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Liberdade
"Não ter liberdade é mau, mas é muito mais grave não ser livre." Julián Marías

I. Nosso amigo Jóbson

Quinta-feira1. Este dia é especial no cotidiano de Jóbson. Ele não saberia sobreviver na “Necrópole” (que é como ele gosta de chamar a Metrópole em que reside) se não houvesse esta válvula de escape chamada “encontro com os amigos”. Sedento que estava por alienar-se um pouco, Jóbson chegou à “Rainha” mais cedo do que os camaradas. “Alienar-se”, para ele, poderia ser tomado como o contrário da alienação. Seria a tomada de consciência das coisas, sair da correria, do caos, das obrigações, da tempestade, dos transportes coletivos, das aulas na faculdade, de si mesmo. Sim, para Jóbson, retirar-se do mundo servia a este propósito: olhar para tudo de fora, para ver a estrutura e as relações entre as coisas. Sentar-se em um boteco ou padaria e tomar uma cervejinha com as pessoas de seu apreço era algo impagável. “Dizem que tudo tem um preço, mas estar com a brodagem não tem.”, pensava Jóbson, quase que inconscientemente. A Rainha era uma padaria como qualquer outra que você possa imaginar. Não se surpreenda com este nome genérico. Aliás, uma padaria chamada “Rainha” não seria quase nada diferente de uma padaria chamada “Flor”, ou até mesmo de uma padaria chamada pura e simplesmente de “Padaria”, portanto, quando ler “Rainha” nesta narrativa insira mentalmente um qualificador como “da Parada Inglesa”, “da Vila Gomes”, “do Grajaú”, “do Ipiranga”, “da Vila
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ADVERTÊNCIA: Esta é uma obra de ficção. Todos os nomes, pessoas, locais e incidentes são obra da imaginação do autor ou são usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos, eventos, locais e pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

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Guarani”, seja qual for o bairro em que você resida ou frequente. Jóbson, por exemplo, deixava transparecer o orgulho do apelido que ele mesmo dera a tal padaria, pois era fácil notar um meio sorriso se insinuando no canto esquerdo de sua boca, e certo brilho no olhar quando fazia o convite “Bora tomar uma na Rainha dos Mendingos?”. (Me subtraio à necessidade de explicar que Jóbson também se comprazia em falar “mendingo” no lugar de “mendigo”. Quanto mais neurose seu interlocutor demonstrasse em razão de “perfeccionismos” com relação à língua portuguesa - uma “tremenda bobagem”, segundo Jóbson -, mais prazer ele sentia em criar novos espraiamentos, novos metaplasmos e novas e provocantes neologias). Pois assim se deu nesta oportunidade. Jóbson então trabalhava com o ofício de sua formação. Permanecia com o “rabo” - como ele mesmo gostava de dizer - pregado na cadeira da hora em que chegava ao escritório até a hora em que não sentia peso na consciência para sair. Fico lisonjeado em ter a permissão de uma pessoa tão honesta e ética como Jóbson para narrar suas aventuras necropolitanas. Vamos logo à narrativa, então! Chega de prolegômenos! Como eu já disse, nesta oportunidade, Jóbson chegou à Rainha um pouco antes de seus amigos. Isto não era nada incomum, pelo contrário. Jóbson não era muito afeito a chegar em um encontro de amigos (e no caso de “desamigos”, pior ainda) já em andamento. Para ele, encontrar os amigos era como ir ao estádio ver o time jogar, ou seja, tinha ritual, tinha que “sair mais antes para chegar mais antes”, como dizia a anedota de uma de suas célebres professoras. De fato, para nosso amigo Jóbson, tudo tinha que ter ritual. Como sempre acontecia ao longo dos últimos três anos, Jóbson percebeu a certa altura que já havia concluído tudo o que poderia ter feito naquele dia de trabalho com qualidade, e isto eliminava todo e qualquer peso na consciência no que se refere a deixar seu posto. Qualidade para ele era algo essencial. Para ele, não era digno fazer um trabalho mal-feito, mesmo se o patronato ou a chefia o obrigassem a fazê-lo. Nesta última hipótese, um sentimento muito ruim preenchia o coração de Jóbson, e seus colegas de trabalho percebiam sua insatisfação através de sua cara fechada. Seu aspecto se tornava semelhante a uma fruta que, ao apodrecer por dentro, se enegrecia por fora. Seu perfume também dava lugar a certa catinga que se formava em seus asseados sovacos nestes momentos de escravidão ao vivo e a cores. Ele odiava aquilo. Assim sendo, Jóbson pegou suas coisas, desligou “seu” computador, despediu-se dos colegas, do capitão-do-mato e foi tomar o ônibus.

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A Rainha ficava perto de sua casa, que ficava próxima a um belo parque. Cada vez menos belo, graças à incompetência administrativa e ao mau gosto de tantas gestões seguidas de péssimos prefeitos e suas respectivas corjas de secretários, subsecretários, subprefeitos... Jóbson era um tanto alienado politicamente, não acompanhava as notícias dos grandes meios de comunicação (sorte dele), então não ficava sabendo de muitas coisas que se propagandeava em relação às “obras” dos governos, mas ao ver os cortes de árvores, a instalação de iluminações de cor roxa nos monumentos, chafarizes que lançam para o ar a água morta e fétida do lago, ele percebia inconscientemente que estavam frequentemente “obrando” no Parque. Nos arredores, o perfume era o mesmo de um canteiro de “obras”. Jóbson apelidou tal chafariz de “Bidê Luminoso”. Andar de ônibus pela Necrópole era um dos esportes radicais prediletos de Jóbson. Nos tempos da faculdade, ao se deslocar de sua casa até a Necrópole Universitária, muitas vezes ia pendurado na porta. Seus pais nunca ficaram sabendo disto, e talvez venham a saber somente agora, que este meu grande camarada abriu as portas da memória para me relatar tantas peripécias necropolitanas. Espero que se divirtam. Enfim, Jóbson adorava viajar pendurado no “Heliopão”, do lado de fora do ônibus, sentindo aquela brisa gostosa no rosto, exercitando os músculos, desviando-se de placas, ramos de árvores, transeuntes e veículos. “Coitado de quem estiver dentro desse ônibus!”, pensava Jóbson. Ele tinha razão. Aquele Heliopão tinha mais pessoas por metro quadrado do que uma mulher grávida de quadrigêmeos. Se Jóbson ia pendurado, era porque havia gente socada em cada milímetro daquele paralelepípedo alaranjado. Outra grande vantagem de ir pendurado era não precisar gastar seu precioso passe escolar, que seria transformado em duas fichas de fliperama posteriormente, no Bar do Bigode. (Evidentemente, o nome “verdadeiro” do bar era outro, mas nem mesmo o próprio Bigode deveria se lembrar dele.). Mas o que ele apreciava mesmo era a emoção de subverter o sistema. O ônibus que ia do trabalho até sua casa não era tão superlotado assim, e muitas vezes, Jóbson ia até mesmo sentado. O ônibus era seu lugar privilegiado de leitura, pois ali passava muitas horas do dia, e, ali, os livros eram seus melhores amigos. Naquela quinta-feira, Jóbson conseguiu ler um capítulo de um livro e um de outro. Haja xerox em sua estante, diga-se de passagem. Estudar numa faculdade faz a pessoa ler infinitos recortes de pensamentos, conceitos, teorias, mas não permite que se leia quase nada integralmente, dada a compactação de tantas atividades em tão pouco tempo. Isso sempre deixou nosso estudante Jóbson perplexo.

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Chegando finalmente a seu destino, mesmo após enfrentar um trânsito hollywoodiano, mas com táxis brancos no lugar dos amarelos e vias com no máximo duas faixas em cada mão, nenhum de seus amigos havia chegado. Ao contrário do que se poderia imaginar, Jóbson se alegrou, esboçando mais uma vez seu meio-sorriso, a marca registrada de seus pensamentos mais perigosos. “Vou aproveitar pra pedir uma gelada e ler mais um artigo antes dos vagabundos chegarem.”, pensou nosso herói da leitura.

II. Arrombadas, piranhas e vadias

Chamou a sua atenção o fato dele chamar os amigos em pensamento de “vagabundos”? Seus queridos amigos? As pessoas que suprem sua necessidade de realidade, de amparo emocional, afetivo, intelectual e alienista? Pois bem. Jóbson possui uma característica peculiar. Quanto mais ele gosta de uma pessoa, pior ele a trata, no bom sentido. Avesso dos avessos, Jóbson chama seus melhores amigos

de “puta”, “vadia”, “arrombada”, “vagabunda”, “piranha”, “playboy”, “viado”, “tucano”, “peesse debista”. Qualquer pessoa em sã consciência poderia se escandalizar ao receber este tipo de tratamento. Quem não o conhecia preenchia-se de preconceitos. Já os amigos de Jóbson, porém, ao receberem tal tratamento, riem para valer, e retribuem com gentilezas agradecidamente redobradas, com tapões em sua cabeça, joelhadas na barriga e murros nas costas, pois “amor dado é amor multiplicado”. Certo dia, Jóbson até se colocou a refletir sobre o porquê disso. Ele tinha muitas amigas feministas, que ele amava do coração, e elas sempre lhe diziam que quem xinga de “filho da puta”, “vadia”, “vagabunda”, entre outros, o faz porque é machista. Quem xinga de “gay”, “viado”, “traveco”, o faz porque é homofóbico. Jóbson concordava honestamente com tudo aquilo, do fundo da alma. Por que então ele xingava os amigos assim, quanto mais gostava deles, quanto mais camaradagem havia? Jóbson nunca conseguiu responder a si mesmo tais perguntas, sua única conclusão foi que a forma com que se referia aos amigos jamais fora para ofendê-los, muito menos para denegrir a mulher e os homossexuais e travestis. Já “tucano” e “peessedebista” era para sacanear. Mesmo.

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Apoiado naquela mesinha de lata decorada com alguma marca de cerveja pintada em vermelho, Jóbson lia aquele seu terceiro texto de maneira praticamente ornamental. Quando chegava a algum local, a primeira coisa que fazia era “se ambientar”. Observava as pessoas, o espaço, as rotas de fuga, a localização do banheiro, as janelas. Sentia o ambiente, situava-se. Algo de animal, instintivo. Quando neste modo de operação, ler alguma coisa era como estourar pipoca com a panela aberta. O desperdício era tamanho que de minuto em minuto, Jóbson percebia que nada do que havia lido passara por sua intelecção, então ele corria os olhos linhas acima, apenas para perceber que não reconhecia nada do que havia lido no último minuto. Era totalmente fútil tal leitura. O que o movia a fazer isto, então? Seria uma patética tentativa de passar uma auto-imagem de intelectual para alguém? Isso não cheira a problemas de auto-estima? Inebriado pelo delicioso aroma que emanava do torresmo que aquela jovem linda, elegante e simpática que olhava para ele com aqueles olhos profundamente azuis, abrindo e fechando a boca como se estivesse conversando com ele, Jóbson se sentia no Paraíso, mesmo sem conseguir ouvir uma só palavra do que ela dizia, e sentia-se flutuando. “É por isso que eu gosto daqui...”, derretia-se em pensamento. De repente, um ruído de freada de carro o traz de volta ao chão. “Puuutz... cochilei enquanto lia...”. Pouco tempo depois, chega ao boteco seu amigo Réver. - Porra, Réba!! - Porra, Jojoca! Os jovens norte-americanos têm o costume dos “toques”. Aqueles cumprimentos de gueto que chegam a ser acrobáticos, de tantas firulas. Réver e Jóbson tiveram muitos toques nesta linha, desde os tempos da molecagem, e principalmente na adolescência, quando o amigo era a pessoa mais importante do mundo, e um toque personalizado era sinal de forte amizade. Já adultos, ou melhor, agora que eram responsáveis... quero dizer... agora que haviam saído da casa dos pais... hum, na verdade, não. Vamos dizer que “agora que eles estavam trabalhando”, a bola da vez era cumprimentar os chegados com esse “Porra” antes. - Por que demorou tanto, hein, sua vadia? - traduzindo, seria algo como “que bom que chegou, amigão!”... - Faz tempo que você chegou, cara? - Faz pelo menos uma hora e meia. - Jóbson fez uma cara séria, fingindo haver esperado seis vezes mais tempo do que esperou de fato pela chegada do amigo.

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Réver já conhecia Jóbson de longa data, eram amigos de infância. Sabiam tudo um do outro, mas sempre achavam que sabiam mais do que sabiam de fato. Réver, por exemplo, achava que sempre que o Jóbson fazia aquela cara séria ridícula, ou estava mentindo, ou estava tentando passar a perna em alguém, o que é quase o mesmo. Quanto a isso, ele tinha razão. Mentir, Jóbson mentia para sair de situações sem saída, “mentia honestamente”, “pela paz mundial”, segundo ele. Já “passar a perna” era algo corriqueiro, bem longe do que se entende como mentira, era somente uma “brincadeira”. - Uma hora e meia é o cacete, teu vagabundo! - Réver gargalhou. - Se a gente combinou às 20:00 e você chegou às 18:45, é porque você é burro pra cacete! - mais gargalhadas. Jóbson não havia chegado às 18:45, havia chegado às 19:45. Foram vinte minutos entre enfiar o nariz na Rainha e a chegada de Réver. Trinta e cinco segundos para pedir uma gelada. Seis minutos acordado. Mesmo frustradinho pela brincadeira com o horário não colar nunca com Réver, Jóbson se alegrou com a gargalhada do amigo. Impagável. “Não há nada melhor neste mundo do que ver as pessoas queridas felizes!”, pensava nosso amistoso amigo. - Senta aí então, imbecil. Demorou pra cacete pra chegar e vai ficar aí de pé, teu incompetente?! Não tem prego na cadeira, não! - “quanta agressividade...”, pensavam os efêmeros transeuntes. - Já tá bêbado de novo, Jojoca? - Réver também era da turma da provocação. - Tou. Tou sim. Não faz nem vinte minutos que eu pedi essa cerveja e já tou bêbado. Se liga, cara! - Jóbson mordeu a isca. Ao contrário de Réver, que quase sempre sacava as provocações do amigo e contornava as armadilhas, Jóbson frequentemente caía nas sacanagens que lhe armavam. - Rá!! Perdeu a linha! - Réver riu, apontando o dedo para o camarada. - Rá, rá, rá... que sem-graça, você...

III. Os nerdes aloprados

- Descola um copo aí pá nóis, Pit-Bitoca! - gritou Réver, dirigindo-se a Souza, o melhor chapeiro da padoca. Souza era um cearense de riso fácil, pessoa amada por gente de alto a baixo

foi mal. que já contava até mesmo com um pernilongo náufrago boiando na superfície.esta era uma das várias pirraças que Bitoca fazia para quem insistia em chamá-lo por este apelido. . pensava ele. Por fora.perguntou Réver. mas Réver gostava mesmo era de copo americano. Réver.chutou Réver. .Camburi? Perto de Ubachuva? . Assim que o personagem apareceu pela primeira vez naquela televisão de última geração da Rainha. São apenas pessoas comuns. Mas se parecia muito com o fiel escudeiro do Pit-Bicha da televisão.. para fora. em respeito aos mais afaimados leitores. Santa Catarina! . se ajeitou na cadeira e olhou ao redor para sentir o tamanho da plateia. autorizou-lhe a contação da história: “Manda aí. . Respirou fundo. Depois disso. “Foi lá em Camboriú. quem sabe eu não conto uma ou duas destas discussões. . antes de todos.. ele introduziu. eu te conto uma história. Se quiser saber o que é avacalhação de verdade. ..De novo.Não. A gargalhada foi geral naquele dia.Cê não acha que o Bitoca avacalha com essa parada dos copos. (Sem falar que não estava tomando chope.Desce mais uma gelada aí.Pega aí.. Jojoba? .. em mais uma de suas acaloradas discussões.”. animal.” Jóbson matou o resto de cerveja morna daquele copo. Com aquela camada fosca de “gelinho” por fora. as pessoas confundiam com Camburi. 2 Adoro quem lê os rodapés. Prometo que só haverá rodapés relevantes nesta novela.. Sim. Bitoca! . Mais para a frente.gritou Réver. Por dentro. com meia sobrancelha erguida.”.Pit-Bitoca escorregou uma tulipa pelo balcão na direção de Réver. Réba! .. um sorriso só. em sinal de desconfiança. . e dizem os gozadores que até ele mesmo se olhou no espelho. CamboriÚ. Como você pode ver. Fingiu que estava deliciosa. virando-se para Jóbson com cara de curioso. Jóbson e Candinha lá estavam. . O apelido foi instantâneo. mais um ritual. mano. parece que ele não se conhecia tão bem assim.7 da pirâmide social da região. Bitoca? Esqueceu de novo que eu gosto é do outro copo? . a lembrança de um caboclo que ele sangrou por menos que aquilo antes de migrar para o “Sul”.) . todos olharam para o Souza. caro leitor2.. “Ah se fosse lá em Quixadá. que ele detestava. pega aqui! .sempre que Jóbson contava causos de Camboriú. Réba! Vai dizer que não sabe disso. perfeita para um chope.Bitoca é um fanfarrão. mas não espere grande coisa. Uma belíssima tulipa.Ah. Jóbson se achava um sujeito paciencioso.

Que hotel. enxugando uma lágrima.. o lance foi o seguinte. captei. estavam lá também? . quando descemos do ônibus.. rapá? Tá tirando a favela? . .replicou Jóbson. sempre caía nas sacanagens dos outros.. levava tudo a sério e até chegava a se ofender. cara.Réver não perdia um episódio dos Trapalhões na década de oitenta. . tomar umas geladas ..Réver chorou de tanto rir..Jóbson. fomos direto para a avenida da praia procurar um boteco barato pra tomar umas geladas e alimentar nossas carcaças. catinue. A quem ele queria enganar? . .finalmente ele começou a história.tava calor pra cacete! -. lá vem você com esses seus amigos aloprados aí. um calor desgraçado. . nas férias do segundo ano da faculdade. . Antes mesmo de achar a espelunca que a gente tinha alugado pela internerde. . o Orelha.. captei. então achamos melhor sentar num boteco logo de cara. cara. sei. . Pra falar a real.Eu sabia que você tava zuando. se sentiu o malandrão.Então a gente tinha acabado de chegar na cidade.Cê tá me tirando.Eu tou zuando. e o Rocambole. cara! Conta logo a história aí. deve ter inveja dos apelidos dos meus “amigos verdadeiros”.. o Magrão e o Xoxota lá em Camboriú. ver a paisagem. o Subaco. assim dava pra relaxar.. e morrendo de fome..8 . em tom de deboche.Você não falou que cês tinham alugando um pico pela “internerde”? . mas quem falou que era um hotel?! A gente alugou o pico mais barato que achou. . ..Jóbson rebateu a provocação com outra.disse Réver.Ih.perguntou Réver.Jóbson morreu de rir. . Não foram nem no hotel pra descarregar as malas? ... . conta logo a sua mentira aí. aspando a “internerde” com as duas mãos. .É tudo a mesma coisa..Sim.Minhas histórias são todas reais. que sempre estava pronto para sacanear os amigos. estávamos eu. o Narina.Beleza. . de forma patética. etc. . Catinue. o Pinguim.... catinue! . comer um bagulho. a gente não fazia a menor ideia de onde ficava o pico. .Hummm..Sei. . .Bom.E você sempre vem com essa palhaçada. meu! ..

Já sei.. jamais riríamos? Não é que não tenha graça. se liga só no que aconteceu. ou que seja apenas um riso social. escolhemos semi-aleatoriamente.. . com uma entonação suficientemente clara de que aquele “nós“ era o “nós” inclusivo. outros com cara de boteco de boy. cara. Não escapa um! .Bom. como se nada estivesse acontecendo.9 .… outros mais fuleiros. que era ser chamado de playboy ou burguês. . ou seja. ele pensou.. Como Jóbson gostava muito de contar suas histórias.perguntou Réver. Réver ficou até surpreso. O Xoxota reparou que um dos botecos se chamava “Valmor”. .Fala sério. sei que na hora todo mundo achou engraçado e decidimos comer lá. . “Deve ser boa essa história!”. vocês foram “no mais de boy”! . . e tal. e não queríamos ficar entrando em todos. e apontou com o dedo para a placa luminosa do bar. outros.. Candinha Sim. Você achou o bar nojento? . Nós somos um bando de nerdes zuados.respondeu Jóbson. desta vez estamos testemunhando uma troca de ideias sincera e desarmada por parte de nosso viajante Jóbson e seu paciente interlocutor. Réver riu e Jóbson prosseguiu com a fascinante história. . um bando de nerdes zuados.Sei lá. lotada de boteco e restaurante. IV.Então entramos no bagulho. vocês são zuados mesmo. O negócio era meio sujo.Sei. O coletivo tem seus mistérios.E que graça tem isso? . apontando o dedo para Jóbson. . Você nunca percebeu que às vezes rimos coletivamente de algo que se estivéssemos sós ou em menor número. . parecia estar tudo impregnado de óleo. Fomos caminhando pela avenida ali.Você tem toda razão. que comédia. muitos deles chapados de gente. São mistérios da coletividade.Réver cortou a história pra dar uma das sacaneadas que Jóbson mais odiava. cara. cara. que Réver também estava no saco dos nerdes aloprados. Olhamos pra lá e rachamos o bico: “Bar do Valmor”. Como tinha muitos. meio nojento. engoliu esse sapo e seguiu. Isto acontece de fato.

Era uma moça como outra qualquer. os caras. os olhos de Candinha tinham esse poder. . Jóbson quase caiu da cadeira quando a viu. . Quase todas as mulheres dispunham de um par igual àquele. Não tinham nada de mais em si. Efeitos da poluição . com cara de “será que estou invisível?”. eram comuns. bom.10 . está. Réver caiu. diferente! . Se falo que é nojento. Candinha respondeu ao sorriso canhoto com um outro sorriso.disse ela. mas algo estava diferente. ela estava com um rabo de cavalo e havia feito algo mais no cabelo. não para Jóbson. Jóbson chegou a sentir um calor.Nossa. que lhe prendera os olhos. tal como os olhos de um felino.exclamou o gaguejante Jóbson. mas para sua boca. não era uma moça que quando passa na rua os homens falam “úia” ou “tssss”.. ao reparar naquele olhar fixo. sem saber por quê. Eu achei muito louco.Eu não. eram castanhos. Naquela noite. Quando caíram em si. Não só ele. Ela era capaz de travar os olhos no alvo de seu interesse. V.. viram Candinha plantada diante deles. Ele tinha medo daquilo. é pela referência média de aceitação de podracaria.Ah.. Não eram feios e nem bonitos. O problema era o poder felino de fixação que eles possuíam. E foram estes mesmos olhos que travaram no sorriso de canto de Jóbson naquela fração de segundo e lhe morderam os beiços com força. Jóbson lutou contra si mesmo com todas as forças para não admitir que a amiga estava bonita.. .Oi. ele não sabia dizer se ela o havia cortado ou tingido. humm. finalmente Jóbson parou para dar um beijo e um abraço em sua amiga. com um de seus sorrisos de canto de boca se insinuando diretamente para dentro dos olhos da imaginação de Candinha. Naquelas pupilas dilatadas.. Candinha não era uma mulher fatal. Candinha! Como você está. Tal como um felino abraça sua presa com as garras e lhe morde o cangote.. O problema de Candinha eram seus olhos. né? . Seu podre! Ambos riram como se não houvesse amanhã. Três minutos e quarenta segundos depois de muita risada. um par de buracos negros. de braços cruzados e batendo um dos pés freneticamente no piso cheio de restos de comida e guardanapos da Rainha.

porque acho que não iria interessar a vocês. Candinha.Ah. Ele sentia as coisas mais fisicamente. Seguidor que era do “manual do escoteiro mirim” sobre as mulheres. amiguinha. Confuso..E então. .. Ao ouvir este cortejo. . Por aqueles dias.Muito obrigada. já ficou corado. . os sentimentos de Jóbson andavam meio nublados. Ao contrário de Jóbson. não tenho dúvida que aquele desconforto era nada mais. Mal conseguia discernir o significado daqueles sentimentos. fora esse tapa na peruca? perguntou Jóbson. pelo contrário. só de perder o equilíbrio. Ao ser alvejado pelos olhos de Candinha. . além de perder também o rebolado. nada menos do que inveja.Adorei a franjinha.. com uma pitada de agressividade lhe escapando pela língua.. Réver não percebeu. graças à lataria daquelas péssimas cadeiras.Réver notou na hora qual era a novidade na face da amiga. Sentimentalmente falando. mas Jóbson sim. Révis. O “senso comum” lhe dizia que “o certo” era sempre elogiar a mulher quando ela surgisse com alguma novidade estética. tal a habilidade interpessoal do rapaz. pra falar a verdade. o que você conta de novidades. mesmo não tendo segundas intenções com o rapariga. nem sei se conto. Provavelmente era um fruto podre do estresse necropolitano. .. o que eu quero neste momento é saber do que é que estavam rindo tanto agora há pouco.. Jotinha. até tenho umas novidadezinhas. E sentiu uma espécie de mal-estar. nosso eterno postulante a Don Juan não deixaria passar uma oportunidade como esta. a ponto de demorarem uma década até notarem a minha presença. Conhecendo-o.. Isto. Réver estava sempre alerta para aproveitar brechas como esta e praticar suas técnicas de abordagem. . cego.Xiii.. . desce mais uma aí por minha conta.Candinha se referiu a ele como “homem” pela primeira vez na vida naquele exato momento. surdo e mudo.Souzinha.11 . . Ficou linda. Jóbson. Jojoca! Parece que a Candinha tá carente de novo! Cuidado com as suas brincadeiras sem noção. hein. um dos grandes defeitos de nosso confuso Jóbson. . Efeitos da poluição. Pra falar a verdade.comemorou Candinha. Candinha mal se deu conta que o sujeito acabara de se estatelar no chão imundo da padoca. o coitado quase se enfiou embaixo da mesa. Mesmo que esta brecha surgisse logo após uma sonora queda. Você foi o único homem que reparou que eu resolvi usar franja pela primeira vez na vida justamente hoje. Réver possuía um jogo de cintura digno da rainha da bateria da Vai-Vai.

. começa a história de novo. VI. até o próprio Jóbson riu.disse Réver. claramente..do que é que estavam rindo tanto? . Candinha não tinha nada de boba. Sempre que ele fazia este tipo de discurso infantilóide. como sempre.. Desta vez. ..Sei. Ou um... demonstrando sua afetuosidade de maneira peculiar. Ele sempre cedia.Candinha não cairia jamais nesta besteira de Jóbson. sem noção é a sua raba. . Jóbson detestava quando Réver começava a “querer aparecer” ou “se afirmar”. Jotinha. .. ela expressava seu alto grau de entretenimento e surpresa através de um suspiro e uma revirada de olhos. Vou continuar de onde tinha parado.. . meninos. Vou continuar a história.um sorriso desafiador apareceu subitamente em seu rosto.. ele havia ficado irritadinho com a “controlada” de seu amigo. sentiu- . era sempre por dois motivos mutuamente excludentes. . . . . . ou estava com raiva.. Melzinho .12 . .Jojóca tava contando mais uma das suas histórias de Camburi junto com o Rocambole. o Pão Pullman e os Seven Boys. . por favor.. Cândida! .Eu tou falando sério. Aquele pedido musicado por entonações e passionalizações formavam quase uma canção. Ou ele estava brincando amistosamente.. . A única coisa que lhe causava algum incômodo era o fato de ser chamada de Cândida. efeito involuntariamente contrário ao supostamente desejado por Réver. . contem a piada..dito isto.... Quem sabe ela não comenta uma ou duas passagens dessas com seus amigos? Vai depender da sensibilidade deste par de trogloditas... . E tinham o poder hipnótico do canto de uma sereia.Ah.desta vez. beleza.Não é piada. ou outro.. utilizando-o como cavalo.Agora que você chegou a gente vai ter que mudar de assunto! . Candinha.mas não vou começar de novo. vai? Eu gosto tanto das suas histórias. Isso lhe rememorava fatos tristes de sua infância e adolescência. Ao menos sobre Jóbson.Jóbson reduplicou a acidez.Candinha tornou à sua visão comum a respeito de Réver e Jóbson: “meninos”. levantou o olhar na direção do rosto da amiga e imediatamente reconheceu um sorriso de vitória sob a nova franja.Calaboca.A gente tava falando mal de você.Jóbson disse isso. nosso incauto navegante.quando Jóbson colocava a sua raba no meio da conversa.Tá bom..

