NA MESMA TECLA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Andersen, Roberto Viravolta/Roberto Andersen. – São Paulo All Print Editora, 2007. ISBN 85-7718-058-1 1. Romance brasileiro I-título

Délcio Vieira Salomon, IWA

06-8757

CDD-869.93

Índices para catálogo sistemático: 1. Romances : Literatura brasileira 869.93

NA MESMA TECLA

2007 SÃO PAULO - BRASIL

NA MESMA TECLA Copyright © 2007 by Délcio Vieira Salomon, IWA Todos os direitos reservados. Edição única – proibida a venda e reprodução parcial ou total sem autorização do autor.

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CAPA:
RODRIGO LIMA DE ANDRADE

À Lena companheira e inspiradora Aos filhos Tânia, Carla e Leo Aos netos Luana (in memoriam), Raissa, Tassila e Ian.

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS:
À Terezinka Pereira, por ter acreditado, em pouco tempo de convivência, no “poeta” e por tê-lo projetado internacionalmente (quem dera fosse verdade tudo que escreveu a meu respeito!) Á Clara Grimaldi, amiga de longa data e professora aposentada da UFMG pela paciência em rever os poemas, sugerir alterações e, sobretudo, pelo incentivo jamais esquecido Ao Wilson Salgado, colega desde o primeiro ginasial (1942) até o final da Filosofia em Lorena, SP (1949), grande amigo, cujos comentários sobre os poemas convenceram-me a não abandonar o sodalício com as musas.

A gente às vezes canta para sentir-se existente (João Cabral de Mello Neto – O relógio) (...) em sua luz se banha a solidão cheia de vozes que segredam... (Manuel Bandeira– Paisagem Noturna)

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO...................... 13 PREFÁCIO ............................. 17 À GUISA DE INTRODUÇÃO ......... 19 ANTES DO BAR ...................... 21 A louca da torre................ 23 Pingo do i......................... 24 Na ponta do lápis ............. 25 Ponto marcado ................ 26 Brinco .............................. 28 Água ................................ 29 Ar .................................... 31 A pedra ............................ 34 A bola .............................. 36 Moderno/antiquado ......... 37 Qual delas me responderá? 39 A rua onde moro .............. 40 Hospitali dade .................. 41 Ano novo ......................... 42 Voz da consciência............ 43 Voice of the conscience ..... 44 Poliglota de uma só língua 45 Ode ao abraço ................. 46 Inocência perdida ............. 47 Ocupação preocupante .... 50 Zoón politikón (animal político) ........................... 54 Menino Deus ou de rua? ... 57 Meninas prostituídas ........ 58 Esperança ........................ 59 Sem palavras .................... 60 Revolução cósmica ........... 61 Demônios soltos............... 64 Empinando ilusão............. 65 Paralelas do destino.......... 66 Vida nova ......................... 67 É mesmo assim ................. 70 Aqui e agora ..................... 71 Responda por favor .......... 72 Minitratado da infelicidade. 73 Proibido procurar ............. 74 Amigos............................. 76 NO BAR .............................. 77 Copo de whisky ................ 79 Copo vazio ....................... 80 Música ao vivo.................. 82 A deusa da boate .............. 84 Noite criança .................... 85 Canibalismo tropical ........ 87 Velhos companheiros velhos 89 DEPOIS DO BAR I ................. 91 Amor ............................... 93 Gramática do amor .......... 94 Novas formas de poetamar . 96 Amor impossível ............... 97 Sem ela ............................ 99 Olhos negros .................. 101 Se me deres tua alma ...... 102 Detalhes ......................... 103 Na mesma tecla .............. 104 O datilógrafo ................. 107 Rua do Ouro .................. 111 Thauma ......................... 115 Saudades de ti ................ 117 Declaração de amor por e-mail ............................ 119 Beijo roubado ................ 120

Pura e dura .................... 121 Por trilhos e trilhas.......... 122 Na Estação da Luz .......... 123 Por seguir teus passos ..... 125 Fratura exposta .............. 126 A palavra é que magoa.... 127 Shopping das paixões ..... 128 O amargo de meus olhos .. 130 Noite de lua cheia ........... 132 Tempo perdido ............... 134 Tempo: verbal ou real? .... 135 Lugar comum ................. 136 Poema da espera ............ 137 Mão – flor ...................... 138 Trovas de amor............... 139 Haicais de amor ............. 141 DEPOIS DO BAR II .............. 143 Leitura sem fim ............... 145 Setenta anos .................. 147 Sou livre? ....................... 151 Sina e perdição ............... 153 Legado ........................... 155 Penso, logo..................... 156

Oração entrelaçada ........ 158 Feitura da vida................ 159 Seguro de vida ................ 161 O mal da vida ................. 162 A vida continua .............. 163 A vida passa ................... 164 Nada se pierde ............... 165 No mapa da vida ............ 166 Não maldigo a vida ........ 167 Viver em paz ................... 168 DEPOIS DO BAR III: ............ 169 Entre a vida e a morte ..... 171 La nave si va ................... 172 De senectute................... 174 Saudade ......................... 176 Tempo sem relógio ......... 178 Solidão e poesia ............. 180 Simplesmente isto........... 181 Vida sem presente ........... 183 APÊNDICE........................... 185 A porta se abriu .............. 187 A Olavo Bilac ................. 188 Reforma do mundo ........ 189

APRESENTAÇÃO
Li com particular atenção o “Na mesma tecla” e depois o reli com imenso prazer. Confesso que foi agradável surpresa recolher conceitos de alto teor filosófico, de observações do cotidiano, temperadas com irretocável forma, pródigo em expressões lapidares e palavras respigadas a dedo. Embora seja minha vontade, não há como criticar tudo o que foi concebido, pois teria que tocar muito mais teclas que o autor, e isso resultaria num novo livro, talvez maior que o dele. Dei-me, então, o prazer de ver as palavras fugindo da caneta para o papel, com tranqüilidade e certeza de que jamais faria justiça numa análise fria. Seguem, pois alguns comentários, alguns até carregados de lembranças, que os poemas em mim despertaram. Acredito que Délcio Salomon teve a dádiva da auto-superação no “Ode ao abraço”. Para mim, uma obra prima pelos sentimentos que evocam. Os braços, a cruz, os abraços e apenas braços para abraçar a esperança e debelar os traumas da infância que gritavam em nossos ouvidos o pecado, o fogo e o inferno antes mesmo de sabermos o que é culpa. Optei, agora, em ver o boi voar, como fez Tomás de Aquino. Como não crer no amor, no perdão e no dom da vida? Grego! Quem diria! Valeu a pena a verdadeira oração para o pobre versus a concentração de tanta riqueza com o inútil esforço de atingir a lua. Ao ler, em português, seu poema eu me perguntei: O que é que eu vou fazer com uma selene tão cara e tão desprovida da poética inspiração para todos os que a admiram. Creio com animo e firmeza no aqui e agora o nosso antigo hic et nunc. Num poema está consolidada minha tese de que o tempo não existe. Ele é sempre agora e, se é sempre agora, é eterno. Responda-me... Deus realmente existe? Esse poema trouxeme uma antiga memória, uma poesia de “nosso passado”. Se me não engano é de Amélia Rodrigues e Aristóteles a endossaria: “Ainda há quem dê, triste miséria,/como causa das causas a matéria,/ muda, cega, inconsciente”.

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Pergunta é dúvida e dúvida é o primeiro passo na busca da certeza. Nel mezzo del camin di nostra vita Mi ritrovai per una selva scura Che la diritta via era smarrita”. O Dante Aleghieri bem lembrado trouxe-me, também, uma terna lembrança. Lembro-me que em 1947 recebi de um colega nosso de Mato Grosso uma edição do “La Divina Commedia”, que em 2005 fez cem anos e está comigo há sessenta anos. Não obstante as placas, seu pessimismo intelectual e poético não logra ocultar a esperança do verdadeiro caminho, pouco importa o seu é proibido procurar. Não raro buscamos no fundo de um copo a juventude que se está diluindo e, no desespero inconsciente, enchemos outra vez o nosso copo na mesma tentativa de Francisco Alves que cantava “E no anseio da desgraça Encho mais a minha taça Para afogar a visão...” Talvez tudo seria mais ameno se pudéssemos reencontrar nossos velhos companheiros velhos, que só Deus sabe onde se encontram. Adorei a figura do amor intransitivo a dois, sempre no plural. Talvez seja essa a forma jamais concebida de poetamar. A tecla “fá”, me enveredou para meu primeiro livro, onde defino: “Saudade é a presença constante da ausência” e fiquei feliz de ver a mesma idéia brilhando no poema. A vida passa, mas o poema fica. Incorporei em mim o “Ars longa, vita brevis”. A excelente versão da Teresinka estende, ainda mais, a longevidade do belo poema, todo ele eivado de nobres sentimentos e de estímulo a ler com atenção a magia do cotidiano. Vi, também artística e filosófica ponderação: a vida é tão curta, não merece ser abreviada pelo remorso de não termos vivido sempre em paz. É um otimismo contra os que alimentam remordidas saudades do que nunca aconteceu. Reitero que me encantaram as frases e figuras lapidares que envolvem os poemas de Na mesma tecla: Qual grafiteiro, roubo a noite madrugada para garatujar e embaraço a vista no deciframento de mim mesmo. Ou: Vejo que até hoje não paguei a infância truncada. E, ainda:
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Quanta lembrança de dias idos e vividos nas dobras do destino escondidos. E esta: Tinha escolha? Mesmo que tivesse sei que gostaria de me repetir. O seu Legado é bilaquiano como poucos. Não menos que o poema dedicado ao próprio alexandrino Bilac. Penso, logo... excelente entrevero com Descartes: “Je pense, donc je suis”. “Cogito, ergo sum”. Caro Délcio, por favor não arquive em nenhum baú seus excelentes poemas, como costumava fazer o Fernando Pessoa, que revivi em muitos de seus versos. Não espere o ouro, que, quem sabe, até poderá aparecer em sua bateia, pois não é ele o seu prêmio maior. É um simples acidente que morre enquanto a essência permanece brilhando. Espere, sim, o feliz sentimento de que você está tangendo os corações de quantos o lerem. Não exija de seus poemas a herança que o filho pródigo exigiu de seu pai, mas a sublime contemplação fraterna e amiga dos que tiverem a ventura de saboreá-los em clima de meditação e de se transportarem para o patamar de suas saudades e de seus conceitos. As lembranças, os copos, a mãe, os beijos, o amor, as fraturas expostas, a palavra que faz feliz ou que magoa, amor feroz ou platônico, tudo é forma de rebobinar a vida. Pouco importa o que se perdeu no tempo. E daí? O tempo é o agora, e o agora, reitero, é eterno. Meus sinceros parabéns! Gostei, mesmo. Gostei muito! Ribeirão Preto, 24 de fevereiro de 2007 Wilson Salgado ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

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PREFÁCIO
O poeta Délcio Vieira Salomon sabe passear por todos os centros culturais do mundo, indagando e aprendendo sobre literatura, filosofia, poesia e cultura sem precisar de sair de seu escritório em Belo Horizonte. Todo o universo que conhecemos está aí em seus versos, em linguagem direta, clara, contundente de verdades e evidências. Procurou, encontrou talvez coisas de que não precisa e agora usa o velho Nietzsche para explicar: “Só acha quem parar de procurar”. O amor, esse eterno tema universal, penetra toda sua poesia e aparece na forma, no tema, nas imagens, nas pessoas (personagens), nos santos (Santo Agostinho), nos verbos, nos neologismos e nas soluções: “Amando se aprende/a criar/novas formas/ de poetar”. Pessoalmente um pouco tímido, mas como poeta sua voz tem projeção internacional pela ampla cultura que recolheu no seu bom tempo de estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e na de Direito e que ainda aprende por esse mundo tão globalizado onde seleciona temas e sua predileção pelas leituras em livros de alguns escritores e poetas internacionais como Saramago, Fernando Pessoa, e outros menos visíveis em sua poesia como Pablo Neruda e os poetas franceses, principalmente os futuristas. Na pátria recolhe lembranças de Carlos Drummond, Vinícius de Morais e Manuel Bandeira, estando na altura de qualquer um deles. Entre os tons da terra vizinha aparece alguns gritos de Gardel e todos aqueles que na geração anterior se destacaram pela musicalidade lírica assim como os velhos poetas do modernismo europeu, cuja poesia chegou formalmente ao Brasil e, no nosso país, floresceu e murchou. Délcio Vieira nasceu e cresceu nos anos mais difíceis para a literatura no Brasil, quando seus modelos intelectuais foram para outros países, os grandes poetas conhecidos fizeram sua definitiva despedida e a literatura cheia de “ismos” e tendências políticas

foi protelando a chegada dos jovens, talvez mais agigantados e irreverentes. Convivendo com eles agora, Délcio Vieira Salomon continua lírico, evolutivo e tranqüilo no sentido clássico da perfeição na forma de seus versos e de questionar a cada passo o status quo da poética como obra de arte. Sendo único e isolado de tantos grupos, o poeta mineiro recusa a ter ponto de referência do estardalhaço de originalidade formal. É bastante óbvia na sua poesia a presença da cadência lírica aprendida em criança educada em escola religiosa, e o gosto pela linguagem poética de cancioneiro sem rima ou com rima assonante. Consultando a biografia de Délcio Vieira, pude localizar a origem e a razão de sua ampla intelectualidade. Foi recebedor de vários diplomas universitários no campo da filosofia, ciências e letras, de direito e leis e uma livre docência ou doutorado, além de muitos cursos pós-graduados. No mais, sua poesia confirma, como a poesia de Carlos Drummond de Andrade, sua personalidade como mineiro e como bom homem de família, embora tenha seus compromissos com a poesia da liberdade essencial da vida. Toledo, Ohio, USA em 05 de janeiro de 2007 Teresinka Pereira – presidente da International Writers and Artists Association – IWA

