À sombra do medo e da insanidade — considerações sobre O estranho no corredor de Chico Lopes

William Lial

Nos dias de hoje a felicidade e suas receitas estão por todos os lados. Sermos felizes é a palavra de ordem. Comerciais de creme dental, de cervejas, companhias turísticas, um simples perfume ou sabonete, tudo é alegria, sorrisos e luz. Mas imagine o contrário de tudo isso. Imagine sombras. Esqueça todos os delírios de felicidade comercial inominável e visualize um quadro de meios-sorrisos, de olhos suspeitos, de palhaços tristes com suas bocas de cantos derrotados, envergados, invertidos para o chão como uma ferradura de ponta cabeça. Pronto, está diante dos infelizes de O estranho no corredor, o mais recente livro de Chico Lopes, lançado em 2011, que o colocou entre os dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, na categoria autor estreante, e terceiro lugar no prestigiado prêmio Jabuti, também de 2012. A novela O estranho no corredor é pouco afeita aos modelos de Best Sellers que se propagam pelo front das prateleiras de exibição nas livrarias de hoje. Não apresenta ensinamentos para melhor viver e não se pretende manual de sobrevivência ou sucesso. Seu texto é duro e nos leva a conhecer um mundo degradante e feio que assistimos através dos olhos e da mente do narrador e do protagonista. Seus personagens assemelham-se aos heróis dos romances do século XIX, descritos por Ference Fehér no seu ensaio O romance está morrendo?, quando este afirma que, em oposição aos romances do idealismo abstrato, de antes, como Dom Quixote, estes personagens

não partem para a ativa correção do mundo, limitam-se a sofrer em decorrência do fato de que a alma deles é mais ampla do que os destinos que o mundo pode lhes oferecer. Perde-se, então toda e qualquer simbolização épica, a forma se dissolve em uma sucessão nebulosa de estados d’alma, a fábula cede lugar à análise psicológica (1997, p. 12-13).

Sabendo disso, posso dizer que temos um livro sombrio a nossa frente. Poucas luzes, caras soturnas, ambiente viciado pelo decrépito das personalidades vacilantes ou indecorosamente sofridas, perdidas e falidas dos homens e mulheres que se movem pelo livro como vagantes perscrutadores e infelizes. Sua narrativa possui um andamento lento, moroso e que pode ser comparada a uma passagem do texto descrita pelo protagonista, quando este relata o movimento de

assim como na descrição do prédio que fica de frente à escola onde trabalha como professor. silencioso. O protagonista é tão destituído de atrativos e de vigor humano que nem sequer possui nome. 46)1. sendo vasto na cidade grande.um ônibus que toma após uma noite de sexo insosso. desajustado com o mundo. ―microscópica‖. ao olhá-lo. ―nulidade‖ e ―suprimindo-se‖. E os arredores são densos. nada era. ―invisível‖. o peso das descrições dá o tom da feiura e decrepitude de tudo. Se observarmos as palavras na citação acima. solitário. veremos que ―sorrateira‖. e assim é a narrativa. Para piorar seu estado. com seus personagens obscenos e tão medíocres quanto ele. grifo meu). apenas mais um. 20. a mãe morreu louca. ou seja. sua vida por intermédio do narrador onipresente e onisciente. mas não sabemos seu nome. 28. 2011. das construções frasais e da forma usada pelo autor. contendo ―infelizes trêmulos a segurar receitas médicas ou carteirinhas de convênio‖ nos seus ―corredores mofados. microscópica. o protagonista se esconde nas sombras que aclimatam todo o livro. perante esse quadro de nulidade. 21). estranho a tudo. Seu histórico familiar já denota parte de seus complexos: o pai era alcoólatra e farrista. Além disso. enquanto esse mundo ao seu redor o reprime. escreve em seu diário suas impressões do mundo e do que vive. amargo e apagado. desse homem sem nome. E dele trata o enredo. e nada especial. como um esquife macio. escolhidas para descrever o intento do protagonista de invisibilidade social. bem conhecidos de ratos e baratas‖ (p. entendiam ―que ele nada oferecia. nessa nova vida para ser a coisa mais sorrateira. suprimindo-se. p. Sufocado pelo medo. escuros. O ônibus era ―deslizante. grifo meu). como fica claro nas palavras do próprio narrador que parece repetir os pensamentos do personagem sobre si mesmo: ―Tinha se esforçado. Conhecemos seus pensamentos. acreditava que os outros. não merecendo mais que o olhar casual e de passagem que se dá a um pé-rapado esmagado em atropelamento de esquina‖ (p. comprido. é aspirante a escritor. correria menos riscos em meio a esses desconhecidos todos‖ (p. um ser ―jamais impositivo‖. ―cinzento nunca purificado pela chuva insistente‖ (p. Mas essa lentidão externa choca-se com a constante tensão na cabeça do próprio protagonista. . de onde veio. invisível que pudesse – sendo uma nulidade. 21). Como se pode perceber. dão a noção exata de sua forma escolhida para viver entre os outros. vindo do interior e vivendo como professor de inglês na cidade grande. e mesquinho na cidade pequena. Contudo. ambientados pela escolha profícua das palavras. para o fundo da noite‖ (LOPES.

