horizontalizada. A área rural do município concentra 60% dos habitantes. mantinha um trator de esteiras no local para fazer o recobrimento do lixo duas vezes por semana. A Prefeitura é também a responsável pelos serviços de coleta de lixo e de limpeza pública. ex-prefeito do município. antes ocupadas com a lida nas casas de farinha. com presença de parques florestais e margens do Córrego Maxacali vegetadas. As mulheres que tinham o costume de se reunir em grupo. Até bem recentemente a Prefeitura. a Prefeitura implantou o sistema condominial de esgotamento sanitário. A Associação de Produtores Rurais da região possui um abatedouro próprio.

o Prefeito abriu a reunião. principalmente a tarifa de água nunca antes aplicada. o município terá de implantar um programa de acompanhamento e de avaliação dos resultados obtidos com o novo empreendimento com relação aos impactos para a saúde pública da população. ∙ o técnico da Funasa: que terá a função de explicar os objetivos que se pretende atingir com a implantação do projeto e as obrigações que o Município deverá arcar em contrapartida. um sistema descentralizado de esgotamento sanitário para os lugarejos rurais onde existem as fábricas de farinha e a transformação do lixão em um aterro sanitário simplificado. o Prefeito convocou a população do município para uma reunião pública. alguns casos diagnosticados como esquistossomose e outros de doença de chagas na área rural. quem irá representar os seguintes papéis na reunião: ∙ o Prefeito Municipal: que terá a função de abrir a reunião apresentando o projeto de saneamento para Andorinha. professores das escolas. Mas lá estavam grupos de mulheres que trabalham no comando das casas de farinha.ReCESA 13 . marcou presença na reunião. de acordo com os critérios estabelecidos no programa de financiamento. que contaria com a participação de um técnico da Funasa. Contudo. Com o salão lotado. grupos de jovens que atuam na igreja. que vem apresentando índices preocupantes de diarréias.dido” do Governo Federal. na Câmara dos Vereadores. Os recursos são para investimentos no saneamento básico do município. Diante desse quadro. ∙ um representante dos moradores da área urbana do município (um comerciante ou uma pessoa ligada ao movimento da igreja). entre seus participantes. agentes de saúde que tentam implantar o conselho municipal de saúde. proveniente da carteira do chamado PAC Funasa (Programa de Aceleração do Crescimento da Fundação Nacional de Saúde). a Associação de Produtores Rurais não enviou sequer um representante. o grupo deverá eleger. além da vereadora e presidente da Câmara Municipal e demais vereadores. contemplando a implantação de uma Estação de Tratamento de Água. comerciantes. Roteiro A partir do cenário descrito. Grande parte dos moradores. tanto da cidade quanto da área rural. em contrapartida. Guia do profissional em treinamento . a Prefeitura terá a obrigação de passar a cobrar pelos serviços prestados. Também no rol da contrapartida da Prefeitura. No entanto.

esse aspecto implicaria alguma mudança no roteiro proposto para se trabalhar a solução da problemática apresentada? Alguns insumos sobre o cenário: 14 Transversal . No caso do Prefeito: ∙ Qual a proposta que ele apresentará para atender aos dois condicionantes do financiamento que o município deverá cumprir a título de contrapartida? No caso do Técnico da Funasa: ∙ Que tipo de recomendação este técnico pode fazer na reunião para ajudar o município a encontrar formas para cumprir os requisitos da contrapartida e a levar a implementação do projeto a bom termo? No caso das falas dos representantes do povo: ∙ Quais os conflitos que se revelaram em relação ao projeto apresentado e às soluções propostas pelo prefeito e pelo técnico da Funasa? No caso do Vereador: ∙ quais as questões que a reunião colocará para a Associação de Produtores Rurais. deverá montar a sua fala para participar da reunião. Nessa tarefa. Cada ator. algumas perguntas devem ser respondidas de acordo com cada personagem.Nível 3 . ao assumir seu personagem. mas que não se apresentou como representante da Associação dos Produtores Rurais. uma vez que todos o vêem como um representante dos fazendeiros da região? O grupo acrescentaria algum aspecto que lhe parece fundamental para a descrição do cenário? Em caso afirmativo.Qualificação de gestores públicos em saneamento .∙ um representante dos moradores da área rural do município (uma das mulheres que trabalham nas casas de farinha) ∙ um vereador que também é fazendeiro na região.

o sangue usado como insumo em indústrias químicas. Casa de Farinha: No período colonial. a manipueira escorre sem tratamento. vendidos também como alimento. a fábrica se realimentará de seus próprios resíduos. Guia do profissional em treinamento . é triturada ou ralada em pilão (caititu).ReCESA 15 . como o couro. Depois de peneirada e torrada. Além do consumo de água. a farinha está pronta para o consumo. sequilho. retirado em digestores de restos de ossos e gordura. a manipueira pode envenenar os animais. responsável pela diminuição da fome em algumas regiões brasileiras. O líquido que sobra da pubagem tem um alto teor alcoólico. tapioca). A mandioca ralada vai caindo em um cocho. Atualmente é também importante referência de patrimônio histórico e turístico em algumas regiões do país. onde é descascada e colocada na água para amolecer e fermentar ou pubar. a mandioca é levada direto da roça para a casa de farinha. dos criados das fazendas e engenhos. além de diminuir o oxigênio da terra e da água. A massa da mandioca é utilizada como goma para engomar roupa ou para a fabricação de alimentos (mingau. Nas casas de farinha mais rudimentares. A casa de farinha ajudou a fixar o homem à terra. é grande consumidor de água. muitos outros materiais são vendidos pelos abatedouros. se comparado a outras categorias de usuários de água de municípios de pequeno porte. a farinha de mandioca era usada para a alimentação dos escravos. bolo. Rica em ácido cianídrico. o abatedouro também usa energia elétrica para o aquecimento da caldeira e para a câmara de refrigeração. Além da carne. transformando a mandioca num importante alimento. tanto na implantação do projeto quanto na operação e manutenção do sistema. em substituição à retirada da floresta nativa. seu produto de maior valor. Esgoto Condominial: um tipo de sistema que requer mobilização e determinado nível de pactuação dos moradores beneficiados. a farinha de ossos. depois prensada no tipiti (tipi = espremer e ti = líquido. infiltrando-se no solo. Assim. Existe a possibilidade de se transformar a manipueira em biogás (metano) para aquecer os fornos das casas de farinha. que enriquece rações. os miúdos. na língua tupi) para retirar um líquido venenoso chamado manipueira. Depois da colheita da raiz (tubérculo). papa. o sebo. Essa atividade é altamente poluidora se não houver o adequado tratamento dos dejetos de grande concentração orgânica. mesmo de pequeno porte.Abatedouro: um abatedouro. Em seguida. O processo de produção da farinha começa no plantio das manivas.

o alto teor de sedimentos que escoam com as grandes chuvas em função do Garimpo Água Preta que funciona a menos de 5 km a montante do município. Quando a ETE funciona.Cenário II . o território apresenta um relevo mais acidentado. sendo que 75% dos moradores moram na área urbana da cidade. com todos os problemas ambientais e sociais associados. onde também é contratada pela Prefeitura para prestar os serviços de limpeza urbana. algumas vezes com perdas humanas. conhecido como Comunidade Morro das Mangueiras.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Essa população é abastecida por um reservatório de água instalado no topo do morro. hoje é um grande lixão. Dos três é o município de maior porte e o mais urbanizado da bacia. em função do estrangulamento do curso d’água e da excessiva impermeabilização do solo. A mesma empresa que opera a usina comercializa os materiais reciclados e transporta o rejeito (praticamente 90% do total) para o município de Jaguatirica. Já se observa a ocupação de morros acima da cota 60. O morro não é urbanizado. Nesse município. O lixo coletado em caminhões compactadores segue para a usina. O Córrego Xavante corta a cidade e. pois não foram instalados os interceptores ao longo do Córrego Xavante. o lodo proveniente do tratamento é lançado diretamente no curso d’água. sem qualquer tratamento. as margens apresentam erosão bem avançada e mata ciliar esparsa. nos mesmos moldes da urbanização verificada no centro da cidade. resultando em alta densidade demográfica e alto nível de impermeabilização do solo. Também desse lado da cidade.000 habitantes. Existe uma Usina de Tratamento de Resíduos implantada na cidade há mais de dez anos. à época da ocupação. a cidade sofre com as enchentes que ocorrem principalmente na área central. Soma-se a esses agravantes. cuja ocupação foi induzida na gestão passada da Prefeitura Municipal. 16 Transversal . A população total é de 140. A área urbana apresenta elevado índice de verticalização. Neste “loteamento popular”. e atualmente operada por uma empresa privada.Município de Colibri O município de Colibri está localizado entre os municípios de Taruíra e de Manati. Por outro lado. o que no início era um aterro controlado. No trecho mais a jusante.000 famílias. de menor porte. que recebe apenas 30% do esgoto produzido na cidade. onde passa por um processo mecanizado de triagem. na área central. Nesse percurso do Córrego Xavante. tem o seu trecho em canalização aberta. os moradores convivem com esgoto a céu aberto. Em época de chuvas fortes. recebendo grande parte do esgoto sanitário produzido na cidade. moram cerca de 2.Nível 3 . no lado oeste da cidade. falta todo tipo de infra-estrutura. também responsável pela coleta e limpeza pública. Colibri também enfrenta problemas sérios relacionados à moradia. em frente ao morro da Comunidade Morro das Mangueiras. foi construída uma Estação de Tratamento de Esgotos (ETE). observam-se vazios urbanos infra-estruturados e sinais de expansão urbana. e são freqüentes os casos de desabamento e desmoronamento de encostas. o lixo não é recolhido com a periodicidade adequada.

o Ministério Público Estadual criou uma Coordenadoria Regional da Bacia do Rio dos Índios. organizar campanhas nas escolas. Passados os primeiros dias de susto e de remediação desse quadro de calamidade. o esgoto que corre a céu aberto na Comunidade Morro das Mangueiras. o Secretário de Obras. No início deste verão. No entanto. que gerencia os contratos com a empresa da Usina de Tratamento de Lixo. Passam a observar. reivindicar informações e prestação de contas da Prefeitura. os poucos conselhos municipais existentes começam a pautar os problemas relacionados com a Usina de Lixo. Guia do profissional em treinamento . entre outras atividades.ReCESA 17 . tem instaurado uma outra dinâmica na cidade em relação a tudo e a qualquer atividade que se relaciona com a questão ambiental. porém com uma visão ampla da questão urbana. Compareceram ao evento o Prefeito Municipal. Nessa audiência. esse cotidiano foi atropelado por uma catástrofe: uma família inteira foi vítima de um desabamento na Comunidade Morro das Mangueiras enquanto o centro comercial contabilizava significativas perdas em seus estabelecimentos totalmente inundados pela enchente do Córrego Xavante. também. a mobilização dos moradores no Fórum assumiu um outro tom: com o apoio da Promotora de Justiça.Recentemente. Em decorrência dessa movimentação. a chegada de uma promotora de justiça especializada em meio ambiente. as autoridades deveriam apresentar suas propostas para evitar que outra tragédia daquela proporção se repetisse no município. os participantes devem escolher a mais adequada para equacionar os problemas sanitários e ambientais do município de Colibri. A sede dessa coordenadoria foi implantada no Município de Colibri. o que ocorre fora do município conhecendo tipos de atividades que ocorrem em seu entorno e o que disso resulta. a população tem-se reunido para apresentar suas preocupações. Com base em informações específicas para cada alternativa (inclusive sobre recursos). Também estavam presentes na audiência autoridades dos municípios vizinhos. O fator gerador disso foi o funcionamento irregular do Garimpo Água Preta a montante desse município. da qual faz parte o Córrego Xavante. o Secretário de Saúde e o diretor da Companhia Estadual de Saneamento Básico. Roteiro O trabalho do grupo consiste em avaliar as propostas apresentadas pela Prefeitura e outras surgidas durante a audiência. Moradores que antes atuavam pontualmente agora se reúnem em Organizações Não Governamentais (ONGs). Nesse fórum. responsável pelo abastecimento de água no município e parte do sistema de esgotamento sanitário (apenas o que cobre a área central e a operação da ETE). convidados pela Promotora de Justiça. foi criado um Fórum Municipal de Desenvolvimento. o Fórum convocou o prefeito e os secretários municipais para uma audiência pública.

em nível de projeto básico. Ele atribui à atividade do Garimpo Água Preta a principal causa das recorrentes enchentes que trazem prejuízos de toda ordem para a população de Colibri. atualmente desproporcional à população daquele município e com problemas que não se resolvem na ausência de uma estrutura gerencial adequada. Sobre esta área.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Conhecedor da realidade de Colibri e muito conhecido na cidade por ter sido secretário de planejamento desse município em gestões anteriores. remediar o possível e obras só no futuro” O Prefeito do Município de Jaguatirica também estava presente na audiência. reconhece que isso pouco tem a ver com a situação da Comunidade Morro das Mangueiras. E acrescenta que essa alternativa pode complementar as propostas apresentadas pelo Secretário de Obras na alternativa 1. E não é só o problema do lixo que impõe aos dois municípios a obrigação de pensar em soluções integradas e compar- 18 Transversal . para implantar a canalização fechada do Córrego Xavante. Alerta a representante do Ministério Público que o Garimpo funciona em situação irregular. Contudo. Alegou que o problema de Colibri já havia extrapolado os limites locais: por falta de área em Colibri o seu lixo é depositado no lixão de Jaguatirica. como escadarias para acesso dos moradores e contenção tipo gabião das encostas mais comprometidas pelo desabamento. pediu a palavra e consultou aos presentes se poderia ele também colocar uma proposta em debate. o Prefeito informa aos participantes da audiência que solicitou à concessionária estadual de saneamento básico um projeto emergencial para resolver o problema do esgoto naquela área. no trecho que corta a área central da cidade. O estudo também inclui a implantação de obras de emergência na Comunidade Morro das Mangueiras. Alternativa 3: “Planejar já.Nível 3 . O nível de sedimentos carreados pelo curso d’água e o estágio avançado de devastação da mata ciliar seriam os principais fatores que levam o município à situação de calamidade pública. Alternativa 2: “O problema maior não é da Prefeitura” O Prefeito alegou que o principal problema não está dentro da cidade e nem mesmo sob a responsabilidade da Prefeitura. tal como a ocorrida no último verão. na medida em que não implantou todas as medidas compensatórias previstas no licenciamento ambiental desse empreendimento.Alternativa 1: “Obras já” O Secretário de Obras apresentou um estudo.

enquanto a cidade tem áreas que dispõem de infra-estrutura ainda desocupadas. Após a apresentação das soluções propostas por você e seus colegas.ReCESA 19 . A Estação de Tratamento de Água (ETA) de Jaguatirica tem trabalhado sobrecarregada porque a qualidade da água do Córrego Xavante. Guia do profissional em treinamento . que também abastece este município.tilhadas. E acrescentou: ao escutar as alternativas 1 e 2 apresentadas pela Prefeitura de Colibri. em vez de partir para a realização de obras que jogam a sujeira para baixo do tapete por algum tempo. Com isso. sugeriu que o Fórum refletisse se o momento não seria mais adequado para investir em um plano de saneamento para as duas cidades. vamos aprofundar as questões que envolvem a tomada de decisão e aprimorar ainda mais nossos conhecimentos. em nenhuma delas viu a possibilidade de minimizar os problemas de Jaguatirica. Ao concordar com as medidas emergenciais para a Comunidade Morro das Mangueiras. piorou muito nos últimos anos. perguntou ao Prefeito se ali também não seria necessário pensar em medidas mais estratégicas em face do crescente movimento de construção de novos barracos no morro.

ajuda na caracterização da origem das ações coletivas de saneamento no País.OBJETIVOS: . perceberá que a evolução das áreas do saneamento não ocorreu de maneira integrada. ao longo da evolução histórica do País. branca e negra – no contexto do processo de povoamento e exploração colonial. convidamos você para uma reflexão acerca da contribuição de cada uma das referidas etnias na formação de uma identidade sanitária para o brasileiro através da atividade a seguir. 20 Transversal .Nível 3 . Observe-as com atenção e descreva para os colegas de grupo o que cada uma delas quer evidenciar quanto aos hábitos das comunidades representadas nas mesmas. a partir da conscientização da interdependência sanitária por parte das elites políticas e intelectuais do País. a partir de meados do Século XX.Compreender a nova visão do saneamento. Profissional. você. A formação da identidade sanitária nacional Caro Profissional. Atividade As charges e a imagem mostradas a seguir representam três cenas do cotidiano brasileiro durante o período colonial. Vamos conhecer um pouco da história do saneamento brasileiro para entendermos o panorama atual do setor. Certamente. Assim. descrever uma possível identidade sanitária nacional é mais que traduzir a visão dos fragmentos que vêm compondo o mosaico das ações de saneamento no cotidiano das famílias e das comunidades no território brasileiro. Reflita sobre as contribuições de cada etnia no processo de assimilação da identidade sanitária nacional.Refletir sobre a criação e consolidação das ações coletivas de saneamento e de saúde pública.Abordar o processo de desenvolvimento das ações voltadas para o abastecimento de água e o esgotamento sanitário no Brasil. A interpretação de práticas sanitárias exercidas pelas diferentes etnias – indígena. privilegiando nesse contexto a bipolarização das ações de saúde e de saneamento e o Planasa. Evolução das ações voltadas para abastecimento de água e esgotamento sanitário no Brasil Você já parou para pensar nos fundamentos da constituição do saneamento brasileiro? Reflita e procure imaginar as causas que embasaram a evolução de cada uma das áreas que compõem o setor. sob a perspectiva da formação de uma identidade sanitária nacional. . .Qualificação de gestores públicos em saneamento . O representante escolhido pelo grupo deverá relatar para toda a turma quais foram as impressões do grupo. que se instalou definitivamente no País.

as doenças trazidas pelos europeus se alastravam entre os indígenas causando um verdadeiro massacre. na interpretação das charges.Charge. No Brasil. Revista O Arlequim. O excesso de roupa utilizado pelos europeus nos trópicos. vamos comparar o conteúdo desse texto com as respostas dadas por você. pois as populações nativas sempre se guiaram por um forte senso de preservação do ambiente e da saúde. 1867 Os tigres. Nas ações de saneamento existentes durante o período colonial. Profissional.ReCESA 21 . visto que não possuíam imunidade e resistência às mazelas trazidas de fora. era um fator agravante para as doenças pulmonares e de pele. Revista A Semana Ilustrada. enquanto os indígenas tinham como hábitos o banho diário e o contato e o respeito à natureza. Na seqüência. Raquel Conde in Rezende e Heller. 1861. 2002 Charge. as contribuições da cultura indígena foram muito importantes. Passemos à leitura do texto a seguir. voltadas para a higiene pessoal e o saneamento domiciliar. com hábitos salutares como os banhos diários e a utilização de fontes de água pura. já comuns nesses povos. A miscigenação étnica no Brasil é um aspecto de grande relevância para a composição das ações individuais e coletivas. que trata das diferenças étnicas que formam a identidade sanitária brasileira. Os Jesuítas vangloriavam-se de não se darem ao luxo de lavar os pés. Guia do profissional em treinamento .

e os que transportavam os dejetos domésticos eram chamados de “tigres”.Nível 3 .Qualificação de gestores públicos em saneamento . Em algumas áreas urbanas ocupadas pelas camadas mais populares. provisoriedade e precariedade” do modo de vida (Novais. constituíam espaços de convivência. Debret. sobrados e vivendas. a partir do ciclo do ouro. eram chamados “aguadeiros”. Nas casas-grandes. 1997) o que influenciou fortemente sua conduta sanitária.O ideário colonialista do explorador europeu era pautado pela “transitoriedade. causava constrangimento aos transeuntes. trabalha. 22 Transversal . as ações de saneamento realizadas nas cidades começaram a se tornar públicas quando da construção de chafarizes e aquedutos. por causa das manchas acobreadas deixadas em seus corpos e vestes pelas fezes. sendo as atividades domésticas voltadas para a alimentação e a higiene realizadas no exterior da casa. 1994). Negros de ganho carregando pipas d´agua. Tudo que corre. grita. erguidos sob a égide da diversificação econômica e do tímido crescimento urbano do período colonial. onde normas e valores exigiam um comportamento coletivo adequado. sendo deles as atribuições de trazer água para o interior das casas e levar os dejetos para lugares afastados. para que soluções fossem dadas aos problemas relativos ao transporte de água e à coleta dos esgotos. a expressão “água vai” era proferida antes do lançamento de águas servidas para fora dos domicílios. aos escravos era conferida a responsabilidade do saneamento domiciliar. o que revela o descaso da população e do poder político com as questões de higiene (Costa. além de garantirem a provisão de água dos domicílios. 1859/1980:22 A abolição da escravatura no Brasil forçou as elites a se mobilizarem em favor da organização das ações coletivas pelo poder público. A maioria da população vivia sem nenhuma comodidade ou conforto. Os “negros de ganho”. A imundície das vias públicas das cidades brasileiras do século XIX além de favorecer a proliferação das doenças. De fato. que entre outras funções transportavam água. tudo que transporta e carrega é negro Avé-Lallemant. 1820. Esses locais.

ilustrado pelo seu famoso personagem. Veremos. É um pressuposto filosófico matriz. 1995: 13-14. uma teoria. Para isso. Com isso. como as ações de saneamento começaram a ser organizadas nas cidades brasileiras. como tiveram início as mudanças e a participação da sociedade frente aos problemas sanitários. Oswaldo Cruz tornou-se conhecido em todo o País. (Wikipédia) A proclamação da República mudou a posição do Estado diante da questão sanitária nacional. iniciaremos as nossas reflexões com a leitura do texto de Meihy e Bertolli Filho. Procuraram também criar serviços eficientes de limpeza pública. Guia do profissional em treinamento . o Jeca Tatu. A coletivização do bem-estar Nesta seção. Meihy e Bertolli Filho. Os primeiros governos republicanos procuraram tornar realmente obrigatórias as leis que exigiam a vacinação das crianças. uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas. Perceba como era o saneamento brasileiro.ReCESA 23 . agora.Como pudemos perceber. ou seja.) Oswaldo Cruz foi encarregado pelo governo de recuperar a saúde pública do Rio de Janeiro e. doenças que grassavam nas cidades brasileiras no início do século XX. um conhecimento que origina o estudo de um campo científico. posteriormente. em 1911. Oswaldo Cruz aparece nesta caricatura publicada pela revista francesa Chanteclair. buscaremos compreender os paradigmas da coletivização das ações de saneamento no Brasil e como essas ações se tornaram públicas. caracterizando a ação do governo no início da República brasileira. Em pouco tempo. as etnias – indígena.. Os novos dirigentes falavam em elevar o Brasil à condição de potência internacional. Paradigma: é a representação do padrão de modelos a serem seguidos. (. instalar redes de esgoto e canalizar a água usada pela população. numa postura de guerra contra os transmissores da febre amarela e da peste bubônica. e do texto de Monteiro Lobato. branca e negra – agregaram hábitos diversos trazendo contribuições para a formação da identidade sanitária no Brasil.. o governo passou a empenhar-se mais e mudar a péssima reputação que o Brasil tinha no exterior. de algumas regiões da Amazônia. devido a sua ação como higienista.

imagem permanente do caipira ignorante e doente do interior brasileiro.Quem do alto olha para o Brasil vê um complexo sistema de parasitismo em repouso sobre um larguíssimo pedestal de escravos andrajosos e roídos de todas as doenças endêmicas: o homem rural (. isto é. a promessa oficial de todos os presidentes tem sido proteger a saúde da população. o sistema de parasitismo que come. Atividade Coletivamente responda e discuta as questões a seguir.1959:54-55). Os textos mostraram um pouco dos graves problemas relacionados à questão sanitária que o Brasil enfrentava até meados do século XX.Qualificação de gestores públicos em saneamento . vestese.Nível 3 . mora. Sobre a miséria infinita desses desgraçados está acocorada a nossa ‘civilização’. ∙ Desde a instituição da República. Jeca Tatu. Capa da 17ª edição do livro de Monteiro Lobato. Por que isso não tem ocorrido? 24 Transversal . ∙ Quais ideais nortearam as ações de saneamento a partir do período republicano no Brasil. e traz a cabeça sob a asa para evitar o conhecimento da realidade.). distribuído como propaganda do laboratório Fontoura. refletindo-se na sua ampliação? ∙ Relacione as idéias expostas no texto de Lobato acerca do habitante das áreas rurais do País com o quadro observado para uma parcela significativa da população residente nas grandes cidades brasileiras da atualidade... Vamos realizar a atividade a seguir com o intuito de discutir os principais temas dos dois textos que acabamos de ler. (Lobato.

Esses expedicionários fundaram em 1918. sobretudo as mais populosas e estratégicas para a economia do País. as cidades brasileiras deixaram de contar com seus agentes sanitários primitivos. As poucas ações voltadas para as coletividades.Após essa discussão das questões sanitárias e sua correlação com os dias atuais. O Brasil. Uma corrente nacionalista abrangendo as elites política e intelectual do País se encarregou de chamar a atenção para os problemas de saúde pública oriundos das precárias condições de saneamento das cidades brasileiras e de suas áreas rurais. nesse período. que trariam efeitos benéficos para a saúde da população dos “sertões”. Foi a partir da compreensão de que as epidemias atingiam a todas as camadas da população que as elites brasileiras atentaram para necessidade da coletivização dos cuidados com a saúde. resultando em mão-de-obra local para as principais atividades econômicas. caracterizado por Belisário Pena como “um imenso hospital”. que representavam um entrave ao desenvolvimento. Com a abolição da escravatura. Tal percepção trouxe a apreensão de que a vida em coletividade exigiria a manutenção de hábitos de higiene e cuidados com a provisão de água e alimento.ReCESA 25 . resultaram na construção de chafarizes públicos. além da destinação dos resíduos. tinha suas cidades freqüentemente assoladas pelas epidemias de varíola. no início do século XX. eram parceiros dos sanitaristas brasileiros no controle das endemias rurais e ajudaram a Guia do profissional em treinamento . Nas cidades brasileiras do início do século XX. residente nas áreas rurais do país. na capital Rio de Janeiro. vamos aprofundar um pouco mais e conhecer como aconteceu a evolução do saneamento no século XX e algumas personalidades que tiveram destaque nesse cenário. fazendo a leitura do texto a seguir. A institucionalização de uma política nacional de saneamento processou-se após uma fracassada experiência das companhias privadas. causou indignação nos sanitaristas. organizadas pelas entidades paroquiais e por iniciativas particulares. instituição filantrópica voltada para o controle das endemias rurais. cujos ideais eram voltados para a valorização da vocação agrícola do País. representada pela ancilostomíase. aspectos imprescindíveis ao desenvolvimento comum (De Swaan. tripanossomíase e esquistossomose. febre amarela e peste bubônica. o que obrigou as autoridades a atentarem para a importância do desenvolvimento tecnológico na viabilização de sistemas de abastecimento de água e de coleta de esgotos. Esse movimento defendia as ações promotoras do desenvolvimento regional. A precariedade e o abandono em que vivia a grande maioria da população. 1990). nas primeiras décadas do século XX. a Liga Pró-Saneamento do Brasil. e em suas áreas rurais reinava a tríade epidemiológica. que. participaram de expedições ao interior do Brasil. É preciso destacar que. os problemas relacionados ao crescimento e adensamento populacional se multiplicavam. os técnicos norte-americanos da Fundação Rockfeller.

o modelo de gestão do saneamento vigente. as autoridades focalizaram o controle das doenças. Já em meados do século XX. 26 Transversal . Você sabia? O episódio conhecido como “Revolta da Vacina” representa uma das mais importantes manifestações populares ocorridas no País. Após a implantação dos sistemas. além de uma dezena de outras cidades do Sudeste e Sul do País. esteve à frente da Comissão Federal de Saneamento entre os anos de 1893 e 1929. aspectos que contrastavam com a nova realidade urbana do País.Nível 3 . Pará. Os revoltosos lutavam contra o autoritarismo da polícia sanitária e a obrigatoriedade da vacina antivariólica. às dificuldades de arrecadação e à dependência de recursos freqüentemente sujeitos ao clientelismo. apenas alguns meses depois de ter sido instituída. instituindo a polícia sanitária e a vacinação obrigatória. Saturnino de Brito. considerado o pai da Engenharia Sanitária Brasileira. que se tornaram titulares da gestão dos serviços de saneamento. essa revolta mostrou a força da opinião pública às autoridades sanitárias. Apesar de ter sido contida. como no Vale do Rio Doce e do Amazonas. a Comissão Federal de Saneamento os transferiam à competência dos poderes locais. é interessante fazer a leitura do texto “O saneamento de Santos”. à política tarifária inadequada. estes eram entregues às administrações municipais. tornou-se alvo de críticas relativas à burocracia do poder centralizado. Charge publicada na Revista O Malho em outubro de 1904. tendo sido o maior defensor da utilização de tecnologias apropriadas à realidade do País. e a obrigatoriedade da vacina foi revogada em 1904. Após a execução dos sistemas. Ele participou da elaboração de projetos e construção de sistemas de água e esgotos das capitais dos estados de Minas Gerais. a administração direta municipal.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Para atender às crescentes demandas sanitárias das cidades brasileiras. Para saber um pouco mais sobre as obras de Saturnino de Brito. e criaram a Comissão Federal de Saneamento. São Paulo. Paraíba e Pernambuco.orientar as ações empreendidas para as áreas de maior interesse econômico. que os administravam diretamente. que elaborava e executava projetos de sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário em vários municípios.

Com tamanha visibilidade. permitindo a renovação das águas nas grandes marés e evitando aspecto e cheiro ruins. A City forneceu água para Santos.ReCESA 27 . A planta da cidade de Santos em 1921 mostra como o traçado da Avenida Afonso Pena acompanha o canal do estuário. em 1917. A instalação de adufas para represar as águas de preamar e descarregá-las em baixa-mar garantia a renovação das águas impedindo o acúmulo de areia do mar e a obstrução das descargas. a gestão do serviço de abastecimento de água da antiga Cia.O saneamento de Santos A cidade de Santos se tornou ao final do século XIX. em Cubatão. da captação de água dos antigos Fonte: http://www. no alto da Serra do Mar. elaborado e executado pela equipe do Engenheiro Saturnino de Brito.com. essa cidade passou a merecer a atenção das autoridades daquele estado.portogente. São Vicente e Cubatão até 1953. Guia do profissional em treinamento . de Melhoramentos de Santos é transferida para a The City of Santos Improvements Co. quando o serviço foi encampado pelo Estado.jpg mananciais já poluídos para a Cachoeira dos Pilões. a principal porta de entrada dos imigrantes subvencionados que. tendo sido alvo de um grande plano de saneamento.br/arquivos/id_4319_planta. após a conclusão das obras. Em 1917. iriam para as lavouras de café do Estado de São Paulo. em sua maioria. O sistema de canais projetado por Saturnino de Brito é constituído por canais que ligam o estuário ao mar. Mas a mudança determinante para a melhoria da saúde pública foi a alteração.

O projeto inicial de Saturnino de Brito foi então ampliado e atualizado.Qualificação de gestores públicos em saneamento . a Sabesp manteve algumas e construiu outras. Ribeirão dos Soldados. Fotos de José Marques Pereira. 1907. Saturnino de Brito teve uma fundamental importância para o desenvolvimento de ações sanitárias.jpg nas temporadas de férias saturaram o sistema.O sistema de saneamento que Saturnino calculava ser suficiente até o ano de 1940 foi tão bem feito que suportou o crescimento da população até meados dos anos 60. principalmente no que tange à modernização e realização de obras voltadas para as áreas de água e esgoto.jpg Fonte: http://www.com.br/images/ft1. Essas ações marcaram o século XX e imprimiram características ao saneamento brasileiro. totalizando 12 estações.canaisdesantos. quando a explosão turística e o aumento populacional Fonte: http://www. realizaremos uma atividade para correlacionar a falta de água e esgoto com o modo de vida das pessoas. Agora.Nível 3 . Como vimos. 28 Transversal .br/images/ft2. Das estações elevatórias iniciais.com.canaisdesantos.

teria surgido a inspiração para a composição de “Lata d´água”. servindo na Escola Especializada da Academia Militar. o contraste entre a dura realidade da favela e o sonho de uma vida melhor no asfalto. Lata d’água Luís Antônio e J. Júnior Lata d’água na cabeça Lá vai Maria.net/jackiejr/th/LataDaAgua. retrata o cotidiano da extinta Vila Paranoá. Júnior. situada na capital federal durante sua construção. caminhavam diariamente por um morro da cidade do Rio de Janeiro e presenciavam a rotina do abastecimento de água de seus moradores em uma bica existente. Assista ao vídeo e acompanhe a letra da música que se encontra a seguir. na ausência do saneamento. os compositores Luís Antônio e J.verizon. http://mysite. Da visão de uma mulher equilibrando uma lata na cabeça. de Gersion de Castro. Lá vai Maria Sobe o morro e não se cansa Pela mão leva a criança Lá vai Maria Maria lava a roupa lá no alto Lutando pelo pão de cada dia Sonhando com a vida do asfalto Que acaba onde o morro principia A pintura “Lata d’água na cabeça”. buscando identificar. enquanto levava uma criança. na época capitães do Exército brasileiro. reflita e discuta com seus colegas: ∙ De que maneiras a ausência de canalização interna de água nos domicílios influencia o modo de vida das pessoas. samba de sucesso entoado pela cantora Marlene.ReCESA 29 . sobretudo das mulheres? ∙ Esta ainda é uma música atual? Guia do profissional em treinamento .Atividade No ano de 1952.jpg Agora.

Até aqui vimos um pouco da história do saneamento brasileiro até meados do século XX, algumas ações que influenciaram a sua constituição e as interferências causadas no modo de vida da população. No próximo tópico, veremos as mudanças introduzidas após essa época e os modelos de gestão que fizeram parte da história do saneamento no País.

A dicotomia entre as ações de saneamento e saúde e o Plano Nacional de Saneamento (Planasa)
Nesta seção, iremos buscar uma nova visão do saneamento, assentada nos ditames do capitalismo mundial vigente no País, desde meados do século XX, quando se verifica o afastamento entre as áreas de saneamento e de saúde e o aparecimento de uma nova lógica para o empreendimento das ações de saneamento. Os modelos de gestão mais flexíveis e de feições mais empresariais passam a se destacar como alternativa à administração direta municipal e, a partir da década de 1970, com a implantação do Plano Nacional de Saneamento, fica evidente a opção pelas companhias estaduais, eleitas pelos agentes financiadores do Planasa para serem as únicas contempladas com os recursos destinados ao abastecimento de água e ao esgotamento sanitário. O texto seguinte aborda, de maneira geral, a migração interna no Brasil. Perceba como o movimento populacional influenciou diretamente os problemas pertinentes ao saneamento no País. Faça a leitura do texto.

A redistribuição espacial da população: novos e velhos desafios para o saneamento
As migrações internas foram as maiores responsáveis pelo acelerado crescimento populacional urbano verificado a partir da década de 1960. As conseqüências desse crescimento tornaram-se negativas no Brasil, cujas cidades não estavam preparadas para absorvê-lo. Se, por um lado, o desemprego, a falta de moradias dignas, a miséria e a fome atingiram em cheio os imigrantes pobres, que rumavam para a cidade em busca de uma vida melhor; por outro, o impacto do crescimento populacional urbano sobre o ambiente, causando a degradação e a escassez dos recursos naturais, além da violência urbana, atinge toda a sociedade, transformando a cidade em um caos. Apesar do desenvolvimento de ações de caráter coletivo, a partir do início do século XX, as ações individuais de saneamento predominaram no Brasil até a primeira metade

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

daquele século, quando as migrações internas começaram a ditar um novo panorama demográfico para o País. O êxodo rural provocado pela modernização dos meios de produção agrícola, pela expropriação da terra e pela atração urbana foi intenso entre as décadas de 1940 e 1970, contribuindo substancialmente para o processo de urbanização acelerada do País. Também o declínio da mortalidade em um regime de fecundidade elevada, fenômeno observado desde a década de 1940 até a de 1960, contribuiu para o crescimento da população urbana. Nesse cenário, a dificuldade do poder público em atender às crescentes demandas de saneamento foi preponderante para a reprodução das ações individuais. Paralelamente, as ações de saúde foram caminhando rumo à privatização, com um per fil cada vez mais curativista, ficando a saúde pública focada na atenção às questões previdenciárias.
Os retirantes

Você sabia?
As migrações internas tornaram-se cena típica no cotidiano do homem rural, sendo retratadas por vários ceramistas nordestinos em sua arte. Um dos mais famosos artistas de cerâmica figureira popular foi Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino. Nascido no distrito de Ribeira dos Campos, nas cercanias de Caruaru, Pernambuco, em 1909, foi o pioneiro em registrar, nas suas produções, cenas do cotidiano sertanejo em que vivia: sua gente, usos e costumes.

Você sabia?
As remoções das populações das favelas cariocas e paulistanas tornaram-se comuns com o crescimento destas cidades e a valorização econômica de áreas centrais. Os “removidos” engrossaram, juntamente com os imigrantes, as periferias urbanas, que cresciam desordenadamente e sem a atuação do poder público, durante as décadas de 1970 e 1980. Apenas na década de 1990, as autoridades se voltaram para as demandas da massa de excluídos.
Remoção da população residente na Favela do Esqueleto, Rio de Janeiro, 1965.

Guia do profissional em treinamento - ReCESA

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Histórico dos modelos de gestão no saneamento do País
Antes de iniciarmos a apresentação da história dos modelos de gestão para o saneamento brasileiro, vamos fazer uma atividade sobre a configuração da gestão para os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário para o ano de 2000.

Atividade
O gráfico traz, para o ano 2000, a distribuição dos serviços relativos ao abastecimento de água e ao esgotamento sanitário no Brasil, segundo os modelos de gestão. Observe os percentuais de participação de cada modelo de gestão, para ambos os serviços, e descreva quais aspectos, em sua opinião, são preponderantes para explicar a configuração da gestão do saneamento no País.

Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2000 (PNSB 2000).

Vimos, no texto anterior, as conseqüências da migração para o crescimento desordenado nos centros urbanos, sem infra-estrutura adequada para suportar esses fluxos migratórios. Sabemos que o crescimento desordenado desencadeou uma série de problemas relacionados ao saneamento e, conseqüentemente, à saúde da população residente nessas áreas.