À

GUISA DE INTRODUÇÃO

(...)e aprendi na mesa dos bares (...) Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.(Carlos Drummond de Andrade Também já fui brasileiro em Alguma poesia) Bar: este lugar, eu o amo/ou não se fala mais nisto? (CDA – Bar – Boitempo) Páginas em branco pelo tempo convertidas em pátinas para receber tênues raios de luz enfeixados com a mesma dedicação e prazer com que foram captados. Desde alguns anos surgiram para clarear noites insones e a solidão da velhice aposentada de seu autor. Ao iluminar-lhe o tempo e o espaço de sobre – vida metamorfosearam-se em escrevinhaduras e estas em companheira inseparável. A elas se juntaram lembranças do passado que em “versos” entre guardados se guardaram. Diante da premência da organização dos textos, percebi que a verdadeira origem dessa “vocação tardia” foi a mesa do bar. Certa noite da década de noventa, à mesa do bar comecei a lançar no guardanapo rabiscos, uns em forma de desenhos, outros com jeito de poemas. Foi o início da exteriorização de outro lado de meu mundo interior. Em casa, e reiteradamente varando a madrugada trabalhava melhor a expressão das reflexões e observações oriundas e motivadas pela inspiração etílica. Em reconhecimento a esta laica epifania sob o halo dionisíaco, decidi estruturar a presente comunicação tomando como referencial o topos da revelação: o bar. Quanto à temática, a insistência em tocar a mesma tecla faz de quem ama poeta e de quem canta sofredor: – o amor – a saudade – a beleza – a mulher – a amizade – o tempo – o destino – a Natureza com seus elementos, a Vida com seus detalhes, suas perdas

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e ganhos, no velho conflito com seu próprio fim, sobretudo o “eu com suas circunstâncias”. Até coisas aparentemente banais, mas com o infinito potencial de proporcionar lições. Enfim tudo que aparenta ser eterno, enquanto de inspiração sempre renovada. Transformados em poemas são teclas batidas/por uma vida/em duas partida: uma nas brumas do tempo/perdida/outra qual fênix de cinzas renascida:/dois elos que clamam/por nova fusão/da corrente rompida. Se é verdade que de poeta e louco todos temos um pouco, quanto então não terá um aposentado/vagabundo como certo presidente o tachou?! No fim da jornada surgiu o desafio de o saber. Não custa nada experimentar. Se para críticos esta experiência não valer, para o autor significou muito, sobretudo diante da declaração de Quintana em uma de suas entrevistas: “Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível para a alma humana fazer maus versos, a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de superação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma”.

ANTES

DO BAR

O eterno cotidiano, a sociedade em que se vive, nos levam a pensar coisas... encontrando assuntos sem os procurar ou como diz Drummond: “sem ser à procura de objetos: achando-os (CDA– Ficar em casa)
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A louca da torre
No desvario seu,/na torre pôs-se a cantar (Alphonsus Guimaraens – Ismália) “entre as duas janelas da torre, prisioneira (...)/miravas para lá do horizonte (Gerardo Mello Mourão – Santa Bárbara) .No. .alto. .da torre. .ela vivia só. .N a verdade. .tinha de dia. .a companhia. .do rei Sol. .e à noite. .a claridade do luar. .Está. .tica. .ficava. .toda. .noite. .pálida. .donzela. .no vão do esguio. .campanário. .o céu. .a contemplar. .Da ‘louca da torre’. .certo dia. .ouviram falar. .para lá. .subiram. .Derramadas pelas paredes. .e pelo chão.encontraram somente réstias de luz. .entrelaçadas em colar: a luz do dia com a luz do luar.
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Pingo do i
Pingo de letra não é letra. Pingo de gente não é gente. – Preconceito ou menosprezo singular? Pingo d’água não é água não é lago não é mar... É verdade sempre ou nunca será? Sem soma de pontos letra alguma se faz. Sem soma de pingos nem lago nem lagoa nem rio nem oceano se terá. Entretanto pingo é ponto, mas em lugar nenhum se lê: “no começo era o ponto.” Ponto só se conta se vier depois ou então se for final e pronto.

Na ponta do lápis
Na ponta do lápis se limita o desejo de começar e prosseguir. O infinito espaço ali se concentra para o tempo congelar. Sem passado e sem futuro o presente se esgota no limiar daquela ponta. Agride a alvura inocente da página que a acolheu. Cessa o fluir do imaginário e se dá o paradoxal início da escritura mesmo sem ter em seguida meio, desenvoltura e fim. Sobre a folha em branco a ponta do lápis revela todo seu poder de estancar o pensamento. Estática a ponta do lápis se deixa ficar no mesmo lugar à espera do nada transformar-se em ser. Mas tudo que merece registro é confiado a esta ponta que sempre ameaça revelar o que oculto está.

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Ponto marcado
Procurei na folha branca o ponto que lá deixei. Naquele ponto marcado o ponto já não estava. No branco daquela folha o ponto se perdeu. Recorri á memória, Mas deu branco E no branco da memória nem ponto, nem história de algum ponto para se contar. A vida é página branca a receber os pontos da existência. De ponto em ponto formamos a mancha de nossa presença. Com pontos ela se tece, sem pontos ela se desmancha. Para não passar a vida em branco marcamos encontros mil em determinado ponto. Cientes somos: sem ponto não há encontro e sem encontro não há história para se contar nem vida para se viver.

Na folha branca possibilidades se pontilham, probabilidades se apontam. Até no branco da vida marca-se ponto para tudo recomeçar. Mas com tantos pontos e desapontos sem conta ficamos quais andorinhas em brancas nuvens a voar sem parar em ponto algum a fim de algo pontuar.

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Brinco
Brinco? brinco! Eu brinco mas ela brinco quer. Se brinco por que brinco vou lhe dar? Brinco com o brinco mas gostaria mesmo era com outro brinquedo (o proibido) brincar. – Com a mulher sem brinco sem blusa sem saia sem sutiã sem calcinha nua como a lua na cama a brincar... No dia seguinte lhe levaria o brinco que ela na saída esqueceu de usar

Água
Água morna água quente água fria gelada água Água mole a bater em pedra dura a espirrar até que fura Águas claras águas turvas água parada que bicho cria Água que mata a sede e apaga o fogo do incêndio das matas. Água da fonte que vira rio a correr para o mar. Água das nuvens em chuva desce para despertar a vida na terra. Água benta quebrantos cura e as almas salva do original pecado Água que boi não bebe sempre apreciada
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na mesa do bar. Água de cheiro perfume vira p’ra o disfarce do transpirar Água viva a sede de justiça mata e contra maus olhados protege. No início era a Água e a água virou Vida. Mas de todas as águas prefiro a cristalina “aguinha das grotas a “gruguejar sozinha” como o jagunço Riobaldo dizia

Ar
Nenhum sábio o define mas todos sabem o que é. O que seria de todos nós se não fosse o ar? Sua ausência, gera o vácuo o desespero a morte. Sua presença a Vida, o nascer e o renascer O que seria de todos nós se não fosse o ar? Tudo no ar se faz e desfaz: o sólido o bólido a água a mágoa o som o tom da voz o sussurro lento do vento a notícia a malícia

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da trama que clama e reclama do que se passa de dia e à noite se repassa na rua na mesa na cama dentro ou fora do lar. O que seria de todos nós se não fosse o ar? O que pesa, o que não pesa se esboroam no ar. O que seria de todos nós se não fosse o ar? Até o sucesso do artista a fama da dama a honra do velho sisudo ou do juiz posudo tudo no ar se faz e se desfaz menos o próprio ar.
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O que seria de todos nós se não fosse o ar? Sem ar não há o que respirar nem água a beber nem comida a comer O que seria de todos nós se não fosse o ar? Sem ar só resta o nada a ocupar todo lugar.

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A pedra
Na extensão do deserto por leito o imenso areal e por teto o azul do céu jaz a solitária pedra. No meio do entulho fruto de repetidos destratos sem da sujeira se impregnar qual virgem abandonada a pedra reluz aos raios do sol. Encostada ao muro a prostituta aguarda a pedra fatal. Instrumento de sanguinária mão Incapaz de cumprir por si hipócrita sentença, por sinal reveladora de empedernida mente. Arma para ferir e matar não por ser o que é, mas justo por ser presa fácil de quem a pega pr’a desejos inconfessáveis satisfazer. Nesta hora todos esquecem da pedra em que Jeová escreveu os mandamentos e a confiou a Moisés. Ninguém nesta hora se lembra do sacrifício a ara sagrada onde o cordeiro se imola para o fiel das trevas libertar. Há séculos foi ela o fundamento da igreja
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onde se reúne a multidão para a Divindade adorar. Base da humilde morada como de arranha-céus sobre moles erguidos milhões delas consumidos para em fileira brutas selvas se formarem. Ei – la que surge sob aplausos, bandeira no mastro erguida banda, foguetório discursos e louvações lançada no vão cavado fruto de deslavada corrupção para ser de novo evento o marco inaugural.

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A bola
No campo a bola rola. Diante de olhos atentos cada astro do futebol em deus se converte. A multidão transforma a arena em templo para os novos ídolos adorar. No jogo da vida a própria vida rola pois seu destino é rodar. A Terra gira em volta do Sol e não sabe ir em frente sem rodar em torno de si No primeiro big bang do universo de Aristófanes a esfera com quatro braços e quatro pernas em alta velocidade girou até com os Titãs chocar e partida em dois pedaços fez surgir o homem e a mulher. Sonhei um dia e no sonho vi infinita Bola a rodar sem parar. No sideral espaço se Deus – a infinita Bola rola sem parar, por que logo eu vou deixar de rodar? Assim pelo universo a fora, antes da partida terminar em boa ou má hora vou – me embora.
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Moderno/antiquado
minha porta tem puxador (“mão estendida da casa” como Saramago o chamou) o puxador abre a casa para o abraço acolhedor carinhosa ou educadamente recebe o dono ou a visita que chegar dizem: – puxador é coisa antiga. moderno é maçaneta. mas para porta que se preza mais moderno ainda é knob que se aperta (“push”) (como no elevador) para a porta > automática < se abrir. apertar... sinônimo: empurrar antônimo: puxar o antigo de hoje outrora foi moderno sim moderno
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é a negação da negação acabaram com o puxador e knob introduziram no seu lugar push não é puxar é empurrar ou apertar... não para a porta trancar mas para a casa sem cerimônia descerrar

Qual delas me responderá?
Assim que chega a noite pergunto pelo luar. Assim que vejo a lua pelas estrelas estou a indagar. E por tudo que há por trás do céu escuro a se ocultar: – se lá se esconde o dia ou se o sol se esconde lá. Assim que amanhece pergunto pelo que virá: dia claro, tarde de céu puro? – virá a noite? virá a lua? As estrelas virão também? E qual delas me responderá?

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A rua onde moro
Na rua onde moro, toda noite passa a carruagem da esperança. Mas ninguém o nota, ninguém a alcança. Esta a rua que me conduz para tudo que me seduz. Nela encontro a firmeza que a presença da lua me traz. Nela sempre estou voltando para o mesmo lugar. Esta a rua dos meus sonhos horizonte sem começo nem fim. Sem percurso nela se anda Calçado ou descalço sobre etéreos flocos que os ventos agrupam para o céu sustentar. À procura da própria sina onde ninguém pára, ninguém pergunta, vivo a percorrê-la mesmo assim.

Hospitalidade
Entra. A casa é tua Nela encontrarás a fragrância do carinho, o cheiro de roupa recém lavada toalhas floridas alvos lençóis no leito. Rosas no jardim, à borda da janela gerânios em profusão. Comerás do pão beberás do vinho e partirás quando quiseres.

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Ano novo
Num instante o ano velho novo vira. Num instante tudo que fez feliz o tempo vivido é por todos esquecido. Num instante só desejos brotam dentro da gente na esperança de que tudo seja diferente. No momento em que tudo muda para que o novo surja sobre a carcaça do velho nos mergulhamos de corpo e alma na imensidão do novo tempo. Congelamos a expectativa de novos sonhos se cumprirem e dentro de nós erguemos a bandeira a anunciar qual navegante descobridor o novo mundo de repetidas ilusões.