e especificamente abordando um personagem. seus medos e anseios. como Edgar Morin. sorrateiro. muitas vezes demonstra-se distante de si mesmo. assim como ocorre na cena sobre a escrita no caderno que citei acima. mas intimamente ligada a este pelas obsessões que gera e exterioriza em suas atitudes. abre os olhos.acredita-se perseguido por alguém que só ele vê e que não sabe de onde vem nem por que o persegue. sobre o qual seu controle era duvidoso: com frequência escrevia mais do que pretendia. o que nos auxilia a penetrar cada vez mais na mente e na personalidade . para quem o duplo tem um papel importante na Literatura devido ao ―caráter próprio da arte. já abordado por tantos autores. e sim. pressentia funestas (p. para a proximidade. porque buscava ir mais longe e mais fundo nos seus sentimentos. o protagonista vive uma possível perseguição – sobre a qual já me referi anteriormente. primeira. Um momento no qual a velha questão do outro na Literatura se manifesta. sua outra metade que quer se revelar ou que está simplesmente abafada pela personalidade majoritária. E essa perseguição o acompanha por todo o livro. por vezes. E esse homem misterioso que o persegue. assemelha-se a uma trama de mistério e aos suspenses de Kafka e dos filmes noir. expondo com mais profundidade as muitas faces de um personagem. enveredava pelo que não queria – alguém dentro dele. que é um ópio que não faz adormecer. pegava-lhe a mão e o levava para outro caminho. mais corajoso do que ele. p. 175). como na manhã em que se levanta e olha desconfiado para seu caderno de memórias: Levantou-se olhando o caderno de memórias à distância. pesquisadores e escritores. em desacordo com as ideias que queria claras. desconhecendo-se ou lutando contra seus próprios impulsos de libertação. bloqueando atitudes. desconfiado como se fosse algo independente. causa medo pelo que poderia encontrar e revelar. o corpo. Esse outro. O mito do duplo. Esse outro que escreve contra a vontade do protagonista não soa apenas como uma simples questão de identidade. para a iminência de revelações que sentia. o coração para a realidade do homem e do mundo‖ (1997. 34). Em meio a isso. negação contra revelações que não queria. o duplo pode ser muito revelador. somado a tensão diária sofrida. negando-se a ir além. fora do mundo real. realidade que o protagonista de Chico Lopes não quer ver. dão movimento ao texto que. mas de negação. Na Literatura. Isso tudo o leva a ter uma vida intensamente agitada em sua cabeça. Sufocado por essa pressão de viver.

