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INTERDIÇÃO DO DESEJO: O CONFLITO IRRECONCILIÁVEL ENTRE AS LEIS CIVILIZATÓRIAS E O SUJEITO 1 CHERER, Evandro de Quadros2; QUINTANA, Alberto Manuel3; BRUM

, Márcio Morais4; RODRIGUES, Janderson Andrade2
Trabalho de Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Acadêmico do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM),Santa Maria, RS, Brasil 3 Professor do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM),Santa Maria, RS, Brasil 4 Acadêmico do Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil E-mail: quadroscherer@gmail.com
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RESUMO
O ser humano não nasce pertencente à sociedade, mas é inserido a esta através de sua assimilação. Para tanto, as exigências da civilização se impõem ao sujeito e são por ele internalizadas. Assim, surge um conflito entre a cultura colocada e os reais interesses do individuo. Nesse contexto este trabalho possui como objetivo uma reflexão teórica acerca desse impasse civilizatório. Desse modo, compreende-se que desde as experiências iniciais, estendendo-se ao direito estatal, o sujeito possui o conflito da articulação do seu desejo com a lei civilizatória. Nesse sentido, instaura-se um conflito irreconciliável para o ser humano encontrar vias de obter satisfação, em suma, meios de se ver com as possibilidades de felicidade.

Palavras-chave: Direito; Psicanálise; Psicologia. 1. INTRODUÇÃO Freud (1930) em “O mal-estar na civilização” discorre que o sofrimento humano vem de três fontes, a saber, a natureza, o corpo humano e a fonte social. Esta última via de sofrimento se distingue das demais por não ser inevitável, mas inadmissível, na medida em que a própria civilização se constitui na tentativa de regular os relacionamentos sociais, sendo assim, é destinada a fim de controlar esta fonte de sofrimento. Ainda, a civilização possui como razão fundamentadora o intuito de proteger o ser humano do sofrimento provindo das fontes naturais, contudo tal empenho demonstra-se mal sucedido (FREUD, 1930). Ainda, a neurose é conceituada por Freud como resultante da frustração que a sociedade impõe ao sujeito, já que este é incapaz de tolerá-la. Tal conflito instaura-se uma vez que a civilização tenta proteger do sofrimento, todavia impõe valores culturais nos quais o sujeito necessita sacrificar seu desejo pessoal. Nesse sentido, a civilização torna-se promotora de sofrimento, já que suas exigências vão de encontro ao desejo pessoal e singular de cada individuo, dificultando assim a tão procurada felicidade.

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onde nesta encontra os outros significativos que estão incumbidos de sua socialização primária. Desse modo. como um sistema de comunicação. mas como a realidade objetiva. Uma vez que a sociedade é internalizada pelo sujeito. Além disso. LUCKMANN. sendo ela representativa no Estado. RESULTADOS E DISCUSSÕES O ser humano não nasce pertencente à sociedade. não são por ela escolhidos. Todo ser humano nasce em uma estrutura social objetiva. aqueles que desempenham a função de socialização inicial com a criança. Sendo assim. Desse modo.2. ou interiormente pelo superego. porém impostos (BERGER. 1978). assim como também da lei. compreende-se a cultura como um código. possui um caráter dinâmico de produzir significados. vindo a tornar-se membro desta. Nesse contexto. Estes outros significativos. somente após ter alcançado certo nível de interiorização do mundo que o sujeito se faz pertencente da sociedade (BERGER. Essa inclusão ocorre por meio da interiorização da sociedade. juntamente com esta. pretende-se desenvolver algumas considerações acerca da instituição de exigências culturais como fonte de regulação social. ou seja. 3. da trama edípica que é organizadora dos desejos hostis e amorosos que a criança sente 2 . O superego é entendido como uma das instâncias do aparelho psíquico que desempenha um papel similar ao de um juiz ou de um censor ao ego. símbolos perante uma realidade constantemente em modificação (VELHO. ou seja. a saber. 2009). LUCKMANN. Com isso. 2009). interioriza-os. a criança assimila os papeis e as condutas dos outros significativos. 2009). Tradicionalmente o superego é caracterizado como herdeiro do complexo de Édipo. LUCKMANN. o mundo tal como é significado pelos outros significativos é apresentado para a criança não como uma realidade daqueles que a socializam. de caráter reflexivo. Este fenômeno ocorre através de processos onde o sujeito “assume” o meio no qual os outros já vivem. METODOLOGIA Neste trabalho. a interiorização do conjunto de exigências vindas do primeiro cenário social ocorre por meio do superego. torna-os seus (BERGER. contudo. interpretações. são. Esse processo apenas se fundamenta com êxito uma vez que ocorre em situações de intensa ligação emocional com os outros significativos. suas exigências e valores culturais são assimilados. nasce com a predisposição para a sociabilidade.