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

no próximo texto. aconteceram em meio a períodos de expansão acelerada. no Vale do Rio Doce e do Amazonas. período de notável crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).ReCESA 33 . Após a nossa reflexão sobre as possíveis ações para o saneamento. que se desenvolveram a partir de experiências bem-sucedidas de gestão de sistemas de água e esgotos por essa entidade. em meio ao crescimento populacional acelerado das cidades. como essas ações começaram a ser estruturadas Será possível perceber a sucessão desses diferenciados modelos e quais deles foram decisivos para o atual quadro do saneamento no País. teve reflexos significativos no aumento das desigualdades sociais. Os SAAEs foram os precursores da implantação de programas de financiamento com previsão de retorno dos investimentos. que serviram de modelo na reorientação da gestão dos serviços até a década de 1960. Quais seriam as melhores ações para solucioná-los. através do histórico dos modelos de gestão no saneamento brasileiro. Nesse contexto. preocupadas com a dramática realidade sanitária vivenciada pela classe média e pelos pobres. ainda na década de 1940. introduzindo a cobrança de taxas progressivas As mudanças processadas nas diretrizes das ações de saneamento no País. e pelas Sociedades de Economia Mista. seguidos de forte retração na economia nacional. quando se viveu um momento de grande euforia no País. os principais organismos financiadores passaram a condicionar a concessão de empréstimos à completa autonomia dos serviços de saneamento. a partir de 1954. A partir dos anos 1950. A década de 70 é marcada pelo “Milagre Econômico”. Os primeiros passos rumo a um modelo de gestão mais flexível e capaz de superar os problemas relacionados à administração direta e de atender à crescente demanda foram dados pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). virando motivo de preocupação entre as autoridades que assistiam ao espetáculo do crescimento. em função da industrialização e do rápido crescimento populacional urbano. a tendência de declínio nos níveis de mortalidade observados desde cedo nos anos 1940 começa a ser revertida.Reflita sobre esses problemas. veremos. a concentração de renda tornou-se cada vez maior e. com o objetivo de promover o desenvolvimento das ações de saneamento em áreas específicas do País. com a constituição das autarquias municipais. em meio a muitas promessas de estabilidade monetária e distribuição de renda. Também ganharam destaque os estudos de viabilidade econômica com previsão de amortização dos recursos investidos por meio de cobrança de tarifa. e contou com o auxílio técnico e financeiro do governo norte-americano para a criação dos Serviços Autônomos de Água e Esgoto (SAAEs). Nesse contexto. Entretanto. desenvolveram-se os modelos de gestão constituídos pelas autarquias municipais. O SESP foi criado em 1942. Guia do profissional em treinamento . por envolverem soluções adequadas e de baixo custo às demandas de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

As autarquias municipais que haviam surgido nos anos 1940. sobretudo. Alguns municípios não transferiram a gestão dos serviços às companhias estaduais e. Essas companhias passaram a substituir uma significativa parcela da gestão municipal do abastecimento de água. A Sanesa. estabelecendo-se como uma alternativa viável à gestão do saneamento pelas administrações diretas municipais. por meio do Sistema Financeiro de Saneamento (SFS). marcada pelo desemprego. que estabeleceu novas bases institucionais. também ficaram alijadas do financiamento. ficou encarregado de orientar as diretrizes do setor de saneamento e da área de habitação. estando o Brasil. As CESBs evoluíram das experiências das Sociedades de Economia Mista (SEM) criadas em meados do século XX. As diretrizes assumidas foram recessivas em relação aos recursos do BNH. no início dos anos 80. por causa das crescentes taxas de desemprego e do crescimento 34 Transversal . O Banco Nacional da Habitação (BNH). prevendo a adoção de taxas progressivas com o consumo. em grande parte.Nível 3 . prevendo também um aumento bem menor na cobertura de redes de esgotos. mergulhado em uma grave crise econômica e social. Os sucessivos choques do petróleo criaram um desequilíbrio na economia mundial. uma grande parcela dos municípios brasileiros aderiu ao Planasa. sendo quase exclusivamente direcionados às municipalidades cuja concessão estivesse sob a responsabilidade das companhias estaduais. Os mecanismos de financiamento do Planasa foram viabilizados a partir da autorização do uso de recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). a partir da década de 1960. foi a primeira a ser constituída. substituída pelas companhias estaduais. enfrentando dificuldades para a ampliação de seus sistemas. entidade fundada em 1967. idealizou-se um grande plano de abrangência nacional. Esse modelo de gestão também foi estruturado segundo o princípio da auto-sustentação tarifária. A tradicional estruturação local na gestão do abastecimento de água foi rapidamente desmobilizada e. abrindo mão da gestão em prol do crescimento da cobertura de redes de água e esgotos. Esses recursos não foram concedidos aos municípios com gestão própria dos serviços. no Estado da Paraíba. para a ampliação da cobertura de redes de água. por isso. como nas autarquias municipais. o Planasa ou Plano Nacional de Saneamento. em 1954. pela inflação galopante e pelo endividamento externo e interno. A saída encontrada pelos governantes foi adotar programas emergenciais de curto prazo. As metas iniciais desse plano eram voltadas. vinculada à Prefeitura de Campina Grande. Sem acesso aos recursos e sem perspectivas de realização de novos empréstimos.Qualificação de gestores públicos em saneamento .Para prover soluções às crescentes demandas urbanas de saneamento. que já amargava com a brusca redução nos recursos do FGTS. não tiveram acesso aos recursos daquele plano. marco do desenvolvimento em saneamento urbano no País. incluindo cartas de intenções com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para o estabelecimento de linhas de crédito. políticas e financeiras para o setor.

Todas essas mazelas enfraqueceram o Planasa e colocaram o saneamento em um estágio de indefinição e estagnação. vamos fazer a próxima atividade e. pense e responda: ∙ A evolução da cobertura de redes de água e esgotos ocorreu de forma desigual. em seguida. 87. Agora. 97 e 2002. no qual são apresentados os percentuais de coberturas domiciliares de redes de água e esgotos nas áreas urbanas do Brasil entre os anos de 1972 e 2002. que apenas teve fim no período atual. Censo Demográfico de 1970 e PNADs 1977. Atividade Observe o gráfico a seguir. ler o texto que elucidará esse questionamento. que define diretrizes para o setor. observe se foi possível descrever. com a criação da Lei 11405/2007. Fonte: IBGE. 92. A quais fatores você atribui essas diferenças? Guia do profissional em treinamento . E então? Será que esses modelos de gestão influenciaram o percentual de redes de água ou esgoto? Para sabermos a resposta. na última atividade. Com base nas informações adquiridas no texto anterior.ReCESA 35 . tanto temporalmente quanto no que diz respeito à distribuição das coberturas por ambos os serviços. 82. os principais aspectos dos modelos de gestão para o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. Também houve redução nos investimentos públicos e privados e elevação nos custos do endividamento externo de períodos anteriores.da economia informal.

O mesmo não aconteceu com a cobertura de redes de esgotos. permaneceu praticamente inalterada. suas diversidades naturais. que. Na década de 1970. mesmo àqueles com status socioeconômico baixo. Nos anos 90. como o Programa de Saneamento para Núcleos Urbanos (PRONURB). sem a devida instalação de sistemas de coleta de esgotos. por um lado. em grande medida. 36 Transversal . era o prenúncio de uma situação que viria a se tornar corriqueira em função da desigualdade gerada pela despreocupação com as conseqüências do aumento no consumo doméstico de água. culturais e nas formas de ocupação têm-se apresentado como fatores relevantes para os diferenciais no acesso dos brasileiros aos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário. enfatizou-se a ampliação da cobertura de saneamento por meio da implementação de programas federais voltados para a redução das desigualdades socioeconômicas. a degradação dos espaços ocupados pelos mais pobres. O texto a seguir explicará os principais fatores que levaram a essa conjuntura. que privilegiavam sistemas sem viabilidade econômico-financeira. pois. o Pró-Saneamento e o Programa de Ação Social em Saneamento (PASS). durante a década de 1980. pagando o ônus da concentração urbana. as populações mais carentes que ocupavam favelas e periferias não tinham acesso às ações coletivas.Nível 3 .Qualificação de gestores públicos em saneamento . à manutenção e ampliação dos sistemas de abastecimento de água implantados na primeira década de existência do Planasa. Por outro lado. As desigualdades historicamente verificadas no nível regional e em sua dimensão social vêm-se refletindo nas ações de saneamento. no âmbito das políticas econômica e desenvolvimentista empreendidas desde a exploração colonial. Este impulso na criação de novos sistemas de coleta de esgotos e na ampliação dos sistemas pré-existentes processou-se quando a ausência daqueles serviços passou a adquirir maior relevância numa perspectiva social e ambiental. só esboçando uma reação na década de 90. e também programas de modernização e desenvolvimento institucional de sistemas. visto que a extensão do território e. a oferta elevada de redes de abastecimento de água nas áreas urbanas brasileiras tornou-as mais acessíveis aos domicílios. causada pela disposição inadequada de esgotos e de lixo.A proposta da atividade anterior foi elucidar a condição diferenciada entre a distribuição de redes de água e esgoto. como o Programa de Modernização do Setor de Saneamento (PMSS) e o Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água (PNCDA). A ampla cobertura domiciliar de redes de água verificada no ano 2002 deve-se. conseqüentemente. O atual cenário das ações coletivas e individuais de saneamento no País foi determinado pela evolução dessas ações ao longo do processo de ocupação do território.

discutimos a influência dos vários modelos de gestão no setor e vimos que vários programas federais foram criados na tentativa de resolver os problemas sanitários. esses dois setores se distanciaram. no início do século XX. Vimos. em meados do século XX. constatamos que. no entanto. que não via tais ações como benéficas à sua saúde. o Planasa. No desenvolvimento do capítulo. pois. na próxima unidade.Os reflexos da nova lei de saneamento ainda não começaram a ser sentidos. pela falta de entendimento por parte da população. O objetivo desta unidade foi entender o quadro atual do saneamento no Brasil através da apresentação histórico-conceitual do setor. Assim. e os desafios na busca pela universalização do saneamento são imensos. por outro lado. Porém. que a transição dessas ações foi dificultada em parte pela inexperiência do governo em lidar com a questão da coletividade e. prevaleceu a interdependência entre o saneamento e a saúde pública. também teve grande responsabilidade sobre o aumento das desigualdades no acesso a esses serviços. Nessa perspectiva. chegamos ao fim do nosso primeiro conceito-chave. as populações periféricas não foram contempladas com as políticas públicas no campo do saneamento. Ao debater os ideais que nortearam as ações de saneamento e se refletiram na sua ampliação. Guia do profissional em treinamento . branca e negra) tiveram contribuição relevante para iniciar as ações coletivas no setor de saneamento no País. Retomaremos aqui as principais abordagens que nos guiaram nesse estudo. houve a preocupação em ampliar os sistemas preexistentes de água e esgoto. além de contribuir para a ausência de integralidade nas ações voltadas para o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. serão expostas leis e outras políticas públicas concernentes ao saneamento básico.ReCESA 37 . ainda. apesar de colher os louros pelo reconhecido aumento da cobertura de saneamento no País. Profissional. Começamos pelo processo de formação da identidade sanitária nacional e vimos que as diferenças étnicas (indígena. Um arcabouço político e legal é primordial para a melhoria dos serviços públicos.

em algumas situações. resultado da interação dessa complexa rede de atores sociais. valemo-nos de alguns textos e atividades elucidadoras. se complementam. Iremos discutir. e de que maneira afetam a vida das pessoas. a igreja. não se colocando. os trabalhadores. Para isso. Pretendemos. portanto. também. devemos considerar. assim como os diversos atores que representam a sociedade organizada (os movimentos populares. portanto.Identificar. O lugar onde esses atores se encontram para manifestar os seus interesses. Nessa conjectura vamos trabalhar com a idéia de que o Estado. seus determinantes políticos. muitas vezes. sociais e culturais. o público e o privado. o setor privado. econômicos. nessa reflexão. Sem dúvida. são conflitantes e.Analisar o atual momento do saneamento brasileiro. que. nas leis estudadas. é preciso entender qual é o papel do Estado. Versaremos ainda sobre a questão do Estado e outras políticas públicas que tangem o universo sanitário. o contexto histórico e político que antecederam essas novas leis. . os principais avanços e os desafios que ainda se colocam. como um agente neutro. . A natureza da relacão que é estabelecida entre a sociedade e o Estado resulta nas políticas públicas. apresentando. o contexto histórico em que este Estado atua. que se movimentam entre o estatal. políticas públicas e legislação Neste conceito-chave. representa interesses.Nível 3 . nessa rede. Para isso. portanto. Estado. compreender o papel dos atores que compõem o quadro do saneamento.Adquirir conhecimento sobre o novo arcabouço legal e jurídico que regulamenta o setor saneamento no Brasil.OBJETIVOS: . sucintamente. entre outros). identificando sob a retrospectiva histórica do setor. o Estado é um ator importante 38 Transversal . os partidos políticos. vamos avaliar as principais leis que demarcam o saneamento básico no Brasil. A formulação de políticas públicas é.Qualificação de gestores públicos em saneamento . é chamado de arena política. Estado e políticas públicas Para compreender como as políticas públicas são formuladas e implementadas. a Lei dos Consórcios Públicos e a Lei do Saneamento Básico. as oportunidades de melhoria da gestão dos serviços públicos de saneamento básico em seu município. as organizações não governamentais.

A Constituição Federal do Brasil (CF) de 1988 consagrou o Município como um ente da Federação. de que maneira esses instrumentos de cooperação foram explorados no atual ordenamento jurídico do setor saneamento no Brasil. Vamos ver. de promotor de pactos e consensos. o Decreto no. Além de não ser neutro.porque assume a função de mediador de conflitos. conformam o novo arcabouço jurídico do setor.107/2005). especialmente nos aspectos cooperativos do federalismo. que. atribuindo maior racionalidade às ações cooperadas e ampliando os benefícios que podem ser gerados para o conjunto da sociedade. abordaremos as principais leis pertinentes ao tema. de 6 de abril de 2005. contribuindo para o aumento da efetividade dessas políticas e da aplicação de recursos públicos. A promulgação da Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico (11.ReCESA 39 . 6. capacidade política eletiva e de auto-organização. em especial aquelas executadas de forma conjunta com estados e municípios. o Estado é necessariamente contraditório. sobre Consórcios Públicos e Gestão Associada de Serviços Públicos.017/2007 que regulamenta a Lei dos Consórcios Público (11. O Brasil vivenciou. ainda assim. R$ 40 bilhões para investimentos em saneamento para o quadriênio 2007-2010. nos termos desta Constituição. existe. Essa etapa está superada! O ano de 2007 consolida esforços em conquistas importantes para o saneamento. uma responsabilidade de Estado que remete à complementação do desenho federativo decorrente da Constituição Federal de 1988. todos autônomos. entre outras medidas. na próxima seção. em particular.445/2007). o Distrito Federal e os Municípios. atribuindo-lhe competência tributária própria. cabe ao Estado implementar instrumentos de coordenação de políticas públicas de responsabilidade da União. É nesse ambiente de estabilidade institucional e legal que o Governo Federal anunciou a decisão de destinar. dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). os Estados. afirmou a autonomia do poder local. um amplo processo de redemocratização. Nesse modelo. Guia do profissional em treinamento . O desenho políticoadministrativo da República Federativa do Brasil compreende a União. Para isso. Legislação: Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico e a Lei dos Consórcios Públicos A história da ausência do marco regulatório como um dos percalços do desenvolvimento do setor saneamento no Brasil não pode mais ser colocada. Nesse sentido. nos anos de 1980. não é neutro e não está acima da sociedade. Mas.

Posteriormente. de 06 de abril de 2005. autorizando a gestão associada de serviços públicos. apresentaremos. realizando. compreender o rebatimento das diretrizes nacionais do saneamento para o nosso cotidiano. é preciso garantir uma gestão que dê respostas a esse novo quadro do setor e à sociedade. que dispõe sobre as normas gerais para a União. o Distrito Federal e os Municípios contratarem consórcios públicos para a realização de objetivos de interesse comum e dá outras providências. da qualificação do controle social e da novidade que a regulação ainda representa para a maioria dos que atuam no setor. em seguida. 40 Transversal . ou. Para facilitar nossos estudos.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Estava dado. A partir dessa compreensão. estabelece como se deve dar a cooperação federativa entre União.Nível 3 . Não bastam boa vontade e entusiasmo! É preciso estudar as leis. a oportunidade para a criação da atual Lei 11. Art. Esta emenda que integrou a Reforma Administrativa. Uma leitura cuidadosa deste artigo nos informa como os três níveis de governo. outra atividade. portanto. expressa no artigo 241 da Constituição Federal. 241. pessoal e bens essenciais aos serviços transferidos. para entendermos a origem da Lei de Consórcios e de Gestão Pública. Estados e Municípios do ponto de vista da organização de Consórcios Públicos e daquilo que a Constituição denomina gestão associada de serviços públicos. uma atividade.Mas ainda são muitos os desafios! Todas essas conquistas.107. os entes federados (União. os Estados. Para isso. A União. os Estados. Estados e Municípios) devem se articular para organizar e prestar serviços públicos de forma associada. um comentário a respeito da Lei dos Consórcios Públicos e de Gestão Associada. bem como a transferência total ou parcial de encargos. inicialmente. é preciso saber aproveitar as oportunidades que se abrem no campo do planejamento integrado. versaremos sobre a Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico e realizaremos. mais especificamente à Emenda Constitucional no 19. se preferir. serviços. o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre entes federados. Sobre a Lei de Consórcios Públicos e de Gestão Associada Vamos voltar ao ano de 1998. requisitam nossa capacidade de planejamento e de execução. o mote. ou seja. ao término da leitura. no campo político-institucional e de investimentos.

Mais adiante. Voltemos ao ponto central desta seção: a Lei de Consórcios Públicos e de Gestão Associada. 6.017. conforme estabelecido no art. em praticamente todo o País. ao tratarmos das funções da gestão. diretamente ou sob regime de concessão ou permissão. Compreendido o histórico dessa situação. os Estados. de 17 de janeiro de 2007. nos apoiaremos principalmente no texto do Decreto 6. que um Município faz com uma empresa privada. a regulação.666. através de um contrato entre o Município e a Companhia Estadual de Saneamento Básico (CESB).Esta lei. pois este certamente é precedido de licitação. as CESBs não competiam com outras empresas nem mesmo entre si para obter a concessão para prestar os serviços de saneamento em um dado município.ReCESA 41 . na Lei 11. 175 . no caso. Nos casos de “concessão” dos serviços às CESBs. Em outras palavras. esse ponto está pacificado. desde o Planasa. o Distrito Federal e os Municípios. por exemplo. Esse contrato. Para que serve um decreto de regulamentação? Um decreto de regulamentação de uma lei tem por objetivo maior esclarecer dúvidas que porventura o texto da lei apresenta.017/2007. nunca houve licitação. mais conhecida como Lei dos Consórcios Públicos e da Gestão Associada. sempre através de licitação. de 21 de junho de 1993. Sabemos que grande parte dos serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário se dá hoje. temos um contrato que não é decorrente de um ambiente de competição. sempre foi denominado contrato de concessão. visando à melhor compreensão dos principais pontos dessa legislação.Incumbe ao Poder público. dispõe sobre normas gerais de licitação e contratação para a União. os resultados são bastante satisfatórios. cabe registrar que. na forma da lei.107/2005. principalmente. Guia do profissional em treinamento . entre Estado e Município. Quando o Município firma diretamente um contrato com uma CESB. a fiscalização e a própria prestação dos serviços de saneamento básico. sabemos que este contrato firmado entre o Município e a CESB é bem diferente daqueles contratos de concessão. como o planejamento. A Lei nº 8. porque os conceitos norteadores da Lei foram exaustivamente explicados. exigência da própria Constituição Federal. até aqui. O que temos nessa situação é um contrato decorrente de um ambiente de cooperação entre entes federados. a prestação de serviços públicos. Contudo. No caso do decreto da Lei de Consórcios Públicos. de concorrência entre empresas que queiram prestar os serviços de saneamento em determinado município que abriu um processo licitatório para essa finalidade. foi regulamentada pelo Decreto no.

Neste caso. e o serviço é contratado por meio de um contrato de programa. em um ambiente de cooperação entre entes públicos. existem três modalidades de prestação de serviços públicos: 1.Nível 3 . constituam entes federados ou seus órgãos descentralizados... os serviços públicos são organizados e/ou prestados em regime de gestão associada: ∙ esta modalidade se dá. desde que respeitada a exigência de que os dois pólos (partes do contrato) sejam da administração pública. a delegação tem de ser feita com base em um contrato de concessão. isto é. não há a licitação prévia. ou seja. 42 Transversal . necessariamente. 2. mais precisamente a partir de abril de 2005. a companhia estadual participa. 3. Contudo. é preciso esclarecer que o titular também pode contratar uma CESB mediante um contrato de concessão. e o contrato de programa passa a ser a forma de organizar os serviços no contexto da gestão associada entre entes federativos. quando o Município realiza uma licitação para delegar a prestação dos serviços a uma empresa privada. que vimos brevemente no início desta unidade..107/2005. de um processo licitatório entre outros concorrentes interessados em prestar os serviços de saneamento em determinado município. um departamento de uma secretaria.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Ou seja. uma empresa pública municipal. ou ∙ de forma descentralizada. um contrato de concessão só será feito dentro de um contexto de licitação.. algum órgão de governo da sua administração indireta (uma autarquia municipal. algum órgão de governo da sua administração direta (uma secretaria municipal. precedido de licitação (por exemplo. De acordo com a Constituição Federal e a Lei 11. desde que precedido de licitação. também chamada prestação indireta: ∙ neste caso. A partir desse quadro legal. situação bem comum no campo da limpeza pública).). ou seja. o titular se responsabiliza pela organização dos serviços e delega a prestação. o titular organiza e presta diretamente os serviços: ∙ de forma centralizada. nesse caso.Observe que o conceito “cooperação” remete ao entendimento da noção de “federalismo brasileiro” e de “pacto federativo”.).

antes da promulgação da Lei dos Consórcios Públicos e da Gestão Associada. o grupo deve identificar o que a Lei 11. o que altera e o que é preservado. Modalidades de Prestação de Serviços Públicos Órgão da administração direta Autarquia Empresa pública Descentralizada Sociedade de economia mista Fundação Centralizada Prestação de Serviços Públicos Direta Indireta (delegação) Licitação Contrato de concessão Consórcio público Gestão associada Convênio de cooperação Contrato de programa Aspectos novos Aspectos alterados Aspectos preservados Guia do profissional em treinamento . comparativamente ao ambiente que vigorava no setor.107/2005 traz de novo.ReCESA 43 . Atividade Com base no esquema apresentado a seguir.O esquema apresentado em seguida pode ajudar a entender melhor esse arranjo.

ao reunir esforços e habilidades. Sobre a Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico A Lei 11. soluções para reaproveitamento e reciclagem e aterros sanitários para disposição final dos rejeitos.Qualificação de gestores públicos em saneamento . E o mais importante. se um único órgão se responsabiliza por oferecer um conjunto de serviços em manejo de resíduos sólidos. portanto. acreditamos que as etapas desse processo estarão mais interligadas e. vamos agora entender o contrato de programa e se essa ferramenta apresentase como uma boa solução. A nossa inventividade deve ser colocada a postos! Aproveite a reflexão feita no grupo e acrescente novos exemplos de como o contrato de programa pode se apresentar como uma opção adequada. pode constituir um órgão regional ou intermunicipal. essa forma de gestão associada. Em outras palavras. Além do atributo escala. Um conjunto de municípios. Há muito que se explorar.445/2007 e a Lei 11. sob a forma de Consórcio Público. Um outro exemplo no campo mais geral da regulação associa a Lei 11. Nesse campo específico do manejo de resíduos sólidos. podem cumprir papel muito importante. para prestar os serviços de regulação dos serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. Os contratos de programa. Aqui.Após realizarmos a atividade sobre as modalidades de prestação de serviços públicos e analisarmos comparativamente os aspectos relacionados à evolução trazida pela Lei dos Consórcios.107/2005. pois são variadas as possibilidades de arranjos de cooperação que esse novo arcabouço legal oferece. entre outros. executadas com maior eficiência e produtividade. sob a forma de Consórcio Público. a conexão desse sistema com os demais fluxos e circuitos econômicos locais e regionais é fator preponderante para a sustentabilidade do arranjo como um todo. proporciona-se gestão técnica qualificada. que inclui. coleta seletiva de materiais recicláveis. com a função de gerenciar o conjunto dos serviços que atendem a vários municípios. desde o gerenciamento até a prestação. 44 Transversal . de 5 de janeiro de 2007. estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico e também a política federal para o setor e está em vigor desde 22 de fevereiro de 2007. para a gestão sustentável de resíduos sólidos. muitas vezes. atribuindo escala à organização e à prestação dos serviços. por exemplo. em comum acordo com o respectivo governo estadual (ou não). celebrados em um ambiente de cooperação federativa. também proporciona ganhos de escopo.Nível 3 . um conjunto de municípios pode constituir um órgão regional.445.

Dos aspectos econômicos e sociais 7 . Guia do profissional em treinamento . Em geral. Na maioria das vezes.445/2007 está organizada em 10 capítulos que tratam especificamente dos seguintes assuntos: 1 . Antes. a União desenvolve programas articulada com Estados e Municípios mediante repasse de recursos para financiamento de ações em saneamento.Do exercício da titularidade 3 .Da prestação regionalizada de serviços públicos de saneamento básico 4 . a União não organiza e não opera o serviço.Da participação de órgãos colegiados no controle social 9 . porém.Primeiramente. o Distrito Federal.Do planejamento 5 . a turma se organizará para uma atividade em grupo. mas com reflexos em Estados e Municípios. os Estados e os Municípios.Da política federal de saneamento básico 10 .ReCESA 45 . a política federal é implementada pela União. Já a política federal é a política que a União deve seguir. estas são válidas para a União.Dos aspectos técnicos 8 .Dos princípios fundamentais 2 . é preciso entender a quem se aplica essa lei. Dessa forma.Disposições finais A partir daqui. Quando estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico. Do que trata essa legislação e como encontrar os assuntos no corpo geral do texto legal? A Lei 11.Da regulação 6 . vamos analisar os principais pontos de cada capítulo.

Atividade Em cada grupo. 5° grupo: o prestador dos serviços é privado. Para a experiência selecionada. incluindo os de manejo de águas pluviais urbanas). uma para servir de referência neste exercício. responsável pelos quatro serviços de saneamento básico (ou pelo menos os serviços de abastecimento de água. prestador municipal tipo administração direta (Prefeitura) para os serviços de resíduos sólidos e limpeza urbana. Quadro Atual: a) Caracterização da modalidade de organização e prestação dos serviços de saneamento: ∙ Houve delegação (para que e para quem)? ∙ Existe contrato? ∙ Que tipo de contrato? ∙ Houve licitação? ∙ Quem definiu os termos do contrato? ∙ Com base em quê? 46 Transversal . os integrantes escolhem. e com base na experiência de cada profissional em seu cotidiano de trabalho. o grupo deverá construir um cenário sobre as condições de organização e prestação dos serviços de saneamento básico. entre as experiências relatadas por cada um.Qualificação de gestores públicos em saneamento . 3º grupo: 4º grupo: prestador tipo autarquia (SAAE) para serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. de forma a que tenhamos na turma o seguinte arranjo: 1º grupo: 2º grupo: prestador público tipo CESB para serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. contemplando as seguintes questões.Nível 3 . esgotamento sanitário. prestador público municipal tipo Empresa Pública. com participação de empresa privada na coleta e na destinação final.

O princípio que define saneamento básico é inovador. realizados de forma adequada à saúde pública.ReCESA 47 . sob o prisma da novidade. porque é uma definição precisa e que representa um avançoconceitual. saneamento básico compreende abastecimento de água. sem incorrer em grandes imprecisões. sob o aspecto legal. que esclarece os capítulos dessa Lei. Primeiro. Contudo. à proteção do meio ambiente. Mas. Nesta Lei. qualidade e custo dos serviços que lhes são prestados? ∙ Os conselhos existentes participaram da decisão de delegar os serviços e da definição dos termos do contrato? ∙ Foram realizadas conferências. encerra o vazio ou a polêmica a respeito disso. Guia do profissional em treinamento . porque apresenta ao setor uma definição e. Não caberia. para realizar esta próxima atividade. Os princípios tratados no Capítulo 1 são todos eles fundamentais para o saneamento básico. destacar um ou outro à revelia. portanto.445/2007. Então. precisaremos apreender um pouco sobre a Lei 11.b) Descrição das condições de prestação dos serviços de saneamento: ∙ Quais os níveis de cobertura? ∙ A que partes da cidade atendem? ∙ Quem define as metas a serem atingidas com investimentos em expansão dos sistemas? ∙ Os serviços são remunerados? ∙ Quem determina o valor a ser cobrado dos usuários? ∙ São fiscalizados? Por quem? c) Identificação dos canais de participação e de controle social: ∙ Onde os usuários reclamam de eventuais problemas com regularidade. à segurança da vida e do patrimônio público e privado. podemos fazer este exercício. Segundo. drenagem e manejo das águas pluviais. audiências públicas sobre esse tema? ∙ Quem aprova o reajuste do valor cobrado (tarifa ou taxa)? Os cenários construídos aqui serão retomados como base para a atividade de encerramento deste conceito-chave. daremos prosseguimento à leitura do texto a seguir. esgotamento sanitário. limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.

Pode haver outras leituras. o que importa para o objetivo da nossa oficina é o conhecimento sobre a conceituação adotada e seu rebatimento no nosso trabalho como gestores públicos do saneamento. que reduziam o conceito de saneamento básico ao conjunto dos serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. que tratavam esses dois componentes do saneamento como “manejo de resíduos sólidos” e “manejo de águas pluviais”.445/2007 é melhor. IV – disponibilidade.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Podemos dizer que: ∙ legalmente. ∙ sobre o conceito de saneamento ambiental. ∙ contudo. esgotamento sanitário.2º Os serviços públicos de saneamento básico serão prestados com base nos seguintes princípios fundamentais: III – abastecimento de água. ∙ contudo. mas tampouco impede que um serviço de saneamento a inclua entre suas atribuições. ao adotar um conceito mais integral para 48 Transversal . para o profissional que quiser se apoiar no texto legal.Nível 3 . a discussão ainda está em aberto. que agreguem outros significados ao conceito. Para finalizar. de serviços de drenagem e de manejo das águas pluviais adequados à saúde pública e à segurança da vida e do patrimônio público e privado. não há nenhum exagero em reconhecer que a Lei 11. também. acadêmico. podemos observar que comparativamente ao Planasa e a alguns projetos de lei que veremos mais adiante. A leitura cuidadosa desse artigo também revela algumas nuances sobre o conceito de saneamento. observar a terminologia adotada pela Lei para resíduos e águas pluviais: ∙ comparativamente a projetos de lei anteriores. em todas as áreas urbanas. ∙ apenas um trabalho aprofundado de investigação seria capaz de revelar qual a intenção do legislador com essas alterações. foi superada a discussão do que é saneamento básico. Cabe. A Lei não inclui a atividade de controle de vetores.Nos termos da Lei: Art. limpeza urbana e manejo dos resíduos sólidos realizados de formas adequadas à saúde pública e à proteção do meio ambiente. do ponto de vista conceitual. a referência está dada. que figura em alguns textos técnicos. o texto aprovado e sancionado adota os termos: “limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos” e “drenagem e manejo de águas pluviais”.

do PLS 266 e ainda e do PLS 155 em sua forma original) restringia o setor aos componentes de abastecimento de água e esgotamento sanitário. tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários. em seu artigo 3º. Nos termos da Lei. tratamento e destino final do lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e vias públicas. Como tratar esgotamento sanitário sem considerar as implicações que esse serviço tem com o manejo de resíduos sólidos? Como tratar do aspecto da qualidade da água sem considerar Guia do profissional em treinamento . desde a captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição. abrindo possibilidades para a universalização e melhoria da qualidade dos serviços prestados pelo setor. Em outras palavras. inciso I. Vejamos as definições constantes na referida Lei. transporte. d) drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: conjunto de atividades. c) limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos: conjunto de atividades. esta é uma boa oportunidade para comentarmos o princípio fundamental da integralidade. infra-estruturas e instalações operacionais de coleta. inciso II: Integralidade compreendida como o conjunto de todas as atividades e componentes de cada um dos diversos serviços de saneamento básico. detenção ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias. em seu artigo 2º. transbordo. o conceito de saneamento básico adotado no Planasa e capitaneado por alguns projetos anteriores (a exemplo do PL 4147. difícil falar de integralidade fora do contexto do saneamento básico definido de forma abrangente. desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente. de transporte. infra-estruturas e instalações operacionais de: a) abastecimento de água potável: constituído pelas atividades.o saneamento. tratamento e disposição final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas. I .Saneamento básico: conjunto de serviços. Aliás. transporte.ReCESA 49 . b) esgotamento sanitário: constituído pelas atividades. Seria. infra-estruturas e instalações operacionais de coleta. no mínimo. infra-estruturas e instalações operacionais de drenagem urbana de águas pluviais. propiciando à população o acesso na conformidade de suas necessidades e maximizando a eficácia das ações e dos resultados. infra-estruturas e instalações necessárias ao abastecimento público de água potável.

50 Transversal . por exemplo. diante de um conceito que trabalha a democratização das relações de poder na arena política onde se define como os serviços públicos de saneamento devem ser planejados.os efeitos de um solo urbano praticamente impermeabilizado e sob o impacto de inundações e cheias recorrentes? Ou ainda. Estamos. a universalização é o princípio fundamental para o saneamento. em conformidade com as necessidades da população. Contudo. E ainda mais. como veremos mais adiante. Vejamos: a definição de controle social estabelecida no artigo 3º da Lei é ampla e abrangente o suficiente para dialogar bem com a realidade democrática em que vivemos. esse conceito amplo e abrangente não é operacionalizado em toda sua dimensão. garante o acesso irrestrito à informação como estratégia de qualificação dessa participação (técnica ou social). IV – Controle social: conjunto de mecanismos e procedimentos que garantem à sociedade informações. como dissociar os serviços de esgotamento sanitário e os de drenagem? É dessa forma que o conceito de integralidade necessariamente se associa ao conceito mais amplo de saneamento básico e propicia as condições para o acesso universalizado. O mesmo não ocorre. com a definição de universalização. portanto. representações técnicas e participações nos processos de formulação de políticas.Qualificação de gestores públicos em saneamento . organizados e prestados à sociedade. de planejamento e de avaliação relacionados aos serviços de saneamento básico. por sua relevância ou por oferecerem uma chave de leitura e de análise para o conjunto do texto legal.Nível 3 . Sem sombra de dúvidas. Para aqueles que acreditam que o caminho da universalização do saneamento passa necessariamente pela democratização do processo decisório do setor. que nem sempre se apóia na própria definição adotada. Controle social como direito à informação e também à participação no processo de planejamento. Outras definições também merecem destaque. formulação e avaliação da política pública. Este é. o caso do controle social. na unidade específica sobre controle social. sem o qual a realização dos demais nunca será plena. por exemplo. o artigo 3º da Lei oferece as armas necessárias para travar essa boa luta.

qual a principal diferença que se pode observar nessas duas formas de se conceituar universalização? O capítulo II da Lei 11.ReCESA 51 . como é o caso da Lei 11. historicamente. para que você compare as duas conceitualizações e reflita sobre elas.a universalização. 6º São diretrizes básicas dos serviços públicos de saneamento básico: I . A maneira como. consistente na garantia a todos de acesso aos serviços. Optamos por trazer a definição de universalização que havia no Projeto de Lei 5296/2005. da saúde pública e de outros interesses coletivos (grifos nossos). observado o gradualismo planejado da eficácia das soluções. impediu o setor de avançar mais rápido e construtivamente. Somente a partir da decisão de excluir essa questão da pauta político-institucional do setor e remetê-la para a instância do Supremo Tribunal Federal (STF). a universalização do acesso aparece como princípio fundamental e sua definição está dada no artigo 3º. adequado para se estabelecerem diretrizes nacionais para o setor e a política federal para o saneamento básico. Podemos dizer que esse debate. indistintamente e em menor prazo. nos seguintes termos: III – Universalização: ampliação progressiva do acesso de todos os domicílios ocupados ao saneamento básico. em um ambiente de disputa e de concorrência. Art.445/2007. não pode interpretar a Constituição Federal. Apenas o STF ou uma emenda constitucional podem fazê-lo. Não é demais reafirmar que uma lei complementar. o setor discutiu a questão da titularidade não foi propositiva. proposta original do Executivo Federal para a política nacional de saneamento básico.445/2007 trata da titularidade. titularidade deixou de ser um conceito.No texto legal. sem prejuízo da adequação às características locais. Guia do profissional em treinamento . Para você. foi possível avançar na regulamentação do nível infralegal. um tema. tendo constituído um campo de conflitos entre diferentes segmentos. e se tornou a grande questão polêmica do setor. tal como realizado. Para o saneamento brasileiro.

Essa matéria está sob julgamento no STF. é que a delegação exige contrato. e que a lei deixa explícito. não existem dúvidas e disputa em torno da titularidade. Mas a Lei não se furtou de tratar das responsabilidades do titular. De acordo com a Lei 11. 52 Transversal . conhecer essas responsabilidades e também aqui fazer o exercício da abstração sobre quem é o titular e nos concentrarmos no entendimento de quais são suas responsabilidades. do Poder público que tem a competência de organizar e prestar os serviços públicos de saneamento básico.Sob essa ótica. a Lei estabelece que: i) o titular pode prestar os serviços diretamente (de forma centralizada ou descentralizada.Qualificação de gestores públicos em saneamento . a competência de estabelecer uma política e o seu principal instrumento. No julgamento ainda em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) de duas ações diretas de inconstitucionalidade. O Município é o titular dos serviços de saneamento básico. ou seja. sem tomar partido de quem venha a assumir a titularidade nessas regiões de conflito. ou por meio de um contrato de programa. microrregiões e aglomerados urbanos. ou ii) o titular pode delegar a prestação dos serviços. no ambiente da gestão associada. o resultado contabiliza quatro votos no sentido de que a titularidade nunca é estadual. sendo este um contrato de concessão ou um contrato de programa. é importante informar que. a Lei 11. Vamos. por meio de um contrato de concessão. necessariamente precedido de uma licitação. indiferentemente de qual ente federativo assuma essa posição. materializado em dois processos de ADINs (ações diretas de inconstitucionalidade).445/2007 não trata da titularidade em regiões metropolitanas. Ao tratar da prestação dos serviços como responsabilidade originária do titular. que é o Plano de Saneamento Básico. como primeira responsabilidade do titular. que não se enquadram nas duas situações relatadas) só terão validade até a data de seu término. A Lei impõe. Contudo. O ponto principal que devemos assimilar disso. podendo ser municipal (a regra) ou intermunicipal (regiões metropolitanas). os convênios estão vedados e os chamados contratos precários (ou seja.445/2007. fora do contexto de regiões metropolitanas. então. como vimos no esquema “Modalidades de prestação de serviços públicos”).Nível 3 . espaços onde se trava uma acirrada e histórica disputa entre Estados e Municípios.

a Lei autoriza a prestação de serviços públicos de saneamento básico por entidade que não integre a administração do titular por meio de algum instrumento de natureza precária apenas para atos de delegação celebrados até o dia 6 de abril de 2005.ReCESA 53 . a exigência de firmar contrato no caso de delegação dos serviços é o mote para a boa regulação dos serviços prestados à população. devido à sua simplicidade. podemos observar que se trata de serviço de pequeno porte e em situação de características especiais. Você sabia? A pedra de toque é um mineral rico em compostos silicosos. No primeiro caso. ao longo da história. Também para esses casos. usado para testar ligas de metais preciosos. a organização e a prestação dos serviços públicos de saneamento básico. a Lei admite apenas duas exceções: I .445/2007. b) localidade de pequeno porte. também entendidos como instrumentos precários porque podem ser rescindidos unilateralmente. que a expressão “pedra de toque” passou a ser usada como sinônimo de coisa fundamental. com os respectivos cadastros técnicos.Para usuários organizados em cooperativas e associações. imprescindível (sine qua non) para se obter um resultado esperado. a autorização para usuários organizados em cooperativas ou associações prestarem os serviços públicos de saneamento básico .Nos casos de convênios. ficam asseguradas as condições para que o titular possa exercer sua responsabilidade sobre o planejamento. O teste consiste em comparar dois traços feitos sobre a superfície da pedra de toque: um do metal que se quer testar e outro com uma amostra padrão de composição conhecida. predominantemente ocupada por população de baixa renda. A capacidade de poder testar e diferenciar ligas de ouro e prata com a pedra de toque. escuro. maravilhou de tal forma o homem. Dessa forma. Guia do profissional em treinamento . desde que se limite a: a) determinado condomínio. onde outras formas de prestação apresentem custos de operação e manutenção incompatíveis com a capacidade de pagamento dos usuários.Se a obrigatoriedade do Plano de Saneamento Básico é a pedra de toque da Lei 11. II – Para os casos de convênios e outros atos de delegação celebrados até o dia 6 de abril de 2005. No segundo caso.desde que se limitem a determinado condomínio ou localidade de pequeno porte (inciso I do § 1º do artigo 10) deverá prever a obrigação de transferir ao titular os bens vinculados aos serviços por meio de termo específico.