o dono do bar. nem solução: é uma soma monótona e interminável‖ (2002. como a de Russo. o baixo nos outros. em A náusea. sua visão de mundo é sempre negativa e destrutiva. o protagonista está sempre pronto a ver o mal. o narrador.desse protagonista. constantemente se compara aos que o rodeiam. do suposto perseguidor. o que faz dessas palavras. monotonia apenas quebrada. não nos dá outra ideia dos outros homens e mulheres que permeiam o livro. Oprimido também por elas. não vem à luz. Corroborando para essa sua visão do mundo. Os cenários mudam. dos discursos na narrativa. amoral. O baixar da porta é narrado à semelhança de uma agressão pessoal. silenciosa e perscrutadora de Cruz. sobre o homem que insiste em não ver qualquer lado bom noutro: ―Quem não quer ver o que há de elevado num homem. e quanto mais denigre a imagem dos personagens a sua volta. reflexo exato do clima do livro e do mundo vivido pelo personagem principal. da sofreguidão. Em suas ruminações. primeiro sua tia. como no momento em que se descreve o baixar de uma porta de uma cafeteria. de Sartre: ―Quando se vive. olha tanto mais agudamente para o que nele é baixo e superficial – e com isso se revela‖ (1992. da tortura psicológica. nada acontece. mais deixa transparecer a nós. depois a dona da pensão. sempre melhor e maior do que a sua. no caso do livro que ora comento. e tudo o que temos é um passar de gente amoral e problemática. 188). as pessoas entram e saem. semelhante ao protagonista. sem rima. o protagonista sempre se encontra sob a asa de uma mulher dominadora. para onde o protagonista fugia. p. o que pode ser o motivo de sua personalidade fraca. Diante dessas relações. e à masculinidade deles. que se comporta como uma sombra ao fundo. profundamente marcantes e definidoras de quem é o protagonista e em que mundo ele vive. tem o peso do medo. p. o que pode estar mais perto do mundo descrito por Antoine Roquentin. 66). eis tudo. porém. senão vejamos: ―a morena do caixa lhe atirou um olhar de desprezo e impaciência. daí a . sempre reafirmada com palavras de peso contra si mesmo. pela mente delirante do protagonista. pela sua voz ou pela do narrador. frase ou sentença sobre o protagonista. em Além do bem e do mal. Se observarmos mais atentamente veremos que quase toda palavra. sob a observação também soturna. homem espaçoso. é observado e julgado. Poderíamos ver nisso um exemplo do que diz Nietzsche. Seu lado elevado. mais uma vez. senão a de seres que também nada têm de realmente bom a oferecer. com quem o protagonista sempre conversa. os dias se sucedem aos dias. como sugeria Nietzsche. onde mora na cidade grande. sua própria face fracassada. Nunca há começos. grande e forte. leitores.

culta. sem rumo. uma implacável decisão do Obscuro de fazê-lo prisioneiro de certas visões. quantas advertências. quantos medos. grifo meu). talhados para o sucesso e a sedução. a vida farta. apesar das ameaças no ar. mas oprimida pelo marido. que vida a dela!‖ (p. ―a velha com sua mania de chorar‖ (p. o casarão. Há ainda dona Graça. 24). ―uma predestinação. Cassandra é uma mulher rica. 8) e um filho que a abandonara. na casa da sua tia. O . com o crucifixo. no bar do Cruz. e a tia Ema. diante Russo. Mas não só ele é desprovido de nobreza na narrativa. Mas o medo e o peso das palavras também estão fora das pessoas. as portas eram baixadas com um rangido que parecia a mais enfática ordem de expulsão‖ (p. a cômoda e o guarda-roupa. vivendo de restos e biscates. porque julga inferiores como ele os que estão a sua volta. porque eram dele o dinheiro. um momento no qual demonstra toda a sua amargura e frustração pelos que são mais fortes e arrogantes o bastante para passar por cima dos outros: Sentia-me à vontade. 21. A loura proprietária da escola onde trabalha é descrita como uma bela mulher. sempre cheia de cuidados exagerados e receios absurdos. ainda referindo-se à perseguição que sofria: ―tinham-no detectado. 22). 19). não supertava ver homens fortes. na hora do acerto de seu ordenado‖ (p. inseto de uma espécie diferente‖ (p. porém possui ―uma meiga sovinice todo fim de mês. mas a simples presença do velho era para ela uma lembrança viva da dependência triste em que vivia (p. 87). porque a insignificância social do sujeito e do lugar era um consolo.pouco. ou quando se vê confortável. de uma fixidez e de uma familiaridade nem por isso menos enigmática‖ (p. de lugares imutáveis. todos ao seu redor o são por motivos semelhantes. como ele mesmo descreve. como ele mesmo declara: ―Deus. 68). claro. o que ela suportava. As palavras pesam também quando se compara a um inseto. que poderia aparecer a qualquer momento nas suas reuniões chiques e estragar tudo com suas grosserias de homem bruto e nada educado. 80). e os colegas Perdoavam. até onde essa palavra cabe-lhe. de traços naturalistas. Russo. altos. obviamente à vontade no mundo injusto e abrindo caminho como se a potência lhes fosse um direito natural e displicente (p. estão no que cerca o ―herói‖. compositor fracassado. no seu quarto. repleta de livros e quadros famosos que adquirira.