Pra falar a verdade. uma rara sensação. ao imaginar que Réver pudesse estar lidando com a remota hipótese de que Candinha pudesse ter sugerido que ele também era um tosco.Não tinha sido um camarada com um daqueles apelidos bizarros? E desde quando Jurandir é apelido? 3 Está falando sério que veio olhar isso no rodapé? Use a imaginação! =) ... é claro.Não. eu nem lembro mais do que é que a gente tava rindo tanto. e que em seu dicionário.A graça do Valmor eu não sei explicar. o astuto. .perguntou Réver. . com as rédeas da situação em suas mãos. “Por que será?”.. .E nem te chamou...Ah. . desceram do ônibus e foram tomar pinga no primeiro bar que acharam pela frente..respondeu Jóbson. por favor. . desnecessário e. o Jurandir viu a placa escrito Valmor e todo mundo deu risada. E não é que Réver havia acertado na mosca? A garota estava realmente carente. um tal de Valmor. principalmente. mas permaneceu calado. .13 se poderoso.Nossa. sinceramente. sei lá por quê.respondeu Réver. colocar um fim naquele conflito ridículo. . insegura. mas qual foi a graça? É disso que vocês estavam rindo tanto? . Rebinha? Baita amigo esse Jóbson. como você é chato! Seu grosso! . Candinha.. Assim sendo. tá.Candinha levou menos de dois minutos para perder a linha. confuso. .. Jotinha. já que ele resolveu passar um melzinho na bunda3. Réver decidiu.Típico irem tomar pinga. foi um lance engraçado.Aí eles chegaram na cidade. . Já Jóbson pensou mais ou menos assim: “Grosso é a sua raba.. pensou Réver.Ah. que o excluía. este adjetivo servia apenas para qualificar “outrem”.Jóbson sentia uma necessidade psicótica de corrigir. que era a mais confortável para seu pequeno ego. . .Vou contar pra você até onde ele contou. . por bem.. Digamos que Réver jamais olharia para si como um tosco.”.. . e aí? .. . vai. e acharam tudo muito engraçado. um afago. Réver optou pela primeira hipótese. precisando de um agrado.Ele foi com os amigos da faculdade.Jurandir? . O Jóbson viajou para a Camburi com um bando de amigos. Amigos toscos.Camboriú. Jóbson riu por dentro. . sem conseguir concluir a tempo se ela estava criticando Jóbson ou dando uma de sonsa para dizer que ele também era tosco. mas tenho certeza que era de algo muito engraçado.

Nem a pau! . .. cara.Você está muito esquisito hoje.Réver riu alto. . Jota? Não era o Jurandir? .Réver não gostou de seu processo de busca mental ter sido atravessado. daqui a pouco eu lembro. . .Jóbson tentou cortar a linha da pipa de Réver. só isso. para se lembrar qualquer coisa quando entrava neste modo de operação cerebral. “Que bosta..inquiriu Candinha.Jóbson não conseguiu suportar aquele negócio do Réver trocar os nomes das coisas.. no máximo. mas encontrou uma sobrancelha mais erguida do que a outra. como quem chacoalha uma toalha antes de pendurá-la no varal para secar. Desejou vingar-se. tipo Chavasca.. que negócio é esse de Roberto. sua memória era boa. XO-XO-TA. não tem nada de mais este apelido. .Agora você vai ter que explicar esse apelido. O apelido do cara é Jurandir. como vocês são chatos. rapá? Tá me tirando? . pensou Jóbson...pressionou Candinha.Jurandir é o cacete! Era alguma coisa zuada.Chavasca? Por que o apelido do cara é Chavasca? O que é isso? . .14 .. Suor. Saia justa... Fiquei curioso. Rubor.. . VII.... . e lábios espremidos. Réver. daí acabou pegando esse apelido. Sem ter para onde fugir. . Candinha deu a entender que ele deveria proceder à explicação. Com um movimento seco de sua cabeça. ..”. Ao contrário do que ocorria com a principal de suas faculdades cerebrais. O Roberval tinha a língua presa.Meu.Xoxota. que jogou a franjinha para o ar.Isso! Xoxota! Estava na ponta da minha língua! .Pode crer. com a cara cheia de interrogações. . Roberval sensual .Réver mordeu o beiço e rugas se formaram em sua testa. Candinha! Você falou Jurandir antes.Jurandir. Jóbson procurou abrigo nos olhos de Candinha.Que Roberval. A experiência diz ele que geralmente levava de 3 a 5 minutos. .

Quem é exibido?! .Caraca. achava que tinha uma bunda atraente. que achava que o raciocínio dos amigos era defasado demais em relação ao próprio. Réver nunca perdia a oportunidade de dizer isso. . e que anda se rebolando. Agora tentem imaginar um sujeito que já tem uma traseira "avantajada". que estava com saudades. A gente achava que ele tinha uma bunda grande. Voltando ao seu clone.Réver se exaltou. Candinha.e piscou para Jóbson. Tanajura. . O Roberval era um cara meio exibido.15 "Às vezes vocês me cansam. pensou Jóbson. . sempre que reconhecia naqueles dois quadrúpedes o mesmo fraterno amor de sempre. hein? . Os amigos abriram um sorriso.É verdade. . Candinha. Popozudo. além de ser aparecido. com ciúme.Você é exibido PACAS! . os meus amigos são todos zuados. por sua vez. . que por mágica se animou novamente. mas era um pouco menos capaz de exprimir tais sentimentos. ficava contente ao perceber (através deste tipo de comentários) que seu grande amigo sentia falta dele. e se alegrava duplamente..Jurandir é outro apelido. lia a situação toda pelas entrelinhas. seus amigos são todos zuados mesmo. Jóbson continuou. Jóbson.O Roberval. . Você está coberto de razão..Agora cala a boca que eu quero ouvir essa história. por crer que a mulherada ia pagar um pau.Candinha também tinha irmão mais novo e sabia muito bem o prazer que era fazer este tipo de manipulação.Que sacana! Bela irmã essa. Um meio sorriso se formou na face ruborizada de nosso encurralado colega. e a irmã mais velha incentivava ele.Ele falava que tinha visto em revistas femininas da irmã que a mulherada gostava mesmo era da bunda dos caras.". .Candinha confirmou o óbvio. etc. O que ele não levava em conta era o fato da quantidade de informações novas que ele trazia a cada vez que abria a boca. Vou contar a história antes de vocês me encherem o saco. . Chamava ele de Cadeirudo. por sua vez. Réba. Joba.. hein... Tipo o Réver. Jóbson sentia o mesmo.. . - . . desarmaram-se.

seu viado! . . .Humilhou.Candinha havia recuperado a candura. . mas não é língua presa. .Não tem nada a ver.. o amor fraterno..Xota! . . é outra coisa. . .Pouco importa.perguntou Réver. .por milagre.. Jura.Ih. De Xota pra Xoxota foi naturalmente.disse Candinha. Jota.É verdade.Ecrético é o seu rabo! .Meu clone é o cacete. Candinha e Réver não mais o interromperam.. e passou a narrar os acontecimentos ao seu velho estilo. eu não sou um cara limitado igual a muitos que tem por aí. . zuando o jeito dele de falar. ..Depois? Depois de Tanajura.Sacanagem é dar um apelido de Xoxota pro cara.. . Jojoca? . Jóbson não se sentia mais forçado a dar depoimento..Daí o Jurandir virou para mim e me chamou: . acabou virando Jura e depois Jurandir. Nóis é ecrético. assim como a Candinha faz até hoje. .desafiou Jóbson.. virou pagodeiro agora..16 .provocou Candinha. pagodeiro. Os três riram juntos e o clima se amenizou..disse Réver. Tanajura. .. ..Nossa. . . . decepcionou. Jotinha. O que tem a ver Jurandir com Xoxota. daí o apelido que pegou mais forte desses todos foi Tanajura. Na época todo mundo me chamava de Jota.E não tem nada a ver com xoxota.É o que então? ..Ainda queremos saber do Xoxota. e o Jurandir me chamou." .ah. .Jóbson fazendo escola.Eu falei que não tinha graça nenhuma.Sei lá o que é. ou até mesmo funkeiro. Daí os caras racharam o bico e o cara ganhou um novo apelido: Xota.Então. Réba. e falei "Fala aí. imbecil. por causa da sacanagem. O cara tinha a língua presa.. . O lance é que na hora eu só brinquei com ele. eu esperava mais de você.. . em Réba? E depois? .Isso não é língua presa. Jóba? .. que me ama.criticou Candinha.. sei lá fazendo o quê.Não... e isso vira um fanatismo.Mas quando eu cheguei vocês tavam rindo tanto. . . vocês é que me forçaram contar essa história.Réver ficou verdadeiramente decepcionado. que graça tem essa história? . Xota". Daí neguinho sempre que via o Tanajura passando na rua. que são metaleiro. Um dia a gente tava na rua. cantava aquela musiquinha pra sacanear: "Tana. Jotinha..

TEMOS PASTÉL PIZA . Para a sorte de parentes.Desce mais uma aí.4 REAL PAUMINTO . . Embora como executor das sentenças tivesse misericórdia demais e memória de menos.3 REAL QUEIJO .2 REAL CAMARÃO . punindo-lhes pelos crimes hediondos da interrupção e do assalto de turnos. Incrível. .. cara! . não por acaso. para punir ele não tinha misericórdia. agora você já sabe mais ou menos onde a gente estava. então vou retomar de onde eu parei. para apenas aqueles dois habitantes do universo. amigos e inimigos. mas para finalmente contar sua história.gritou Jóbson. as punições que ele lhes infligia geralmente mais lhe afetavam que aos réus de seus julgamentos. Souzinha! . Magrão. logo avistou uma placa escrita em dialeto. . ou seja. Ele deu toda a pinta de que usaria novamente de uma de suas vinganças padrão. com a maestria de um mímico alcoolizado. Pastél de camarão Não sei se você chegou à mesma conclusão que eu cheguei quando Jóbson me contou esta história.. Candinha. . mais ou menos assim. Achei que ele se negaria a contar a história para todo o sempre.Pode crer. termina a história do Valmor aí.Jóbson desenha no ar com as mãos. segundo a descrição: .Réver se lembrou do nome certo do bar. mas da minha parte. que era um grande comedor. A tal placa. fiquei surpreso quando Jóbson pediu mais uma gelada. como se os amigos fossem conseguir enxergar a imagem que ele tinha na mente.É pra já! VIII. esticou a noite na padoca mais algum tempo.Então.2 REAL . Uma daquelas infantis-egocêntricas.17 . Ganhou muitos pontos com Jóbson. nem precisava de memória. e para o azar do vingativo Jóbson.

Réba. Jóba! .Magrão é só apelido.Aposto que é gordo! . chacoalhando a cabeça para um lado em movimentos rápidos e eu diria que um tanto nervosos. ele pressupunha que todo e qualquer ser humano ao seu redor. assim como Candinha. ficou tão desconcertada que ficou sem saber o que dizer. interrupções para risadas. . . . também não entendeu a frase como elogio? Acontece nas melhores famílias. tudo bem. e manterei o foco na narrativa corrente. “Por isso é que eu gosto de você. . .admirou-se Candinha.Daí todo mundo se animou pra comer “PASTÉL”. Por conta disso. Quer saber o porquê? . o quê? Você está me dizendo que assim como Candinha.elogiou nosso gauche Jóbson. Eu mesmo pedi dois “PASTÉL”. Todo mundo pediu pastel. Candinha.arriscou Candinha. desacreditando. de sua convivência.acrescentou. . Por mim. . Magrão pediu três: carne.disse Réver. mas tenho certeza que nosso filósofo Jóbson se decepcionaria com você. mecanismo sine qua non da evolução de toda e qualquer linguagem natural.Violento esse Magrão. hein? . você também não assistiu a versão dublada em português do filme Rio. pois são infinitos e aparentemente insolúveis os problemas educacionais deste país. para Jóbson. porque você não fala coisa com coisa!” . bauru e queijo. Interessante observar que. como você é tosco.Réver levou as mãos à cabeça e se debruçou rindo sobre a mesa.Se supera a cada dia na arte de meter os pés pelas mãos. e certo preconceito desapercebido e não intencional contra a homossexualidade e a variação linguística.Jóbson deu um sorriso irônico. Candinha.18 CARNE .Nossa. por sua vez. gargalhadas e repetições de suas palavras por meio de bocas sorridentes não estavam previstas em seu código penal como crimes contra a contação de histórias. Como sempre..2 REAL BAURU . creio que provavelmente. um de “PAUMINTO” e um de “PIZA”. . com dobrinhas voltando a habitar o canto esquerdo de sua boca. né? .E magro de ruim.. possuía a mesma bagagem cultural e dispunha da mesma erudição que ele. Jóbson prosseguiu com a história.Na mosca. . Compreendo perfeitamente. .2 REAL “FIADO É FOCÊ” Após muitas risadas.

para gelar a goela. pensou. nada. “psiu”. resolveu deixar de lado os maus costumes. . . que era mais atirado. ela era excelente. Candinha! Impressionante! Já pensou em ser atriz? . e uma garçonete.. “ei. que não compartilhava tanto assim dos costumes gastronômicos do amigo. monossilábica. . encostada em uma parede. E também o comedimento.brincou Jóbson. aquele par de avelãs não havia sequer notado a piscadela. o primeiro pensamento que surgiu na mente de Jóbson foi o previsível “Vou meter o pé é na sua raba!”. . A menina olhou para ele com uma cara de desprezo de CI-NE-MA. “ou!”.Não. o problema é que mesmo havendo mesas no local. e se virou para o outro lado! . .19 Como sempre. pois olhavam através de Jóbson.. muito pelo contrário.Então. . Temporariamente. praticamente fingindo que nada estava acontecendo ali. Até aí tudo normal.Restaurante podre é tudo assim. mas como ele estava super bem humorado. coisas do tipo. Infelizmente.Uma cara muito parecida com essa sua aí. que eram o signo da resposta afetiva positiva por parte da amiga. digamos assim.resmungou Réver. Jota? Cara de desprezo de qual atriz? De qual filme? .empolgouse.”. . mais. ele era tão gordo que a gente chamava ele de Magrão. a mesma permanecia alheia a tudo. Jóbson. . o inoportuno. resolvemos pedir também umas tubaínas. Bom.Candinha tentou derrubar o amigo. . Após pigarrear forçadamente. extrovertido. “Pela paz mundial. ele prosseguiu: . e ficou cerca de oito segundos esperando a ocorrência de uma espremidinha naqueles felinos olhos. graças aos amigos estarem ouvindo sua história atentamente. começou a fazer uns “psss”.Péssima.Já vi que a garçonete devia ser péssima. o Subáco.não tenho palavras para expressar o prazer que arrebata Jóbson quando ele fala sobre tal excelentíssima garçonete. Piscou para Candinha como se ela tivesse compreendido a mensagem que cifrou indecifravelmente.É mesmo. claro. .respondeu Candinha. já que o calor estava de matar..Mas é isso mesmo. O agora translúcido Jóbson achou que seria bom continuar a história. a melhor que já vi! . ei”.. como quem está mergulhado em profundo pensamento.

por sua vez. resolveu tratar a moça como um cavalheiro.. já voltara a ser uma criança de cinco anos de idade que chora porque seu pai se escondeu atrás de uma árvore. Depois reclamava que quase todos o deixavam falando sozinho. . Mas não pense você que por ela dizer neste momento que tem que ir embora “daqui a pouco”. Enquanto Candinha apenas se tocou que precisava deixar o local em breve. o Orelha.A gente ficou. no porão mais profundo de seu labiríntico caracol emocional.Bom. Jóbson castigava seus mais fiéis ouvintes com piadas infames. um avental que parecia mais de mecânico do que de garçonete. que até agora só estava ouvindo.sim.Vai logo. até a nossa mesa. Eu adorei aquela cara de má da menina. desprezando cinco potenciais clientes de uma vez só! Totalmente contra o sistema! . olhou feio para o Oréba e mandou um “QUÊ?”. No longo caminho. com um par de perninhas de saracura. indignada. . Se estiver pensando assim. Jóbson. “senhoritas” e outras cavalheirices.Que bosta. por exemplo.Eu levantava e ia embora na mesma hora. termina logo essa sua história. .Ele a chamou com toda a educação do mundo. Dessa vez.Jóbson riu sozinho. Digamos que ela era um pouco mais . cheio de “faiz favores”. claro.Isso porque você é um burguês de merda comedor de lixo. só vocês mesmo. . ela fez questão de dirigir o olhar para todos os lados.Eu.retrucou Jóbson.. E esse negócio de inventar compromisso inexistente e ir embora após qualquer desentendimento estava mais para Jóbson do que para Candinha. estava por um triz. e veio lentamente. está duplamente igual ao Jóbson. ela está tentando punir nosso ornitólogo de boteco.. Sem falar que daqui a pouco eu tenho que ir embora. ... e nada mais do que isso. que já tá ficando comprida demais. Candinha não deixava este tipo de bobagem interferir em seus relacionamentos. mas desgrudou o avental plastificado da parede onde estava encostada como uma ostra. Garçonete do ano . . de cerca de 5 metros.disse Candinha. Quando finalmente chegou perto. Candinha. né? . . Jota. hein. desaparecendo da existência para todo o sempre.20 IX. . . uma mocinha que aparentava uns dezesseis anos apenas.... Imaginem só. Eu iria procurar um McDonald’s na hora. como uma lesma. ela olhou com a mesma cara de desprezo. . Jojoca.Candinha não havia falado em momento algum que tinha horário para ir embora. menos para nós.

claro.”. descobriu que o pastel dele era de camarão. e abriu as garrafas na mesa. Todas fechadas. e sem olhar para a nossa cara. e respondeu que “é só morder.. ué..Beleza. mas também não anotava os pedidos. mais três tubaínas grandes. essa saracura. porque estavam todos maravilhosos. ela nem olhou pra trás. eu mesmo falei “ei.”.e ela somente respondia “HÔ.. mas todo mundo ficou animado quando aquela bandeja veio fumando da cozinha. depois seguiu andando. Parecia até médico da triagem de hospital particular. Eu ri. Ela mal deixou na mesa. Por mais incrível que possa parecer. . calor e impaciência. . ela simplesmente virou as costas e sumiu para dentro da cozinha. cada um pegou um pastel e saiu comendo. “Deve ter boa memória. . ei. mas até aí. A menina literalmente largou a bandeja na mesa e já foi virando as costas sem dizer nada. não. Jurandir também. “HÔ. “HÔ. Tudo sem pressa nenhuma. e a gente já tinha matado toda a tubaína.“Finalmente!”. ninguém nem quis saber de mais nada. Parecia que a qualquer momento ia saltar alguém fantasiado de gorila de trás daquele balcão engordurado. ela voltou com um abridor. Todos rimos. Ninguém . vou acelerar então. Oréba também. . notou que algo havia ficado grudado em seu lábio superior e limpou a boca com o dorso da mão direita. sem entender nada. A gente já tava derrubado de cansaço. ninguém se importou. A pimenta que tinha num frasquinho sem rótulo também estava deliciosa. ela voltou com as tubaínas. daí ela olhou pra trás e fuzilou o cara com um olhar terrível. Com a fome que a gente tava. Ninguém pegou o pastel que tinha escolhido. O cara ficou meio sem graça e a gente ficou calado. por força maior -. . deliciosos. mas antes dela sumir de novo na cozinha. como a gente vai saber os sabores dos pastéis?”. ambos os amigos pensaram simultaneamente. mocinha?”. não queria saber de nada. Depois de todo mundo fazer os pedidos. quando o Subáco chegou no recheio. Jóbson então matou a cerveja do copo. se sentindo já meio que em uma pegadinha daquelas bem fuleiras do Sérgio Mallandro mesmo.. A gente já tava achando tudo aquilo muito engraçado. Acho que demorou cerca de meia hora pra chegar os “PASTÉL”.retomou Jóbson. O Magrão deu risada e falou “você não vai abrir pá nóis. . Jóbson resistiu à tentação de fazer a piada do “litraço”.e neste momento.21 madura do que o amigo. já que você precisa ir embora. Nenhum dos três percebeu que o corpo sem vida de um pernilongo suicida agora descansava em paz na destra de Jóbson.Daí a gente começou a fazer os pedidos. Não queria saber de conversa. Pouco depois. já virou as costas. Uns dois ou três minutos depois. que no final das contas era cerca de dez “PASTÉL”.

Assim mesmo.exclamou Réver. Principalmente o de camarão.Jóbson interrompe a história por alguns segundos. Eu acho que a partir daquele momento todos nós já tínhamos decidido pelo inconsciente coletivo que aquele boteco seria o nosso quartel general em Camboriú. e que se a gente errou nos pedidos. levando em conta os SETE pastéis de camarão. que a gente era só estudante e que “nunca pedia os bagulhos mais caros”. e a gente voltou pra mesa e detonou todos os pastéis. . tomando as rédeas de nosso amigo gourmet. e quem o conhece bem como eu.. e ela respondeu que não tinha nada a ver com isso.22 tinha pedido camarão.Candinha revirou os olhos.. . Super bem recheado.A gente olhou uns pros outros.Ela falou que “vocês pediram camarão SIM!”. o que vocês fizeram? . Três minutos depois. Argumentei que não. . rachando de rir. .disse Candinha. ia ter que comer e pagar. Chamamos a garçonete na hora. Eu só falei um “Beleza. e pergunta já de cara feia: “QUÊ?”.Jóbson fez suspense.Foco! . .Afe! . . uns camarões graúdos . lutando contra um riso quase incontrolável.. Até que não saiu tããão caro.E aí.Depois de matar os deliciosos pastéis. que mais parecia uma ordem do que qualquer coisa.O que ela disse? .Com certeza não foi “me desculpe”. Informei à mocinha que dos cinco pastéis que experimentamos. . porque o pastel era muito bom.. .Réver ficou curioso.” pra ela. Nosso sentimental amigo prosseguiu. indignado. fizemos a conta na ponta do lápis. .disse Candinha. três eram de camarão.Como assim. .os olhos de Jóbson brilharam. então. percebe que ele se emociona e chega a ficar com os olhos marejados ao relatar tal constatação. e ninguém tinha pedido de camarão. . . cara? . meio que se entendendo sem falar nada. Cês conseguem imaginar qual foi a resposta dela? . . ela vem naquela pressa de sempre.rachamos a conta e deu mais ou menos uns oito mengueles pra cada um.

Foi praticamente instintivo. esta foi a primeira vez que Jóbson viu o sempre respeitador amigo falar assim na presença de uma mulher.Perdão. foi automático! ..Como você é PORCO.. o pequeno Jóbson e seus amigos faziam campeonatos de chuvinha. . Na verdade.Foi mal. fez uma chuvinha aqui do meu lado. quase pegou em mim! .. Sempre que Jóbson se recordava de um sabor saborosamente saboroso. foi mal.. Enquanto o Chico Buarque fazia concurso de “pipoca”. e Candinha sabia que muitas vezes era involuntário mesmo. cara!! Vai se ferrar!! .. não sei o que deu em mim. Réver?! . No ar. “desde que passou a trabalhar naquela empresa nova e começou a andar com aqueles playboys”. esse cara é bizarro. Réver não era de usar este palavreado tão desrespeitoso com ela.Tá bom.Candinha se sentiu ofendida com a falta de decoro de Réver.. . se afastando do amigo e figindo que iria enfiar-lhe a mão na cara de verdade. . Tá olhando o que.QUASE pegou em você? Larga mão de ser fresco.Que é isso.Jóbson também estranhou o chilique de Réver.Réver perdeu a linha. em forma de jato. Herança da escola. . cara.Candinha ficou indignada.... .Foi mal. tá bom.. Amo vocês Jóbson tomou fôlego e prosseguiu: 4 Chuvinha era o apelido carinhoso de Jóbson para uma salivação violentamente ejetada com a boca aberta. . o jato se expandia em infinitas gotículas. . que caíam gentilmente como sereno sobre uma área de cerca de meio metro quadrado. . Ao contrário do bizarro Jóbson. X. Coisa de moleque. ele mandava uma chuvinha instintivamente. Réver estava mudando... junto aos colegas. Ficou pior para ele. Jóba? Termina a sua história aí! . Candinha. Réver! Tá suando de saber que o Jóbson faz isso e vai dar chilique agora? .Automático é a cabeça do meu pau! .. segundo Jóbson. Candinha.Jóbson tentou se retratar. que sempre fazia chuvinhas.vociferou Réver. Candinha não notou e por isso não entendeu o que aconteceu.Jóbson virou para o lado e fez uma chuvinha4.23 .. Na escola ele se escolou nesta arte.

lógico! .adivinhou Candinha. Subáco quis dar uma de xavequeiro e achou que se dissesse que achava que ela tinha dezesseis. e principalmente para a sorte do Oréba. Vejam bem. . . o Subáco . xingando a gente de “vagabundo”. Márcia ficou irada! Falou assim: “Você tá dizendo que eu tenho cara de velha? Eu só tenho quinze anos. Ninguém tinha quebrados no bolso. o comportamento não era de adolescente. ela iria se ofender. e não ao amigo tosco do Jóbson. com seu sorriso galanteador de terceira.Aposto que a história não termina aí. “moleque”.. A verdade é que no fundo. ao que ela respondeu com outra pergunta: “Quantos anos você acha que eu tenho?”. e falou que “depois a gente divide” 5. Para a nossa sorte.E aí.24 . Foi para os fundos do botéco. 20 e até 50 reais pra pagar sua parte.Tem gente que não sabe ficar quieta. Réver esboçou um sorriso. sim. Magrão? . e vinha voltando com uma vassoura. . o que ela fez? Deu um tapa na cara dele? Quase isso. gritou assustadoramente pra ela ir pros fundos. e quis saber mais: “Quantos anos você tem?”. Candinha abriu um sorriso e falou: .” foi a resposta. Orelha riu na hora e falou “como assim?”.”. Mas não explicitamente. Todo mundo passou no banco e sacou dinheiro no caixa eletrônico antes de viajar. A coitada correu corredor adentro.”. ele quis ser gentil com Candinha. afinal.como Valmárcia! .Bom. ela não disse que não tinha troco. não se conteve e meteu o bedelho: “Parece que tem 60. entre outros. “Márcia. daí Orelha. arrancou a vassoura da mão dela. Enquanto todo mundo tentava segurar o riso. A cara do Magrão foi impagável! A gente assumiu que aquele devia ser o tal do Valmor. bem lá no fundo. resolveu pagar a conta sozinho com a nota de cinquenta dele. que eu acho que era pra varrer a gente dali. e chorando de soluçar. e pelo amor paterno demonstrado pela Márcia. O Magrão ficou com tanto medo que mesmo sendo mão-de-vaca. vou fazer dezesseis daqui a três meses!”. o velhão veio acertar as contas com a gente. .e estava se referindo à garçonete. Belos amigos. Tem que economizar as histórias.sem ela saber. 5 Ele não recebeu um tostão se volta. na hora de pagar. em alto e bom tom.A de hoje. Subáco foi além. Jotinha? . então passamos a nos referir a ela .que já estava derretido . hein. “Vinte.. A mocinha simplesmente respondeu que não ia dar troco. com a vassoura na mão. né. respondeu Subáco. Caixa eletrônico não dá trocado.Jóbson dissimulou. um velhão alto e gordo veio atrás dela. orelhudo que era. cada um chegou com a sua nota de 10. concluímos que ela era filha dele. Em seguida.perguntou o nome a ela. meio que tropeçando nas pernas. mas que não ia dar troco. A menina nem olhou pra ele.

Normalmente rachavam a conta. . você é um excelente profissional. sem dizer nada a ninguém..Oxe! Eu digo obrigado. cortou o cabelo. seu menino! . . que bicho te mordeu? . pode passar a régua pá nóis..Bitoca também reparou na moça. foi? . Réver? Cê nunca foi assim. meio desconfiado pelo elogio tão repentino por parte de um Réver que ultimamente não vinha falando muito mais que “Salve.. Foi até o balcão e cumprimentou o Pit-Bitoca: . Réver foi direto até o caixa e pagou tudo sozinho. .Souzinha. que negócio é esse de pagar a conta sozinho e sair correndo? E a brodagem.Vão querer mais alguma coisa? . Tou chegando um pouco mais cedo todos os dias pra impressionar a chefia. . Após Souzinha fechar a conta. Parabéns. Tá ficando cada vez mais distante. chega uma hora que cansa. . por que isso agora? .. Réver se levantou. Candinha tem horário hoje. Quando alguém estava sem dinheiro. O cara não era assim. Nunca houve discussão de dinheiro entre eles.Sei lá..Pode crer. .Pessoal. dividir . . . . rapaz. ..Verdade.Que pelegagem é essa.Candinha engrossou o coro.. Révis. Amanhã eu tenho que estar cedinho na empresa. . . isso tá me deixado muito preocupado.Bora nóis também.Que cara é essa? .Candinha tá faceira hoje. Foi a primeira vez em anos e anos de botecagem que isso aconteceu..com essa reticência toda.. .. tou indo nessa. “Boa noite.Fui! .. Souzinha” e assemelhados.questionou Candinha. acho que eu cansei de ser moleque..Não. Mas também nunca houve alguém que saísse pagando tudo desta maneira... um pescotapa no agora encafifado Jóbson e se mandou.agradeceu Bitoca. achei que tinha tingido o cabelo... onde é que fica? E o lance da gente compartilhar as coisas. revezavam entre si quem pagava um pouco a mais ou um pouco a menos.. Réver deu um beijo na testa branquela de Candinha.O Réver tá muito estranho.Bora. Quando Réver voltou para a mesa. nem tinha reparado. foi para se despedir.25 Enquanto isso. Jotinha? ..Tá de franjinha.questionou Jóbson. seu menino. Souzinha”.