Voz da consciência
Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! (Mário Quintana) Não vás em frente, Para! Pensa e reflete: habitas o presente, na casa do fundo jaz o passado e qual sol diante de ti brilha o futuro. Estás em ponte suspensa entre dois abismos: à esquerda ilusão à direita ameaça e terror. Continuarás no mesmo lugar? Pensa e decide. Não há como voltar atrás. Olha em redor antes de seguir. Não negues a ti a decisão de te deteres. Sê cauteloso. Onde te encontras outros já se encontraram também. Neste mesmo lugar juras se fizeram, mas promessa alguma se cumpriu. Repetirás a mesma história?

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Este poema foi traduzido para o inglês por Teresinka Pereira, presidente da IWA – International Writers and Artists Association (Ottawa Hills, Ohio – USA):

Poliglota de uma só língua
Minha mãe falava várias línguas numa só. Falava a língua da mentira quando me consolava em minha dor. Falava a língua do conformismo quando dizia tudo para ela estava bom. Falava a língua da fé quando me convencia: – “Deus tudo vê e tudo há de prover”. Falava a língua do medo quando me confidenciava: – “se houver fila pr’a morrer não quero acordar cedo prefiro o último lugar”. Falava a língua do destemor quando jovem viúva ia fora trabalhar para não deixar o pão faltar. Falava a língua da esperança quando me prometia: – “a paciência tudo alcança”. Falava a língua da caridade ao dar a sobra de comida ao pobre faminto a sua porta sempre a implorar. Sim falava todas essas línguas: a da fé da esperança da caridade da mentira do conformismo do medo do destemor até da autopunição falava. Mas todas numa só: a do amor que em seu coração pulsava sem parar

Voice of the conscience
Don’t go ahead. Stop! Think and reflect: You inhabit the present, In the house on the back lays the past in front, like the sun Shines the future. At left Illusion. At right, threats and terror. You are in a drawbridge between two abysms. Are you going to remain in the same place? Think and decide. There is no way to go back. Look around Before you go on. Don’t deny to yourself the decision to stop. Be cautious. There, where you are Others have been before you. In the same place others promised but they did not honored their promises. Are you going to repeat the same old story?
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Ode ao abraço
Se os braços não se estendem jamais formam cruz. Sem cruz inútil a redenção. Se os braços não se comprimem jamais abraçam. Sem abraço inquieto ficará o coração. Se os braços não se estendem nem se comprimem monumento à inércia se tornam ou simplesmente à estática esperança que nunca virá Nem estendidos nem comprimidos prefiro braços apenas braços com o poder de tudo abraçar até a própria esperança e com ela a redenção alcançar.

Inocência perdida
– reflexão sobre os 500 anos da descoberta do Brasil “Daqueles reis que foram dilatando A Fé, o Império (...)” (Camões: L. 1, 10-11) Inocência nasce com a gente mas um dia se é obrigado a perdê-la para colocar em seu lugar a “razão” e a fé e transformar-se verdadeiramente em gente. Deixar de ser gentio pagão Inocente para tornar-se simplesmente gente – este o projeto comprometido com a dominação para a ferro e fogo dilatar a fé e o império. Desde então gente é quem carrega consigo a culpa de não ser mais inocente. Mas a “não ciência” (dos outros)... – inocência – é a certeza de si mesmo e de em tudo acreditar até em boi voar!... Com a perda da inocência brota a dúvida, a interrogação como brota a certeza da perda, da existência, da vida, de tudo que somos e o que não somos. Com medo da eterna perdição
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surge após a culpa a fé. Mas inocência continua liberdade sem culpa certeza sem fé. Com o tempo perdemos a fé e nos encontramos perdidos sem inocência sem medo sem nada para acreditar. No princípio era Deus? ... não sei só sei que eu era inocente (passei a nele acreditar depois d’a inocência perder). Hoje sou gente. O Princípio já não é ou existe em mim desde o princípio a certeza d’Ele não ser? Inocente só sabia existir Tupã (e com ele meu panteísmo particular). Tiraram-me a crença e em troca da inocência perdida
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colocaram em seu lugar mistério de três em um e me obrigaram a acreditar... Do contrário morreria devorado pelo fogo do inferno do lado de lá. ou pelo da Inquisição do lado de cá.

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Ocupação preocupante
No princípio tudo era nada. Para nada nem tempo nem espaço havia. Mas o tempo se colocou começo de tudo o espaço ocupou. E caos tudo virou. Veio o homem ocupou o caos. E o caos em mundo se transformou. Desde então cada qual constrói seu espaço seu topos seu mundo para nele o tempo ocupar. Os homens passaram a fazer do tempo ocupação e a não tolerar em seu espaço ocupado ver o tempo passar. Os astros ocupam o universo. A Terra ocupa um ponto no sideral espaço. O homem ocupa a Terra Não contente quer ocupar a Lua
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Mercúrio, Marte, Júpiter, Saturno... e se descuidarem até o Sol pretende ocupar mesmo sabendo que lá irá se danar se derreter se fundir e em lava se decompor. (Enquanto isso pela posse dum pedaço de espaço os sem-terra lutam) Não se preocupem “é conversa p’ra boi dormir” (em qualquer tempo e espaço): a nada e a ninguém nem a si mesmo o homem consegue ocupar.... Ele espaço ocupa ela o tempo culpa. Ele se culpa ela se preocupa e ambos se desculpam. Com ela ele se preocupa com ele ela se ocupa. Com a ocupação de ambos ele e ela se preocupam. Por se ver sem ocupação ela o culpa.
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Se ele o tempo não ocupa ela se preocupa... Até quando haverá na vida ocupação com preocupação e culpa? A ocupação do tempo virou trabalho a ocupação do espaço propriedade virou. A partir de então a propriedade ocupa/culpa o trabalho e ao trabalho a propriedade preocupa. A propriedade gerou o capital. O capital da propriedade tomou conta. E acorrentado na prisão de velho “ismo” em sistema converteu a grande ocupação para em cartório se registrar. Assim se fundou o capitalismo para tudo até o homem violentar expropriar e depois despreocupado cinicamente o ocupar. (Capitalismo com impropriedade se proclama defensor da ocupação da propriedade)

Desde quando o trabalhador passou a preocupar-se com a propriedade e o capital, transformou a preocupação em ação e provocou a luta de classes. Mas classe é o único espaço que o trabalhador com propriedade ocupa na escala social. Quem está em cima não se preocupa com quem em baixo está só se preocupa quando ele quer seu lugar ocupar.

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Zoón politikón
(animal político) – lição de pai para filho – Como é comum dizer: não devemos generalizar...Mas em se tratando dos nossos políticos, de algum tempo a esta data, são tão poucas as exceções, que é difícil não declarar com Virgílio: “ab uno disce omnes” (o que se diz de um se estende a todos). Ou, então: a exceção atingiu o limite e virou regra. Quero que tenhas a rapidez do cervo a bravura do leão a ferocidade da hiena a argúcia da águia, a valentia do galo a generosidade da galinha. Mas jamais copiarás do cervo a concessão do leão a arrogância da hiena a sordidez da águia a ostentação do galo a esporada mortal e da galinha a falta de compostura (embora desta se salva a postura que tem). Sobretudo, filho meu, evitarás te tornares um dia o pior dos animais: o zoón politikón. O mesmo por Aristóteles descoberto mas, ao registrá-lo, no Index da zootecnia,
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se esqueceu de dizer: – tem tudo de politikón, mas só o pior do zoón. Não habita a selva nem em jaulas, em viveiros ou gaiolas vive. Não se alimenta de carne ou de ervas; nem bebe a água cristalina dos rios. Sim, meu filho este animal só mora em palácios cercado de pestilentas feras – outros tantos corruptos espertos e bajuladores que com ele formam especial família e “sui generis” espécie. Em vez da admiração que os animais de todos nós arrancam, ele só provoca desde o asco ao ódio mortal. Banqueteia da miséria alheia bebe até a última gota
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o suor de quem trabalha. Locupleta-se das facilidades conferidas pelo Poder. Todos os dias se banha nas águas de falsos Nilos e poluídos Ganges. Sim meu filho escolhe qualquer animal e nele te projetes. Menos no político que da pura animalidade nada tem... Acredita – teu pai com autoridade te diz – diante do político, porcos antas capivaras rinocerontes até as hienas sentem-se tímidos e constrangidos quando com ele disputam o lamaçal da podridão. É que aqueles alimento procuram. E este, o vil metal que no pantanal do poder se oculta.
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Menino Deus ou de rua?
Se o Natal lembra, entre festa e toca-sinos, o mais desamparado de todos(os) meninos, por que estes meninos tão desamparados nas ruas, um minuto sequer são lembrados? Voltasse hoje à Terra o mesmo Deus menino um berço na sarjeta logo escolheria. Por certo abraçaria o infeliz destino das crianças de rua e da periferia. Há por acaso quem acha filho seria de rico empresário ou mesmo de deputado presidente ou juiz? Oh! sórdida ironia! Se tal acontecesse, então Cristo estaria a si mesmo negando! E o amor manifestado à criança de rua triste hipocrisia

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Meninas prostituídas
Não era sexo o que ofereciam essas meninas mal e mal crescidas matar a fome é só o que queriam, sendo por vis canalhas seduzidas. Dos sentimentos não sei qual maior: o ódio mortal com asco misturado à hiena transformada em sedutor ou o dó em meu peito já sangrado por essas criaturas desprezadas nesta sociedade em que nasceram e pela mesma cedo despejadas sem futuro nas garras dos chacais. Não lhes posso oferecer o que esperam. Apenas compaixão e nada mais.

Esperança
Enquanto os astronautas no seu vôo cósmico-sideral depois de pisarem na Lua colocam a esperança pendurada na estrela Alpha como alvo a alcançar aqui no ômega da vida sentado no meio-fio da rua o pobre mendigo espera migalha para a fome matar. E o aposentado na fila da previdência morre de tanto esperar. Este poema foi traduzido pelo poeta grego Dionísio Constantino ΔΙΟΝΨΣΗ ΚΟΨΑΕΝΤΙΑΝΟΨpara o grego e publicado no caderno da IWA (International Writers and Artists Association em Number 12, November 2005, p. 9): ΕΛΠΙ ΔΑ

´Οταν οι αστροναúτες Με το διαστημóπλοιο Αφοú περπ′ατησαν πα´νω στη Σελη´νη ´Εβαλαν σαυ ελπιδα και σκοπóτους Το ’Aλφα αστε´ρι να κατακτ×η´σουν Εδω´ στη Γη στο Ωμε´γα της ζωη´ς ΚαΘισμε´ηοι με´σα στην καμπι´να..., Οι γεροντóτεροι πολι´τες Πον η Κοινωνικη´ Πρóνοια συντηρει´ ΠεΘαι´νουν περιμε´νοντας Τα φα´ρμακα της σωτηρι´ας.
Μετ.: ΔΙΟΝΨΣΗ ΚΟΨΑΕΝΤΙΑΝΟΨ

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Sem palavras
As palavras já não dizem e o dizer não tem palavras. As rosas não têm nome Nem os nomes nas coisas colam. Palavras são “flatus vocis” que se perdem ao vento. Em grande número deixaram de ser conceitos reduziram-se a meras siglas para ocultarem o pensamento. Na lata de lixo. jazem dicionários. A fala se limitou ao sinal, sem ouvir a voz do silêncio. Nem declarações de amor se fazem com sentido. A realidade perdeu sentido Até a procura de sentido perdeu sentido. Nada faz sentido. Na moderna torre de Babel impera apenas a virtual taquigrafia social.

Revolução cósmica
Num repente apago o sol. No breu da escuridão astros e planetas luas e satélites subverto em abismo sideral Já sem luar no céu negras estrelas penduro. Convoco tufões terremotos hecatombes para o cataclismo universal. Arranco dos códigos todas as regras; as leis imutáveis em exceções transformo. Misturo galáxias quebro a ponta do infinito e na ampulheta do tempo espremo a eternidade até seu núcleo para os segundos em sais cristalizar. Com indomadas mãos reduzo num só bagaço tempo e espaço.
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Ao lume de vela montanhas de minério derreto; chumbo, cobre, manganês e ouro tudo em lamaçal converto. A fogo mares em desertos transmuto. Os ventos as florestas faço arrancar para na profundeza dos oceanos as precipitar. Fervo a água de todos os rios com a liberação das lavas dos vulcões. Trago da celestial abóbada nuvens e nevoeiros para deles fazer lençol por onde peneiro à boca do Averno todo sólido que restar. Por simples ímpeto de soberana vontade extingo da face da Terra toda manifestação de vida. Em infernal amálgama ergo monumental estátua à Insensatez.
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Ao novo deus adorarei e o resultado do novo apocalipse em tributo lhe imolarei. Em seu templo dormirei ainda que seus arautos venham ao fim do pesadelo declarar que tudo está no mesmo lugar.

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Demônios soltos
Enquanto os homens dormem os demônios libertos da prisão da noite agridem anjos e mulheres com seus tridentes. Zombam da inércia e da resignação da humanidade anestesiada pela fé nos deuses na ressurreição da carne e na recompensa eterna. No leito da morte escondem a última esperança da Vida. Profanam os santuários, arrancam de seu pedestal os sacrários; iconoclastas, arremessam ao chão estátuas à Divindade erguidas. Como a elogiar tanta violência, no fundo do palco toca o bandâneon o último tango de Paris.