como se vê nessa minuciosa descrição: o filho [Jesus morto no andor] o incomodava pela cruz. nenhum riso. de repente. sentia necessário mortificar-se. ajudada por alguns – mas. que apertava a vela erguida e se esforçava para não bater os olhos de novo no andor e ver aquele corpo nu para o qual nunca se chorava o bastante. professora de um dos dois grupos escolares – bem garantia que não havia dor maior que aquela. Como na festa. ―porque era severo demais consigo mesmo. toda a expiação. 98). as cenas e seus integrantes são sempre detalhadamente apresentados. no andor. e por isso. salva pelo martírio (p. e não para o Senhor Morto. o suplício. a submissão. na festa e na passagem anterior. por aquele suplício que seguiria sendo cobrado em submissão e dor indefinidamente. amargar-se ao extremo para forçar seu Destino a revelar-se‖. monótona. A cantora parece cantar para ele. parecendo cantar só para ele. enquanto outros celebravam a bela noite. tudo em sua vida parece sórdido e insosso. tentava apagar as chamas com tapas. desprovido de qualquer qualidade. ele via ―a cidade. que alguém queimava o cabelo de uma das acompanhantes e que esta. numa bela noite estrelada. Morto. o coitado merecedor de lamentos. um personagem importante para a própria compreensão das características do protagonista e da inferioridade deste frente a ele. Se ela morresse queimada. pelas feridas. onde ele é sempre o centro. tantos envolvidos. que gravidade. e ela. que ternura. a partir dos cabelos. assim como para . desde que isto represente alta relevância para nos levar à maior compreensão do texto e envolvimento com este. ele que não fizera nada. que não matara ninguém. para o qual toda a culpa. cada parte do mundo é sempre suja pelo seu temperamento. era pouca. muito plana. Viu. como quando está de vota a sua cidade. do Senhor Morto. Dessa forma. a dor. como se comparasse a sua existência ímpia a do Cristo martirizado. Esses detalhes todos. tantas carpideiras. Tudo o que ele vê na procissão são a cruz. em plena festa. ajudamnos a entrar na mente do protagonista e a exemplificar um traço importante na narrativa: a minúcia das descrições. grifo do autor). outra. esboçada como uma desolação. seguindo a tia. 84. Era de fato um enterro.peso está no Senhor Morto da procissão da Sexta-Feira da Paixão. Essas descrições estão por todo o texto. que peso para todos! – nunca uma morte com tantos ecos. num retrato de seu mundo pequeno. tantas elegias. as feridas. um fardo mórbido e deprimente. e ainda assim consegue ver algo negativo ali. não havia comicidade alguma nas fileiras. as velas seguradas com invólucro de papel impermeável vislumbrava. aquele corpo do Senhor Morto. E guardava uma impressão de terror das procissões de Sexta-Feira da Paixão quando. que ia cabisbaixo. tudo na sua descrição da cena tem um papel importante na significação do martírio. virar pedacinho de carvão em glória – uma alma. era o lugar para morrer. sem maiores atrativos‖ (p. como no caso da descrição de Russo. a Verônica – a conhecida soprano Iraíde. desesperada. ao invés de se soltar e aproveitar.