∙ as condições de sustentabilidade econômico-financeira da prestação dos serviços. compatíveis com as metas estabelecidas. em regime de eficiência. indicando os respectivos prazos e a área a ser atendida. ∙ as prioridades de ação. ∙ a existência de normas de regulação e de fiscalização. Nos casos de serviços prestados mediante contratos de concessão ou de programa. fiscalização e prestação dos serviços. a sistemática de reajustes e de revisões. as normas de regulação deverão prever: ∙ a autorização para a contratação dos serviços. ∙ as hipóteses de intervenção e de retomada dos serviços. incluindo: o sistema de cobrança e a composição de taxas e tarifas.O artigo 11 elenca uma série de exigências que devem ser cumpridas pelo titular e pelo prestador para validar os contratos de delegação. é como se o titular falasse ao prestador: “Estou delegando a prestação dos serviços para a execução/implementação deste Plano”. 54 Transversal . ∙ a realização prévia de audiência e de consulta públicas sobre o edital de licitação. nos termos do respectivo Plano. no caso de concessão. e sobre a minuta do contrato. De forma bastante clara. de qualidade. em conformidade com os serviços a serem prestados. incluindo a designação da entidade responsável para execução dessas atividades. ∙ a inclusão das metas progressivas e graduais de expansão dos serviços. Destacamos alguns pontos fundamentais: ∙ Os contratos que regulamentam a delegação dos serviços têm de se apoiar no Plano. realização de consultas e audiências públicas.Nível 3 . ∙ os mecanismos de controle social nas atividades de planejamento. preparado previamente. a Lei estabelece como condições de validade dos contratos: ∙ a existência de estudo comprovando a viabilidade técnica e econômicofinanceira da prestação universal e integral dos serviços. de eficiência e de uso racional da água e energia e de outros recursos naturais. ∙ A Lei se apóia no pressuposto de que o Plano deve ser preparado de forma democrática. a política de subsídios.Qualificação de gestores públicos em saneamento . regulação. com participação da sociedade. Além do Plano.

um prestador W fornece água no atacado para o abastecimento de um município B. Sobre este último quesito. de um prestador X. a Lei prevê.um único prestador do serviço para vários Municípios. pode ser regional e o órgão regulador pode ser vinculado ao Estado. III . Pode ser o caso. além da necessidade de compatibilizar o planejamento.Ainda sobre os tipos de Contratos: A Lei prevê ainda um terceiro tipo de contrato (além do contrato de concessão e do contrato de programa). e um prestador Z faz a distribuição local. Ou ainda.uniformidade de fiscalização e regulação dos serviços. possibilitando.445/2007. Trata-se do contrato firmado em um ambiente de prestação regionalizada dos serviços públicos de saneamento básico. em situações de prestação regionalizada. para os casos em que mais de um prestador execute atividade interdependente com outra. ou a um dos municípios atendidos pelo prestador regional ou. Guia do profissional em treinamento . O inciso I contempla a situação encontrada em vários municípios brasileiros onde os serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário são prestados por uma companhia estadual de saneamento básico (CESB).compatibilidade de planejamento. contíguos ou não. que a relação entre elas deverá ser regulada por contrato. um terreno bem propício para ser operacionalizado. II . o titular deverá celebrar um contrato regulamentando as interfaces que existem na prestação desses serviços. executadas por agentes diferentes. inclusive. da seguinte forma: I .ReCESA 55 . que faz a coleta de esgotos no município A. As diretrizes para a definição das regras sobre as interfaces advêm necessariamente do Plano. Ou seja. O que a Lei traz de novidade a esse quadro é a necessidade de se regularem os serviços. os requisitos para configurar uma situação de prestação regionalizada são definidos no artigo 14. ainda. a um consórcio público. Nos termos da Lei 11. O plano de saneamento básico. O conceito de integralidade que vimos no início desta seção ganha. e um prestador Y que faz o tratamento dos esgotos nesse mesmo município. inclusive de sua remuneração. o que permite uma maior transparência e a criação de uma contabilidade própria para cada sistema atendido. por exemplo. no âmbito desse tipo de contrato. instrumentos de controle social.

445/2007. é preciso deixar claro que o planejamento é uma função indelegável. somente o titular dos serviços públicos de saneamento básico pode e deve exercer essa função. A perspectiva do planejamento integrado e participativo se revela principalmente no escopo mínimo do Plano. se não for bem administrada para o conjunto dos serviços de saneamento básico. a Lei abre a possibilidade de que a prestação de serviços ocorra com base em um plano específico. 56 Transversal . Segundo a Lei. a regulação.Qualificação de gestores públicos em saneamento . a prestação dos serviços e o exercício democrático do controle social. Entretanto. pode comprometer a integralidade tão importante para romper com a lógica do planejamento fragmentado por tipo de serviço. a Lei trabalha com a intencionalidade de promover um planejamento integrado e pautado na participação e no controle social. tão desgastada desde os tempos do Planasa. por exemplo. ou apenas de manejo de resíduos sólidos. Antes. sendo o Plano parte substancial dessa responsabilidade. O estudo minucioso e o aprofundamento dessa sistemática de gestão oferecida na Lei 11. para o serviço de água e esgoto. Além da obrigatoriedade de o titular formular o Plano para balizar a própria organização e prestação dos serviços públicos de saneamento básico e particularmente para. Essa possibilidade. Recapitulando os três tipos de contratos estabelecidos pelo novo arcabouço legal do saneamento brasileiro. Não é demais reafirmar. constitui o principal instrumento do planejamento. o que diferencia é a exigência legal de que a contabilidade e a apropriação de custos. sob a forma de contrato de concessão ou de contrato de programa. Vale lembrar que esta é uma prática pouco usual no sistema atual que caracteriza a relação Município – CESB.Nível 3 . receitas e despesas seja necessariamente individualizada por município. podemos afirmar. deve se dar apoiando-se nos conceitos que fundamentam o planejamento.445/2007. a fiscalização. em seu respectivo Decreto 6. Se comparada à prestação regionalizada com o que existiu até os dias de hoje. que estão dadas as condições para qualificar a relação Município – CESB. validar a delegação. A Lei traz um capítulo específico sobre planejamento. se for o caso. ou seja. sem exagero. Já comentamos que o Plano é a pedra de toque desta Lei. conforme definido no artigo 19 da Lei 11. a relação do prestador regional com os municípios para os quais presta os serviços deverá ser estabelecida com base em contrato. Em qualquer situação.017/2007 e na Lei 11.107/2005. uma empresa pública ou uma empresa privada.O prestador regional poderá ser um órgão público.

se municipal deverá abranger a sede e distritos. Guia do profissional em treinamento . De acordo com o Decreto 6.017/2007.Há. padrões de qualidade. implementação e revisão. inclusive com a realização de audiências ou consultas públicas.445/2007 trata da Regulação. serão efetuadas pelos respectivos titulares. trabalhava com a idéia de um Plano (Municipal) de Saneamento Básico. o que não retira a possibilidade de cada município e o Estado ter o seu próprio plano na abrangência estrita do seu território. em que a abordagem integrada entre os quatro componentes era imprescindível. incluindo suas características. supra-local. regulação é definida como: “todo e qualquer ato. tanto quanto o seu caráter participativo nas etapas de formulação. o Plano deverá ser compatível com os planos das bacias hidrográficas em que o município estiver inserido. por exemplo. uma ressalva. ∙ a possibilidade de o Plano ter abrangência regional. porém balizado por um olhar regional. impacto sócio-ambiental. contudo. preparado pela SNSA (o PL 5296/2005). a consolidação e a compatibilização dos planos. nos casos. ∙ nessa mesma linha. de prestação regionalizada ou em um ambiente de gestão associada. Você sabia? O projeto original. normativo ou não. Outras características do Plano dizem respeito a: ∙ o titular tem a responsabilidade de editar o Plano e poderá apoiar-se em estudos fornecidos pelos prestadores de cada serviço. ∙ o Plano deverá ter abrangência do território do ente que o elaborou. O capítulo 5 da Lei 11. direitos e obrigações dos usuários e dos responsáveis por sua oferta ou prestação e fixação e revisão do valor de tarifas e outros preços públicos”. faz-se o plano específico com a perspectiva de integrá-lo depois ao Plano Municipal de Saneamento Básico. aprovado no Conselho Nacional das Cidades e no Conselho Nacional de Saúde. se há um quadro de urgência em se delegar a prestação dos serviços de abastecimento de água. que discipline ou organize um determinado serviço público. ∙ o Plano deverá ser revisado a cada quatro anos (anteriormente à elaboração do PPA – plano plurianual e coincidente com a mudança de governo a cada quatro anos). Em outras palavras. Segundo a Lei.ReCESA 57 . área urbana e área rural. e também por diversas entidades do setor. ∙ será assegurada ampla divulgação das propostas do Plano e dos estudos que o fundamentam. quando específicos de cada serviço.

445/2007 dedica o capítulo 6 aos aspectos econômicos e sociais. a Lei faz uma exigência fundamental: a regulação tem de ser exercida obrigatoriamente por órgão público. a Lei define que o órgão regulador pode ser do próprio município. integrar o Estado em que o município titular se localiza. mas adiantamos alguns pontos que nos parecem fundamentais para a compreensão da política tarifária definida na Lei. necessariamente. taxa e outras formas de tributo. a Lei impõe as características de: ∙ independência decisória. preço público. 58 Transversal . Segundo a Lei 11. Para os serviços de água e esgotos. inerente à responsabilidade do titular pela organização dos serviços públicos de saneamento básico. tecnicidade. Além disso. relativos à remuneração dos serviços prestados. Taxa corresponde a um tipo de tributo – como o que se aplica normalmente para cobrança dos serviços de limpeza urbana – bem como a denominada contribuição de melhoria. é bom lembrarmos os conceitos de tarifa.Qualificação de gestores públicos em saneamento . A Lei 11. Em linhas gerais. adotada recentemente por alguns municípios para a remuneração dos serviços de manejo de águas pluviais urbanas. A Lei estabelece “preferencialmente” porque cabe ao titular definir a forma de cobrança e porque também abre a possibilidade de cobrar via taxa. uma agência reguladora de um Estado X não poderia assumir a regulação de um município que integre o Estado Y. a cobrança será feita. diferentemente do planejamento que é indelegável. São eles: ∙ tributo: que é sempre matéria de lei e só pode ser alterado mediante lei.Nível 3 .Ao órgão de regulação. celeridade e objetividade nas decisões. orçamentária e financeira. por meio de tarifa ou outro preço público. A Administração Pública trabalha com dois conceitos para a recuperação dos custos com a prestação de determinado serviço público. a regulação pode ser delegada. Recomendamos uma leitura comentada desse capítulo. No entanto. preferencialmente. ∙ transparência. esse órgão público tem de. É também um tipo de tributo. incluindo autonomia administrativa.445/2007. Ou seja. Para não ficar nenhuma dúvida sobre essa matéria. ou de um município vizinho ou do estado ao qual pertence como ente da federação.

sobretudo do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A remuneração dos serviços de limpeza pública e de manejo de resíduos sólidos pode ser feita mediante cobrança de taxa ou de tarifa. em seguida um de tratamento secundário. em função da capacidade de pagamento dos usuários. que poderá ser lançada com base no índice de impermeabilização do solo urbano e considerada a existência no imóvel de dispositivo de amortecimento e retenção. É o chamado gradualismo. ∙ Quanto ao licenciamento ambiental de empreendimentos em saneamento: A Lei trata do licenciamento ambiental de estação de tratamento de água – ETA (resíduos do processo de tratamento da água) e de estação de tratamento de esgoto – ETE (incluindo o processo em si do tratamento de esgotos e também dos lodos). durante a primeira etapa de funcionamento de uma ETE. Guia do profissional em treinamento . esse dispositivo legal depende ainda de compatibilização com a legislação ambiental e concordância do Ministério do Meio Ambiente.ReCESA 59 . receba efluente correspondente ao tratamento primário. Um exemplo para se compreender melhor a dita progressividade. Contudo.∙ preço público: é competência do Executivo e pode ser alterado por decreto. por etapas sucessivas. tal como prevista na Lei: o licenciamento admitiria que um corpo receptor classificado para receber efluentes decorrentes de um tratamento terciário. inclusive por taxa.445/2007. o espírito da Lei é licenciar etapas dos empreendimentos de saneamento quando ainda não se encontram em sua fase final. ou mesmo de outro preço público. Sendo assim. Tarifa é uma forma de preço público. temos a destacar: ∙ Quanto à qualidade da água e dos impactos para a saúde pública: A regulamentação sobre a potabilidade da água para consumo humano continua sob a responsabilidade da União. A novidade da Lei nesse campo é a possibilidade de generalizar para o conjunto dos municípios brasileiros a cobrança pelo serviço de manejo de águas pluviais urbanas. Considera etapas de eficiência a fim de alcançar progressivamente os padrões estabelecidos pela legislação ambiental. sendo mantido o enfoque de saúde pública. voltemos ao texto legal. Sobre os aspectos técnicos tratados na Lei 11. por meio de tributo. até que se alcancem os parâmetros exigidos em lei. estabelecidas previamente no projeto do empreendimento. Relembrados esses conceitos.

As instalações hidráulicas prediais ligadas à rede pública não podem ser abastecidas por outras fontes de água.∙ Quanto à interligação à rede pública e quanto aos casos de interrupção do fornecimento do serviço: A Lei determina exigência de conexão à rede pública de água e de esgoto sempre que estes estejam disponíveis para o usuário. Dessa forma. Somente lei local poderá determinar exceções. sobretudo. Esse dispositivo legal trará impactos para diversas cidades que desenvolveram esse sistema paralelo por motivos de escassez e. poços. por isso. por exemplo. A despeito da adequada definição de controle social. mas se apoiar nele e insistir na luta social que se trava nas diversas arenas políticas para transformar a possibilidade em realidade. quando deveria garantir esse exercício pelos conselhos. os gestores. 60 Transversal . nesse aspecto.445/2007 trata da política federal de saneamento básico. O capítulo 9 da Lei 11. Se a água de outra fonte abastece o mesmo reservatório domiciliar (seja de uma residência ou de um condomínio) que recebe água da rede pública. não será possível saber sobre a qualidade da água oferecida pelo serviço público. Por outro lado. os militantes que querem um saneamento participativo e democrático não podem se restringir ao texto da Lei. A Lei também trata das situações nas quais se aplicam tarifas de contingência: contexto de escassez ou de contaminação da água para gerenciar demanda. mesmo que essa opção inviabilize o efetivo controle da potabilidade dessa água. é preciso compreender que a intencionalidade da Lei Federal. refere-se.Nível 3 . é preciso considerar que.Qualificação de gestores públicos em saneamento . conferências e outras instâncias coletivas. Para que o município adote as melhores medidas. o sistema paralelo de abastecimento por poços compete com o serviço público por mera prática de inadimplência ou ainda pela insistência de alguns moradores que preferem o poço a pagar pela água consumida. a nosso ver a lei não operacionaliza bem esse conceito ao determinar que o controle social pode incluir a participação de órgãos colegiados.445/2007 foi bastante tímida no que se refere à participação dos órgãos colegiados no controle social. Portanto. ao controle da qualidade da água. essas medidas não podem inibir iniciativas sustentáveis como a de reaproveitamento da água de chuva. sempre há de se ter o cuidado de não misturar em um mesmo reservatório águas de fontes diversas. muitas vezes. talvez venha a ser objeto de regulamentação por legislação local. os profissionais. No entanto. A Lei 11.

VI . VIII . epidemiológicos e ambientais. riscos sanitários. sendo destacado em negrito a idéia central de cada uma delas: I .estímulo ao estabelecimento de adequada regulação dos serviços. a eficiência e a eficácia. II .estímulo à implementação de infra-estruturas e serviços comuns a Municípios. III . X . distrito federal.colaboração para o desenvolvimento urbano e regional.ReCESA 61 . em seguida.utilização de indicadores epidemiológicos e de desenvolvimento social no planejamento. disponibilidade hídrica. IX .adoção de critérios objetivos de elegibilidade e prioridade. de proteção ambiental. A política federal cabe à União. Parágrafo único. as diretrizes definidas no artigo 48. V . estados e municípios) envolvidos com os serviços públicos de saneamento básico. Guia do profissional em treinamento . de combate e erradicação da pobreza. mediante mecanismos de cooperação entre entes federados.adoção da bacia hidrográfica como unidade de referência para o planejamento de suas ações. VII . com o saneamento básico. As diretrizes e os objetivos que norteiam a política da União para o saneamento básico interessam muito aos que desenvolvem programas do Governo Federal.aplicação dos recursos financeiros por ela administrados de modo a promover o desenvolvimento sustentável.melhoria da qualidade de vida e das condições ambientais e de saúde pública.garantia de meios adequados para o atendimento da população rural dispersa. à adoção de tecnologias apropriadas e à difusão dos conhecimentos gerados. XI . de habitação. grau de urbanização. de promoção da saúde e outras de relevante interesse social voltadas para a melhoria da qualidade de vida devem considerar a necessária articulação. a Lei determina a necessidade de um Plano Nacional de Saneamento Básico (PNSB).Recapitulando: no início desta unidade esclarecemos que a Lei determina a política federal e as diretrizes nacionais para os serviços públicos de saneamento básico. e as diretrizes nacionais se aplicam a todos os entes federados (governo federal. Sob a observância dessas diretrizes. concentração populacional. Apresentamos. levando em consideração fatores como nível de renda e cobertura.prioridade para as ações que promovam a eqüidade social e territorial no acesso ao saneamento básico. inclusive no que se refere ao financiamento. As políticas e ações da União de desenvolvimento urbano e regional.fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico. inclusive mediante a utilização de soluções compatíveis com suas características econômicas e sociais peculiares. implementação e avaliação das suas ações de saneamento básico. IV .

para prever o equacionamento de situações nas quais haja delegação a terceiros sem prazo de vencimento ou sem o instrumento 62 Transversal . o esgotamento sanitário.987/1995. o atual Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis) passa a ser denominado Sinisa. segundo a Lei. econômico-financeira. administrativa. a Lei 11. preferencialmente em períodos coincidentes com os de vigência dos planos plurianuais. Deve também tratar especificamente das ações da União relativas ao saneamento básico nas áreas indígenas. os planos regionais de saneamento básico serão elaborados e executados em articulação com os Estados.666/1993 para incluir a dispensa de licitação a fim de que municípios contratem associações/cooperativas de catadores que trabalham em programas de coleta seletiva. de curto. legal e jurídica.Nível 3 . A elaboração do PNSB é de responsabilidade da União. médio e longo prazos. nas reservas extrativistas da União e nas comunidades quilombolas. c) a proposição de programas. Sobre a abrangência do PNSB. Segundo a Lei. projetos e ações com identificação das respectivas fontes de financiamento. incluindo o provimento de banheiros e unidades hidrossanitárias para populações de baixa renda. O horizonte do PNSB é de 20 (vinte) anos. b) as diretrizes para o equacionamento dos condicionantes de natureza político-institucional. o plano nacional deve ter como escopo mínimo: a) os objetivos e metas nacionais e regionalizadas. para as regiões integradas de desenvolvimento econômico ou nas que haja a participação de órgão ou entidade federal na prestação de serviço público de saneamento básico. cultural e tecnológica. o manejo de águas pluviais e outras ações de saneamento básico de interesse para a melhoria da salubridade ambiental. a Lei determina que ele deve contemplar o abastecimento de água. o manejo de resíduos sólidos.O PNSB tem o papel de explicitar a estratégia da União para que o país avance na meta de universalização e de melhoria da qualidade dos serviços prestados à população. essa Lei altera a Lei 8. Na perspectiva da inclusão social. Por fim. as quais têm clara interface com a Lei do saneamento. e) os procedimentos para a avaliação sistemática da eficiência e eficácia das ações executadas. Também altera a Lei 8. Como instrumento da política federal de saneamento básico. sob a coordenação do Ministério das Cidades.Qualificação de gestores públicos em saneamento . avaliados anualmente e revisados a cada 4 (quatro) anos.445/2007 traz disposições finais que alteram algumas leis existentes. Ainda. Distrito Federal e Municípios envolvidos. d) as diretrizes para o planejamento das ações de saneamento básico em áreas de especial interesse turístico. de concessões.

é o instrumento que deverá estabelecer definitivamente esses prazos e condições. o grupo deve tomar como referência os conceitos e as determinações das leis estudadas e. Para finalizar o capítulo. sendo. que corresponde ao atendimento voluntário às exigências estabelecidas em normas técnicas.58 da Lei 11. visando à melhoria do quadro atual de organização e de prestação dos serviços de saneamento na experiência estudada? Conformidade legal: atendimento às exigências estipuladas em legislação específica. Atividade A turma deve retomar os grupos formados no início desta Unidade para complementar a atividade. Diferente da conformidade normativa. Ainda sobre os casos de delegação com prazo vencido ou por vencer.445/2007 determinam prazos e condições para se equacionarem situações dessa natureza. realizaremos agora a próxima atividade. ainda não expedido (pelo menos até janeiro de 2008). as disposições finais estabelecidas no art.445/2005. Guia do profissional em treinamento . bem como fazer um exercício de projeção futura com base nas experiências por você relatadas na atividade de construção de cenários sobre as condições de organização e prestação dos serviços de saneamento básico.107/2007 e a Lei 11.445/2007. Tem caráter obrigatório. No entanto. No caso do saneamento.445/2007. sob a perspectiva do cenário futuro. o decreto de regulamentação da Lei 11. quais são as principais situações do quadro atual que o grupo classifica como não conformidade legal? e) Também tendo como base a Lei 11. refletir e responder às seguintes questões: Situação Futura: d) Avaliando essa experiência com relação à Lei 11.107/2005 e à Lei 11. aplica-se à situação na qual a CESB presta o serviço sem contrato ou sem o prazo definido contratualmente.ReCESA 63 . portanto. Agora.formal do contrato. Termo muito utilizado no campo da gestão ambiental. pressuposto básico da ação pública ou privada.445/2007. cujo objetivo é aplicar o conteúdo apresentado sobre a Lei 11. quais as oportunidades que o grupo identifica.

Nível 3 . 64 Transversal . Lembre-se de que a lei dos Consórcios possibilita arranjos variados que podem ser pensados em conjunto com outras administrações municipais. Esperamos que as atividades realizadas para o quadro atual e para uma possível situação futura tenham conseguido fomentar discussões pertinentes à resolução dos problemas municipais do setor de saneamento embasadas na Lei. com esse novo arcabouço legal e jurídico. Para ampliar ainda mais as possibilidades de integração e de políticas territoriais. a intersetorialidade. você tenha vislumbrado oportunidades de melhoria da gestão pública do seu município. Acreditamos que. Além disso. comentamos a Lei das Diretrizes Nacionais de Saneamento Básico e vimos as questões que essa Lei contempla. destacando as idéias centrais de cada capítulo da Lei. refletiremos sobre uma nova forma de gestão pública.Neste capítulo.Qualificação de gestores públicos em saneamento . vimos as diretrizes e as principais ações políticas existentes no âmbito do saneamento básico no Brasil. no próximo capítulo.

. será mostrada a importância dos setores que fazem interface com o saneamento. Nessa perspectiva. começar nossa leitura sobre intersetorialidade. Intersetorialidade: aportes conceituais e metodológicos para a gestão pública Por que falamos em intersetorialidade como uma nova forma de gestão pública? Sabemos que o Estado. geralmente comandados por gestores. e que o entendimento desse arcabouço legal pode ajudar seu município. assim como o conjunto da sociedade. inclusive como ela pode ser uma grande auxiliar nas ações de saneamento. até então.Analisar como o saneamento se realiza em nossas cidades. compartimentada em áreas e serviços que não conversam entre si. considerando uma gestão pública de saneamento que propicie atuações integradas e integradoras. que potencializa recursos e que requer a qualificação do aparato institucional do Estado. formados profissionalmente segundo a mesma lógica.ReCESA 65 . administradores e técnicos. vamos Guia do profissional em treinamento . . e a integração de temas variados pode ser vislumbrada em uma nova forma de gestão. Vamos. Na unidade anterior. sob quais condições gera benefícios sociais. que busca promover uma intervenção integrada no território. vamos visualizar as ações intersetoriais e a dificuldade de soluções isoladas. portanto. Neste conceito-chave. de uma mudança de comportamento do Poder público e também da sociedade que forma seus profissionais e cidadãos. promovendo melhoria nas condições sanitárias das localidades. E é justamente sobre essa realidade que o Estado precisa atuar. tornando seu significado vago e retórico.Refletir sobre a intersetorialidade como uma nova forma de gestão pública. vimos a importância da questão legal. fica claro que a idéia de intersetorialidade não pode ser usada de maneira banalizada. Contudo. Estamos falando. ambientais e oportunidades de desenvolvimento.Inferir as necessidades de mudança na prática dos gestores públicos para que passem a atuar sob o marco da intersetorialidade. sempre se organizou de maneira setorializada. a realidade em que vivemos não reconhece tais limites e barreiras e se apresenta como um todo não fragmentado.Intersetorialidade OBJETIVOS: . então. Para não ficarmos nesse lugar comum. Com isso.

Profissional. do tipo “tempestade de idéias” para fomentar as seguintes reflexões: a) O que é intersetorialidade? b) Que setores têm interface ou se relacionam de alguma forma com o saneamento? c) Como. para então capturarmos o seu significado transformador. Esta autora define esse termo como: 66 Transversal . o mesmo significado da noção de interdisciplinaridade (Inojosa. Pensando no que foi dito no texto que acabamos de ler.Nível 3 . Essa crítica se refere. ao fato de que esses problemas são considerados apenas de acordo com a especialização dos profissionais responsáveis pelo serviço em si sem envolvimento de outros setores. principalmente. no campo das políticas públicas. Atividade Dinâmica em grupo. que aduzem outros olhares. realizaremos agora a atividade inicial com o intuito de aproveitar os nossos conhecimentos acerca do conceito-chave deste capítulo. com quais órgãos você se articula? d) Que medidas o Estado e a sociedade precisam tomar a fim de se prepararem para atuar de forma integrada? Provavelmente.estudar esse conceito a partir de algumas fontes. os próprios gestores e. outras idéias sobre como buscar soluções e implementá-las. a exemplo de outros setores das políticas públicas. estes e outros assuntos relacionados ao tema. também implica desperdício de recursos públicos. a intersetorialidade assume. Na seqüência veremos. você.Qualificação de gestores públicos em saneamento . você pratica a integração? Quando isso ocorre. tem sido insuficiente na resolução dos problemas que afligem a população. deve ter constatado os princípios básicos que acercam a Intersetorialidade. então. em geral. devido à experiência prática e observações. 2001). Fazendo um paralelo com outros temas que desafiam a gestão pública. Podemos dizer que é consenso no setor a compreensão de que a tradicional abordagem setorial em saneamento. no seu trabalho.

pois é uma estratégia de retirar o saneamento do campo estrito da infra-estrutura urbana. em especial os seus segmentos organizados. estamos buscando apreendê-lo em seu contexto mais amplo. é que. Além desses aspectos. das políticas públicas em geral. Para tal. não é mesmo? Sim ou não?! Esta parece ser uma questão menor. é importante garantir as condições de sustentação política das decisões. que tipo de mudança a intersetorialidade pode promover? Você. implementar e avaliar políticas públicas. É justamente por essa complexidade que demarca o tema. financeiros e políticos. Mas essa capacidade não se encerra no papel do Poder público. levandose em conta as habilidades e competências do quadro técnico e administrativo. que são exigidos para execução de suas decisões. se até aqui discorremos sobre as principais características desse conceito novo. antes de tratar da intersetorialidade na área do saneamento. formular. a que ele se opõe? O que existia antes no campo da gestão governamental? Ou melhor. Para isso.ReCESA 67 . é necessário que os recursos estejam disponíveis ou devam ser criados. mas conferir ao saneamento a idéia de “área” pode atribuir ao campo dois significados importantes: ∙ um que demonstra avanço. pautar a ação governamental pelo marco da intersetorialidade também exige uma estratégia de manutenção de canais abertos com a sociedade. conferindo ao desafio problemas gerenciais a serem equacionados. para a realização e avaliação de políticas. como vários de nós que estamos aqui nesta oficina. programas e projetos sob o marco da intersetorialidade está diretamente relacionado à capacidade do Estado de mobilizar recursos técnicos. com o objetivo de alcançar resultados sinérgicos em situações complexas”. A sociedade como um todo e. restrito às suas características de Guia do profissional em treinamento . tem o costume de se referir ao saneamento como “o setor saneamento”. Então. A abordagem intersetorial em políticas públicas. Nesse sentido. estamos impelidos a entender que planejar. que é a intersetorialidade. é algo recente. programas e projetos.Intersetorialidade: “a articulação de saberes e experiências com vistas ao planejamento. institucionais. E enfrenta resistências cristalizadas em estruturas governamentais bastante departamentalizadas e burocratizadas. Algumas cidades já contam com programas que vêem a intersetorialidade como princípio e estratégia para a resolução efetiva dos anseios e necessidades da população que o Poder público deve atender. contudo. também é co-responsável nessa tarefa.

estanques em si mesmas.. divergências de objetivos e funções de cada área. que são implementadas de forma setorial. em qualquer um dos seus níveis de governo e. para a organização e forma de funcionamento do Estado. já que os problemas vivenciados pelos cidadãos contam com diversas causas.Qualificação de gestores públicos em saneamento . cultura. Setor aqui é entendido como uma forma de organização pública que atua em determinado campo de intervenção através de profissionais que interpretam essa realidade apenas sob a perspectiva do seu olhar. que podem pertencer a um outro campo do saber. mesmo com este avanço. a partir desse entendimento conceitual. habitação. organizadas e implementadas de forma setorial. Como bem nos alerta Inojosa (1998). imprescindível no contexto do federalismo brasileiro. muitas vezes. paralelismo e sobreposição de ações. saber especializado.obra e inscrevê-lo em seu lugar de excelência. Essa lógica institucional gera fragmentação no tratamento das demandas sociais. como política pública que tem como principal resultante a prestação de serviços públicos à população. o estadual e o municipal) conta com instituições e serviços próprios. leva os cidadãos a fazer uma verdadeira via crucis em diversos órgãos. principalmente. via de regra. estanques em si mesmos. centralização de decisões.). saúde. da relação entre eles. resultante da sua área de formação e prática profissional. reflete conhecimento. um jogo de “empurra-empurra” que a organização política e administrativa tradicional permite. saneamento.Nível 3 . No entanto. a denominação setor o posiciona no campo das políticas públicas básicas. de recursos e de informações. via de regra. ao ver o problema e refletir sobre maneiras de equacioná-lo. É um olhar que. ∙ contudo. E mais. O modelo tradicional por meio do qual as políticas públicas são gerenciadas reflete o modelo burocrático de gestão das políticas públicas. que não dialogam entre si e – ainda mais grave – fazem. então. assistência social. sem dúvidas. em detrimento do cidadão e da sociedade. em particular. o que os impede de cobrar mudanças de um único setor”. “tais estruturas dificultam a prática de direitos e o controle social. esse olhar. Cada nível de governo (o federal. Segundo esse autor. além do fortalecimento de poderes políticos e hierarquias. Podemos. o que se tem são políticas públicas básicas (educação. não faz o exercício de enxergar a partir de outros olhos. Buscamos em Bourguignon (2001) uma abordagem mais conceitual e ampla dessa questão. 68 Transversal .. reunir os elementos para uma análise dos impactos que esse modelo fragmentado traz para o dia-a-dia da gestão pública e.

a falta de iluminação pública que ajuda a tornar ainda mais grave o quadro de violência e de falta de segurança no local de moradia e de deslocamento ao trabalho. que expõe a todos à situação de risco.. realizar mais uma atividade que tem a finalidade de representar os problemas e soluções dessa relação. o outro grupo encena um problema reivindicado pela população e resolvido mediante intervenção de um conselho municipal. Guia do profissional em treinamento . principalmente se organizada. As experiências de orçamento participativo e de conferências de saneamento. Pena que não tenhamos espaço para explorar esses assuntos aqui. ou entre a Prefeitura e o Governo Estadual ou entre este e a União sobre algum problema apresentado por um morador ou comunidade. muitas vezes protagonizados entre secretarias. A lógica de competição leva. até o compromisso com a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. a precariedade e o perigo de se viver em um barraco na encosta ou às margens de rios e córregos. de meio ambiente e de cidades são bons exemplos dessa questão.. penalizando principalmente a mulher já sobrecarregada por diversas jornadas de trabalho e – cada vez mais comum – também como chefe de família. o jogo de “empurra-empurra”. justamente porque expressam as necessidades que vivenciam no dia-a-dia: ∙ a água que chega de forma intermitente em seu domicílio e. Nega a cooperação e. na hora de dividir o orçamento. nesse contexto. às vezes.ReCESA 69 . convenhamos. Existe também aquele morador que reivindica do Poder público apenas melhorias pontuais. no máximo. inclusive de vida. Mas. desorganiza a dinâmica doméstica. esse tipo de comportamento não resume todas as formas de a população reivindicar. Para exemplificar a relação População e Poder Público. a população. o esgoto a céu aberto e o lixo não coletado que colocam suas crianças em recorrente estado de doença. vamos. inclusive. possui um caráter competitivo. então. Não é o caso de pintar apenas com cores harmoniosas as reivindicações da população. que. Atividade A turma pode se organizar em dois grupos para fazer uma encenação dessas duas situações: um deles. tem por prática apresentar ao Poder público demandas que não são em si isoladas. que. alcançam a calçada da sua casa. à disputa entre grupos de interesses que extrapolam o interesse público. às vezes.A estrutura governamental. de saúde. por isso. como ainda ocorre em alguns casos. No entanto. consegue se organizar de maneira mais articulada para se instituir na relação com o Estado.

Esperamos que a atividade tenha contribuído para você perceber as possíveis dificuldades e soluções existentes no âmbito dessa relação. Para esclarecer ainda mais essa questão, vamos continuar os nossos estudos com a leitura do texto que aborda o assunto. O modelo burocrático de gestão pública impede que os problemas vivenciados pelo cidadão sejam abordados de forma intersetorial. É justamente para contrapor esse modelo, que surge a idéia de intersetorialidade como uma forma de tratar as necessidades dos cidadãos, levando em conta como elas se apresentam na realidade, ou seja, interligadas e interdependentes. Estamos, portanto, nos reportando à necessidade de diálogo intragovernamental e intersetorial e, sobretudo, ao diálogo com a comunidade como sujeito social relevante do processo de formulação e de implementação de políticas públicas, programas, projetos e ações. Nesse contexto, o enfoque do município permite uma maior proximidade com o cidadão e pode fazer com que fique mais fácil a percepção de seus problemas e de como eles se apresentam no cotidiano. É nesse sentido que o conceito de descentralização de políticas públicas também se relaciona ao de intersetorialidade e ganha atenção como sendo uma das possíveis estratégias para superação do modo centralizado e fragmentado. A intersetorialidade traz em si contradições e, portanto, também não deve ser vista como uma panacéia. Nesse processo de implementação e utilização da lógica intersetorial, podem surgir alguns problemas (Bogason, 2000), os quais, se observarmos as nossas experiências como gestores públicos, muitos deles desafiam o nosso dia-a-dia. Podemos correlacionar, em um quadro, os principais problemas com que nos deparamos e os conceitos aos quais se associam.
Conceito Problemas - gera maior complexidade do processo de trabalho, pois exige das organizações uma nova maneira de atuar que passa pela mobilização de diferentes setores na resolução de um mesmo problema; - explicita diferentes saberes e olhares com que cada um dos profissionais se referencia quanto às prioridades da região e/ou de cada área, podendo ocorrer divergências entre os profissionais e, no limite, conflitos. - submete o uso dos recursos públicos aos interesses dos responsáveis pelas unidades descentralizadas, sejam políticos ou burocratas, em detrimento do interesse público; - surgem dificuldades do diálogo entre funcionários das unidades descentralizadas com as demais, caso eles não tenham formação adequada nas suas respectivas áreas de atuação e conteúdo teórico suficiente para a execução de suas tarefas, enfraquecendo a abordagem intersetorial.