Porém. a conseqüência seria um estatuto legal que garantisse a proteção contra a força bruta através do sacrifício individual de suas pulsões em favor das exigências da civilização (FREUD. sem. Portanto. Ora. surgem nas sociedades primitivas com a função ordenadora. em contrapartida ao poder do indivíduo. o superego constitui-se por meio da interiorização das interdições e das exigências parentais (LAPLANCHE. a partir da “necessidade de 3 . a segurança de que uma lei. o cerne está em os elementos da comunidade se privarem em suas possibilidades satisfação. Desse modo. Nesse escopo. pode-se afirmar que as normas jurídicas e. o ser humano estaria à mercê da vontade arbitrária dos indivíduos.32-33) Suponho os homens chegados a um ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza vencem. como os homens não podem engendrar novas forças. 1930). Assim.com relação aos pais. Esse estado primitivo. uma vez criada. a passagem do poder do indivíduo para o poder de uma comunidade compõe o passo crucial da constituição da civilização. eles não tem outro meio para se conservar senão formar por agregação uma soma de forças que possa prevalecer sobre a resistência. não pode mais subsistir. todavia isso desempenhar papel ético no tocante a formação da lei. o Direito. e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. as forças que cada indivíduo pode empregar para manter-se nesse estado. Nesse sentido. compreendido como “força bruta”. pelo qual o poder dessa comunidade é instituído como “direito”. mas somente unir e dirigir as que existem. De maneira análoga com o que acontece na socialização primária. então. se a tentativa civilizatória de regulação social não fosse feita. o sujeito é furtado de seu desejo na vida civilizada a fim de proteger o individuo do sofrimento. por sua resistência. enquanto que o indivíduo não passa por tal interdição (FREUD. Desse modo. colocá-las em jogo por uma só motivação e fazê-las agir de comum acordo. Nesse sentido. o sujeito fisicamente mais forte decidiria no sentido de seus próprios interesses. PONTALIS. corrobora-se com a lição de Jean-Jacques Rousseau em O Contrato Social (2008 pp. 2004). 1930). não será violada em favor de um indivíduo. portanto. a vida humana apenas se faz possível na medida em que uma maioria mais forte se reúne a fim de defender seus interesses contra indivíduos isolados (FREUD. ou seja. ou seja. 1930). a primeira exigência civilizatória é a da justiça. Sendo assim. isto é.

entende-se que a civilização é mal sucedida no seu empenho em proteger o ser humano do sofrimento. e. 2009. além da função legislativa. desfruta o direito de desenvolver plenamente a sua atividade física.harmonizar as relações sociais intersubjetivas. morais e comportamentais. CONCLUSÃO A liberdade do sujeito não é uma característica civilizatória. intelectual e moral e nessa obrigação reside o próprio fundamento do direito. tensões e conflitos que lhe são próprios” (GRINOVER. já que esta implica em restrições aos desejos pessoais. Ainda. 4. o poder de dizer o direito. sendo este exercido por um juiz imparcial que concede “a cada um o quê é seu”. assim. isto é. Mesmo a existência do direito regulador e da jurisdição estatal não são suficientes para 4 . pertence-lhe o direito de desfrutar o produto dessas atividades. e continua sendo até hoje. dado de acordo com as convicções de cada cultura (GRINOVER. Assim. intelectual e moral. instala-se o conflito em torno da tarefa de encontrar uma acomodação conveniente entre os desejos do sujeito e as reivindicações culturais do grupo.25). 2009). os conflitos que eram em épocas primitivas solucionados através da autotutela. nesse sentido. isto é. Desse modo. o Direito passa a ser uma das principais formas de controle social nas sociedades modernas. uma vez que ela própria se torna responsável por parte deste. Isso só foi possível na medida em que este se fortalece e adquire autoridade suficiente para impor o cumprimento das leis.25). p. Dessa forma. o Estado passa a ter poder jurisdicional. Demonstrando a preocupação dos teóricos do Direito em restringir o mínimo possível as liberdades individuais. Concebe-se. O critério utilizado para orientar essa harmonização era. constituindo regra social Sendo assim. com o objetivo de “superar antinomias. sendo que ela foi maior anteriormente a qualquer civilização. a obrigação de respeitar no outro o desenvolvimento pleno da atividade física. p. 2009. um conjunto de instrumentos de que o Estado dispõe para impor modelos culturais. a justiça exige que todos sejam contemplados por essas limitações do desejo. ou seja. passam gradativamente a ser resolvidos pelo próprio Estado. ou da autocomposição. o critério do justo e do equitativo. para todos. p. Duguit (2009. a “justiça com as próprias mãos”. a fim de ensejar a máxima realização dos valores humanos com o mínimo de sacrifício e desgaste” (GRINOVER. Assim. ou seja.23) cita Léon Duguit que no final do século XIX escreve que O homem nasce “livre”.

2009. In: Obras Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro. PONTALIS. São Paulo: Martins Fontes. Jornal da Cultura. T. Teoria Geral do Processo. LUCKMANN. S. J. 2004. Fundamentos do Direito. Rio de Janeiro: Imago. P. L. São Paulo: Martin Claret. o ser humano não consiga acomodar satisfatoriamente o interesse de todos a fim de obter felicidade. Nesse escopo.. agravam-se ainda mais depois de proferida a sentença pelo juiz. FREUD. São Paulo: Malheiros. pensa-se que talvez esse conflito seja irreconciliável. isto é. os quais muitas vezes. 2008. A. REFERÊNCIAS BERGER. ROUSSEAU. DUGUIT. VELHO. volume XXI (1996). J. 2009. 1930. LAPLANCHE. 2009. A construção social da realidade. GRINOVER.. O Conceito de Cultura e o Estudo das Sociedades Complexas: Uma Perspectiva Antropológica. Petrópolis: Vozes. in Artefato. P. Porto Alegre: L&PM Pocket. 1. G. J.eliminar os litígios. V. 5 .L. O Contrato Social. 1978. O mal-estar na civilização. Vocabulário da Psicanálise.