Jóbson deu um abraço apertado em Candinha.Entendi. De repente é só até ele se adaptar na empresa. injetadas diretamente na cachola através de fones de ouvido. havia uma pessoa em processo de auto-descoberta. Mas vamos ver até onde isso vai. Jóbson sentiu uma espécie de insegurança naquela despedida. mesmo sendo um cara avesso à auto-promoção. De uns tempos para cá ele vinha notando o quanto procurava chamar para si as atenções. o quanto sentia necessidade de ser visto e ouvido. para usar termos do dicionário do próprio Jóbson. pegou mal. ao menos na superfície de seu discurso.. não é agora que ele tá super empolgado com esse trampo que a gente vai jogar esse balde de água fria nele. Jóbson se sentiu egocêntrico.26 tudo? Será que agora que ele tá trabalhando naquela multinacional ele tá se achando superior? Tá olhando pra gente de cima pra baixo? Que fita. Como se cada um dos três fosse seguir seu caminho para direções que não mais se cruzariam.. Também notei que ele tá meio diferentão. e quando notou. Ele reconheceu o vulto de seu pai diante do brilho azul da televisão. né? . . Uma espécie de intuição. dos Dead Kennedys. como sempre fazia. Depois um beijo estalado em sua bochecha.Pode ser. Puxou o varal daquele ônibus vazio de pouco antes da meia-noite. De novo. Era como se aquele encontro estivesse marcado inapelavelmente como um divisor de águas. ao contrário de Réver. Jóbson colocou para tocar uma de suas prediletas em seu tocador de mp3 de quinta categoria: Life Sentence. não pareceu compartilhar do mesmo clima de Jóbson. mesmo havendo apenas uma única pessoa diante dela. Candinha deu um beliscão de brincadeira na bochecha do amigo. Ele deixou a música se repetir umas dez vezes em sua mente. .. Por trás daquela aparência de doidão. já estava próximo à sua casa. pode ser. de moleque.. Já Candinha. Vamos dar essa liberdade a ele. A luz da sala estava acesa. A caminho de seu ponto de ônibus. que até mesmo se esqueceu de perguntar a Candinha qual era a novidade que ela tinha para contar. Candinha. localizado na direção oposta do caminho para o metrô que Candinha percorria neste mesmo momento.. A gente nunca foi controlador. Ao terminar de falar estas palavras super animadas. Jóbson acabou ficando tão paranóico com a nova postura de Réver. Ele reconhecia que acabava tentando trazer as atenções para si de maneiras heterodoxas. que sempre fora exibido e aparecido. Jota. de palhaço. e disse o mesmo “amo vocês!” de sempre. muito em breve.. e saltou para a calçada quando o ônibus abriu a porta.

soando um tanto grosseiro.disse Jóbson. ouve a voz grossa do pai: “Chegou mais cedo hoje. seu pai engrossou a voz. que ele descobriu que o ritual de “chegar em casa” era “fator higiênico” de seu bem-estar. Jóca? O que houve?”. “Vem cá que eu vou te contar. nada. não parecia ser nem um pouco agressivo ou contundente.27 Jóbson gira a chave na fechadura. Sempre que ele chegava tarde em casa durante a semana. com os dias tendendo ao infinito. O sertão vai virar mar . dentre outras atividades próprias do seu “chegar em casa”. . Jóbson reconheceu o mau cheiro do mal-entendido se espalhando pela casa. No limite da somatória do número de vezes que Jóbson havia ouvido esta frase. . e ao abrir a porta. pai! Esquece! O que você tá fazendo acordado até essa hora?”. roda a maçaneta. seu pai o recebia com este tipo de ironia. em função de sua relação com o pai. referindo-se a seu ritual cotidiano de largar a mochila num canto. ou seja.daqui a pouco eu volto aqui. e mudou de assunto: “Ah. ele respondeu ao pai. o rapaz acabava por ficar incomodado. a frase acabava carregando algo de momentos ruins antigos e novos. “Não sabe ainda que eu não tenho aula de quinta-feira à noite? Tá parecendo o Pit-Bitoca!”.Deixa só eu “chegar em casa” primeiro. filho. pronunciando as sílabas mais alongadamente. Circunstâncias que alteravam para Jóbson as cores destas mesmas palavras perfeitamente repetidas por seu pai.”. sem nem mesmo saber o porquê. . . Olhando de fora. XI. Jóbson se preparou psicologicamente para uma longa noite. “Como é que é?”. Foi à custa de muita auto-observação sociocomportamental. tirar a camisa e jogar no cesto de roupa suja. O caso é que Jóbson estava ainda pilhado com as novidades de Réver.Se não executasse alguma das atividades previstas em seu script habitual quase inconsciente. Quem sabe em outro momento não faço algum relato a este respeito. Até que ele não era tão bobo. Parecia ser a mais normal das bricadeiras. Lembranças de chegadas em casa após noites desagradáveis que agora não vem ao caso. depois os tênis e as meias e largar em algum canto.

era a sabatina que seu pai lhe fazia em todas as refeições: “Gostou?”. apenas uma panela ou forma era utilizada por dias e dias seguidos. Economia era a palavra de ordem. a comida de seu pai não era das piores. ou então cortar com uma colher aquele manjar de banha de porco e comê-lo com garfo e faca. Jóbson se pegava pensando se não seria melhor falsear suas impressões quando sabatinado pelo pai. Não de obra-prima ou de dinheiro. mas Jóbson sabia que quando levantasse a tampa da panela. mas a conclusão era sempre que não. O pai de Jóbson tinha algumas manias. sem se esquecer de nenhum dos passos. enquanto fazia cocô. Isso causava certa fadiga. Uma delas era repetir por vários dias determinada receita. filho. preto e branco.Vai lá. “Está bom de sal?”. sentado na surrada privada de sua casa. Não foram raras as vezes em que optou pela segunda. Ele já sabia também que teria duas opções para se servir: ou acender o fogão e esquentar a panelada mais uma vez.28 . Após traçar seu circuito ritualístico. Um aprendizado extraído da observação e de sua militância pessoal contra a fadiga. “Por que pegou tão pouco?” etc. Jóbson não ficou surpreso. assim como o filho. a menos quando ele errava a mão no sal ou no óleo. por não possuir cromossomos clonados de seu pai. por haver impureza genética proveniente também de sua mãe. as papilas gustativas de Jóbson não eram cópia fiel das do pai. “Percebeu a diferença no sabor. “Para que sujar mais do que uma panela?”. logo pediu que o pai lhe adiantasse o assunto. Por sorte. castigou a gororoba com pimenta. de ontem para hoje?”. Geralmente. segundo o próprio Jóbson. Tem comida fria no fogão. “Só vai comer um prato?”. Jóbson foi até a cozinha. Fazia pelo menos uns 10 dias que seu pai mantinha vivo o panelão da feijoada. veria ao menos três naipes de feijão ali dentro: carioquinha. serviu-se fartamente. ou seja. mas de esforço. Feijoada de feijão branco. esta resposta em forma de pergunta retórica era uma lei escrita em pedra. e foi para a sala. Para complicar ainda mais a dura existência de Jóbson. mas compartilhava do espírito do pai do “Para que sujar mais do que uma panela?”. pegou uma colher que encontrou igualmente sobre a pia e parecia estar limpa. Jóbson nunca havia percebido. A novidade era o tal feijão branco. pegou o prato largado na pia que seu pai provavelmente usou para comer cerca de cinco horas antes. aqueceu o panelão da feijoada. Ao se sentar no sofá e se acomodar com o prato na mão esquerda e a colher na direita. Muitas vezes. esta “completamente absurda”. . hoje. O fato de Jóbson detestar a mentira piorava muito as coisas. Outra mania.

Inventava mil e uma soluções para tudo. descrente.Ué. .ironizar parecia ser uma forma que Jóbson encontrava para tentar rir das piores situações. terá uma barcaça enorme atracada a certa distância do litoral nordestino.pausa retórica. tive uma ideia que vai solucionar o problema da seca no sertão. Por força do destino.. não diga bobagem. você já não tinha solucionado a seca no sertão umas duas semanas atrás? .… ao contrário de você. Estas introduções eram capazes de assassinar as mais sinceras ganas que Jóbson tinha de dar atenção ao pai.Desta vez. pai. eu tive uma ideia fantástica.É assim. então? O pai de Jóbson era um grande inventor. que vai bombear imensas quantidades de água.O negócio é o seguinte.É mesmo? E como é isso? . .Como assim. . que está sempre de papo para o ar. . e reservava-lhe certa paciência que economizava com os amigos e colegas de trabalho e faculdade.segundo o grande inventor . Ali mesmo. Jóbson amava verdadeiramente o pai. Se Jóbson fosse o Robocop.perguntou Jóbson. . para solucionar a fome. até hoje nenhuma de suas invenções havia encontrado algum empresário “homem o suficiente” .29 .Ahhh.. sua diretiva um não seria “servir a população”. Eu sou um vagabundo mesmo.para bancar a produção dos inventos. . Coisa que até Deus duvida. Que grande orador não era aquele homem? .. “de novo”? .. .De novo? . eu estou pensando em alguma coisa.. sempre que não estou fazendo alguma coisa. .Exatamente. .Não filho.. Com certeza você deve ter pensado em algo muito inteligente que quer me contar. para fazer a dessalinização industrial. Bolei uma máquina que vai bombear água do mar e transformar em chuva. Aquilo era uma ideia apenas para transformar borracha e plástico em adubo. filho. A seca é outro problema. Rindo interiormente. tinha mais leveza para relevar irritações acessórias e “evitar a fadiga”. terá uma unidade de tratamento de água. O negócio é o seguinte. pode crer. mas sim “evitar a fadiga”. filho.Você tem toda a razão. Qual é a bola da vez. Quase todas. .

Inocência infantil Jóbson riu para valer. Jóbson se lembrou de um quarteto que escrevera em uma aula de “Comunicação e Expressão” da terceira série. Numa fração de segundos. “imensas” e “industrial”.30 Quando Jóbson ouvia palavras grandiosas como “barcaça”..Vamos ficar BILIONÁRIOS! XII. A boa e velha mania de grandeza de seu pai.. industrial. . já sentia um familiar desgosto. Tudo para ele tinha que ser imenso. quando deveria ter seus nove anos: “Tem gente que acredita em sorte E aposta em loterias Se tivesse mesmo sorte Não chegaria a esse nível” . Lembrou-se de quando era criança e quando seu pai se via sozinho com ele. pedia para o filho rezar para ele ganhar na Loteca ou na Quina. superlativo. com a mãe trabalhando ou fora de casa.

hein? Finalmente vai comprar um carro zero? . serviriam como indicativo ao pai de que ele não queria ser instrumentalizado daquela forma.10 .Legal. Mas Jóbson sempre foi muito “ingrato”.12 .Um carro zero? Não fale bobagem. .31”. Jóbson deu asas para seu pai voar.22 . “01 . o pequeno Jóbson.. Será que isto acontecia em todas as famílias? Certa vez. sempre que o pai lhe pedia sugestões de números. se encolerizava lhe punia fisicamente. o filho se voltava contra ele. por sua vez.. Ideia que ele ainda não havia explicado direito. por mais que já as conheça. a provável transformação de amigos em puxa-sacos (na verdade um desagradável desmascaramento). falou com sinceridade que não queria que o pai ficasse rico. Gostava tanto que resolveu emprestar sua inteligência para tentar ajudá-lo a concretizar sua grande ideia.2 . Jóbson rezava para Deus nunca premiar o pai. Ele pedia para o filho pedir a Deus por julgar que se Deus existia. o isolamento social que tal nova condição lhe traria. Jóbson não tinha a menor intenção de se destacar financeiramente. educação e regalias.” Retornando de uma viagem de vinte anos ao passado. apenas para ludibriar o pai e evitar novos beliscões sobre os hematomas dos beliscões anteriores.4 . Jóbson os selecionava aleatoriamente. e insistia em entrar acidentalmente na lotérica ao menos uma vez por semana quando estava passeado com o filho. que enquanto o pai fazia de tudo para lhe sustentar e lhe garantir saúde. deveria dar mais ouvidos a uma criança inocente como o Jobinho do que a um velho safado como ele..11 . a possibilidade de ser vítima da inveja e da violência. Nesta época. tudo isso era apenas parte dos motivos pelos quais Jóbson abominava a ideia de enriquecer. Seu pai. inclusive pelas mais sensatas. e era como ele achava que era.5 .21 . Sempre rio quando ele me conta estas histórias. moleque! Vou comprar uma fazenda com no mínimo mil cabeças de gado. Até mesmo quando sugeria números aparentemente intencionalmente selecionados. para que pedisse a Deus que fosse sorteado na Quina. do trabalho perder o pouco de sentido que ainda restava para ele. o espirituoso menino preenchia as cartelas com números tais como “1 . A incrível polarização entre pai e filho.3 . A simples ideia de ter tudo na mão. que rezaria para ele não ganhar..6 7 ”. Jóbson gostava muito de ver o pai empolgado. Criticado pela totalidade das pessoas de seu convívio. . “Aquilo doía muito. A resposta que ouviu foi que ele era um filho ingrato. após sofrer cerca de cinco minutos ininterruptos de assédio por parte do pai.31 Uma coisa que ele não queria de forma alguma era ficar rico. que em sua intuição pueril.

pai. prever estas coisas. com certeza eu já teria visto no History Channel ou no National Geographic! . procurar as melhores soluções. . Mesmo assim.o pai entregou suas fontes. . com grande autoridade no assunto. Faz parte da fase de projeto contornar os problemas. Mas e o lance da barcaça..Como essa água toda seria bombeada para os aviões? Essa barcaça seria grande o suficiente para funcionar como porta-aviões? Ou a água seria transportada para o aeroporto mais próximo através de outras embarcações? Nada disso me pareceu viável. quantos aviões? .. então não tenho nem como dizer honestamente se gostei ou não da ideia! .Mas eu não estou colocando defeito em nada. Jóbson! Fala aí então.Humm.Ah.Nossa. no intuito de melhorar o projeto.Não precisa chorar também. ..esse tipo de coisa magoava Jóbson.É mesmo? Você pesquisou isso? Como sabe que ninguém nunca pensou nisso? .Jóbson questionou sinceramente.Sei.E se muitos já tiverem tentado. Eu apresento a você a oportunidade de se tornar gerente de uma nova empresa e não precisar mais trabalhar. fala sério. quais “detalhes” você ainda não entendeu.disse seu pai.32 . filho. Você pensou nessas coisas ou não? .Isso é fácil! Aviões de pequeno e médio porte pulverizarão esta água no céu do sertão.a ênfase que o pai deu na palavra “detalhes” obviamente era para fazer pouco caso. e o negócio nunca foi pra frente justamente por conta de um grande empecilho? Não seria interessante tentar focar sua contribuição justamente na superação deste empecilho? . .. ainda sem perder o rebolado. só para botar defeito? . doutor! . Jóbson respondeu. como você é ingrato. . como é que esse gigantesco volume de água vai se transformar em chuva? . é só um detalhe. .Não entendeu ou não quer entender. eu tou tentando prever problemas.Ué.Eu não entendi ainda alguns detalhes.Isso não importa agora. Você pensou nessas coisas? .Que empecilho? Não tem empecilho nenhum! Você não gostou da minha ideia? . . . e tudo o que você faz é colocar defeitos na minha ideia revolucionária? . se alguém já tivesse pensado nisso antes. O que importa é que nunca ninguém pensou em usar a água do mar pra isso. pai.

que sempre era muito ativo. Quando seu pai não estava em casa. pela poluição. Já cansei de ouvir você colocar defeito em tudo o que eu faço. Combinado. Jóbson levou o meio prato de feijoada pra cozinha e o despejou no lixo.Bom. XIII. e seguiu assistindo algum documentário enlatado da tevê a cabo que Jóbson nem sequer se preocupou em saber do que se tratava. por mais paradoxal que seja esta ideia. principalmente quando não estava fazendo nada. . mas estavam enganados. Pela Necrópole. sem nem mesmo assimilar conscientemente as informações queimadas em sua retina. você colocou sal demais outra vez nessa feijoada. Perder horas de vida desta maneira era abominável para Jóbson. como filmes ou jogos de futebol. Lamento. Era um bloqueio mental. . Jóbson. que nem sequer respondeu. Depois disso. Jóbson se sentava no sofá. ligava a televisão em qualquer canal e ficava olhando para ela. dando um “boa noite” de passagem para seu pai.Mudando de assunto.a maioria das pessoas.Isso é coisa pequena. não tenho como gostar ainda. . .. muitas vezes não conseguiam acreditar na sinceridade de Jóbson.33 . Ele detestava quando aquilo acontecia. achando que ele era apenas cínico. Não era aquele não pensar em nada do êxtase contemplativo monástico. então ele ficava horas sentado olhando para a TV.Você faz a comida amanhã então. moleque. mas sua mente parecia imobilizada. Após a paralisia . alcançado a duras penas. causado pela estafa. Na maioria das vezes. estava no boteco da esquina com seus amigos.. filho. se não todas. sem pensar em nada. já entendi que você não quer que eu fique rico e por isso vai ficar colocando defeito. Pare de colocar defeitos. Já em seu quarto. e não era raro.Tá bom. O mais importante é que ninguém pensou ainda em usar a água do mar pra resolver a seca do sertão. pela tensão.. exausto após tantos compromissos.Jóbson era honesto “até demais”.. ou seja. . Vou ter que ficar bilionário sozinho. Jóbson se deitou na cama velha. quase não dá pra comer. Às vezes algo lhe interessava. Havia muito o que pensar. pai. Eu já encaminhei a ideia para patentear. Este fenômeno ocorria geralmente quando ele chegava em casa. e ficou olhando para o teto. pai. Adaptação Jóbson voltou direto para seu quarto. cobranças e trânsito caótico. .Beleza. Gostou ou não da ideia? . ele apenas olhava para a TV.

Tudo ficava pequeno diante de tamanha sensualidade. tarde. seu trabalho. a primeira coisa que fez foi tomar um banho. Jóbson acabou dormindo do jeito que chegou em casa. Quando se lembrou que estava a caminho do trabalho. como havia acordado cedo. Não é de se surpreender que tenha mini-colapsos mentais cotidianamente. As agruras ficavam todas para trás. lente de contato nos olhos. seus colegas mais chegados já olhavam sorridentes para ele e sussurravam: “Lombo grooosso!”. Jóbson notou que o trânsito estava pior do que o . sem contar as dezenas de kilômetros percorridos entre sua casa. sua faculdade e finalmente sua casa. Naquele dia. Jóbson se sentiu revigorado. Não é de se estranhar que se atrase. suado e fedido. Por essas e por outras é que a quinta-feira da alienação lhe era importante. Acabou acordando muito mais cedo do que o costume. com tênis. Jóbson ria e seu dia de trabalho começava.. geralmente ele caía no sono. embora todos duvidassem. Acordar cedo às sextas-feiras só poderia ser obra divina. Sua reação foi parar instantaneamente de andar. Agradeceu também por mais um dia de vida que tinha pela frente. Após um longo e relaxante banho. e agradecer a Deus por tê-lo acordado cedo naquele dia. podre e dolorido. sagrada. mesmo após falhar em tantas coisas no último dia. âncoras que o mantinham desperto em meio à sonolência e a loucura desta vida de restrições e punições. E com a lâmpada acesa. Em defesa de nosso heróico necropolitano. o que deveria ser um sinal de que o corpo já havia desligado sua mente. e sempre dizia isso. Naquela manhã. Mal Jóbson entrava no escritório para trabalhar. podemos nos questionar sobre quantos vagabundos trabalham oito horas por dia nas galés de um escritório. Problema seria haver açúcar no café. calça jeans. Naquele dia ele percebeu o quanto seu pai era madrugador. porém. pois o consideravam um vagabundo. e à noite ainda encaram mais duas aula por dia na faculdade. Aqueles raios de sol que ele sentia delicadamente em seu rosto. para conseguir descansar um pouco.. Mas Jóbson não tinha problemas quanto a isso. Jóbson adorava acordar cedo. Os amigos. que era acordar. em sua pele. Vestiu uma roupa que gostava muito. o faziam se lembrar das belezas da vida.34 mental. de tanto levar “comidas de rabo”. Ao sair de casa. Seus colegas diziam que ele tinha o lombo grosso. Seu costume era acordar atrasado. Ele já havia saído de casa e o café que havia feito já estava frio no bom e velho bule de metal. só porque chegava atrasado pelo menos três vezes por semana no trabalho e na faculdade. Jóbson sentiu a luz solar lhe tocar a face. tomou um café com leite frio e foi trabalhar.

a letra do filósofo também se recriou em sua mente. Jóbson se emocionou profundamente. assim. são muito mais elegantes. meu Deus?”. Não tinham mais impressões digitais. e naquela manhã. Aquele andar em saltos ele achava um tanto besta. manacás e eucaliptos. Jóbson adorava observar os pássaros. observou diversos pássaros. Jóbson se recarregava de alegria e paz ao caminhar sob aquelas árvores de casca enegrecida. Cobertas de fuligem. Aquelas radicais testemunhas do caos. Jóbson pôde finalmente tocar e interagir com todas aquelas testemunhas de sua existência necropolitana. Pela primeira vez.. sem emitir som algum: “é verdade. Ao longo do caminho. não tinham mais pele. ele havia lido sobre a coexistência. Certa vez. “Por que tanto trânsito. unhas-de-vaca. que eram sua identidade. quando comíamos um lanche na escola e observávamos os passarinhos que comiam a ceva servida por algum dos funcionários. como suas queridas árvores. Naquelas tipuanas. e achado muito interessante. Jóbson viveu a simples e profunda experiência de estar vivo. Decidiu ir a pé. e sentiu-se observado. ultrapassava os ônibus superlotados e os carros vazios. Mesmo caminhando sem pressa. como o joão-de-barro e os pombos. quaresmeiras. Este tipo de andar era o que mais lhe agradava nos pássaros. ao sentir o cheiro da tensão dos prisioneiros sendo transportados para as galés. se aproximar razoavelmente do bichinho. se sentiu ameaçado.. por fim. se questionava. Brincou de gato com um joão-de-barro. Aquele dia não era para se desperdiçar. e movendo-se quando o pássaro se distraía. Quando. o homem e as coisas”. pôde fazer isto mais detidamente. sentir as diferentes texturas que cada uma delas tinha. Naquele . de forma auto-consciente. o pássaro deu uma corrida de uns cinco metros para longe de Jóbson. tudo coexiste. junto e ao mesmo tempo. era uma dádiva. em contato com o mundo natural. nada existe. Ao sentir sua vida ser recriada literalmente na pele. Jóbson experimentou a autonomia novamente. Seu deslocamento estava agora sob seu próprio domínio. As pontas de seus dedos foram se transubstanciando.”. Seus dedos agora estavam como as árvores. “Estes pássaro que caminham pé ante pé.35 de costume. sem ser arrastado pelo rio de metal e asfalto. ficando imóvel como uma estátua quando o pássaro o observava. amarelos e brancos. Conseguiu. ele me disse uma vez. Ele gostava de tocá-las. além de parecerem mais inteligentes. Jóbson foi seguindo tranquilamente o mesmo trajeto do ônibus. Em contato com a natureza e na simultaneidade que este ato implica. tal como as impressões digitais humanas. muito pleno de sentido. Agora tinham apenas cascas. e balbuciou apenas com os lábios. Ao se sentir mais vivo do que nunca. ipês roxos.

Depois ele seguiu “viajando na maionese”. eram podadas. mais pensador.”. XIV. Jóbson se compadeceu. Ele se imaginou cativo em uma área de um metro quadrado. pensou Jóbson. Assim como não havia plano de carreira no escritório em que trabalhava . mais criativo. “Que vida terrível deve ser a destas árvores. seu ser se alargava. Não teria o próprio Jóbson uma vida miserável como a daquela árvore? Sempre que elas tentavam crescer. mais estrangulado por prazos e com menos perspectiva de fuga. quando teoricamente mais deveria cuidar de si. ao ver a água toda da chuva escorrer para longe. Só sobrevivem os indivíduos melhor adaptados. O olho do observador Havia dias em que Jóbson se sentia misteriosamente mais poeta. De forma brutal e sanguinolenta. há pessoas na Necrópole que possuem os pés adaptados apenas para se empoleirar em carros finos. pela guia. “Como será que se sente uma árvore frondosa como este enorme angico. Jóbson se deu conta de que assim como há também pássaros com pés adaptados apenas para se empoleirar em galhos finos.36 momento em que via o joão correr. quer fossem animais ou outras plantas. pelo asfalto?”. e relacionou as árvores do quadrado aos homens da Necrópole. se emancipava. “Convergência evolutiva.”. trocava mensagens com amigos sobre assuntos completamente aleatórios. ou seja. por mistério. que brota do asfalto. Aquela manhã poderia ser tomada como um bom exemplo disso. este pensamento o afetou profundamente. brotando do concreto das calçadas de modo análogo à flor feia não menos drummondiana. que escorria para longe de sua boca. pensou Jóbson. aquelas árvores estariam em pleno contato com todo o tipo de vida. como seu amigo Réver lhe carimbaria. Nos momentos em que ele estava mais extremamente cerceado pelas circunstâncias. Observando aquelas árvores todas confinadas. morto de sede e com uma torneira derramando água em seu corpo. procurava apoiar os amigos que ele sentia que precisavam de ajuda. Em contato com a própria chuva. sua alma crescia. Em seu habitat natural. como diriam os biólogos. Naquela manhã. Que martírio. pelas calçadas. era aí que por razão que ele mesmo desconhecia. Seu último chefe odiava esta sua faceta. Jóbson era o próprio áporo drummondiano em processo. de mãos amarradas. Quando deveria escrever relatórios para ontem.

como gente para conversar. os tais corneteiros da paquidermia lombar. do que mantê-las distantes umas das outras. ele não conseguia deixar de pensar na linha de raciocínio que vinha traçando em diálogo com as árvores e homens da Necrópole. Ao chegar no escritório cerca de uma hora mais cedo. com chuva ou sem chuva. Ninguém notou diferença alguma em .37 cotidianamente. enquanto jantava. A conclusão de Jóbson foi que nada seria pior. por exemplo . visando limitar os danos causados por fogo. Muitas vezes através de colegas de trabalho e superiores. Jóbson tornou-se menos vagabundo e mais Jóbson. como ele mesmo sempre dizia ao reclamar do isolamento. um pinguim em uma praia tropical. Jóbson percebeu que nenhum de seus detratores. leitor e adepto dos manuais de boas práticas administrativas. um eucalipto australiano em um metro quadrado cercado por dez kilômetros de concreto no coração morto da Necrópole. disparavam um processo que culminava com alterações fisiológicas. Segundo o próprio Réver. Outro dia mesmo. O mesmo deveria valer para os homens.o que era frequente ali. havia chegado. todos aqueles que lhe enchiam o saco por conta dos atrasos deveriam ser os paladinos do alvorecer.melhor”. . se estivessem ao alcance uns dos outros. induzido. portanto. por via aérea. Ele ficou impressionado ao notar de que forma fora conduzido. Quanto mais Jóbson analisava suas condições de trabalho. Em sua cabeça. Naquele dia. “com o rabo plantado em uma cadeira cercada por baias”. também eram capazes de se ajudar. Não por ser vagabundo. manipulado a olhar para si mesmo como um vagabundo. Por outro lado. Essas coisas o faziam se sentir um peixe fora da água. Jóbson praticamente não conseguiu trabalhar. Jóbson descobriu que não era um trabalhador tão diferente dos demais como se sentia após anos de repetidas críticas e brincadeiras. interior e imperceptivelmente. Jóbson havia visto um trecho de um documentário que seu pai assistia.sempre eles . Muitas vezes na direção de evitar a melhoria de seu desempenho. não possuíam nenhuma forma de comunicação tão sofisticada quanto as árvores.descobriram que as árvores se comunicam quimicamente. assim como seu crescimento dentro da própria empresa. que segundo nosso amigo Jóbson. graças à incompetência gerencial -. mais descobria adversidades que aquele ambiente hostil lhe proporcionava. “quanto menos o cara tiver distrações. mas por ter sido arrebatado por uma atividade mental perturbadora. Uma árvore queimada liberava moléculas na área ferida que tinham como função serem colhidas pelo ar e depositadas sobre outras árvores próximas. falando que os cientistas . mas de forma deficiente e problemática. para as árvores. que ao receberem e reconhecerem tais moléculas. Naquele momento. não por não ter o que fazer .

abriu as janelas da alma 7 para ele. Jóbson viu que poderia descer sossegadamente no ponto do restaurante universitário pela primeira vez e se deu ao prazer. em menos de 24 horas. Uma experiência surreal. Ele não havia se dado conta até então.. quando entrou no ônibus. a não ser por alguns comentários como “nossa. O ônibus que o levou do trabalho para a faculdade não parecia ser o mesmo que o levava todos os dias. E sem fumar nenhum cigarro Free. O fantástico e amedrontador poder de “observar“. Jóbson sentiu-se livre pela terceira vez. respostas essas que colheram risos verdadeiros e falsos.”. Sentiu que não merecia aquilo. com tamanha demonstração de poder. Seu papel era ir em pé. ordinário. cujos alimentos prediletos eram torresmo e X-Bacon... e engrossou a voz. Jóbson sentiu pela segunda vez o sabor da liberdade. Extemporânea. como ele tá sério hoje!”. sem dizer nada. Jóbson ficou preocupadíssimo. Jóbson saiu da empresa como entrou: bem mais cedo do que o de costume. “será que resolveu se tornar um bom profissional?”. etc6. “cheguei cedo na sua raba” e “profissional é a cabeça do meu pau”. era um mundaréu de gente socada que não tinha nunca lugar para sentar. 6 Para os curiosos. leu medo no olhar de Jóbson. rodou a catraca e se sentou onde quis.. sem poder se mover. “Que vida de merda. Quando questionado pelo chefe sobre o porquê de sair tão cedo. “Será que a árvores também se sentem assim?”.. as respostas jobsonianas foram: “sério de cu é rola”. e em um momento filosófico apical. Aquilo queria dizer que ele estava livre para fazer o que bem entendesse. onde qualquer pessoa leria um “Grande bosta!”. Seria isto que ele faria. com a mochila entre as pernas e os braços e as costas doendo por ficarem tanto tempo na mesma posição. dizendolhe que ele já estava “sendo observado” e que qualquer pisada na bola poderia ser fatal. nesta ordem. Jóbson fez um sinal de positivo com a mão. O chefe. Virou as costas e foi embora. Jóbson respondeu tranquilamente que era por ter chegado mais cedo. Comer. Jóbson jantaria antes da meia-noite em um dia comum. deve ser por isso que tenho tanta gastrite e azia. O ônibus normal. corriqueiro. “tá se achando só porque chegou cedo!”. e sentiu como se seu pênis gerencial houvesse aumentado em alguns centímetros. de que ficava cerca de doze horas sem comer algo de sustância. e nem era noite ainda. concluiu nosso amigo Jóbson. Ele tinha aula à noite naquele dia. Seu chefe não acreditou naquilo. 7 Os olhos. Jóbson se sentiu culpado por se sentar. Não antes de chegar na Necrópole Universitária e os mortos começarem a descer para suas respectivas unidades. que era analfabeto no que tange à interpessoalidade.38 Jóbson. Pela primeira vez em quatro anos de faculdade noturna.. ele pensou. .

