DISPOSITIVOS ASSOCIATIVOS DE LUTA E EMPODERAMENTO DE USUÁRIOS, FAMILIARES E TRABALHADORES EM SAÚDE MENTAL NO BRASIL

Eduardo Mourão Vasconcelos
Psicólogo e cientista político; com doutorado e pós-doutorado na Inglaterra; professor da Escola de Serviço Social da UFRJ.

Resumo
Este ensaio visa apresentar uma classificação e análise descritiva dos diferentes tipos de dispositivos de organização, associativismo, luta social e empoderamento de usuários, familiares e trabalhadores do campo da saúde mental no Brasil, citando exemplos, a partir dos conceitos e estratégias de empoderamento, na perspectiva da reforma e desinstitucionalização psiquiátrica e da luta antimanicomial. Dentro da análise de cada tipo de dispositivo, é esboçada uma avaliação inicial de seus efeitos de empoderamento ou “desempoderamento”, com sugestões para debate, encaminhamentos e novos estudos, para os diversos atores institucionais e políticos envolvidos. Palavras-chaves: saúde mental; luta antimanicomial; empoderamento.

Abstract
This essay seeks to present a classification and descriptive analysis of the different types of organizations, associations, social struggle and empowerment lines of action by users, family members and mental health workers in Brazil, providing examples, based on empowerment concepts and strategies, through the perspective of the psychiatric reform and deinstitutionalization and of the “antiasylum” movement. In the analysis of each type of line of action, an initial evaluation of empowering and disempowering effects is accomplished, with suggestions for debates, actions and further research being made to the several institutional and political stakeholders involved. Keywords: mental health; deinstitutionalization; empowerment.