Articulação (institucional e setorial)

Descentralização da ação governamental

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

Nesse sentido, o saneamento básico tratado sob a ótica da intersetorialidade é capaz de se tornar vetor de: ∙ Desenvolvimento, por se tratar de uma área intensiva em mão-de-obra e geradora de oportunidades de emprego, trabalho e renda nas mais diversas atividades econômicas; ∙ Redução das desigualdades sociais e promoção da inclusão social, por meio de uma distribuição mais justa dos benefícios do processo de urbanização mediante universalização do acesso aos serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta e disposição final adequada de resíduos sólidos e drenagem urbana/controle de inundações; ∙ Promoção e proteção da saúde da população, contribuindo para a inversão dos gastos em ações curativas de doenças causadas por veiculação hídrica e para a melhoria dos indicadores de morbidade e de mortalidade relacionados à falta ou precariedade dos serviços de saneamento; ∙ Garantia da salubridade ambiental nas cidades e nas áreas rurais, entendendo o saneamento como um intensivo usuário dos recursos naturais e, conseqüentemente, indutor da redução dos níveis de degradação do meio ambiente, em especial da qualidade dos mananciais e recursos hídricos em geral, favorecendo melhores condições de bem-estar e o pleno gozo da saúde; ∙ Desenvolvimento urbano, constituindo importante vetor para a expansão urbana, para a recuperação de áreas degradadas por ocupação irregular e revitalização dos fundos de vale; ∙ Melhoria da qualidade de vida da população motivada por externalidades positivas, que são geradas a partir da universalização dos serviços de saneamento ambiental atribuindo sustentabilidade ao desenvolvimento. Externalidades: podem ser positivas ou negativas e referem-se ao impacto de uma decisão sobre aqueles que não participaram dessa decisão. Negativa, quando gera custos para os demais agentes, a exemplo de uma fábrica que polui o ar, afetando a comunidade próxima. Positiva, quando os demais agentes, involuntariamente, beneficiam-se, a exemplo dos investimentos governamentais em infra-estrutura e equipamentos públicos (o sentido tratado neste texto). De todo modo, cabe ao Estado criar ou estimular a instalação de atividades que constituam externalidades positivas, e impedir ou inibir a geração de externalidades negativas.

Guia do profissional em treinamento - ReCESA

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Morbidade: em epidemiologia, morbidade ou morbilidade é a taxa de portadores de determinada doença em relação ao número de habitantes sãos, em determinado local e em determinado momento. Mortalidade: é um dado demográfico do número de óbitos em relação a cada mil habitantes em uma dada região, em um período de tempo. A taxa de mortalidade pode ser tida como um forte indicador social, já que, quanto piores as condições de vida, maior a taxa de mortalidade e menor a esperança de vida. No entanto, pode ser fortemente afetada pela longevidade da população, perdendo a sensibilidade para acompanhamento demográfico. A taxa de mortalidade infantil é mais significativa, pois apresenta forte correlação com as condições de vida em geral. Com base na atividade que o grupo realizou no início desta unidade e na leitura do texto conceitual, desenvolva a atividade a seguir. Ela propõe que você descreva a configuração do saneamento em seu município, além da sua prática como gestor público.

Atividade
Nesta atividade, você, Profissional, vai pensar em sua cidade, no papel que desempenha como gestor público e, com base nessa reflexão, escrever dois parágrafos sobre as seguintes questões: Como o saneamento básico se realiza em minha cidade? Quais benefícios são gerados pelo saneamento? A quem contempla, quando é visto como uma ação preventiva? Em que circunstâncias se coloca como um impacto negativo? Do que o saneamento depende para se efetivar como melhoria da qualidade de vida da população? Como descreveria a minha prática profissional como gestor público em meu dia-a-dia: Com quais outros setores da Prefeitura me relaciono? Em que medida esse relacionamento modifica o meu modo de agir, de analisar e enfrentar os problemas que preciso ajudar a resolver? Quais as dificuldades que encontro ao buscar agir de forma mais articulada dentro do governo e com a comunidade? Quais as medidas que poderiam ser tomadas pelo conjunto do governo e da sociedade para minimizar essas dificuldades?

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

vamos recapitular alguns dados gerais que nos informam do déficit brasileiro em saneamento e seus impactos em outras esferas da vida. a nossa próxima tarefa é a de operar esse princípio no campo específico do saneamento. Pretendemos fazer uma reflexão sobre como tratar o saneamento sob a perspectiva de suas interfaces com outros setores e políticas públicas e o quanto essa abordagem depende da integralidade entre os quatro componentes do saneamento em si (abastecimento de água. Certamente. pelo menos de forma direta. Hoje. a situação mostra a existência de disparidade Guia do profissional em treinamento .445/2007. traz o conceito de integralidade como um dos princípios fundamentais para a prestação dos serviços públicos. proposta original do Executivo Federal para a Política Nacional de Saneamento. compreendendo a integração das ações de saneamento entre si e com as demais políticas públicas. drenagem urbana e manejo de águas pluviais). em especial com as de saúde. desenvolvimento urbano e rural. habitação e desenvolvimento regional. recursos hídricos. meio ambiente.ReCESA 73 .445/07. trazia a intersetorialidade como um princípio da política. e a noção de controle social se referenciam no significado da intersetorialidade. resíduos sólidos. o PL 5296/2005. compreendida como o conjunto de todas as atividades e componentes de cada um dos diversos serviços de saneamento básico. definido nos seguintes termos: a intersetorialidade. O retrato do saneamento no Brasil: perfil do déficit e a falta de foco na gestão integrada Você pode constatar que o conceito de intersetorialidade não é encontrado na Lei 11. a exemplo dos planos de saneamento básico. do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). vários instrumentos estabelecidos nessa Lei. 2006). segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad. tal como definido no inciso II do art. Antes. esgotamento sanitário. Já a Lei 11. 2º da referida Lei: II – integralidade. Contudo. uma vez problematizado o conceito da intersetorialidade em seus aspectos teóricos e metodológicos e do seu significado para o campo mais amplo das políticas públicas.Agora sim. (grifos nossos). Os grifos feitos no parágrafo anterior são justamente para destacar que é disso que trata a integralidade. propiciando à população o acesso na conformidade de suas necessidades e maximizando a eficácia das ações e resultados.

esse índice está próximo de 90% ou mais. conforme vemos nos gráficos a seguir. Veja os dados no gráfico a seguir. as demais não chegam perto dos 50%.Nível 3 . sendo que o Norte tem apenas 5. A região Sudeste tem 81% de sua população urbana ligada à rede de esgoto. a diferença é superior em 13. o Norte tem apenas 69% de população atendida pela rede de água. 74 Transversal . nas outras regiões.entre os percentuais de domicílios conectados à rede pública de água e esgoto e também o número absoluto de casas sem fornecimento de água pela rede geral e sem esgoto coletado por rede pública. Quanto à renda. Ainda assim. 2006. A Pnad 2006 também informa que. nos centros urbanos. Do ponto de vista das desigualdades regionais. Pnad. lembrando que. que revela uma das faces das desigualdades sociais. esse percentual é incipiente. Fonte: IBGE. Já dos mais de 100 milhões de pessoas que vivem em casa sem acesso à rede coletora de esgoto. o percentual de água tratada é bem maior para o primeiro grupo.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Para a coleta de esgoto na área rural.9%. dois terços moram na zona rural e nada menos que 70% têm renda mensal domiciliar de até três salários mínimos.5 vezes. os contrastes são ainda mais preocupantes. Dos 34 milhões de pessoas que em todo o País vivem em lares que não estão ligados à rede geral de água. sete em cada dez estão nas áreas urbanas e 61% entre os mais pobres. entre os habitantes das áreas urbanas e os que vivem no campo. ela está longe de atingir percentual próximo ao de águas tratadas.

principalmente. embora a PNSB (2000. em muitos municípios pequenos.264 pessoas moravam nos lixões e quase 130 mil pessoas viviam da catação de lixo em condições desumanas. Além disso. mais de 16 milhões de pessoas ainda não contavam com esse serviço. Nessa área. aproximadamente 43. 2000. Soma-se. resultando em alagamentos e enchentes que ocorrem. Veja os números no gráfico a seguir.340 catadores de lixo. a esse quadro o fato de ainda existirem crianças envolvidas na catação de lixo nas ruas e nos lixões. Guia do profissional em treinamento . nas áreas de estrangulamento dos cursos d’água e de excessiva impermeabilização do solo. No caso dos resíduos sólidos. Fonte: IBGE. do IBGE) informe que a coleta era realizada em praticamente todos os municípios. o que contribui decisivamente para a poluição dos recursos hídricos. A pesquisa do IBGE mostrou que a maior parte dos municípios ainda deposita os resíduos inadequadamente. coordenada pelo Fórum Nacional Lixo & Cidadania para erradicar o trabalho infantil nesse tipo de atividade. sendo 22% menores de 14 anos (trabalhando na catação nas ruas e nos lixões). Segundo a PNSB (2000. A pesquisa do IBGE de 2000 indicava a existência de pelo menos 23. 7. problemas críticos relacionam-se com a destinação final dos resíduos.000 crianças.ReCESA 75 . o lixo domiciliar coletado é depositado em lixões “a céu aberto” e. ou seja. do IBGE). É preciso destacar também a deficiência de tratamento do esgoto coletado. também. a despeito da importante campanha de iniciativa do Unicef. mas que não dispõe de abastecimento de água regular nem mesmo de água em condições adequadas de potabilidade.Existe ainda uma parcela da população que tem ligação domiciliar. quase 75% de todo esgoto sanitário coletado nas cidades são despejados “in natura”. A tudo isso se soma carência na implementação de soluções adequadas ao manejo integrado das águas pluviais urbanas. em 64% dos municípios brasileiros. sequer há serviço de limpeza pública minimamente organizado. a céu aberto.

Os problemas gerados pela urbanização global têm ocupado lugar de destaque na agenda de diversos organismos internacionais. acidentes mórbidos e/ou declaram estado de calamidade pública após fortes chuvas.As informações sobre drenagem urbana são ainda muito precárias e revelam um quadro não menos preocupante.Nível 3 . O Brasil integra o conjunto de países que se comprometeram a trabalhar pela melhoria da qualidade de vida nas cidades de todo o mundo. de forma ainda mais perversa. bem acima da média mundial. 2000). Segundo dados do Censo Demográfico do IBGE de 2000. nos países não-desenvolvidos. No Brasil. entre 1993 e 2000. quase 1. os índices de urbanização vêm atingindo patamares crescentes. Já um relatório do Ministério das Cidades de 2003 informa que 104 municípios sofrem.25% da população brasileira concentravam-se em áreas urbanas. Segundo o IBGE. oscilando entre 60% e 85% da população total (Atlas do Censo Demográfico. também de acordo com a ONU. aproximadamente. em todo o mundo. até 2015. pelo menos.5 mil mortes por causa desse tipo de incidente. essa concentração é mais acentuada. Dados da ONU indicam que um terço de toda a população urbana mundial vive em assentamentos precários e. 100 milhões de pessoas que são moradoras de assentamentos precários e não têm acesso à moradia digna. de forma recorrente. O mesmo estudo diz que. ao nível das cidades brasileiras. Entre os temas centrais da agenda dessas organizações supranacionais. até 2020. Por que falta saneamento? Onde se concentra o déficit? Para quais grupos populacionais os serviços de saneamento são prestados de forma precária? A resposta central à primeira pergunta certamente está fundamentada no processo de urbanização. 76 Transversal . 81. Uma das diretrizes definidas pela ONU é a redução. pela metade. ocorreram 1.Qualificação de gestores públicos em saneamento . a melhoria significativa da situação de.2 mil municípios brasileiros ainda não contam com esse serviço. definidas pelas Nações Unidas. mas. da ordem de 50%. os quais correspondem. ao mesmo número de cidades que informaram terem sido afetadas por enchentes entre 1999 e 2000. cerca de 900 milhões de pessoas passam por problemas semelhantes aos enfrentados por brasileiros que não têm acesso à moradia digna. que apresenta um acentuado grau de urbanização. principalmente no continente latino-americano. estão os desafios e compromissos internacionais para o cumprimento das Metas do Milênio (ODM). do número de pessoas sem acesso à água potável e aos serviços básicos de saneamento e. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais da metade da população mundial vive em centros urbanos. em escala mundial e se reproduz.

incremento que se mostra mais acentuado nas cidades médias do País.São números que confirmam. com mais de um milhão de habitantes. Perversidade do processo de urbanização no Brasil No Brasil. Esse incremento demográfico vem-se fazendo acompanhar de inúmeros problemas sociais. Enquanto treze municípios.563 existentes no País. 2000.ReCESA 77 . e hoje as RMs são consideradas focos de violência. concentrando menos de 30% da população do país. desemprego. A rede urbana brasileira é extremamente desigual e concentrada. De fato.614 municípios. Guia do profissional em treinamento . revelando uma forte tendência à concentração territorial da população. via de regra. dados de 2004 indicam que existem favelas em cerca de 1. que hoje agregam mais de 41% da população brasileira. estão localizados nas regiões metropolitanas do País. o fenômeno da concentração urbana impõe ainda outros desafios. O Brasil possui 26 Regiões Metropolitanas (RMs) e três Regiões Integradas de Desenvolvimento (RIDEs) reconhecidas por lei.563 municípios brasileiros. Há também o registro de que o crescimento demográfico vem apresentando índices menores nas áreas centrais das RMs que nas suas respectivas periferias. respondem por cerca de 20% de toda a população brasileira. o Censo Demográfico de 2000 já indicava que as RMs e a RIDE Brasília abrigavam mais de 35% da população brasileira (em torno de 68 milhões de habitantes) e aproximadamente 49% da população urbana. a população é superior a 100 mil habitantes e. Nesses municípios.500 dos 5. pobreza e de degradação ambiental e urbana. que constituem pólos regionais de desenvolvimento econômico. que o processo de urbanização da pobreza está em pleno vigor. Um dos agravantes é que 60% do total de moradores que vivem em áreas urbanas se concentram em apenas cerca de 224 municípios dos 5. temos 4. em nível mundial. De acordo com dados do Ministério das Cidades. com menos de 20 mil habitantes. Fonte: IBGE.

correspondendo ao dobro do déficit de moradia. O déficit habitacional qualitativo e quantitativo nessas onze regiões é de 2. ou seja.296 domicílios. Há também o déficit de habitabilidade. O déficit de habitação é medido por quem mora em condições inaceitáveis. o Censo Demográfico de 2000 indicou a existência de 1. O país convive com um déficit habitacional da ordem de 6.5% estavam localizadas nas nove principais regiões metropolitanas. Ainda segundo dados do Ministério das Cidades. 78 Transversal . Desse total. situado em torno de 15 milhões de moradias inadequadas. mesmo embaixo da ponte. mais de 30% dos cerca de 180 milhões de brasileiros vivem sem acesso à moradia digna e.Para se ter a dimensão da relevância de uma gestão urbana sustentável nessas áreas.7 milhões de domicílios e 6. mas está em um terreno ilegal.Qualificação de gestores públicos em saneamento .6 milhões de moradias. etc. Por outro lado. não tem esgoto ou transporte ou água de rede pública. dado mais crítico. Esse quadro ainda é agravado pelo déficit qualitativo. 78. O que se mede no déficit é quando a situação é inaceitável. e elas concentram 82% dos domicílios subnormais do Brasil.). número de habitantes. por isso. Se esta realidade complexa está dada. por onde devemos atacar o problema? Domicílios subnormais são os que possuem características precárias.192. é preciso saber que. além da expectativa de crescimento. seja pelo atributo locacional (favelas. de infra-estrutura. temos quase um terço da população do País e. O déficit de habitabilidade compreende a situação em que uma família ocupa uma moradia aceitável. Desse total. barraco. etc. Todo mundo mora em algum lugar. além de Brasília e Manaus. Atualmente. nos últimos 50 anos.9% da população brasileira naquele ano. Esse quadro é resultado do processo de urbanização verificado no País. seja pelas características domiciliares (palafita. o déficit de habitabilidade no Brasil vai além das 12 milhões de unidades. 92% correspondem à demanda de segmentos da população com renda mensal de até cinco salários mínimos e 83. somados aos que co-habitam (mais de uma família na mesma moradia).6 milhões de pessoas residentes em assentamentos precários em todo o Brasil. vivem em condições desumanas nas nove regiões metropolitanas.). o que representava 3. em apenas onze das maiores RMs brasileiras. parcela significativa desse contingente reside em favelas e áreas degradadas.2% com renda mensal de zero a três salários mínimos.Nível 3 .

habitação e uso do solo. não buscarmos compatibilizar os serviços de saneamento com as demais políticas públicas que os tangenciam. não há como avançar se nós. um avanço quando a bacia hidrográfica é tomada como unidade de planejamento nas questões das cidades. como transporte. em função da heterogeneidade política interna dos grupos. 2004). a cooperação voluntária. muitas vezes. Um modelo de governança metropolitana ou de gestão associada de serviços públicos baseia-se na definição de uma estrutura de incentivos que torne possível superar a inércia e levar à cooperação dos entes federativos e destes com a sociedade. por isso. Se o processo de urbanização desordenado explica. lançamento de efluentes domésticos e industriais. resultem em maior capacidade de implementação de decisões sobre políticas públicas e dos chamados serviços de interesse comum (Figueiredo e Marques. captação de água. operem segundo o princípio da negociação. políticas e administrativas. Guia do profissional em treinamento . em variados graus e aspectos.Como vimos. a precariedade do quadro de saneamento no País. sem esquecer as questões técnicas. administram recursos públicos e buscam garantir a realização dos direitos humanos. relacionados a problemas da infra-estrutura urbana e à qualidade dos serviços prestados à população. com isso. coleta e destinação final do lixo. gestores. Governança: descreve o processo de tomada de decisão e de implementação ou não implementação das decisões tomadas. Representa a forma como as instituições públicas conduzem suas ações. no campo da gestão.ReCESA 79 . atualmente. portanto. não se mostram suficientes para apontar soluções de reversão em situações já consolidadas. As teses do crescimento populacional e da concentração urbana servem bem para explicar as causas desse quadro de vulnerabilidade urbana e humana. O desafio nesse campo é a montagem de formas de gestão que. os números do saneamento para o conjunto dos municípios brasileiros apresentam enormes desafios. A aposta que se faz é. levando os seus membros a cooperarem entre si. não é suficiente e. por outro. tendo. impõe a necessidade de incentivos que incidam de forma seletiva sobre o grupo. em parte. No entanto. Nesses casos. da colaboração e da integração e. São situações que requisitam um nível pactuado de gestão para resolver problemas que não ocorrem em um único município ou em um único setor. visando à obtenção de bem coletivo.

essas formas de gestão devem incorporar mecanismos de representação municipal (individualmente ou através de um conjunto de municípios). Além disso. Particularmente para melhorar a situação de moradores de assentamentos precários. Vamos retomar.257. a proteção ambiental sobre as áreas de mananciais. pactuação e de controle social que permeou todas as etapas e arenas políticas em que esses projetos foram formulados e definidos. Tenha em mente o retrato do saneamento no Brasil. Acrescente-se a isso o intenso processo de discussão. No marco institucional. constitui importante instrumento de planejamento e regulação urbanística.Qualificação de gestores públicos em saneamento . agregando elementos fundamentais trabalhados nesta seção e. Além disso. o controle da ocupação de áreas com riscos geotécnicos e de inundação. A proposta é que cada participante reescreva o texto original. para que seja ampliado o acesso à terra formal e urbanizada. e complemente o texto que você escreveu na terceira atividade desta unidade. consubstanciado na Lei Federal no. eventualmente. que estabelece as diretrizes gerais para os serviços de saneamento básico e a política federal de saneamento básico. do setor privado e.Nível 3 . que eliminem barreiras urbanísticas. 10. a reflexão feita por você sobre a sua cidade e a sua prática profissional. de entidades setoriais viáveis naquele âmbito territorial. é preciso que a própria sociedade se apresente como sujeito da ação e não apenas objeto das políticas. principalmente.107/2005 e o Decreto 6. o recente arcabouço jurídico-legal do saneamento brasileiro.Em termos de participação.445/2007. agora. de 10 de julho de 2001. Soma-se ao Estatuto da Cidade. o Brasil tem avanços a celebrar! O Estatuto da Cidade. o novo modelo implica no controle social dos processos decisórios relativos à definição da divisão dos subsídios e gastos públicos e sobre a distribuição dos bens da urbanização. avaliamos que a construção de um novo paradigma pressupõe cidades inclusivas. programas ou projetos. 80 Transversal . dos moradores e usuários das cidades. O desenho institucional da cooperação deve emergir da negociação e da adesão desses agentes. incentivando a cooperação entre cidades e regiões. políticas e simbólicas entre a cidade da classe média e a cidade dos pobres. não apreendidos em seu significado essencial. dos níveis de governo estadual e federal. amplamente tratado na Unidade II deste Guia: a Lei de Consórcios Públicos e de Gestão Associada (Lei 11. Conclusivamente. que acabamos de ver na leitura anterior. é imperioso o fortalecimento do papel do Estado para liderar. promover e subsidiar os financiamentos em habitação e saneamento.017/2007 que a regulamenta) e a Lei 11.

o modo de vida que adotamos em nosso dia-a-dia e as implicações disso para a saúde das pessoas e do meio ambiente em que vivem. Após essa visualização da bacia hidrográfica. A cada oito segundos. vamos mostrar alguns setores que interagem diretamente com o saneamento. diarréias. giardíase. Continuando nessa mesma perspectiva de integralidade.Atividade Cada pessoa deverá retomar o texto redigido na atividade anterior e reescrevê-lo acrescentando as novas observações. esperamos que você. Várias doenças podem ser veiculadas ou transmitidas pela água. dengue e malária. sugerimos um sobrevôo na plataforma da Bacia Hidrográfica Virtual (BHV). como cólera. salmonelose. iniciaremos a leitura dos textos sobre as quatro políticas públicas. conjuntivite bacteriana aguda. leptospirose. que são as principais vítimas de doenças transmitidas por água e esgoto mal tratados. hepatite. com grande impacto. Saúde pública e vigilância em saúde A erradicação das carências em abastecimento de água. Lembramos que ações integradas podem gerar benefícios sociais. a ampliação das ações para que a população mais pobre deixe de conviver com esgoto sanitário a céu aberto e tenha acesso a serviços de tratamento e à disposição final adequada de resíduos sólidos é uma questão social e de saúde pública urgente. Antes de passarmos a abordar cada uma dessas interfaces. Esse exercício ajuda a compreender e a materializar as conexões que se estabelecem entre a forma como ocupamos o território. em nossa avaliação. ambientais e oportunidades de desenvolvimento. tenha agregado novos conhecimentos que possam lhe ajudar na sua prática diária enquanto gestor. a gestão dos recursos hídricos e do meio ambiente. Com essa atividade. Principais interfaces setoriais do saneamento Elegemos aqui quatro políticas públicas que. Os esforços nessa área vão garantir boa qualidade de vida à população. principalmente na saúde das crianças. Profissional. esquistossomose. disenteria. uma criança morre no mundo devido a uma das doenças relacionadas com a água.ReCESA 81 . o desenvolvimento urbano e a gestão do uso e da ocupação do solo. Guia do profissional em treinamento . conformam interfaces fundamentais e inquestionáveis com o saneamento: a saúde pública. febre.

Os riscos à saúde associados à água podem ser de curto prazo, quando resultam da poluição de água causada por elementos microbiológicos ou químicos, ou de médio e longo prazo, quando resultam do consumo regular e contínuo, durante meses ou anos, de água contaminada com produtos químicos, como metais ou pesticidas. Pessoas que fazem uso de fontes alternativas de água devem tomar cuidado. A mortalidade infantil no País caiu, mas ainda é superior à de países vizinhos. Dados do Ministério da Saúde referentes ao ano de 2002 revelam que a taxa de mortalidade infantil no país se situou em 26,46 por mil, inferior aos índices do ano de 2000. De fato, segundo a versão preliminar da Revisão 2004 da projeção populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, de cada 1.000 crianças nascidas vivas, 30 morreram com menos de um ano. Em 1970, esse número chegava a 100. A melhora do indicador está relacionada ao aumento da escolaridade feminina, à elevação do percentual de domicílios com saneamento básico e a um maior acesso aos serviços de saúde. Apesar da queda, o País ainda apresenta uma taxa superior à de países como Argentina (21 por 1.000), Chile (12 por 1.000) e Uruguai (15 por 1.000). O Brasil ocupa o 100º lugar no ranking das mais baixas taxas de mortalidade infantil entre 192 países. Desde a década de 40, com a utilização dos antibióticos no combate a doenças infecto-contagiosas, o País começou a reduzir a taxa de mortalidade infantil. Campanhas de vacinação, de aleitamento materno e a atuação dos agentes comunitários de saúde contribuíram para modificar o quadro. O País ainda está muito longe, no entanto, dos resultados de países como Singapura (2,9 por 1.000), Japão (3,2 por 1000) e Suécia (3,4 por 1000). Nos dois últimos, a mortalidade baixa está associada a enfermidades cujo controle depende de um forte volume de investimentos em pesquisas na área de biotecnologia e engenharia genética. As necessidades de investimento em saneamento não devem, de maneira alguma, deixar de considerar a relação direta que existe com a saúde pública, que se pode traduzir em custos ou em benefícios. Segundo a definição da Organização Mundial de Saúde – OMS, na Carta de Ottawa de 1986, “a saúde é o maior recurso para o desenvolvimento social, econômico e pessoal, assim como uma importante dimensão da qualidade de vida”. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) “todas as pessoas, em quaisquer estágios de desenvolvimento e condições socioeconômicas, têm o direito de acesso a um suprimento adequado de água potável e segura”. “Segura”, nesse contexto, refere-se a uma oferta de água que não representa um risco significativo à saúde, que é de quantidade suficiente para atender a todas as necessidades domésticas, que está disponível continuamente e que tenha um custo acessível. Nos países da América Latina e do Caribe, o consumo

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

médio de água é de 200 litros por pessoa/dia. Essas condições podem ser resumidas em cinco palavras-chave: qualidade, quantidade, continuidade, cobertura e custo. Veja algumas informações do Relatório “Situação Global de Suprimento de Água e Saneamento”, lançado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), no ano 2000.

Você sabia?
∙ Cerca de um quarto dos 4,8 bilhões de pessoas dos países em desenvolvimento continua sem acesso a fontes de água adequadas, enquanto metade desse total não está servida por serviços apropriados de saneamento; ∙ ocorrem, no mundo, 4 bilhões de casos de diarréia por ano, com 2,2 milhões de mortes, a maioria entre crianças de até cinco anos. Água segura, higiene e saneamento adequados podem reduzir de um quarto a um terço os casos de doenças diarréicas; ∙ os serviços de abastecimento nas áreas rurais ainda estão bem defasados em relação aos dos centros urbanos. Entretanto, prover abastecimento de água, a um custo acessível, para as áreas urbanas mais pobres e cada vez mais populosas, também tem sido um desafio; ∙ as tarifas cobradas pelas empresas de abastecimento de água nos países em desenvolvimento não são suficientes para cobrir os custos de produção e distribuição de água. Na África, Ásia e América Latina/Caribe, a relação entre uma unidade de tarifa cobrada e uma unidade de custo de produção é, respectivamente, de 0.8, 0.7 e 0.9; ∙ apenas 35% das águas residuárias são tratadas na Ásia, índice que cai para 14% na América Latina.

São inúmeros os exemplos, dados e indicadores que comprovam a relação água não segura e doença. A qualidade da água, se não for adequada, pode ocasionar surtos de doenças e causar sérias epidemias (Opas, 2001). A seguir, apresentamos um esquema de correlação. Na primeira coluna, você poderá observar formas de transmissão de algumas doenças veiculadas pela água e, na última coluna, alguns dados reais sobre essas doenças.

Guia do profissional em treinamento - ReCESA

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A água microbiologicamente contaminada pode transmitir grande variedade de doenças infecciosas, de diversas maneiras:
∙ diretamente, pela ingestão de água contaminada com urina ou fezes, humanas ou de animais, contendo bactérias ou vírus patogênicos: cólera, febre tifóide, amebíase, leptospirose, giardíase, hepatite infecciosa e diarréias agudas; ∙ provocadas por má higiene pessoal ou contato de água contaminada na pele ou nos olhos: escabiose, pediculose (piolho), tracoma, conjuntivite bacteriana aguda, salmonelose, tricuríase, enterobíase, ancilostomíases, ascaridíase ∙ causadas por parasitas encontrados em organismos que vivem na água ou por insetos vetores com ciclo de vida na água: esquistossomose, dengue, malária, febre amarela, filarioses e oncocercoses.

Os números levantados no Relatório da Opas (2000) mostram a gravidade do problema:

∙ nos países da América Latina e Caribe, a epidemia mais significativa dos últimos anos foi a da cólera, originada em 1991, no Peru, e que se estendeu por 21 países da região, com mais de 1.200.000 casos registrados até 1997; ∙ a cada ano, mais de cinco milhões de seres humanos morrem de alguma doença associada à água não potável, ambiente doméstico sem higiene e falta de sistemas para eliminação de esgoto;

∙ estima-se que, a qualquer momento do dia, metade de toda a população nos países em desenvolvimento esteja sofrendo de uma ou mais entre as seis principais doenças associadas ao abastecimento de água e saneamento (diarréia, áscaris, dracunlíase, esquistossomose, ancilostomíase e tracomas).

Ainda relatando alguns tipos de doenças de veiculação hídrica, apresentaremos informações sobre as enfermidades de maior incidência relacionadas com a qualidade da água, além da cólera, na América Latina e no Caribe. ∙ diarréias em crianças, responsáveis por 80 mil mortes e uma média de três casos diarréicos por ano; ∙ hepatite vírica, cuja incidência se encontra entre 24 e 29 casos por 100.000 habitantes nos países da América do Sul; ∙ amebíase e febre tifóide, endêmicas em muitos países; ∙ entamoeba histolytica, identificada como a causa de algumas epidemias resultantes da contaminação do abastecimento de água por águas residuárias.

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nas áreas urbanas e de US$ 50 nas áreas rurais. A proliferação acentuada das chamadas algas verdes/azuis (cianobactérias) pode ocorrer em lagos e reservatórios de água potável. principalmente nos países tropicais. tornou-se uma ameaça à saúde pública. em geral inapropriado. algumas toxinas. o Aedes Aegypti. o que significou aumento de 50% em relação ao mesmo período do ano de 2006. no Japão. como hepatotoxinas e neurotoxinas. Os únicos casos fatais atribuídos a esse tipo de envenenamento ocorreram em Caruaru. de janeiro a julho de 2007. Contudo. Os casos mais comuns de contaminação da água por metais ocorrem com arsênio. 1. no Brasil. chumbo. das águas e dos peixes da Baía de Minamata. o maior surto de dengue da sua história. a OMS advertiu que o surto de 2007 poderia superar a marca de 2002. A explosão de casos em todos os estados brasileiros.Nessas regiões. Um dos episódios mais conhecidos foi a contaminação. apenas 10% das águas residuárias recebem algum tipo de tratamento. Dependendo da espécie da alga. Em setembro. A fluoretação da água numa concentração ótima de 1 mg/l é considerada uma maneira segura no sentido de alcançar um importante benefício para a saúde pública. Foram 64. Não resolve lançar campanhas de conscientização da população quando o surto já está ocorrendo. que afetou mais de 20 mil pessoas e provocou 1004 mortes. No mundo.076 contraíram dengue hemorrágica e 121 morreram. é preocupante. por mercúrio. devido ao risco de fluorose dentária e esquelética.ReCESA 85 . entre 1956 e 1967. ao fornecer. segundo dados da OMS. em 2007. O mosquito transmissor da dengue. cádmio e mercúrio. O limite recomendado pela OMS é de 1.310 casos registrados no período. a toda população. provocando coloração da água e impedindo sua filtração. proteção importante contra as cáries dentárias.5 mg/l. São Paulo viveu. o problema da dengue só pode ser resolvido com profunda mudança na infra-estrutura sanitária do País. Das cerca de 480 mil pessoas infectadas. Guia do profissional em treinamento . ano em que o Brasil registrou número recorde de casos (800 mil notificados). Para a OMS. A OMS estima que o custo de providenciar abastecimento de água é de US$ 105 por pessoa. No Brasil. algumas fontes de água contêm concentrações maiores de fluoreto em forma natural e podem resultar impróprias para consumo humano. quando 50 pacientes renais crônicos foram envenenados pela água contaminada utilizada nos equipamentos de diálise. infecta entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas anualmente. ocorrida mesmo nos meses de inverno. foram registrados cerca de 480 mil casos. também podem ser produzidas.

especialmente das áreas mais pobres. referenciado em indicadores sanitários.080/90): A vigilância epidemiológica é “o conjunto de atividades que permite reunir a informação indispensável para conhecer. Isso exige uma atuação coordenada entre os ministérios afins e a implementação do apoio técnico e financeiro que o governo federal pode prestar aos estados e municípios. isto é. A gravidade desse quadro pode ser percebida quando se constata a baixa ou nenhuma capacidade de investimento dos municípios em saneamento. tanto entre a população quanto entre as autoridades. epidemiológicos. Sem ações de controle. Esperamos. inclusive industriais. bem como detectar ou prever alterações de seus fatores condicionantes. que com ações planejadas e integradas. O hábito de extinguir criadouros precisa ser cultivado e mantido. o vetor voltou a proliferar. Às autoridades cabe a tarefa de eliminar sistematicamente. com o fim de recomendar oportunamente. nova erradicação foi alcançada com a aplicação de inseticida de efeito residual nos reservatórios domiciliares. oportunidades de desenvolvimento social com integridade ambiental. quando os recursos eram muito menores do que os de hoje.Também a conscientização preventiva deve ser constante. haja alteração do per fil epidemiológico. É necessário ensinar à população que eliminar focos de insetos deve fazer parte da limpeza diária das casas. a qualquer momento. sobre bases firmes. as autoridades federais abandonaram a técnica e passaram a recomendar apenas o controle do mosquito. assim como o efetivo combate ao mosquito. no entanto. os macrocriadouros em ambientes urbanos. as medidas indicadas e eficientes que levem à prevenção e ao controle de determinadas doenças”. mediante investimentos em saneamento. ambientais e sociais. 86 Transversal . Como define a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8. o que continua até hoje. que surgem sempre nas construções não fiscalizadas e nas lajes de prédios públicos e privados. Não restam dúvidas de que o papel da União é de fundamental importância para atribuir efetividade aos investimentos visando à universalização dos serviços de saneamento. o comportamento ou história natural das doenças. implicando redução das desigualdades regionais e criando. no sentido da promoção da saúde e da prevenção e controle de doenças e agravos. Em 1973.Qualificação de gestores públicos em saneamento .Nível 3 . O Aedes Aegypti chegou a ser erradicado do País em fins da década de 1950. no entanto. Mas é preciso também incentivar a pesquisa e adotar tecnologias de eficácia comprovada pelas universidades para erradicar definitivamente o mosquito. durante o ano inteiro. alocando os recursos de forma eficaz onde realmente se encontra a demanda associada ao risco epidemiológico. Com o crescimento acelerado das cidades.

trata-se de uma interface.) é sujeita a outorga de direito de uso nos termos da Lei 9.)”. especialmente as áreas dos nossos mananciais. de moradia. Dedica um capítulo específico à relação dos Serviços Públicos de Saneamento Básico com os Recursos Hídricos e reafirma: os planos de saneamento básico deverão ser compatíveis com: i) os planos de recursos hídricos. portanto a área de sombra e de suposta subordinação. Guia do profissional em treinamento .). Equacionada. além da outorga. Em seu artigo 4º determina: “os recursos hídricos não integram os serviços de saneamento básico” e complementa em parágrafo único que “a utilização dos recursos hídricos na prestação de serviços públicos de saneamento básico (.ReCESA 87 . impõe a dicotomia (superável) entre proteção dos espaços ambientalmente nobres. o acesso infinito à contemplação do belo e do verde. A complexidade da questão urbana. somos sabedores do tamanho do desafio ainda a enfrentar..Recursos hídricos e meio ambiente No tratamento da relação entre saneamento. a primeira consideração que precisamos fazer é que. a Lei também avança no planejamento integrado dos serviços de saneamento básico que deve tomar a bacia hidrográfica como referência para o planejamento. A minuta do decreto de regulamentação da Lei 11. nos grandes condomínios. recursos hídricos e meio ambiente. Comparativamente em relação às outras políticas (urbana.. e das áreas ambientalmente vulneráveis em face da necessidade cada vez mais urgente de acesso à terra e à moradia para os segmentos populacionais historicamente excluídos do direito à cidade. de saúde. etc. o direto ao pagamento pelo uso feito pela prestação de serviços públicos de saneamento básico. a construção dessa interface se faz mais desafiante justamente por uma leitura inadequada. de fato. a Lei 11.433/1997 (.. e institui a necessária compatibilidade desses com os planos de bacia. Em parte. Soma-se em igual medida e relevância. a regulação pública sobre esses mesmos espaços frente à voracidade do mercado imobiliário para segmentos de alta renda que buscam. Entre outras determinações no campo das situações de contingência e escassez. também estabelece. em que estiverem inseridos. principalmente nas grandes cidades e megalópoles brasileiras. ii) o enquadramento dos corpos d’água. que subordina um setor ao outro e não os vê em uma relação de complementaridade.. principalmente nos casos de planos regionais de saneamento. constitucionalmente determinado como direito de todos os cidadãos.445/2007 equaciona bem essa situação. e dentro do que lhe cabia.445/07 avança ainda mais. A despeito de tais avanços.

Informações bem detalhadas sobre como o município pode elaborar o seu plano diretor participativo podem ser encontradas no Guia publicado pelo Ministério das Cidades e divulgado no sítio www. A existência ou não de infra-estrutura de saneamento. o princípio do direito à cidade se consolida como principal pilar de um projeto de política urbana que visa explicitamente à inclusão social. se bem aplicados. de sistemas e de práticas públicas. O Estatuto da Cidade prevê instrumentos que. assim como a capacidade de resolução dos problemas relacionados ao manejo dos resíduos sólidos e a drenagem urbana. de robusto arcabouço jurídico-legal e. que deve orientar o planejamento. Desenvolvimento urbano.Nível 3 . há mais tempo. a organização e a prestação dos serviços de saneamento.br. gestores. em processo de formação intersetorial. Isso exige de nós. A atividade de construir e elaborar o Plano Diretor é uma oportunidade para se estabelecer um processo permanente de planejamento participativo para formular políticas públicas. com a gestão do uso e da ocupação do solo. corrigir os rumos. podem aperfeiçoar a gestão urbana municipal. uso e ocupação do solo A noção de salubridade ambiental.gov. para atuarmos com maior criatividade e eficácia. é preciso que as informações sobre os sistemas e serviços de saneamento ambiental subsidiem as decisões a serem tomadas sobre como e para onde o desenvolvimento deve ser induzido. Mas para que esse instrumento seja eficaz. Contudo. os novos investimentos. Para planejar o futuro da cidade e organizar sua dinâmica. avaliar as ações e.cidades. constituem sistemas consolidados e cristalizados. em decorrência disso. 88 Transversal . incidem diretamente no nível de desenvolvimento de uma cidade ou mesmo de uma região. não basta saber se tais serviços existem ou não. considerando a habitação e o acesso universal aos serviços públicos como fundamentais à cidadania e priorizando os setores mais vulneráveis da população. traz implícita a promoção da saúde pública e a integridade do meio ambiente e estabelece a interface necessária com o desenvolvimento urbano.Sabemos que o setor de recursos hídricos e o do meio ambiente dispõem. é preciso que governo e sociedade empreendam esforços e trabalhem juntos. Antes disso. em particular. para o planejamento urbano. Hoje. sempre que necessário.Qualificação de gestores públicos em saneamento . maior atenção às oportunidades que o conjunto de leis. existe o Plano Diretor Municipal. o padrão dos serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário.