No sentido de comer o pão juntas.Fala aí. como sempre.Cagaram demais! Bando de incompetentes. Aquele restaurante era um local de mistura por excelência. Jóbson achava o máximo que gente tão diferente e com interesses tão distantes pudessem ser companheiras. XV. As roupas e os papos entregavam facilmente de que faculdade eram cada um dos grupinhos de estudantes que ali estavam. . Ele sempre dizia que “aquilo ali era o maior erro que o cretino que isolou cada uma das faculdades em locais distantes dentro da Necrópole Universitária poderia ter cometido”. obra do último reitor biônico. um candidato a reitor que não passara pelo crivo da pseudo-democracia elitista universitária fora escolhido a dedo pelo então governador. Jóbson observou as pessoas que ali estavam. professor Jóbson! 8 Reitoria Biônica era o cargo mais alto da Universidade da Necrópole. . Jóbson cortou muitos metros de fila. Jóbson amava aquele local. Jóbson o amaldiçoou sete vezes quando viu baias separando as pessoas dentro do restaurante.Falaí. O reitor biônico de então era mais biônico do que todos os anteriores. para juntar-se a seu colega chinês de turma. Panóptico Um sujeito que estava bem mais à frente na fila reconheceu sua voz. e de funcionários nada valiam. de alunos valiam menos. Jóbson xingou em voz alta. pois pela primeira vez em toda a longa história da Universidade da Necrópole. que o mesmo havia sido profanado pelo reitor biônico 8. ao adentrar o sagrado templo da miscigenação cultural. . atitude tida por todos os seres vivos da Necrópole como autoritária e ditatorial. O reitor biônico era escolhido a cada tantos anos por um voto desproporcional. . Qual não foi o choque quando Jóbson notou. Dizia isso por crer que o ato de se alimentar no mesmo local e do mesmo alimento aproximava as pessoas. dentro de uma universidade que fora projetada para separar. Os mortos nada disseram. “Filha da puta!“.Vou colar aí. pois haviam sido todos terceirizados. Wellinton Sai Chang. Isso aqui tá parecendo uma granja! respondeu Jóbson. onde os votos de docentes valiam mais.39 Na fila para comprar o tíquete que lhe permitia passar pela catraca do restaurante da universidade pública onde estudava. piranha! Não cagaram nessa merda? .

não haveria esta imensa fila. Jóbson pensou em voz alta. cara?! Esse jornal pelego aí só serve pra reitoria biônica maquiar as falcatruas! .Ah. e ainda vão prender a cabeça de cada um. professor! Se liga nisso aqui! . por favor.esse “ê” é apenas para denotar a entonação do cumprimento. que era uma espécie de torre. . ..Né? . olha a notícia da CAPA! . pra não olhar pro lado.. O apelido do estudante sino-brasileiro que Jóbson utilizou como vocativo desta vez era apenas “Sangue”. Jóbson percebeu que esta medida de fechar metade do restaurante para o jantar “porque tem menos gente de noite”. que separam um animal do outro.40 . Após cerca de quinze minutos na enorme fila. A malhação de judas só foi interrompida quando Wellinton localizou a última edição do “jornal pelego”. .. mesmo. “Para que colocar gente para servir comida? Não vem ninguém mesmo. isso não é nada perto de terem colocado essas baias de merda! . cara?! E nem tem carne hoje! . .disse Wellinton. .Cê tem as moral de ler isso.Vixe. cara. tipo um confinamento. Logo de cara. e depois para a manchete: “NOVO SISTEMA DE VIGILÂNCIA”.Dá pra acreditar nessa fila. A metade esquerda do espaço estava fechada e com as luzes apagadas. .. Quando a centopeia humana finalmente penetrou no antro do restaurante.. Sanguê! . similiar às torres de vigilância de presídios de segurança máxima..Wellinton apontou para a foto.. nosso faminto amigo descobriu que apenas um dos três conjuntos de distribuição de alimento estava operando. mostrando a capa do jornal para Jóbson..Cara. beleza.”. Jóbson havia percebido que apenas meio restaurante estava aberto. cara. Bando de filha da puta. tudo bem.Quê??? Zoião de novo?! Não fala isso.Salve. Se houvesse pouco movimento..Infelizmente. pois o descaso é absurdo.Na próxima reforma vão colocar uns negócios tipo aqueles de gado. para o horror de Jóbson.. O debate entre Jóbson e Wellinton sobre qual seria a próxima genial invenção da reitoria biônica perdurou por mais tantos minutos de fila. Devo concordar com a sua revolta. era mais uma das cretinices proveniente das mentes por traz do deterioramento não tão paulatino que vinha ocorrendo naquela universidade.

. . protestos. justamente por se sentir observado. de tantos eventos.Então quer dizer que só de observar. com a cara torta de desgosto.41 . 10 O chinês era fã do Seu Boneco. cara. pessoas. que podia até estar discosta10. cara.detalhou Wellinton. Jóbson quis saber a opinião do colega sobre a última do biônico: .Nada! Lembrei de uma merda que ouvi hoje no trabalho! . que era utilizado nas prisões. . Maribel 9 Ela queria dizer “salitre”. Bom. cara? . .Que foi.Olha só.disse Jóbson. apontando com o queixo para o jornaleco. a malucada se sentia observada e evitava fazer coisa ruim. . alimentos. Jóbson ergueu mais uma vez a surrada bandeja para que fosse abençoada por aquela deliciosa refeição. já que ninguém conseguia enxergar direito. e teoricamente essa parada fazia o cara se comportar melhor dentro da cana. . Sangue.E por que um lixo escroto desses seria uma forma de repressão? . Esta sua amiga era tão boa matriz de frases memoráveis.disse isso e ainda riu mais um pouco. XVI. vigiado. Jóbson gargalhou. de tantas oportunidades em que ele havia se alimentado ali. pra fazer o encarcerado se sentir observado. uma vez eu li um texto do Foucault falando num tal de panóptico. .” Muitas outras lembranças vieram à sua mente.Pois é. . que certa vez declarou ser “uma mina de pérolas”. Os caras dizem que é pra vigiar os bandidos. Ao sentarem-se em uma das mesas cercadas por baias. personagem-mendigo da extinta Escolinha do Professor Raimundo. parece que só de ter um chapa no alto da torre. nêgo acha que vai reprimir os movimentos de oposição à patifaria? .Jóbson ficou de queixo caído.Welinton ficou surpreso. o que você achou dessa parada aí? . mas especialmente um relato que ele encontrou num velho diário que surrupiara de seu pai.E aí.Achei uma bosta.questionou Jóbson. mas tá na cara que é pra reprimir os estudantes. A tortura se desfez um pouco quando Jóbson mais uma vez se recordou de uma fala antológica de uma douta amiga: “A comida do bandéco tem salito9.QUE PORRA É ESSA?! .

pensou Jóbson. em mantê-lo na ignorância. Desde as palestras no Collége de France. Jóbson acabou me confessando certa vez que invejava Barthes à mesma medida que o lia. Ainda era cedo. “Acho que vou aproveitar pra ler mais uns fragmentos até dar a hora da aula”. aquelas palavras martelavam em sua alma e ecoavam em seu coração. sua assiduidade diária é cansativa. próximo à entrada do prédio da faculdade e retomou a leitura dos “Fragmentos de um Discurso Amoroso”. empenha-se. ambos foram para a faculdade. . e Jóbson se viu só novamente. A bola da vez era a seguinte “figura”: “MONSTRUOSO. e trabalha para o rebaixamento de todo rival. mantém o amado apartado de uma multiplicidade de relações. mesmo velho (o que em si mesmo é inoportuno). os discursos do sofista Lísias e do primeiro Sócrates (antes que este faça sua palinódia) repousam ambos neste princípio: que o amante é insuportável (devido ao peso) para o amado. Jóbson seguiu a leitura do primeiro ponto: “1. será que algum dia chegarei a este nível?”.” Jóbson ficou pasmo. age como um tirano policial e submete constantemente o amado a espionagens malignamente suspeitosas. Mesmo assim. amigos: não quer para o amado nem lar nem filhos. até o modo aparentemente descompromissado de falar sobre tantos assuntos. Não era segredo o fato dele ser ciumento. O sujeito percebe repentinamente que encerra o objeto amado numa rede de tiranias: sente que passa de digno de pena a monstruoso. mas até então. jamais havia chegado a ser monstruoso. Então ele se sentou no chão. deseja secretamente a perda daquilo que o amante tem de mais caro: pai. de modo que o amado conheça apenas o que lhe vem do amante. ele era apenas digno de pena. No Fedro de Platão. em especial sobre o amor. “Meu Deus. pensou. Franco defensor da universidade como espaço dedicado ao livre-pensamento por excelência. parentes. mãe.42 Após o jantar. por mil astúcias indelicadas. Segue o catálogo dos traços inoportunos: o amante não pode suportar que alguém lhe seja superior ou igual aos olhos de seu amado. com o peso daqueles sinos de ferro enormes das igrejas antigas. Após ler e reler aquelas terríveis palavras. não aceita ser deixado nem de dia nem de noite. Wellinton precisava imprimir um trabalho para entregar.

ele balbuciou. sensações estas que iam totalmente contra os doces momentos de liberdade e transgressão que ele experimentava naquele dia. querido! . Eu tenho certeza de que isto é uma outra figura dos Fragmentos. Jóbson fechou o livro e foi abraçado carinhosamente pela amiga. ele me disse. rindo. Era ela mesma: Freda. Esqueceu por centenas de dias. o coração do amante é repleto de maus sentimentos: seu amor não é generoso. não se sentia monstruoso. haver se lembrado aleatoriamente apenas meses depois de que queria consultar o significado daquilo no dicionário. era o sabor de novidade constante. “Insuportável. mas havia algo naquele texto que talvez estivesse dizendo algo a ele.Olá.43 enquanto ele próprio não se proíbe em absoluto de ser mais tarde infiel ou ingrato. . de asfixia. Abraço quente. releituras renovadas..Jóbson se reanimou automaticamente. Um relembrar constante. Sentiu uma espécie de peso. apertando os olhos para tentar enxergar melhor. ele pensou. Massageante no sentido de relaxante. Uma palavra daquele trecho parecia haver saltado sem pedir permissão para dentro de sua mente: insuportável.) Prontamente.. e com a sua memória. A imagem daquele rapaz sentado no chão olhando para um livro aberto ao anoitecer chamava a atenção de quem entrava e saía do prédio. O livro se parecia com a sua mente. curvilínea. constantes retomadas de pensamentos. Nada melhor do que um abraço daqueles para Jóbson ser aliviado daquele sentimento terrível que fora-lhe presenteado pela amorosa leitura barthesiana. (Frederica apenas para os pais. A tal "palinódia". vou reler depois. caro leitor. cheiroso. memorável. meio atordoado pela descompressão. Jóbson abre os olhos dos olhos e uma silhueta humana vai-se formando. Não se sentia culpado. acolhedor. por exemplo.”. Pense o que for.Freda? . Jóbson adorava aquele abraço. Um dos grandes lucros de se ler um livro projetado para ser desordenado. Ele cogitou estar deprimido. Jóbson não reconheceu naquele momento o que estava se passando com ele. . massageante. . no sentido de aleatório. Eis que nosso encucado amigo tem seu solilóquio interrompido por um toque gelado em seu braço. Ele gostava disso.” Quando Jóbson concluiu a leitura daquele ponto. Uma silhueta feminina. sentiu que não era mais o mesmo. Meio assustado. Talvez houvesse algo mal resolvido em sua alma. Jóbson ia tentando se enxergar no espelho de sua alma enquanto a luz do dia ia desaparecendo rapidamente. Inclusive daqueles que se impregnavam envoltos em uma nuvem pestilenta de tabaco queimado.

com o bonde andando. que a namorada de Jóbson a havia pressionado. Ciumenta. Maribel a havia esperado na .Freda. dias depois.disse Freda com toda a honestidade. de repente. Certa vez fiz a mesma pergunta a ele. não ocorreu. O cara faz uma análise de certas figuras do discurso amoroso. de ficar sabendo assim.Eu vim pra um curso de extensão que está tendo aqui.Ah. que o errante e aparentemente solitário Jóbson não era solitário. talvez ela tivesse se sentido xavecada. . .perguntou nosso tímido amigo. isto era algo. Quando Jóbson usava diminutivos como este “livrinho”. . a noite veio lhe trazer o real. Tudo isso faz parte do imaginário do criativo Jóbson.. Normalmente homem não lê nada relacionado a relacionamento. Jóbson? .. . O que Jóbson não sabe até hoje. o que você faz por aqui? .. a namorada de Jóbson. afe. era ciumenta.Puxa.. e o safado me respondeu que era “um livro do caralho”. um “chega pra lá”...respondeu nosso jovem Werther necropolitano. mas me diga. É preciso esmiuçar detalhadamente o sentimento que acredito ter passado pela alma de nosso amigo. Freda me contou em segredo. .Humm.. que interessante! Acho super legal homens que lêem esse tipo de coisa. foi o seguinte: “Naquela hora eu nem me lembrava que tinha namorada! Levei um susto! Parecia estar dormindo e ter sido acordado de repente! Bizarro!”. . do fundo do coração preconceituoso. Mas não o culpe.44 . com os olhos ainda tentando separar a silhueta da amiga da escuridão do anoitecer. pois ele tinha “a consciência mais do que tranquila” quanto a isso. .Foi a sua namorada quem me falou desse curso. deliciosamente farto de alienação. a desilusão. Para ele. Freda me confidenciou que poucos dias antes daquele fortuito encontro. O que ele me disse ter sentido quando ouviu aquele enfático “sua namorada”.. como se ele estivesse avançando o sinal. é um livrinho aqui que eu gosto muito. havia lhe dado uma saiajusta. sempre curiosa.O que é isso que você tá lendo. ligeiramente. tentando mudar de assunto. valeu. mas eu creio que foi esta a sensação que ele teve naquele momento. e nem avisa os amigos? . Freda. em contraste com o relato que o mesmo me deu de tal situação. com ênfase duplicada no possessivo “sua”. Não sei se você também sente a mesma sensação que creio que Jóbson sentiu no momento.Ah. Após aquele dia surreal. é o porquê de Freda haver enfatizado o possessivo daquela maneira. caro leitor. Jóbson! Vamos fazer uma pausa neste momento. Maria Belmira.provocou Jóbson. coisa que segundo ele. .

nem tão pouco por estar tentando roubar “o macho” de alguém. sem direção. nossa simpática Fredinha passou a evitar a todo custo cruzar novamente o caminho de Maribel. e o cara é bom. que ela estava “proibida de cumprimentar o meu Jobsinho com aqueles abraços cheios de esfrega-esfrega”. parecia um bicho.. Freda não tinha nada contra Maribel. sobre o Maníaco do Parque. A bem da verdade. para dizer-lhe com poucas palavras e intensa objetividade. a altos brados. Nenhum de nós. Dizem mesmo que o amor é cego. Foi como se tivesse sido atropelada. nossa. um monstro. mas porque ela “sabia muito bem quando alguém havia perdido o juízo”. de cabeça no chão gelado. Só ele não vê. sei lá. meu! O Tolima é fodão. coitado do Jóbson. Depois de falar aquelas poucas palavras. E é aí que está o motivo principal desta minha abrupta interrupção digressiva. ela simplesmente virou as costas e saiu andando.. Senti até uma vertigem. íamos muito com a cara da Maribel. Nada disso a escandalizava.. Bloqueou o meu caminho.. Louca. principalmente os amigos homens.. mas os amigos não são. o Tolima.. e justificar a tal proibição da seguinte maneira: “porque eu sei muito bem quando estão querendo roubar o meu macho”.”. pois “na minha família tem gente assim. parecia que iam pular pra fora das órbitas pra me estapear. conseguiu introjectar tanto ódio. coagulado na veia dela.. já cansei de ver”. murros.45 saída do trabalho... parecia que ela ia ter um piripaque ali na minha frente.. Jóbson parecia estar cego em relação a Belmira. Bom.. Cego é o apaixonado. mas ela me viu e foi pra cima de mim. Dizia sempre que gostava dela. ela nem me cumprimentou e já saiu gritando comigo. nem quando a gente encenou a peça Motoboy. que fica isolado do mundo. Hein? Como ela me viu sair do prédio por trás daquele arbusto? Eu não sei. Olha. era com tapas na cara. Eu fiquei pasma. Ela nunca havia atacado a gente daquela maneira. a partir daquele recado recebido na porta de seu local de trabalho. bicas e xingamentos.. O sangue parecia estar grosso. provavelmente porque quando cumprimentávamos o Jobsinho dela. antes mesmo dela começar a falar. A veia dela parecia que ia estourar no pescoço. o iludido e o encarcerado.. Porém. ou por estar fazendo algo errado. sempre que ... que era o nosso Maníaco. Mas o que eu acho mesmo é que o amor não é cego. O quadro que ela me pintou de Maribel saindo de trás do arbusto púrpura do jardim em frente ao teatro foi assustador: “Ela saiu de trás das azaleias direto em cima de mim. e os olhos dela tavam arregalados. O olhar mais violento que já vi. Nem a favor. eu fico pensando se um dia eu vou conseguir encarnar uma personagem dessa maneira. Olhou reto nos meus olhos. como se tivesse acordado de madrugada caindo da cama de cima de uma beliche. Não por medo.

Forçou a mente para tentar se lembrar o impossível: em que sala ele teria aula naquele dia.exclamou Jóbson.É mesmo.. dando a entender claramente que não se lembrava de Belmira ter mencionado o curso para Freda. essa minha memória é uma vadia mesmo. Já na memória da amiga. essa própria discussão toda não faz o menor sentido. Jóbson olhou para o livro e o guardou na mochila. o amor é algo abstrato que se dá na relação entre amantes. O amante pode até ficar com a vista nublada. . que a aula já vai começar! Beijão! . que está sentado em um dos bancos do corredor. ao nosso pombinho Jóbson. amor não tem que ver nada. que acaba de levar um choque de alta tensão. Voltemos. XVII.. mas o amor não é cego. portanto. Jóbson estava de mãos dadas com Belmira na ocasião. para localizar algum colega de sala. afastando-se enquanto falava. Muitos não acreditavam que tal coisa seria possível. Deixa eu subir. lembrar-se quais eram constituía um grande desafio. “Nossa. e isso acontecia repetidamente. nos auges da paixão. cara? . Os que acreditavam. Boneco! . . Por isso mesmo.despediu-se Freda. e se encaminhava a esmo pelos corredores. Eis que ele encontra um de seus colegas.”.Fala aí. enquanto passa os olhos em um xerox. ele pensou. Eu não. Ele simplesmente desistia de tentar se recordar. com o intuito de segui-lo até a sala correta. entravam em sua maioria no coro do “o amor é cego”.46 perguntado a respeito.Então é isso.. cara. não faz o menor sentido dizer que é cego. com a testa toda enrugada e uma cara terrível de concentração.. Mesmo tendo aulas semanalmente nas mesmas salas. Prestando atenção na aula .

pernas. já retorna à leitura.. com uma voz moribunda. Para as provas.. de gente folgada. deixando as preocupações sempre para a véspera. por não se sentir à vontade falando diante de uma plateia de mais de três pessoas. foi em direção à tal sala multimídia. Confortáveis. A sala hoje é aquela que tem multimídia. . até se esconder no canto mais escuro da sala. ou ele se dava bem. .Ihhh. talvez instintivamente tentando dar algum acolhimento ao colega desesperado. retroprojetor ligado. . cara. Muitos consideravam esta atitude um tanto safada. cabeças e mochilas. Compadecido. antes mesmo de cumprimentá-lo: . uma vez que obtivera a informação quente.. Jóbson retirou-se e. ou se dava mal. rapá! Tá me tirando? Essa matéria não tem prova! .47 Boneco ergue os olhos. uma das vítimas do dia. então preferia não saber das datas. cara! Tou descendo lá! Boa sorte aí prucê! Jóbson percebeu que estava importunando o pobre Boneco.Ahhh.a simplicidade com que Jóbson faz costumeiramente a mesma pergunta poderia até dar margem para uma interpretação de ironia. . Para os trabalhos. tudo beleza? . e o blablablá dos colegas. ó o cara. ... Jóbson se meteu como um rato pelos vãos entre cadeiras.. Jóbson. Em grupo.. Ele gostava muito daquelas cadeiras acolchoadas da sala multimídia. então quando chegava a data de entrega. por sua vez. Para seu espanto. desde provas até entregas de trabalho.Opa. Aquela luz apagada era um convite. “Por que será?”. já que não estudava em casa.Boneco estava tenso. um martírio. entendeu! Você é do grupo que vai apresentar hoje! Foi mal mesmo.O que pega. entendeu. não gostava de “ocupar a mente” com essas “coisas pequenas”. . a palestra dos colegas já havia começado. mas a verdade é que ele jamais anotava evento algum... tá nervosinho? Relaxa aí. o guia que o conduziu para os domínios de Morfeu. como ele gostava de falar. ele preferia ir fazendo nas brechas da rotina. pensou Jóbson. já estava tudo “mais ou menos esquematizado”. sozinho. terrível. eu tou tentando decorar os pontos-chave da apresentação que vou fazer hoje..ele diz. Boneco? Tem prova hoje e eu não tou sabendo? . Luzes apagadas.Agora não dá. Ele próprio detestava dar seminários ou palestras.Que mané prova.. pára um pouco de ler esses bagulho aí pra trocá uma ideia com os irmão.Jóbson automaticamente chaveou seu discurso para uma linguagem mais informal. e mal reconhecendo a figura de Jóbson.. . principalmente quando havia faltado em aulas.

respondeu o absorto estudante.. Compadecido que estava. e assim se iniciou a discussão. voltou a dormir.É.Eu? Por que eu. eu. abandonandolhe em uma situação deveras hostil. A primeira vez. seu amigo Boneco . . mas ao notar que era seu próprio ronco. digamos... . tenho certeza que na verdade uma pergunta ele estaria se segurando para não fazer. sempre interessado em tudo. nem aceitou o convite. Pelo que o conheço. notou que um deles possuía um par de pizzas de cebola debaixo dos subacos: Boneco. XVIII. no susto. com o sofrimento do colega.. Jóbson não recusou.o único que estabelecia uma conexão visual além da professora . Normalmente.Jóbson? . para se encontrar as informações? . em relação ao trabalho. distraído naqueles últimos sessenta minutos..Jóbson conseguiu parir uma pergunta que nada tinha a ver diretamente com o trabalho apresentado em si. outras duas imitavam a posição ridícula na qual ele havia dormido. teria uma dúzia de interrogações sobre cabeça após assistir à apresentação dos colegas. quase caindo da cadeira de susto. Um olhava para o chão. de repente. e finalmente. Jóbson. A segunda vez foi definitiva: com o acender das luzes e a abertura dos palestrantes às perguntas..solicitou a professora. pensando em diversas piadas. Um breve sorriso se formou no rosto do Boneco.chamou a professora.Você poderia abrir a discussão. porém. professora? A professora simplesmente não respondeu a pergunta. Jóbson? . o sono acabou levando todo o descanso para bem longe. Competição desleal . Foi simplesmente arrebatado. que seria algo relacionado às pizzas do Boneco. Dormiu como um anjinho torto. Jóbson procurou acolhimento nos olhos dos colegas mais chegados. um alarme falso: acordou com um ruído alto.. mas não encontrou. Ao olhar para os palestrantes. mas sim com o processo de pesquisa dos colegas.olhava para ele com cara de “pergunta logo qualquer coisa que a gente saiba responder!”.48 Havendo levantado cedo aquele dia. Despertou duas vezes. mas como esteve um pouco. Jóbson apenas ficou rindo sozinho. . e ficou olhando para a cara dele.. ali na frente da sala.EU! . dois riam dele. . . gostaria de saber quais foram as maiores dificuldades. não havia o que perguntar.

então ficamos assim. daí é treta. e olhe lá! De sexta normalmente eu tenho que ir pra casa logo depois da aula.Por que não. . me diga uma coisa. teu vagabundo? . Por sorte.. .Lógico..... . como pura finalização de uma discussão.. mas..Vixe.. . cara.49 No final da aula... cara.. . cara. . como se cada um fosse para um lado.Cara.. sexta-feira não é dia de gelada pra mim. .Boneco já estava quase desistindo de trocar a tal ideia com o amigo.. cara. .. ... cara! Liga lá pra ela e fala que hoje tem um camarada precisando trocar uma ideia contigo! .Foi mal. na frente da faculdade.Porra. ... tou precisando trocar uma ideia contigo. hein? Você sabe o que é fel? .Tenho. mas no final.. por que vocês chamam a Maribel de Marifel? ..Bom. meu dia de botéco é a quinta-feira... cara? Bora tomar uma com nóis.. . cara? Vai dizer que a Marifel apertou mais a coleira? . .Então tá bom. Aquele negócio de palestra havia exigido muito dele.Falou... eu queria muito trocar essa ideia contigo. Jóbson realmente gostaria muito de apoiar o camarada fosse qual fosse a necessidade.Putz..... acordaria os pais dela.... o amor é cego mesmo. mano. A situação foi bem desagradável.Ih.os bons amigos de Jóbson chamavam sua namorada de Marifel. Boneco veio conversar com Jóbson. e chamou-lhe para tomar uma gelada.. falou. o ônibus de Jóbson chegou rapidamente.. Os dois se despediram. a fim de relaxar..Eu não tenho como ligar...Como não? Não tem celular.Então não tenho que explicar nada. cara.. Jóba? Bora tomar uma gelada? ...Por que isso.. ambos foram pegar ônibus no mesmo ponto. não dá pra ligar lá. mas sua consciência não lhe permitia chegar tarde em casa às sextasfeiras..É nessas horas que a gente vê quem é quem. cara. .. .E aí. .