ou seja. A voz do narrador onisciente confunde-se sempre com a voz do próprio protagonista. quase mudos. nem todos os personagens são manifestados da mesma forma profunda. Assim. repleto de flashbacks. sempre com preguiça ou um pouco dopado. [. roupas engorduradas. são quase independentes. os pensamentos deste invadem a narrativa a todo momento sem aviso de distinção de voz. Os olhos eram miúdos e desconfiados. Russo é descrito de forma minuciosa e pouco favorável: Russo tinha as unhas sujas. o parágrafo seguinte quase nunca é a continuação do anterior. colocando-nos na posição de espreita. mudando de assunto. não mais. Forma que se assemelha a uma digressão do texto no próprio texto. entre narrador e personagem. Outro ponto que se deve notar no texto e que auxilia na forma de manter a agilidade e o clima de constante tensão e confusão psicológica são os parágrafos entrecortados — semelhantes aos pensamentos atropelados do protagonista — que. e até mesmo de época. Umas mechas de cabelos brancos (p.. de tempos diferentes que cortam a . há algo mais. Do protagonista vêm todas as informações do mundo ao redor. de ideias sobrepostas. mas agradável. 13-14). em discurso indireto livre mesclado ao direto. para somente mais à frente voltar a narrar o que antes se narrava. conhecidos por nós apenas pelo que nos diz o personagem principal e o narrador. deixando-nos ver o seu mundo pelos seus olhos e pela sua mente. além da construção frasal e da escolha dos termos e palavras que contribui para o ar de distúrbio no texto: a forma da narrativa e do tempo não linear. quanto aos outros. e eles mesmos não nos descrevem nada de si. o narrador nos fala pouco. capaz de caretas elaboradas. Entretanto. sempre próximo. limpando as orelhas com palitos de fósforo. Porém. digressão de eventos. No mais. indo e voltando no tempo. Isso dá versatilidade ao texto e contribui para o efeito de atropelo de pensamentos. dava uma impressão de complacência beatífica. num fluxo de consciência que nos coloca dentro da mente do protagonista.]. nenhuma preocupação com trabalho definido.ilustrar a qualidade dos demais personagens que compõem o quadro de miséria moral que reside no mundo retratado. acompanhando tudo de perto. como se o narrador exteriorizasse tudo o que se passa na cabeça de seu ―herói‖. sempre acordando tarde para aparecer no bar com a cara recém-lavada e seu cigarro na boca. muitas vezes.. buscando todo e qualquer movimento significativo ao redor com uma malícia e uma experiência a que não faltava um profundo fatalismo. Um rosto mais para quadrado. são coadjuvantes de pouca voz.

uma multiplicação do tempo no interior da obra. Se ele nunca nos surpreende. a economia de tempo é uma coisa boa. p. [. Recebemos uma informação do passado ou de outro momento para nos interar de algo ainda não exposto. com uma grande vida interior e uma mente aflitiva. 59).. uma fuga permanente. mas também para retardar nossa chegada ao desfecho da saga. portanto. Forster diz que ―o teste de um personagem redondo é se ele é capaz de nos surpreender de maneira convincente. qualidades essas que se combinam com uma escrita propensa às divagações. sendo. No entanto. bastante linear. Além disso. profundamente conturbada e ativa. Sobre isso. é plano‖ (2004. e as imersões de parágrafos e informações com tempos diferentes agem na novela. funcionando como uma forma de retardar o tempo da narrativa. Forster3. naturalmente. expondo sua mente aflita e. deduções e a seu estado constante de alerta. mais tempo poderemos perder. a perder o fio do relato para reencontrá-lo ao fim de inumeráveis circunlóquios. sem alterações. ao contrário. p. Essa técnica narrativa. não nos causando relevos. e do qual julgamos saber o que podemos esperar dele o tempo todo. não se trata de chegar primeiro a um limite preestabelecido.] A divagação ou digressão é uma estratégia para protelar a conclusão. fuga de quê? Da morte. a saltar de um assunto para outro. é outro contributo para ambientar o leitor na mente do personagem principal.. nas concepções criadas por E.narrativa como uma lembrança surgida repentinamente e que não pode esperar para ser exposta depois. Mas voltando ao protagonista. do início ao final da narrativa. A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer. no que diz respeito aos pensamentos. desenvoltura. mobilidade. que precisa ser externada imediatamente. Como descreve Italo Calvino no seu texto sobre a rapidez na narrativa2: [. seu caráter triste e fraco. pouco afeito a evoluções comportamentais. o tempo é uma riqueza de que se pode dispor com prodigalidade e indiferença. espanto ou mesmo surpresa. pela falta de ações imprevisíveis. como deve ser um protagonista. diz em sua introdução ao Tristram Shandy o escritor italiano Carlo Levi (1990. o que o torna um personagem interessante — apesar de pouca ou nenhuma curva evolutiva no decorrer da narrativa — e um ponto central nesta. mostrando-nos uma profundidade e densidade psicológica típica desse tipo de personagem. E é dessa forma que as divagações.] na literatura. 100). que também podemos chamar de divagação. principalmente. M.. as digressões. o protagonista de O estranho no corredor é bem caracterizado. tendo assim grande focalização interna. antes de mais nada agilidade. porque quanto mais tempo economizamos. a . pode nos levar a sinalizá-lo como um personagem plano..