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Apresentação, justificativa, objetivos e metodologia utilizada No meio acadêmico e profissional em saúde e saúde mental no Brasil, e até mesmo no grande público, já é do conhecimento corrente a existência de um processo de desinstitucionalização e reforma psiquiátrica já relativamente consolidado como política de Estado, com base legal (Lei 10.216 de 2001) e legitimado em três conferências nacionais e duas conferências internacionais latino-americanas (Ministério da Saúde, 2005). Esse processo visa à substituição gradual do modelo de atenção e gestão em saúde mental, da antiga assistência psiquiátrica asilar, hospitalocêntrica e voltada para o modelo biomédico. Busca criar e implantar uma rede complexa e interdisciplinar de cuidados de base territorial, de acesso público, universal e gratuito, integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), com serviços de atenção psicossocial abertos, inteiramente substitutivos, e não-complementares, do hospital psiquiátrico. Eles devem ser capazes de proporcionar pleno acolhimento às pessoas portadoras de transtornos mentais graves, buscando a preservação de seus laços sociais, sua autonomização e sua reinserção e valorização na sociedade. Esse processo teve início no Brasil ainda na década de 1970, juntamente com a emergência de vários movimentos sociais populares e de trabalhadores, visando à democratização política e à mudança no perfil restrito e autoritário das políticas sociais impostas pelo regime militar. No campo da saúde, essas aspirações resultaram na criação do chamado Movimento Sanitário, principal responsável pela construção do SUS (Lima et al., 2005; Venâncio, 2005), e, no campo da saúde mental, à formação do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental e de Reforma Psiquiátrica (Vasconcelos, 2000; Amarante, 1995). Em 1987, houve a fundação do Movimento da Luta Antimanicomial, que teve uma importância política fundamental como impulsionador do processo de reforma psiquiátrica e dos dispositivos organizativos de trabalhadores, usuários e familiares a partir da década de 1990. Desde então, tem havido um certo reconhecimento, embora desigual e descontínuo, da organização desses dispositivos, e eles têm sido bastante difundidos, particularmente no âmbito dos novos serviços de atenção psicossocial, os chamados CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), muitas vezes a partir dos núcleos locais do Movimento da Luta Antimanicomial. Entretanto inexiste ainda no país uma avaliação sistemática, dos pontos de vista quantitativo e qualitativo, dos novos dispositivos de organização dos usuários e familiares. Alguns poucos estudos qualitativos já foram realizados, por meio de dissertações e teses, mas se referem a alguns poucos casos individuais ou locais, ou, ainda, trata-se de análise de entrevistas com um quadro restrito de lideranças. Do ponto de vista quantitativo, os dados do Ministério da Saúde indicam que no país já funcionam hoje, no início de 2007, cerca de 1.000 CAPS, vários dos quais já contam com associações de usuários e familiares, no entanto não há quaisquer indicações do número de tais dispositivos. Além disso, constatamos a existência de vários outros tipos de dispositivos associativos difusos na sociedade civil, muitos deles surgidos como iniciativas autônomas de familiares e usuários, cujo perfil mais geral ainda é bastante desconhecido. Esse processo de emergência das inúmeras associações de usuários de serviços e de seus familiares, sem dúvida alguma, tornou ainda mais complexo o processo social, político, institucional e teórico-profissional da reforma psiquiátrica, na medida em que agora a dinâmica de transformação passa a incluir também a explicitação dos interesses diretos dos usuários e familiares. As mudanças implicam desde o nível das práticas cotidianas nos novos serviços, até o plano da
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gestão e da política de saúde mental mais ampla, através da presença e militância ativa de suas lideranças nos conselhos, conferências e demais instâncias do que foi denominado no SUS de controle social (Correia, 2005). É importante observar, no entanto, que esse processo de valorização e inclusão dos usuários e seus familiares no cenário dos serviços, das instituições e da política de saúde mental não significa que os dispositivos de grupalização e organização de pessoas portadoras de problemas mentais e psíquicos só tiveram início no país no início dos anos 1990. Essa chamada à participação já encontrou alguns tipos e padrões de práticas grupais e dispositivos associativos anteriores, alguns bastantes difusos no tecido social, e que têm influência sobre os novos dispositivos criados no âmbito da reforma psiquiátrica. Há registros de algumas associações isoladas de usuários e familiares no campo da saúde mental, além dos clássicos grupos da tradição dos Alcoólicos Anônimos (AA) e seus derivados, que se difundiram por todo o mundo a partir de sua fundação nos EUA nos anos 1930 (Vasconcelos, 2003), bem como das atividades dos Centros de Valorização da Vida (CVV), que se iniciaram em São Paulo na década de 1960. Tendo em vista esse panorama histórico, o presente ensaio visa mapear, descrever e realizar um esboço de avaliação preliminar, em ordem cronológica de emergência histórica, dos principais tipos de dispositivos de grupalização e organização de pessoas portadoras de sofrimento psíquico e de trabalhadores de saúde mental no Brasil, incluindo o campo do abuso do álcool, no século XX - mas com ênfase na última década desse século -, no processo de reforma psiquiátrica. Esses dispositivos incluem não só aqueles que se organizaram autonomamente na sociedade civil, como também os que foram criados sob inspiração ou influência direta dos novos serviços, da atual política de saúde mental ou do Movimento da Luta Antimanicomial. No caso dos trabalhadores de saúde mental, o estudo não inclui as organizações profissionais, científicas e acadêmicas, que constituem um conjunto muito mais amplo, diferenciado e complexo, e impossível de ser abordado em um trabalho do âmbito deste, concentrando-se apenas na discussão sobre os desafios mais atuais do Movimento da Luta Antimanicomial. Da mesma forma, o movimento mais amplo de reforma psiquiátrica no país requer estudos mais amplos, tem sido objeto permanente de investigações mais sistemáticas (por exemplo, Amarante, 1995; e Vasconcelos, 1992b) e, portanto, não será focado aqui. Além disso, o estudo também não inclui os dispositivos associados a igrejas e agremiações religiosas diretamente confessionais, cujas iniciativas que afetam o campo da subjetividade e da saúde mental constituem um objeto de investigação muito mais vasto e também bem mais complexo. Além dos dispositivos organizativos, este texto visa também indicar a importância do tema do empoderamento de usuários e familiares de serviços para o processo de reforma psiquiátrica e para a compreensão da dinâmica associativa em saúde mental. Em nossos trabalhos publicados nos últimos sete anos, vimos chamando a atenção para a importância das abordagens e estratégias daquilo que a literatura anglo-saxônica denomina de empowerment, ou empoderamento, em português1. Na literatura internacional, a perspectiva é corrente em todo o campo social, da saúde e da saúde mental, como um conjunto de estratégias de fortalecimento do poder, da autonomia e da auto-organização dos usuários e familiares de serviços públicos nos planos pessoal, interpessoal, grupal, institucional, e na sociedade em geral. Em saúde mental, entendemos esse conceito como uma perspectiva ativa de fortalecimento do poder, participação e organização dos usuários e familiares no próprio âmbito da produção de cuidado em saúde mental, em serviços formais e em dispositivos autônomos de cuidado e
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bem como em estratégias de defesa de direitos. com perguntas abertas e pré-codificadas sobre as características principais dos grupos e associações. Desinstitucionalização e Abordagens Psicossociais”. c) pesquisa com formulário próprio. Este trabalho é fruto de uma pesquisa inserida no Projeto Transversões. para a estratégia política do movimento de usuários e familiares. que é supervisionada e orientada por nós. Além disso. material de divulgação. associações e movimentos. 32 2007 p. estaduais e municipais do movimento da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica. familiares e os chamados “amigos”. de mudança da cultura relativa à doença e saúde mental difusa na sociedade civil. ou. Essa direção vem sendo assumida em muitos países há várias décadas e no Brasil particularmente nos últimos dez anos. de forma mais ou menos autônoma. o presente estudo é resultado da utilização combinada das seguintes fontes e recursos em pesquisa: a) material bibliográfico secundário. o presente trabalho visa não só apresentar um perfil inicial desses dispositivos associativos e de luta no Brasil recente. e já há uma literatura razoável disponível no Brasil sobre o assunto. aplicado em eventos nacionais. relatórios.. para o movimento da luta antimanicomial e para a luta mais ampla pela reforma psiquiátrica e pela saúde mental no Brasil.suporte. participação e empoderamento. nessa perspectiva. na forma de bolsa de produtividade em pesquisa e de taxa de bancada para itens de custeio. na forma digital. grupos e associações. que coordenamos. realizada por membros de nossa equipe do projeto Transversões3. O projeto vem se dedicando a vários assuntos do campo da saúde mental. indicando para cada tipo suas principais características. aplicadas a lideranças-chave dos grupos. artigos científicos. critérios/parâmetros para avaliação e análise crítica das diversas iniciativas de programas e serviços no campo. grupais e institucionais. grupos e projetos de usuários. etc. Do ponto de vista metodológico. ou em forma digital. que inclui documentos. 173-206 . lotado na Escola de Serviço Social da UFRJ. mas principalmente revelar como se dá a dinâmica e as estratégias de empoderamento ou “desempoderamento” nesses dispositivos. capítulos de livros. teses e dissertações. b) material bibliográfico primário. de exercício do controle social no sistema de saúde. e) observação participante. colhidos com os diversos atores individuais. e da procura ativa de lideranças de forma mais individualizada. e que conta com apoio do CNPq. que vêm atuando nos movimentos sociais da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica. na Internet. nos vários sítios da Internet desses movimentos sociais. e no campo das políticas de saúde mental e da produção de iniciativas autônomas de cuidado. ainda. e até sugerir novos dispositivos de tratamento. nome-síntese do projeto integrado de pesquisa “Saúde Mental. mas dá grande ênfase à temática do empoderamento nesse campo e aos dispositivos de implementação do empoderamento. d) entrevistas aprofundadas por pauta de temas e perguntas. também nos eventos indicados acima. impresso na forma de livros. de pesquisa etnográfica de médio prazo. dada nossa inserção direta no Movimento da Luta Antimanicomial e. particularmente no contexto das associações. Assim. incluindo alguns trabalhos nossos ou editados sob nossa coordenação2. em alguns casos particulares – como no caso dos Alcoólicos Anônimos –. busca indicar conceitos. exemplos ilustrativos e desafios. 176 n. e de militância social e política mais ampla na sociedade e no Estado.