. Jóbson voou para o telefone. meio se lamentava. um amigo meu tava precisando trocar uma ideia. ouviu o telefone tocando enquanto girava a chave na porta. Chegando em casa. Ele sempre ficava muito triste. que deu uma piruleta no ar e caiu com o pelo todo eriçado. Bolsa de valores Jóbson ficou muito triste com o mal-entendido.Alou? .Tá bom.. sem tirar os olhos da televisão.. filho. . Você é FODA! XIX. por conta de ter levantado tão cedo.uma voz feminina áspera.. Ficou meia hora conversando com ele. Maribel. . Maribelzinha. ficava quase impossível abrir por fora. eu tava na faculdade. .Sei. já foi possuído pelo estresse: .Calma. Isso acontecia sempre.Por que demorou tanto pra atender? . Me deixou aqui um tempão te esperando..Oi... pai. se eu fiquei cinco minutos depois da aula conversando com o Boneco foi justamente pra tentar fazer ele entender que não dava pra eu ficar mais tarde hoje. “Ah.Tudo ÓTIMO.. ele meio sonhava. ..vociferou Jóbson.Cacete.Mas eu nem fiquei pra falar com ele. tá bom.. assustando seu gato vira-lata. Ficou com a impressão do dia ter sido expandido.Calma. amorzinho. nosso amigo tentou se recordar de tudo o que vivera naquele longo dia.”. .. Essa é a terceira vez que eu ligo pra você hoje! Onde você estava?! . Ao entrar em casa. tudo bem com você? . .respondeu o pai..50 Na viagem até sua casa. se eu conseguisse ou mesmo pudesse fazer isso todos os dias.E você não me fala nada? . tem que deixar a chave fincada na porta todos os dias? . . Quando havia uma chave fincada do lado de dentro da porta. eu falei pra ele que tinha que ir embora e vim embora.. ..

. Não havia espaço para compartilhar aquelas coisas pelo telefone.. uuaaaahhh. talvez a alma..Belmira se sentiu só no telefone. ainda não desencalhou? . tentava compreender se o que fez quanto ao amigo havia mesmo sido tão ruim em relação ao combinado que ele e a namorada tinham de se falar pelo telefone toda sexta-feira á noite às 23:30..É. Jóbson tinha coisas interessantes para conversar.. como se metade dele. . detestava telefones. mas vamos mudar de assunto..Cê tá aí. mas nem mesmo se lembrou de tantas experiências bacanas que teve. mas nunca tinha visto pra vender! Jóbson de repente se espanta. .. porque eu perdi todos os meus amigos desde que a gente começou a namorar. não. Bom. desencalhou? .E você. desalmada.. E não adianta nem dizer que por você tudo bem. e a outra metade. por ser “um saco conversar pelo telefone... “só de ouvir o telefone tocar eu já me estresso”.Antes me fala como foi ontem à noite lá com os seus amigos. Jóbson. . .. e a gente ficou lembrando de umas coisas engraçadas e dando risada.Nada. oca. deixa eu te contar.. houvesse voltado correndo para casa para conversar com a namorada. .51 . né? Afe. por sua causa. . né? Com eles você dá risada. me conta uma coisa boa.Ah. Jobsinho? . Você sabe que desde que a gente começou a namorar eu nunca mais saí de balada de sexta-feira porque você tem aula e não quer que eu fique saindo sozinha. Uma vez me disse que não tinha celular por causa disso. tou tão cansado. só mal-entendido”. . Hoje.. como assim. tivesse ido trocar uma ideia com o Boneco. Ainda atordoado pela saraivada de cobranças feitas pela namorada. não.Não fica assim. de fato.eu vi hoje uma bolsa lindéééérrima lá na Galeria! A bolsa que eu imaginei um dia e que sempre quis ter.Pra mim você tá sempre com sono. especialmente. peraí. Maribelzinha.Sei.aqui a voz de Maribel parece dar um salto de “muito tensa” para “super hiper alto astral”. como você sempre diz.. . comigo é só pisada de bola. E essa Candinha aí. não é assim. o que você fez de bom hoje? . ..Sei lá se... .. foi normal. Só foi o Réver e a Candinha dessa vez.Jóbson deu um baita bocejo. só briga. Ele ainda estava se sentindo rachado no meio.

.Eu tou falando seríssimo! -… . mas como eu já gastei aquele dinheiro que meus pais me deram. .. Se for a prazo fica mais caro.Maria Belmira.Cê só pode estar brincando comigo.Mas.Nem fodendo que eu vou dar essa bolsa pra você! .Duzentos e cinquenta. Eu sempre achei bizarro. Eu e a torcida do Flamengo.. entendi. Maribel.Nossa.ai como eu te amo! -.Como assim. cê tava falando de uma bolsa..E quanto custa essa bolsa.Que bom. . amorzinho. Maribelzinha.... E o que mais? . claro. eu queria saber se não dava pra você adiantar o presente de aniversário de namoro do mês que vem! Sim..Ah.Sim.Duzentos e cinquenta.? ...O que mais de bom você fez hoje? .. eu te dei o casaco na semana passada! ..Alou? .Claro... . .. só pra saber.Ai credo.... Jóbson dava um presente de aniversário de namoro todo mês.Jobsinho? -… . para comemorar o dia em que começaram a namorar. Jóbson! Eu tou te falando da bolsa da minha vida! . . . . “e o que mais”? ..Quanto?! .Por que você tá falando assim comigo? Não gosta mais de mim? . que susto! . amorzinho. . À vista.Sim. e você já me deu aquele casaco lindo de presente de aniversário de namoro desse mês ..respondeu Jóbson.. amorzinhuuuu.Mas é a bolsa da minha vida.52 .Então!! Eu achei a bolsa dos meus sonhos!! . cê ficou com vontade de comprar a bolsa.. como você é tosco. ..Cê tá ouvindo o que eu tou falando? .

SETE MESES!! Até lá alguma vagabunda já vai ter comprado a minha bolsa! . .e Maribel nunca havia pedido desculpas antes.Ah tá.Bom.53 . . Pra sustentar aquele velho lá você tem dinheiro. Pra ele você tem dinheiro. né? .. eu pensei com os meus botões e percebi que esses presentinhos tão pesando muito no meu orçamento. mas eu te amo.. por favor. .Se você estiver falando do meu pai. . eu te adoro. .. . Retiro o que falei sobre o seu pai. Naquela noite ele simplesmente desligou o telefone..O que foi. me desculpe. Maribel se estremeceu do outro lado da linha.. .Quem sabe no seu aniversário.Não posso fazer nada! . meça as palavras. Devo gostar muito.Tá bom. Jobsinho? Foi alguma coisa que seus amigos te falaram de mim? É tudo mentira. “Amorzinho”. -… .. três. seis. . -… . chamando “Maribel”. .Maribel? Jóbson Um choro ouve um som conhecido do ele outro ficaria lado um da linha. eu sei que tem gente aí que não vai com a minha cara. por que isso agora? .Mas o meu aniversário é daqui a um. etc.disse Jóbson. Eu me exaltei.Gosto. Normalmente.Desde quando você resolveu ficar egoísta assim? Você sempre me deu um presentinho de aniversário de namoro todo mês.. sorrindo com o canto esquerdo da boca. muito mesmo. Cinco minutos após ele desligar . Jóbson.Jóbson nunca havia falado tão sério com Maribel antes. “Maribelzinha”.Boa noite.. Um baita dum encostado. Desligou o telefone e foi tomar um banho..Ué. a minha vida não é nada sem você! . eu nem mesmo falei que não vou te dar o bagulho! Só falei pra você esperar um pouco. dois.Eu disse boa noite.. . E que banho bom. Ele estava mesmo se sentindo muito sujo. tempão soluçante. um largado. Mas naquela noite não.Então me dá a bolsa. “Fofura”. Velho é a sua raba.

Ela tá chorando no telefone. nosso pobre trabalhador. Ao lado do telefone. lá estava seu pai batendo na porta do banheiro: .o pai de Jóbson era o líder da torcida organizada contra a Maribel.Já falei. .Quê? . . Jóbson foi até o telefone e o arrancou da parede. saúde. feriados. “Amanhã” é sábado mesmo. . .Fala que eu tou tomando banho! . viagens. eu não estou enganado. baladas. Mais uma vez. vestindo a camisa de empresas que lhes arrancam o couro. se é a incompetência dos gerentes. namoradas e até mesmo amigos por conta desta escravidão ad hoc à qual ele mesmo dava suporte sem enxergar que era algo insuportável. terá que fazer hora extra não remunerada. deixando sua vida pessoal em prol dos projetos. festas. que nunca são capazes de planejar cronogramas realísticos. Jóbson ouviu o mesmo tocar. cuja consequência sempre arde no lombo dos escravos nas galés. ou se é a submissão absurda que os escravos ofertam aos mesmos gerentes incompetentes.Jóbson! . Pouco tempo depois. A queda da entropia Não.54 o telefone. . graças a Deus que não trabalho nesta mesma área. “Droga! Vou chegar atrasado de novo no trabalho amanhã!”.Sai logo daí então. que eu não quero ficar atendendo telefone. noites. Seria amor ao trabalho? Ou Síndrome de Estocolmo? Bom. Infelizmente. mas sim colaboradores. .É a sua esposa! . Eu não sei o que mais me impressiona nesta área em que o pobre trabalha. o relógio acusava quase uma da manhã.Não tenho esposa! .Que mulher desagradável! Ao sair do banho. Jóbson. Quantas vezes não vi Jóbson perder fins-de-semana. crendo que não são escravos. e o pai atender. XX.Fala que eu ligo depois do banho. antes de se enxugar.

Sábado era dia de feira na rua da frente. não porque teria que trabalhar forçadamente por conta dos malditos prazos surreais. Ou seja. Lençol no chão. que esqueceu de armar aquela sirene anti-aérea programável. e vai batucando no peito a bateria da mesma música que ouviu repetidas vezes ao longo do rápido trajeto. dos pelegos. A criança deixa de ser criança quando se torna obediente. ou seja. era a figura prototípica do amor. Obviamente. Jóbson não despertou nem mesmo com o sol já alto ardendo em seu rosto. porque a criança não deixa de ser um prisioneiro. Após entrar no prédio. olhando para trás. Hoje.55 Voltando ao aqui e agora de nosso dorminhoco. tomar um cafezinho e ler os e-mails acumulados. Três pastéis seriam a conta. deitado em seu peito. aquele que era desobediente. Não me surpreendi quando Jóbson me falou que gostava muito quando criança. Jóbson vai almoçar. Jóbson deitado com o umbigo apontando para o zênite. Mesmo acordando assustado. e Escorpião. Quase paradoxal. dos chefes. para todos. pelo contrário. Essa música parece ser um grito de liberdade. Ele só se lembrou dela quando resolveu revisitar as músicas que ouvia no carro quando seu pai o levava para a escola na infância. ele o pega no colo e o afaga carinhosamente. de quem não suporta mais as paredes de uma prisão invisível. mas porque trabalharia naquele mesmo escritório. mas ele ainda pediu um quarto de brinde. Jóbson desce do ônibus às onze e meia da manhã. talvez uma certa tentativa de encontrar a si mesmo. porém na ausência das fofoqueiras. reconheço neste movimento de Jóbson de retorno à infância. Jóbson decidiu ressuscitar em seu tocador de mp3 uma música dos Titãs que ele gostava muito quando criança: “Estado Violência”. geralmente seguidor de um regime disciplinar rígido e arbitrário. mais para saciar a fome do que para criar polêmica e nojo nos frequentadores daquela barraca que cobrava três . Tão invisível quanto o vigia no alto do panóptico. O trabalho sempre rendia mais e era sempre mais prazeiroso em tais circunstâncias. Jóbson se levantou animado naquela manhã. já que ele se deitou tão apressadamente para evitar o atraso no dia seguinte. ao Jóbson original. Muito menos com o toque mais do que irritante de seu despertador. com punições físicas e psicológicas para os desobedientes. Escorpião. para Jóbson. Jóbson acorda quando Escorpião decide se espreguiçar e começa a arranhá-lo. Ao receber a negativa. com as patas dianteiras segurando o queixo do dono. ligar o computador. Jóbson não maltrata o bichano. Animado que estava. adulto. “Eu deveria trabalhar só de sábado!”. seu sono nesta manhã ensolarada merecia uma foto. seu querido felino.

o pessoal do suporte da parte de “servidor” da empresa não trabalhava de sábado. Jóbson teve que fazer uma ligação para o celular de um dos funcionários. lembrou-se logo em seguida que como era sábado. Jóbson compreendia perfeitamente a situação. de solitária. apenas para descobrir que estava desconectado do mundo exterior. Lembrou-se que sempre tinha um livro guardado na mochila para tais eventualidades. como ele fazia questão de ressaltar. Após zerar os e-mails não lidos da hora do almoço. Dentre tantos passatempos possíveis para aqueles duros momentos de claustro. Quando ele finalmente iniciou todo o ambiente. e para seu espanto. Ele estava eliminando toda a distração possível para se concentrar no objetivo heróico. apto a apagar o incêndio. Toda vez que o vi arrancando pêlos do nariz e plantando na mesa do boteco ou da escola ou do orelhão. Jóbson escolheu um que era certamente auto-flagelação. percebeu que um dos “servidores” estava fora do ar. Por infortúnio. ele não havia trazido mochila. Enquanto esperava. Não sei de onde ele tira essas nerdices todas. que respondeu com muita má vontade que estaria chegando lá “daqui a pouco”. Jóbson procurou os amigos online para bater um papo. Jóbson toma mais um cafezinho. Na volta do almoço. Restou-lhe esperar. desperdício era o maior pecado da humanidade. . Eu não faço a menor ideia do que seja o tal do “servidor”. Para Jóbson. todo desperdício aumentava a entropia universal. Quem lê este relato talvez pense mais uma vez que Jóbson está vagabundando. Restou-lhe distrair-se consigo mesmo. para afastar o sono após o farto alimento. etc. Ele detestaria estar em casa em dia de sábado e ser convocado de repente para trabalhar. ele já estava apto a pegar o touro pelo chifre. não é possível sequer trabalhar. Ele ficou impressionado pela variedade de sabores que encontrou e pelos tamanhos multivariados do desperdício. lembrou-se também que queria conferir a figura “insuportável” dos Fragmentos. porém. fez alongamento e foi começar a encarar o problema.56 reais por um único pastel mal recheado. Jóbson disse que sem este tal. Olhou ao redor para ver se tinha alguém para bater um papo. Abriu o navegador de internet em vão. estalou os dedos. Jóbson enfiou a mão no cesto de lixo e começou a comer os restos de pastéis jogados fora. mas nenhum de seus amigos. mas não encontrou ninguém. inclusive este que vos escreve jamais compreendeu do que é que ele estava falando. Para ele e para “Lorde Kelvin”. tive aflição. mas é o contrário. mas parece ser algo complicado. motivação para esta jornada sabática. mas não havia ninguém com quem ele pudesse estabelecer uma interlocução agradável.

fazendo fazendinha em pleno sábado. Ele admitiu que se sentia. que o dia estava lindo de morrer e ele havia gasto sua existência dentro daquele abrigo anti-aéreo. a exploração era honesta. que Jóbson nem mesmo sabia se estava ensolarada ou não. Já entediado por conta do fim das mudas. já era mais de três da tarde. ou que já havia anoitecido. um palerma. Durante esta terrível reflexão. todos que seus hábeis dedos conseguiram extrair das bastas narinas. hostil. só que mais velho. por quão aderentes eles eram a superfícies lisas. Fico imaginando a cara de quem limpou aquela mesa na segunda-feira de manhã. Tudo balela. trabalhou em uma agência de publicidade que servia até mesmo cerveja aos escravos. Quando finalmente acordou. E ali não era um dos piores ambientes de trabalho em que fora escravo. A cabeça de Jóbson fervia em questionamentos. e outro era branco. Algumas extrações eram fáceis. já outras. simplesmente desligou o computador e tomou o caminho da roça. já que o escritório era subterrâneo. o Reinaldo. Não. pior do que tudo. uma palmeirinha plantada sobre o tampo da mesa. era quase como arrancar guanxuma da terra seca: vertiam lágrimas. e seu coração batia com mais energia do que antes. Cada um deles parecia uma plantinha. E aquele ar condicionado então? Todo dia era inverno ali dentro. e em momento de ócio forçado. dando-lhes todo o tipo de ilusão de que eram “colaboradores e não reles empregados”. Não havia dúvidas de que o ambiente era inóspito. Olhou para outras pessoas que ali estavam como prisioneiros moribundos. que tinham “liberdade para serem criativos”. ou. Muitos ali até o chamavam de Reinaldinho por conta da semelhança. e teve os olhos atraídos sobre um rapaz que se parecia muito com ele. ele passou um tempão arrancando pêlos do nariz e plantandoos na mesa.. e ele plantou dezenas delas. ao menos ali no abrigo anti-aéreo. Jóbson acabou cochilando. ao descobrir que estava chovendo. Certa vez. Não quero ficar igual ao . Nem sol batia ali. Jóbson nem mesmo conferiu se o pessoal dos “servidores” havia dado as caras. Jóbson não poderia aceitar seguir aquele caminho. sim. transparente. Jóbson se deu conta que o sujeito estava ali na mesma posição e com a mesma cara de desânimo que permanecia ao longo de todos os dias da semana. “Eu não quero isso pra minha vida inteira.. Ele era fascinado pelo bulbinho que havia na raiz dos pêlos. Quantas vezes ele se entristeceu ao invés de se alegrar no final do expediente.57 Naquela tarde ensolarada de sábado. Parecia ser parte da mobília. não senhor. quanta diversidade! Ele acabou arrancando todos os pêlos possíveis. Decididamente. Ficou fascinado ao ver que um dos pêlos era ruivo. Ninguém dizia o contrário. que eram “pessoas de sucesso”. Jóbson não conseguiu escapar de seus fantasmas.

afinal. que era chutar uma pelota. o treinador de seu time. com uma proeminente massa abdominal sobrando para fora da camiseta. Jóbson olhou para si. Segundo ele. os assistentes. um pacote de bolachas de maizena que estava pela metade fazia uns quatro dias em cima da mesa da sala. quando jogávamos bola vinte e quatro horas por dia. o árbitro. Jobson xingou especialmente os três gols do time adversário. por um dia ter parado de jogar. o narrador. todos eles ocorridos por falhas no sistema defensivo de seu time do coração. Foi naquela mesma tarde sedentária e preguiçosa. aqueles jogadores eram um bando de mercenários. aquele foi um tempo catártico. trataria de voltar a jogar futebol. XXI. relaxou as costas e esfriou a cabeça em relação àqueles problemas todos relacionados ao trabalho. A reflexão consequente foi que ele estava podre. para o sanguíneo estômago futebolístico do Jóbson arder em úlceras. Jóbson viu que seu pai não estava.58 Reinaldo!”. com a importante ajuda de seu goleiro. e até as inocentes propagandas. sentou-se no sofá e ligou a televisão. em que Jóbson pôde se esgoelar de tanto xingar seu time. mas ele estava mudando. Aqueles caras não jogavam com o coração na ponta da bota como ele. a torcida de seu time. ao se lembrar dos tempos de moleque. o time adversário. Jóbson sorriu sozinho ao descobrir que estava passando o jogo do seu time. pegou um copo de meio litro de café com leite frio. Jóbson odiava aquele goleiro. sentado diante da televisão. segundo ele. jamais fazíamos outra coisa que não fosse exaltá-lo e elogiá-lo. Eu não sei dizer exatamente o que estava havendo com este meu amigo. Nós. Mas não foi apenas isso. regada . que era frangueiro até não poder mais. Sozinho em casa. Jóbson decidiu que de algum jeito. uma verdadeira lenda fabricada pela mídia esportiva. o comentarista. Foi assistindo aqueles três a zero em casa que Jóbson decidiu que iria parar de acompanhar o futebol profissional por uns tempos. Rogério Cone. ele sentiu ódio de si mesmo. Agora ele iria esquentar a cabeça com aquilo que era a coisa mais importante dentre aquelas que não tem importância nenhuma. torcedores adversários. a ponto de eclipsar seu cinto. Tal decisão partiu do desgosto de ficar torcendo para que outros fizessem o que ele mesmo gostaria de estar fazendo. Fazendo as pazes Chegando em casa. como diz um sujeito famoso da mídia esportiva necropolitana.

comprou uma de duzentos e cinquenta. Sem dúvida. Duzentos e quarenta e nove e noventa. Maribel se permitiu chegar ligeiramente atrasada ao encontro com seu Jobsinho. Vejamos a reação do rapaz quando a vê: . que Jóbson decidiu que não seria mais sedentário. e o gerente a serviu pessoalmente e chamou aquilo de “cortesia da casa”. A caminhada da sextafeira fora revigorante demais para ser um evento extraordinário.Ah. Já que é para ser exato. foi para a mesa de Jóbson e Marifel. para ser mais exato.”. . me confessou depois. Jobsinho! . afinal. a bicicleta seria entregue para ele em casa. o que era diametralmente oposto à sensibilidade da namorada. mim sentar em qualquer uma! Esta última troca de palavras renderia um tratado sobre o porquê das brigas de casal. que era um rodízio de comida japonesa. eram ogros que tocavam o estabelecimento. mantenhamos o foco na narrativa da vez.Boa noite pra você também. graças a esta modernidade tecnológica. A noite daquele sábado estava especial.Não vai puxar uma cadeira para mim sentar? .59 a gordura e carboidrato. ele não precisaria sair por aí batendo perna atrás das melhores ofertas.Jóbson ficou todo derretido ao se reencontrar com a exuberante namorada.. tenho a mais absoluta certeza de que o gerente da casa arrastava um bonde pela Maribel. pelo estilo da abordagem ao cliente. atividade deveras cansativa. perfumada e cabelereirada. Entretanto. Jóbson nunca me levou a sério. Aquele restaurante poderia constar facilmente no livro do André Barcinski entitulado “Guia da Culinária Ogra”. “Eu nem me lembrava que tinha uma namorada assim... Jóbson tomou um banho e foi se encontrar com Maribel no restaurante preferido do casal. pesquisou os preços de dezenas de bicicletas. e coincidência ou não. Deixo a cargo do herói que vem perseverando até aqui na leitura desta tediosa narrativa. mas sempre tive a pulga atrás da orelha com relação à Marifel. bem. Jóbson ligou o computador.disse Maribel. Jóbson ficou super satisfeito por comprar pela internet. devo acrescentar que Jóbson ganhou ainda um monitor de tela plana de brinde na compra da bicicleta.ÚIA! .. . Graças à escravidão consentida daquele sábado.Nossa! Boa noite! . toda melindrosa. e mais dia. Jóbson não ligava nem um pouco por ser maltratado por garçonetes. menos dia. pois a única vez em que vi servirem porções especiais para apenas uma mesa. que . mas não por acaso.

o supermercado.. . mansinho. eu só estava pensando.Tudo bem.Não. Maribel. Maribel. eu não estava bem.. me desculpe por ontem à noite. Jóbson. séria. e resolveu amaciar a onça.. eu vim pensando em outra coisa muito importante que a gente precisava conversar.Maribel não estava com paciência para aquelas viajadas de Jóbson. disse Maribel.O gato comeu a sua língua. Infelizmente para o casal. a faxineira. Depois da gente conversar sobre estas suas coisas. Jóbson.Maribelzinha.. cogitava Jóbson.. não está dando mesmo para continuar com os presentes mensais de aniversário de namoro. . nem saúde. Maribel se sentou em silêncio. .. Por mim tudo bem.60 reflita por um único minuto sobre esta singela troca de gentilezas.. pra conversar pelo telefone. por que não me falou nada ontem? .Bom. eu gostaria de aproveitar essa noite pra gente conversar direitinho sobre certas coisas que eu não tenho paciência. a internet. . Hoje eu estou um pouquinho melhor.disse ele. o telefone. Só faltou ronronar e roçar o rabo no rosto da dona. Aquilo foi mais TPM do que qualquer coisa. o passe escolar.Eu percebi. . . que triste. como fazem os felinos mais miseráveis. .. E pela seriedade. .. quanta gentileza. Bufando.Tudo bem. Jóbson. somando todos os meus gastos mensais fixos. .Jóbson se animou.Nossa.Já entendi. Jóbson foi pego de surpresa pela sobriedade da namorada. . Jobsinho. instantes depois de derrubarem um bibelô de porcelana no chão apenas para vêlo espatifando-se. encurte a história senão eu durmo. se sentindo culpado. a namorada braba de Jóbson. e vi que somando o aluguel.. sim... mas que tal você adiantar o assunto? . Eu andei fazendo umas contas.Puxa. mansinho. . O que será que ela tinha para conversar? “Será que ela estava farta de correr atrás de mim?”. “Será que eu sou um namorado tão ruim para fazer ela chegar a este ponto? Será que sou um monstro?”.. Jóbson estava mais viajandão do que nunca por aqueles dias. Maribelzinha. Já menos solar do que segundos antes. não.O negócio é o seguinte. Jóbson percebeu que fez uma brincadeira torta no mais inoportuno dos momentos. Jóbson? .. Só sei que Maribel retirou a máscara e surgiu Marifel. mas silenciosamente. a luz. .

Jobsinho. com ares de quem já havia pensado no assunto por bastante tempo.estas levantadas de voz de surpresa sempre desmontavam o Jóbson. Sem compromisso.. tudo o que você falou faz muito sentido.Ah.Estou preocupada com o nosso futuro. Moro com os meus pais. sim. . .Me desculpe.Eu tentei várias vezes.. .Eu acho que chegou a hora da gente procurar um apartamento pra nós.. acho que está na hora da gente resolver a nossa vida. Maribelzinha.Jóbson e suas meiasinverdades “pela paz mundial”. . . eu tava com muito sono e fui dormir. LEMBRA? . não havia pensado um minuto sequer naquela possibilidade. acho muito inseguro. sempre o pegavam de surpresa. claro.disse Maribel. surpreso.. No dia em que eu for escolher onde morar. com um olhar melancólico.Você pega o carro com o seu pai pra gente conseguir ir ver mais apartamentos em menos tempo? . .61 . de ter que ficar esperando você chegar em casa pra gente conversar pelo telefone durante a semana. Acapulco Drive-in . nos últimos muitos meses.Sim. morei. . por sua vez. eu já cansei desses nossos desencontros. mas você não atendeu o telefone.Por quê? O que tá te preocupando tanto? ... .mas me diga. . vou preferir um apartamento.. por ter que ficar correndo atrás de você nos fins-de-semana. Jóbson. ..Amanhã a gente vai sair pra procurar apartamento para comprar. .questionou Jóbson.E por que isso tão de repente? .Eu tenho medo de morar em casa. Qual é o assunto tão importante que você quer conversar hoje? .Apartamentos? Por que apartamento? A gente nem conversou sobre isso ainda.respondeu Maribel. .. .Como é que é?! XXII.. Vamos ver alguma coisa amanhã. Maribelzinha. Sem falar que é muito mais caro.. já que você sempre tem compromisso com aqueles seus amigos.. . mas não escolhi isso.Mas você não morou em casa a sua vida inteira? .Bom.

pois a cada descida às mesas daquele rodízio self-service.Bom.Hein?! Tela? Que diabo é isso? . ela podia ficar à vontade. peixe e outros frutos do mar se avolumavam no prato de Jóbson.. Ele verdadeiramente adorava comida japonesa. Comer bem (no sentido de comer fartamente). disse-lhe que “a patroa” estava “deslumbrante”.exclamou Jóbson. repentinamente.Como esta noite poderia ficar melhor do que isso? Rodízio de comida japonesa e um picolé grátis! .. sorriso espontâneo.adeus.respondeu a econômica Maribel.. mas segundo Jóbson. . Ele comia aquela comida japonesa à moda brasileira.. Jóbson ficou automaticamente eufórico. que era “por conta da casa”. Jóbson avançou sobre as bandejas de sushi e sashimi.Beleza. só você mesmo. Jóbson não resistia ao sorriso espontâneo de Maribel. . quando o inocente Jóbson enunciava tal lei universal descoberta por si mesmo. dormir e ir ao banheiro”. Ele costumava dizer. já se levantando. Ele dizia sempre que poderia passar a vida inteira comendo só aquilo.... . beleza então. montes e montes de arroz. mas não recebiam resposta positiva. . (Talvez o saquê e a cerveja tenham algum papel nisto também.) Na hora de pagar a conta. após deglutir no mínimo dois kilos de alimento. que tinha vocação gastronômica para ser lutador de sumô. Os desavisados sempre lhe davam sorrisinhos de cumplicidade sacana. o gerente agradeceu sete vezes por mais aquela visita dos “ilustres patrões”. e beijando a mão de Maribel.62 .. Bem comido que estava.. “Só aquilo” é uma expressão capciosa. ai.Que tal uma tela? . Jóbson se animou e pegou um para si também.disse Jóbson.... Jamais consegui compreender como é que aquele cara conseguia comer tanto gengibre e wasabi de uma só vez.. bastava comer bem para ficar feliz. talvez por ser raro. . . e não ao sexo. e que se quisesse chupar um picolé.propõe Jóbson. . que jamais enjoaria. wasabi e gengibre eram 50% de tudo o que ele comia. bastam apenas três coisas: comer. pois o comer referido Jóbson naquela frase restringia-se a comer alimentos. era uma das grandes alegrias de Jóbson. que “para um homem ser feliz. diga-se de passagem. com o misterioso sorriso de canto se apresentando novamente. bora? . com respeito a isso.Maribel finalmente desamarrou a cara e deixou escapar um sorriso espontâneo.. . Shoyu.Ai. vou lá fazer o meu prato. talvez por ser belo.