A melhoria das condições de habitabilidade nesses lugares povoados por população de baixa renda promove a proteção à saúde pública. sobretudo. como vilas e favelas. um processo absolutamente dinâmico de planejamento que requer a produção. tradicionalmente utilizada para se planejarem e implementarem ações e serviços de saneamento. divulgação e atualização sistemáticas de dados e informações confiáveis. Para isso. Uma vez incorporada à normalidade institucional de governo. Na próxima unidade deste guia. e esperando que todo o aparato teórico e informativo possa ajudá-lo na reformulação desta atividade. O adequado emprego desses instrumentos e também de outros previstos no Estatuto da Cidade requer a disponibilidade de informações e de indicadores que sirvam de base à elaboração de políticas.São exemplos desses instrumentos: ∙ o adensamento de áreas com adequada infra-estrutura e provida de serviços públicos. faremos a atividade de encerramento desta unidade. teremos como explorar melhor esse assunto. alimentando a dinâmica de desenvolvimento local. Guia do profissional em treinamento . ampliando os benefícios gerados pelos recursos públicos investidos. retomando a atividade feita por você inicialmente. é fundamental a compreensão de que esse tipo de plano é.ReCESA 89 . esse processo é capaz de gerar indicadores e índices setoriais que revelam as condições da realidade local em termos de salubridade ambiental e de qualidade de vida. recuperação ambiental de áreas degradadas e possibilidade de gerar e intensificar atividades econômicas. ∙ a regularização fundiária e urbanística de assentamentos precários. Agora. Também o Plano Municipal de Saneamento Básico é um importante instrumento de planejamento e gestão local integrada na perspectiva de se superar a forma de abordagem setorial e estanque. se possível. de forma a orientar a ocupação e a expansão urbana para essas áreas – e com isso reduzir a pressão sobre áreas vulneráveis do ponto de vista ambiental – e a otimizar o uso da capacidade de infra-estrutura urbana já instalada. é necessário que o município disponha de um sistema de cadastro atualizado e integrado e. de um sistema de informação georreferenciado. Para isso. planos e projetos. programas.

é necessária uma gestão eficiente e eficaz. o planejamento integrado e participativo. os participantes da oficina (em plenária) avaliam se há necessidade de correção. no seu trabalho. também. você pratica a integração? Quando isso ocorre. com quais órgãos você se articula? c) Qual a importância de se trabalhar de forma integrada? d) Que medidas o Estado e a sociedade precisam tomar a fim de se prepararem para atuar de forma integrada? O objetivo central desta unidade foi. esperamos que você tenha percebido o saneamento como parte integrante de um sistema mais amplo e interligado.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Profissional. e. 90 Transversal .Nível 3 . para o êxito desta meta social que é o saneamento. um serviço essencial. levá-lo a refletir sobre a intersetorialidade como um eixo estruturante para uma nova forma de gestão pública. As ações de saneamento são. pode promover transformações fundamentais para o desenvolvimento desse setor. Ao analisarmos os aportes conceituais sobre o tema “o retrato brasileiro do saneamento e alguns princípios da política pública de saneamento”. buscarmos melhorá-las. Nessa perspectiva. um bem de consumo coletivo. um direito do cidadão e um dever do Estado. assim como a elaboração e a implementação de planos municipais de saneamento básico. O exercício de analisarmos nossas práticas diárias e. no próximo capítulo. voltada prioritariamente para a coletividade. vamos abordar. complementação ou mesmo exclusão das idéias antes trabalhadas sobre: a) O que é intersetorialidade? b) Como. a comunidade e o Estado têm papéis a desempenhar.Atividade A turma deve retomar os painéis trabalhados coletivamente no início desta unidade e a cada questão inicialmente colocada para reflexão. Você. através de novos conhecimentos e da troca de idéias. que constituem instrumentos estruturantes para uma gestão sustentável. principalmente.

aplicado às políticas públicas e sob uma perspectiva histórica. Iniciaremos o capítulo mostrando o desenvolvimento do planejamento no Brasil e as vertentes que nortearam sua evolução. gestor. após conhecermos um pouco sobre a intersetorialidade e as oportunidades que esse instrumento pode significar em evolução para o saneamento e para você. podemos observar que a forma como se fez planejamento no Brasil tem menos a ver com os períodos da história que desenharam a cronologia dessa evolução.Identificar o papel do planejamento para a formulação de políticas públicas e compreender de que maneira o planejamento visto como um processo dinâmico e participativo tem rebatimento em todo o ciclo da gestão. assim como. implementar as ações efetivamente necessárias que tornarão sua gestão apropriada ao seu município. enquanto gestor. na implementação dos processos pertinentes. No saneamento. Ao percorrer as diferentes escolas de planejamento. Guia do profissional em treinamento . . a exemplo da problemática regional e nacional e da orientação política e técnica que se imprimiu ao planejamento no âmbito do projeto nacional de desenvolvimento predominante em cada época.ReCESA 91 . predefinir caminhos e embasar ações são questões primordiais na tomada de decisões. Profissional. em particular. instrumento indispensável para você. visando a qualificar o gestor público na condução de processos de formulação de políticas. Abordaremos um método de planejamento que objetiva fundamentar sua tomada de decisões e encerraremos a unidade com orientações para a elaboração do Plano Municipal de Saneamento Básico. notaremos que traçar metas.Adquirir conhecimentos sobre métodos e técnicas de planejamento integrado e participativo.Propiciar ao gestor público o instrumental conceitual e metodológico para conduzir a elaboração e implementação de Planos Municipais de Saneamento Básico. Planejamento: origem e vertentes Primeiramente. . vamos analisar as diversas maneiras de se pensar o planejamento. continuemos nossos estudos com um tema imprescindível para uma gestão eficiente: o planejamento. programas e projetos. As experiências de planejamento vivenciadas em nosso País foram bem mais influenciadas por fatores que determinaram a formação social brasileira.Planejamento e plano de saneamento básico OBJETIVOS: .

Acreditava-se que o plano certo seria suficiente para se atingirem os resultados esperados. desenvolveu diversas pesquisas e experiências que resultaram no modelo de planejamento denominado Planejemento Estratégico Situacional (PES). Para Matus. Contudo. vocês seriam capazes de dar alguns exemplos de planos que ficaram no papel? Esta reflexão nos leva a outra. o planejamento não se reduz simplesmente à relação desse ser coletivo com as coisas. Ao conceber o planejamento como processo.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Pensando de forma geral. se desejar a coisa (o objeto). Na construção de sua teoria do planejamento. Ministro do Governo chileno de Salvador Allende. Porém. a referência imediata é a de Carlos Matus. Matus aborda a relação entre sujeito que planeja e objeto planejado. Carlos Matus: chileno. Isso faz com que o objeto do planejamento seja um elemento em constante mudança. o indivíduo não é uma força potente para gerar mudanças. haverá sempre um outro agente atuando na determinação desse objeto. a idéia de interação se faz indispensável. dominada por economistas e burocratas. Quando se fala em sujeito no campo do planejamento como processo. ele reúne as condições para atuar no sentido de provocar mudanças na direção desejada em um processo social e historicamente dado. que em si não é estática. (Wikipédia) Dessa forma. esse sujeito social não é homogêneo nem constitui um ser único sem apresentar contradições diante da vida. Algumas visões da prática do planejamento pecaram por não considerar uma outra relação muito importante para o campo das políticas públicas: planejamento e implementação. porque sejamos ou não o sujeito social dessa mudança. Nessa vertente. o planejamento é visto como uma coisa estritamente tecnicista. de como se vê e interpreta a coisa. Deixou uma grande obra e influenciou centenas de administradores públicos. Quando se olha. Essa associação nos leva a conceber o planejamento como processo e não como uma seqüência linear de fases e etapas. no papel. mostravam-se perfeitos. O chamado “homem coletivo” constitui o que chamamos de sujeito social. Apenas quando o indivíduo se reconhece coletivo. são inúmeros os exemplos de experiências fracassadas de planejamento que se pautaram em planos que. na prática.A associação intrínseca entre planejamento e plano como uma peça meramente técnica predominou em grande parte da história da administração pública no Brasil. foi o maior estudioso da América Latina sobre planejamento estratégico de governo. produziram resultados decepcionantes e até desastrosos. imutável. Esta relação tem sido vista de diversas formas ao longo da história do 92 Transversal .Nível 3 . especialmente no Brasil. Interação entre quem planeja (sujeito) com o que se planeja (objeto). mas. há nesse olhar uma multiplicidade de visões.

do fenômeno. como conceito e como método. podemos dizer que dois paradigmas são fundamentais para a compreensão do que é específico e do que é diferente em cada uma dessas formas de planejar (as chamadas teorias ou escolas do planejamento): ∙ um paradigma concebe o sujeito fora do objeto planejado: entre sujeito e objeto há apenas uma interpretação unilateral do sujeito (olhando apenas do seu lugar) em relação ao objeto. Segundo Matus. portanto. a escola predominante. a abordagem “do sujeito fora do objeto planejado” advém do chamado planejamento normativo ou tradicional. de um filtro particular. cuja formulação de políticas está a cargo de planejadores que detêm o domínio sobre a técnica. São necessárias aproximações sucessivas do sujeito em direção ao objeto e à construção das diversas leituras feitas pelos diferentes sujeitos para se chegar a uma interpretação mais fidedigna do objeto em seu contexto histórico e social. sendo possível apenas essa interpretação do objeto. em sua vertente tecnocrática. Guia do profissional em treinamento . Ou seja. De uma forma ou de outra. Feita essa abordagem mais geral. nos referindo a uma visão plural do mesmo objeto como pressuposto para planejá-lo dentro da concepção de processo. passamos agora a uma breve recuperação histórica sobre a evolução do planejamento. portanto. convive com outros sujeitos em constante relacionamento com o objeto planejado. Equivale a dizer que cada sujeito enxerga o objeto do seu próprio lugar. caracteriza o que denominamos planejamento estratégico situacional. o sujeito detém uma visão única do objeto. A segunda abordagem. que interage e influencia o desenvolvimento do objeto. o sujeito não está sozinho. ∙ o outro paradigma concebe o sujeito como parte do objeto planejado: a figura do sujeito é condicionada pelos vários lugares sociais que determinam o lugar de onde se olha. De acordo com essa visão.planejamento. através de uma lente. o sujeito passa a conhecer todas as leis e códigos que o regem. em sua plenitude e complexidade. pois o objeto pode ser completamente apreendido e compreendido pelo sujeito. “o sujeito como parte do objeto planejado”. a relação é altamente assimétrica. tentando identificar em cada contexto. tornando o objeto altamente previsível e afastando-se totalmente da noção de processo.ReCESA 93 . mas nenhum dos sujeitos consegue enxergar o objeto de imediato e por inteiro. tendo conhecido o objeto. Esse tipo de abordagem aproxima-se muito do planejamento normativo. Estamos. Nessa abordagem.

Idéias keynesianas: Keynes nunca defendeu a estatitização da economia. inicia-se um debate sobre as limitações do planejamento centralizador. a exemplo da Sudene. mas as atividades e métodos do governo. segundo o qual se poderia planejar uma cidade-modelo. embora necessários para o bom desenvolvimento de um país. No bojo do movimento de direitos civis nos Estados Unidos.Qualificação de gestores públicos em saneamento . sob a égide de um Estado centralizador e com ênfase na economia. Para isso. já não mais se impunha o controle como elemento estruturante da capacidade planejadora.A idéia de planejamento apareceu há aproximadamente um século com o objetivo de controlar o futuro. A resposta que se buscava dar para as cidades européias da época tinha na poluição. foram concebidos os planos. portanto. o chamado advocacy planning (Davidoff. no final da década de 1910. Assim. no congestionamento os principais efeitos do fenômeno da aglomeração urbana. A mais importante agenda do Estado não está relacionada àquelas decisões que ninguém adota se o Estado não o faz. dando origem às grandes agências regionais de desenvolvimento.Nível 3 . 1902). 1940 e 1950. seqüenciado e dependente da ação hegemônica de Estado. principalmente em favor dos interesses dos menos favorecidos social e politicamente. O avanço das idéias keynesianas. Segundo Oliveira (2006). O que Keynes defendia. A escolha não deve ser se o Estado deve ou não estar envolvido (na economia). 94 Transversal . De forma concreta. A partir das décadas de 1930. de forte intervenção estatal. a questão central não deve ser o tamanho do Estado. 1965). surgiu a idéia de que o planejamento não deveria ser um instrumento estritamente técnico. de alguma forma. da concentração de diversas pessoas vivendo em cidades. nos moldes em que foi feita na União Soviética. para essa corrente. inaugura esse período. preparada para lidar com o imprevisto e com o inesperado e. na década de 1930. na Inglaterra. e que hoje Stiglitz e os novosdesenvolvimentistas defendem é uma participação ativa de um Estado enérgico nos segmentos da economia que. distribuindo de forma ótima as suas diversas funções no espaço. a vertente urbanística se associa à dimensão social como vetor da intervenção espacial no território. impulsiona a vertente do planejamento em direção às políticas de desenvolvimento regional. podemos dizer que o planejamento das cidades no final do século XIX. O que havia em comum entre uma escola e outra era a idéia de planejamento como peça técnica. mas como ele se envolve. não interessam ou não podem ser atendidos pela inciativa privada. Criou-se o conceito de cidade-jardim (Howard. no Brasil. (Wikipédia) Na década de 1950. Uma outra vertente de planejamento surge com a criação da União Soviética. o planejamento deveria ser visto como instrumento de mudança social e de advocacia. Surgem as primeiras incursões da escola incrementalista do planejamento.

na qual diversos atores se interagem. o planejamento governamental passaria a instrumento capaz de incluir esses segmentos sociais como sujeitos do processo de planejamento. buscando reduzir ao máximo a assimetria entre os diversos grupos sociais que participam deste processo. que inaugura um novo paradigma para a compreensão do processo de formulação de políticas públicas. portanto.Advocacy Planning: as primeiras práticas de urbanismo democrático aconteceram nos Estados Unidos. o planejamento passa a ser considerado um processo que decorre da qualidade das interações entre os diversos atores envolvidos. conceito cunhado por Manuel Castells (1998). Em vez de o governo atuar como um instrumento de advocacy em favor das classes desprovidas de direitos. transparência. ora em posições de disputa e confronto. Dessa forma. que. buscava construir uma relação de confiança nas decisões que envolvem o planejamento de políticas públicas. o planejador passa à posição de mediador dos interesses da sociedade. Com o crescimento de organizações e movimentos sociais no processo de planejamento e as interações destes entre si e com o Estado. nos anos de 1960. segundo Healey (1997). Para isso. A idéia é de arena política. Oliveira (2006) resume bem o que se quer tratar: a idéia de aprendizado nas interações nos processos de decisão passou a ser cada vez mais relevante para pensar-se planejamento. essa corrente apregoa uma outra variável: a necessidade de o aprendizado perpassar todo o processo e alcançar indistintamente os atores nele envolvidos. Este autor ainda acrescenta: “o processo de planejamento é um processo de decisão política que depende de informações precisas. com o Advocacy Planning. a noção de instrumento político ganhava várias interpretações e variantes. Guia do profissional em treinamento .ReCESA 95 . Surge. o denominado planejamento colaborativo. aceitação de visões diferentes e vontade de negociar e buscar soluções conjuntamente. chegando de forma mais destacada no Brasil. A década de 1970 pode ser considerada um divisor de águas para o conceito de planejamento. As experiências inspiradas nessa prática expandiram-se pela Europa. surge a chamada “sociedade em rede”. temperança. que buscava defender as reivindicações da classe mais desfavorecida. ética. Se o planejamento já não era visto como uma peça técnica. que sejam aceitáveis para toda a sociedade e principalmente para as partes envolvidas”. Sob essa perspectiva. Essas experiências apontam para “a possibilidade de soluções dos problemas da cidade por meio da construção de uma nova cultura política democrática e um novo desenho nas relações Estado-sociedade civil” (BAVA. 2000). ora em esforços de concertação. na década de 1980.

) e consultores internacionais (notadamente catalães. No Brasil. exportado para várias cidades da América Latina. principalmente. adotando essa postura num mundo que é visto como um mercado em que cidades. Sublinham que a mera transposição desse modelo para instituições públicas que trabalham com políticas urbanas pode reduzir a cidade à condição de mercadoria a ser vendida num mercado extremamente competitivo. no setor público e. muitos planejadores propõem uma reflexão crítica acerca do sentido e da eficácia da difusão da nova modalidade de planejamento urbano. no Brasil e na América Latina). e de modo geral na América Latina. nos anos de 1960 e 1970. incluindo o fortalecimento da empresa privada nacional. Nos últimos anos. recuperação dos centros históricos. é uma referência importante nesse debate. Grandes projetos urbanos. Market friendly: a idéia de que a intervenção do Estado é essencial para o desenvolvimento econômico desde que complementar e “amiga do mercado”. graças à atração de investimentos. em que outras cidades também estão à venda (Vainer. através do ajuste da estrutura industrial do País. 2008). Transposto inicialmente do pensamento militar para o empresarial nos anos 60 pela Harvard Business School. etc.Para concluirmos a abordagem sobre tipos de planejamento. turistas e grandes eventos. O plano estratégico de Barcelona. o planejamento estratégico instalou-se. Agência Habitat. desde final dos anos 80. Pnud. que propunham novas ênfases ao processo de desenvolvimento da economia brasileira. regiões e territórios competem entre si. mais especificamente. a refl exão já acumulada decorrente da implantação desse método em cidades brasileiras. a que se tem chamado planejamento estratégico. e assegurarão. parcerias público-privadas. nas cidades. e.Qualificação de gestores públicos em saneamento . propagam a boa nova: as cidades (vale também para as regiões) devem se comportar como empresas. Agências multilaterais (Banco Mundial.Wikipédia. a partir dos anos 90. em sua variante urbana. metodologias e práticas do planejamento urbano no Brasil. assim como conceitos. planejamento market friendly fomentarão a produtividade e competitividade da cidade. uma inserção de sucesso no inevitável processo de globalização.Nível 3 . as concepções e representações da cidade. 96 Transversal . a tônica do planejamento eram os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND I e II). Cabe destacar que a cronologia aqui apresentada se aplica à evolução das correntes teóricas sobre o planejamento. têm sido fortemente influenciadas pela difusão do chamado planejamento estratégico. falta apresentar sucintamente o denominado planejamento estratégico. Entretanto. BID.

experiências locais de planejamento participativo foram ensaiadas em alguns municípios brasileiros. tendo como uma das principais influências o método de planejamento desenvolvido por Carlos Matus.O final dos anos de 1980 e a década de 1990 foram marcados pelo processo de redemocratização do País. um escritório de consultoria para elaborar um plano de intervenção. seu surgimento e algumas vertentes utilizadas no mundo e no Brasil. o mais grave. no Chile de Salvador Allende. Profissional. Nesses períodos. Atividade Apresentamos uma situação-problema para que os grupos reflitam sobre a forma de buscar soluções para o quadro anunciado. Da rodada de análises feitas pelos secretários. um número de casos 60% acima do número médio de ocorrências de dengue notificadas nos três anos anteriores e. a Prefeita convocou uma reunião com todo o seu secretariado para avaliar o quadro e decidir o que fazer. que elevou o município à posição de ente autônomo e integrante do federalismo brasileiro. É importante lembrar que o planejamento deve considerar a interação “planejador e objeto a ser planejado”. amplamente respaldados na Constituição Federal de 1988. diretores de programas e gerentes de projetos da Prefeitura surgiram as seguintes propostas de encaminhamento: a) contratar. Guia do profissional em treinamento . vamos desenvolver a atividade seguinte. que visa à busca de soluções mais adequadas em um cenário que representa a realidade de vários municípios brasileiros. o número de casos com óbitos foi triplicado nesse mesmo ano. em 2007. Estudo de caso A Secretaria de Saúde do Município de Taruíra registrou. Na medida em que os jornais locais noticiavam a gravidade do fato e as associações de moradores dos bairros mais afetados organizavam manifestações diante do prédio da Prefeitura e da Câmara Municipal. em caráter de emergência. após visualizarmos a trajetória histórica do planejamento.ReCESA 97 .

b) convocar uma outra reunião. c) fazer uma compra de emergência para aquisição de caixas d’água para os domicílios dos bairros mais afetados onde moram pessoas de baixa renda que não têm acesso aos serviços prestados pela concessionária estadual de saneamento (CESB). um exemplo de experiência concreta para cada escola de planejamento citada. associações de moradores. identificando. conselhos municipais. pelo menos. Com base nessas alternativas. d) associar-se à mídia local para lançar uma campanha de conscientização da população sobre como evitar os criadouros do mosquito. Esses serviços são prestados precariamente pela Prefeitura. formulando coletivamente uma proposta de equacionamento do quadro e contemplando medidas emergenciais e ações estratégicas. e) tomar a iniciativa de realizar uma audiência pública. com apoio do representante local do Ministério Público.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Para subsidiar a decisão. que se encontrava em Brasília com o objetivo de captar recursos para investimentos em saneamento para a cidade. com qual delas a ação proposta mais se aproxima. resultando em condições impróprias de armazenamento da água (em tambores. escolas. primeiramente.Nível 3 . o grupo deve decidir que caminho tomar para resolver o problema do município. além da falta de serviços e de infra-estrutura adequados de drenagem. em caixas d’água sem tampa). o grupo deve fazer uma análise de cada solução surgida na reunião da Prefeita com o secretariado (itens “a” a “e”). em no máximo dois dias. convocando empresários da região. O quadro em seguida pode ajudar na sistematização do exercício e sugere que o grupo também apresente. a mídia local e organizações sociais atuantes na cidade. para apresentar à população a situação-problema em que o município se encontra e as soluções surgidas da reunião de secretariado. 98 Transversal . em razão da ausência do Secretário de Obras do Município. entre as escolas de planejamento que estudamos nesta seção.

realizaremos a atividade que tem como objetivo identificar sua experiência sobre o tema. Guia do profissional em treinamento .ReCESA 99 . Para isso. Durante o relato das experiências. iremos. Cada participante relatará uma experiência vivenciada na prática. o grupo deve buscar enfatizar os aspectos metodológicos da experiência. Cada grupo deve indicar uma pessoa para atuar como relator. continuar o entendimento do conceito-chave desta unidade. ou seja. os participantes desta oficina deverão organizar-se em grupos para uma troca de experiências. agora. em que precisou conduzir um processo de elaboração de um plano para equacionar determinado problema. Planejamento e método Atividade Antes de passarmos ao texto conceitual sobre o tema desta seção.Características da solução Escola de Planejamento à qual se aproxima Exemplo de experiência concreta (vivência do grupo) Após essa rodada de problemas e respectivas soluções com que trabalhamos na atividade anterior. destacar menos a descrição do problema em si e reforçar o como se construiu um meio para solucionar o problema.

este vai ficar no papel ou nas boas intenções. Uma das grandes revelações da experiência chilena liderada por Carlos Matus diz que por mais competentes que sejam os planejadores. descreveremos alguns aspectos metodológicos sobre o planejamento estratégico situacional. que requer concentração e discernimento dos objetivos e metas a alcançar: a seleção dos principais problemas a serem atacados. é preciso que o grupo compreenda que algumas características são importantes: a idéia de pertencimento e o conhecimento sobre o nível de governabilidade e de representatividade. 100 Transversal . retomemos as experiências relatadas. se não se garantir o princípio basilar: planeja quem executa. Mas pode (e deve) ser visto como um trilho que nos leva com maior velocidade e segurança ao destino que almejamos. de pertencimento. Aqui. executa quem planejou. De onde parte o grupo? Pode parecer inadequado. seja qual for a vertente. reunidas. decidimos por eleger o planejamento estratégico situacional (PES) para percorremos todas as etapas do método que o caracteriza. por mais bem intencionados e ainda que estejam em sintonia com os destinatários de determinado plano.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Planejamento Estratégico Situacional: aspectos metodológicos Planejamento. tanto para se planejar uma determinada organização como para planejar um plano ou projeto específico. Pertencimento: (ou o sentimento de pertencimento) é a crença subjetiva numa origem comum que une distintos indivíduos. Quando a característica de determinado grupo social é sentida subjetivamente como comum. ou pelo menos o mais importante deles não emergirá imediatamente.Desenvolvida essa atividade.Nível 3 . atribuem autoridade ao grupo. A noção de pertencimento pode ser temporária ou permanente. ao final do próximo texto. Este pode ser visto como uma camisa de força. para observar. indiferente das diferenças. agregando os novos conhecimentos adquiridos. para que. parando um pouco em cada estação. mas o planejamento neste método parte do problema. e certamente não será apenas um. Inicia-se aqui a primeira tarefa. É preciso que o grupo reflita sobre os vários problemas que afetam o objeto a ser planejado. Para compor a equipe de planejamento. Nosso intuito é elucidar melhor esse conceito. requisita um método. assimilar e só então retornar ao trem até o destino planejado. surge o sentimento de “pertinência”. quando o praticamos como mero procedimento burocrático. Essas características.

jamais único).ReCESA 101 . Este pode ser visto como o divisor de água entre os dois métodos. situa o sujeito que planeja dentro da realidade que vai receber os efeitos do planejamento. planejam e. O PES é uma metodologia recente e exclusiva ao setor público. mais amplo. um ambiente em que a incerteza é uma constante e no qual a ação do governo. como método e teoria de planejamento estratégico público. o processo de planejamento não é um ato isolado. ou seja: é um problema real. foi concebido para servir aos dirigentes políticos. O ator que planeja possui uma visão particular da realidade. o ambiente é outro. verificará que praticamente todos os problemas se interligam e que. competem entre si. ao solucionar alguns deles. Como descrever o problema? Se determinado problema foi eleito como prioridade a ser enfrentada. e não mais fora dela. Seus temas são os problemas públicos e é também aplicável a qualquer órgão cujo centro do jogo não seja exclusivamente o mercado. Por isso. muitas vezes. no governo ou na oposição. não é tão livre e independente como se poderia pensar. Uma descrição precisa e objetiva do problema é o que o associa à realidade. sua descrição não pode ser genérica. queremos aprofundar a compreensão do PES como método. econômico e social”. uma vez inseridos no processo. “o PES. cooperam uns com os outros. significativas diferenças entre o PES e o planejamento estratégico tradicional. Segundo Huertas (1996). Aqui. como no caso do planejamento normativo. Ele influencia o ambiente social e por este é influenciado. ao avaliar a árvore de problemas. portanto. Há.Mas escolher alguns problemas significa abandonar os demais? Não! O grupo. A origem do PES já foi tratada na seção 1 desta unidade. mas o jogo político. mas não tem controle sobre ela porque outros atores também a vêem a seu modo e. e não uma adaptação. e admite a complexidade como variável do processo. O PES considera o planejamento uma ferramenta de governo que opera em sistemas complexos e torna possível conhecer a realidade e escolher como intervir nessa realidade. que se manifesta de determinada maneira. Dessa forma. a realidade que o planejamento pretende alcançar não possui comportamento previsível. em outras. na condição de ator preponderante (porém. muito focado na lógica empresarial e orientado pelos pressupostos do mercado. Como também vimos na seção 1. No PES. não Guia do profissional em treinamento . com tal intensidade e freqüência. outros problemas terão grandes chances de equacionamento.

operacionalizado de forma inadequada. ou seja. A capacidade de governo é sua competência na condução dos processos e “refere-se ao acervo de técnicas. Governabilidade é um termo de uso recorrente nos últimos tempos. Um conceito que permeia o PES em todos os seus momentos. identificando. é necessário que o grupo identifique o conjunto de variáveis que contornam o objeto planejado. mas também possíveis limitações. é o ponto de partida para se colocar em pauta o objeto a ser planejado.Qualificação de gestores públicos em saneamento . O programa de governo pode ser entendido como a proposta formulada inicialmente pelo governo. habilidades e experiências de um ator e sua equipe de governo. a governabilidade do sistema. para conduzir o processo social a objetivos declarados. Portanto. primeiramente. O balanço dessa análise define o nível de governabilidade do grupo em relação ao objeto planejado. quando o governo apresenta uma proposta inicial. capacidades e restrições em relação ao objeto planejado. É justamente este contexto que expressa a complexidade desse processo de planejamento. seu potencial. métodos. a governabilidade do sistema compreende aquelas variáveis que farão parte do processo de planejamento e que. Portanto. na definição clássica do PES. Para se definir governabilidade em um processo de planejamento. que se condicionam mutuamente para o equacionamento do problema em questão: o programa de governo. por sua vez. podem ser divididas em controladas e não-controladas. Este seria composto de três vértices. fundamental para seu entendimento e eficácia. maior sua liberdade de ação e. compreender o PES como método de planejamento: conhecer suas etapas (aqui denominadas momentos). Feito isso. 102 Transversal . destrezas. A eficácia do planejamento estará diretamente ligada à compreensão desse ponto. muitas vezes. quanto mais variáveis decisivas um ator controla. 1993).se submetendo a uma lei rígida. é preciso registrar que qualquer ator que participa do processo de planejamento posiciona-se de acordo com os interesses que representa e segundo os recursos que pode mobilizar. por conseguinte. classificar estas variáveis em controladas (e por qual ator) e não controladas. Vamos. dados a governabilidade do sistema e o conteúdo propositivo do projeto de governo” (Matus. assimilar as estratégias. Contudo. a capacidade do governo e a governabilidade do sistema. mas pouco assimilado e.Nível 3 . leva em consideração seus objetivos. ao longo do percurso. é o chamado Triângulo do Governo. a partir de agora. Ou seja. Também assim se comportam os diversos atores que podem mudar sua forma de intervir ou de interagir sem obedecer aos procedimentos imaginados pela racionalidade de um plano.

E cada ator compreende e explica a realidade de acordo com sua posição social no contexto em que se insere o objeto planejado. Posteriormente. efetivo e direto sobre a causa. a) Momento Explicativo Aqui o pragmatismo do planejamento estratégico empresarial não nos serve. para se ter uma visão de síntese do sistema que os produz. etapa crucial para a eficácia do processo. De acordo com Matus (1996). algum dos jogadores pode agir de modo prático. simultaneamente. Portanto. na percepção do ator que o declara. que constituem os quatro momentos do PES. serão definidos os chamados nós críticos do problema.Segundo Matus (1996). assimilando o percurso proposto pelo PES como método e as estratégias que esse método define como processo. O que não significa falta de pragmatismo! No entanto.ReCESA 103 . Guia do profissional em treinamento . A realidade tem tantas explicações quanto o número de jogadores que participam do jogo social (Belchior. toda explicação é situacional porque é feita a partir da visão particular de um determinado ator social. interpretado e explicado depende de como se situam os diversos atores que participam do processo de planejamento e o influenciam. A maneira como o objeto planejado é lido. a eficácia do PES como processo do planejamento estratégico está condicionada à capacidade de resposta a quatro questões. o planejador deve explicar a realidade a partir da compreensão da inter-relação entre os problemas. ii) é um centro prático de ação. não podemos subjugar a complexidade do objeto planejado sob a orientação de um processo participativo em nome apenas do pragmatismo. O valor dos problemas para cada ator social que participa do processo será geralmente diferenciado. Como cada ator deve explicar. Um elemento é considerado nó crítico se atender a três requisitos: i) tem alto impacto sobre o VDP do problema. Esses sintomas são enumerados como um conjunto de descritores do problema. Nesse momento. Ao descrever cada um desses momentos. descrever como ele compreende o objeto-problema? A descrição de um problema deve expressar os fatos que revelam sua existência e os sintomas que o manifestam. o que explica parte do nome do PES. iii) é um centro oportuno de ação política durante o período do plano. ou seja. estaremos. são realizados o diagnóstico e a análise situacional. do planejamento de resultados. que passa a ser chamado de Vetor de Descrição do Problema (VDP). 1999).

Feita essa síntese. Para organizar os cenários trabalhados em um único painel. Alguns especialistas as chamam de “ameaças” e “oportunidades” que caracterizam cada cenário a ser avaliado. O desenho da situação-objetivo identificará os nós críticos da rede sobre os quais deverá atuar o grupo de planejadores e que se tornarão os pontos de ação futura. com o objetivo de se produzirem as respostas de ação para o contexto diagnosticado. porque temos um projeto de vida.Ao conjunto dos nós críticos se dá o nome de Árvore do Problema.Qualificação de gestores públicos em saneamento . não significa isenção de incertezas e surpresas (Huertas. Em cada cenário devem ser identificadas e consideradas as contingências e surpresas que possam ocorrer durante o processo. um projeto de sociedade. associado à idéia de plano. No entanto. 1996). Esse momento percorrido define o contexto diagnosticado. deverão ser descritas as respectivas operações. Nesse momento. o método sugere construir a chamada Árvore de Apostas. Sem perder a referência do desejo de transformar algo. 104 Transversal . situações em que se imaginam diferentes possibilidades de ação. a partir de condições e premissas variadas. o grupo deve avaliar a viabilidade das situações propostas. O VDP se transforma em Vetor de Resultados (VDR) e irá refletir a proposta do direcionamento dada a cada problema. Nessa árvore. é que devemos avançar. que nada mais são do que o conjunto de conhecimentos adquiridos e que servem de orientação para a ação em cada situação. também se constroem os cenários. Ao conjunto formado pela Árvore do Problema mais os fatores descritores do problema que não são críticos. que dá uma visualização geral do problema. b) Momento Normativo O Momento Normativo trata da formulação do plano propriamente dito. não pode engessar as características de processo. ii) o balanço entre os recursos requeridos para o seu desenvolvimento e os disponíveis. dá-se o nome de Fluxograma Situacional.Nível 3 . baseada em dois aspectos: i) a eficácia das operações para atingir a situação-objetivo. Não podemos perder de vista a idéia de que planejamos porque temos desejo de melhorar as coisas que importam para nós. Este é o momento em que confrontamos analiticamente a situação inicial analisada e a situação à qual queremos chegar (situação-objetivo). Esse caráter normativo.

talvez seja este o momento mais complexo do processo (Belchior. os seguintes aspectos: ∙ definição dos atores envolvidos e montagem da matriz de afinidades e motivações. Já alertamos para o fato de que planejamento e implementação precisam caminhar juntos para a eficácia do processo. ∙ construção da matriz de peso dos atores. 1999:39). este é o momento mais complexo do processo. Guia do profissional em treinamento . econômico e institucional-organizativo” (Belchior. ∙ realização da avaliação estratégica. essa análise deve considerar. porque “aponta para o problema político de analisar e construir a viabilidade do plano”. para dar suporte às decisões dos dirigentes. ∙ Planejamento de conjuntura: mediação entre o plano e as ações relativas às questões que possam surgir no dia-a-dia da implementação do plano. ∙ identificação dos recursos que são críticos para a viabilização do plano. mas também viável do ponto de vista político. Segundo Huertas (1996). ∙ Orçamento por programas: destinação dos recursos necessários previstos nos vários módulos do plano. ∙ Sala de situações: monitoramento intenso dos problemas de maior relevância. descentralizando a execução do plano e transferindo-se as responsabilidades aos respectivos órgãos. Essas ferramentas possibilitariam ao planejador “obter um plano direcional que não seja apenas eficaz para alcançar a situação-objetivo.c) Momento Estratégico Neste momento. Considerando essa dificuldade. pelo menos. Segundo Belchior (1999).ReCESA 105 . ∙ Petição e prestação de contas: estabelecimento dos procedimentos e critérios de avaliação para os recursos e responsabilidades destinados a cada órgão. 1999). Se não houver uma interação entre os aspectos técnicos e a viabilidade política do plano. certamente todo o processo se tornará impraticável. Matus (1993) propõe a divisão do direcionamento estratégico em cinco mecanismos distintos: ∙ Gerência por operações: implementação de uma administração por objetivos. o grupo se dedica a identificar as diversas interações entre os atores e as potencialidades e restrições que reúne. d) Momento Tático-Operacional É o momento em que o plano se converte em ação. Do ponto de vista da administração estratégica.

apresenta em plenária as duas experiências analisadas. entre as experiências relatadas. acrescentando-o à proposta da atividade anterior. o coordenador de cada grupo. Esperamos que a atividade tenha sido proveitosa e que tenha adicionado à sua experiência novas concepções que possam ser úteis à sua prática enquanto gestor. 106 Transversal . o profissional que relatou a experiência escolhida pelo grupo) que poderiam ser correlacionadas a cada um dos quatro momentos do PES (o explicativo. Feita a escolha. na prática. o normativo. A próxima seção trata de uma ferramenta que viabiliza a aplicação do processo de planejamento: o plano municipal de saneamento básico. a que mais se aproxima do método do Planejamento Estratégico Situacional (PES). das experiências relatadas. Atividade A turma deve retomar os grupos de trabalho organizados na atividade inicial desta seção. No relato das experiências foram destacados os aspectos metodológicos. a atividade do grupo consiste em escolher. também definido previamente. A próxima atividade é para que você possa fixar esse conteúdo. um processo de elaboração de um plano para equacionar determinado problema.Qualificação de gestores públicos em saneamento .É fundamental que o grupo assegure a compreensão sistêmica dos quatro momentos (explicativo. o estratégico e o tático-operacional). Lembrem-se de que os participantes do grupo trocaram experiências sobre como conduzir. Ao final.Nível 3 . aquela que mais se distancia do método do PES e justifica essa escolha. estratégico e tático-operacional) e sua relação direta com o resultado do processo de planejamento. estudado nesta seção. o grupo identifica as ações tomadas pelo gestor (no caso. normativo. Agora. Em seguida. o grupo também escolhe.