Empinando ilusão
De cima do monte antes d´o sol se por recolhi a linha do horizonte e em sua ponta amarrei meu papagaio furta-cor. Empinei aquele colorido losango como nos tempos de criança. Sob a lápide do presente, portador de verde esperança, o passado ressuscitou. Alçou vôo e como flecha varou o futuro céu. Mão firme na manivela entre nuvens pendurei qual rutilante estrela meu desejo de voar. Com toda corda sôfrega pedida ele subiu, subiu, subiu até desaparecer. De repente senti a linha partida. Minha mão ficou vazia. E órfão ficou todo meu ser Desesperado, ainda hoje em inútil angústia procuro aquele solitário fio que cruel cerol partiu.

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Paralelas do destino
Correm soltas as linhas do destino sem nunca se encontrarem. Por elas passam o fado e a desventura a sorte e o infortúnio o acaso e o azar a ocasião à espreita do ladrão a desdita do condenado. Até a ventura desta vida cantada pelo apaixonado trafega por lá... Sem esquecer que também anda solta a mentira da vidente que a mão insiste em ler para revelar o mistério de quem tudo tem para esconder... Nada disso se oculta entre as linhas pelo destino traçadas. Tudo transita em paralelas sem jamais uma na outra se tocar. Verdade seja dita, para todos refletirem: capricho ou fatalidade, jamais os deuses escreveram certo em linhas tortas. Torta é a escrita humana em paralelas existenciais. Mas se os fados não permitem o cruzamento de suas linhas por que na vida homem e mulher lado a lado insistem as paralelas do destino em ziguezague percorrer?

Vida nova
Aos nubentes A nova vida se faz pela união de vocês dois. Não pela soma do que ganham do que usam e às vezes se entranha no próprio ser. A nova vida se faz não pela realização de desejo alheio; mas pela transformação em atos do próprio querer de vocês dois. A nova vida se faz inteiramente por doação total de um ao outro. Não pela mera junção de corpos prenhes de atração. A nova vida se faz como tessitura ou construção: – juntando pedacinho com pedacinho de cada um a dois... De dia com dia de hora com hora semana com semana mês atrás de mês
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ano pós ano... Mas constantemente tendo na cabeça o projeto de cada ligação. A nova vida se faz amarrando não só flor com flor amor com amor suave com terno bom com belo sincero com verdadeiro. Mas flor com não flor amor com dor cheio com vazio ruído com silêncio delicado com áspero mentiras com verdades. Enfim o barro que nós somos com o não-barro que queremos ser. Com o que vem do outro com o ideal que da gente brota. A nova vida se faz com muita luta muito estar junto e muita solidão porém preenchida com a paz dos sonhos. Assim se faz a nova vida: muita entrega
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e dedicação pensamento no alto sentimento no peito pés no chão não procurando o que é ilusão, antes reproduzindo cada dia cada hora o que de comum têm dentro do coração. Esta a vida nova que hoje começa diante do juiz ou ao pé do altar e se constrói e se evolui neste mistério profundo maior que o mundo: para a fusão constante de vocês dois numa vida só.

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É mesmo assim
Minha vida é mesmo assim: um dia eu faço isso outro dia faço aquilo e todos os dias da vida na verdade, nada faço! No entanto pareço ocupado cheio de coisas pr’a fazer. Se me perguntam o quê logo respondo: – minha agenda está cheia não dá tempo pr’a responder. Sou que nem balaio furado cheio d’água a escorrer: minha vida é catar as gotas pr’o balaio tornar encher.

Aqui e agora
Viver o presente de costas para o futuro e de olho no passado é o mesmo que procurar no passado a história do futuro. É preciso viver o aqui e agora sem revolver o passado para projetar o futuro. Por que beber a água pensando no copo de que é feito e donde veio e preocupado com o efeito que a água produz? Por que comer o pão pensando no trigo que lhe deu origem ou na fome que vai matar? É preciso viver o tempo – agora e a vida aqui – neste limitado espaço em que sou e estou [afinal “a longo prazo já não serei mais nada”...]

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Responda por favor
Você que tudo sabe e filósofo se intitula me responda por favor: – por que nesta vida uns sofrem e outros não? Uns amargam a tristeza de viver e a arrastam até morrer outros a vida abreviam antes mesmo de a conhecer? Uns estão contentes com a vida outros só vivem para a amaldiçoar? Uns têm prazer de viver outros matam por prazer? Uns trabalham e não têm casa outros sem nunca trabalhar até mansão têm? Uns tudo procuram e nada encontram outros nada procuram e tudo alcançam? Uns perdoam e esquecem outros esquecem e não perdoam e há os que de perdoar se esquecem? Não, não sabe? Ao menos esta pergunta em que todo mundo insiste, filósofo e sábio, responda-me por favor: se este mundo é tão complicado com tanta violência tanta miséria tanta dor e sofrimento e tanta injustiça a imperar responda-me com convicção e sem tergiversar: – Deus realmente existe? Ah! não sabe? Também por que vivo a perguntar?
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Minitratado da infelicidade
“o homem é um ser que projeta tornar-se Deus” (Sartre em “O ser e o nada”) Infelicidade? É o que o poeta cultiva: – sensibilidade! Sensibilidade? – cerne de todas as artes sem mediocridade! Sem mediocridade revela-se o bom artista: – imortalidade! À imortalidade é o que aspira o ser humano ou à divindade. À divindade? – oh! Deus! Não será esta a razão da infelicidade?

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Proibido procurar
“nel mezzo del camin di nostra vita” (Dante – Divina Comedia) “no meio do caminho tinha uma pedra” (Drummond – Alguma poesia) “é pau é pedra é o fim do caminho (Tom Jobim – Águas de março) “depois de estar cansado de procurar aprendi a encontrar” (Nietzsche – A gaia ciência) Desde o início da caminhada procurei o amor e encontrei a dor. No meio do caminho procurei contornar a pedra e não encontrei saída. No fim da jornada procurei repouso e encontrei cães latindo. Diante da bica procurei matar a sede e encontrei a secura da última gota. Desesperado procurei rever o tempo perdido e encontrei gargalhada escondida atrás de velho sobretudo guardado a mofo a servir de espantalho na moita do mato à beira da estrada. A desilusão obrigou-me parar de procurar. Era preciso voltar. De retorno
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no fim no meio ou no começo não mais estava a pedra... Estava a água estava o amor estava o consolo não mais a dor. Tudo que procurava e eu não vira estava lá Como roda viva o tempo passou Hoje de novo no meio do caminho me procuro procuro a pedra procuro a bica procuro a saída o consolo procuro o amor. E de tanto procurar de repente encontro no início no meio e no fim de cada jornada placas fincadas por ambos os lados com os mesmos dizeres a me admoestar: – é proibido procurar.
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Amigos
Amigos os tenho de todo tipo e qualidade. Sinceros há muitos a eles com prazer avalizo mesmo sabendo quase sempre sou eu quem o empréstimo irá pagar... Há os aparentes proclamam até amor mas deles estou sempre a duvidar. Enfim há os falsos amigos como Judas cujos abraços e beijos na face nada mais são que a senha da traição. Ia esquecendo de dizer: – há também o amigo oculto que só aparece no Natal p’ra (segundo dona Isabel) disputar comigo o sorteio do nome a quem anônimo presentear.

NO BAR
Bebendo observando, conversando sempre pensativo. Afinal a bebida “ bota a gente comovido como o diabo” como diria Drummond. (CDA – Poema das sete faces)

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Copo de whisky
Eis um copo de whisky com gelo diante de mim como sempre gostei e quis. Mas se bebo reclamam se não bebo falam mesmo assim.

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Copo vazio
À mesa ele estava só. Aliás sempre ficava só. Bebia... curtia... o prazer de beber. Distante contemplava o infinito horizonte da rua sem se preocupar com o céu ou se nele estava o luar. Se era dia se era noite... por que se preocupar? Até que certa vez ao olhar o copo vazio viu que o vazio estava dentro de si!... E de vazio em vazio não conseguia encher seus dias! Hoje ainda depois do bar
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sai cantarolando noite a dentro pela rua afora e só com sons e melodias vai enchendo a taça da vida na espera do dia em que ela se quebrará.

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Música ao vivo
Eles cantam e dançam. Eu os contemplo sentado no bar. Homens e mulheres se agitam batem palmas à dança? à música? ou ao par? Pedem bis. A música querem repassar. Para si ou para o par? O cantor atende: “Fica comigo mais essa noite” volta meu amor fica comigo Mas será que só no bar? Enquanto sentado bebo, ela ao ritmo de mais um bolero desliza pelo bar a cintura agita e balança e olha ao redor pra ver o aplauso, sentir a admiração geral à arte de seu gingado tropical. Pouco lhe dá conta
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a troca que faz do ritmo caribenho com o samba canção. Se a admiram que importância faz? Se tocam samba bolero rumba ou um tango de Gardel? Ela quer é dançar “e nada mais” como todos acabam de ouvir. Ela é assim Por que querê-la diferente? Sobretudo agora que a música chegou ao fim e todos vamos embora?

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A deusa da boate
Ela dança requebra saracoteia e balança. Na penumbra da boate impera qual deusa dona eterna do tempo e do infinito espaço sem limite por onde desliza corpo alma e vontade de ir e vir saracoteando, balançando e requebrando ao ritmo da dança. Enquanto isso nossos olhos fascinados se convertem em trono e altar para esta deusa entronizar. Mas ela está lá e eu aqui estou o quinto whisky a saborear. Por quê será?
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Noite criança
A noite é criança mas enquanto no bar se bebe e se canta a noite cresce o tempo passa e criança a noite deixa de ser. Lugar dos solitários mas enquanto se bebe se canta e se dança a noite os faz crianças pois só a solidão os faz crescer. Rola a noite, mas a criança a bola rola. E enquanto bola e noite rolam a boemia enrola a noite e acorda a criança que há dentro de nós. Rola a noite rola a criança mas parada fica diante do copo a esperança da madrugada que virá. O bolero toca o coração de quem canta e de quem ouve.
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Ao ritmo caribenho ele e ela abraçadinhos dançam “Ninguém é de ninguém” canta a cantora e o salão confirma pois solitário com solitário nenhum contrato à noite firma. “Amanhã é outro dia” todos repetem com o cantor à mesa Enquanto todos se agitam, no ar paira a pergunta: a noite é criança? mas a criança está dormindo e o boêmio esquece a hora de ir embora.

Canibalismo tropical
Ela é arisca e sedutora. Esbanja forma pernas, seios e brilhantes olhos – estrelas negras em noites de luar. Como suportar tanta exuberância de beleza fêmea e tanta vontade de sua carne devorar? Desejo tenho de lamber comer mastigar engolir sem pausa e sem fim. É o que sinto ao vê-la nesta penumbra do bar. Um dia voltarei aqui e lhe direi: – lembras de mim? Por ti corri ruas percorri estradas e vielas. Por ti

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subi e desci montes e serras. Por ti fiquei exausto de tanto desejar. Por ti me exauri na noite escura à espera do luar que nunca veio: – prato pronto pra sozinho te devorar.

Velhos companheiros velhos
Velhos companheiros depois de longos anos decorridos desde a infância, no bar se encontram. Um lembra o dia em que.. O outro, a noite, na qual... Quatro doses de whisky e ninguém se lembra do quê e da qual... Apenas que sempre foram e são velhos companheiros velhos. Mas o dia em que e a noite na qual como molduras aguardam os dois velhos companheiros para num quadro se postarem à mesma cena da mesa diante dos copos de whisky ora bebendo, ora pensativos e sempre a conversa em risadas arrematando. Assim passam a noite, passam o resto da vida para regularmente no mesmo antigo bar se encontrarem os velhos companheiros velhos.

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DEPOIS DO BAR I
Vem a noite e com ela a plenitude do pensar, a solidão que nos faz valorizar a Vida, sobretudo o Amor. Como diz o poeta: “Vem o tempo e a idéia do passado visitar-te (...) vem a recordação e te penetra (...)subitamente” (CDA – Versos à boca da noite)

Amor
Em homenagem à filósofa existencialista, Jeanne Delhomme, que o inspirou. Além da afirmação e da negação além do imediato-mediato sempre a transformar-se em incerteza e interrogação, além do sofrimento e de tantas preocupações a estreitar a vida e reduzir o humano à finitude de apenas ser além da liberdade de ser e não ser além da atenção ao agir além da loucura do sonho reside o amor. Voltado sobre si mesmo, rompe a eterna presença do tormento do pensar a insensatez da ausência que a lembrança leva e traz Alarga os parâmetros do viver na dilacerada manifestação do real e do irreal no limite do finito e desemboca na eternidade. Liberto das obrigações e dos mitos transcende a humana existência e desta se torna a própria razão de ser.