conscientização e humanização. não há qualquer pretensão de exaustividade empírica. no mínimo desde a modernidade. ampliando o quadro classificatório proposto. como entrevista aprofundada. A nosso ver. dependendo do objetivo e do contexto das relações interpessoais. 173-206 177 . Por exemplo: há abordagens e estratégias diretamente voltadas para o trabalho profissional. no sentido de abarcar todas as experiências em curso. na medida em que os conceitos. observação participante e pesquisa etnográfica. 32 2007 p. Stotz e Araújo. como sistematizado em Vasconcelos (2003). Implica abordagens críticas. a tipologia construída e os exemplos ilustrativos fornecidos aqui buscam incluir todos os tipos encontrados. essa interpelação é muito similar às de participação. se há uma preocupação com uma exaustividade nesta abordagem. o termo constitui uma interpelação utilizada historicamente sob diferentes roupagens. as abordagens de empoderamento apresentam diferentes perspectivas. 2004). perspectivas bastante conservadoras. Assim. Outro aspecto a ser destacado é de que essa tipologia é bastante dinâmica. institucionais e sociais nas quais se inserem. e de forma diferente de como é geralmente apresentada no ambiente anglo-saxão. bem como as dificuldades encontradas em montar uma pesquisa conveniada com os gestores nacionais e estaduais da política de saúde mental. e ele vem sendo realizado desde 2003. 2003. uma análise cuidadosa (Vasconcelos. segundo as estratégias convencionais de amostragem. mas seu trabalho apresenta enormes contribuições também para o n. No Brasil. A exaustividade pretendida aqui é apenas qualitativa. portanto. como na área social. Entretanto. a amplidão do país. ou inversamente. é importante reconhecer que as características. dependendo dos interesses e dos atores sociais que se apropriam dele. A estratégia epistemológica e teórica mais geral de análise dos dados está explicitada em outro trabalho (Vasconcelos. quem vem investindo nesse campo tem sido Vicente Faleiros (1997). são realizadas principalmente no estado do Rio de Janeiro. no trabalho comunitário e institucional. Simplesmente. aberta e sempre provisória. em diferentes contextos e perspectivas ideológicas e políticas. em grupos. de forma individual. do ponto de vista do serviço social. Algumas idéias e conceitos básicos sobre empoderamento . alguns dos quais polêmicos. naturalmente. em saúde e em saúde mental. Da mesma forma. para o qual remetemos o leitor interessado em um maior detalhamento do assunto. voltado para a perspectiva interdisciplinar e do paradigma da complexidade. Em nossa opinião. nas quais o profissional busca ter um papel ativo de estimular o empoderamento de seus usuários e clientes. muitas vezes. Não foi adotada uma perspectiva quantitativa e uma lógica de representativa. realizamos uma busca ativa e tentamos entrar em contato com todas as associações de que tivemos notícia ou que encontramos em nossa participação nos vários eventos do movimento da luta antimanicomial e de reforma psiquiátrica e reunir dados de todas elas. 2000. merecendo. já que um novo exemplar de dispositivo pode gerar uma nova categoria. no sentido conceitual e classificatório.O âmbito do presente estudo é nacional. informais do objeto em foco. mas as atividades de pesquisa. as condições operacionais da pesquisa. 2002).abordagens e estratégias A idéia e os conceitos de empoderamento não podem ser considerados ou apropriados de forma isolada. a literatura sobre o tema e o uso deste no campo social e no da saúde apresentam diferentes versões e sentidos. progressistas. que não possuem autonomia e precisam ser contextualizadas e ancoradas teórica e historicamente para adquirirem uma perspectiva ético-política mais clara.

desejo e participação social. No campo da saúde mental. mas que a pessoa. ou que os sintomas foram removidos e o funcionamento da pessoa foi restaurado inteiramente. comunitário e na militância cultural e política de grupos sociais submetidos a processos de opressão e discriminação.campo da psicologia clínica e. que. principalmente aquelas associadas às fases mais agudas do transtorno. e o presente ensaio reflete bem essa direção. 178 n. 2003 e 2006). com regularidade ou nas horas mais difíceis. ajuda e suporte mútuo. emoções. Os dois elementos fundamentais para a consecução desses objetivos são a existência de um sistema de saúde mental orientado efetivamente para a recuperação. particularmente anglo-saxões e da Europa do Norte. De nossa parte. pelo contexto cultural difuso das representações sociais da loucura e formas de estigma difusas na sociedade. por sua vez constituem uma adaptação e diversificação dos termos originais em inglês. e de dar um novo sentido a elas em um conjunto mais compreensível de eventos. defesa de direitos e militância. mesmo com as limitações associadas ao transtorno. e a de um movimento de usuários e familiares que desenvolva os dispositivos de cuidado de si. sentimentos e sensações integrados em um todo. que vêm desenvolvendo desde os anos 1970 práticas fundamentais no processo de enfrentamento pessoal. particularmente. dúvidas e sugestões. Os conceitos para descrição dessas práticas. apresentados abaixo de forma bastante resumida. para adequá-los às condições e estratégias no campo da saúde mental em nosso país. Não significa que a doença ou deficiência física desapareceu. familiar e coletivo dos desafios colocados pelo sofrimento psíquico. grupal. fazem parte de um rol mais sistemático discutido nesses trabalhos anteriores. a despeito das limitações. como se desenvolve nos processos mais comprometidos e radicais de reforma psiquiátrica no mundo. 173-206 . As estratégias utilizadas incluem: . b) Dispositivos de cuidado do si5: Esse conceito busca incluir todo o complexo processo de reelaboração das experiências catastróficas de vida. e pelas políticas. se justifica por que eles são imprescindíveis para o entendimento das características do processo em curso no país e para a compreensão da tipologia dos dispositivos associativos e políticos analisados neste trabalho. 32 2007 p. ambientais e culturais necessárias. programas e serviços do campo da saúde mental (Vasconcelos. vimos investigando e sistematizando as perspectivas mais autonomistas de auto-empoderamento individual.a formação de vínculos interpessoais muito sólidos de amigos(as) “irmãos(ãs)”. como descrito a seguir.o suporte de profissionais e de serviços de saúde mental. e dependendo do suporte e das mudanças sociais. . mesmo que de forma muito esquemática. A reapresentação desses conceitos aqui. recuperando a auto-estima e a inserção ativa na sociedade. 2000. a) Recuperação (recovery): Constitui um conceito oriundo do campo das doenças e deficiências físicas. para a psicologia social e comunitária. Essa perspectiva de investigação foi claramente influenciada pelo acompanhamento do movimento de usuários e familiares no campo da saúde mental em vários países4. trocando experiências. pode retomar uma vida usual relativamente ativa. com os quais se possa conversar e desabafar tudo. o termo foi apropriado pelo movimento de usuários e familiares no sentido de um processo pessoal e coletivo de mudanças que pode levar a uma vida com satisfação. sem restrições.