Pra quê? ..Maribel entra no jogo e dá aquela falsa negativa. Com ligeira pressão da namorada lhe acelerando o processo..63 .. . . e às 11:30 lá estava ele pedindo o carro emprestado ao pai. . .Ai.Jóbson chega a dar uma escorregada na cedilha.Ver um filme... tem como me emprestar o carro? . Jóbson rapidamente conseguiu fazer seu ritual matinal. juntinhos... . Marifel não conhecia. hein. é por isso que eu te amo! . vê um filme bem gostoso.Pra eu dar uma volta com a Maribel... . ir ao cinema. XXIII..A gente precisa do carro... Maribel acordou Jóbson.... .Mas amanhã a gente tem que acordar cedo pra ir ver os apartamentos. . . Jobsinho.. a gente vai no cinema. e de manhã a gente vai direto ver os apartamentos.Por que precisa do carro? . . com muita dificuldade. já passava das dez da manhã. pai.... Programa de índio No domingo de manhã cedinho.Maribel lasca um beijo na boca japonesa de Jóbson. e Maribel já estava pronta para sair.A gente vai ver uns apartamentos.. Jobsinho.Ah.E precisa de carro pra isso? Por que vocês não vão ao parque? .Como é que é?! . para ver o que mais entra na jogada.Arrigo quem? . nos bancos de trás do cinema. cheirando a peixe cru e cheia de fiapos de gengibre e grãos de arroz nos vãos dos dentes.para a sorte dele. .Relaxa.. depois você dorme lá em casa. só nós dois.Pai. vai? Juntinhos.. que no momento assistia a Fórmula Truck na televisão. Tem como emprestar? .A noite é uma criança. Quando o rapaz finalmente se colocou de pé.Vamos ver um filminho. vai dizer que não conhece Arrigo Barnabé! Acapulco Drive-in? . Mas já tá tarde.

. Jóbson. porque vai ter uma estação de metrô nova em 2035. . Maribel? . Jóbson um dia me disse sempre achou que os amigos também se esqueceram de seu pai. o pai entregou a chave do fuscão para Jóbson.Filho. Me parece bacana. . que agradeceu e saiu em seguida com a namorada para olhar os benditos apartamentos..Pouco importa. só na periferia. e esse lance de todos os dias ficar longe já está dando no saco e tal.Certo. . - .. O simples boato já fez surgir um monte de empreendimentos por lá. que tem diversos prédios sendo construídos.tornou o pai. Jóbson já saiu de casa torcendo para nenhum dos malditos corretores de imóveis falarem nenhuma dessas palavras. . Quando o dinheiro minguou.Tou esperando a resposta. . sabe como é. a gente já está a bastante tempo juntos.Não vá fazer nada precipitado. . Sei.Gosto pai emprestocarroaí! . as quais poderiam nublar sua mente. não era machismo.A periferia é enorme. hein. também não. você gosta mesmo dessa menina? -… “Por que é que ele tinha que fazer esse tipo de pergunta?”. . O pai de Jóbson não fazia cerimônia em tais declarações machistas.64 . Ele sempre nos orientava.Onde você quer ver apartamento.excelente pergunta. a palavra “empreendimento” não agradava os ouvidos de Jóbson..É isso mesmo.. Após tais lúgubres palavras.. . Segundo ele.2035? Você acredita mesmo que eles vão mesmo construir um metrô na Vila Pururuca tão cedo? .respondeu Jóbson....Vamos ali na Vila Pururuca. .. Importa que o apartamento seja razoavelmente grande e não muito caro. as mulheres dos tempos pródigos “foram se esquecendo de mim rapidamente”.Provavelmente.. atropeladamente. dizendo que “havia gasto dinheiro demais com mulheres ao longo da vida”. “Investimento“. sentindo o olhar de Marifel queimar sua nuca. Mulher só quer saber de dinheiro..Pra mim não importa onde. proclamadas diante da moça que estava prestes a coabitar com seu filho. pensou Jóbson. E onde é que tem esses apartamentos aí? . segundo o governo do estado. .

. .perguntou Jóbson. etc. Jóbson ligou o tocador de CDs do fuscão. um ótimo investimento. Jóbson. mesmo incomodada com o teor das canções. De casa até a Vila Pururuca. você. Não deu outra. foi o suficiente para ouvir pérolas da dor de cotovelo como “Nervos de Aço”.. impaciente. .Jóbson perdeu completamente a paciência. Maribel! Dá pra ter pelo menos uns três filhos.Você vai dizer quanto é o bagulho ou não? . . quando o corretor o mediu de alto a baixo. cara? . não? Mas tudo bem. Jóbson já se sentiu contrariado. mas naquele dia. o rapaz começou a falar que o apartamento era muito bem iluminado.Que legal.Vamos ver quanto é essa bagaça. não há problema em lhe contar: um dia eu a encontrei em um boteco e ela me desabafou estes detalhes depois de uns drinques. Quando foram até o corretor para consultarem o valor do imóvel e as formas de pagamento. Em qualquer outra oportunidade. ela preferiu suportar aquilo.. então. que era próximo ao metrô. eles puderam visitar o apartamento decorado. “Vingança”.65 Vamos lá então. amplo. era um disco do Lupicínio Rodrigues. uma bermuda jeans e um par de chinelos de dedo bem judiados. Maribel enfiaria a mão ela mesma no som do carro e trocaria para a primeira rádio FM de balada que conseguisse sintonizar. . .Ele terá duas piscinas quando estiver pronto. Gostei. cerca de meia hora de carro no domingo.o sujeito lhes apresentou uma visão artística de como seriam as piscinas. Mas não os do namorado. Como as obras já estavam adiantadas. e tantas outras falas que caíam como bombas atômicas dentro da cabeça de Jóbson. morando aqui! .. Logo de cara.Mas quanto é o apartamento. Jóbson trajava uma camiseta regata. que era um excelente empreendimento. com três dormitórios. O apartamento era muito bom. . Já pensou vocês dois relaxando em um dia de domingo como este dentro destas piscinas? . Mas o apartamento é bom mesmo.Eu não vou ter filho nenhum.Jóbson murchou. que fizeram os olhos de Maribel brilharem. Bom. Jóbson rapidamente estacionou o carro no primeiro prédio em construção da avenida principal do bairro. . Como eu sei que ela pensou isso? Curioso. estrategicamente. uma para crianças e uma de vinte metros. onde ele já sabia que haveria um daqueles discos sensacionais da discoteca do pai.Jóbson se empolgou ligeiramente. . chegando à Vila Pururuca.

Muito obrigado. Muito prazer. senhor. . sinto muito. igual àquelas propagandas de carro da televisão.Bom dia.O prazer é todo meu. Como não o fez.Bom. nosso amigo cuca-fresca. .Eu sou a Maria Belmira. . o condomínio deste empreendimento é o menor do bairro. meu marido. eu não sou especialista em nutrição. Jóbson. Algum dos sanduíches ali faz bem para os ouvidos? Parece que ando tendo problemas de audição ultimamente. com uma naturalidade no sorriso de fazer inveja a todos do Museu Madamme Tussauds. O trabalho dele é enganar e ludibriar. um sanduíche? . Jobsinho! Não vai falar essas coisas lá dentro que assim você me envergonha.Jóbson fechou a cara e virou-se para Maribel: “Bora. com objetividade e frieza de darem inveja ao Sr. senhor e senhora? . Meu nome é Sérgio. tenho certeza de que se fosse honesta. falaria para o Jóbson que seria melhor irem embora dali. mas se o Senhor quiser. e estou à sua disposição.Eu aceito tudo. posso estar chamando alguém que possa estar ajudando o Senhor melhor do que eu. Spock.Bom dia. valeu então. onde tem? . o cara só está fazendo o trabalho dele. passou a hostilizar o pobre e bem-intencionado corretor de imóveis. .Beleza. . Maribel tentou acalmar o namorado. ainda na planta.Jobsinho.. e este bonitão é o Jóbson. . . . . .Errado. .Não se preocupe com os valores. apontando para uma mesa onde havia uma cafeteira elétrica de última geração. Senhor Josimar.Está tudo bem ali. . que é vender os apartamentos. tudo fartamente decorado com flores lindíssimas. você não vai achar outro igual. viemos ver a planta dos apartamentos e saber o valor. Jóbson e Maribel entram no terreno do segundo prédio. jarras enormes de suco e meia dúzia de sanduíches de metro. que tem letras miúdas que nem mesmo gravando no videocassete e pausando dá pra ler. um suco. ..Videocassete? Que coisa mais antiquada. Quando Maribel ouviu o corretor chamar Jóbson de “senhor” e de “Josimar”..” A caminho do segundo “empreendimento”. Aceitam um cafezinho. O trabalho dele é ser uma propaganda humana.disse o corretor..66 .disse Jóbson. falar todas as qualidades e tal. Senhor Josimar. Senhor Alfredo.

. .. tem muitos apartamentos por aí que dizem que são maiores do que este apenas por possuírem uma metragem maior. . mas Maribel sentia que daquele jeito eles não assinariam contrato algum naquele dia. Tentando não contrariar o potencial cliente. eu acho que não entendi muito bem. o apartamento tem dois dormitórios grandes. Percebendo o rumo da prosa.Eu disse que vou estar chamando alguém. para tirar a barriga da miséria. Senhor Josimar. . que caso o senhor queira. Assim sendo.dito isto. Caixa de ódio No restaurante. .. é muito superior. Seu Josimar. e Jóbson concordou na hora. Senhor Alfredo. substituindo a posição da porta. ora porque Jóbson criticava demais praticamente tudo o que os corretores falavam.Veja bem. . Ora porque Maribel havia perdido a paciência em relação à má-vontade de Jóbson. Senhor. Qual é a metragem mesmo? . maionese. Maribel propôs que almoçassem algo bem gostoso. Nosso apartamento é amplo. Após baterem muita perna pelos empreendimentos.Bora. como um rodízio de churrasco. mas na verdade eu só gostaria mesmo é de saber a metragrem do apartamento e o valor. podemos transformar em outro quarto. graças à cozinha americana.Seu Fernando. queijo. Senhor Josimar. o corretor prosseguiu: .Quantos metros quadrados? . Jobsinho..Como? . . XXIV. qual foi o apê que você mais gostou? . investimentos e grandes oportunidades imobiliárias da Vila Pururuca..Quarenta e cinco. Quarenta e cinco metros quadrados. o tema da conversa não poderia ser outro.Veja bem. salame.Ah.Jóbson forçou as fricativas surdas de tal forma que abomináveis pedaços de pão. É verdade que pelo menos metade das críticas eram mais do que razoáveis. o corretor engoliu a máscara e mostrou a verdadeira face.67 . tomate. mortadela. alface e sabe Deus o que mais que havia naquele sanduíche foram projetados para a superfície da elegante mesinha. Jóbson e Maribel começaram a se desentender.Me diga. eu agradeço. mas o espaço interior do nosso empreendimento. Jóbson foi até a mesa florida e pegou meio metro de sanduíche. e um quartinho de empregada. Maribel.

. como você é pobre! Não é pobre. só nosso... mas tem espírito de pobre.Ai.. pegar um que ganhasse mais. que ele viria a encher o tanque antes de devolver.Ai.E tá mesmo.. O . e você fica com essa choradeira. A comida perdeu o sabor.Tudo caro. Repentinamente. O restaurante era familiar. deveria trocar de emprego. fazendo um charminho. que são os muitos “empreendimentos” pequenos e caros. outros que a propaganda dizia que eram enormes. sem paciência nenhuma. fica se apegando a coisas pequenas! A gente tá olhando um apartamento que vai ser nosso.Já pensou em ser corretora de imóveis? . Quando muito. porque havia ido ver apartamentos “sem compromisso” na Vila Pururuca. Naquele momento. Cê queria que eu fizesse o quê? O cara tava tentando me enganar! Queria que eu desse um cheque em branco na mão dele? .. e a pior parte.Eu também tou falando sério. Por isso é que a gente não se casa nunca. pois havia deixado toda ela com a legião dos trezentos corretores de imóveis da Vila Pururuca. acolhedor. Jóbson sentiu calor. Aliás. De dentro para fora. simpático e barato. Maribel.. mas na verdade eram mais ou menos..Eu tou falando sério.Como você é mão-de-vaca. Alguns apartamentos verdadeiramente espaçosos e caros. . uma baita perda de tempo. mesmo não tendo consumido nem mesmo um quarto de gasolina..Você é que tá ganhando mal. mal dá pra dar entrada em qualquer apartamento desses que a gente viu. falando que tudo tá caro! . Jóbson! Como você é exigente! Por que não gostou de nenhum? . .68 . com o carro emprestado do pai. . nossa. Jóbson! A gente tá escolhendo um lugar pra morar juntos! É o momento pra gente gastar um pouquinho a mais se for necessário. pra gente morar.Credo. uma mesquinharia. a gente conseguiria naquele que era tão mau negócio que o cara até desistiu de tentar ludibriar a gente.desdenhou Jóbson.“Apê”? . meu amoreco! . seria bem mais útil que aquilo. Jóbson. hein? Afe. por que você não abandona aquela porcaria de faculdade que faz à noite e não presta pra nada e não arruma uns frilas pra fazer em casa. .Não gostei de nenhum. .disse Maribel. Com o dinheiro que a gente tem guardado. Ao menos até os intestinos da mente do generoso Jóbson digerirem a carne de pescoço que os ouvidos haviam acabado de engolir. . As carnes estavam maravilhosas.Só lamento. também caros. Jóbson estava almoçando em um rodízio de carne com a namorada. Jóbson! Eu me segurei naquele lugar! Como você é grosso!! .

não estava mais sendo pilotada por sua mente. mas como ele havia abraçado de bom grado a sugestão de almoçarem por ali. quando eles “atravessavam o corpo” das pessoas.Cê tá me ouvindo. De repente. Era o momento introspectivo de Jóbson. . tomando emprestadas as palavras de Marifel. como se fosse transparente. (O que. aliás. da forma como acontecia com o Jóbson quando ele ficava furioso. seria de Jóbson sem a poesia em sua vida?) Um poema do Ferreira Gullar tomou sua mente de assalto: OMISSÃO Não é estranho que um poeta político dê as costas a tudo e se fixe em três ou quatro frutas que apodrecem num prato em cima da geladeira . ou então. espetada em um punhado de ossos.69 vermelho. Ele estava tendo insights múltiplos. o olhar do namorado (que ela e a torcida do Flamengo consideravam avoado e distraído) lhe atravessava o corpo. não seria correto fazer isso. Naquele momento decisivo.Maribel abominava quando por uma fração de segundos. . Uma peça que começou a tremer imperceptivelmente quando seu sangue começou a pururucar por dentro. o verde e o amarelo vibrantes dos pimentões que cobriam o prato de salada de Jóbson. Era apenas uma peça de carne mal passada. Que conceito interessante. de repente perderam a cor. Mas algo precisava ser feito. Esmaeceram. Jóbson se lembrou de uma poesia. à interlocução. hábil com o garfo. Jóbson achou que aquele restaurante estava caro demais e cogitou pagar somente a parte dele. o que significa que quando os olhos dos olhos de Jóbson se fechavam.Jóbson! Detesto quando você olha através de mim desse jeito! Eu sou transparente por acaso? Transparência. Jóbson poderia ser considerado por nós um tanto avoado e distraído. era exatamente nesta hora que ele estava menos avoado e menos distraído internamente. A mão direita de Jóbson. Jóbson? . no que tange à relação interpessoal. mas tal fenômeno ocorria exatamente quando ele entrava em tempestade cerebral.

das forças . II É compreensível que tua pele se ligue à pele dessas frutas que apodrecem pois ali há uma intensificação do espaço.70 numa cozinha da Rua Duvivier? E isso quando vinte famílias são expulsas de casa na Tijuca. os estaleiros entram em greve em Niterói e no Atlântico Sul começa a guerra das Malvinas Não é estranho? por que então mergulho nessa minicatástrofe doméstica de frutas que morrem e que nem minhas parentas são? por que me abismo no sinistro clarão dessas formas outrora coloridas e que nos abandonam agora inapelavelmente deixando a nossa cidade como suas praias e cinemas deixando a casa onde frequentemente toca o telefone? para virar lama.

71 que trabalham dentro da polpa (enferrujando na casca a cor em nódoas negras) e ligam uma tarde a outra tarde e a outra ainda onde bananas apodreceram subvertendo a ordem da história humana. e que nos atrai com sua boca de lama sua vagina de nada por onde escorregamos docemente no sono e é bom morrer no teatro vendo morrer . que é também a nossa. tardes de hoje e de ontem que são outras cada uma em mim e a mesma talvez no processo noturno da morte nas frutas e que te ligam a ti através das décadas como um trem que rompe a noite furiosamente dentro e em parte alguma – é compreensível que dês as costas à guerra das Malvinas à luta de classes e te precipites nesse abismo de mel que o clarão do açúcar nos cega e diverte ser espectador da morte.

a banana ou o que seja e assistes à hecatombe no prato sob uma nuvem de mosquitos e não ouves o clamor da vida aqui fora na rua na fábrica na favela do Borel não ouves o tiro que matou Palito e não ouves. poeta? adiaste o futuro? . poeta. a pêra. É a morte que te chama? É tua própria história reduzida ao inventário de escombros no avesso do dia e não mais a esperança de uma vida melhor? que se passa.72 pêras ardendo na sua própria fúria e urinando e afundando em si mesmas a converter-se em mijo. o alarido da multidão que pede emprego (são dois milhões sem trabalho há meses sem ter como dar de comer à família e cuja história é assunto arredio ao poema).

Os lábios de Maribel se moveram espasmodicamente. Pela primeira vez. de acordo com a grande mídia. pela primeira vez cabisbaixa naquele dia que ela havia calculado ser um sonho de consumo. claro.Agradeça. Muitos construindo prédios. sendo explorados por empreiteiras escravagistas. foi quando ele disse a primeira palavra após o sonoro “caralho” no restaurante: . como uma alma penada. quando ele respondeu concretamente à sua pergunta mais do que retórica. Estacionando o carro. a Favela da Pururuca. Ele engoliu aquilo pela boca da alma.Arrumar outro emprego é o caralho. Aquele sentimento lhe era alimento. Te dei uma carona até o necrô. Ele permaneceu impassível.Pronto.Sim. o acompanhou silenciosamente. Algo se quebrou dentro dele. Em vinte minutos você tá em casa. com um rastro escuro de maquiagem escorrida no canto dos olhos.73 . . Jóbson se lembrou que aquela vila que agora pururuca de empreendimentos imobiliários. Maribel. . Você mora perto do necrô. . Jóbson a levou até a estação de metrô mais próxima. que fora destruída por um incêndio (acidentalmente. Jóbson se lembra da sensação que teve quando leu no jornal que muitas crianças morreram carbonizadas porque dormiam no horário em que o incêndio se avolumou. em conchavo com a prefeitura da Necrópole). mas desta vez ele não vomitou. Jóbson se levantou e foi pagar a conta. surpreenderam e estremeceram Maribel. . mas a atmosfera. Aqueles que tinham um emprego. Quando leu aquilo. . enquanto seus pais trabalhavam em partes distantes da cidade.sussurrou Maribel. Jobsinho? . o clima que surgiu de repente e abraçou aquela mesa número dezenove do restaurante a emudeceu. como se ela fosse falar algo.disse Jóbson. ocupava o espaço em que fervilhava uma favela. Os olhos de Maribel ficaram marejados. e um beicinho igual ao de criança mimada contrariada se formou. para quem quisesse ouvir. Ele se nutriu daquilo. Tá transparente.a voz soturna de Jóbson. .Como assim. simultaneamente com um novo olhar que lhe surgiu repentinamente na face. Maribel tentou com todas as forças dizer alguma coisa. Jóbson ficou nauseado e vomitou. mas nada saiu de sua boca. e uma nova náusea lhe percorreu as entranhas quando imaginou que poderia passar o resto de sua vida morando com aquela mulher em um “empreendimento” construído sobre os escombros de uma favela.

se esticou para puxar a porta do passageiro e batê-la com força. porra!! . eu lhe diria que essa dor da liberdade e da leveza devia ser obviamente por ele e Marifel estarem juntos a tanto tempo. Enquanto colocava o cinto de segurança de volta e esperava o fluxo de carros diminuir para sair com o carro.Mas eu não tenho bilhete único nem dinheiro. Jóbson conseguia ver Maribel arrancando os cabelos e se esgoelando. “Vou mandar um carro de som na tua rua pra todo mundo saber o que você tá fazendo comigo!!”. Era a genuína dor do rompimento. Alguma dor provinha da possibilidade dela realmente se matar.Você não pode fazer isso comigo! Não pode!! . na minha opinião.Maribel gritou ao descer do carro. . Jóbson permaneceu matutando sobre as palavras de Maria Belmira. me disse.Maribel vociferou.Já te ocorreu que o meu pai tá o dia inteiro sem o carro dele? Já te ocorreu que gasolina não dá em árvore? .Eu disse que eu não tenho dinheiro.. cê vai me fazer pagar uma passagem de metrô? Não te custa nada me deixar em casa. porém. como se tivesse tirado um planeta das costas. Mas te trouxe até o necrô. de liberdade era o mais pungente. e ele se sentir .Jobsinho. visitando parentes. . mas sim. Pelo retrovisor. era a pergunta que o movia. Jobsinho. Jóbson.. Jóbson.Arrume um emprego. Jóbson mergulhou em seu momento e analisou seu sentimento mais profundo. porque eu estava no interior. ouvia Maribel gritar coisas como “Eu vou no seu trabalho acabar com a sua vida! Vou falar pra todo mundo que você é vagabundo!”... Ambos estavam lá. . . Um sentimento de leveza. não vai me agradecer? . a quem ele já não se referiria nunca mais por Maribel.. percebeu que aquelas palavras violentas de Marifel ao descer do carro haviamlhe afetado. um sentimento novo.74 . “Nem mesmo em pensamento”.Se vira! . “Eu me mato. que nem mesmo havia desligado o motor do fuscão.”. e discerniu que não era ódio nem desprezo o que sobressaía. Sozinho em casa.Não. “Por quê a dor?”. Jóbson! Se você terminar comigo. “Não vai emboraaa. mas se me encontrasse. provavelmente não teria me encontrado..Você não vai me levar em casa? . Se ele tivesse me procurado naquele domingo. eu me matooo!”.. e por ele se doar tanto a ela. eles eram quase uma coisa só. mas pungente. mesmo já a uns 200 metros.

Segunda-feira braba A segunda-feira despertou mais braba do que de costume para Jóbson. etc. pois não teve coragem para se abaixar e pegar o outro embaixo da cama. eu não mereço nada. Não. claudicou até o banheiro. a gente tinha tudo pra dar certo. Quando vieram o cansaço. Amigão que sou. um cara mais generoso e menos sovina com as tais coisas pequenas. suportei o meu camarada Jóbson.. no corredor. Ele queria mesmo era lavar aquele bueiro que havia se tornado sua boca. na verdade não era bem isso. o sono e a dominguite . “pode crer”. XXV. ele não o alcançou a tempo. e estava breaco. “jogado tudo fora. acolhi. Aos poucos ele foi ficando mais relaxado. Sim. vomitando ali mesmo. conforme tentava carregar o próprio corpo para o banheiro. dei força. carne e outros alimentos podres estivesse escorrendo para dentro e para fora de sua boca e garganta. Não no sentido de suportar quando a pessoa diz “argh. eu acabei com o nosso relacionamento. “você tem toda a razão”. seu único desejo era escovar os dentes. Ele sentia como se aquele caldinho pastoso e espumante que escorre de frutas. muito menos dormir. Jóbson ligou para mim naquela noite. mas suportei no sentido de apoiei.. ora com “ahã”. Pobre Jóbson. Apoiando-se na parede. como se seus pensamentos tivessem se materializado ali dentro. calçando apenas um pé de seu chinelo havaiano.”. Jóbson foi até a cozinha e tomou uns gorós de seu pai. Seguindo a sabedoria passada de geração em geração em sua família. Eu acho que a consciência de tantos anos dedicados com todas as forças a um relacionamento que acabou daquela forma era mesmo o que mais lhe doía. Quando se levantou da cama. “fale mais sobre isso”. eu não suporto mais”. suportei ouvir ora calado.que é aquela doença que se instala no final do domingo. um bom companheiro. eu sou um filha duma puta mesmo. Enquanto percorria o interminável caminho. sentiu o planeta rodar ao redor de si.. enfim. Sua cabeça parecia pesar muito mais do que o normal. No final das contas. mesmo odiando o tal do telefone. de frente para o banheiro. De frente para o . embora não conseguisse ainda deixar de se lembrar de Marifel e dos “ótimos momentos que passaram juntos” e que ele havia destruído.75 culpado pelo resto da vida por não ter sido um bom namorado. que estava de ressaca.. quando o caboclo se lembra que o dia seguinte é segunda-feira Jóbson não conseguia relaxar.

achando que alguém (ou algum animal de médio porte) estava agonizando. fedor este que ao agredir as sensíveis narinas de Jóbson. aquele pobre par de órgãos não conseguia mais trocar gases com a pútrida atmosfera da Necrópole. Jóbson foi ao quintal. Com a coragem renovada após exorcizar a legião de demônios que possuíam seu interior. onde pegou um balde e um pano de chão. certamente ficariam aflitos. um arremedo de homem. De forma alguma lhe seria possível tornar a colocar lentes naquele par de cancros abertos que haviam-se tornado seus olhos. Caso houvesse gente por perto. concluiu que deveria tomar um banho. Cerca de vinte minutos de purgatório depois. e até mesmo pedaços de carne de variados tamanhos. seu querido gato . ele acreditou ter recolhido tudo. porque não notou que havia respingos nas paredes. com dezenas de artérias capilares perfurando o tecido branco de seus olhos para tentar levar oxigênio. Na verdade. Jóbson vomitou gritando. seus olhos agora ardiam e lacrimejavam muito. Notando que havia voltado a raciocinar normalmente. Lacrimejavam por dentro e por fora de seu rosto. Jóbson não costumava mastigar muito os alimentos antes de ingeri-los. As moscas e outros animais necrófagos domésticos . Após mais uma noite virada com as lentes de contato nos olhos. Jóbson arrancou aqueles plásticos dos olhos. retornou ao quintal para buscar uma pá e uma vassoura. e levantou o olhar e a cabeça o suficiente para olhar no espelho e tentar se reconhecer. mas não sem antes limpar o vomitório que empesteava o corredor de sua casa. Seus olhos lacrimejavam enquanto seu organismo expulsava uma mistura fétida e putrescente. Por sorte. Pouco tempo depois. Jóbson não se lembrava disso àquela altura. com os quais conseguiu recolher quase 85% de tudo o que estava espalhado por ali.como Escorpião. aumentando a cada ímpeto vomitivo. todo vomitado. com os olhos esbugalhados. quando em estado ébrio. lhe reduplicavam a náusea e levavam seu organismo tentar expulsar aqueles pedaços enormes de carne que pareciam que iriam romper seu peito com mais força ainda. pois já eram nove da manhã e o povo já havia ido para as galés. e notou que além de vermelhos e repletos de remelas endurecidas como cascas de feridas. após muita reflexão. mas após tomar um porre com as bebidas do pai. o que significa que começou a escorrer-lhe muita coriza pelas desbastadas narinas. nem nas casas vizinhas. pois não havia mais permeabilidade naquilo que já estava se parecendo mais um disco de plástico ressecado do que uma lente de contato gelatinosa. não havia ninguém em casa. ele foi à cozinha e matou uma panelada de carne de panela que seu mesmo pai havia feito. Jóbson finalmente conseguiu transcender o ciclo.não .76 espelho do banheiro. O que ele viu foi a visão do inferno.

mesmo após a macabra experiência exogástrica. Seu pai limparia as paredes rapidamente. com abrir ou fechar de olhos. se foi precipitado.sem muito sucesso .não se lembrar da visão infernal e. e. ou o escambau. Jóbson comentou que quando questionou se acaso não teria sido muito precipitado e pouco gentil ao deixá-la no Necrô. O mais cedo significa “não antes dos ritos matinais”. Ao lembrar-se. do sabor que lhe havia impregnado a boca. com espreguiçadas. de acordo com Jóbson. Cansei de ver ele fazer ambas as coisas. Jóbson se pôs a conversar com Escorpião. o que foi interpretado como um consentimento. Tal sentimento o levou a recordar-se de que era plena segunda-feira e ele nem mesmo estava se lembrando de ir trabalhar. e mais ainda dentro do balde que Jóbson esqueceu aberto no quintal. Jóbson foi tomar seu merecido banho. mas aprovou a coragem e a sensatez de dar um basta naquela situação. acelerou o ritmo e pôs-se na rua o mais cedo possível. logo após retornar de seu passeio matinal. orais. as respostas de Escorpião eram dadas gestualmente. ele fazia isso. o velho me perguntou na primeira oportunidade. sentindo-se um sujeito responsável. após terminar de comer os pedaços de carne espalhados pelas paredes do corredor. Eu.77 eram míopes tão míopes quanto ele. Jóbson perguntava para Escorpião o que ele havia achado de suas atitudes. Com a retirada estratégica de seu interlocutor. ora telepaticamente. Após a revigorante faxina. lambidas. com um misto de nojo e preocupação. à menor menção de que Jóbson começasse com esse papo de telepatia e perguntas imbecis sobre se foi grosseiro. o papo com Escorpião era sobre o dia anterior. reprovou o exagero na bebida. O pobre felino tornou-se Grilo Falante naquela feita. Sim. e naquela manhã. com bocejos. Tomou com dificuldade. uma aprovação à atitude. “mantenedores da saúde mental”. Ora com palavras verbais. Segundo nosso amigo telepata. Jóbson fez questão de tomar sua diária caneca de café-com-leite. no lugar do gato. Naquela manhã. Tomar café-com-leite era um dos rituais sacrossantos. Enquanto tomava aquele leite. com arranhões na mobília. Literalmente. as moscas depositaram centenas de ovos naqueles pedaços de animal morto espalhados verticalmente pelo corredor. principalmente. Jóbson finalmente . perguntas que o felino respondia “sempre”. mas tomou. ronronados e miados. “Onde foi que eu errei?”. Escorpião se levantou e saiu da cozinha caminhando sem olhar para trás. rolamentos. para tentar . e se fartaram de alimento. Após se alimentarem bastante. Escorpião representou gestualmente que Marifel tinha pernas para andar. Para Jóbson. com vagar. também teria virado as costas e saído andando dali. como dira ele.