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Gramática do amor
a Lena amar se aprende amando (Drummond) amar verbo intransitivo (Mário de Andrade) Como todo amor nosso amor também é diferente. Fizemos dele “verbo intransitivo” e pronominal que se aprende por si só e só se conjuga na primeira pessoa do plural num tempo eternamente presente. Não nos preocupa modo concordância gênero número grau fonética morfologia sintaxe nem se nossos (pro) nomes Nossa gramática por não ter exceções não precisa de autor para a regular. Cada dia é nova descoberta nova aprendizagem nem carece publicar. Foi escrita a duas mãos embora nela só em mão única é permitido transitar... Em segredo estamos a cada dia inventando só p’ra nós dois outras formas de amar.

e nossos corpos estão colocados corretamente ou fora de lugar.

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Novas formas de poetamar
ama e faze tudo o que queres (Santo Agostinho) Amando se aprende a criar novas formas de poetar. Poetando se aprende a inventar novas formas de amar. Amando e poetando se descobre como se criam e se inventam novas formas de poetamar.

Amor impossível
Ay! Ese camino largo y distante no llega todavía a su final… (Terezinka Pereira – Nada se pierde) Viver com sua imagem só na mente, sem querer dela nunca se livrar, apenas conservar eternamente o brilho a marcar aquele olhar. É um tal de gostar e desejar um ao outro, mas sem se envolver, de querer cada vez mais se amar sem poder um ao outro se dizer. Beijar insaciável no escuro a boca que real já não existe. No fundo é um amor gostoso e puro, paixão que no silêncio inda insiste, solitária, em vencer tantas barreiras só impostas por leis e convenções. Vontade de cerrar muitas fileiras, mas se perde no pó das intenções. É um segredo guardado em sacrário: mistérios tão rezados com paixão percorrendo as contas dum rosário sem chegar ao gozoso da união. Um desejar de velho à donzela para cama levar sem convidar. Um depender do apelo simples dela sabendo que este nunca se dará. Nele não entra Eros nem Cupido.

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Nada tem de Romeu e Julieta. Grito a cortar a noite, mas contido como areia do tempo na ampulheta. Amor tão diferente de outros tantos, de se realizar não há esperança. Tortura sem causar dor; no entanto, deixa cravado o espinho da lembrança. Amor mudo, além de confessado incompreensível para o ser humano. Mesmo assim hoje como no passado diz a amada ao amado: eu te amo. Tudo nele e por ele é possível. Até o ritual do próprio amor. Menos ele, apesar de inconcebível entre racionais tal amor se impor. Impossível amor! Nem Shakespeare em todos seus poemas o cantou. Mas ele existe. Em terra ou no ar, só pode falar quem o exp´rimentou.

Sem ela
Percorro o cancioneiro popular. Nele encontro: Maria, Carolina Rosa, Lígia... até a doce Yolanda. E sinto o odor das flores das colinas. Tantas e tantas para se arrolar. Mas entre tantas ela não está. Nomes rolam na lista do guiatel ao dela parecidos ou iguais. Milhares com endereço se repetem. Às vezes penso não serem reais. Vejo-os como miríades no céu. Sem nada compreender... não vejo o dela. Mulheres cujos nomes hoje honram o país pela ficha ilibada, seja no setor público ou privado profissionais de vida celebrada em número a granel já se encontram. Mas entre tantas ela não está. No Guiness ou no Prêmio Nobel dezenas delas já se registraram pelo talento ou pelas descobertas. E sempre pelas obras que deixaram. Entre os nomes dignos do troféu, sem nada compreender...não vejo o dela. A sentença de Nietzsche me alertou: “Só acha quem parar de procurar” Foi o que fiz. Sustei toda pesquisa. Senti logo uma voz a sussurrar: – Mulheres!? Mais de mil já procurou, mas entre tantas ela não está.

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E prosseguiu em ritmo satânico: – A mulher que procura só em sonho encontrará. Me vi frente à aporia: Se todas que procuro em sonho ponho, como ela não está? Entrei em pânico. Ou paro de sonhar ou fico sem ela?

Olhos negros
“Sus dos ojos parecen Estrellas negras: Vuelan, brillan, palpitan, Relampaguean!” (José Marti – primeiro poema de Ismaelillo). Teus olhos negros, sob a moldura de teus cabelos negros, escurecem, cada vez mais, a negritude de minha solidão. Quero teu brilho de estrela negra em meu céu escuro carente do plenilúnio de teu olhar. Quero tua luz negra, a iluminar meu caminho de nuvens plúmbeas carregado. Olhos negros a envolver-me a mergulhar-me em mares negros em mares mortos de ondas soçobrantes de mim e de meu ser nas praias negras de negras areias de minha negra solidão.

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Se me deres tua alma
Se me deres teus olhos iluminarei a noite de meus sonhos. Se me deres tua boca clamarei aos céus contra a insensatez humana. Se me deres teus seios espalharei uberdade nas terras que meus pés pisarem. Se me deres teu corpo célula por célula transmudarei todo meu ser Mas se me deres tua alma subirei aos céus com saudade de teus olhos de tua boca de teus seios de todo o cheiro de tua existência única e sempiterna.

Detalhes
Se enumerar detalhes, detalhes deixam de ser. Mas de nós dois não só importam o geral e o comum. Importa muito mais todo teu ser que em detalhes se desfaz. E de todos aquele especial por ser detalhe teu, me satisfaz. Ele se encontra em cada parte de teu corpo, de teu ser: em teu rosto a cor de teus olhos, mais abaixo o rictus de teu sorriso, em teu peito a singular arte de teus seios ao se manifestar. Pulo o mais atraente e reservado para em especial deleite saborear. E me detenho, ao cabo, no belo torneado de teus pés. Mas o principal detalhe está neste quê a fugir do caçador: em te vendo assim tão detalhada sinto que estou te declarando sem rodeios e sem detalhes o mais profundo amor.

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Na mesma tecla
em homenagem aos separados e aos solitários I Tecla batida por uma vida em duas partida: uma nas brumas do tempo perdida outra qual fênix de cinzas renascida dois elos que clamam por nova fusão da corrente rompida. II Vivemos sempre batendo na mesma tecla sem sair do lugar. Distantes um do outro sem ultrapassar a barreira do mesmo som a densidade do mesmo tom. Ora o dó dó dó dó dó dó dó dó dó de ti tão sozinha dó de mim que vivo só. Ora o ré ré ré ré ré ré ré ré ré sem culpa quando culpa tenho eu
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de te deixar assim: eu sem ti e tu sem mim. Ora o mi mi mi mi mi mi mi mi mi de minha que foste e não és mais. Com tanto espaço não podem os dois ocupar o mesmo lugar? Por que será? Ora o fa fa fa fa fa fa fa fa fado meu fado teu fado tão fatal: Oh! minha fada tanta falta fazes em minha solidão. Não reclamo de ti reclamo da saudade da constante presença de tua ausência que só tormento traz. Ora o sol sol sol sol sol sol sol sol sol que iluminou felizes dias ainda estás a aquecer meu ser em busca de amor sem fim

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Ora o la la la la la la la la lá reinas soberana aqui padeço a lembrança de ti todinha a ocupar dias sem noite e noites sem luar. Ora o si si si si si si si si Si de sina. Sina cruel viver em dois lugares sem em nenhum estar. Mas, se me for dado o dom da ubiqüidade, não haverá mais lugar onde tu e eu não possamos sempre juntos estar. Nem haverá a monotonia da escala que vai e volta para repetir com insistência a mesma nota no teclado da vida para se deter naquela que só reflete esperança vã.

O datilógrafo
Ela se queixou que precisava de um datilógrafo, logo a mim que tanto a admirava. Deixe-me ser seu datilógrafo. Assim, ao menos sob o pretexto de copiar-lhe o texto ficarei a seu lado. Da máquina de escrever farei extensão de mim letra a letra por longo tempo cobrirei comum espaço. Olhos fechados (o bom datilógrafo não olha para o teclado) no écran de minhas retinas vejo fila imensa de candidatos... um a um, todos se vão; firme a esperar somente eu e você não vê. Por que será?... De repente dedos atentos olhos fixos em seus lábios estou a recolher cada palavra de seu dizer. Quero ser seu datilógrafo e em letra de forma
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gravar seu jeito gostoso de falar. A folha em branco recorda-me o “tanquam tabula rasa in qua nihil scriptum” a retratar a mente humana ao nascer. Tal qual a vida receberá as manchas que a identificarão quando crescer. Estas teclas não comprimidas ocultam coisa estranha (sinto que nelas mistério se entranha... ou será que é dentro de mim?) Deixe-me ser seu datilógrafo adoro ouvir seu nome e no papel gravá-lo lembra carinho e tudo que é caro lembra rir (e é tão lindo seu sorriso!) lembra também ninho paraíso... Veloz, vibrantemente quero escrevê-lo de uma só vez para não perder um só minuto de você.

Lentamente espaçadamente em letras em sílabas por inteiro como é gostoso digitar seu nome no teclado de meu sonho a cada toque recomponho seu gesto seu semblante seu jeito seu porte seu corpo inteiro: K.... doçura K.... ternura K.... segura K.... madura K.... mulher. No vai e vem deste cilindro com papel enrolado sem tabulador mais envolvido fico eu com medo de ir e K.... não vir. Mesmo assim quero datilografá-la a cada toque (como em lâmpada de Aladim) surgirá você a dizer-me inteligentemente
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(mente?...sei que não!) as coisas que careço ouvir... Ser seu datilógrafo copiar suas memórias escrever suas histórias transcrever o manifesto discurso ou simplesmente aquele que a latência do silêncio encerra e só sua leitura revela. Ao menos (o que é tudo) com dedos trêmulos reteclar seu nome: Primeira letra – com o “pai de todos” Segunda – com o “mindinho” de minha timidez Terceira – com o mais forte e da esquerda Quarta – novamente o decidido e protetor Última – com o vigoroso “indicador” e da direita. Kerida, deixe-me ser seu datilógrafo prometo cento e vinte toques de karinho por minuto.
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Rua do Ouro
Meu amor mora na Rua do Ouro no bairro da Serra em BH. Hoje ao chegar em “noite boa” em casa... ao abrir Pessoa como sempre costumo fazer eis o que me oferece a ler: “sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer, quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro. E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo e cá estamos de mãos dadas, (...) dançando o universo na alma” Fui tomado de espanto revelador. Afinal tinha acabado de chegar da Rua do Ouro, onde por longas (na verdade ligeiras) horas ficara a namorar. Corri ao papel e nele escrevi o que me pareceu de Pessoa a mensagem ditada para copiar: Se a Rua do Ouro não existisse de ouro a mandaria calçar só para nela o meu amor poder morar.

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Misteriosa ladeira a Rua do Ouro: se a subo não canso se a desço não ando... e ali estando na rua não penso (não me toca o ouro que seu nome contém só me comove o tesouro que a.....70 ostenta). Nesta rua não mora um anjo mora Thauma a deusa Admiração. Quando subo a Rua do Ouro não penso na rua não. Só numa dona de casa que a Rua do Ouro tem.
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Vizinhos entregadores carteiros transeuntes – desatentos – dizem a desconhecer. Seu nome oculta o verdadeiro de uma rainha deusa que veio do oceano ou do céu talvez do arco – íris para ali ficar. Se parado me encontrarem na Rua do Ouro saibam todos de propósito escolhi aquele lugar. Não parei por parar arrebatado fiquei janela iluminada a contemplar (coisas de amor!) Se um dia a Rua do Ouro de nome trocar (ao menos entre Bandeirantes e Muzambinho) garanto descobriram o segredo o mistério ali encerrado e em placa por certo estará: rua de Thauma entre a do Amor
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com Capricórnio e a da Admiração com Gêmeos. Esta a Rua do Ouro de que falava Pessoa – “onde tudo se sente e se está de mãos dadas dançando o universo na alma”. Se subo se desço não penso na rua não só em meu amor estarei a pensar! Acaso um dia esta rua for minha ninguém ali jamais poderá passar

Thauma
Thauma: – que nome e que mulher!

“não era mau genealogista quem disse que Íris – o mensageiro do céu – é filho de Thauma (Admiração, Maravilha)“ – (frase pronunciada por Sócrates) (Teeteto de Platão – Theiat. 1550) Voando juntos à procura de Thauma Thauma e eu. Mistério de viagem de inquirição enigma maior que o mundo: Thauma presente e Thauma se procura. Thauma – visão da Thauma real da Thauma mulher. Deusa Admiração filha do assombro irmã gêmea da duplicidade mãe de Íris – a mensageira da paz. Flecha da felicidade a varar-me o destino a penetrar o infinito do céu a imensidão do próprio pensar. No princípio era Thauma – a deusa

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e Thauma se fez mulher amor dentro de mim. Na fusão do bom – belo – admirável nos tornamos o arcano de três em um. Hoje ao contemplar-te com a luz de meu olhar prenhe de admiração te visto mulher. Tua força me prostra arrebatado a teus pés. Thauma te quero te desejo te adoro te amo thumaticamente Thauma – deusa – mulher.
Na mitologia grega, independente de Thauma ter sido o personagem masculino que casa com Electra, (o que vim a descobrir muito depois de ter escrito o poema acima), para todos efeitos continua para mim, a deusa ADMIRAÇÃO. Creio estar correto, pois o próprio Camões se refere a Íris não como filho mas como filha de Thauma (por ele chamada de Taumante), conforme se lê: ”Tal o fermoso esmalte se notava/Dos vestidos, olhados juntamente,/Qual aparece o arco rutilante/A bela ninfa, filha de Taumante”. (Lus.: 2, XCIX, 789 – 793)

Saudades de ti
Saudades de ti amor. De teu olhos com sua cor estranha que combinada com a castanha sempre impregna em seu brilho luz de sol em noite de luar Saudade do sorriso de teu olhar por si só formulador de frases inesperadas a ultrapassar o limite da inteligência vulgar. Saudade do rictus em teu rosto moreno a revelar-te inteira e a traduzir toda a sensibilidade de tua agudeza espiritual. Saudade de ti todinha teu jeito de ser de falar até de suspirar. Saudade de dias intensos de vida a dois. Saudade
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Afinal consta que os mitos antigos não tinham sexo.