autodefesa: capacita-se o usuário ou familiar para defender seus direitos por si próprio. Além disso. d) Suporte mútuo: Esse termo abarca. de ajuda emocional e discussão das diferentes estratégias de lidar com os problemas comuns. ajuda nas tarefas diárias na casa e fora dela. defesa de direitos. de telefone para suporte interpessoal direto. Por sua vez. de clubes sociais. 32 2007 p. nos grupos de discussão. suporte a familiares que precisam de uma “folga” para descansar ou viajar.elaboração de cartas de direitos e normas de serviços bem como a proposição de peças legislativas municipais. listas de serviços mais adequados. padronizada. as redes de amizade e os dispositivos da Internet são fundamentais. Contudo.. de alta importância. que precisam ser avaliadas: é uma prática fechada em si mesma.a construção de narrativas pessoais por escrita individual ou entrevista. efeitos colaterais de remédios. As primeiras podem diferenciar-se em: . tais como as estratégias de enfrentamento no dia-a-dia. que tem um enorme potencial terapêutico. de cuidado domiciliar. político e literário6. a defesa de direitos formal e profissionalizada inclui: . Também aqui. descritos a seguir. a partir dessa matriz. cuidado informal do outro que se encontra em maior dificuldade. ou formais/profissionalizadas. a defesa de direitos. . . despolitizada. políticos e sociais dos usuários e familiares. Essa tradição.serviços com profissionais de saúde mental e advogados. assumindo-se o cuidado do usuário. 173-206 179 . Além dos grupos presenciais. institucional. etc. os movimentos internacionais de usuários e familiares vêm desenvolvendo tipos e metodologias mais amplas de grupos de ajuda mútua. para defender os direitos civis. em um nível inicial mais simples e cotidiano. estaduais e federais que busquem consagrar os direitos dos usuários e familiares em todas as esferas do sistema de saúde mental n. pode incluir também a elaboração de cartilhas informativas e educativas sobre temas relevantes. como ajudar o outro a conseguir um benefício ou a resolver problemas na vizinhança ou comunidade. nos chats e no correio eletrônico. experiências bem-sucedidas.a utilização dos demais dispositivos coletivos do movimento de usuários e familiares. apresenta algumas limitações. c) Ajuda mútua: Esse tipo de prática é conhecido a partir dos Alcóolicos Anônimos (AA) e similares (chamados de grupos dos 12 passos) e constituem grupos de troca de vivências. e não estimula sistematicamente o suporte mútuo. de acompanhamento qualificado. Contudo esse nível pode avançar para o desenvolvimento de projetos mais complexos. as estratégias de ajuda mútua estão presentes hoje também na Internet. como dispositivos residenciais e de trabalho protegido e cooperativo. etc. passeios e atividades de lazer e cultura nos fins de semana.entre pares: companheiros usuários e/ou familiares são chamados a intervir nas situações concretas. . atividades e iniciativas de cuidado e suporte concreto no dia-a-dia. e) Defesa de direitos (advocacy): As estratégias de defesa dos direitos podem ser informais. como organizar grupos de ajuda mútua e suporte mútuo. a mudança cultural e a militância mais ampla7. nas páginas de organizações e sítios ou blogs pessoais. etc. apesar de seus numerosos pontos positivos.

etc. Como se pode depreender dessa lista de conceitos operacionais. por “usuário” e “sofrimento psíquico”. mas alguns usuários e n.participação em projetos em que lideranças de usuários e familiares sejam incluídas ou coordenem pesquisas. 173-206 180 . princípio hoje consagrado nas principais políticas sociais do Estado brasileiro. programas de planejamento e avaliação de serviços. Como exemplos. . do Rio. através da militância em partidos políticos e até mesmo do exercício de cargos parlamentares e executivos no aparelho de Estado. em 1993. quando se exige uma linguagem mais técnica. . de Santos. etc. a Carta de Direitos e Deveres dos Usuários em Saúde Mental. ou. f) Transformação do estigma e dependência na relação com a loucura e com o louco na sociedade: Constituem iniciativas de caráter social.a produção de programas para a mídia que abordem diretamente o problema da discriminação: a rádio Tantan.216. e a Lei 10. .a linguagem que usamos cotidianamente: expressões tais como “paciente” e “doença mental” acentuam a passividade e a segregação. na comunidade local. de abril de 2001. e podem ser substituídas. por “transtorno mental”. de 1991. que estabelece as linhas gerais do processo de reforma psiquiátrica brasileira. 32 2007 p. como os grupos de ajuda e suporte mútuos. e que inclui direitos básicos dos usuários. em plano hierárquico similar. temos a Carta dos Direitos dos Portadores de Transtorno Mental da ONU.o princípio hoje bastante difundido no movimento da luta antimanicomial. ou “problema mental”. mesa ou conferência no campo deva contar com participação de representantes de usuários e familiares.e da sociedade. de saúde mental e de outras políticas sociais. bem como participem diretamente na capacitação de profissionais. complexidade e dificuldade.participação política direta.participação direta no movimento da luta antimanicomial e de reforma psiquiátrica. sindicatos. cultural e artístico para mudar as atitudes discriminatórias em relação ao louco nas relações cotidianas. . a TV Pinel. de Belo Horizonte. em Santos (SP).participação local cidadã na comunidade vizinha do serviço ou do local de moradia dos usuários e familiares.participação nas diversas instâncias e nos conselhos de saúde. respectivamente. como prerrogativa do controle social da sociedade civil das políticas públicas. ONGs. Exemplos dessas estratégias são: . a Rede Parabolinóica. . outros movimentos sociais. escrita no III Encontro de Associações de Usuários e Familiares em Saúde Mental. a perspectiva mais geral construída pelo movimento internacional de usuários e familiares do campo da saúde mental é propor estratégias concretas de empoderamento em níveis diferenciados de participação. . “experiências subjetivas radicais”. através das associações de moradores. g) Participação no sistema de saúde/saúde mental e militância social e política mais ampla: Essa participação e militância dos usuários e familiares pode dar-se em diferentes níveis e instituições: . na mídia e na sociedade mais ampla. de que qualquer evento. A maioria dos participantes pode inserir-se nos níveis mais elementares.