por isso. se tivesse a coragem de olhar para trás. uma sombra. como no caso de uma ―caçada‖ ocorrida na rua. e a multidão. a língua seca. Assim. Assim. tropeçava em corpos. descrevendo-nos as características. . com pombos arrulhando. andava. pois sua aparição sempre se dá de forma nebulosa. enfiava-se por uma rua menos cheia. desfazer o temor. sentiu a garganta se fechando. gestos silenciosos. os corpos. corria. estacavam também. esse fluxo absurdo. Experimentava andar mais depressa. o protagonista segue distraindo-se. poderia talvez dissipar a cisma. copioso. buzinas. assim como os estados de espírito e aflição do perseguido. Nós. como ele mesmo declara: ―Estranho. era xingado. e o perseguidor do protagonista sem nome é talvez o ―ente‖ mais próximo deste. não poderia absorvê-lo. as caras.atmosfera que o envolve dá vida ao texto. para olhar de esguelha. e tudo se transforma numa cena de perseguição digna de filmes de ação: Notou que havia passos constantes atrás dos seus como réplicas e que. o seu seguro no medo. mesmo em meio a uma barafunda. de súbito.. não pedia desculpas. e. vaga. e o andar lá atrás se ajustava sem coragem para virar-se. o que o torna um personagem esférico. como seus olhos. comporta-se como tal. Essa sombra. tendo em vista que se trata de um mundo onde os viventes são pachorrentos e de qualidade social inexpressiva. portanto. o texto se desenvolve num clima de vazio. até que. desviava. buzinado. marcante. quando o aparecimento da ―sombra‖ se dá numa digressão: enquanto a cena descrita é um passeio em um dia de céu azul. parando. e claro. só seu. ao mesmo tempo em que é bastante forte. de alguma forma. Dessa forma. poucas atitudes e passividade diante do mundo são características inerentes a esse mundo idealizado pelo autor.. leitores. não querer compartilha-lo e assim perder esse segredo que. são atributos que constituem o próprio caráter de seus personagens. os movimentos flutuantes do perseguidor. nome pelo qual ele define seu perseguidor. o mantinha mais forte e seguro. carros. do protagonista. assustador e presente. também é invisível a todos os demais. temia falar daquilo como se a perspectiva de livrar-se da sombra fosse mais triste que promissora‖ (p. sente-se vigiado. 31). por conseguinte. uma vida seguindo normalmente. mas andava. as características do protagonista corroboram para que a coerência no texto se mantenha até o final. muitas pessoas. de solidão em meio ao turbilhão do mundo. sempre sabemos de sua presença pela voz do narrador que descreve seu surgimento como se nos repassasse a visão do perseguido.] ah. por conseguinte. daí não querer falar com ninguém a respeito do seu problema. escondê-lo? [. a ele próprio. a possibilidade de perder essa presença causava-lhe mais medo do que a própria perseguição misteriosa em si.