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da troca da companhia do carinho repartido jamais dividido. Saudade de tudo por ti dito ou feito. Saudade do “oi” do “pode ser” do “bobinho”... Saudade até do “boa noite” invertido só para me desejar mais do que mero e convencional cumprimento noite peculiar. Saudade sobretudo do calor em tua boca da palavra amor.

Declaração de amor por e-mail
Declaração de amor por e-mail é tão virtual quanto o próprio meio em que se faz. É como beijo na boca separado por vidro. É como chupar bala sem tirar o papel. É como esperar que toda luz se acenda por si só. É como acreditar que promessa de político se cumprirá... É como brincar na vitrine da loja com o carrinho de corrida que lá dentro está... É como ver o nada escondido atrás do ícone do ser.

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Beijo roubado
Naquela noite te assustaste quando te beijei, sem pedir permissão. Volto hoje para devolver-te o beijo que roubei Receba-o como reparação pelo crime cometido. Se beijo devolvido é novo beijo roubado, de devolução em devolução vou tecendo infindável corrente que começa e só termina em incontrolável paixão.

Pura e dura
Ela é pura e dura. Pura quando diz: – sim! dura quando diz:– não! Dura porque nega dizer... pura se nada diz e sorri! Dura quando se fecha e não ri. Pura – em seu todo e sempre dura – de quando em vez. Dura por nada prometer em nunca se comprometer. Pura porque não sabe remeter... Dura no exigir pura na doação Enquanto dura pura não se corrompe. Enquanto pura dura até morrer. Pura na procura dura na recusa. No tempo dura no espaço pura. Dura no sofrer pura no viver. Mas... nem infinitamente pura nem dura eternamente apenas duramente pura e sempre puramente dura!

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Por trilhos e trilhas
Só para mim ela é assim... Por mais que me esforce por ser diferente ela continua assim! Amo-a porque ela é assim. Se um dia da trilha sair, sei que no terminal da ferrovia estará a esperar por mim simplesmente porque ela é assim! Por mais trilhos e trilhas que percorra, ela sempre estará no fim da mesma linha a me esperar. Porque ela é e sempre será assim.

Na Estação da Luz
Como lâmina O vento corta fundo esta estação de luz chamada. Parece surgido lá do fim do mundo em plena primavera a congelar o tempo e retirar de suas entranhas o adormecido inverno. Sem brilho o vento fica cinza como chumbo. Chumbo de bala a penetrar profundo o descampado de meu corpo aqui exposto já em sua essência nu. Nesta noite gelada posto-me na soleira deserta da estação à espera de outra luz: – aquela que eternamente me seduz. Em pé e solitário – rígida sentinela – sobre a fria plataforma aguardo o clarão da possante locomotiva a anunciar a esperada inesperadamente ausente passageira

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que jamais desembarca nesta estação tão escura pois de luz só o nome tem. Passa um trem outro passa...mais outro só não passa aquele que em seu leito traz a doçura de meu bem. Todos deslizam soturnos carregando multidões a seu destino. Somente eu estático aguardo balbuciando o nome daquela que não vem. Qual Prometeu tiritando fico eu. Ele na “rude penedia” eu numa estação cujo nome não lhe convém. Ele devorado pelo abutre da vingança Eu – oh! triste ironia – pela pomba que de esperança o nome tem.

Por seguir teus passos
Por seguir teus passos rompi todos os laços que me prendiam ao passado. Emaranhei-me em teus braços somei a meus problemas novos embaraços por seguir teus passos. Num cipoal pendurei ideais, desprezei conselhos. e da vida correta todos os rituais abandonei sem tergiversar jamais, por seguir teus passos. Entrei em noite escura e na madrugada, antes de o sol romper despejei na praia sonhos de construir vida nova e novas ilusões, tudo simplesmente por seguir teus passos.

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Fratura exposta
infinito enquanto dura (Vinicius de Moraes) Não foi cruel a nossa separação! Justo por não ter havido ofensas nem recíprocas acusações. Vinte e cinco anos de união “eterna” foram simplesmente a preparação para o último ato de repetida representação. Num só momento fizemos das bodas de nossas vidas a fratura exposta de longa ilusão.

A palavra é que magoa
Visto não ter ela vindo ao encontro marcado pedi-lhe perdão por não se ter lembrado como quem pensa com receio no comportamento alheio e nele vê o próprio esquecimento. Alívio senti por sermos todos iguais feitos do mesmo barro: mentir por acreditar que a verdade dói... e pensar: a palavra não o fato é que magoa!

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Shopping das paixões
Para Descartes seis são as paixões básicas da alma: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. Cada uma tem muitas outras expressões. Obsessivamente passeio toda semana pelo shopping das paixões “Brilhos rebrilhos vidrilhos” das vitrinas das lojas enaltecem cenários de peças jamais escritas. Só perplexidade provocam. Incontinente me pergunto: – o que sinto o que vejo é real ou ficção? Hoje diante do primeiro outdoor cenas dantescas despertam em mim espanto e estupor. Pelo hall do cinema em cartaz se estampa: “ódio mortal”. De repente Molejante corpo delgado em seminudez esculturado longos cabelos negros a serpentear-lhe o colo sobre par de torneadas pernas com dengo de cio meus olhos arrebata. E só desejo incita. Até a beleza do rosto
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e do esmeraldo olhar me dispensa contemplar. Ainda a saborear a alegria do prazer, eis que surge antigo amor dos “tempos que não voltam mais”... Mas o espantalho de sua decadência em frangalhos meu coração deixou. Perturbado olhos molhados de tristeza entrei na “praça das ilusões”. Pedi um chope para sofregamente a desilusão no copo afogar.

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O amargo de meus olhos
No amargo de meus olhos sinto o cheiro do sol e o branco som do luar. Vejo a prece do amanhecer a empurrar o dia pr’os braços do entardecer e juntos se precipitar no leito da noite à espera da volta que vem com doces melodias colorir o amargor de minhas retinas fatigadas como as de Drummond. Mas, ao receber o brilho. de teu sorriso o amargo de meus olhos se desfaz em esteira verde de imenso paraíso. Ao calor de tua presença cintila a vibração a percorrer todo meu corpo e ouço no concerto de minha amarga visão a cor do solo de tua voz. Luz e som se misturam quando riscam o espaço teus passos e teus braços correm ao encontro dos meus
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a suavizar o amargo de meu olhar. A gelatina do dia se desmancha quando abres os lábios para os meus em beijos devorar. Cumpres o destino da metáfora no conflito da esperança e do medo de ver e não ver de ir e não vir para preencher com tua presença o vazio da ausência que o amargo de meus olhos me faz sentir. Debato com a superação do desejo prisioneiro e torturado no peito trancado sem poder extravasar tanto amor escravo a bradar pela lei de alforria para todo o sempre o libertar.

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Noite de lua cheia
Enquanto a lua cheia banha a areia deitado no outeiro o coração lanceiro – cão faminto – lobo do cerrado bate clama late uiva. O halo branco do plenilúnio alveja todo o mar só não alveja este coração negreiro de escravizadas paixões que bate clama late uiva. O coração que está em mim o cão que está em mim o lobo que está em mim o escravo que está em mim bate late uiva clama Este coração incontrolado
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– relógio quebrado – ampulheta sem gargalo deixa o tempo disparar quando a noite é luar. Ninguém o nota ninguém o sabe. Só ela – a descer de seu lugar poderá o relógio consertar o tempo parar o lobo calar meu coração controlar

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Tempo perdido
Ela se foi. Aqui fiquei eu a recordar o tempo que perdi. Não fui com ela mas mesmo assim um dia voltarei para ver o que não vi. Já lhe dissera: – Estarei sempre voltando para ti. Na parede de seu quarto o quadro de Portinari, de Drummond os versos juntos ali pregados, quero vê-los, porque perdi tempo e não os vi. Mas confesso nada disso esqueci muito menos me arrependi. Na penumbra daquele aconchego não havia espaço para registrar tanto tempo que perdi.

Tempo: verbal ou real?
Num tempo sempre presente só somente só vivo a eternidade. Se vivia para te amar e hoje já não nos amamos é porque estávamos num passado tão imperfeito quanto nós. Um dia te encontrei e pela primeira vez senti que te amei. Mas não deste continuidade a nosso amor. O tempo passou e não voltou mais. Não adianta agora tentar. Este foi um pretérito de tempo acabado, embora entre nós dois o projeto fosse perfeito. Hoje ergo a cabeça e repito a mim mesmo: se o futuro a Deus pertence como diz a sabedoria, tudo que te disse e tudo que vem de ti secretamente esquecerei. Em público jamais o revelarei.

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Lugar comum
Amo o lugar comum – qual publica praça onde todo mundo se abraça. Onde todos se encontram para conversar e simplesmente amar. Amo o lugar comum porque é de todos está em todos e não está em lugar nenhum Amo o lugar comum pois nele me satisfaço. Nele encontro o espaço para as malquerenças apontar e o passado recordar. Amo o lugar comum pelos teóricos detestado. Por repeti-lo, sinto que me renovo a cada instante. No lugar comum desemboca todo meu ser. Quero o maior lugar comum: – o de amar sempre no mesmo comum lugar. Afinal fora do lugar comum só há o vazio deslo(u)cado sem começo e sem fim sem o ponto de encontro de nossas paralelas existenciais.
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Poema da espera
Aqui, ali, onde quer que estiver estarei sempre a te esperar. Passe o tempo e me assalte a eternidade de dias sem noites e de noites sem fim, estarei sempre a te esperar. Onde quer que o pensamento voe e de promessas a imaginação povoe não importa que espaço ocupe estarei perpetuamente a te esperar sempre no mesmo lugar.

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Mão – flor
minha mão ficou pequena como uma flor de açucena (Thiago de Mello) Cinco dedos cinco pétalas surges do gesto e em gesto te convertes. Vira sinal significado e significante. E em símbolo te estabeleces. Erguida és tudo. Abaixada és resignada. Escondida, mistério. Ostensiva, luz movimento e cor. Esta a mão-flor que admiro e beijo seja para me acariciar seja para me conduzir. Como gosto dessa mão de cinco pétalas a anteceder ao abraço e provocar o beijo. Mão-flor, perfume exalas e me deixas no silêncio da noite prenhe de atração. Vem mão – flor mão-anjo, mão-guia para entre suas irmãs pelo jardim de só desejos ao canteiro da poesia me levar, me seduzir me deitar e me cobrir.
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Trovas de amor
Ao amor fumante Na fumaça do cigarro penduro minha esperança de beijar-te em confiança de tossir sem ter pigarro. Ao amor complicado O amor só é problema para quem não sabe amar. Pra quem sabe é teorema bem fácil de demonstrar. Ao amor perdido Não me indagues pelo amor que há muito já perdi. Por acaso existe dor igual à que então senti?. Ao amor ausente Duro sofrer por amor mais duro, se amor não tem. Nada se compara à dor Que a solidão contém. Ao amor – decepção Amei-te apenas u’a noite. Foi como se a eternidade me golpeasse de açoite ao ver-te nua à claridade Ao amor vulgar Amor não é coisa vulgar. Vulgar é aquele que ama, sem ter a flamejante chama e ousa reclamar do par. Ao amor de mentira Sim, perigoso é amar fazendo da ilusão o jogo. É como brincar com fogo pr’o incêndio ter de apagar Ao amor sofredor Sofres tanto do mal de amor e em mim procuras o doutor?
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Mas como hei de te curar se sofro do mal de te amar? Ao amor à primeira vista Amor à primeira vista? – Certo quem isso inventou esqueceu de por na lista o cego que sempre amou Ao amor sem rima Amor não rima com saudade nem saudade com sofredor. No entanto só na eternidade há rima para amor sem dor Ao amor errante À noite, judeu errante, coração desesperado, sou eterno caminhante, por amar sem ser amado. Ao amor perigoso No jogo das emoções nenhum é mais perigoso do que o amor impetuoso a apunhalar corações Ao amor da alma penada Amei-te sempre com doçura. E em troca me deste apenas Um buquê azul de açucenas Posto em minha sepultura. Ao amor pagador de promessa Voltarei um dia p’ra ti p’ra cumprir aquela promessa! Juro que jamais me esqueci, de beijar-te com menos pressa. Ao amor passageiro Nesta vida tudo passa. Passa o tempo e a desventura. Passa...até a eterna graça dessa linda criatura!

