A DEMOGRAFIA: SUAS CONTRIBUIÇÕES E POSSIBILIDADES José Eustáquio Diniz Alves1 A palavra demografia é formada por dois vocábulos gregos

: dámos (Demo) que quer dizer povo, população ou povoação; e gráphein (grafia) que quer dizer ação de escrever, descrição, tratado ou estudo. A demografia estuda o tamanho da população, sua composição por sexo e idade e sua taxa de crescimento (positiva ou negativa). O termo demografia foi utilizado pela primeira vez, em 1855, pelo pesquisador belga Achille Guillard e hoje faz parte dos currículos escolares de todo o mundo, embora ainda careça de maior reconhecimento, especialmente no Brasil. Os principais componentes da dinâmica populacional são a natalidade, a mortalidade e a migração e estão expressos na equação básica da demografia: P2 = P1 + N1-2 – O1-2 + I1-2 – E1-2 Onde, P corresponde ao tamanho da população, N ao número de nascimentos, O ao número de óbitos, I ao número de imigrantes, E ao número de emigrantes e os índices: 1 (um) ao tempo inicial; e o 2 (dois) ao tempo final. Assim, em um dado território e em um lapso de tempo compreendido entre os períodos 1 e 2, o tamanho final da população é determinado pela população inicial mais o número de nascimentos do período, menos o número de óbitos, mais o número de imigrantes e menos o número de emigrantes. A partir desta equação básica, a demografia desenvolveu sofisticados métodos de análise dos três componentes da dinâmica populacional e um expressivo número de técnicas quantitativas. No curto prazo, a análise demográfica é capaz de explicar e prever de forma bastante precisa o tamanho, a evolução e a composição das populações. Já as projeções de longo prazo são sempre sujeitas às mudanças socioeconômicas e comportamentais. Mesmo assim, a demografia é capaz de traçar, com razoável grau de certeza, os cenários futuros da dimensão, das taxas de crescimento e da estrutura etária das populações. Alguns livros textos definem a demografia de duas formas: uma estrita e outra ampla, referindose, no primeiro caso, à demografia formal e, no segundo caso, aos estudos de população. A demografia formal se apoia nas estatísticas vitais e nas duas variáveis que formam a pirâmide etária da população: sexo e idade. Os estudos de população abarcam outras variáveis que dão conta das características sociais, econômicas e culturais das populações. No cerne da demografia está o debate sobre população e desenvolvimento que teve seu início no final do século XVIII no bojo da Revolução Francesa. Dois pensadores iluministas – William
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Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

Godwin (1756-1836) na Inglaterra e Condorcet (1743-1794) na França – criaram as bases de uma abordagem otimista e progressista dos estudos populacionais. Eles viam no progresso da “perfectibilidade humana” as raízes para um mundo mais justo e com maior qualidade de vida. Mas em reação aos escritos de Godwin e Condorcet e contra os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa surgiu o pensamento pessimista do pastor anglicano Thomas Malthus (1766-1834), que via o crescimento populacional desenfreado com a causa da fome, da miséria e das guerras. Portanto, desde dois séculos atrás, a população é vista, ora de maneira positiva e como fonte da riqueza e do bem-estar e, ora, como um entrave ao desenvolvimento e causa da maioria das mazelas sociais. De certa forma, visões pessimistas e otimistas ainda se fazem presentes no debate demográfico. A população mundial que era de cerca de 1 (um) bilhão de habitantes em 1800 passou para 6 (seis) bilhões no ano 2000 e deve chegar a 9 (nove) bilhões em 2050. Alguns olham estes números com otimismo e outros com pessimismo. Há aqueles que se preocupam com os efeitos da população e do crescimento econômico sobre o meio ambiente. Contudo, a despeito das controvérsias, existem alguns dados que são inquestionáveis e alvisareiros: durante o século XX a humanidade conseguiu vencer a mortalidade precoce e, pela primeira vez na história, conseguir dobrar a esperança de vida, ou seja, a população mundial que vivia, em média, menos de 30 anos em 1900 passou a viver mais de 60 anos em 2000. No Brasil os ganhos foram ainda maiores e a esperança de vida dos brasileiros já ultrapassou os 70 anos. Por outro lado, a transicão demográfica possibilitou uma redução do número médio de filhos. As mulheres que tinham em média 6 filhos em 1900 pasaram a ter menos de 3 filhos na virada do milênio. No Brasil a taxa de fecundidade já chegou, atualmente, a 2 filhos por mulher. Mudanças na estrutura das famílias e nas relações de gênero e entre as gerações mudaram a dinâmica familiar e domiciliar. Certamente estas mudanças gerais não se deram de maneira homogênia, mas sim de maneira desigual entre os países, de forma heterogênea no espaço e na distribuição nos territórios nacionais e regionais e, em alguns casos, com grande defasagem temporal. A demografia lida com problemas complexos, mas não é uma ciência hermética. Ao contrário, os processos demográficos estão presentes diariamente na mídia e sempre sugem pessoas falando de “explosão” ou “implosão” populacional, de planejamento familiar, descriminalização do aborto, queda da mortalidade infantil, aumento da longevidade, envelhecimento populacional, migração rural-urbana, migração internacional e fuga de cérebros, educação e capital humano, alta fecundidade dos pobres e violência, oferta e demanda no mercado de trabalho, diferenciais de cor/raça, gênero, geração e classe, etc. Nessa coluna do OPS vamos tratar destas questões de uma maneira científica, embasada em estudos e pesquisas acadêmicas feitas no Brasil e em outras partes do mundo. Vamos buscar “demografizar” o debate e mostrar que a demografia não é um bicho de sete cabeças. Ao contrário, os estudos populacionais são elucidativos e têm muito a contribuir para o entendimento da realidade brasileira e mundial.