na sua mente naquele momento. encontra um cubículo para venda de chocolates e.[. tudo menos parar (p. do estado de espírito. acima de tudo. Sua vida é semelhante a um pesadelo onde se . conturbada. os óculos não ajudavam. A corrida descrita pelas ruas. ―temor‖ para designar o medo em si. ―esguelha‖.]. de mudar seu mundo. ―buzinado‖ para mostrar a balburdia que o rodeava. e só. que ele ajudou a criar ao seu redor e que. a perseguição. ―xingado‖. sem ao menos ter a certeza de que realmente era seguido: ―ah. O pânico da cena acima é o seu pânico diário. vigiado. ao mesmo tempo. que a coisa era entre eles dois‖ (p. enquanto percebe o medo na vendedora que o olha com suspeita. basta o que apresentei aqui para percebermos o medo. buzinas. aliado ao fato da sua própria derrota pessoal. O trecho da perseguição é maior. é uma espécie de alter-ego. estava dentro de si. dentro do evento apresentado. aclara-nos a realidade do pânico. ―andava‖. 31). dando a entender que não havia dúvida. perdia fôlego. nada acontece. vira-se e vê o homem. E a sombra sem nome. Dia após dia se vendo perseguido. de se relacionar de forma saudável e produtiva com os outros e com o mundo a sua volta. se tivesse a coragem de olhar para trás‖. assustado. com a impressão de que uma mão gelada pode tocá-lo de leve a qualquer momento. sua busca silenciosa por algo e sua invisibilidade para o mundo como alguém significante. O perseguido dar as costas. ―cisma‖. de novas aventuras. da tentativa de tentar. mais uma vez. barulho e pânico. Na fuga. ―corria‖. foge. ―destacando-se dos transeuntes pela maneira direta com que o fitava. ―fluxo absurdo‖. descrita pelo narrador por intermédio de palavras e expressões como ―depressa‖. esbarrões. além do já citado antes. ―a língua seca‖. Porém. 32). no entanto. real. é a mesma que sofre internamente todos os dias ao fugir de relacionamentos. A perseguição acaba em nada. ―tropeçava‖ e ―perdia fôlego‖ para designar a fuga assombrada. enquanto ―multidão‖. tornam-se semelhantes e ganham força para gerar o suspense desejado. ―a garganta se fechando‖. A cena. perseguido —. com pessoas. fugindo de seu perseguidor. recursos que. e outras como ―sem coragem‖.. da incapacidade de ser feliz. tudo se acaba sem contato real.. não. pensa ele. invisível — visível somente a ele. A cena é veloz. algo que representa também. o pavor que tomou conta do perseguido que anda. não. com mais detalhes do estado do perseguido e de suas impressões sobre a ―sombra‖. Todos. é a sua falta de ar diária pela opressão que sente perante a vida. e do transtorno emocional em que vive o protagonista.

e há duas explicações para isso: primeiro. . M. Não há morte. a perda do vigor. não escapam. e a narrativa termina bem acabada. 115-116). o que não ocorre. depois das perseguições e frustrações vividas na cidade grande. que costumam não saber como finalizar seus textos: Praticamente todos os romances enfraquecem no final. Mas. com menos personagens para administrar e uma história mais curta do que um romance. fim de sonhos. A novela termina numa espécie de revelação sobre o que já suspeitávamos. A vida do protagonista é contada em retalhos de instantes. não sei como o romancista mediano concluiria seus livros. enfim. digressões. anulação. vago. onde nada é claro.. Ao lermos. nem casamento no texto de Chico Lopes. mas uma novela.. e seus personagens. tendo em vista que o tempo é não linear como já comentei — não há uma continuidade imediata no parágrafo a seguir do que se dizia no anterior. e então o romancista precisa trabalhar pessoalmente. tudo um pouco sonho-pesadelo. segundo. graças também à onisciência do narrador. claro. Forster. Os personagens foram escapando do controle. Mas o mal se revela. que ameaça tanto o romancista quanto qualquer outro trabalhador. a dificuldade que vínhamos discutindo. como vislumbres surreais. enxergamos todos os ângulos. O que condiz também com a forma como o texto é narrado. estabelecendo fundamentos e recusando-se depois a se edificar sobre eles.. o ―herói‖ retorna à sua cidade natal e à mediocridade de sempre: ―que consolo poder voltar a um lugar tão pouco atraente. 80-81). tão bom como esconderijo. como também já aludi anteriormente.]. é algo difícil para a maioria dos escritores. de ocorrências. [. pois para isso precisaria haver uma mudança nos rumos da história a partir daí. Não chega a ser uma epifania. Não fosse a existência da morte e do casamento. o que. Mas os personagens ou já forma embora ou já morreram (2004. [.] Até onde se pode generalizar. a fim de terminar sua tarefa a tempo. porém. Há. p. Finge que os personagens estão atuando para ele. já que estamos no final da trama. inclusive o protagonista.. encontramo-nos numa espécie de prisma onde fatos de uma vida são projetados de vários lados para montar uma história e uma compreensão da mente do personagem principal e da vida vivida por ele e por seus semelhantes.vê apenas flashes de movimentos. ou vários deles. Isso não ocorre com O estanho no corredor. de riscos!‖ (p. o fato de que o livro não é um romance. com cenas entrecortadas. Continua repetindo seus nomes e usando as aspas. que o autor nos deixa ver. é este o defeito inerente aos romances: eles desandam no fim. segundo E. Os retalhos funcionam e nós entendemos o que se passa.