∙ a recuperação de fundos de vale. na capacidade de suporte dos recursos ambientais. de forma a atribuir o uso dessas áreas para moradia. se bem aplicados. Dessa forma. podem aperfeiçoar a gestão urbana municipal. tem-se mostrado uma estratégia sustentável de intervenção no território para a realidade atual das cidades brasileiras.Planejamento em saneamento no Brasil: a novidade dos planos municipais de saneamento básico Para introduzir o assunto. portanto. ambiental e social do município. visando à renaturalização dos cursos d’água que cortam as cidades. O Plano deve. um instrumento indispensável para: i) identificar a demanda por infra-estrutura e serviços. incluindo mecanismos de subsídios e subvenções. O Estatuto da Cidade prevê instrumentos que. as diretrizes estabelecidas no Plano Diretor Municipal devem constituir a principal referência do plano de saneamento. ii) decidir sobre os investimentos necessários. Vejamos alguns exemplos: ∙ antes de estimular novas pressões em áreas ambientalmente vulneráveis. no mínimo. nas condições de remuneração dos serviços prestados. estar referenciado na realidade territorial (urbana e rural). podemos afirmar que o Plano Municipal de Saneamento Básico é. ampliando os benefícios gerados com os recursos públicos investidos. Um exemplo é o adensamento de áreas com adequada infra-estrutura já instalada e provida de serviços públicos. iv) mobilizar a participação da sociedade nos processos de formulação de políticas públicas e de tomada de decisão sobre as questões relacionadas ao saneamento no município. Guia do profissional em treinamento . é necessário que o Poder público incentive e viabilize a ocupação das áreas que já possuem infra-estrutura de saneamento. considerando estudo de cenários futuros baseados na dinâmica demográfica. iii) analisar as alternativas viáveis. de acordo com a capacidade diferenciada de pagamento da população beneficiada. apoiados em metas e prioridades de atendimento diante dos indicadores epidemiológicos e ambientais.ReCESA 107 . Uma outra estratégia nessa direção é a revitalização dos grandes centros urbanos.

da qualidade dos meios receptores. ao sistema de esgotamento sanitário (redes de coleta. Vimos. Além disso. As enchentes. com conseqüências desastrosas para as populações e para a salubridade ambiental e sanitária nas cidades.Nível 3 . nessa tarefa deverá ser observada a compatibilidade do Plano de Saneamento com o plano de bacia hidrográfica (que pode ser mais de uma) em que o município estiver inserido (parágrafos 2º e 3º do art. como se apregoou por tanto tempo. Aliás.19). inclusive com perdas humanas. estações elevatórias.Uma relação direta entre a forma de uso e de ocupação do solo com a infra-estrutura de saneamento remete diretamente ao que denominamos “manejo das águas pluviais urbanas”. Apesar de essa Lei permitir a elaboração de plano específico para cada serviço (art. como também já vimos na Unidade II. públicos e privados. principalmente para os grupos sociais de baixa renda e. o titular ficará responsável por compatibilizar e consolidar esses planos no Plano Municipal de Saneamento Básico. na Unidade II deste Guia. têm-nos alertado insistentemente para o fato de que a canalização artificial de cursos d’água não assegura o controle sobre as cheias. as inundações ribeirinhas. mais incisivamente sobre os cursos d’água que interferem no espaço e na vida tanto da própria cidade quanto à jusante dela. esse tipo de intervenção física tem resultado em aumento da gravidade dos alagamentos e das inundações. interceptores. podendo ser elaborados com base em estudos fornecidos pelos prestadores de cada serviço” (parágrafo 1º do art. faixas de adutoras. nem mesmo sobre as condições sanitárias. pontos e condições de 108 Transversal . redes de distribuição). definidas no Plano Diretor. os diagnósticos são produzidos para cada serviço específico. associada à prática tão difundida de canalizar rios e córregos. sobre o meio ambiente. Muitas vezes. na maioria das vezes. podem ter influência negativa sobre o padrão de urbanização. estações de tratamento de esgotos – ETEs. reservatórios. em uma espécie de inventário da infra-estrutura existente referente ao sistema de abastecimento de água (mananciais. é certamente um dos mais nefastos impactos da urbanização. são distintos. 19). intensificando ainda mais os processos erosivos do solo.Qualificação de gestores públicos em saneamento .445/2007. 19). pois dependem também dos dados e das informações fornecidas pelos respectivos prestadores. como os Planos de Saneamento são tratados na Lei 11.445/07 estabelece que “os planos de saneamento básico serão editados pelos titulares. Fica claro que as opções de desenvolvimento urbano e econômico de uma região. Os diagnósticos setoriais incluem dados provenientes de monitoramento hidrológico. a Lei 11. Ao contrário. que. também. A impermeabilização do solo como resultante de empreendimentos imobiliários e viários.

Nesses casos. A gestão urbana sustentável sob a perspectiva ambiental e da inclusão social não depende apenas da implantação de infra-estrutura.).ReCESA 109 . na etapa do tratamento. de esgotamento sanitário. lançamentos irregulares de esgotos no sistema de drenagem. estabelecerá as diretrizes para a organização e prestação dos serviços de abastecimento de água. como os aterros sanitários. Estão nesse campo as iniciativas voltadas para a redução de perdas no sistema de abastecimento de água. a exemplo das bacias de detenção e trincheiras de infiltração. o incentivo à minimização da geração e à maximização da reutilização. Outras áreas podem sofrer restrições relativas ao processo de ocupação e uso do solo no sentido de constituir reservas fundiárias para implantação de equipamentos e infra-estrutura para disposição final adequada de resíduos sólidos. Contudo. outros dados importantes podem ser obtidos por meio de estudos de identificação das áreas ambientalmente sensíveis ou ainda de risco de inundação e de risco geotécnico e geológico. há ainda muito que se fazer. No manejo de resíduos sólidos. esclarecendo os benefícios de proteção à saúde pública e ao meio ambiente. da reciclagem e do reaproveitamento é capaz de aliviar a pressão por novas e maiores áreas de destinação final e. No sistema de esgotamento sanitário. situam-se em patamares bastante elevados. no caso brasileiro. etc. interceptores e estações de tratamento. rotas de coleta. a ação governamental deve privilegiar campanhas de informação voltadas para fomentar a adesão dos moradores aos sistemas. Sob essa perspectiva. incluindo a coleta seletiva feita pelos catadores e equipamentos de disposição final). cria oportunidades de inclusão social dos catadores. os conflitos sócio-ambientais no espaço urbano são equacionados por meio de ações governamentais e de uma postura próativa dos moradores. e ao sistema de limpeza urbana (níveis de geração de resíduos. à luz do Plano Diretor Municipal. observa-se um baixo índice de ligação dos domicílios à rede existente. entendemos que o esforço do município deve ser no sentido de elaborar o Plano Municipal de Saneamento Básico que. alternativas de tratamento. de manejo de resíduos sólidos e de manejo de águas pluviais urbanas. em vários municípios. Guia do profissional em treinamento . que. No entanto. tendo na intersetorialidade o principal fio condutor. formas de acondicionamento.lançamento dos efluentes nos corpos receptores. principalmente em termos de implantação de infra-estrutura de redes coletoras. ou de amortecimento e armazenamento de cheias. Muitas vezes. transporte e transbordo dos resíduos.

estaduais. no nível local. correlatos ao saneamento. ∙ os processos de interlocução e de participação devem criar um ambiente que propicie um espaço de aproximação e complementaridade entre o “saber técnico” e o “saber popular”.). avaliação até a revisão. avaliação e de revisão devem estar ancoradas em uma metodologia capaz de promover ações interdisciplinares. aprovação. vejam algumas recomendações importantes: ∙ ao se definirem as formas de interação e de participação dos agentes locais. 110 Transversal . Ao tratarmos do plano como um processo. Sobre isso. desde a formulação. privados e sociais. com repasse de atribuições de acordo com as competências e habilidades de cada agente. A sua concepção. dos planos de bacia. implementação. devem ser pactuadas as formas de participação dos diversos agentes sociais (locais e regionais) e os mecanismos para tomada de decisão. Além do caráter participativo. é indispensável o reconhecimento das instâncias colegiadas existentes e os mecanismos de articulação institucional já instituídos e que podem ser fortalecidos. elaboração e as etapas de implementação. aos mecanismos de interação entre os processos específicos do plano de saneamento e os demais planos que o tangenciam tematicamente (plano diretor. planos regionais. que articulem os diversos órgãos públicos que tangenciam o saneamento e assegurem o direito da população à participação e ao efetivo exercício do controle social durante todo o processo. o Plano Municipal de Saneamento é muito mais do que uma lista de empreendimentos. ambiental e social. estamos nos remetendo às formas de participação dos agentes públicos.Qualificação de gestores públicos em saneamento . possibilitando uma análise mais abrangente da realidade municipal. etc. regional e estadual. a equipe responsável pela elaboração do plano deve buscar construir uma síntese dos demais planos e programas prioritários do Executivo Municipal. ∙ nas diversas etapas do Plano. ∙ estruturar um arranjo institucional para o desenvolvimento do Plano pode ser uma instância colegiada (tipo um fórum ou um conselho ou um grupo de trabalho) de uma dinâmica de trabalho que contemple o envolvimento de todos os agentes com atuação no saneamento. que propicia transformar o plano em ação efetiva.Nível 3 .Além da leitura do tecido urbano. Sendo assim. a visão de plano como processo também requer a incorporação da perspectiva estratégica. de recursos hídricos.

como processo. mas também o nível de adensamento populacional. influenciado e orientado pelos interesses que representa.∙ trabalhar algum mecanismo que assegure a participação de representantes do legislativo municipal em todo o processo. Ajuda as pessoas a definirem os problemas dentro de um determinado contexto. ou seja. além da definição de uma instância de avaliação e tomada de decisão (que pode ser preferencialmente a mesma onde se deu o processo de formulação do Plano). o Plano definido como um dos instrumentos da política de saneamento. portanto. o tipo de uso e ocupação do solo. o Plano. um fundo e outros atributos que garantam perenidade e legitimidade ao processo de planejamento e aprimoramento da gestão. investigar suas causas e conseqüências e a enxergar os recursos existentes e que podem ser potencializados na mobilização de soluções viáveis e adequadas à realidade local. as condições de integridade dos recursos ambientais.ReCESA 111 . Lembramos aqui que uma das principais referências do PES. revisão e atualização do Plano mediante geração de índices setoriais e de indicadores (produção e difusão de dados e informações). estudado na seção anterior. Não podemos perder de vista que todas essas recomendações que dizem respeito ao processo participativo levam a uma situação complexa de planejamento. requer a construção de uma visão de síntese dessas várias leituras para se chegar a um diagnóstico e a uma análise situacional da realidade o mais representativa possível do conjunto dos participantes. ∙ prever mecanismos para avaliação. Significa dizer que cada agente social (do governo ou da população) que participa do processo de formulação do Plano compreende e explica a realidade sobre a qual se quer intervir de acordo com sua posição social e. Contudo. ∙ a sustentabilidade do Plano depende em larga medida da existência ou do fortalecimento de uma institucionalidade que o abrigue. o quadro de saúde pública. segundo indicadores epidemiológicos. Guia do profissional em treinamento . que também deve contar com um conselho. além do cenário institucional e social da comunidade a ser atendida e os benefícios gerados. é a sua característica situacional. O diagnóstico situacional é um instrumento organizativo importante para o ato de planejar. ∙ a tomada de decisão sobre quais investimentos priorizar deve estar referenciada a um conjunto de critérios que associem aspectos não apenas de presença (ou ausência) de infra-estrutura e serviços de saneamento.

Como vimos no PES. não se trata de um exercício de futurologia. bem como o conhecimento sobre os recursos disponíveis ou potencialmente dados. para a melhoria dos indicadores epidemiológicos e a capacidade de remuneração dos serviços que serão oferecidos mediante implementação do Plano. são tão importantes quanto critérios de natureza técnica que sinalizam. Não se trata de uma escolha aleatória.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Quando tratamos a institucionalidade do Plano. 1999). por exemplo. o grupo de planejamento identifica os nós críticos da realidade diagnosticada que se tornarão pontos de partida da ação futura. os objetivos foram priorizados e as alternativas para implementá-los também já foram definidas em função dos recursos disponíveis (recursos no sentido amplo).Nível 3 . critérios de natureza político-institucional. Uma forma de organizar melhor as ações é agrupá-las por programas. como a capacidade do governo e o nível de governabilidade que o grupo detém. em face do perfil do grupo que participa do processo e das oportunidades que agentes externos podem criar. o grupo constrói cenários futuros. agir dentro da dinâmica participativa estabelecida desde a concepção do Plano (Redeh. O programa ajuda a ter uma visão sobre as relações entre os projetos. À dimensão estratégica soma-se a tático-operacional: é quando o plano se converte em ação. alertamos para a importância de o planejamento e a implementação caminharem juntos para a eficácia do processo. sobretudo. Há de se considerar alguns critérios para se fazer a melhor escolha e. Os cenários devem considerar as condições reais para efetuar as mudanças. de selecionar prioridades. Nesta dimensão. que nada mais são que simulação de situações em que se combinam diferentes possibilidades de ação. Na seção 1 desta unidade. Agora é o momento de organizar a implementação do Plano. a dividir as responsabilidades entre os vários agentes envolvidos e os respectivos mecanismos de integração. No entanto. A essa altura. como se fosse uma roleta. 112 Transversal . a definir a destinação dos recursos necessários e os indicadores mais adequados para o monitoramento e a avaliação de cada etapa do Plano. A dimensão estratégica também diz respeito ao ato de fazer escolhas. para dar suporte às decisões dos dirigentes. consideradas as contingências e surpresas que possam ocorrer durante o processo. Para esse exercício. caberia também adotar uma recomendação peculiar do PES: a “sala de situação” como locus de mediação entre o plano e o que de imprevisto pode surgir no dia-a-dia de sua implementação e de monitoramento focalizado nos problemas de maior relevância.Outra característica de referência do PES é sua dimensão estratégica.

ii) pode ser regional com derivação para os planos municipais. quando houver perspectiva concreta de gestão associada dos serviços. oportunidades de atuação conjunta com outros municípios. O quadro apresentado em seguida traz uma hierarquização dos níveis de participação que podem ser conferidos aos processos de formulação de políticas públicas e de planejamento setorial. de uma área de planejamento ou de um distrito censitário ou outra configuração espacial que melhor represente a realidade local estudada.Sobre a territorialidade do Plano. nos quais o plano é o principal instrumento.ReCESA 113 . fazemos três considerações: i) pode ser municipal (quando não houver perspectiva de gestão associada). Devemos ser bastante criteriosos com o conceito de participação e como o operacionalizamos no processo de gestão. Guia do profissional em treinamento . iii) a unidade territorial de análise pode coincidir com os contornos de uma subbacia. mediante formação de consórcios públicos. o que não inviabiliza que o plano municipal seja desenvolvido com o olhar supra-local. mesmo que futuramente. não só para melhor compreensão dos problemas diagnosticados como também para identificar.

Nivel 2 (A comunidade é consultada): para promover o PMS. e a convida a questioná-lo.Nível 3 . Breves notas sobre experiências de planos participativos e integrados de saneamento Vamos nos apoiar em uma publicação da SNSA/MCidades. Nivel 1 (A comunidade recebe informação): a comunidade é informada do PMS e espera-se a sua conformidade.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Nivel 6 (A comunidade controla o Nivel 3 (A comunidade opina): a Administração apresenta o PMS à comunidade. Fonte: Bernardes. que relata algumas experiências de planos municipais de saneamento básico. surgem alguns pontos em comum. Nivel 5 (A comunidade tem poder delegado para elaborar): a Administração apresenta a informação à comunidade junto com um contexto de soluções possíveis. para extrair desse acúmulo algumas recomendações sobre como conduzir o processo de forma participativa e elaborar o plano sob o princípio da integração e da universalidade. Scárdua e Campana (2006) Nivel 4 (Elaboração conjunta): a Administração apresenta à comunidade uma primeira versão do PMS aberta a ser modificada. esperando modificá-lo só no estritamente necessário. já elaborado. convidando-a a tomar decisões que possam ser incorporadas ao PMS. sanitária e ambiental de cada um. 114 Transversal . processo): a Administração procura a comunidade para que esta diagnostique a situação e tome decisões sobre objetivos a alcançar no PMS. São eles: ∙ a decisão política de realizar o Plano Municipal de Saneamento é um pressuposto. indiferentemente do porte dos municípios e da complexidade da realidade urbana.Níveis de participação na formulação do PMS Nível 0 (Nenhuma): a comunidade não participa na elaboração e no acompanhamento do PMS. esperando que o seja em certa medida. todas ocorridas no estado da Bahia. Das experiências relatadas na publicação. essa decisão pode decorrer de uma iniciativa do próprio Governo como de uma resposta deste à pressão da sociedade organizada. a administração busca apoios que facilitem sua aceitação e o cumprimento das formalidades que permitam sua aprovação.

da qual deriva o plano. cultural.ReCESA 115 . dos dirigentes. envolvendo gestores e técnicos de todas as secretarias que têm interface com o saneamento. técnicos e pesquisadores de universidades conveniadas) e de caráter consultivo (formada por conselheiros. principalmente. avalia e propõe a partir do seu contexto social. de aprendizado recíproco e de conquista cidadã. um conselho e um sistema de informações em saneamento para o município. ∙ a atribuição de certo nível de institucionalidade ao processo de formulação do Plano pode se dar mediante a formação de instâncias de caráter executivo (composta por especialistas. entidades sindicais e profissionais. que observa. para a melhoria da gestão e da prestação dos serviços de saneamento. assegurar com maior segurança sua implementação. de caráter multidisciplinar. uma referência de excelência do saber técnico sobre a leitura que se faz da cidade e dos cenários futuros. 2005): o saber dos técnicos. Guia do profissional em treinamento . é um requisito fundamental para a boa condução de todo o processo. ∙ a dinâmica de participação da sociedade e de integração dos diferentes níveis e setores de governo leva ao diálogo dos saberes (Borja e Moraes. ∙ a necessidade de envio do Plano ao Legislativo municipal para sua apreciação e aprovação. tem-se mostrado um elemento facilitador do processo participativo e.∙ a formação de equipe da Prefeitura. de suas vivências e anseios. organizações não governamentais e movimentos populares). como parte integrante de um sistema municipal de saneamento ambiental. destacamos: ∙ a conferência municipal como principal instrumento de participação e de controle social no processo de formulação da Política Municipal de Saneamento Ambiental de Alagoinhas. mediante convênios firmados com universidades. Quanto às especificidades de cada experiência. representantes de outros órgãos públicos afetos ao saneamento em nível regional/estadual. dessa forma. o conhecimento da realidade local sob a ótica da comunidade. Desse encontro surge um processo essencialmente educacional. ∙ a cooperação da academia. que também conta com um fundo. visando.

ii) o Comitê Consultivo avalia as propostas formuladas na 1ª etapa e as encaminha ao Conselho Municipal de Saneamento e ao Poder Legislativo Municipal. com atribuições de estudar. gestão dos resíduos sólidos. bem como minutas de projetos de lei sobre o regime de concessão.Qualificação de gestores públicos em saneamento . iii) o Conselho Municipal e o Legislativo apreciam e tratam da aprovação do Plano. ∙ os Planos Municipais de Saneamento Ambiental de Salvador (capital) e de Barra do Choça (município de cerca de 30 mil habitantes) oportunizaram a proposição e o desenvolvimento de termos de referência para elaboração de projetos de saneamento.SP SEMASA .∙ a metodologia adotada no desenvolvimento do Plano Municipal de Saneamento Ambiental de Vitória da Conquista abrange cinco etapas: i) o Comitê Executivo define os fundamentos do Plano (diretrizes. faremos uma atividade sobre essa correlação. propor diretrizes. Órgão deliberativo e consultivo. Em seguida. Leia atentamente os quadros a seguir e observe. iv) a etapa de institucionalização consiste na elaboração de resoluções ou decretos regulamentadores e de previsões orçamentárias para a implementação do Plano.Conselho Municipal de Gestão e Saneamento Ambiental de Santo André. Somam-se às experiências baianas. conceitos. avaliação de planos correlatos. coleta de esgoto. 116 Transversal .Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André. no caso da cidade de Salvador. deliberar. COMUGESAN . como referência de experiências municipais que constituíram instâncias colegiadas para a gestão integrada dos serviços de saneamento básico. nos exemplos dados. a de Belo Horizonte – MG e a de Santo André – SP. Algumas experiências municipais Santo André .Nível 3 . drenagem urbana. diagnóstico e prognóstico). fiscalizar e acompanhar a implementação da Política Municipal de Gestão e Saneamento Ambiental no município. gestão ambiental e de riscos por meio da defesa civil. Saneamento ambiental integrado: abastecimento de água. v) a última etapa corresponde à efetiva implementação das ações propostas no Plano. o nível de participação na formulação do PMS que pode ser atribuído a cada município.

sempre em parceria com a Funasa. .aprovar e publicar o relatório “Situação de Salubridade Ambiental do Município de Belo Horizonte”. 1. Atividade Com base no quadro apresentado anteriormente sobre os níveis de participação para formulação do PMS. .regular. Atribuições: . Suporte técnico e administrativo: Grupo Gerencial de Saneamento . fiscalizar e deliberar sobre a aplicação dos recursos do Fundo Municipal de Saneamento (FMS). foram desenvolvidas diversas iniciativas de produção de conhecimento especializado e de capacitação com o propósito de disponibilizar informação para o aperfeiçoamento e a qualificação do processo de planejamento e da formulação das políticas de saneamento nas cidades brasileiras. promoveu algumas ações de apoio à formulação de planos municipais de saneamento básico. Além da publicação anteriormente referida. . controlar e avaliar a execução da Política Municipal de Saneamento.ReCESA 117 . fiscalizar.MG COMUSA – Conselho Municipal de Saneamento. outras fontes de consulta são: Guia do profissional em treinamento .Belo Horizonte . a SNSA/MCidades. cada grupo avalia o nível de participação que poderia ser atribuído a cada experiência aqui relatada. Santo André – SP: Onde mais os municípios podem buscar apoio para a elaboração dos planos municipais de saneamento básico? Desde o processo de discussão que precedeu a edição da Lei do Saneamento Básico.apreciar e opinar sobre a composição de tarifas ou taxas incidentes sobre os serviços. No período 2005-2007.aprovar o Plano Municipal de Saneamento e fiscalizar sua implementação. Belo Horizonte – MG: 2.estabelecer diretrizes.GGSAN. .

entre outras. 118 Transversal . Portanto. resultado de um trabalho coordenado pelo Professor Ricardo Bernardes da UnB. dos fóruns de secretários estaduais. O pleno do ConCidades aprovou Resoluções de Recomendação orientadoras para: i) definição dos prazos para a formulação dos planos. Portanto. em parceria com a Comissão de Turismo e Meio Ambiente da Alesc. Outra referência importante é o Conselho Nacional das Cidades. dos movimentos sociais. aqui vai mais uma dica: você. do MCidades e com a Funasa para buscar essas referências pode ser uma medida eficaz. Várias entidades possuem representantes no Conselho. como gestor público que atua em seu município. da Abes. a exemplo das associações de municípios.Nível 3 . ii) organização e realização de campanha nacional de mobilização e sensibilização sobre a importância dos Planos Municipais de Saneamento Básico. evento organizado pela Fecam – Federação Catarinense de Municípios. ∙ a realização de 18 Oficinas de Capacitação pelo País em 2006. a Fecam apresentou à SNSA pedidos de orientação metodológica e de apoio financeiro para capacitação. Citamos aqui algumas delas: ∙ a Carta do Seminário O Município Frente ao Novo Marco Regulatório do Saneamento. transferindo recursos para a constituição de consórcios e a formulação de planos. ∙ a formalização de Convênios pela Funasa.∙ o “Guia para a Elaboração de Planos Municipais de Saneamento. da Assemae. a Secretaria Nacional de Habitação. Outras possibilidades de intercâmbio podem se dar com as diversas iniciativas sob a liderança de entidades especializadas e comprometidas com o aperfeiçoamento dos processos de planejamento da política de saneamento. numa atividade conjunta que envolveu o Programa Nacional de Capacitação das Cidades (PNCC). procure se informar dessas medidas com os representantes do ConCidades em sua região. da Aesbe. Paraná e Rondônia. Fruto desse encontro. com municípios dos estados de São Paulo.Qualificação de gestores públicos em saneamento . iv) constituição de um Grupo de Trabalho para a definição dos conteúdos do Plano Nacional de Saneamento Básico. Santa Catarina. fazer um contato com a SNSA. iii) definição da forma de apoio e de assistência técnica da União aos municípios. a Funasa e a Caixa.

mas se impõe como um requisito mais urgente em quais situações? Além dos prazos previstos na Lei. ∙ Os municípios integrantes do Consórcio Regional de Saneamento do Sul do Piauí – CORESA-PI. em articulação com diversas entidades. Sarandi e Alagoinhas e elaboração de um documento sobre planos com diretrizes e elementos mínimos. Guia do profissional em treinamento . na Resolução do ConCidades. ∙ a criação. a serem regulamentados via decreto. alcançando todos os municípios brasileiros. pela Assemae. O Plano é importante para todos os municípios brasileiros. São eles: ∙ os 1033 municípios cujos contratos de concessão estão vencidos ou a vencer (até o ano de 2010. de um grupo de trabalho com técnicos das cidades de Penápolis. Dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento). diferentes grupos de cidades têm interesse imediato na formulação dos seus planos de saneamento. Geralmente. ∙ os municípios da Bacia do Rio São Francisco.ReCESA 119 . visando à elaboração do Plano Municipal de Saneamento Básico no prazo máximo de dois anos. são municípios que estão em situação de término dos contratos de concessão ou que necessitam atender requerimentos para programas de investimento do Governo Federal.∙ a ação do Consórcio de Saneamento dos Municípios Bacia do Vale dos Sinos (RS). ∙ o esforço de capacitação da Federação dos Municípios do Vale do Itajaí (SC). ∙ os municípios (de até 50 mil habitantes) apoiados pela Funasa nos convênios do Programa de Cooperação Técnica. como o Ministério Público Estadual. que desenvolve os planos municipais de saneamento dos 33 municípios da região. a contar da data de assinatura do contrato (até 2008). devido ao forte investimento nos projetos de revitalização desta bacia e de integração com as bacias do Nordeste setentrional. ∙ um número significativo de municípios com termos de compromisso assinados no Programa Saneamento Para Todos.

considerar a formação de pelo menos três grupos: ∙ o primeiro. propomos uma atividade que pretende consolidar os conceitos explorados. aplicando-os a uma situação prática. para municípios pequenos. enquanto gestor de referência em seu município. haja vista que os investimentos acarretarão grande pressão demográfica com aumento notório de demanda pelos serviços públicos. Portanto. Vamos. os grupos devem ser formados com base no porte do município. se não forem devidamente planejados. Como encerramento desta unidade. então. com população de até 50 mil habitantes. o prazo é ainda uma variável mais determinante!!! Considerando esse contexto de amplos desafios para efetivação da lógica do planejamento com controle social e pautada na integração setorial. assistência técnica e capacitação e definição de diretrizes para a formulação dos Planos Municipais de Saneamento Básico.∙ os 33 municípios do Vale do Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul. certifique-se da situação da sua cidade em relação aos grupos aqui descritos. ∙ áreas de investimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). que. a Rede Nacional de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental – ReCESA deve ser vista como uma importante referência para coordenar um trabalho de apoio. Atividade A turma deve se organizar em grupos.Nível 3 . ∙ o segundo. Aqui. notoriamente nos pólos petroquímicos de Suape e de Itaboraí. Para esses municípios. acarretarão sérios problemas ambientais e sociais. cabe ressaltar a importância e necessidade da atuação articulada e cooperativa. para a promoção de ações de fomento à elaboração e implementação de Planos de Saneamento. para municípios com população entre 50 mil e 500 mil habitantes. diferentemente da atividade realizada na Unidade II sobre a legislação. 120 Transversal . que se localizam praticamente dentro das regiões metropolitanas de Recife e do Rio de Janeiro.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Nesse sentido. envolvendo os diversos órgãos do Governo Federal e entidades representativas do setor de saneamento.

c) decisão sobre o nível de participação que o gestor público quer alcançar nesse processo. d) principais problemas ambientais verificados na região. Organizados os grupos. e) as reclamações mais recorrentes apresentadas pelos moradores sobre os serviços de saneamento.∙ o terceiro. 2. a atividade consiste em: 1. incluindo os de tomada de decisão. contemplando pelo menos os seguintes pontos: ∙ da população: a) identificação dos órgãos colegiados e das organizações sociais existentes no município que têm interface com o saneamento. com população superior a 500 mil habitantes e que integram alguma região metropolitana. ∙ da Prefeitura: e) composição do grupo da Prefeitura responsável pela condução do processo de formulação do Plano. Guia do profissional em treinamento . definir as principais etapas da metodologia a ser adotada para buscar a participação da população na elaboração do Plano. c) características dos sistemas de saneamento existentes (os quatro) e a relação desses sistemas com municípios vizinhos (a montante e a jusante). f) indicação de outros órgãos públicos (de municípios vizinhos ou do Governo Estadual) que devem participar desse processo. para municípios grandes. b) definição sobre a instância colegiada que será adotada como o lugar para discussão do Plano. construir um quadro sucinto com a descrição do conhecimento do problema daquele município no campo do saneamento básico. f) as maiores dificuldades enfrentadas pela Prefeitura para prestar bons serviços à população. identificando minimamente os seguintes aspectos: a) níveis de cobertura para cada serviço.ReCESA 121 . d) os mecanismos de participação e de controle social que serão adotados. b) composição social da população por níveis de renda.

desenvolvimento de programas e projetos sustentáveis. neste capítulo. quando dinâmico e participativo. Esses planos visam estabelecer diretrizes para a organização e prestação dos serviços de saneamento básico. e) identificação das principais metas. b) abrangência temática. necessidade de parcerias. Observação: nesta atividade. que será o ponto de partida para a discussão com a população. contendo indicações gerais sobre: a) territorialidade do Plano. d) indicação das principais fontes de dados e informações a serem consultadas ou geradas (inclui outras leis. etc. Vimos. o planejamento. elaborar uma proposta preliminar da estrutura geral do Plano. etc. o “planejamento estratégico situacional” e os diversos momentos a serem percorridos para a elaboração de um plano: momento explicativo. foi mostrado um instrumento que norteia a implementação das ações planejadas. Esse processo. 122 Transversal .) e respectivas fontes de financiamento. estratégias de implementação do Plano (avaliar governabilidade. permite formulação de políticas públicas.). assunto do nosso próximo conceito-chave. um tema estruturante para a promoção de uma gestão que visa à eficiência para o saneamento.Qualificação de gestores públicos em saneamento .Nível 3 . Na seqüência. Interessa mais explorar como a situação-problema caracterizada no item 1 mobiliza os agentes para participarem da busca de uma solução (item 2) e como se concebe a estrutura desta solução (item 3). momento estratégico e momento tático-operacional. c) definição da unidade de planejamento. formas de descentralização. os Planos Municipais de Saneamento Básico. mais detalhadamente. momento normativo.3. Foi abordado. o importante é que o grupo fique mais atento aos aspectos de forma que aos de conteúdo. Foi apresentado um panorama histórico-conceitual do planejamento que possibilitou conhecer a evolução das principais correntes teóricas desse processo. f) definição dos indicadores de monitoramento e avaliação do Plano. outros programas municipais.

predominam as companhias estaduais de saneamento básico (CESBs). Na prestação dos serviços de água e esgoto. Desse contingente.Perceber como os serviços de saneamento básico estão organizados e prestados no Brasil. 95% da população brasileira. . A prestação dos serviços de saneamento no Brasil é executada majoritariamente por agentes públicos que prestam serviços de abastecimento de água a. Guia do profissional em treinamento . No capítulo anterior. que respondem por cerca de 70% dos municípios brasileiros atendidos. retomaremos os principais pontos apresentados no capítulo sobre o arcabouço legal existente.Reforçar o conhecimento sobre as novas regras legais que determinam as condições de organização e de prestação dos serviços de saneamento básico no Brasil. a partir de pesquisas realizadas desde o ano 2000. vimos que o Plano Municipal é um instrumento que fundamenta e direciona a execução dos serviços de saneamento básico. aproximadamente. Ao longo deste capítulo. as CESBs prestam serviços para: ∙ 78% da população que é atendida por serviços de abastecimento de água. por meio de dados e gráficos.ReCESA 123 . Neste conceito-chave.Analisar os principais gargalos que obstaculizam uma gestão técnica e política qualificada e trocar informações sobre experiências que fazem o setor avançar em metas de qualidade e eficiência. o panorama de como os serviços de saneamento estão organizados e são prestados no Brasil.Organização e prestação dos serviços de saneamento Básico OBJETIVOS: . reconhecendo as especificidades de cada serviço. sobretudo as institucionais. mostraremos peculiaridades e limitações advindas da organização e prestação desses serviços no Brasil. Para consolidar seus conhecimentos sobre a nova estrutura legal que determina as condições de organização e prestação dos serviços de saneamento básico no Brasil. Organização e prestação dos serviços de saneamento no Brasil: quadro em 2008 Esta seção apresentará. realizaremos troca de experiências com o intuito de identificar soluções eficientes e eficazes. . sempre embasadas teoricamente.

2 0. por esfera administrativa (%) Municipal 5.4 30.3 54. Nos demais municípios brasileiros.6 Estadual 68.6 34. 2000.Nível 3 .4 Fonte: IBGE.1 Particular 8. sendo poucos os municípios em que os serviços são prestados por empresas públicas ou sociedades de economia mista locais. assim como por concessionários privados.5 0.8 40.391 422 1.3 4.666 1. segundo as Grandes Regiões – 2000 Brasil/ Grande Região Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Entidades prestadoras de serviço de abastecimento de água.1 13. Municípios abastecidos Fonte: SNIS.0 0.2 43.8 Federal 0.8 42. Quadro institucional abastecimento de água Municípios abastecidos e entidades prestadoras de serviço de abastecimento de água.6 3. por esfera administrativa.4 0.142 439 45.∙ 55% da população que é atendida com serviços de coleta de esgotos por rede pública.722 1. Os quadros e gráficos apresentados em seguida demonstram números mais exatos sobre o quadro institucional dos serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário no País.0 78. 2000 124 Transversal . em apenas 17% dos municípios brasileiros.5 42.3 58.8 75.7 78. predomina a prestação por autarquias ou departamentos municipais.Qualificação de gestores públicos em saneamento .9 4.1 4.

7 0.7 11. Cobertura por rede de abastecimento de água Fonte: IBGE/Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios .9 66. 2001-2003).0 0.1 2.4 22.7 0.4 26. 1995-1999.9 0.2 7. IBGE/Censo Demográfico 2000.3 67.0 10.1 Federal 1989 0.0 2000 1.2 1.1 12.9 22.1 42.1 0.2 2000 14.0 Particular 1989 0.9 17.2 5.3 2000 0.3 24.0 0.Quadro institucional esgotamento sanitário Proporção de municípios com serviço de esgotamento sanitário.9 Esfera administrativa Municipal 1989 35.4 Fonte: IBGE.9 2000 52.9 38.9 92.0 0.8 0.6 28. 2000.2 3.2 9.4 3.8 15.PNAD (1992-1993.5 7.3 0. o rebatimento dessas formas de organização dos serviços na evolução dos indicadores de cobertura para abastecimento de água e esgotamento sanitário no período entre 1991-2003.9 4. Veja.ReCESA 125 .2 0. nos gráficos seguintes.1 91. segundo as Grandes Regiões – 2000 (%) Brasil/ Grande Região Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total 1989 47.1 0.4 Estadual 1989 11.3 37.1 0. por esfera administrativa das entidades.5 0.2 3.7 2000 38.0 39. Guia do profissional em treinamento .2 0.0 1.0 0.3 8.6 1.6 26.6 1.0 0.0 3.