características e desafios dos dispositivos associativos de usuários. depois que a proibição nacional erigida na crise de 29 foi suspensa. sem os demais níveis de acolhimento e participação. Burns. divulgadas em âmbito nacional. em um movimento social mais amplo. como uma sistematização da experiência dos primeiros grupos que se difundiu para todo o mundo através dos grupos de ajuda mútua para alcoolistas e para grupos similares. Passemos. muitas vezes. devido às dificuldades e limitações intrínsecas colocadas pelo próprio transtorno ou pelas exigências de cuidado familiar. não só gera um perigoso descolamento das lideranças de suas bases. então. mas há grupos que usam a mesma metodologia e que assumem nomes diversificados. a descrever e discutir os diferentes tipos e suas características. 1995). familiares e trabalhadores do campo da saúde mental no Brasil atual Já contamos agora com todos os elementos fundamentais para a compreensão dos diferentes tipos. não devem perder de vista seus vínculos com os grupos de base e. familiares e trabalhadores. os grupos mais conhecidos são o próprio AA. abordando o tema com sensibilidade e seriedade. já terão seu acolhimento garantido nesses grupos. os fundadores publicaram os “Doze passos sugeridos para a recuperação” (Vasconcelos. Da mesma forma. 2003 e 2006-2007.familiares com características pessoais e culturais compatíveis e potencial de liderança poderão ser chamados a criar projetos nos níveis mais avançados ou a participar deles. que são apresentados em uma ordem histórica de sua emergência no Brasil. relações de poder e formas de cooptação por cima. voltada apenas para ações diretamente políticas. parece-nos apresentar muitos limites. seria valorizar todos os níveis de organização e estimular o trânsito de seus associados entre eles. os Psicóticos Anônimos. Além disso. Assim. com seus conflitos. nos anos de 2002. n. o ideal. em 1933. Alguns anos depois. quando essas pessoas se alçam a essas esferas. 2003. mas que também incluem algumas práticas de suporte mútuo para familiares (Al-Anon). que constitui sempre uma possibilidade no campo da saúde mental. como também. Tipologia dos movimentos sociais e dos dispositivos associativos de usuários. Dessa forma. No Rio de Janeiro. em um contexto marcado pela redefinição científica e cultural dos problemas do álcool. os Neuróticos Anônimos. A tradição dos doze passos: os grupos de Alcoólicos Anônimos (AA) e seus derivados A organização dos Alcoólicos Anônimos (AA) surgiu em 1935 nos Estados Unidos. 32 2007 p. Também no Brasil. os Narcóticos Anônimos. 173-206 181 . a experiência internacional e a brasileira no campo da saúde mental indica que a militância social e política direta. uma noção muito restrita de participação. só é viável para pouquíssimos usuários e familiares. nos casos de reincidência de uma crise psíquica. portanto com foco exclusivo no último dos conceitos indicados acima. o movimento teve forte disseminação por todo o território e se desdobrou em vários outros grupos para a abordagem de comportamentos compulsivos. particularmente no campo da saúde mental. Esses grupos tiveram uma maior visibilidade a partir de duas telenovelas recentes. por si só. em 1939. e que podem ser classificados na tipologia de práticas descrita acima como grupos de ajuda mútua.

constatamos em nossa pesquisa que a maioria dos especialistas e profissionais reconhece que a participação regular em grupos de AA constitui o dispositivo mais efetivo e amigo do usuário. g) Essas mesmas fontes reconhecem positivamente a completa autonomia e independência que a organização mantém em relação a profissionais e serviços em geral. a mais antiga e mais complexa que temos no campo da saúde mental no Brasil e em todo o mundo. c) Além disso. na direção inversa dessa estrutura organizacional horizontalizada e descentralizada. em toda a rede do AA. particularmente em nossa pesquisa no Rio de Janeiro.um eventual uso pessoal e privado de tratamentos profissionais. que há. nas seções do AA e em toda a organização. de que o AA apresenta uma organização e uma estrutura de filiação completamente descentralizadas e de base. 1995. sem dúvida alguma. 2003). 1992): a) Há um relativo consenso positivo entre os analistas. d) Embora haja ainda alguma polêmica em relação a detalhes sobre a avaliação dos resultados. Por outro lado. há uma proibição explícita de acumulação de dinheiro. já que todo o conjunto de princípios. é relativa ao fato de que. 173-206 . portanto. Room. sem mandato de autoridade superior sobre a autonomia dos grupos locais ou membros individuais. há uma preocupação ativa com a garantia de absoluto anonimato para o mundo fora dos grupos de AA. nos grupos de AA. princípios e metodologia difundidos em todo o mundo são reproduzidos em nosso país. confirmada em nossa pesquisa empírica no Rio de Janeiro. há também um consenso positivo de que. das grandes cidades às vilas rurais. através de seus membros. na maioria dos países do mundo e.ou mesmo pode estimular . não descarta .A tradição dos doze passos é. já que os mesmos esquemas básicos. mas retomaremos aqui. e um processo de decisão baseado no consenso obtido após longo processo de debate igualitário. os textos doutrinais e o material de divulgação geralmente partem da agência-matriz norte-americana. que oferece segurança e confidencialidade aos seus membros e regras fortemente estabelecidas para isso. Uma avaliação mais detalhada dessa tradição a partir de sua história e da literatura internacional já está disponível em outro trabalho (Vasconcelos. toda a literatura constata que o modelo de funcionamento e os princípios do AA também se difundiram mundialmente e foram capazes de abraçar a abordagem de vários outros problemas de abuso químico e de comportamento compulsivo. 182 n. particularmente aos da área psi. É importante lembrar que a organização. alguns de seus tópicos principais. b) De forma também positiva. de instruções de funcionamento dos grupos. constatamos. e) Entre os analistas citados. ampliando a análise realizada pelas fontes que realizaram revisões críticas mais globais sobre o tema (Reinarman. e vem sendo objeto de pesquisas mais sistemáticas em todo o mundo. apresenta ampla difusão e acessibilidade. e disponível para abordagem do abuso de álcool. de forma resumida. um verticalismo doutrinário extremo. propriedade e prestígio. f) Outra avaliação positiva consensual. como indicam Reinarmar e David/Jansen. Essas pesquisas são relevantes para o conhecimento dessa tradição no Brasil. há o reconhecimento de que o AA geralmente está disponível nos espaços mais variados. 32 2007 p. 1998. Davis e Jansen. constituindo um fator real de empoderamento.