. Talvez fosse interessante ele refletir sobre a irresponsabilidade que foi encher a cara no domingo à noite. Ele não estava de todo errado.E que tal a gente pegar uma chuleta ali no Frége? Dá muito maissustância! Segundona. acho que o que matou o gato foi o que lhe vomitaram nos ouvidos. sacumé. Chegada a véspera da hora do almoço.. disse . Ao longo daquela curta manhã de trabalho. desta vez. às dez e meia da manhã.78 foi trabalhar. e ainda outras nada faziam além de tumultuar e jogar as pessoas umas contra as outras somente para ver o circo pegar fogo. ele se sentia cumpridor do dever ao comparecer para trabalhar apenas quando em condições de jogo. Pelo contrário. Da minha parte. Poucos dias depois. Jóbson. Não lhe sairia nunca da cabeça que foi por comer aquilo que ele havia vomitado que o pobre gato teria morrido. Principalmente esta última. Jóbson não conseguiu trabalhar. “ganhar mais” e “você não pode fazer isso comigo”. ele me perguntou naquela manhã pelo correio eletrônico. Ao menos três ou quatro pessoas defendiam suas próprias sugestões como as melhores. e ela ainda queria me dar ordens sobre como fazer isso?!”. vamo lá no Cevada’s Bar! Lá tem comida japonesa! .. ainda repercutiam frases como “trocar de emprego”. enquanto outras concordavam ou discordavam.Bora no Bigode? .. mas quem sou eu para dar pitaco na vida dele? No final das contas. começou aquela espécie de pregão de sempre: . Em sua cabeça. Isto não pode continuar Mais uma vez. A ficha ainda estava caindo.Não. foi bom para ele deixar bem marcado aquele rompimento. aquele momento triste. foram coisas que ele me escreveu naquela manhã. ele não estava com peso na consciência. nosso herói chegou atrasado no serviço. o que deixaria Jóbson verdadeiramente enlutado. sua mente ainda não. “Quem é ela pra me dizer o que eu posso e o que eu não posso fazer?”.. “De que adiantava eu chegar na hora naquele estado que eu tava?”. Mesmo assim. Escorpião viria a falecer também. a melhor parte do dia para Jóbson. “Eu tava dando uma carona pra ela no carro do velho. XXVI. cara! Hoje é segunda. porém. quando seu corpo já se enchia da alegria de viver. Se seu corpo já estava em condições..

crendo ser aquilo uma piada de Jóbson. etc. e em três “abridas”. foi onde ele se encontrou. em nenhum outro lugar do mundo humano que Jóbson conhecia as pessoas evacuavam sobre a tampa fechada das latrinas. o amadurecimento. com o rosto a menos de um palmo do monitor do computador. Nada passava batido. Aos poucos os colegas de serviço foram deixando o recinto. e correu o livro em busca do fragmento. O sentimento de um acúmulo dos sofrimentos amorosos explode no grito: ‘isto não pode continuar. passou um melzinho na bunda hoje!”.. e também não conseguir se concentrar em resolver seus pensamentos. se não para sempre. Alguns dilatados segundos depois. Um demônio nega o tempo. Entediado que estava com aquela situação. Tudo o fazia se questionar. pois é próprio da situação amorosa logo tornar-se intolerável. Esta frase.’” Ali. com uma frase que precipitará o suicídio de Werther. Jóbson fez o que fazia de melhor.Contudo. deficiente visual sem as muletas oculares. como se fossem críticas reais. “Vagabundo!”. “Pode crer! Aposto que vai pegar um rodízio escondido com a namorada hoje!”. no banheiro imundo daquela empresa em que os clientes nem mesmo pareciam humanos. “O cara é foda. Ironia das ironias. As mesmas brincadeiras de sempre. afinal. o próprio Werther poderia tê-la dito. A ordenação alfabética o ajudou. por não ficar à vontade. “1. a turma explode em gargalhada. de não conseguir trabalhar por não conseguir se concentrar. chega tarde e ainda vai no rodízio. isso dura. Nosso pensativo trabalhador. Mas naquele momento. Jóbson se recordou que havia ficado curioso sobre a imagem “Insuportável”. ao menos por . mas não sem dizer coisas como “Deixa esse viadinho aí. Carlota (que também está com problemas) acaba por constatar que ‘isso não pode continuar assim’. sacou os “Fragmentos” da mochila e entronizou-se. como se o tempo tivesse parado..”. não estava rindo. porém. tudo soava punitivo. apenas passado o deslumbramento do encontro. tudo o que ele adorava ouvir da boca dos amigos. e bem cedo. “Lombo grosso!”. Aproveitou que todos haviam ido almoçar. a dialética e diz a cada instante: isso não pode durar! . Jóbson foi ao banheiro do serviço. No final do romance. Foi ali que seus pensamentos começaram a se resolver.79 não estar com apetite. Jóbson já pôde iniciar a leitura: “INSUPORTÁVEL. Foi como se o mundo tivesse parado de girar.

mas e você? . Sentimento amoroso: nada se ajeita. a repetição (cômica) do gesto pelo qual notifico a mim mesmo que decidi . cara! Seis da tarde? Eu até chego. pois a cada dia ele tinha que repetir para si mesmo que era bom estar ali. A paciência amorosa tem pois. Pegou o telefone. Jóbson escreveu-me: “Esse Barthes é um gênio!”. lhe desumanizava. e não tinham a menor vocação para gerenciar projetos ou pessoas. é uma desventura que se desgasta na proporção de seu agravamento.Vai trabalhar das onze às cinco agora?! . nem de uma coragem. Jóba! . Jóbson? . Júnior! .Paolo Jr. . você não é tão genial quanto ele”. de alguma forma.Porra. mesmo as que lhe conheciam melhor. tivera a visão clara de que aquela atividade lhe destruía. .Cinco? . sua própria denegação: não procede nem de uma espera.Eu vou dar um jeito de sair às cinco. uma série de recorrências. . só para sacanear. que era natural as pessoas com cargo de chefia serem incompetentes.80 muito tempo.Tem que estar lá às seis da tarde! . desatou a rir do outro lado da linha. ligou para seu camarada Paolo Júnior. pois muitas delas perseguiam o cargo de chefia. .O que manda? .disse Jóbson. e contudo dura. Jóbson decidiu naquele momento que voltaria a jogar futebol no dia seguinte. como ponto de partida.Mais cedo que hora. Jóbson já havia concluído que não queria aquilo para a vida inteira. porque saio às quatro e meia do trabalho.)” Ao retornar do banheiro. e o convocou para chegarem mais cedo na faculdade para jogar futebol.mais risadas. que era normal que as pessoas o julgassem pela aparência. . nem de um domínio.corajosamente! .. Respondi que “infelizmente. resoluto.Cacete.mas nada dura. Decidiu e agiu.Bora chegar mais cedo na faculdade amanhã pra bater uma bola? .. Aquela leitura levou Jóbson a concluir que seu trabalho era insuportável. mas desta vez.Porra. nem de um ardil. (Sentimento razoável: tudo se ajeita . a paciência de uma impaciência.pôr fim à repetição.

Quero ver quem é que vai me encher o saco quando eu sair às cinco. seguiu seu trabalho. O dia transcorreu normalmente. Jóbson trabalhou olhando para o relógio naquela tarde de terça-feira. e agora de lentes nos olhos. que as fofoqueiras não paravam de falar coisas ruins sobre ele. Não havia quem o detratasse diretamente.Na quadra ou no campo? . e que para relaxar acabou se excedendo na bebida. com os camaradas mais chegados questionando o dia anterior. O chefe também não havia chegado. Quando ele olhou para aquele canto inferior direito da tela do computador e viu quatro números dispostos assim: 16:03. mano! Seis da tarde no gramado é nóis! . etc.Não. a gente vai lá pra se mancomunar! . . e Jóbson ficou extasiado. com chuteira.No campo. “Falta menos de uma hora!”. Na hora do almoço. caneleira e o escambau. para o espanto da turminha da fofoca. E neste ritmo.É nóis! XXVII. pensou. pois seus colegas mais próximos no espaço físico do escritório ainda não haviam chegado. Vou chegar no trabalho às oito da manhã. afinal. nem mesmo parou para ler seus blogues prediletos. alertando que o chefe estava de olho. nenhum deles estava online. Jóbson chegou ao escritório para trabalhar às oito da manhã em ponto. Animado mais uma vez que estava. A Mão Invisível No dia seguinte. muito menos para conversar com os amigos através dos programas de troca de mensagem.Então fechou. Os amigos verdadeiros tiraram um sarro. Ah! E não faço mais hora extra. Jóbson contou aos amigos que passou mal no dia anterior por causa da pressão que sentiu ao terminar com Maria Belmira. seu coração se encheu de alegria. Jóbson trabalhou concentrado desde cedo.81 . Tem uma turma que joga todo dia nesse horário. Hora extra de hoje em diante é o caralho! . e isso o animou. Não se importou em saber as novidades das trezentas lojas virtuais que lhe enviavam diariamente “promoções imperdíveis só hoje”. também.

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Às cinco em ponto, Jóbson encerrou as atividades, desligou o computador, se despediu dos colegas e se encaminhou para a porta. No caminho, a mesa do chefe, com o próprio ali sentado, guardando posição estratégica. - Falou, Roberto, até amanhã. - disse Jóbson, sem parar de caminhar. - Onde você pensa que vai a essa hora? - respondeu grosseiramente o chefe. - Vou bater uma bola. Cê joga? - Jóbson, eu já estou perdendo a paciência com você. Os caras lá de cima já pediram a sua cabeça mais de uma vez, e eu o defendi. Assim fica difícil defender você. “Será que ele de fato dá satisfação às fofoqueiras, então?”, pensou Jóbson. “Seriam elas os caras lá de cima?”. - E o que eu fiz de errado dessa vez? - Como assim, o que fez de errado? Chega às onze e meia e vai saindo às cinco, como se nada estivesse acontecendo? Como se fosse estagiário! Você não trabalha meio período não, cara! - disse Roberto, bufando, parecendo uma panela de pressão prestes a explodir. - Ué! E quem falou que eu cheguei às onze e meia? - disse Jóbson, despretensiosamente. Da parte de Jóbson, era apenas uma pergunta retórica, asseverando que não havia chegado às onze e meia. Para Roberto, o grão-chefe do mini-setor, aquilo era uma afronta, ele se sentiu acuado, como se Jóbson soubesse do que seus olheiros lhe contavam. Ele gaguejou. - Eu, eu não vi você chegar, Jóbson. - Mas eu vi você chegar. Você chegou perto das onze. - Eu estava em uma reunião importante com a diretoria, Jóbson. Por isso cheguei somente às onze. Jóbson ficou emputecido com a mesquinharia daquele sujeitinho. Mais uma vez. - Olha, Roberto, pouco me importa onde você estava. Não tou nem aí! Por mim, você podia estar reunido com o diabo! Eu cheguei às oito e estou saindo às cinco, algum problema? - Nenhum problema, mas eu estou avisan... - Jóbson o interrompeu bruscamente. - Tá avisando o quê? Tá avisando o caralho! Está querendo me dar uma bronca no dia em que cheguei cedo? Antes de todo mundo? No dia em que estive mais concentrado no trabalho? No dia em que rendi mais? Tá de brincadeira? O que você quer com isso? Quer provar o quê com isso? -…

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- Aquele abraço. (Todo o escritório havia parado para assistir aquele épico momento. Um silêncio de tensão e expectativa perdurou até que Roberto se levantou de sua base avençada e foi fumar um cigarro na rua.) Ao colocar os pés na rua, Jóbson notou que ainda era dia. Um lindo dia. Para Jóbson, a co-ocorrência de fatos misteriosos como conseguir chegar cedo no trabalho, conseguir defenderse da opressão do chefe e sair às cinco da tarde, e finalmente, ao sair das galés, verificar que está um dia lindíssimo, propício à prática esportiva em campo aberto, só poderia ser um milagre. A mão invisível de Deus mexendo seus pauzinhos para a felicidade do pobre Jóbson. Ele tinha muita fé na tal mão invisível, que segundo ele, era “exatamente o contrário da mão invisivel que perseguia Strindberg”. Quando me disse isso, respondi um “Pode crê...” e fiz cara de quem entendeu, mas não faço a menor ideia de quem seja esse tal de Strindberg. Quando planejou se encontrar com seu parceiro Júnior naquele gramado da faculdade, Jóbson achou que levaria no mínimo uma hora de ônibus do trabalho até lá. Para sua surpresa, acabou chegando em apenas meia hora, e lá estava seu amigo lhe esperando. - PORRA, Jóba! - PORRA, Júnior!! - É nós! - Arrente é arrente! - E aí, mano, há quanto tempo, hein? O que me conta? - Vixe, mano... senta que lá vem a história... Jóbson mais uma vez desfrutou de uma situação promovida pela Mão Invisível, e pôde finalmente conversar com um amigo sensato sobre os últimos acontecimentos de sua vida. Ele pôde conversar sob um intenso cinzazul celeste, com pássaros voando para lá e para cá, de uma pitangueira para uma amoreira, da amoreira para o chão, periquitos nas palmeiras, joões-debarro, rolinhas, pardais e sabiás disputando bitucas de cigarro pelo chão, e quero-queros querendo muito no gramado verdejante do campão. O simples “estar ali” já acalmava o espírito de Jóbson, o simples cheiro da terra, a singela algazarra das cigarras e o menor e mais tímido canto dos pássaros já retiravam de si todas as preocupações recentes. Em êxtase, Jóbson observou atentamente um tico-tico tentar “desmanchar” um pedaço de pão que era grande demais para engolir. O passarinho se abaixava para pegar o pedacinho de

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pão, depois o chacoalhava, lançando-o para a frente. Em seguida, dava três ou quatro pulinhos para a frente, recolhia o pãozinho e o chacoalhava novamente, e assim por diante. Parecia uma criança pequena brincando de amarelinha. Absorto novamente pela contemplação da natureza, uma lágrima apontou em cada um de seus olhos quando Jóbson se recordou de uma poesia de Wordsworth:

MEU CORAÇÃO PULA11

Meu coração pula quando contemplo Um arco-íris no céu; Assim foi quando minha vida começou; Assim é agora que sou um homem; Assim seja quando eu envelhecer, Ou me deixem morrer A criança é pai do homem; E eu seria capaz de desejar que meus dias fossem Ligados uns aos outros pela piedade natural.
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MY HEART LEAPS UP

My heart leaps up when I behold A rainbow in the sky: So was it when my life began; So it is now I am a man; So be it when I shall grow old, Or let me die! The Child is father of the Man; And I could wish my days to be Bound each to each by natural piety.

cara. tirou as lentes. e quando notou o . Um Jóbson muito mais Jóbson. Jóbson correu como não fazia há tempos. Jóbson se voltou para seu amigo Paolo Júnior e disse: . é que são os mais “elegantes”? . novamente naquela mesma aula. passou a se mostrar mais. quando o viu pegando toalha e roupas limpas e indo direto para o chuveiro.Mas não é você quem sempre diz que os passarinhos que andam dando passinhos. Seu pai mal reconheceu o filho. Aquele aluno tímido. Foi até eles e confessou que já estava com saudade deles e de toda a turma da quinta-feira. que era o boleiro. os passarinhos que andam dando pulinhos não perdem nada pros que andam dando passinhos. acho que esse negócio de “elegante” era coisa do meu pai. de hoje em diante. Pra mim. que. Em seu sonho. jogou as roupas imundas no cesto. e ainda bater uma bola. mas ele não parou para se preocupar. Era como a flor feia drummondiana nascendo em meio à rotina necropolitana.Olha só aquele tico-tico. ele estava na faculdade.Ah. Ele adorava jogar futebol. Ele e o amigo ficaram extremamente satisfeitos em poderem se encontrar... mas ficou muito feliz. trocar umas ideias. logo após o futebol. .. Evidentemente. Radiante como a rosa radioativa Naquele fim de tarde. que se escondia por trás dos colegas quando algo era questionado pelos professores. e lá estavam Réver e Candinha. XXVIII. Por outro lado. era uma de suas preferidas. o jeito que ele anda dando pulinhos é a coisa mais linda do mundo.85 E então. Algo parecia estranho. deitou e dormiu. Jóbson tomou um banho. deu boa noite pro pai. Jóbson chegou radiante em casa após aquela aula. passou a exteriorizar-se um pouco mais. Jóbson se reencontrou com uma parcela de sua identidade que estava completamente apagada. Jóbson chegou atrasado à aula daquele dia. escovou os dentes.. mesmo. um pé depois do outro. esquece isso. cara. mas não tão longo tempo físico. tomou um café-com-leite. Jóbson se espantou. Aquilo lhe dava vontade de viver. era um novo aluno. por sinal. depois de um longo tempo interior.

Réver e Candinha. não saía do lugar. Jóbson sentiu um vazio naquele momento. Que sensação fantástica de liberdade. mas assim que ele se deitou novamente. Nem tudo foi . No dia seguinte. lá estávamos eu. peito de peru. Antes de se deitar novamente. e foi andando para fora da Rainha. Certa vez. calabresa com catupiry. e foi até a “nossa mesa”. Era um milagre. Foi até a cozinha beber um copo de água. e vendiam as amanhecidas por apenas um e cinquenta. mas de quinta-feira o pessoal deixava separada para nós. aflito. Jóbson acordou cedo o suficiente para traçar uma rota com o mínimo de subidas possível até o trabalho. e pelo visto. e passar por entre kilômetros de carros parados. Chegando à nossa mesa. Jóbson se pôs a montar a bicicleta. Voltando ao sonho de Jóbson. A bicicleta já havia chegado. Escorpião e Paolo Júnior. “Será que é assim que os pássaros sentem?”. ele se levantou. mas por mais que tentasse correr. Jóbson foi tocar a caixa para conferir se era apenas um sonho ou um milagre. Jóbson que pegasse ele mesmo a garrafa na geladeira. Era a festa de Jóbson. escarola com queijo.86 ambiente ao redor. e tinha sete sabores: berinjela. réplica do dono. Souzinha havia sido promovido para gerente. seu pai reclamou do filho comprar coisas de ontem. e foi pedalando. Jóbson tentou alcançá-la. ele exclamou quando relatou o sentimento de ultrapassar filas de ônibus parados no corredor. mas acabou não contando. Aliás. Jóbson passou por mim e pelo Réba e foi direto dar um abraço em Candinha. Suas pernas estavam moles e não o obedeciam. porém. Jóbson fez questão de pedir uma cerveja na sua conta para seu velho e uma baguete de ontem pra rachar com o Júnior. que não era nossa de verdade. Jóbson descobriu que eles guardavam as baguetes do dia anterior. Enquanto ela não estivesse inteira e pedalável. tudo voltou para o labirinto do minotauro que era sua memória. agora estavam todos na Rainha dos Mendingos. é daí que veio o apelido de Rainha dos Mendingos. ele não voltaria para o quarto. disse que precisava ir embora. e disse que não servia mais cerveja. que após dar um abraço caloroso. e se lembrou que Candinha havia dito que queria contar algo na semana passada. que jamais rejeitava alimento. queijo e presunto. que também era curtidor da Rainha. Paolo e seus amigos: a festa dos “mendingos”. Após beber um copo de água e um de café-com-leite. A baguete normalmente custava cinco reais. Ali também estavam seu pai. Ao passar pela sala. tomate seco com rúcula e quatro queijos. aquilo havia ficado em sua cabeça. Jóbson me contou que despertou naquele momento. e começou a atirar pedaços enormes daquela baguete de berinjela amanhecida para o Escorpião. notou que havia uma caixa grande encostada na parede.

morta ou em coma . Gente judiada. assimilando. Era um sinal da Necrópole. Era como se a Necrópole já os estivesse devorando. Poucos metros adiante. não. centenas de milhares de sementes cobriam o solo e entupiam os bueiros. tal como a bicicleta dos pedais engessados. Jóbson se deparou com a morte. Os esgotos pareciam vomitar a . “Será que vou morrer andando de bicicleta?”. quando ele via aquilo. porém. Sentado naquele selim nada macio e com as mãos molhadas de suor segurando o diabo da bicicleta pelos chifres. tal como a pomba. De dentro do ônibus. um canhestro alerta. à margem do asfalto. Não era a primeira vez que Jóbson notava e se compadecia. que haviam florescido pouco tempo atrás. Após a pomba.87 alegria. uma piscadela. Naquele dia em que Jóbson pedalava por ali. Durante a florada elas forravam o asfalto da avenida e o concreto das calçadas de amarelo. evitável. lamentável. uma visão de tirar o fôlego. uma bicicleta transformada em monumento em um canteiro da avenida representava uma vida que fora transportada de ônibus para o além. gente da cor do asfalto. a criança deitada ao seu lado permanecia com o seio materno na boca. Pneus passavam voando por cima da pomba. a morte passou a lhe perseguir por todos os lados para onde olhava. Infelizmente. Ao longo do caminho. sob cobertores da cor do asfalto. julgava ter sido um acidente terrível. Ainda sem saber que a vida da mãe se fora. Jóbson passou com a bicicleta sobre uma pomba morta que parecia já ter sido atropelada pelo menos um milhão de vezes. Jóbson não morreu atropelado! Como ele me relataria estes fatos se tivesse morrido? Jóbson se deparou com a morte cotidiana da Necrópole. Jóbson pedalava sob as frondosas tipuanas de uma avenida. mas rapidamente outra visão e outra sensação o dominaram.ele não sabia dizer -. XXIX A Necrópole Não. o julgamento era outro. pensou. amigos. Aquilo significou muito para Jóbson. dormindo. pelas calçadas. mas desta vez. não foram apenas a pomba morta já misturada ao asfalto e a bicicleta morta que lhe comunicaram a morte naquela pedalada. calçados saltavam por cima dos homens e mulheres deitados descalços na calçada. a visão anterior da pomba lhe havia trazido um olhar mortiço sobre aquelas pessoas. Jóbson viu pessoas cujo aspecto lembrava por demais aquela pomba de asfalto. Um quê de arrependimento triscou a alma de Jóbson.

Mesmo sendo contrário ao plantio de árvores alienígenas. com vista privilegiada para o verdejante bosque do Parque Municipal”. muitos deles secando até a morte ali mesmo. às vezes sobre um carro ou dois estacionados intencionalmente sob sua sombra? Árvore maldita. “Que destino cruel o destas árvores. intestinos. a bicicleta trepidava sobre aqueles caroços que era o que sobrava das sementes aladas da tipuana. Nenhuma encontrava a terra fértil. úteros. Nos ramos . Fetos de tipuana que voavam para morrer de diversas formas diferentes. novo empreendimento: Condomínio Eco Park.. que é a terra. tronquinhos de fetos concêntricos aos das mães. verdejante como o Parque Municipal. Aquela espécie era vítima predileta daquele cupim que quando lança sua versão alada para se multiplicar e parasitar novas árvores. Jóbson se deu conta de que os fetos das árvores eram aquelas sementes aladas que nem mesmo chegavam a encontrar seu útero. No lugar das camadas concêntricas expostas pela lâmina do trabalhador anônimo semi-escravizado. trazida da Austrália e amplamente utilizada para arborização das vias públicas da Necrópole. é chamado de aleluia. Ali elas viajavam para o para-brisa dos carros e ônibus. Troncos serrados de mulheres grávidas. internet ou sabe-se lá o que mais passando por dentro de si. Úteros portando bebês. anti-moicanos com cabos de eletricidade. À sua direita. A madeira da árvore destruir a lâmina de metal do carro. diante do tronco esquartejado de sua mãe.88 massa de sementes. Ele sempre gostou de ver aquelas sementes caírem rodopiando do alto das árvores. sangravam sua seiva espessa pela calçada.”. nosso amigo botânico. crânios. não. uma pilha enorme de tocos e ramos que ontem mesmo ainda eram uma daquelas tipuanas. Ao passar por ali. não. para arder na aridez do impermeável solo necropolitano e serem pisoteadas e atropeladas até a morte. talvez por seu crescimento veloz. Jóbson olhou para o alto buscando a beleza lúdica das sementes voadoras e viu as copas das tipuanas cortadas ao meio. Por um instante. tal qual seus conterrâneos Eucaliptos. um outdoor: “Em breve. Quantas tipuanas não tem sua alma devorada diuturnamente por estes parasitas cupiniquins pelas ruas da Necrópole? Quantas não são destratadas pelos necropolitanos quando não suportam mais o próprio peso e se deitam na calçada. pensou Jóbson. sempre achou fantástico a natureza destruir o artificial. Jóbson via cortes de fígados. Jóbson olhava para aqueles pedaços de tronco ensanguentados e imaginava troncos humanos cortados com serra elétrica. desde criança. pâncreas. antes mesmo de ver a luz do dia pela primeira vez. e viajarem pelo espaço. mas derramando sua nutritiva seiva pelo chão. árvore podre. Tronquinhos de fetos serrados coagulando seu sangue inocente pela calçada. Mãe esta ainda viva. coxas.. Jóbson. Por trás do esquartejamento. Mas ali. Espécie alienígena. pulmões.

seriam engolidas pelas infinitas outras. queria espetáculo. para grande frustração do menino. logo chamou o menino para lhe pagar um sorvete. É costume popular dar machadadas no tronco das mangueiras. Fetos estes que provavelmente ainda não tinham consciência do destino que havia sido traçado para sua mãe onde ainda estavam pendurados e sugando alimento. Mesmo que tivesse sido um movimento premeditado daquela tipuana. cabecinhas de fetos agonizantes e mortos que mesmo vomitados por algumas bocas da Necrópole. O garoto não teve dúvidas. isso não importava. uma formiga ou qualquer outro alimento que o ajudasse a sobreviver. é o homem explorando o mecanismo de defesa da vida para seu próprio lucro sob a bandeira da sobrevivência. Cercado de carros e ônibus. pensou Jóbson. que havia estacado ali para ver pessoalmente o local onde o novo arranhacéu seria construído. vingariam-se ao serem lançadas ao Rio da Água Plena. Mas a frustração não durou muito. O filhotinho julgou instintivamente que seus pais estariam lhe trazendo um verme. pois a árvore acaba ficando mais carregada de frutas. naquele momento. feio. e por isso pariu um volume tão colossal de sementes?”. Sem poder prosseguir. O menino queria ver aquela criaturinha se mexer. viu aqueles fetos todos macerados. notou que um menino brincava próximo à ramagem amontoada. o homem não observou com o quê seu miúdo estava brincando. Seu pai. Em vão também foi todo o esforço dos pássaros que construíram pacientemente o ninho que guardava e aquecia seu único filhote. era cutucado por aquela criança. sendo atropelados naquele exato momento por sua novíssima bicicleta. mesmo caído na calçada. que ainda com vida. desafinado. O cadáver esquartejado da tipuana ainda lutava para nutrir muitos fetos. fetos vivos e mortos. até que finalmente o filhote parou de se mexer. mas para ela. meteu-lhe o graveto para dentro do bico. nem pernas. ou o que sobrou dela. que lhe estimulava com um fino graveto. Tudo o que o filhote conseguiu fazer foi escancarar o bico ainda enorme e desproporcional para seu corpinho ainda sem penas: dali saiu um gemido rouco. sem tratamento algum. e além de não vingarem. ainda pendiam sementes verdes. Preocupado que estava em garantir uma morada ecológica para seu filho. tenras.89 separados do tronco. rasgados e dilacerados. “Será que aquela tipuana previu que seria derrubada. onde apodreceriam e intoxicariam os parcos peixes que ali ainda sobreviviam pela falta de misericórdia do destino. Fetos sendo pisoteados pela massa necropolitana. sem braços. tronquinhos. tudo teria sido em vão. Uma massa de asinhas. e acabou pisando e esmagando seu brinquedo. mortos e agonizantes. mutilados. uma explosão de vidas em potencial. . É a luta pela sobrevivência. vivas. Jóbson foi obrigado a parar a magrela. Ao pensar nisso.

resmungou alto. que ficava no alto de um morro. O porteiro o mediu de alto a baixo.” Jóbson então decidiu se isolar acusticamente da Necrópole. Finalmente reconhecido como funcionário administrativo. Cerca de dois kilômetros adiante. Sacou seu tocador de mp3 e decidiu ouvir “A Menina de Hiroshima” na voz doce de sua querida Nara Leão até não poder mais. Respondeu que era para tomar um banho.90 Ao notar que havia pisado em algo que havia grudado em seu calçado italiano. onde costumava ver outras magrelas amarradas. Os vestiários ficavam no terraço do prédio. “Ainda bem que tem esse mato aqui! Vamos lá. exclamou “MERDA!” e esfregou a sola de couro daquele sapato ali mesmo. XXX Necrofagia Chegando no velho edifício. “Por que ninguém nunca me disse que havia esta vista tão linda da Necrópole?”. era possível ver o estádio do Sport Club Coqueiros. então. mas após ser orientado. surgiu uma nova preocupação: “Será que aquilo ali são nuvens de chuva ou é apenas poluição? Se for só poluição. nos ramos da tipuana. Jóbson foi rodeando aquele terraço. e falou o departamento onde trabalhava. e então aquele cemitério deu seu último sinal verde. olhando para todas as direções possíveis. subiu. Jóbson amarrou a bicicleta no corrimão daquela escada. pois aquela voz lhe tinha um efeito apaziguador. sentindo-se um campeão. . Ali do alto. e lhe perguntou se ele era funcionário. Jóbson ficou um tanto surpreso pelo estranhamento e pela sabatina do porteiro. Jóbson podia contemplar toda a montanhosa região do bairro de Codornas. filhão. foi ainda interrogado sobre o porquê de ir aos vestiários. Jóbson fez que sim com a cabeça. mais dez lances de escadas. onde era possível inclusive visualizar o gramado alvi-verde. Jóbson sorriu de canto de boca ao se lembrar da posição que aquele clube ocupava na tabela do campeonato nacional. crente que havia pisado em fezes. beleza!”. perguntou onde ficavam os vestiários dos funcionários. onde trabalhava. Na recepção do edifício. vou te pagar um banana-split. Agora que ele era ciclista. Aquele céu cinzazul da Necrópole estava lindo naquele dia. e Jóbson pedalou decididamente para finalmente alcançar as galés do escritório.