Haicais de amor
À Iemanjá – nossa Afrodite Aquele altar-mor foi em alto mar erguido à deusa do amor. À Dalva de Oliveira Amei-a logo ao vê-la cantar. Na terra brilhou Dalva a nova estrela! À Lena Nunca hei de esquecer: aqueles olhos tão verdes marcaram meu ser. Essência do amor O cerne do amor só pode ser o ciúme de um amor sem dor. Paixão incontida Domar o infinito? Só a paixão incontida. Mesmo assim no grito. . Amor gaulês Chagrin et bonheur resume o amor francês (paixão há de ser!). Sina do poeta Cantar o amor é o destino do poeta ou do sonhador. Mulher amada É mulher amada. Não importa ser Amélia. Só se desprezada!...

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Mulher sincera Loura inteligente: avis rara! Não a quero. Quero a que não mente. Mulher ideal De dia é luar. À noite sob os lençóis sol a me queimar. Amores de outrora Amores passados irrompem pelo presente e lançam seus dardos. Louca paixão Ao vê-la tremi. Fogo a arder-me as entranhas foi o que senti. Amor erótico Levá-la pra cama, nela derreter meu corpo qual vela na chama. Amor – esperança Tenho-a na lembrança. De saudade hei de morrer: – sina da esperança! Amor multifacetado O amor tem mil caras. De todas elas só uma torna a vida rara. Amor impossível Amor impossível? É amar e não amar. Sei: inconcebível

DEPOIS DO BAR II
à noite já penetrada pela madrugada surge a hora de pensar em meu “eu e minhas circunstâncias”. – Reflexões, como apontava Drummond: “vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida, e seus pesares” (CDA – Remissão)

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Leitura sem fim
Leio sem saber se chego até o fim. Sem saber que estou lendo minha própria biografia minha vida retratada em páginas brancas manchadas de letras desconexas... letras sem sons sem métrica sem canções... Qual grafiteiro roubo a noite madrugada para as garatujar e embaraço a vista no desafio do deciframento de mim mesmo. Leio este livro por mim escrito rescrito relido e revisado vezes sem conta. Nele leio o destino traçado sem planejamento sem enredo sem trama. Leio sem as vantagens da escrita linear e com todas as desvantagens da leitura tortuosa... Leio leio
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leio sofregamente. As frases não têm ponto me obrigam a deslizar. Sem pausa, só no infinito vou parar. Meu pensamento voa desprendido do texto escrito qual foragido proscrito a embrenhar-se por aventuras entre nuvens à procura do Nada. Entre flocos concebido em trevas parido lá vai o meu pensar rolando na imensidão qual bolha de sabão a vagar vagar vagar.

Setenta anos
a estranha feli(z)(c)idade da velhice Fazer 70 anos não é simples. A vida exige, para o conseguirmos, perdas e perdas no íntimo do ser, como, em volta do ser, mil outras perdas. À sombra dos 70 anos, dois mineiros em silêncio se abraçam, conferindo a estranha felicidade da velhice. (Carlos Drummond de Andrade – Fazer setenta anos em Amar se aprende amando) Setenta anos faço hoje...quem diria!? Sim, estou a postos para mais esta “exigência da vida”. Sinceramente me sinto como noviço deslumbrado ao estar admitido na confraria da provecta idade. Concordo com Drummond (quem concordar não há de?!...): confiro hoje em mim a estranha feli(z)(c)idade da velhice. Olho no espelho vejo meu rosto mais uma vez diferente estampando a mesmice de mim.

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Parece até da vida mais um imposto no vidro posto a ser lembrado como saldo devedor! Vejo que até hoje ainda não paguei a infância truncada a juventude que se foi e a maturidade que mal comecei a usufruir. A luz bate sobre a imagem refletida e sobre o presente o passado reproduz. Quanta lembrança de dias idos e vividos nas dobras do destino escondidos ou guardados nos arcanos da saudade! Setenta anos parecem setenta dias... Repetirei o lugar comum: passaram depressa não me dei conta. Mas também por que tanta pressa, se meu tempo nunca teve onde chegar? Recordações constantes em imagens transformadas. Até parece a superação do eterno conflito do que foi contra o que é
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num jogo de perde/ganha visando a arrebatar o louro do que ainda resta de porvir. Nesta luta íntima me surpreendo com muito apego ao aqui/agora – ponto da tessitura do universo cantado em prosa e verso. Setenta anos não há segredo neste mister... Afinal não é receita de cura ou de culinária para se avinhar... Embora para tal feito precisei cozinhar muita dor muita espera muita ilusão sobretudo irrecuperáveis perdas. Algumas apenas “envolveram meu ser” outras qual lâmina o penetraram até a alma sangrar. Mas... no fundo: golpes a preencher vazios desta longa trajetória espácio-temporal.
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Setenta anos! Quebro o silêncio mineiro para comemorá-los com a alegria de quem se apresenta à festa que se faz. Rendo homenagem à Vida (sim! valeu ter vivido) ao Amor (síntese de todos os que tive e tenho) à Paz (sempre procurada e sempre alcançada) à Amizade (móvel e motivo de aqui juntos estarmos) particularmente à perene continuidade da Presença herdada e transmitida aos filhos e aos netos com fé em sua perpetuidade. É privilégio completar setenta anos – como negá-lo? Afinal o faço com permissão do próprio fluir do Tempo e com a gratidão de devedor entre credores queridos a sacramentar numa roda de corações mistérios à Idade reservados.

Sou livre?
Nasci no dia dois de janeiro de mil novecentos e trinta e um. Tenho pois setenta anos a mesma idade de todas as dúvidas de todas as incertezas que carrego dentro de meu ser. Setenta anos de problemas que suporto sem resolver metade sequer. Não sou livre de os ter nem sou livre de assim ser. A vida – eterna interrogação – nem a morte desvendar consegue... Quando nasci não era livre para ser o que sou: – homem brasileiro mineiro belorizontino vindo à luz na avenida Contorno quase esquina de Carangola de parteira dentro de casa como soia acontecer naquele tempo... E de ter vivido desde os dois anos órfão de pai
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moleque solto na Rua Diamantina ou pegando xistose nos brejos da Lagoinha. Tinha escolha? (mesmo se tivesse sei que gostaria de me repetir e de repetir quase tudo de novo). Não, não tinha como não tenho até hoje liberdade de ser. Aliás não tive nem tenho liberdade de existir. Apenas tenho liberdade de viver. Livre para viver comecei a escolher a decidir o que queria ser... Mistério profundo pros diabos: – não sou livre para ser nem para existir mas livre sou para querer ser o que bem quiser. Entenda quem puder!

Sina e perdição
Não sei se poeta sou Mas aqui estou escrevendo versos corretos ou tortos inteiros ou mancos, com presteza ou aos trancos com rima e sem rima, com resolução ou sem solução sendo ou não Raimundo no centro ou no fim do mundo escrevo versos. É minha sina e minha perdição. Não sou rei mas restos de alvas cãs sobre a calvície coroam minha cabeça e meu reino de tantos infortúnios herdados com outros tantos acumulados e transmitidos de ascendentes a descendentes. É minha sina e minha perdição.

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Não sou deus, mas sou criador: – vivo a inventar meu mundo interior e descobrir outros tantos mundos na falta de novos mundos e do que fazer. É minha sina e minha perdição. Penso que sei o que sou quando penso. Se assim penso é porque insisto que existo para interrogar por que tanto penso o que não sou de ser e ter de fazer o que não sei. É minha sina e minha perdição.

Legado
Soneto feito a partir de um verso do soneto “Rádio Pirata” do poeta Nathan de Castro Ferreira “Não tenho a sorte, nem sei de amuletos”. Apenas o destino me conduz para a escuridão de tantos guetos carentes de calor, de água e luz. Assim estou à cata de outros tetos, às costas carregando minha cruz. Quem sabe para os filhos e pr´os netos sorrirá a sorte onde os pés não pus? É o que espero. Não quero outra sina. Deixo a semeadura. No futuro possam com dignidade e segurança saborear o fruto já maduro. Por enquanto minh´alma peregrina só tem a lhes legar esta esperança.

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Penso, logo...
“Cogito ergo sum” Desculpe-me, velho Descartes, se penetro no seu cogito por favor meu pensar não descarte. Não existo porque penso. Se assim fosse só o homem neste mundo existiria. Mais ainda: só os que pensam existiriam. Desculpe-me velho mestre, pois ouso contradizê-lo: Se penso sem parar um minuto sequer é porque existo. Em síntese: existo, por isso penso. Nisto eu insisto: se parar de pensar, já não sou o que sou e deixarei de existir. Por outro lado, pensando bem dou-lhe razão: A prova de que existo é que penso. Mas de tanto pensar, diabo! me vejo num círculo sem saída. – Qual o correto: Penso, logo existo ou Existo, logo penso?
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E me pergunto atordoado: – Onde vou parar? Pendurado no pensar ou num galho da vida para continuar a viver e parar de pensar?

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Oração entrelaçada
Pai nosso, que estás no céu de Javé, de Alá, de Buda ou de Tupã, mãe nossa – preta, branca, loura ou morena, seja jovem, madura ou anciã que estás em casa sempre serena santificado, Pai, seja teu nome (este o capitalismo não consome) assim na terra como no céu. Inda que minha vida leve ao léu, honrado seja o teu, oh! mãe neste mundo tão carente de dignidade (nem parece o leito da humanidade). Pai nosso, bendito sejas pela criação e pela Natureza que inventaste para nos alegrar o viver. E bendita sejas por nos ter gerado, sustentado, criado e educado, oh! mãe generosa e boa (sei que não a elogio à toa). Pai, mãe,o pão nosso de cada dia que mata fome e gera energia nos daí hoje e todos os dias da vida, seja esta pequena ou engrandecida. Pai, perdoa-me as ofensas feitas aos irmãos que mandaste amar. Mãe, perdoa-me por tudo de errado e por todas as injustiças cometidas. Pai, mãe, os anos passaram. Cresci e de repente amadureci. Sei que um dia fiquei órfão. Será que foi só de ti, oh! mãe?

Feitura da vida
“o homem é formado pelas circunstâncias”,(...) (...) “é necessário formar as circunstâncias humanamente” (Marx) A vida não é feita de determinados atos nem de esperados fatos planejados e projetados. A vida é feita de circunstâncias, acidentes, e incidentes. Além de circunstâncias incidentes e acidentes, a vida é feitura de coincidências. Se queres viver a vida, aceita-a como ela é. A vida, além de ser feita de circunstâncias, acidentes, incidentes e coincidências, é feita também de sonhos e ilusões. Realizações acontecem. Mas realizações não fazem a vida. Acontecimentos são da vida, não a constroem.
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Só, por acaso, fazem a vida acontecer. O que, de fato, faz a vida acontecer é a utopia, a esperança de acontecer coincidências, circunstâncias acidentes incidentes que fazem a gente despertar de nosso sonho e ver a vida eternamente acontecer.

Seguro de vida
Preocupa não é a vida que vai e se esvai. É a morte que vem e não poupa ninguém A vida é exercício de bem morrer. Não seguremos a vida, em nome do querer viver. Agarrei-me à vida como quem se abraça ao poste diante da tormenta com ameaça de tudo varrer. Mas a vida flui veloz como o vento ou como as ondas do mar. Se tudo corre, se tudo passa, por que segurar o que vai e não volta mais? Mas... se volta sempre, insisto em perguntar: – por que segurar?

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O mal da vida
O mal da vida é esperar pela morte. O bem da morte é aguardar a vida para a sepultar. Mas a vida se finda sem a morte se regozijar. Assim entre o mal da vida e o bem da morte caminha a humanidade na esperança inútil de encontrar o bem da vida nos braços daquela que a sepultará.

A vida continua
Haja ou não transtornos haja ou não dores, sobretudo as do parto, ou mesmo a dos múltiplos sofrimentos... Haja o descontínuo no calculado contínuo do universo, haja tudo que a vã filosofia imagina... onde o verso e o verde vicejarem e o vermelho da dor permitir, a vida mesmo desbotada continua e para todo o sempre continuará.