muito além dessa impressão inicial de uma visão estritamente médica. enfatizando outras. De nossa parte. na linha dos fenômenos do “nervoso”. entre outras coisas. em relação aos profissionais e instituições médicas. a partir da pesquisa no Rio de Janeiro. o AA mantém uma abordagem profundamente religiosa. embora não confessional ou denominacional. de lideranças de seus grupos que. aberta a apropriações variadas e múltiplas. constatamos que essa representação espiritualizada da recuperação também encontra resistência entre os profissionais. que visa absolver o alcoolista e sua família da culpa moral (o indivíduo é doente. que a linguagem do AA. Duarte e Leal. David e Jansen (1998) e nossa pesquisa no Rio de Janeiro constatam que o AA promove uma forte valorização da história pessoal de cada membro e da aprendizagem grupal. 173-206 183 . as novas abordagens de abuso de drogas adotadas pela atual política de saúde mental no Brasil. critica o seu enquadramento dos problemas do álcool dentro de um modelo médico. constitui. em um contexto em que normalmente apenas os profissionais eram chamados a atuar. i) Nossa pesquisa no Rio de Janeiro constatou que o AA possibilitou o desenvolvimento da figura do “conselheiro de álcool e drogas”. Em uma perspectiva inversa. construída por meio do colocar em comum as vivências de cada um e da elaboração e reelaboração das narrativas de vida . inclusive do alcoolismo como doença. Indica que algumas feministas irão enfatizar que a representação do poder superior reproduz os modelos patriarcais e masculinos. apesar da independência. De nossa parte. percebemos que. o alcoolismo é representado como uma “doença progressiva” e incurável. na verdade. dada a formação laica e racionalista destes. Assim. desespero e vida caótica. valorizando-se e empoderando-se a figura dos usuários mais avançados no processo de recuperação. n. portanto. e não imoral. e associada à falta de controle sobre o ato de beber. ou seja. por exemplo. j) Sobre a concepção de alcoolismo: Reinarmar (1995) avalia que. por meio de um sentido de recuperação inspirado na conversão religiosa do tipo evangélica. acolhimento e intercâmbio de experiências e estratégias de recuperação. colocam a abstinência absoluta apenas como uma das possibilidades.h) Da mesma forma. no AA. 32 2007 p. particularmente por pesquisadores associados a Luís Fernando Duarte (1986. tem mais a ver com uma abordagem holista e diversificada. uma linguagem metafórica.que permitem a identificação interpessoal imediata entre seus participantes. similar às representações sociais dos fenômenos mentais das classes populares brasileiras. dentro de um rol mais amplo de estratégias. denotando. uma estratégia desculpabilizante. por parte dos usuários de álcool. Em contraste com essa abordagem. 1998). na linha da redução de danos (Ministério da Saúde. a abordagem do AA também envolve aspectos mentais e principalmente espirituais e. para desenvolver o processo de recuperação. no sentido mais convencional e unidisciplinar. ainda. tratável unicamente por meio da abstinência absoluta. desviante ou psicologicamente fraco). a partir de sua experiência pessoal de recuperação. outros analistas assinalam que essa abordagem constitui. na verdade. no Rio de Janeiro. mais simpatizante do AA. 2005). passam a ter um papel fundamental nos programas de recuperação no campo como assalariados voltados exclusivamente para a atenção a novos usuários nos serviços. isolamento. já bastante sistematizados pela antropologia social brasileira.em uma tradição oral . l) Sobre os aspectos religiosos e espirituais do AA: Reinarmar (1995) avalia que. David e Jansen (1998) indicam.

como David e Jansen (1998). n) Esse mesmo analista indica uma coerência do AA com suas raízes protestantes. com algumas semelhanças a certos tipos de psicoterapia ou estratégias espirituais de desenvolvimento pessoal. De nossa parte. com as características já revisadas acima. não há qualquer elemento prescritivo de tipo protestante ou vitoriano relativo ao campo da moral sexual ou de uma perfeição moral antiquada. anticlerical. Visões mais simpatizantes do AA. e em que a saída passa pela conexão com os colegas de grupo e. critica o modelo do AA. Nessa abordagem. o) Outra linha comum de avaliação critica a representação do caminho para a recuperação e para retomar o controle como requerendo a admissão da completa ausência de poder e a admissão do “Poder Superior”. no Rio de Janeiro. Por exemplo. que não promove a consciência crítica sobre o estímulo ao consumo do álcool pela sociedade atual. reconhece que. pós-proibição do álcool. que parecem lembrar a sensibilidade moderna norte-americana. mas. como Willian James. ao localizar a responsabilidade exclusivamente em cada pessoa. percebemos que a maioria das avaliações feitas em nosso país por autores ligados à esquerda indica nesse tema os principais efeitos de alienação. com claros efeitos de empoderamento. ainda. negação ou racionalização da situação pessoal e. em paralelo a uma denegação do caos de suas vidas. mesmo sendo mais crítico que esses dois autores. a partir de nossa pesquisa etnográfica no Rio de Janeiro. nem o engajamento dos indivíduos em processos de mudança social. m) Reinamar (1995). afirmam que essa é uma abordagem inicial necessária ao sentimento de onipotência típico dos alcoolistas. através de um foco individualista e terapêutico. marcado por relações unívocas com o palestrante.Outros avaliadores. sem depender de especialistas. qualquer consideração de aspectos sociais. a padronização da dinâmica grupal (tema do próximo item). não estimulam formas mais avançadas de empoderamento. De nossa parte. p) Nossa pesquisa constatou também que. 173-206 . 32 2007 p. e que a recuperação só pode ser entendida como processo dialético de várias fases. modelos de reunião na forma de círculo possibilitariam diferentes tipos de relações cruzadas. e evitando qualquer forma de risco e imprevisto. sem permitir variações temáticas e criatividade. portanto. Reinarmar (1995). como baseado em uma psicologia pragmática e racionalista inspirada nos primeiros psicólogos cognitivos. remodelando conceitos religiosos como “pecado” e “retribuição” na forma de “defeitos de caráter”. no longo prazo. “correção”. a partir de sua revisão da literatura. assinalam que a linguagem religiosa dos 12 passos é também metafórica. pelo controle efetivo de suas próprias vidas. políticos e culturais que possam ser aventados para explicar o ato de beber tende a ser definida como questão “externa”. como clara manifestação da doença. positivistas e reducionistas de algumas ciências comportamentais. estruturais. sendo excluída dos encontros ou interpretada como evidência de desculpa. mais simpatizantes do AA. gradativamente. apesar desses componentes religiosos. mais horizontalizadas 184 n. ao enfatizar a difusão em massa. o AA optou por uma dinâmica de reunião estereotipada. Apontam. como se capazes de pleno controle de si. individualização e privatização de questões sociais e políticas na abordagem do AA. avaliamos que o processo de saída do caos e a fase inicial de recuperação têm o potencial de fazer o indivíduo retornar à vida social e ao trabalho. que há freqüentes confusões na compreensão desse aspecto por visões mecânicas. do tipo koan (espécie de enigma usado pelos zen-budistas para meditação e crescimento espiritual). baseada no modelo de auditório. que resultam necessariamente em empoderamento gradual da pessoa. como as de David e Jansen (1998). o leque repetitivo de dispositivos e o corpo doutrinário.