IBGE/Censo Demográfico 2000. Na grande maioria dos municípios brasileiros. 2001-2003). um dos principais problemas é a persistência da disposição final em lixões. insalubres e absolutamente inaceitáveis na recuperação de materiais recicláveis. 1995-1999.Qualificação de gestores públicos em saneamento .107/2005. A baixa capacidade institucional dos gestores. vem-se ampliando a concessão desses serviços a empresas privadas. seja por meio de contratos de terceirização de serviços. seja diretamente por órgãos da sua administração centralizada (secretarias.Nível 3 . associada à falta de eficiência dos prestadores de serviços. Nos últimos anos. foram concebidos principalmente para propiciar a utilização conjunta de aterro sanitário. os serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos são prestados majoritariamente pelos municípios. No campo do manejo dos resíduos sólidos. é recorrente a insustentabilidade dos investimentos realizados para tratamento e disposição final dos resíduos. onde milhares de catadores trabalham em condições desumanas. A realidade em que vivemos nos revela um quadro sistemático 126 Transversal . que se encarregam da limpeza pública e da operação de aterros sanitários. Ao contrário do segmento de água e esgoto em que predomina a participação de prestadores regionais. sendo muito freqüente a perda dos recursos alocados por falta de gestão técnica e política adequada. Alguns consórcios. organizados anteriormente à Lei 11. departamentos da Prefeitura).Cobertura por rede de esgotamento sanitário Fonte: IBGE/Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios .PNAD (1992-1993. São pouquíssimas as autarquias ou empresas públicas municipais organizadas para a prestação dos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. criam vários outros problemas.

por falta de prioridade política por parte da administração pública. falta de recursos para a operação decorrente da inexistência de cobrança explícita pela prestação dos serviços e das dificuldades orçamentárias dos municípios. Contudo. em média.ReCESA 127 . falta de escala na prestação dos serviços. falta de equipamentos. sem a devida sustentação técnica. que não observa os condicionantes geográficos. no mínimo. nestes podemos ousar dizer que o quadro só é menos precário porque envolve a participação direta de associações/cooperativas de catadores ou. com equipamentos desviados de suas funções originais. Conforme trabalho elaborado para a SNSA/MCidades. como subsídio à formulação de um programa nacional de manejo integrado das águas pluviais urbanas. descontinuidade administrativa com a troca dos dirigentes. baseado apenas em princípios higienistas de afastamento rápido das águas. à concepção da intervenção e à inexistência de mecanismos tributários próprios para garantia de recursos para investimentos. de cidadãos responsáveis e vigilantes com a reciclagem. mas. o problema é mais grave e complexo.000 habitantes e estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. O resultado desse desenvolvimento urbano desordenado. sobretudo. 78. contratos mal gerenciados. e. pois ainda requer uma mudança nos paradigmas de planejamento e de intervenção. Os prejuízos relacionados com inundações urbanas. geológicos e hidrológicos.de aterros sanitários ou controlados que. em pouco tempo. Merece destaque também a freqüência com que unidades de compostagem e reciclagem são sucateadas após interrupção da operação. No campo do manejo de águas pluviais urbanas e da drenagem. superiores a U$ 1 bilhão por ano. falta de capacitação de profissionais. inclusive de pessoal treinado e qualificado. No País. as deficiências não estão apenas relacionadas à cobertura dos sistemas. O processo de urbanização brasileiro subordinou o sistema de drenagem aos projetos de parcelamento do solo urbano e à implantação dos sistemas viários. Não é muito diferente a situação das instalações e dos equipamentos que constituem a infra-estrutura física dos programas de reciclagem e de coleta seletiva. são as recorrentes inundações urbanas que afetam a população e o meio ambiente de diversas cidades brasileiras. são transformados em lixões por problemas operacionais. falta de planejamento. Há várias causas apontadas pelos especialistas para explicar esses fenômenos: inexistência de um órgão adequadamente estruturado para a prestação de serviços de manejo de resíduos sólidos nos municípios. projetos inadequados. o índice Guia do profissional em treinamento . legislação insuficiente. são. em todo o território nacional.6% dos municípios que dispõem de algum sistema de drenagem urbana possuem população superior a 300. Nos municípios com até 20 mil habitantes. falta de recursos de toda natureza. sobretudo.

os pequenos municípios. Vários prestadores públicos dos serviços não possuem capacidade para alavancar investimentos. de potabilidade da água fornecida para consumo humano. canais assoreados. que alcancem.). mas também da qualidade dos serviços que são prestados à população. modelos alternativos (cooperativas. A disposição das águas pluviais nas cidades brasileiras é quase sempre tratada de forma setorial.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Isso permitiu a alguns prestadores públicos a contratação de novos financiamentos para investimentos. algumas medidas tomadas desde 2003 possibilitaram destravar. estouradas com esgoto vazando a céu aberto. consórcios. dissociada das outras questões urbanas. entre tantos outros problemas. muitas vezes. empresa de economia mista. Se for considerada a totalidade dos municípios brasileiros. etc. A população atendida convive com problemas de falta de regularidade no abastecimento. no País. devido à sua ineficiência gerencial e operacional. com efeito demonstrativo. etc. administração autárquica. inclusive. O problema do déficit também está diretamente relacionado ao problema da falta de qualidade na prestação dos serviços. bota-foras irregulares. empresa privada. é necessário que a União implemente uma política regular de investimentos e de financiamento para o setor.). empresa pública. Nesse campo. Existe uma significativa lacuna de capacitação técnica. Algumas experiências bem-sucedidas com soluções técnicas que consideram uma intervenção integrada no espaço urbano e que contam com mecanismos próprios de cobrança são conhecidas (a exemplo de Santo André – SP).Nível 3 . Persiste. Por um lado. a restrição ao crédito público mediante ações voltadas para o descontigenciamento dos recursos. por outro lado. lixões clandestinos. Cabe destacar que esses números nada dizem sobre a cobertura e a eficiência dos sistemas implantados. na baixa produtividade e nos insustentáveis índices de perdas nos sistemas que opera.3% dispõem de alguma infra-estrutura de drenagem (PNSB 2000). de certa forma.está abaixo da média nacional. refletida nos elevados custos. uma grande demanda por saneamento básico a atender. apenas 26. do baixo nível de resposta às reclamações dos moradores com relação a reparos e consertos nos sistemas de saneamento (redes entupidas. É preciso incentivar o recurso a experimentos piloto. não somente em relação à ampliação da oferta dos serviços. redes de água com vazamentos. o setor também demanda investimento em melhoria da gestão. 128 Transversal . Mas. O quadro atual da organização dos prestadores de serviços de saneamento no Brasil compreende as seguintes modalidades: serviço municipal vinculado à administração direta. porém a difusão dessas soluções é bastante limitada.

sua administração financeira. difere-se da empresa pública cujo capital é 100% público. mais da metade das ações com direito a voto pertencem ao Estado –. seus custos são onerados por uma estrutura organizacional mais complexa. melhor controle e desempenho operacional por possuir autonomia administrativa e financeira. o que impede que seus orçamentos vinculem a receita tarifária aos serviços (há apenas a vinculação por funções programáticas apenas para aplicação dos recursos). o que dificulta a avaliação sobre os serviços prestados. anterior ao Planasa. nas áreas de telecomunicações e energia. apresenta desvantagens econômicas devido à incidência de encargos e tributos. contábil e fiscal é feita com base na legislação comercial. ∙ Empresa de economia mista: pessoa jurídica de direito privado. não se beneficia de isenções fiscais ou de foro privilegiado. ∙ Empresa pública: este modelo avançou a partir da década de 1960. há probabilidade de melhor base técnica para apropriação de custos e investimentos e adequação da estrutura tarifária. por outro lado.Vamos identificar as principais características de cada uma dessas formas de organização do prestador. sujeita a mudanças no regime jurídico único dos servidores públicos e à burocracia processual decorrente do modelo administrativo. freqüentemente. é uma sociedade anônima e seus funcionários são regidos pela CLT. têm suas ações negociadas em bolsa de valores. ∙ Administração autárquica: modelo mais freqüente de serviço municipal. no caso do saneamento. obrigação legal para submeter os serviços a controle interno.ReCESA 129 . pode ter capital aberto. estando os servidores do órgão subordinados ao regime jurídico único adotado pela administração direta. não existe. Formas organizacionais do prestador ∙ Serviço municipal vinculado à administração direta: participa do caixa único da Prefeitura. permite captar recursos no mercado de capitais e o acesso a recursos internacionais é facilitado. possui maior autonomia de gestão de recursos humanos contratados sob a égide da CLT. limitação também no campo funcional. Guia do profissional em treinamento . alto grau de limitação atribuído à gestão orçamentária e financeira. o que impõe dificuldades ao prestador para atuar com a agilidade administrativa que o serviço de saneamento requer. adota o mesmo sistema orçamentário e contábil da administração direta. por exemplo. até então. as fontes e formas de subsídios aplicados e em que nível se consegue recuperar os custos dos serviços). não há obrigatoriedade imposta para o controle econômico e fiscal. porém é predominante a participação majoritária do Estado – necessariamente. ausência de transparência nas contas (não se conhece.

incluindo a capital. à época do Planasa. Há.Nível 3 .Qualificação de gestores públicos em saneamento . Empresa privada: a participação de empresas privadas na prestação dos serviços de saneamento no Brasil foi incentivada pelo Governo federal durante a gestão do então Presidente Fernando Henrique Cardoso. inspirado na experiência da Central de Associações Comunitárias da Bahia (Central Bahia). faremos uma atividade cujo objetivo é fazê-lo avaliar a forma organizacional mais adequada. Muitos se encontram em estado de renovação da concessão. com mais de 40 pequenas localidades reunidas para prestar os serviços de abastecimento de água. 130 Transversal . como as implantadas na década de 1990. que reúne 36 municípios. política tarifária e acesso à informação.As CESBs são empresas públicas ou empresas de economia mista. o quadro atual indica a participação privada em cerca de 60 municipalidades (pouco mais de 1% do total dos municípios brasileiros). processos iniciados antes da promulgação da Lei 11. oferecendo condições bastante satisfatórias para a sua qualificação política e técnica. Veremos. Na seqüência. se comparado a outros países da América Latina submetidos à mesma condução neoliberal. remetendo municípios e usuários a um plano muito secundário. em gestão associada dos serviços de água e esgoto como alternativa à atuação na Agespisa (a CESB do PI). O arcabouço legal e jurídico que atualmente referencia o setor saneamento no Brasil reposiciona essa relação em outro patamar. nessa região. a seguir. dois exemplos de formas organizacionais que interagem com o setor público.445/2007. Modelos alternativos: englobam cooperativas de saneamento rural. explicitando alguns casos. ainda. Um exemplo é o Sistema Integrado de Saneamento Rural do Ceará (Sisar). no início da década de 1970. Até aqui vimos o quadro brasileiro dos serviços de saneamento segundo a organização e prestação dos serviços. partindo da sua experiência e confrontando-a com as informações apresentadas. a exemplo do Coresa-PI. o que corresponde a menos de 5% da população atendida. a maioria dos municípios brasileiros concedeu os serviços às CESBs. Como vimos na Unidade I deste Guia. Vários contratos estão em fase de encerramento desde o início dos anos 2000. na década de 1990. criada em 1995. O resultado do envolvimento do setor privado foi relativamente baixo. os recentes consórcios públicos. A relação historicamente estabelecida entre a CESB e o município titular dos serviços sempre foi bastante assimétrica em termos de poder decisório sobre investimentos.

visando à gestão e à operação tecnicamente qualificadas em relação a: ∙ análise e avaliação geral das perdas e de suas causas técnicas. para serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. o grupo deve avaliar qual a forma de organização do prestador dos serviços é a mais adequada. entre as modalidades estudadas nesta seção.107/2005). o objetivo foi o de avaliar o atual quadro da prestação dos serviços de saneamento. com participação de empresa privada na coleta e na destinação final. sob a perspectiva do novo arcabouço legal (Leis 11.ReCESA 131 . responsável pelos quatro serviços de saneamento básico (ou. os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. 3º grupo: prestador tipo Autarquia (SAAE). Naquela unidade. para serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. incluindo os de manejo de águas pluviais urbanas). 4º grupo: prestador municipal tipo administração direta (Prefeitura). pelo menos. 2º grupo: prestador público municipal tipo Empresa Pública. operacionais e comerciais. nessa análise. Guia do profissional em treinamento . bem como as medidas de controle a serem tomadas pelo prestador. para os serviços de resíduos sólidos e limpeza urbana. foram formados grupos de trabalho de acordo com algumas características em relação ao tipo do prestador e ao serviço prestado: 1ºgrupo: prestador público tipo CESB. as adaptações e os ajustes que devem ser empreendidos para se obter melhoria do desempenho do prestador.Atividade Lembre-se de que. considerando.445/2007 e 11. na Unidade II deste Guia. Aqui.

no setor. sobretudo em face das inovações no ordenamento legal do saneamento brasileiro. É consenso. simultaneamente.Nível 3 . você tenha encontrado boas opções. através da detecção dos pontos a serem ajustados. para a melhoria na execução dos serviços de saneamento. que dizem respeito a aspectos de sua organização técnica. ∙ investimento em gestão de pessoas. nessa análise crítica. tomados como principais pontos de deficiência do desempenho na área comercial. assim como os pontos que ainda são obstáculos para uma gestão eficiente. a preservação dos aspectos positivos existentes na atual organização do setor e a superação das ineficiências e inadequações de diversas ordens. a necessidade do estabelecimento de um processo de revitalização dos prestadores dos serviços de saneamento.Qualificação de gestores públicos em saneamento . O objetivo é que você utilize elementos dessa análise na prestação e organização dos serviços em seu município. Capacidade de gestão do prestador: alguns avanços e muitos gargalos A necessidade de apoio à estruturação da gestão dos serviços de saneamento vem-se acentuando em razão das dificuldades enfrentadas pelo setor. bem como os baixos níveis de eficiência na prestação dos serviços e a inadequação dos instrumentos de gestão da política pública. particularmente a limitada capacidade de investimento diante do desafio da universalização. Relacionamos aqui algumas medidas relevantes para o aprimoramento da capacidade de gestão do prestador.∙ aperfeiçoamento da gestão comercial no que se refere à situação dos cadastros técnicos e comerciais e da micromedição.quadro de pessoal (O número de trabalhadores é adequado? Qual a relação entre pessoal próprio e terceirizado?) . financeira e administrativa: 132 Transversal . veremos alguns exemplos de avanço na capacidade de gestão do prestador. que contemple. a partir da análise e avaliação dos seguintes pontos: . No próximo texto.quais as necessidades de qualificação? (A instituição possui programa de capacitação continuada? Com que outros agentes se articula para atender às demandas por qualificação?) Esperamos que.

o combate a fraudes Guia do profissional em treinamento . com adequação ao modelo de organização do prestador e desenvolvimento de ações para a gestão de pessoas. atualização. plano de cargos. complementação dos cadastros técnicos e comerciais e. almoxarifado. Por exemplo. ∙ melhoria ou revisão de organograma e de processos. etc. 2004). ∙ fortalecimento dos mecanismos de comunicação e de mobilização social e da relação com os usuários.ReCESA 133 . incluindo programa continuado de capacitação. implementadas sob a orientação de profissionais especializados em sensibilização e motivação. macromedição.∙ desenvolvimento e implantação de tecnologia da informação para integração dos sistemas de gestão das diversas áreas do prestador (serviços e obras. Modificações nos sistemas de gestão devem ser acompanhadas de ações indutoras de mudança comportamental de todas as pessoas que trabalham na instituição. pessoal. controle contábil e financeiro. o redesenho dos processos administrativos e a utilização de ferramentas informatizadas ajudam na desburocratização dos serviços. operacional e comercial). área comercial e operacional. automação e sistemas de controle operacional. sistema de informações e indicadores.). e o estabelecimento de rotinas ágeis e fluxogramas enxutos de tramitação de documentos com a participação dos servidores tem sido um aspecto motivacional de grande importância para a qualificação dos servidores públicos (Costa. O desenvolvimento dos recursos humanos. atendimento ao público. ∙ melhoria da gestão operacional e comercial. a setorização multifuncional dos serviços por metas. salários e carreira. quando couber. Essas ações. os controles internos são poderosos instrumentos de gestão para a correta medição dos serviços prestados. realizada pelo prestador (gerenciamento de perdas. podem elevar o nível de compromisso e de cooperação com o processo mais amplo de desenvolvimento institucional da organização. principalmente aqueles voltados ao contato com o público externo. o atendimento aos cidadãos através da Internet aumenta a satisfação do usuário e favorece a transparência das ações governamentais. Indiferentemente das auditorias do Tribunal de Contas. visando a tornar a instituição mais permeável ao controle social. Além das medidas tomadas pelo prestador.

uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos órgãos públicos é a administração para liquidação da dívida ativa. histograma de consumo relacionado às faixas de renda dos usuários. 2005). operacional e econômica. Mantendo as características locais. A melhoria do cadastro dos usuários e das redes é indispensável e tem forte impacto na arrecadação do órgão. esse esforço transcende 134 Transversal . Muitos municípios já utilizam o geoprocessamento e bancos de dados integrados.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Isso. A sustentabilidade também requer que sejam implantados sistemas de custos e de desgaste pelo uso dos bens patrimoniais (depreciação). incluindo elementos patrimoniais. Para isso. análise de natureza contábil. antes de se partir para o reajustamento ou realinhamento tarifário. De outro lado. análise de custos no atual regime de eficiência técnica. é importante o desenvolvimento de indicadores e patamares de desempenho da prestação dos serviços. Ainda segundo Costa (2005). A avaliação de parâmetros de desempenho será mais efetiva se feita por um órgão não ligado diretamente à área operacional. o que consiste em uma prática equivocada para sustentabilidade do setor. ∙ melhoria do sistema de cobrança mediante realização de estudos de custos (análise da estrutura tarifária. Muitas vezes. Podemos constatar que alguns órgãos públicos de saneamento aplicam tarifas abaixo das suas reais necessidades.Nível 3 . dívidas. a integração do cadastro com cadastros dos outros órgãos da administração pública ajuda a simplificar a vida do contribuinte e a aumentar a eficiência do serviço prestado. ativos e passivos. Em todo esse processo. Programas de automação dos sistemas de saneamento vêm permitindo racionalizar significativamente o consumo de energia elétrica. É necessário recuperar a capacidade de geração interna de recursos para investimentos. além de reduzir as despesas operacionais e o prolongamento da vida útil dos equipamentos. somado à substituição estrategicamente planejada dos equipamentos. etc. o controle sistemático da execução orçamentária permite identificar as variações de custos na produção dos serviços e a tomada imediata de ações para corrigir tais desvios. análise de subsídios e subvenções. leva à otimização dos recursos investidos na área operacional. de tal forma que a substituição desses bens se dê no momento economicamente oportuno. visando ao regime de eficiência operacional e à saúde financeira do órgão prestador (Costa. devem ser realizados estudos socioeconômicos que permitam identificar o justo valor tarifário.).e perdas de faturamento e de arrecadação.

a exemplo de recuperação de áreas degradadas por problemas de inadequação locacional. de energia elétrica. Guia do profissional em treinamento . a padronização de ações judiciais ou seu agrupamento em blocos pode facilitar a tramitação na justiça. operacional dos sistemas de saneamento. podem reduzir o volume e aprimorar a gestão da dívida. ∙ implantação de programas de gestão ambiental e sanitária que visem à integridade do meio ambiente e ao atendimento aos padrões de qualidade da água fornecida para o consumo humano. terceirização da cobrança. incluindo. como auditoria na base de dados. O conceito de regularidade dos sistemas de saneamento inclui aspectos relacionados à conformidade legal do ponto de vista do licenciamento ambiental do empreendimento. quando couber. realização de campanhas de combate ao desperdício (de água. manter a transparência pública. em parte. por exemplo. se adequadamente parametrizados. Para isso. A dívida ativa também advém. desenho de novos modelos. a manutenção de programa permanente de proteção dos mananciais. ∙ operação e manutenção adequadas dos sistemas de saneamento. uma vez que esbarra na dinâmica do Poder judiciário. ao mesmo tempo. A gestão ambiental implementada no âmbito de atuação do prestador inclui.ReCESA 135 . como lixo) ou. ainda. Em alguns casos. parceria com bancos para facilitar o pagamento. de concepção tecnológica ou. mas também as medidas mitigadoras e compensatórias. Tarifas sociais e outros mecanismos de controle da demanda por serviços. da inadimplência de cidadãos que não têm capacidade de pagamento. redesenho dos processos internos. de materiais potencialmente recicláveis que são descartados. ainda. é necessário que o Poder público esteja aparelhado para distinguir adequadamente essas situações e. o que inclui procedimentos regulares. preventivos e corretivos. programas de cobrança amigável e alterações na legislação local. ∙ levantamento da regularidade dos sistemas de saneamento operados pelo prestador junto ao órgão ambiental competente. com identificação de possíveis passivos. de geração desnecessária de resíduos. ∙ otimização das terceirizações existentes.a simples cobrança pelos serviços. além do planejamento e execução de pequenas obras de expansão e melhoria dos sistemas existentes. são alguns dos instrumentos indicados que poderão melhorar a eficiência na gestão da dívida ativa. Outras ações.

a manutenção de canais de interlocução com a comunidade e com seus segmentos organizados. As análises desenvolvidas no âmbito Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). 81. os resultados divulgados em dezembro de 2007 na 12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. entre outros programas. bem como as deficiências existentes e as necessidades de apoio aos prestadores. que dispõe sobre o direito à informação sobre qualidade da água e visa garantir que os consumidores recebam informações sobre a qualidade da água e suas principais características. para resíduos sólidos. sete microrregionais e 559 locais (os serviços municipais).1% e 75. Os dados publicados revelam os seguintes dados para os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.5% do total dos municípios brasileiros). a amostra de prestadores de serviços com dados publicados é constituída por 592 entidades. permitem avaliar as condições com que os serviços de saneamento são prestados no País e o grau de desempenho dos principais prestadores de serviços existentes. Essa amostra corresponde a dados de 4. Assim. distribuídas da seguinte forma: 26 prestadores regionais (as CESBs). no caso dos serviços de água. e 115.Qualificação de gestores públicos em saneamento . 97. vinculado à SNSA/MCidades. adotando. sob a administração do Programa de Modernização do Setor Saneamento (PMSS). de acordo com os padrões e normas estabelecidas na Portaria MS no.7% do total do País). que deve incluir. A gestão sanitária inclui medidas de controle da qualidade da água e emissão de relatórios à autoridade sanitária e aos usuários. assegurando o adequado cumprimento do direito à informação pelo serviço prestado. que completou uma série histórica de 12 anos consecutivos (para água e esgotos) e.Nível 3 .251 municípios sobre os serviços de esgotos (respectivamente. 1469/2000) e do Decreto Presidencial no. os dados da amostra correspondem a serviços prestados a 147.programa de monitoramento ambiental dos ecossistemas existentes na área de entorno dos sistemas de saneamento. ∙ desenvolvimento de programas de mobilização social em saneamento.9 milhões de pessoas. os avanços e a qualidade dos serviços do setor saneamento podem ser detectados.516 municípios sobre os serviços de água e de 1. desde 2002. por exemplo. no caso dos serviços de esgoto (respectivamente. a prática de realização periódica de pesquisa de opinião para aferir satisfação e queixas. Tomemos. referentes à amostra de referência do ano 2006: 136 Transversal .2% e 22. inclusive. Nesse ano. Em termos de população atendida. 5440/2005.3 milhões. com dados de referência 2006. da parte do prestador. 518/2004 (antiga Portaria n°.

Sobre cobertura: Fonte: PMSS . quando comparados aos do ano de 2005. indiretos e de efeito de renda decorrente dos investimentos). o diagnóstico apura um crescimento de 28.0% nos investimentos.7 mil trabalhadores. Guia do profissional em treinamento . incluindo a estimativa de geração de empregos (diretos. ∙ os investimentos realizados distribuíram-se da seguinte forma: Sobre a geração de empregos no setor: ∙ os dados do gráfico a seguir referem-se a todo o conjunto de prestadores dos serviços participantes do SNIS em 2006.12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. Sobre investimentos: ∙ com base na amostra de 2006.ReCESA 137 . perfazendo um total de 419. 2007.

Fonte: PMSS . 2007. uma vez que.Nível 3 .Qualificação de gestores públicos em saneamento . cerca de 45% menor que o índice de prestadores regionais. foi observado um valor médio.Fonte: PMSS . ∙ as elevadas perdas nos sistemas brasileiros continuam preocupantes.8%. Nos prestadores regionais. 2007.12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. mesmo em ambiente em que há espaço para a melhoria e que os 138 Transversal .12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. Sobre perdas de água: ∙ o valor médio de perdas de faturamento para todo o conjunto de prestadores de serviços presentes no SNIS 2006 foi de 39. Sobre a produtividade: ∙ o índice médio da produtividade de pessoal é medido segundo a quantidade de ligação ativa (água + esgotos) por pessoal total (próprios + terceirizados).

Sobre receitas. em relação ao ano de 2005 (39. despesas e tarifas: ∙ os prestadores de serviços participantes do SNIS em 2006 obtiveram receita operacional total (faturamento) de R$ 22. sendo que apenas dois em 26 prestadores regionais apresentaram índices inferiores a 25%.5 bilhões (14.5%.8 ponto percentual no indicador. o que significa aumento nas perdas.7%. houve piora de 0.investimentos em abastecimento de água voltam a crescer.3% maior que em 2005) e despesas totais de R$ 21. os índices foram superiores a 60%.ReCESA 139 .75/m3. o indicador médio de perdas é de 39. a variação foi bastante superior à inflação de 2006. no ano de 2006. o indicador médio de perdas é de 40. ∙ entre os prestadores regionais (CESBs). e 10 apresentaram índices superiores a 50%. com os serviços de água+esgotos (2006). foi de R$ 1. sendo que 233 em 535 prestadores apresentaram índices inferiores a 25% e.5 bilhões (11. Guia do profissional em treinamento .0%). ∙ esses números dão a dimensão da movimentação financeira do setor saneamento brasileiro. ∙ entre os prestadores de abrangência local (os serviços municipais). Fonte: PMSS .14% segundo o IPCA. totalizou R$ 48. 2007.12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos.3% maior que 2005). em ambos os casos.5 bilhões. em 50. somando-se as receitas. que. ∙ a tarifa média nacional. despesas e investimentos. que foi de 3.

essa variação. divulgado em dezembro de 2004. no mesmo período. Fonte: PMSS . tomando por base o SNIS de 2004. para a tarifa de esgotos.Nível 3 . em dezembro de 140 Transversal .∙ a variação da tarifa média de água. anos base 2004 e 2005. Para resíduos sólidos.12ª edição do Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. no período de 2003 a 2006. medida segundo o IPCA.3% e.Qualificação de gestores públicos em saneamento .2%. para uma variação de inflação no mesmo período de 25. respectivamente. Os gráficos apresentados em seguida demonstram a composição média da despesa de exploração das CESBs e de serviços municipais.72%. 2007. ano base 2002. vamos tomar como referência dados produzidos desde a 1ª edição do SNIS Resíduos Sólidos. foi de 52. foi de 53. e os dois últimos diagnósticos. divulgados.

Os números de 2005 contrastam bastante com a realidade que conhecemos. na qual o lixão é ainda a forma preponderante de disposição final dos resíduos. sistematizar informações e análises.5% em lixões. neste caso pelos municípios.ReCESA 141 . com freqüência média de duas ou três vezes por semana. Cabe ainda destacar que. Em relação ao levantamento de instalações para destinação final de resíduos sólidos. Na coleta de resíduos domiciliares (excluídos os públicos). os dados são fornecidos voluntariamente. em 95% dos municípios com mais de 500 mil habitantes e em todos os municípios com mais de 820 mil habitantes. Atualmente. Outro dado que preocupa é que 47% dos lixões não têm qualquer tipo de licença ambiental e 1. Essa decisão de analisar os dados de pelo menos três anos de referência nos parece mais razoável por se tratar de uma série histórica recente (apenas de quatro anos). de acordo com a coleta feita em 36% dos municípios brasileiros.2% em aterros controlados e 6.5% da população urbana.5% dos resíduos foram descartados em aterros sanitários. Os índices aferidos pelo Diagnóstico 2004 demonstram que. 25. em média. em 11%.79 kg por dia.7% tem apenas licença ambiental prévia. Os dados são coletados nas 27 unidades federativas.8 milhões de toneladas coletadas nos 127 municípios que participaram do Diagnóstico de 2005. conforme a PNSB (2000).2006 e em setembro de 2007. Coleta de resíduos sólidos O diagnóstico mais recente. do IBGE.58 kg por dia. cada habitante é responsável por 0. 817 aterros sanitários. referente a um segmento do saneamento que nunca teve a tradição de produzir dados. a proporção é de 0. O diagnóstico de 2004 aponta que a coleta de lixo atendia a 94% da população urbana com freqüência média de recolhimento dos resíduos de duas a três vezes por semana. por habitante. Os resultados revelam que a coleta de resíduos sólidos atende. apresenta informações sobre mais de 71 milhões de habitantes urbanos e cerca de 50 milhões de moradores das metrópoles brasileiras. referente ao ano de 2005. também no SNIS Resíduos Sólidos. no País. 97. o lixo fica a descoberto. o Diagnóstico de 2002 identificou que apenas 22 unidades podem ser consideradas aterros sanitários por atenderem a exigências da legislação ambiental e às normas técnicas. não há impermeabilização do solo e. Da quantidade coletada. Tratamento dos resíduos Das 15. em 49% dos lixões e aterros existentes. existem em funcionamento. os resultados demonstram que 68. Guia do profissional em treinamento .

os catadores se organizam em cooperativas ou associações.23 km por habitante. Desempenho financeiro O Diagnóstico de 2005 demonstra que.8% se dedicam a atividades administrativas e gerenciais. Os dados do Diagnóstico de 2004 mostram que os catadores são os grandes responsáveis por esse trabalho.04 por tonelada.4% dos municípios. Mão-de-obra. feita por catadores. a proporção é de mil habitantes para 1.6%). realizada por catadores. Varrição O Diagnóstico de 2005 aponta que. Naqueles que cobram. Desses.Coleta Seletiva O Diagnóstico de 2005 revela que. excluídos os empregos temporários.Nível 3 . De acordo com a amostra pesquisada no Diagnóstico de 2002.1 km por dia.5% realizam coleta de resíduos domiciliares e públicos. 6. a receita média anual arrecadada com os serviços é de R$ 13.4% por veículos com até cinco anos de uso. Cada empregado varre. 0. além das vias e logradouros públicos. exceto em cidades com população inferior a 30 mil habitantes. e composta em 64. 33. em 56. 1. a limpeza urbana não é cobrada. em média. Desse montante. 59. Caminhões compactadores representam cerca de 44.1 kg por ano.2% realizam serviço de varrição e 27.2% dos municípios brasileiros realizam coleta seletiva.5% da frota. em média. A coleta informal.Qualificação de gestores públicos em saneamento . a maioria dos municípios cobra pelos serviços regulares de limpeza urbana prestados à população.20 por ano. por ano. A triagem de materiais recicláveis permite o aproveitamento de 4.8%. para cada habitante urbano. O custo médio do serviço de coleta terceirizado chega a R$ 52. acontece em 80% dos municípios.84 por habitante. estava presente em 85% dos municípios pesquisados. são varridos. A coleta seletiva informal.9 trabalhadores. A despesa per capita é de cerca de R$ 38. o processo de terceirização na execução desses serviços é expressivo. veículos e pessoal Nos municípios que participaram do Diagnóstico de 2005. 142 Transversal . que é predominantemente privada (78. No universo das coletas do SNIS. em 35.

7% têm licença prévia e 18.634t de papel e papelão.720t de metais. 46. destacamos que.155t de outros tipos de resíduos. não identificados. 46. 1. Mesmo com poucas informações de natureza quantitativa. 11. e 16 por outros agentes. com a Lei 11. 34 são lideradas pelas próprias prefeituras. Das 108 cidades. superiores à arrecadação de recursos financeiros vinculados a esses serviços. As despesas com atividades de limpeza urbana são.No entanto.013t de plásticos diversos. 18. Desse total. Das 77 restantes.120t. Das unidades cadastradas. foram registradas 96 iniciativas diversas de organização da coleta diferenciada de resíduos recicláveis. foram identificadas 80 entidades organizadas. Aproximadamente 15% recebem resíduos de outro município. 21. e 9.6% não fazem recobrimento.758 catadores associados ou cooperados. Unidades de processamento Em mais de 30% das unidades cadastradas pelo Diagnóstico de 2005. a reciclagem tem crescido de forma expressiva. englobando o número total de 4. 20 por empresas privadas. na maioria das cidades. Discorreremos sobre algumas referências de âmbito nacional. aterros sanitários ou lixões). No que se refere aos sistemas de coleta seletiva nos municípios pesquisados pelo Diagnóstico de 2002.438t de vidros e 10. Para concluir esta abordagem baseada no SNIS. na seqüência. sendo 49. 26 por associações ou cooperativas de catadores. Dessas unidades. 31 cobrem inteiramente os gastos com a prestação desses serviços com recursos provenientes de outras fontes. por razões econômicas e/ou de preservação ambiental.445/2007.6% fazem recirculação do chorume. a massa total dos resíduos triados (ou recuperados) foi considerável: 165. e 10.5% não têm impermeabilização de base.4% abrigam moradias de catadores. Nessas cidades. resultados e implementação da política federal. o futuro Sinisa passa a ser de caráter obrigatório e estende sua atuação também para a avaliação dos programas.8% são operadas pelas prefeituras.8% não possuem qualquer tipo de licença ambiental. 63 cobram por esses serviços por meio de taxa inclusa no boleto do IPTU. especialmente aquelas de menor porte. 51. foi constatado que uma parcela significativa de cidades não realiza a cobrança de forma direta. 40. Esses números indicam que.ReCESA 143 . Guia do profissional em treinamento . aspecto que também alerta para a precariedade das estruturas de planejamento e gestão da limpeza urbana no país.5% já possuem licença de operação. o destino final dos resíduos é feito em solo (aterros controlados. Somam 44 as iniciativas de organização dos catadores atuantes em 99 dos municípios pesquisados.

planejamento. participação e controle social. controle e redução de perdas reais e aparentes. cultura. que prevê a possibilidade de o serviço ser 144 Transversal . que atua no sentido de erradicar o trabalho infantil no lixo. além de diagnósticos e análises técnicas. No campo do manejo integrado das águas pluviais urbanas. economia. gestão ambiental. gestão do uso da energia elétrica. a articulação de diversas áreas: engenharia. O Programa denominado Com+Água. vem ganhando espaço no setor. podemos dizer que a expectativa reside na implementação da Lei 11. Mesmo com a mobilização de centenas de técnicos em todo o País.A melhoria da prestação dos serviços requer. decorreu da criação do Fórum Nacional Lixo & Cidadania.Nível 3 . jurídica.445/07. Essa articulação possibilita ao Poder público e à sociedade uma atuação de forma multidisciplinar e integrada. desenvolvimento institucional e organizacional. no campo dos resíduos sólidos. a inclusão educacional das crianças e dos adolescentes e a erradicação dos lixões. Um dos esforços mais consistentes nos últimos anos. Para o alcance desse objetivo. no País. O programa tem caráter demonstrativo e promove a implantação de um comitê gestor que tem por objetivo efetivar a gestão e controle das ações a partir do balanço hídrico e ações de mobilização social no âmbito de cada uma das empresas ou autarquias parceiras. entre outras. sistema cadastral técnico e modelagem hidráulica. vai-se consolidando. principalmente. No campo do abastecimento de água. comunicação e tecnologia da informação. possibilitando uma operação profissional qualificada para a prestação dos serviços. logo ficou evidente a necessidade de se promover concomitantemente a inclusão social e econômica dos catadores. planejamento e controle operacional. mais recentemente. entre os técnicos do Governo Federal e de outras instituições que atuam na área de resíduos sólidos. Por isso. foram incorporadas ao programa ações de recuperação ambiental das áreas degradadas pelos lixões. educação. Algumas tentativas estão sendo feitas nessa direção. articulados em vinte e três fóruns estaduais e algumas dezenas de fóruns municipais. às iniciativas de combate às perdas de água e ao uso racional da energia elétrica.Qualificação de gestores públicos em saneamento . regulação. comunicação. fornecimento de equipamentos para macromedição e automação. por meio da regionalização da aplicação dos recursos. a história de perda dos investimentos em resíduos sólidos não foi superada e continua a ser a tônica no setor. finanças. assistência técnica. O apoio se dá mediante atividades de capacitação. a convicção de que é necessário ganhar escala na gestão dos serviços. os avanços obtidos no campo da gestão técnica qualificada dizem respeito. empreendido pelo PMSS.

Eis aí um desafio para a engenharia sanitária brasileira.remunerado por tributo. Avaliemos. vamos ler o que se segue. Essa cobrança poderá ser lançada com base no índice de impermeabilização do solo urbano. Atividade Caso se confirme e se mostre relevante a relação entre melhoria do regime de eficiência do prestador e condições de prestação dos serviços (escala e escopo). Guia do profissional em treinamento . com a próxima atividade. inclusive por taxa. Partiremos para uma retomada do conteúdo sobre leis. a partir da análise do cenário realizado na atividade anterior. o grupo deverá preparar uma proposta geral de revisão do modelo de organização do prestador no contexto da gestão associada dos serviços. considerando-se a existência no imóvel de dispositivo de amortecimento e retenção.ReCESA 145 . Para que possamos melhor compreender as novas regras legais. Marcos Montenegro. do Eng. em que medida a melhoria do regime de eficiência do prestador tem relação com as condições de prestação dos serviços em termos de escala e escopo. com enfoque na prestação e organização dos serviços de saneamento básico no Brasil. Prestação dos serviços de saneamento no Brasil: as novas regras Tudo o que já tratamos neste Guia pode ser representado esquematicamente no quadro a seguir.

Qualificação de gestores públicos em saneamento . atribuindo a responsabilidade aos órgãos de sua administração indireta. neste caso. O plano municipal de saneamento básico.Nível 3 . o titular deve avaliar as condições para que ele próprio possa prestar os serviços diretamente.107) Indelegável Das novas regras.666. analisar as condições de delegação da prestação dos serviços por meio de contrato de concessão e. 11. mediante realização de estudos e amplo debate com a sociedade. mediante formação de consórcio público.079. Um cenário tão importante quanto esse é o que analisa as possibilidades da gestão associada. ou por convênio de cooperação. prioritariamente. indicará o potencial desse tipo de organização. é obrigatória a realização prévia de audiência e consultas públicas sobre o edital de licitação e sobre a minuta do contrato de concessão. prestação e controle social Serviços públicos de saneamento básico Gestão Abastecimento de água Esgotamento sanitário Manejo de resíduos sólidos Manejo das águas pluviais Planejamento Regulação Fiscalização Prestação Controle social Indelegável Delegável a órgão ou ente público Delegável a órgão ou ente público Direta (Lei 8. Avaliados esses cenários e não comprovada a sua viabilidade. o titular deve. fiscalização. Sem se esquecer que. A tão propalada distinção das funções de regulação e de prestação dos serviços diz respeito especificamente ao fato de que “quem regula” não é “quem presta os serviços”. pedra de toque da Lei 11. Antes de se pensar na delegação.107/2005. precisamos compreender que regulação e prestação dos serviços de saneamento são atividades necessariamente vinculadas. Como primeiro cenário. regulação. e sempre através de um contrato de programa. necessariamente precedido de uma licitação. Isso quer dizer que os serviços prestados à população devem ser serviços planejados e regulados. 11. o titular planeja e organiza os serviços. baseado no federalismo cooperativo.987.Gestão dos serviços públicos de saneamento básico: planejamento. em estreita articulação com os órgãos colegiados afetos ao saneamento e com a sociedade em geral. seja no âmbito da sua administração direta ou de forma descentralizada. no sentido de auferir ganhos de escala e escopo. 146 Transversal . se desenvolvido sob a perspectiva da integração e da dimensão regional. nesse caso. no caso de terceirização) ou delegada (Leis 8.

de acordo com a Lei 11. autorizada por consórcio público ou convênio de cooperação entre entes federados. Atendido esse preceito. obrigatoriamente. ii) mediante delegação a órgão ou entidade de outro ente da Federação. e outra. regulação e fiscalização dos serviços. bem como as penalidades a que estarão sujeitos. a regulação pode ser delegada. por meio de gestão associada de serviços públicos. uma observação inicial a se fazer é que cada um dos serviços pode possuir regulação própria. No entanto. As normas de regulação dos serviços são editadas por legislação do titular e devem contemplar minimamente os aspectos que se referem a: ∙ política tarifária. ∙ controle social sobre todo o processo de formulação da política de saneamento até a prestação dos serviços e sobre como devem atuar as entidades de regulação e de fiscalização. b) procedimentos e critérios para atuação das entidades de regulação e de fiscalização.No entanto. a regulação tem que ser exercida por órgão público. ∙ participação dos usuários. a função de regulação é indissociável e indispensável e deve obedecer às normas regulatórias determinadas na Lei 11. para os serviços de manejo de resíduos sólidos e limpeza urbana. Via de regra. Guia do profissional em treinamento .ReCESA 147 . Diferentemente do planejamento. em qualquer arranjo institucional em que se defina a modalidade da prestação dos serviços de saneamento básico. Como estamos tratando dos serviços de saneamento básico. inclusive consórcio público do qual participe. diretamente por órgão ou entidade de sua administração direta ou indireta. podemos pensar em ter uma entidade reguladora para os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. por exemplo.445/2007. a regulação pode ser exercida: i) pelo próprio titular. O titular poderá editar as normas sobre: a) direitos e obrigações dos usuários e prestadores. c) mecanismos de controle social nas atividades de planejamento.445/2007.