Sentindo-se um verdadeiro funcionário daquela “empresa”. foi que ao que parecia. o rapaz se retirou. possuíam um banheiro exclusivo. moço! . vou passar a usar todo dia.Pois não? .Tudo bem.Bom.Ei.Tou ligado. . se não tiver erro. Por que diabos não achavam que ele era funcionário? Pacientemente. isso aqui? . de baixa estatura. .disse o rapaz. . O cheiro era ruim. pode ser? Eu também sou funcionário.Falou.dito isto. o que Jóbson me relatou pela internet naquela manhã.Mas quem usa aqui somos só nós da limpeza! . aquele banheiro fétido e praticamente abandonado pela administração era apenas para os trabalhadores braçais. . .Funcionário daonde. seu moço? Jóbson sentiu-se interrogado pela segunda vez em menos de trinta minutos.Aqui é banheiro de funcionário.. Jóbson tomou um delicioso banho. Quando Jóbson tirou finalmente a recheada mochila do lombo para começar a se despir. Apenas um dos três chuveiros parecia aquecer a água de verdade. . Pode usar então.Valeu. por considerar . sentindo-se trabalhador. e não havia portas nos boxes. Jóbson foi ao tal vestiário. Na verdade. foi abordado por alguém.O senhor é aluno? . não é banheiro de funcionário. seu moço. Os funcionários administrativos. .. Jóbson nunca chegou a utilizá-lo. . com um ar de quem sente que seu espaço está sendo invadido. como eram Jóbson e seus comparsas.91 Completo o circuito turístico. pele parda e sotaque certamente nordestino. As instalações eram precárias. . seu moço. Jóbson sentiu na pele que havia grande diferença no tratamento dado pela empresa entre quem fazia um trabalho braçal e quem ficava horas e horas sentado no escritório sem fazer nada de útil aguardando os chefes passarem algum serviço “intelectual” para ser feito. Todos os armários estavam com os trincos arrombados. chapa! Meu nome é Jóbson! . ele explicou em qual setor trabalhava.disse o rapaz.Funcionário. parecia que o ar não circulava muito bem por ali.

Jóbson disse que não conseguiu imaginar quem teria tido a ideia de veicular tal “produto cultural” naquele local e naquele horário. Outros colegas riam com as barbaridades.Pastel é o cacete! Vamo comê uma picanha! No final das contas. de um bando de necrófagos. após o que ouvira no dia anterior. Mal notou o tempo passar. Funcionários tinham desconto de cinquenta porcento. o famoso bandejão. vantagem das mais vantajosas. não? Pois bem. chegou a ficar quase enojado com a nova programação.Bora no Bigode.92 um absurdo. perplexos. motivado e concentrado no trabalho. Restaurante público.Hoje tem feira. apesar dos pesares. Se seu chefe estivesse ali. Ele refletiu sobre o quanto era parecido com aqueles porcos nojentos. Jóbson estava razoavelmente feliz. que tinha o lombo grosso e o estômago forte. Quando soube que havia aquele naipe de instalações para os trabalhadores braçais. . para nosso econômico Jóbson. também não falaria nada. Jóbson chegou no escritório cerca de meia-hora atrasado. hein! Quem vai de pastel? . Infelizmente. Havia também galinhas mortas. Era hipocrisia demais para ele. percebendo sua existência apenas quando o pregão se iniciou: . ainda com sangue. e concluiu que ele e todos os demais não passavam. espirrando sangue para todos os lados. putada? . alimentando-se. Ele sempre preferiu banheiros públicos. Suas colegas abandonaram as bandejas na mesa e foram pedir o dinheiro de volta. O alimento era em parte uma espécie de mingau que se parecia muito com vômito. odiou trabalhar naquele local. Jóbson. resolveram veicular uma peça de teatro realizada pelos clientes da área de artes dramáticas da empresa. Jóbson achou tudo muito interessante. Aquela manhã foi muito tranquila. Ninguém falou nada. mesmo. que eles mordiam e rasgavam a carne com as mãos e os dentes. Outros apenas observavam aquilo. que os atores enfiavam na boca e depois vomitavam uns nos outros. em meio à praça de alimentação onde os clientes da empresa se alimentavam. Tratava-se de pessoas nuas. naquele dia. mas estava mais uma vez reunido com seus superiores. alguém resolveu colocar algo mais animado do que os informes internos mudos e legendados que sempre passavam nas dez televisões do recinto. com máscaras de porcos. decidiram ir comer todos no restaurante da empresa. Quanto suspense. para ele e os demais colegas. embora asqueroso.

sem o retorno do chefe o papo ferveu naquele escritório. Cogitaram encaminhar um abaixo-assinado à ouvidoria. . chegando lá no escritório. . caras..o colega ri de Jóbson.respondeu Jóbson.. Queriam detonar quem teve aquela atitude anti-democrática. por que é que ninguém nunca disse que era anti-democrático ou autoritário? .Olha só.93 XXXI.disse seu colega Meneguel. cara. você sabe como eu sou ruim pra ler. cara.. mas o que isso tem de autoritarismo. sinceramente. autoritária de passar uma coisa vomitiva durante o almoço de honestos trabalhadores... . eu te mostro algo que li outro dia num livro.. cara. cara. e é capaz que seja mesmo.Porque aquilo nunca incomodou ninguém.. .Jóbson abriu o bico para contra-argumentar.. a gente acaba lendo as propagandas. . .Até aí. beleza.Não viaja. cara.. a gente engole toda a merda que eles colocam ali nas tvs todo o tempo enquanto almoçamos aqui. a respeito daquela nojeira exibida durante o almoço. não vou ler livro nenhum.. .Tá bom então. relaxa. você pode achar isso totalmente idiota.. Jóbson.Interessante. Cada um com a sua máscara.. . A verdade Após o almoço. . Um bando de caras vomitando comida estragadada na boca dos outros.Eu também durmo. você tá bêbado? . eu acho que aquilo lá é tipo uma metáfora do que se passava antes..então quer dizer que anti-democrático e autoritário é só aquilo que incomoda? Quilos e quillos de propaganda silenciosa enfiadas goela abaixo do caboclo não é nada? . cara! .. quer dizer que agora o Jojóca do Lombo Grosso vai querer falar que aquela propagandinha institucional ali é pior do que a podreira que tão passando? .Pode esquecer. . solicitando a cabeça de quem autorizou aquele tipo de coisa. .Mas.e aquelas notícias mudas que passavam o tempo todo. Mesmo sendo mudo. mas pensa bem.Ahh. . Quem é que trabalha nas galés e não dorme depois? Eu vou passar só um teco do livro. Os colegas de Jóbson sentiram-se unanimemente ultrajados. . .Tou falando sério. Eu durmo.Cara.

a propaganda e a administração. brilhe. até hoje. comprou ou não comprou o livro no impulso? É claro que comprou. com toda a paciência: “Acho que você tem razão. mas no final das contas. dizendo que na quinta-feira ia querer conversar sobre isso. nutrida por ela. manifestação. A propaganda. HAHHAHAHAHAHA!” Jóbson se deu ao trabalho de responder a tal mensagem. do tal Julián Marías. Esse aí. é a técnica de manipular os homens. acabou pegando pra ler após assistir uma palestra na faculdade. Consiste em que o real apareça. de conteúdos aceitáveis e ‘verdadeiros’. mediante a demagogia e a mentira. “Verdade é a cabeça o meu pau. isto é. Escrevi verdadeiros entre aspas porque não estou certo de que o sejam. à notificação apagada.em grego. inerte. Não passa de um consumista. que teve épocas gloriosas. A primeira. iluminação. é a arte de comover os homens sem profaná-los. e muito especialmente do nosso. fulgure. Verdade .94 Assim que Jóbson sentou a bunda na cadeira daquele escritório. sinistra manifestação de alguns tempos. Eu ainda fico pasmo com as leituras aleatórias do Jóbson. ‘alétheia’ . O negócio era mais ou menos assim: “Há três formas de comunicação pública: a retórica.. a partir da verdade. potencializada pela beleza da palavra. esticou o braço e sacou o livro que vinha lendo. Ao invés de emprestar o livro ao colega. nascida na Grécia. . esse Jóbson.é desvelamento. para conseguir alguns fins que envolvem uma degradação que pode ser duradoura. pode-se recorrer à ‘administração’. Se isso não acontece. sem dúvida profanando-os. de “mendingo”. franqueza. daí ele foi lá e comprou o livro.” Ele me encaminhou a resposta do colega também. frequentemente flácida. Toda uma banca de revoltado. segundo ele. (depois ele enviou a mesma coisa para mim. Quando não se tem o talento da boa retórica e não se quer cair na abjeção da propaganda..). em que um cara falou sobre algo que o tal filósofo pensava. mesmo. algo não será falso mas não resplandecerá em sua verdade. Jóbson preferiu digitar o trecho e enviar por e-mail. A verdade é a cabeça do seu pau.

” XXXII. Jóbson ainda teve forças para tomar mais um banho. Naquela manhã de quinta-feira. Jóbson se sentia mais relaxado. Capotou cedo. e capotou em sua cama. Da minha parte. não vai mais existir verdade alguma. A verdade. pai? . um fato épico. Por isso é que eu gosto de você. Só restam traços do que foi o pombo ali. . e solucionou alguns problemas que estavam brecando a evolução de seu trabalho. estamos vivendo a Era da Propaganda! Daqui a pouco. Jóbson estava ficando a cada dia mais motivado no trabalho. Jóbson acordou renovado naquela manhã. Mal podia acreditar quando chegou ao trabalho pontualmente às oito horas. ou seja. A avenida onde a verdade é atropelada é a mídia vendida. Aquilo foi o êxtase “profissional” para ele. pai. e já deve estar pagando o preço por isso. mais livre. . Jóbson estava mais criativo também.Que horas são. Desde aquele dia mágico em que foi jogar bola com seu camarada.Sete e dez. Você é fodão. acordou cedo. nem mesmo cheguei a . mesmo tendo dormido por mais de oito horas na noite anterior. Entre aspas porque ele abomina o termo. mesmo em meio a tantas hostilidades. Rude despertar Quando chegou em casa. Você já me viu colocar despertador alguma vez? . Ir de bicicleta para o serviço era ainda melhor do que ir a pé. é como a pomba atropelada que eu vi na rua. os veículos que a atropelam e a transformam violentamente e a escondem debaixo de suas máquinas são as pressões de quem faz o mundo girar.Verdade. antes do despertador! . Uma parte ínfima e residual do que era para ser. Acho que já passaram por cima dela um milhão de vezes. que são os donos da mídia.Úia! Acordei cedão. Aposto que quem veiculou aquela porcada vomitando fez isso à revelia da ‘instituição’. Mais uma vez.Grande coisa. após a aula daquele dia.95 Cara! Pra mim. Até eu passei por cima daquele resto de pombo com a minha bicicleta. hoje. Ele estava motivado internamente. A verdade que temos hoje é isso. indícios. pistas. os próprios capitalistas. assim como a cabeça do seu pau.

Falaí.. como pessoa.Bom dia. Roberto. Uma boca trêmula.Que papo é esse. mas creio nunca havê-lo visto tão empolgado enquanto narrava as proezas realizadas pela internet. não é.Jóbson riu alto..Ah é? . sem me dar satisfações.Vou tentar ir direto ao ponto.Bom dia. Roberto? Tá parecendo gente que quer confessar traição sem perder a amizade! .... Vamos ali na salinha. Mais do que o normal até mesmo para quando lhe dava as famosas “comidas de rabo”. . chefe..respondeu em coro aquele escritório que parecia até a turminha da Professora Helena da novela Carrossel. gosto muito de você. você poderia vir comigo? . . chefe. eu?! Como assim? Desde que eu comecei a trabalhar aqui. . fiéis companheiros das jornadas de trabalho. mais hesitante do que o costume. e viu mais ou menos o seguinte cenário: metade dos companheiros de trabalho nem se quer notaram a sorrateira abordagem. acho que nunca estive tão motivado! . não se acanhe. eu tenho percebido que você anda meio desmotivado.Fazer? . Jóbson retirou os fones de ouvido. olhou ao redor para medir a temperatura.. . . “de maneira muito suspeita”.Tá bom.… tem chegado atrasado todos os dias. por favor.96 comentar com ele. .Preciso conversar com você. Jóbson achou aquilo muito estranho.Jóbson. que já dispensou até mesmo as formalidades. metade estava com cara de “putz. A resposta do chefe foi um quase sorriso.Desmotivado.Você sabe. .... se levantou. Mas foi apenas até a hora em que o tal chefe apareceu.. . Às onze horas. . segundo nosso amigo Jóbson... sempre gostei muito de você.Falaí... acho que dessa vez não passa” e uma terceira metade desviava o olhar. Vejamos o diálogo ocorrido entre quatro paredes e ao menos meia dúzia de pares de orelhas por trás delas.. . pessoal. Notou também que o chefe estava suando mais do que o normal. e saído mais cedo. Jóbson? .disse Roberto.Jóbson estava tão à vontade naquele dia de trabalho. . que eu. . .Sim. O que pega? .

vendo e-mails pessoais. A minha decisão é essa mesmo. Já chega de desgaste.. Você tá me tirando?! Você força a gente escrever relatório sobre o andamento de todas as atividades. .Veja bem. .. .Ah. discretamente.. ... se é essa a sua decisão. . Eu tenho enviado os relatórios diariamente! Você não vai me dizer que eu tou gastando uma fatia do meu horário de trabalho pra escrever um bagulho que você não lê.Pessoal lá de cima! Pessoal lá de cima!? Pára com essa merda.. é verdade..... o recado que eu tinha que passar para você hoje é que eu já fui avisado pelo pessoal lá de cima. né? . cara? Cê acha que isso é trabalho de homem? Homem no sentido de “gente”! . porque foi vagabundo! Roberto se estremece.. Você é muito incompetente.Jóbson faz as aspas no ar com os dedos.. no futuro. são tantos e-mails que eu recebo. cara.Roberto sorriu........ cara! Você não tem vergonha de ser um puta marionete do caralho? . sim.. cara... está atrasado em todas as atividades.Roberto ficou espantado. a gente pode se encontrar em outra empresa lá fora.97 . De onde você tirou isso tudo? . mesmo. acaba passando alguns...Vai tomar no meu do seu cu. Eles já perceberam isso. cara.… e não tem atingido suas metas. nada disso importa.Sim. .. Jóbson. por menores que sejam.? . . Decidi parar com essa história por aqui.. .Eu é que não tolero mais essa palhaçada! Fala pros caras lá de cima enfiarem esse trampo no rabo deles.Relatórios. .… o pessoal lá de cima avisou que não irá mais tolerar.Estão dizendo também que você passa muito tempo na internet. o mercado de trabalho é muito fechado.Eu lamento muito.Quem é que tá atrasado? Que porra é essa? Vai dizer que não recebeu todos os relatórios que tenho enviado diariamente antes de sair do escritório! .Ah!! Quer dizer que esse tipo de relatório você tem tempo pra ler então? Cê acha que isso é gerenciar uma equipe.Você é um incompetente..Sabe como é.. .. perde muito tempo batendo papo.Quem te falou essas mentiras? Eu tenho chegado cedo praticamente todos os dias! E só saí cedo quando cheguei cedo. ou ainda não? . Tantos e-mails é o caralho! Que merda é essa? Cê acha que tem algum otário aqui? Você não leu porque não quis. Onde é que eu assino? . .. Roberto.. . devemos evitar nos desgastar.. acessando coisas alheias ao trabalho..Sim.

Bom. sem poder sacar o FGTS e sem receber seguro-desemprego. empurrando o trabalho com a barriga. que ele havia feito exatamente o contrário do que deveria. forçando a barra até a desgraça da empresa o mandar embora. Jobinho? Será que mudou tanto assim mesmo? . seus chegados.eu disse. Quando ele se cansou de pedalar a esmo.Será que mudou o suficiente? .. que seria continuar trabalhando lá. Poucas horas mais tarde eu lhe diria pessoalmente o quanto ele foi burro.É mesmo.Vixe. segundo ele. se fosse eu no lugar dele. a úlcera. convocando uma quinta-feira na Rainha por conta dele. o imbecil não sairia de lá como saiu. Jóbson saiu de lá com sua bicicleta para nunca mais voltar. Cândida! Cê nem imagina! . para ele evitar a fadiga. seu chefe entendeu que Jóbson havia recuado e queria terminar a conversa. . . Fazendo isso. impulsivo e idiota ao pedir demissão. para evitar se desgastar com seu querido chefe. eu fiquei pensando sobre o quanto da minha vida tinha mudado naqueles últimos dias. mas não do apartamento. desde a quinta passada. ou seja. ele fez questão de esclarecer que enquanto ele falava que iria cair fora daquela espelunca para ele não se desgastar mais sem necessidade.questionou Candinha.98 Quando Jóbson me contou essa treta entre ele e o chefe. Parecia um passarinho que havia fugido da gaiola. não foram mais de quinze minutos. Ah.Enquanto ia pedalando pela Necrópole. ao sair da famigerada “salinha do arrocho” e Jóbson subir na bicicleta já com o pedido de demissão assinado e entregue.. XXXIII Liberdade? Entre agradecer ao chefe por tê-lo contratado e confiado nele por todos aqueles longos anos em que Jóbson trabalhou ali. estúpido. . ligou para nós. pedalou mais um pouco e depois tomou uma água de côco. e foi dar umas voltas. Muito burro. Encostou em um boteco onde tomou um café-com-leite. a calvície e a pressão alta. quando ele contou tudo isso para nós na Rainha. Rimos demais juntos na noite daquela mesma quinta-feira. .

porque nem o Jóbson e nem a Candinha estavam rindo. . . . . já é fruto da manipulação genética. acho que é normal isso. confesso que não fiquei tão triste como imaginava que ficaria ao terminar com ela. . . Jóbson.Cês tão filósofos mesmo hoje.eu disse.Afe. . É estranho. . . .Continua aí. eu terminei com a Maria Belmira.Aposto que finalmente descobriu que é mulher e fez uma cirurgia de troca de sexo. . . Eu e os caras seguramos o riso. .. Quando abria a boca pra falar vinham coisas realmente interessantes.Tipo igual a um cachorrinho de madame que fugiu da dona? . Antes de algum desgraçado domesticar os cães. estamos manipulando uns aos outros sem parar.Finalmente!! .Aeeee!!! . Às vezes me enche o saco ler até as porcarias que eu mesmo escrevo.. meio que um vazio.Pode crer. Candinha.Pode ser... .Pois é.nós mesmos que tamos aqui entre amigos.perguntou Candinha.disse Réver.Mas não são só as suas atitudes e decisões que alteram a sua vida. mas era um cara muito inteligente.Réver estava se sentindo meio excluído da conversa. Júnior! Essa sua reflexão foi sensacional.Por exemplo. mesmo sendo verborrágico. .. de cruzamentos artificiais realizados pelo próprio homem.Quase isso. mas no final das contas. mas às vezes enchia o saco ler tudo o que ele escrevia. .99 . eles eram todos selvagens. hein. Jóbson.. Essa própria história de poodle. . e por conta de atitudes que eu mesmo tomei nos últimos dias. Havia certa tensão entre eles ali..Talvez eu esteja mesmo completamente perdido. que foi a imagem que me veio à mente quando a Candinha falou aquilo. Joba! Você demorou muito! . Vai saber qual das merdas que a gente fala tomando essas brejas influi mais ou menos na vida de cada um de nós. Réba.o Júnior ficava sempre na dele. meio que um não saber o que fazer. . conferindo a beleza perfeição de suas próprias costeletas em um espelinho. hein. sem nem perceber. eu não excluo mais nenhuma possibilidade a priori. Eu nunca havia pensado nisso..Caraco.Jóbson retomou sua história. .disse Jóbson com uma desconhecida placidez. Foi quando suspeitei que Jóbson não me falava sobre tudo da vida dele.

. Candinha. cara? A sua burrice ou a sua irresponsabilidade? . Aquela frase do Jóbson bateu fundo na gente. tua piranha! Arrumou outro emprego e nem falou pros amigos? . que vale muito mais do que qualquer emprego ou salário. . Foi naquela hora que decidi que deixaria esta história por escrito.Um brinde.propus. . peguei pesado.Não tem outro emprego! Não tem emprego nenhum! . .. sei lá.O que mais mudou. quando falou aquela frase. . então! .Réver se animou. . Júnior! Você não botou mesmo uma fé que eu levantei cedo naquele dia. .Cê tá louco da cabeça. . Jóbson narrou com detalhes o que contei resumidamente sobre esta última semana. Mas fidelidade não é a palavra chave aqui. .Cê acha que emprego tá dando em árvore? . Por isso é que eu tou pagando hoje aqui. cê deve estar de chico hoje. Provavelmente só eu percebi. Pra comemorar.É isso mesmo.Réver se decepcionou profundamente com o amigo. . também pude acrescentar detalhes que eu observei de fora sobre a vida dele. Jóbson..FALA SÉRIO. . Hoje mesmo eu pedi demissão do trampo.Candinha tentou se redimir. “onde foi que eu errei?” Eu percebi claramente que Réver estava imitando o pai de Jóbson. A menos que mais alguém tenha trombado com o véio durante aquela semana além de nós dois.Não. Jóbson! . Aquele Jóbson das histórias de Camburiú não era o mesmo Jóbson que tínhamos entre nós. Após o brinde. . né? Jóbson riu. além de dar ouvido aos amigos pela primeira vez na vida..Não é possível.100 . pessoal..Ah.É mesmo. Esse aqui era o nosso bom e velho Jóbson. Embora eu provavelmente tenha deixado muitas coisas de lado.Vai ganhar quanto mais? O dobro? O triplo? Um brinde ao Jóbson!! É disso que eu tou falando! Você é o cara! . mas outras coisas mudaram também. Jóbson? Cê tá de trampo novo? Por isso é que começou a sair mais cedo daquele outro trampo? .Comemorar o que.. .Candinha ralhou com ele.Comemorar o amor que tenho por vocês.Olha. cara? .Tá bom.

me resolvendo. ...Falaí. .Não acredito que você ficou martelando nisso.. eles trocaram um olhar daqueles. até que ficamos apenas eu. como você pôde ver. .. . me diga uma coisa.. mas foi tanta correria essa semana. . porque se o Jóbson não falou. ..disse Jóbson. Eu ensino ele a falar português. .Fale.Porque não deu.Como assim. Mas uma hora as pessoas precisam ir embora..Então. é coisa dele e só dele. e assim aconteceu naquela noite. nem perguntei no carro quando o levei até a casa dele. que eu acabei não te perguntando o que é que você tinha que contar pra gente.Agora eu também fiquei curioso. A única coisa que tive coragem de dizer pra ele foi que ele não precisava se preocupar. ia para a direção oposta de Jóbson... Candinha.Vai rolar. não.Candinha. e fazia tempo também que não ficávamos até tão tarde ali enchendo o saco do Souzinha. É algo que eu vinha me programando há anos pra fazer e agora vai rolar. Quando estávamos nos despedindo da Candinha. como sempre. na gringa. Fazia tempo que não tínhamos um quórum tão grande. seco. desconcertado.Uma coisa ficou me martelando desde a semana passada. ele me convidou pra passar um ano lá na casa dele. . percebi. que. Já comprei as passagens.O que tem ele? . que a universidade da cidade dele está oferecendo para estrangeiros. . amor. . Candinha.tentei reanimá-la. Até ele chegou a sentar com a gente pra ouvir as histórias do Jóbson. e nem perguntarei. que ele vai precisar pros trampos dele. já tou acelerando a burocracia através da minha faculdade. . . O olhar de Candinha não era brincadeira.perguntou Jóbson.. que mora nos Estados Unidos. ao abraçá-la. .Candinha baixou o tom. por que não me falou nada? . Jóbson e Candinha naquela mesa. Eu não sei o que ele falou pra ela. vai rolar? . e fico morando lá enquanto faço um curso imersivo de inglês. eu tava muito ocupado resolvendo essas paradas todas. Depois disso. . .101 Aquela noite foi realmente inesquecível. Jóbson encostou seu rosto ao dela e falou em seu ouvido.Eu lembro..Duvido que vocês se lembrem de um cara que eu falei que conheci pela internet..disse Jóbson. . . já tou na contagem regressiva. Aquilo estancou a alegria do pobre Jóbson.Pois é.

.. pessimista. cara? . . . afinal. mais cedo ou mais tarde ela ia voltar.. . todo empesteado. A minha conclusão é que esse negócio de liberdade é uma parada que algum filho da puta inventou só pra tirar de nós. quem não morreu de câncer na família. geneticamente. . o que é? ..Que exagero. larga mão de ser dramático. mas tem certas coisas que eu já saquei que nunca vou me libertar. . atmosférica e eletromagnética da Necrópole.perguntei.. que é o câncer.! Não vai morrer.102 porque ela “não vai morrer”. visual.Sabe. apodrecendo mais e mais a cada instante que toma contato com o sol e a poluição sonora. talvez eu já tenha um destino traçado. Um bagulho perecível. cara. cara. e mesmo que não fosse assim.. ou morreu de acidente ou ainda está vivo.Morrer. Eu acho que nem depois de morto eu vou me libertar desse olhar.. Uma delas é o corpo.. eu acho que nunca pensei tanto nessa merda de liberdade como nos últimos dias.Que foi. Eu tou num processo de me livrar de tudo o que me prende nessa merda de Necrópole. e a outra coisa.A outra foi esse último olhar da Candinha.