permitindo-se maior criatividade. tendem a inserir os grupos de ajuda mútua em um leque mais amplo de dispositivos e estratégias de empoderamento. bem como de seus membros. multifacetado e objeto de polêmicas em seu processo de avaliação. não podemos ter nenhuma ilusão da possibilidade de mudanças mais substantivas “por dentro” do movimento. q) Finalmente. bem como seriam mais flexíveis para diferentes temáticas. apesar da importância histórica do AA como modelo-matriz de ajuda mútua. defesa dos direitos e mudança cultural. bem como a centralização e verticalização doutrinária em sua estrutura. Em outros termos. 173-206 185 . Em segundo lugar. mesmo que formados na tradição do AA. porém mais ampla. defesa dos direitos. Assim.e igualitárias. que tenderia a ser simplificadora e reducionista. os movimentos sociais atuais mais engajados. em algo similar à abordagem de redução de danos estimulada hoje pelo Ministério da Saúde. Além disso. que têm um nível de eficácia no tratamento mais alto do que o de qualquer dispositivo clínico e profissional formal. além da perspectiva unidirecional do AA. e é imprescindível e. isso implica que devemos. até hoje. A segunda diz respeito ao rol de dispositivos formais nos serviços. como ocorre hoje em alguns locais dos EUA. bem como de empoderamento dos usuários. de suporte mútuo. como grupos de suporte mútuo. as questões do n. por exemplo. estimulando a individuação psicológica e a formação de identidades pessoais e sociais mais flexíveis e criativas. impedindo. inclusive o próprio movimento de usuários em vários países. o processo doutrinário e associativo do AA é bastante complexo. o que implica também novas metodologias de trabalho concreto com os usuários. capazes de lidar com níveis crescentes de desafios. abordando. Eles também podem ser estimulados a ampliar sua compreensão sobre o alcoolismo e sobre a dinâmica psíquica na relação com as drogas. por fora da estrutura hierárquica do AA. podem ser capacitados a utilizar metodologias de reunião mais variadas do que aquela convencional do AA. bem como de estimular novos dispositivos de ajuda mútua. em primeiro lugar. pensamos que. Em terceiro. A primeira é a do estímulo à criação de dispositivos associativos voluntários alternativos. por mais que tenhamos elementos de críticas a alguns ou vários aspectos dessa tradição. dada a sua hoje já relativa longa história. qualquer serviço dirigido a abuso de álcool e outras drogas no Brasil conta com o apoio do trabalho do AA e grupos análogos. e na medida em que são assalariados dos serviços. ela está hoje difundida em todo o mundo. os serviços podem incentivar a criação de dispositivos de suporte mútuo. trata-se de prover linhas de tratamento e dispositivos de empoderamento individuais e grupais que ofereçam alternativas para os indivíduos que não se adaptam à abordagem do AA. Como se pode depreender dessa síntese esquemática. 32 2007 p. insubstituível na abordagem e no tratamento do abuso de drogas. Por exemplo: os conselheiros de álcool e drogas. Em nossa opinião. aprofundar nossa avaliação dessa tradição no país. a perspectiva que sugerimos é a da complementação: aqueles elementos que faltam ou são considerados problemáticos na tradição do AA devem ser fomentados e/ou providos em duas direções diferenciadas. a nosso ver. qualquer avaliação unívoca. de mudança na cultura e de militância social e política. e militância social e política. de defesa dos direitos. Essas alternativas poderiam ser fomentadas em fases mais avançadas de desenvolvimento dos grupos. ações de transformação do estigma e representações sociais na cultura e na sociedade. Além disso. o qual pode iniciar-se pela divulgação de informação sobre novos grupos e associações dissidentes ou com perfil diferenciado. inovação e aprofundamento na abordagem dos conflitos individuais e grupais.

durante o tempo que for necessário. desvinculado de religiões e política”. dos quais não se exige qualquer qualificação profissional formal prévia no campo. dirigido principalmente à prevenção do suicídio. deprimidas ou em crise psíquica sem indicação de internação. O CVV se autocaracteriza como um “movimento filantrópico. apenas quando estiverem em risco os princípios e a segurança do trabalho ou de qualquer pessoa. etc. da moradia.500 voluntários. mas requerendo apoio imediato. Resende. à valorização da vida e ao apoio emocional a pessoas angustiadas. decorrentes da constatação do aumento de suicídios nas grandes metrópoles. das alternativas de sociabilidade (no caso do alcoolismo. e no Brasil suas atividades se iniciaram em São Paulo em 1962. a nosso ver. bastando apenas o pagamento da tarifa telefônica. permanecendo restrito ao voluntário. no site da entidade): a) o compromisso com a provisão de apoio de fácil acesso. São Gonçalo e Volta Redonda). Além n. Niterói.trabalho produtivo. disponível a qualquer momento. Em caso de propensão ao suicídio. gratuito. Na tipologia de práticas e estratégias de empoderamento indicada acima. embora não necessariamente provido por usuários de serviços de saúde mental e familiares convencionais. o suporte oferecido. Esse tipo de iniciativa teve origem em projetos similares no exterior. mas também por visita pessoal. todos os dias do ano. correspondência e outros meios. Nova Iguaçu. os princípios que orientam o trabalho pregam uma integral disponibilidade dos voluntários. Em relação à primeira caracterização. particularmente nos fins de semana). No estado do Rio de Janeiro. 173-206 186 . distribuídos entre os 18 estados e o Distrito Federal. e que ficam disponíveis principalmente por meio de contato telefônico em postos abertos 24 horas por dia. sem fins lucrativos. Contam com o apoio e orientação de voluntários mais experientes. como um tipo intermediário de ajuda mútua e suporte mútuo. possui postos em cinco municípios (Rio de Janeiro. 32 2007 p. ou por meio de visita direta ao posto local. A tradição dos Centros de Valorização da Vida (CVV) Embora não se enquadre no perfil típico dos dispositivos associativos e de práticas de empoderamento de usuários e familiares. contando com cerca de 2. e excepcionalmente. Embora exigindo uma investigação ainda mais sistemática. quaisquer que sejam. O trabalho é provido integralmente por voluntários. sendo que na cidade do Rio conta com três postos. Em relação à segunda. 2001). Atualmente mantém 57 postos. os núcleos de CVV constituem um dispositivo importante de provisão de cuidado emergencial nãoprofissional e gratuito em saúde mental. c) os voluntários são orientados para não tentarem “influenciar ou impor suas próprias convicções. que geralmente assumem a coordenação dos postos. o trabalho do CVV pode ser classificado. nossa pesquisa no Rio de Janeiro permite adiantar os seguintes aspectos positivos (os trechos entre aspas correspondem ao texto do próprio CVV. assumindo a forma de entidade de utilidade pública federal em 1973. àqueles que procuram o CVV”. em diferentes bairros8. apresenta um perfil muito semelhante ao de projetos de suporte mútuo organizados pelo movimento internacional de usuários (Weingarten. de avaliação da cultura estimuladora do alcoolismo na publicidade e nos programas de TV. b) o trabalho inteiramente confidencial e sigiloso. solitárias. ao coordenador do posto. possui um dispositivo que sistematiza e valoriza a experiência acumulada no processo de ajuda aos que procuram o posto bem como a experiência de vida dos voluntários.