∙ a política de subsídios. em regime de eficiência. inclusive racionamento. m) procedimento para a aplicação de penalidades pelo descumprimento de normas. d) as metas progressivas de expansão e de qualidade dos serviços e os respectivos prazos. c) requisitos operacionais e de manutenção dos sistemas. Cabe ressaltar que. a entidade de regulação deverá instituir regras e critérios de estruturação de sistema financeiro e contábil e do respectivo plano de contas. i) plano de contas e mecanismos de informação. faturamento e cobrança de serviços. As chamadas normas administrativas de regulação. estrutura e níveis tarifários. reajuste e revisão. ∙ a sistemática de reajustes e de revisões de taxas. l) medidas de contingências e de emergências. f) medição. econômica e social da prestação dos serviços. No entanto. h) avaliação da eficiência e eficácia dos serviços prestados.Qualificação de gestores públicos em saneamento . e) regime. g) monitoramento dos custos. auditoria e certificação. b) prazo para os prestadores de serviços comunicarem aos usuários as providências adotadas diante de queixas ou de reclamações relativas aos serviços. os seguintes aspectos: a) padrões e indicadores de qualidade da prestação dos serviços. bem como os procedimentos e prazos de sua fixação. que se referem às dimensões técnica.Nível 3 .d) condições de sustentabilidade e equilíbrio econômico-financeiro da prestação dos serviços. tarifas e outros preços públicos. 148 Transversal . os titulares poderão adotar os mesmos critérios econômicos. sociais e técnicos da regulação em toda a área de abrangência do consórcio. incluindo: ∙ a política de remuneração e o respectivo sistema de cobrança e a composição de taxas. j) subsídios tarifários e não tarifários. em caso de gestão associada. de modo a garantir que a apropriação e a distribuição de custos e de remuneração dos serviços permitam a individualização por município integrante do consórcio e por tipo de serviço atendido no âmbito da gestão associada. tarifas e outros preços públicos. são editadas mediante regulamentos emitidos pela entidade reguladora e devem abranger. k) padrões de atendimento ao público e mecanismos de participação e informação. minimamente.

particularmente os segmentos sociais de baixa renda. que poderão ser estabelecidos para cada um dos serviços ou para ambos conjuntamente. preferencialmente. independentemente da existência de interesse direto. bem como aos direitos e deveres dos usuários e prestadores. VII . V . Para abordar os aspectos sobre a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços públicos de saneamento básico. compatíveis com os níveis exigidos de qualidade.geração dos recursos necessários para realização dos investimentos.prioridade para atendimento das funções essenciais relacionadas à saúde pública. Do Capítulo VI da Lei 11.remuneração adequada do capital investido pelos prestadores dos serviços. a publicidade deverá efetivar-se. II .inibição do consumo supérfluo e do desperdício de recursos. em conformidade com o regime de prestação do serviço ou de suas atividades. Ainda segundo a Lei. sublinhamos os aspectos que nos parecem mais relevantes para os objetivos desta oficina. pois bem sabemos o quanto o acesso à Internet exclui grande parte da população brasileira. em conformidade com o regime de prestação do serviço ou de suas atividades.ReCESA 149 .de manejo de águas pluviais urbanas: na forma de tributos.recuperação dos custos incorridos na prestação do serviço. Guia do profissional em treinamento .de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos urbanos: taxas ou tarifas e outros preços públicos. VI . decisões e instrumentos equivalentes que se refiram à regulação ou à fiscalização dos serviços.estímulo ao uso de tecnologias modernas e eficientes. vamos nos apoiar no texto legal. a eles podendo ter acesso qualquer representante do povo. No entanto. quase sempre os desprovidos dos serviços públicos ou os que os recebem de forma precária. Sobre a forma de cobrança para remuneração por tipo de serviço Art.ampliação do acesso dos cidadãos e localidades de baixa renda aos serviços. inclusive taxas. 29.Aliás. III . ao tratarmos da transparência. em regime de eficiência. estudos. não podemos deixar de sublinhar que a Lei assegura ampla publicidade aos relatórios. continuidade e segurança na prestação dos serviços. certamente não poderá ficar restrita a esse meio de divulgação. taxas e outros preços públicos I . I . Sobre as diretrizes para instituir tarifas. por meio de sítio mantido na Internet. III . IV . objetivando o cumprimento das metas e objetivos do serviço. II .445/07.de abastecimento de água e esgotamento sanitário: preferencialmente na forma de tarifas e outros preços públicos.

II . ou indiretos.Nível 3 .Qualificação de gestores públicos em saneamento . distribuídas por faixas ou quantidades crescentes de utilização ou de consumo.ciclos significativos de aumento da demanda dos serviços. Sobre a estrutura de remuneração e cobrança dos serviços (estrutura tarifária) Art.tarifários. e VI . II . inclusive por meio de subvenções. V . em períodos distintos. 31. Sobre os subsídios Art. III . Sobre a estrutura de taxas ou tarifas para resíduos sólidos urbanos Art.diretos. como a preservação da saúde pública.capacidade de pagamento dos consumidores. I .o peso ou o volume médio coletado por habitante ou por domicílio. visando à garantia de objetivos sociais. Os subsídios necessários ao atendimento de usuários e localidades de baixa renda serão. quando destinados ao prestador dos serviços. II . quando integrarem a estrutura tarifária. 35.as características dos lotes urbanos e as áreas que podem ser neles edificadas... nas hipóteses de gestão associada e de prestação regional. dependendo das características dos beneficiários e da origem dos recursos: I .VIII . o adequado atendimento dos usuários de menor renda e a proteção do meio ambiente.padrões de uso ou de qualidade requeridos.internos a cada titular ou entre localidades. III . III .incentivo à eficiência dos prestadores dos serviços.quantidade mínima de consumo ou de utilização do serviço. IV .categorias de usuários. quando destinados a usuários determinados.o nível de renda da população da área atendida. 150 Transversal . ou fiscais. § 2º Poderão ser adotados subsídios tarifários e não tarifários para os usuários e localidades que não tenham capacidade de pagamento ou escala econômica suficiente para cobrir o custo integral dos serviços. (.custo mínimo necessário para disponibilidade do serviço em quantidade e qualidade adequadas. 30. quando decorrerem da alocação de recursos orçamentários.) fatores a serem considerados: I .

ReCESA 151 . Guia do profissional em treinamento .. fora do controle do prestador dos serviços. ouvidos os titulares. II . Sobre os reajustes e revisões tarifárias Art. que alterem o seu equilíbrio econômico-financeiro. objetivando a distribuição dos ganhos de produtividade com os usuários e a reavaliação das condições de mercado. Art. os percentuais de impermeabilização e a existência de dispositivos de amortecimento ou de retenção de água de chuva.Sobre a estrutura de cobrança para drenagem e manejo de águas pluviais urbanas Art. 39.38 § 1º As revisões tarifárias terão suas pautas definidas pelas respectivas entidades reguladoras.. (.extraordinárias. 37.. Sobre o controle social sob os reajustes e as revisões tarifárias Art.) nas revisões tarifárias deve-se considerar a reavaliação das condições da prestação dos serviços e das tarifas praticadas e poderão ser: I . os usuários e os prestadores dos serviços. de acordo com as normas legais. 38. em cada lote urbano... regulamentares e contratuais..) devendo os reajustes e as revisões serem tornados públicos com antecedência mínima de 30 (trinta) dias com relação à sua aplicação.o nível de renda da população da área atendida.36 (.as características dos lotes urbanos e as áreas que podem ser neles edificadas.) no reajuste deve-se observar: o intervalo mínimo de 12 (doze) meses. (.) considerar. II . Art. quando se verificar a ocorrência de fatos não previstos no contrato.periódicas.. e também: I .. (.

observada a legislação pertinente às sociedades por ações.Situações previstas em lei para interrupção dos serviços Art. quando for o caso. III . tarifas sociais. Os serviços poderão ser interrompidos pelo prestador nas seguintes hipóteses: I . Em complementação ao trabalho em grupo realizado nas outras seções desta unidade. Os valores investidos em bens reversíveis pelos prestadores constituirão créditos perante o titular. os valores amortizados. A Lei também define as condições de aviso aos usuários nos casos de interrupção e suspensão dos serviços. 152 Transversal . o grupo deve tomar como pano de fundo as necessidades de universalização do acesso aos serviços e de que forma os mecanismos de subsídios. destinados exclusivamente a investimentos nos sistemas de saneamento. Atividade Para esta reflexão.inadimplemento do usuário do serviço de abastecimento de água. controle sobre a inadimplência e transparência ao usuário podem contribuir nessa direção. por parte do usuário. tais como os decorrentes de exigência legal aplicável à implantação de empreendimentos imobiliários e os provenientes de subvenções ou transferências fiscais voluntárias.negativa do usuário em permitir a instalação de dispositivo de leitura de água consumida. Sobre a geração de crédito para o prestador perante o titular Art.Qualificação de gestores públicos em saneamento . medidor ou outra instalação do prestador.manipulação indevida de qualquer tubulação. a serem recuperados mediante a exploração dos serviços. a depreciação e os respectivos saldos serão anualmente auditados e certificados pela entidade reguladora. objeto do respectivo contrato. modificações ou melhorias de qualquer natureza nos sistemas. do pagamento das tarifas. § 2º Os investimentos realizados.necessidade de efetuar reparos. nos termos das normas regulamentares e contratuais e. II . e V .Nível 3 . após ter sido previamente notificado a respeito. após ter sido formalmente notificado. 40. § 3º Os créditos decorrentes de investimentos devidamente certificados poderão constituir garantia de empréstimos aos delegatários. 42. § 1º Não gerarão crédito perante o titular os investimentos feitos sem ônus para o prestador. vamos aqui retomar os mesmos grupos para refletir sobre a sustentabilidade econômico-financeira da prestação dos serviços. IV .situações de emergência que atinjam a segurança de pessoas e bens.

O próximo capítulo trará um tema promotor da sustentabilidade para o saneamento básico. o norte foi a temática de prestação e organização dos serviços de saneamento básico no Brasil. pois o controle social evidencia a participação da comunidade na gestão pública. apresentando fragmentos da legislação pertinente. Inicialmente. agregando novas perspectivas e soluções para as questões do seu dia-a-dia profissional.Para isso. Reforçamos a nossa compreensão sobre as novas regras legais. Esperamos que as atividades realizadas tenham propiciado uma participação efetiva de todos vocês.ReCESA 153 . Guia do profissional em treinamento . fizemos interpretação dos dados de pesquisas referentes ao conceito-chave que nos ajudou a visualizar algumas opções de transformação quando comparamos as limitações existentes no setor com experiências bem-sucedidas e também com o seu conhecimento prático. que. considerando-se categoria de usuário e bloco de consumo e ainda faixas de renda dos usuários? g) Como cobrar pelos serviços de esgoto? h) Como cobrar pelos serviços de manejo de resíduos sólidos? i) Como cobrar pelos serviços de manejo de águas pluviais urbanas? Neste capítulo. é a única forma de promover o compartilhamento justo de responsabilidades entre a sociedade e o Estado. Sabemos que a participação é fundamental para uma forma de governar que privilegia o exercício da cidadania. o grupo deve refletir sobre as seguintes questões: a) Qual o per fil do déficit de atendimento dos serviços? Que aspectos devemos considerar prioritariamente na qualificação desse per fil? b) Quais as possibilidades de gerar recursos mediante adoção de incentivos voltados para a inibição do consumo supérfluo e do desperdício? c) Em que proporção média os custos devem ser recuperados por meio de tarifas? d) Como distribuir os custos entre os diversos grupos de usuários? e) Como subsidiar os pobres? Quais os tipos de subsídios e/ou subvenções mais adequados? f) Como lidar com inadimplências? Como reduzir os índices. por sua vez.

.Qualificação de gestores públicos em saneamento .OBJETIVOS: . sem dúvida. sobre uma organização. transformando as relações sociais. execução de políticas e programas públicos. São muitas as definições para o conceito de controle social. Podemos. Nesta unidade.Apresentar e refletir sobre alguns aspectos teórico-conceituais para tornar efetivo o exercício do controle social em saneamento. Vamos trazer uma dessas para a nossa reflexão. inclusive pelos instrumentos legais brasileiros. traremos alguns conceitos sobre o tópico com a finalidade de ressaltar as possibilidades oferecidas. práticas e atitudes. Traz. o potencial de promover mudanças de comportamento.Nível 3 . entender que o controle social pode se dar sobre uma pessoa. que é. vamos refletir um pouco mais profundamente sobre esses conceitos e nos determos nos instrumentos já conquistados para o exercício da cidadania. sobre o Estado. o assunto que perpassa e integra todos os demais temas abordados. sobre uma empresa. Para entendermos melhor esse mecanismo de participação. Ao agir especificamente 154 Transversal . que tornam o controle social efetivamente possível. então. Controle social: noção de direito e instrumentos legais Se a democracia é fundamental para gerar condições de desenvolvimento humano. portanto. O termo controle social designa os processos de influência do coletivo sobre o individual. do público sobre o privado. Controle social Alcançamos o sexto conceito-chave – controle social – proposto nesta oficina. O controle social evidencia a participação da sociedade nos processos que envolvem a gestão. reparador das desigualdades sociais e regionais.Perceber o potencial existente no País em termos de instrumentos legais de participação popular e de controle social. mediante o fortalecimento da participação popular e do controle social. é preciso atuar no sentido da ampliação da esfera pública.

O texto constitucional. funções e ações do Estado. do interesse público? Cabe lembrar que o sentido do termo “público” tem sido bastante banalizado para falar daquilo que é estatal. nos apoiarmos em Zveibil (2003). Este é justamente um dos espaços de expressão do que denominamos “esfera pública”. onde não há homogeneidade de idéias. como nos ensina Castoriadis (1987). com o intuito de trabalhar bem o conceito. conflitantes entre si. por exemplo. Guia do profissional em treinamento . também. estabelece ações de saúde como de “relevância pública”. Não se trata de um espaço neutro. prevaleça a decisão a favor do coletivo. Mas como assegurar que. que estamos falando do Estado como um ator que atua numa arena política onde se manifestam os mais diversos agentes sociais que representam interesses e necessidades. Aqui. de vocalização de demandas. visando a participação cidadã. Vale aqui. muitas vezes. mas sim uma arena pública de debate. Sob essa perspectiva. de disputa. desenvolvendo um conceito de ‘público’ que privilegia funções de análise e crítica para gerar o controle social. ou seja. representa a expressão dos mecanismos de influência e de orientação da sociedade sobre o Estado. Esse modelo amplia o âmbito da atividade política. para designar as estruturas. Com que noção de esfera pública estamos trabalhando? Já esclarecemos. de manifestação de preferências e vontade política. o controle social se dá mediante mecanismos pelos quais os governos podem ser induzidos ou constrangidos a trabalhar pelo interesse público. mas de explicitação dos conflitos. fertilizando-a com os discursos comunicativos”. que traz uma importante apropriação da definição de Habermas (1984) para esfera pública.ReCESA 155 . Sob a ótica dos conselhos populares. os conselhos são instâncias públicas de formação de opinião coletiva.sobre a instituição governamental. de reivindicação de necessidades. muito mais que meros instrumentos do governo ou de parte da sociedade. e também de negociação e pactuação. apesar de os conselhos integrarem a estrutura reorganizada e democratizada do Estado. do bem comum. público e estatal não são a mesma coisa. “Público” deixou de significar o que originalmente estava associado à realização efetiva do interesse geral. para designar o seu caráter público e essencial e a responsabilidade estatal sobre esse direito. dessas rodadas de embates e negociação. “esfera pública como uma zona para discurso ou debate. na Unidade II deste Guia.

socialmente em desvantagem em relação ao direito à cidade. o governo local pode e deve planejar suas ações atendendo ao que foi aprovado na conferência. É certo e desejado que. Com o conhecimento da realidade do saneamento em seu município. a mídia. Mas há uma boa novidade na cena pública que muito tem feito avançar o saneamento em direção à democratização do processo decisório do setor e das relações sociais estabelecidas nesse campo. devem criar mecanismos internos. com salubridade e qualidade de vida. então. representa o firme propósito de alterar a prática tradicional de formular políticas públicas e de melhorar a qualidade dos serviços que presta à população. que relatam algumas experiências de saneamento no estado da Bahia. estadual e municipal) tem-se mostrado um instrumento efetivo de democratização do processo de formulação de políticas públicas sociais. do ponto de vista da repartição do poder e também das responsabilidades. de ações afirmativas. que reparem a histórica exclusão social e política dos segmentos que não têm voz e vez nos canais tradicionais do sistema de representação (o legislativo. a conferência ajuda a construir uma relação mais equilibrada entre sociedade e Poder público. Até aqui exploramos o espaço dos conselhos. por exemplo. sejam empreendidos esforços e investimentos diferenciados de compensação. mas independentes do governo. por si mesmos. meio ambiente. É. Nesse sentido. como parte do Estado. Como espaço institucional de representação de interesses. principalmente as municipais de saneamento. São as conferências. os meios privados. 156 Transversal . Para falar um pouco sobre conferências de saneamento. É claro que os conselhos não governam. Além de abrir mais espaço para a população reivindicar os seus direitos. a idéia de universalidade busca incorporar a diversidade como um valor. vamos recorrer a Borja e Moraes (2005). concentradas e focalizadas nos grupos vulneráveis. os conselhos chancelam o “status” público aos grupos ali representados. cidades. que os conselhos podem renovar seu papel com base nos marcos da recente redemocratização brasileira. Como tal. mas também as de saúde.Qualificação de gestores públicos em saneamento . Quando o governo assume o compromisso de realizar uma conferência e de respeitar as deliberações dela decorrentes. de reparação histórica. A realização de conferências em todos os níveis de governo (federal.Os conselhos atuam na tematização e formulação da agenda pública. etc. em sua composição. mas estabelecem os parâmetros do interesse público para orientar a ação governamental.Nível 3 . em situações marcadas pela exclusão social.) para influenciar a decisão e a definição da agenda pública. ainda que. já representem uma mudança da cultura institucional e política. para que ela não se dê à custa da invisibilidade das diferenças.

consolidando a redemocratização política no nosso País. semelhante valorização normativa de soberania popular.709/1998. O objetivo aqui é o de focalizar mais atentamente os institutos de participação popular. trazemos a experiência de Alagoinhas. vamos trazer os instrumentos legais de participação popular. aprovando-o em seguida. composta por representantes tanto do governo como da sociedade local. ∙ ação civil pública (no âmbito da Defensoria Pública). Não se registra. se combinados com mecanismos de participação direta. regionais e foi coordenado por uma comissão organizadora. que dispõe sobre a Política Municipal de Saneamento Ambiental de Alagoinhas. na história constitucional brasileira. Guia do profissional em treinamento .ReCESA 157 . recebeu o apelido de “Constituição Cidadã”. De todo este processo participativo. por parte dos movimentos sociais. existe ainda. resultou a Lei no. por meio de um processo de conferência. podem contribuir mais efetivamente para a ampliação da esfera pública e ampla democratização do Estado brasileiro. ∙ mandado de segurança coletivo. preparada pela comissão e referendada na conferência. e parte desses regulamentados pela Lei 9. pouco acúmulo de conhecimento e apropriação desses instrumentos que oferecem espaços legais e. Cabe lembrar que essa conquista é resultado da expressiva e histórica mobilização social. 1460/2001. de cunho popular. sancionada pelo Prefeito em 3/12/2001. Esse processo contemplou a realização de pré-conferências temáticas. que foi o primeiro município brasileiro a construir sua política municipal de saneamento ambiental com participação popular. As bases jurídicas da participação popular previstas na Constituição Federal de 1988 são: ∙ ação popular. constitucionalmente previstos na Constituição Federal de 1988 (CF 1988). O Poder executivo municipal honrou o compromisso assumido publicamente durante a conferência e encaminhou ao Poder legislativo a proposta de projeto de lei. na Bahia. Aqui. para ilustrar a idéia de controle social sob a perspectiva do direito. justamente por ter prestigiado categoricamente a cidadania. para instituir a política municipal de saneamento ambiental. que se deu durante o processo constituinte no Brasil. No entanto. ao ser editada. Instrumentos Legais de Participação Popular A Constituição Federal de 1988. A Câmara de Vereadores realizou uma audiência pública para colocar o projeto de lei em discussão.Como exemplo.

Vamos entender um pouco cada um desses instrumentos. os participantes da oficina podem se pronunciar sobre possíveis experiências de utilização desses dois tipos de instrumento de participação popular em seu município.∙ mandado de injunção.Nível 3 . inclusive de pessoas. à água em quantidade e qualidade.Qualificação de gestores públicos em saneamento . à atividade econômica ligada à pesca ou ao lazer e turismo. 158 Transversal . favorecendo. ao espaço de convivência social. discorrendo sobre como se deu o processo de mobilização. bem como a lei que introduziu a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente. complementam-se uns aos outros. ∙ Código de Defesa do Consumidor. que dissemina doença. São leis que. Por exemplo: pensar no valor de um rio que corta a cidade e seus atributos em relação à água. que se torna fator de rejeição por parte da população. 2. que leva a perdas. Ação Popular e Ação Civil Pública Este é um instrumento jurídico de que o cidadão dispõe para pleitear anulação de atos lesivos ao patrimônio público. Ou em oposição. O grupo pode fazer um exercício sobre agravos aos valores protegidos por esses dois instrumentos que têm correlação (positiva ou negativa) com o saneamento. histórico e turístico e paisagístico. ao verde. tiveram sua feição e seu alcance ampliados na Constituição Federal de 1988 e também no Código de Defesa do Consumidor. ∙ iniciativa popular de projeto de lei. desde então. estético. Atividade 1. aplicação e efeito. o rio canalizado e totalmente assoreado que corta a cidade e inunda vias e moradias. ∙ direito à informação e à cidadania. que. ao consumidor e a bens e direitos de valor artístico. 1965 e 1985 respectivamente. muitas vezes. todos os interesses difusos e coletivos. embora promulgadas antes da Constituição. Após refletir sobre correlações dessa natureza.

Mandado de segurança coletivo e do mandado de injunção Este instrumento pode ser impetrado por organização sindical. no que concerne à garantia dos diversos e fundamentais direitos abarcados nesta Lei? Por exemplo. Guia do profissional em treinamento . pelo menos. Atividade Indagar se alguém da turma conhece alguma experiência de mandado de segurança coletivo impetrado contra seu município ou de algum grupo sindical contra a concessionária dos serviços de saneamento. se for o caso. Iniciativa popular de projeto de lei O artigo 29 da Constituição Federal de 1988 define preceitos que devem constar das Leis Orgânicas: a) cooperação das associações representativas no planejamento municipal. de como delegar a prestação dos serviços públicos de saneamento básico. uma CESB ou um prestador privado dos serviços de saneamento). ou associação legalmente constituída. Já o mandado de injunção. aplicase quando o direito garantido na Constituição não se torna eficaz por falta de norma regulamentadora.ReCESA 159 . no interesse de seus associados contra qualquer autoridade municipal ou estadual. Para refletir O mandado de injunção ajuda a compreender a importância do decreto de regulamentação da Lei 11. b) iniciativa popular de projeto de lei. também criado pela Constituição Federal de 1988. de interesse do município. 5% do eleitorado. da cidade ou do bairro. ou entidade que presta serviços públicos (a exemplo de uma concessionária de serviços públicos. o direito a participar da decisão de delegar (ou não) e. através de manifestação de.445/2007. o direito à informação. o direito dos usuários. etc. ao exercício do controle social.

Qualificação de gestores públicos em saneamento . Atividade Verificar se alguém da turma já participou de um projeto popular de iniciativa de lei. que dispõe sobre a Defesa do Consumidor. como se desdobrou? Que tipo de impacto causou? 160 Transversal . Mais do que isso. eficientes. em seu artigo 22.Esse instrumento é muito relevante porque. resta ainda ao munícipe a oportunidade de fazer valer a vontade popular e pressionar o Estado. junto ao Procon de sua cidade ou região.Nível 3 . estabelece. são obrigados a prestar serviços adequados. não convencional. quanto aos essenciais. a cumprir suas obrigações constitucionais. como determina a Carta Constitucional. que os órgãos públicos. por vias legais e canais institucionais. a posição do prestador dos serviços de saneamento no ranking de reclamações do Procon. no tocante à qualidade e regularidade da prestação e do atendimento desses serviços à população.078/1990. sob qualquer forma de empreendimento. 8. que hoje são as Coordenadorias de Proteção e Defesa do Consumidor (Procons). Atividade Questionar se alguém do grupo já pesquisou. Código de Defesa do Consumidor A Lei no. O Código estabelece os direitos básicos do consumidor e os canais que podem ser utilizados pelos usuários para reclamações. como o espaço de uma conferência ou de um conselho. Se esse fato ocorreu. seguros e. é um instrumento que legitima acionar o processo de formulação de políticas públicas a partir de outra arena política. Já se observa na lista (no ranking) de reclamações dos Procons a presença expressiva daquelas relativas aos serviços públicos. em qualquer nível de governo. que sejam contínuos. se o governo não tem a vontade política de implementar os mecanismos de participação popular.

sobre algumas referências teórico-conceituais que podem contribuir para tornar efetivo o exercício do controle social em saneamento. Algumas pinceladas teórico-conceituais sobre controle social Antes de iniciar essa reflexão.Direito à informação e à cidadania O artigo 31. Atividade O grupo deverá discutir as experiências vivenciadas – por exemplo. destinada à defesa do direito público ou privado. o qual poderá questionar-lhes a legitimidade. No campo do Executivo. pois o art. a Constituição explicita o direito fundamental ao orçamento. discorreremos. atribuindo-lhe a defesa dos oprimidos. O art. primeiramente de forma empírica. criando condições para a atuação de representações comunitárias no processo de sua elaboração. Guia do profissional em treinamento . em todos os graus. 5º legitima qualquer pessoa a exigir dos órgãos públicos informações de interesse coletivo ou geral (direito à informação) e cria o direito de petição. anualmente. ou a coibir ilegalidade ou abuso de poder. parágrafo 3º da CF 1988 obriga os municípios a manterem suas contas durante sessenta dias. Concluída a reflexão sobre os diversos instrumentos legais existentes no País. Também o controle social pela via administrativa foi ampliado. e tornando-a obrigatória em todos os Estados.ReCESA 161 . 134 torna a Defensoria Pública instituição essencial à função jurisdicional. Sugere a norma que essa fiscalização não deve ser individual. o orçamento participativo – e como essas experiências podem contribuir para colocar o saneamento em um patamar elevado entre as prioridades do município. nos termos da Lei. na seqüência. a abordagem que os participantes conseguem formular sobre o conceito de controle social. que se traduz em denúncia formalizada. à disposição de qualquer contribuinte para exame e apreciação. a turma deve realizar uma rodada de troca de experiências e de impressões para trabalhar. mas organizada no âmbito dos movimentos sociais.

sobretudo nas teorias política e social. que certamente pode nos induzir à criatividade e à inventividade no exercício mais qualificado e efetivo do controle social em nosso cotidiano. governabilidade. “a discussão sobre o controle social e a participação esbarra em alguns conceitos associados. Como destacado por Heller. Você. Rezende. superando as tradicionais relações de prestador de serviço/consumidor ou usuário (Zveibil.Atividade Para a atividade. enquanto gestor. Ao ampliar e problematizar essa reflexão. Rezende. abertura para a prestação de contas pelos governos (accountability).Nível 3 . comparativamente à seção anterior. é de outra natureza: apreendido o significado do controle social como instrumento jurídico-legal capaz de acioná-lo como direito. à primeira vista. em si mesmo. ciência política). 2. remetemo-nos necessariamente para outras áreas do conhecimento (sociologia. direitos e deveres do consumidor. Heller (2007). colocamos três questões cujas respostas nortearão a dinâmica: 1. participa de algum órgão colegiado em seu município? O desafio aqui. Em paralelo. a compreensão do significado legal do controle social já constitui. vamos percorrer um pouco a abordagem conceitual sobre o tema. 3. Para fazer essa breve incursão. Você identifica. Na condição de gestor. Heller (2007).Qualificação de gestores públicos em saneamento . avalie como a participação da comunidade tem interferido nos serviços de saneamento básico do município em que você atua. os aspectos de transparência e o accountability passam a envolver o controle social tanto sobre o regulador quanto sobre o regulado. Como vimos na seção 1 desta unidade. em seu município. para os quais há uma extensa formulação. entre outros”. vamos nos apoiar principalmente em Heller. autores de artigo sobre “Participação e controle social em saneamento básico: aspectos teórico-conceituais”. 2003). que integra um livro que tem como tema central a regulação dos serviços de água e de esgoto. o que. a existência de mecanismos de controle social sobre os serviços de saneamento básico? Exemplifique. 162 Transversal . capital social. pode parecer pouco esclarecedor. uma estratégia de ação coletiva para reivindicá-lo como direito e exercitá-lo em sua dimensão mais ampla de cidadania. como os de cidadania. ampliação do poder da população.

Governabilidade: alguns autores brasileiros têm empregado o neologismo “governança” como tradução da palavra inglesa “governance”.

Desses conceitos revisitados pelos autores, sugerimos aqui a opção por um deles para, a partir desse significado, trabalhar o conceito de controle social sob a perspectiva da participação. Para este primeiro exercício, vamos eleger o conceito associado de ampliação do poder da população. Empowerment: alguns autores brasileiros têm empregado o neologismo “empoderamento” como tradução desta palavra inglesa. Este termo é bastante utilizado na literatura sobre gênero e nos discursos que marcam as lutas por respeito às diferenças e por igualdade de oportunidades para as mulheres. Mas, para o campo dos serviços públicos de saneamento, esse esforço não é suficiente. Os nossos autores de referência fazem um paralelo conceitual que se ajusta bem às especificidades do saneamento. Estabelecem que o processo participativo envolve usuários e não usuários, abrindo-se, portanto, duas vertentes. Segundo essa abordagem, “a participação dos usuários situa-se no âmbito dos direitos do consumidor, do cidadão. Por sua vez, a participação dos nãousuários refere-se à dimensão do direito à cidadania, que deveria ser assegurado a todos os indivíduos de uma sociedade”. Nessa leitura, caberia ainda outra interpretação para a condição social de “não-usuários”: o cidadão que, indiferentemente de ter ou não acesso aos serviços de saneamento, coloca-se na arena política do saneamento como sociedade organizada que reivindica seu espaço como sujeito social, que se situa no processo de formulação da política pública do saneamento sob a égide da bandeira da universalização do acesso aos serviços. Esse agente certamente se insere na dimensão da cidadania, mas se coloca necessariamente como uma força social, organizada em prol do coletivo, do bem comum. Para melhor compreensão dessa leitura que atribui ao sujeito a noção de pertencimento à determinada comunidade, necessariamente circunscrita a determinado contexto histórico, você pode consultar autores como Karl Marx, Gramsci, Tocqueville, Durkheim, Marshall, Léo Heller, Sonaly Rezende, Pedro Jacobi, Milton Santos, entre outros.

Você sabia?

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A idéia de “governança local” parte do pressuposto de que o fortalecimento de procedimentos democráticos, em contextos nos quais operam as instituições públicas, deve perseguir a aproximação entre as preferências e necessidades dos cidadãos com a capacidade dos governos de dar respostas mediante ações e políticas públicas num contexto institucional adequado às expectativas da população.

Governança: como um estilo de gestão pública, com instâncias de interlocução entre governo e sociedade, capaz de captar, de forma institucionalizada, as necessidades e demandas sociais com vistas a se definir a agenda pública e obter resultados coletivos.

Dessa forma, a dimensão política da chamada democracia cidadã pressupõe a correlação entre direitos sociais (o acesso ao bem-estar) e direitos políticos (ser parte das decisões públicas e dispor de mecanismos para monitorar e controlar a ação governamental). Para que essa correlação se estabeleça, é necessário investir no desenvolvimento e nas potencialidades das pessoas, de forma que elas sejam capazes de identificar suas próprias demandas e de decidirem o que é melhor para o bem-estar coletivo. Trata-se, portanto, de um pressuposto que elege a democracia não apenas como um valor em si mesmo, mas como um meio necessário a um tipo de desenvolvimento capaz de reduzir os níveis de pobreza e de desigualdade e de promover a emancipação humana. Com base nesse marco conceitual, a função de controle social sobre a prestação dos serviços públicos deve estar diretamente relacionada à noção de accountability. Esse conceito, muitas vezes reduzido a uma dimensão que coloca governo e cidadãos em uma relação de cobrança e prestação de contas, requer a previsão de mecanismos que produzam incentivos para que os governantes façam escolhas compatíveis com os interesses públicos, não dependendo necessariamente da vontade política de um ou outro governo.

Na abordagem feita por Anastasia e Ranulfo (2002), accountability é um atributo da democracia que implica controle dos governantes pelos governados. Na diferenciação proposta por O’Donnell (1988), o mecanismo de accountability vertical refere-se às relações entre os cidadãos e seus representantes. Já o conceito de accountability horizontal referese às relações entre os poderes constituídos, consagrados na literatura como freios e contrapesos institucionais, através dos quais um Poder controla e fiscaliza os atos e as omissões do outro.

Para se obterem resultados efetivos, a capacitação dos agentes públicos e sociais é uma estratégia importante, em especial dos conselheiros municipais. Nos diversos estudos e pesquisas que avaliam o funcionamento e a eficácia dos conselhos municipais, são identificados bloqueios e dificuldades que sinalizam para a necessidade de se investir em capacitação.

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Transversal - Qualificação de gestores públicos em saneamento - Nível 3

Esses estudos sugerem um modelo de capacitação capaz de fornecer aos conselheiros um conjunto de conceitos, métodos e técnicas que os habilitem a identificar e enunciar problemas em termos de políticas públicas: selecionando indicadores de avaliação e desempenho, identificando as informações necessárias para se formularem propostas alternativas e se definirem prioridades para uma agenda de trabalho, além de dispor de conhecimento para gerir processos políticos de conflitos, reivindicação e negociação para construir os consensos possíveis. Faremos uma análise, com base nos resultados da dinâmica realizada no início desta seção e nos conceitos apresentados no texto, das possíveis transformações que você pode empreender para propiciar efetivamente um controle social dos serviços sob sua responsabilidade.

Atividade
Analise, com base na realidade do seu município, como o exercício do controle social sobre os serviços de saneamento pode ser aperfeiçoado. Para essa reflexão, considere os seguintes aspectos: ∙ a capacidade de iniciativa do governo local em instituir mecanismos de controle social; ∙ os mecanismos mais adequados para o exercício do controle social; ∙ a composição dos órgãos colegiados mais representativa do ponto de vista da forma como a população se organiza e da forma de atuação do governo local.

Levando em conta os aspectos anteriores, procuraremos, a partir de agora, refletir sobre a seguinte questão: o saneamento brasileiro está mais permeável à participação popular e ao controle social? Vejamos. Heller, Rezende, Heller (2007) nos alertam que “a história no saneamento do Brasil revela poucas situações de participação e controle social e, nessas, verificam-se baixas escalas de participação. Tal constatação resulta do traço de centralização e autoritarismo que caracterizou o setor, bem como das próprias orientações do Estado brasileiro”. Reforça esta assertiva a reflexão feita por Britto (2003) sobre o controle social, tomando como recorte temporal o período em A clássica “Escada de Arnstein” constitui importante referencial teórico a quem interessar aprofundar-se no estudo de tipologias de participação.

Você sabia?

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UNMP). principalmente. Com esse novo contexto social e político-institucional. as estruturas da administração direta não eram abertas a qualquer forma de participação ou controle da população”. A Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA) apresenta-se. do nível e da qualidade das representações sociais que gravitam em torno de sua órbita. CONAM. queremos concluir essa reflexão sobre controle social com um olhar animador em relação ao atual momento do saneamento brasileiro. a mobilização de redes sociais vinculadas a movimentos populares. a percepção também é alvissareira. reivindicado como público. 166 Transversal . com autoridade e legitimidade. Os esforços para promover uma atuação coordenada do Governo Federal. em pleno regime de exceção: “a total impermeabilidade dessa estrutura de regulação ao controle social. A Frente expressa a determinante vitoriosa de esforços históricos de integração das lutas sociais e de articulação dos vários movimentos sociais no campo do saneamento. e essencial à vida com qualidade. e ao controle daqueles que seriam os titulares dos serviços. como direito social e coletivo.que o saneamento esteve submetido aos determinantes do Planasa.Qualificação de gestores públicos em saneamento . pela perspectiva da esfera pública que circunscreve o setor. Como parceiros dessa luta e aliados de mobilização social. O controle social de fato não existia. equacionando um grave problema de pulverização de ações e recursos. Contudo. como nunca. CMP. Agora. Se. podemos constatar que tem sido possível construir um ambiente de sinergia em torno do setor. Essa representatividade conferida à FNSA advém. A FNSA também trabalha para tornar cada vez mais estreito e efetivo o diálogo com a academia. o movimento sindical – neste caso representado pela Federação Nacional dos Urbanitários (FNU) – e as quatro confederações nacionais que congregam os movimentos pela moradia (MNLM. as conquistas são inquestionáveis e induzem o setor para um processo profundo de reestruturação institucional condizente com o contexto democrático preponderante. A trajetória da FNSA é reveladora de uma evolução prospectada e desejada por vários outros setores da vida pública e política. pela ótica do arcabouço jurídico e legal. pois no regime autoritário os mecanismos democráticos foram suprimidos. os municípios. entidades específicas do setor e a academia para um debate crítico e comprometido com a transformação resultam em significativa retomada do capital social e técnico do saneamento.Nível 3 . podemos citar o Fórum Nacional pela Reforma Urbana (FNRU). o saneamento brasileiro conta com uma base social e política qualificada. como o principal interlocutor do setor em face do Estado brasileiro e dos demais agentes políticos que atuam no saneamento.

em grupo similar ao que foi constituído no início. na regulação e no controle social. com cada um de nós! Encerraremos o capítulo com uma atividade que exige de você. esperamos ter propiciado a você.Se esse movimento virtuoso se mostra mais visível em nível nacional. tendo como referência a abordagem conceitual trabalhada nesta unidade e as relações que podem ser estabelecidas em todo o processo de gestão. oportunidades de apreender novos paradigmas sobre gestão pública que.ReCESA 167 . a regulação. baseados no planejamento integrado. Cada grupo deverá identificar como o controle social pode ser exercido em cada atividade. Profissional. Para tal. os participantes devem se organizar em três grupos. Agora é com todos nós e. a exemplo de agências municipais de regulação fortemente permeadas por mecanismos institucionalizados de controle social. Aqui. a fiscalização e a própria prestação dos serviços. participante desta oficina. pesquisa conceitual e identificação de possíveis relações entre os conceitos apresentados neste guia. Profissional. como a Arsban. privilegiou a gestão como principal estratégia do poder público e da sociedade. Experiências inovadoras estão sendo vivenciadas nos municípios. A finalidade é fazê-lo perceber a integração que deve existir em uma gestão mais avançada do saneamento. reformulá-la. na Bahia. Chegando ao final desta oficina. Guia do profissional em treinamento . retomaremos a primeira atividade deste guia e você. em Natal. este guia. Também no campo do planejamento integrado e participativo. experiências como a do Município de Alagoinhas. Atividade Como vimos ao longo das seis unidades deste Guia. é apenas uma questão de para onde e de onde se olha. deverá. Para o encerramento. o controle social é uma atividade que deve perpassar todas as demais que integram a gestão: o planejamento. dialeticamente. nos levem à universalização do acesso ao saneamento e à melhoria da qualidade dos serviços prestados à população. de acordo com as funções negritadas no parágrafo anterior. têm desafiado gestores públicos e comunidade a praticar a participação popular em sua plenitude transformadora.

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