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A vida passa
A vida passa que nem fumaça Assim no banco da praça sento para vê-la passar Com ela passa a linda donzela, o catador de papel, o atleta a correr, o mendigo a implorar, todos os apressados aos trancos e barrancos a esbarrar em quem parado está... Tudo passa até a própria imagem da desgraça passa. Quem não acredita que se poste ali no banco seja ou não exímio contador e faça a conta do que se passa na calçada ou do que se passa em sua cabeça a pensar sem parar. Sim a vida passa, e tudo se repassa e nada se perde.
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Inspirada em versos deste poema, Teresinka Pereira (presidente da IWA – International Writers and Artists Association – Ottawa Hills, OHIO – USA) fez o seguinte poema

Nada se pierde
La vida pasa y todo se repasa y nada se pierde (Délcio Vieira Salomon) Entre la luz de la luna y el brillo del sol nuestro grito galopa y se retiene en la memoria. ¿Quién sabe si en el tiempo no hemos marchado el mismo camino, de manos, acaso en la misma búsqueda de la ternura? ¿Quien sabe no fue en vano el amanecer en tierra ajena, las emociones disfrazadas en dolores, el cielo abierto en la tristeza, dejando atrás lágrimas silenciosas de nuestros viejos familiares? Al final de todo, repasamos el tiempo con gusto al presente, una añoranza de lo que no hemos vivido y la siempre incontinencia hacia el amor. Ay! Ese camino largo y distante no llega todavía a su final…
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No mapa da vida
No mapa da vida não descortinei saída bússola quebrada e enrolada na linha do equador sem norte, nem sul sem leste, nem oeste no equilíbrio entre a pena e a dor prestes a desmoronar diante de mim só encontrei descoordenadas existenciais. Sem trópicos nem paralelos, nem abaixo, nem acima comigo se irmanaram almas penadas tão perdidas quanto navegantes em naus sem rumo na falta de rotas a percorrer o universo mais desamparadas e mais emaranhadas que as intrincadas travessias de argonautas. por dédalos infernais. Este o mapa da vida a desafiar nascentes e moribundos no deciframento de abismos siderais.

Não maldigo a vida
Não, não maldigo a vida, muito menos a recrimino como “ iníqua sorte”. Nem reclamo de perdas ou de tropeços, nem hei de lamentar ingratidões, se sempre foi do ser chamado humano confundir devedor com agradecido... Há em mim um sentir muito mais forte: – ir em frente “sem lenço” e endereços, não parar pra rever algum engano ou se ficou pra trás já esquecido debaixo de papéis e intermitências o lembrete de novas incumbências. Ainda que até hoje não pareça, nasci etiquetado na cabeça: Fabr.:02. 01.1931 – Validade: 31.12. 2001 Já estou em dois zero zero seis!... (A indesejada errou mais esta vez?!) Sim bendigo a vida e o que ela me dá seja de bom ou mesmo de ruim. Se algum bem aos outros inda faço, alguém já o fez muito mais por mim e outros farão neste mesmo espaço. Por que chorar o mal e a desgraça, se nos foi dada a graça do sorriso como o melhor ingresso ao paraíso? Quando lá chegar, inda que iludido, ao abrir a porta para a eternidade, num misto de orgulho e de humildade abraçarei a saudade (de) ter vivido.

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Viver em paz
A vida é tão linda não merece ser manchada com rusgas e brigas. A vida é tão cheia não merece ser esvaziada por querenças mal resolvidas ou malquerenças a resolver. A vida é tão curta não merece ser abreviada pelo remorso de não termos vivido sempre em paz.

DEPOIS DO BAR III:
Na velhice o pensar na Vida está intimamente ligado ao da morte. Mas (pensamento positivo!), se esta precede àquela, segundo a chamada”lei de laboratório”, por que temêla?... Ou como cantava o poeta do “sentimento do mundo”: “tudo que define o ser terrestre (...) dá volta ao mundo e torna a se engolfar na estranha ordem geométrica de tudo e o absurdo original e seus enigmas” (CDA – A máquina do mundo)
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Entre a vida e a morte
– poema de entremeio – A noite é trágica (nela, além de espreita, traição, violência, assaltos, seqüestros, assassinatos sem conta se fazem). A tarde é cômica (todos desejam seu fim para em bares deixarem o riso solto entre as espumas da tradicional bebida). A manhã é épica (é nesta hora que ideais se cumprem, desafios se enfrentam, e para o trabalho todos se enfileiram). Mas o dia a tarde a noite a semana o mês o ano todo juntos erguem o palco da monumental aventura humana sem enredo traçado e sem a identidade da autoria registrada da tragédia da comédia da epopéia. Só faltam no meio da cena luz, som, direção, gestos para tudo recomeçar.

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La nave si va
“ navegar é preciso, viver não é preciso” (Fernando Pessoa) A nave se vai pelas ondas do mar balançando e arrastando a esperança de um dia chegar. Sem leme e sem rumo a nave se vai pelas ondas do mar. Perdida saracoteia pra cá saracoteia pra lá nas ondas do mar. Em seu bojo carrega a promessa de um dia voltar. Neste oceano de enganos e desenganos minha vida é como a nave sacudida pelas ondas do mar. Não sou navegador apenas passageiro da nave solta no mar. O destino me conduz
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pr’a um porto sem luz Não importa saber onde vou me deter. Nem importa viver se minha vida é como nave sem rumo nas ondas do mar. Nem o leme assumo. “Importa navegar”.

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De senectute
Cícero, meu sábio e meu filósofo tão subestimado entre os defensores da modernidade, te leio com ternura e comovido estou. Cheguei à velhice como quem chega ao porto pronto para partir. Não sei se feliz ou infelizmente. Apesar de decidido, sinto-me desarmado e sem bagagem, sem treino, nem preparação para fazer a grande viagem. Apenas com a consciência e o espírito em paz. Por isso me pergunto: – ficar ou partir? – que diferença faz? Cheguei e procurei na penumbra do tempo alguém para me orientar ou talvez para dele me despedir... Só sombras encontrei.

A incumbência da partida era uma só: – ao me encontrar do lado de lá confirmar se a busca da Verdade cessa naquele limiar. Senti-me pela última vez como o títere do destino. E compreendi como nunca que dentro do Universo todos nós somos, num anacoluto existencial, sem predicado e sem complemento, os sujeitos do Acaso. Esta a sabedoria que ressoa em toda a plenitude nessa imensidão diante da finitude do Ser que se esgota no angustiante fluir do Nada. Adeus mundo de ilusões. vou partir como degredado para paragens estranhas sem saber se vivi apenas para lá chegar.

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Saudade
Em homenagem ao “poeta da saudade” – Da Costa e Silva (23/11/1885 – 25/06/1950), casado com minha tia Alice. Nem pungir de acerbo espinho nem palavra triste carregada de sofrimento nem asa de dor do Pensamento nem gemidos vãos de canavial ao vento nem a corrente do rio qual velho monge as barbas brancas alongando alongando... muito menos pedacinho colorido de papel. Apenas o perfume de cabelos soltos a impregnar o ar Está escrita em linhas etéreas foge do sol e pinta ao luar a imagem na mente transcrita que o vento leva traz e desfaz.

Suave aboio lamento de montanha pranto de nuvens frio e quente amargo e doce com ternura a misturar dia com noite no mesmo lugar. Prenhe de lembrança sentimento que passa um deixa pra lá sempre a voltar. Saudade quando começo a cismar sinto a indefinida presença daquela ausência que me pega me pega me pega para nunca mais largar.

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Tempo sem relógio
Meu tempo não tem relógio. Se contenta com mera ampulheta a peneirar cristais de eternidade Em dança macabra os ponteiros rodam sem parar a perder a noção do espaço Com louco abraço agarram o ininterrupto fluir sem pausa das estações Complicada surge após o inverno a murcha primavera. E sem outono brota o verão. Hoje a noite é lua cheia. Amanhã o céu é fechado nem estrelas tem para brilhar. Sensação estranha irrompe na madrugada. Mais estranho surge novo dia sem sol e com peregrinas nuvens a noite sem luar Quero de mim lágrimas de sol a contemplar o dengo da lua em seu pálio soberano e casto Quero noites sem manhãs e manhãs sem entardecer e ao meio dia simplesmente noites. Sem nunca amanhecer quero a luz de teu corpo nu e prenhado ao meu.
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Sem retoque, nem maquiagem, apenas com o sabor do mar a derramar na praia suor e sal. Assim meu tempo sem relógio sem ponteiro e numerais mergulhará em oceanos incontrolados À espera de outros tempos que virão sem relógio e marcadores com promessas de nunca atrasar.

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Solidão e poesia
Soneto feito a partir do último verso do soneto de Lilian Maial “Para dizer não à saudade” “Trocar a solidão por poesia”, Lílian, não é a sina de quem ama? Se tal não fosse, oh! não haveria quem nunca se queimou em sua chama. Será que hoje há quem aos céus clama e nega à solidão e à fantasia o bem de meditar e inda reclama do silêncio que torna a noite fria? Lílian, sinceramente não acredito tenha alguém pensado ou mesmo dito tamanha insensatez de não trocar o estar só por um verso lá escrito mesmo que ele depois seja proscrito por não poder sozinho o amor cantar.

Simplesmente isto
a José Renato em † 19.11.99 amigo há 30 anos dos 54 que viveu Amigo, foste hoje e para sempre e não me avisaste! Esqueceste do compromisso selado apesar da farsa nele embutida – legítimo pacto de sangue dissimulado. Cobro-o agora como dívida intransferida: – quero saber como se dá a passagem do ser para o nada... de tua alegria... tua risada cujo eco nos deixaste para a mudez a que foste eternamente condenado de tua inquietude sem dúvida tua grande virtude marcada de projetos de vida e realizações para o repentino silêncio em que repousas agora... – É verdade que o tempo desemboca na eternidade pela porta da morte? Não me respondes? então é como em vida: – se calas, consentes!? Perdoa-me a confissão:

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Invejo-te por aqui não estares mais. Sei que é duro dizer porém mais duro é suportar este momento sem o declarar: – invejo a todos os mortos são superiores a todos nós! Só a eles foi revelado o mistério da vida. Nós neste vale de tormento apenas somos interrogações. É terrível sei disso mas foi Antero de Quental (que por ironia se matou junto ao muro de um convento chamado Esperança) quem o disse: “dormirei no teu seio inalterável... ó morte, libertadora inviolável!” Amigo, se o tempo ainda existe para ti volta apenas para dizer-me: – sim simplesmente isto.

Vida sem presente
Lembrando Luiz Bicalho († 15.09.94), amigo e irmão de crença no mesmo ideal socialista Quando ele morreu o presente sumiu. Ficou só o passado a recordar bons tempos com ele vividos. Com ele projetamos o futuro. Mas como o presente o novo tempo se ocultou atrás de egoístas nuvens que o guardam para si. Ainda espero que as nuvens passem e qual sol ele volte a brilhar nossos dias. Se não passarem que se avolumem em plúmbeo negror e se convertam em água de grossa chuva para que caiam sobre nossas cabeças as bênçãos de sua eterna lembrança.

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APÊNDICE
Na solidão da noite brota o desejo de remexer o passado – as lembranças que em “versos entre guardados se guardaram”. Afinal: Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido (...) (CDA – Memória – Claro Enigma)

A porta se abriu
São João del Rey, 12/11/50 A porta se fechou. Suspirei e parti. – Adeus colégio interno! – foi este meu brado. Finalmente (pensei) ficarei sossegado E pra sempre serei livre também de ti. A porta se fechou... sim...bem que eu o senti O coração bateu... nele estava trancado Um mundo de rancor, de ódio acumulado De revolta e desdém enclausurado ali! Qual avaro lancei as chaves ao destino. Abri-lo? Que jamais tivesse o desatino. Assim aconteceu. O voto se cumpriu. Até que um dia...adulto e em silêncio grave Lendo da vida o livro, entre as laudas u’a chave Achei. A luz brilhou...a porta então se abriu.

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A Olavo Bilac
São João del Rey, 25/11/1950 – feito no dia em que descobri que seu nome era um alexandrino perfeito – Poeta e solitário ouvia estrelas, mas o fazia sem jamais perder o senso. A pureza da língua mesmo nas novelas cultivava co´ amor e com desvelo intenso. Á Pátria dedicou hinos como as mais belas canções, sem olvidar o repertório imenso consagrado às crianças e à inocência delas, apesar de viver constantemente tenso. À glória do Parnaso, jovem, foi alçado: Príncipe dos poetas logo proclamado. Em tudo que abraçou fulgurou com destaque. Seu nome há de ser sempre reverenciado e com exaltação sempre pronunciado: Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac

Reforma do mundo
(tradução demasiadamente livre do WISHING de Ella Wheeler Wilcox) São João del Rey, 5.12..50 Queres que o mundo seja melhor? – Escuta então o que cumpre fazer: Põe um relógio em tuas ações! Que possam nele sempre correr Mas sem atraso e acelerações Os mostradores da retidão. Livra a mente de tantos motivos Pessoais, fúteis e subjetivos. Os pensamentos teus sejam puros Por sobre a terra sempre a pairar. Um pequeno Éden podes tornar Deste topos que estás a ocupar. Queres que o mundo seja mais sábio? Bem, crê que deves ser o primeiro A acumular a sabedoria Com afã, com denodo e esmero No álbum arcano que deveria Sempre estar dentro do coração. Não destruas jamais por loucura Uma página ou rara figura. Vive amiúde a folheá-lo Porém folheia-o pra viver. Desejas tu homens de saber? Ah! Sê tal antes de isso querer. Queres que o mundo seja feliz? Então tome a missão de espalhar

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Sem fim sementes de caridade. Esses grãos hão de desabrochar Em floração de felicidade Por qualquer terra que os acolher. A alegria de não pouca gente Em um só tem talvez a semente. Daquilo que hoje é pequena drupa A manhã carvalho há de sair. Bendita a mão que em terra a encobrir Multidões susterá no porvir.

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