E o que faz com que nos mantenhamos ligados ao texto. acompanhamos a saga do sofrido homem sem nome. recursos que são a vida do texto. Como diz Italo Calvino: ―É um segredo do ritmo. ao ritmo. Mas nessa novela. uma forma de capturar o tempo que podemos reconhecer desde as suas origens: na épica por causa da métrica do verso. corre e vaga pelo O estranho no corredor. Isso por que o ritmo é algo fundamental num texto. das imagens fortes. da minúcia com que características de personagens e lugares são-nos apresentadas.passa pelas mesmas dificuldades de um texto mais longo. vivendo à margem e à sombra do mundo — à semelhança de seu perseguidor —. 51). dos escândalos e fraqueza de seu pai. em agosto de 2013. Fomos levados lentamente através de seus olhos e dos do narrador a vivermos no centro de um mundo pequeno e viciado. Dessa forma. *Texto publicado na revista Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea da UFRJ. O tempo segue contínuo prendendo-nos à história sem esmaecer. A novela de Chico Lopes revela o submundo da mente de alguém acuado pelo medo herdado dos excessos de cuidados de sua tia. arrogantes e subjugadores dos mais sensíveis. como um carrasco inconsciente de si mesmo. deve-se muito. e este a morte e o vazio da vida. na narrativa em prosa pelas diversas maneiras de manter aceso o desejo de se ouvir o resto‖ (1990. Desejo que mantemos até o fim dessa novela. dos adjetivos e dos comportamentos adjetivados. asfixiante e fantasmagórico que consome o ―estrangeiro‖ personagem que se esconde. numa vida que vemos frágil e rarefeita através das frases. do peso de um mundo feito para os fortes. . nesse mundo sombrio. parágrafo após parágrafo. Este é algo bastante marcante no texto. temos a sensação de que acabou como deveria acabar. sabotando-se. A novela expõe alguém que vive marcado pela submissão ao caos que é sua mente. p. sem final mediocremente sentimental ou algo que o valesse. Mesmo um conto pode fraquejar e perder força ao final. além de tudo o que já comentei. seja em prosa ou verso. sobretudo. ao chegarmos ao seu desfecho. da loucura de sua mãe e talvez.

Jean Paul. Eduardo Lima. 2002. mestre em Literatura Comparada e autor dos livros Sombras (2001). p. Trad.M. ensaísta literário. 2 Este texto é parte integrante do livro Seis propostas para o próximo milênio (1990). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 91. Trad. SARTRE. ed. Noturno (2003) e O mundo de vidro (2005). São Paulo: Globo. Rita Braga. 4. 4. Sérgio Alcides. em Cambridge. . E. FORSTER. contista. as referências ao livro O estranho no corredor.blogspot. Chico. A náusea. 2004. FEHÉR. E. 34. Trad. nos Estados Unidos. M. São Paulo: Ed. 2011. Aspectos do romance. 1990. São Paulo: Globo. 2004 LOPES. 3 Cf.Referências CALVINO. ed. William Lial é poeta. O romance está morrendo?(contribuição à teoria do romance). Italo. textos elaborados para fazerem parte do Ciclo de palestras intituladas como ―Charles Eliot Norton Poetry Lectures‖ que seriam proferidas pelo autor no Italo Calvino. Aspectos do romance. no estado de Massachussets. cronista. serão identificadas apenas com o número da página. Rio de Janeiro: Paz e Terra. ed. Trad.com. O estranho no corredor. São Paulo: Companhia das Letras. já previamente indicadas no corpo do texto. 3. Trad. Mas não foram realizadas devido a morte do autor pouco antes de seu início.com. Sérgio Alcides. Forster. 1 A partir deste ponto. ao longo de um ano acadêmico na Universidade de Harvard. Também contribui com jornais e revistas literárias e possui um blog sobre literatura que leva seu nome: http://williamlial. Ivo Barroso. Contatos: wlial1208@gmail. 1997. Ference. Seis propostas para o próximo milênio.