como uma mudança de estratégia dentro do movimento de luta pela reforma psiquiátrica. A partir daí. mas já sem sustentar essa inclusão apenas através de trabalho voluntário. no estado do Rio de Janeiro. visando ampliar as suas bases de sustentação. em Miguel Pereira. compostos principalmente por lideranças de profissionais. o movimento passou por uma profunda crise organizativa e política interna. são também orientados para respeitar o direito dos que procuram o apoio para à “liberdade de tomar suas próprias decisões. a de romper o contato a qualquer tempo e a de permanecer no anonimato”. bem como no processo de organização de associações e projetos de usuários e familiares. bem como a do movimento internacional de usuários (Weingarten. em articulações municipais. Nossa observação mais crítica não se dirige propriamente ao CVV. bem como buscando novas alianças com os outros movimentos sociais populares e com a sociedade civil em geral. Os núcleos e coletivos de militância do Movimento da Luta Antimanicomial O Movimento da Luta Antimanicomial nasceu em 1987. Entretanto o número de usuários e familiares vem crescendo efetivamente em seus encontros. dada a existência do CVV.disso. 173-206 187 . em sua vontade e potencial de ajudar os outros. De forma muito similar ao processo de reforma sanitária e psiquiátrica italiana. devem ser levadas em conta. que são valorizados em sua experiência de vida. que tinham se tornado muito restritas com a entrada das principais lideranças do movimento dentro do aparelho de Estado. visando colocar em xeque a própria existência do hospital psiquiátrico como recurso de assistência e adotando a experiência de desinstitucionalização italiana como inspiração. e o movimento tem tido um papel político fundamental como a força social mais avançada e autônoma do movimento mais amplo de reforma psiquiátrica. Tratase de um tema a ser incluído na agenda pública de pesquisa e serviços. 2001). núcleos de militância do movimento foram se formando nos serviços. em nosso país tanto o movimento de reforma psiquiátrica quanto o da luta antimanicomial são liderados por profissionais. foram se juntando também lideranças de usuários e familiares. na perspectiva do empoderamento. e a experiência do CVV. e são estimulados a se capacitarem em relação à experiência acumulada e a sistematizarem as diversas estratégias de ajuda e suporte aos que procuram os postos. em algumas regiões do país. ao longo dos anos 1990. A partir de 2001. às quais. quando ocorreu o último encontro nacional de forma unificada. d) o dispositivo e a metodologia de trabalho implicam um claro processo de empoderamento dos voluntários. na medida em que. mas à necessidade de os programas públicos de saúde mental não relegarem a questão da prevenção do suicídio e do acesso imediato e rápido a pessoas em crise de angústia e depressão apenas ao setor voluntário. com a consigna “Por uma sociedade sem manicômios”. 32 2007 p. regionais e estaduais9 em todo o Brasil. é possível incluir usuários em estágios mais avançados de recuperação nos projetos dessa área. inclusive a de suicídio. Vários encontros regionais e nacionais vêm sendo realizados desde então. Além disso. radicalizou os objetivos estratégicos. e suas atividades são predominantemente centradas até hoje na militância política direta. polarizando diferentes n. tornando-se a maioria absoluta dos participantes. gerando pelo menos duas correntes principais (a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial [RI] e o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial [MNLA]).

Assim. Embora a diferença de visões e o pluralismo sejam sempre importantes em qualquer movimento social. inclusive porque a divisão tem bases geográficas muito definidas. mas com núcleos na maioria dos estados. a corrente do MNLA se sustenta sem meios organizacionais próprios. além de algumas pequenas dissidências em cada corrente. o movimento brasileiro de reforma psiquiátrica tem os profissionais como vanguarda e principais ativistas. e seus posicionamentos têm baixíssima visibilidade pública. ajudar a organizar e sustentar-se nos grupos e associações de base de usuários e familiares. Essa base organizacional. utiliza uma rede comunicacional bastante precária. n. Tentaremos descrever as posições e dilemas com o máximo de impessoalidade. e seus ativistas indicam um custo econômico e pessoal muito alto para a militância. com algumas poucas exceções10. desde o início do movimento da luta antimanicomial. Como vimos. A análise abaixo visa montar uma humilde e concisa contribuição para essa reflexão de forma um pouco mais objetiva. centralizada em Brasília. cada uma das correntes tem realizado encontros nacionais e regionais de forma autônoma. via Internet. disponibilizando sua estrutura organizacional. 32 2007 p. Além disso. com base nos recursos locais mobilizados ad hoc para realizar cada evento ou encontro. estimulando a categoria e o SCP para que assumissem uma postura política mais à esquerda e promovessem a causa da luta antimanicomial e dos direitos humanos no campo da saúde mental. as lideranças que mais tarde se ligaram à RI estiveram mais ligadas ao Sistema Conselhos de Psicologia (SCP) – que inclui o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e seus Conselhos Regionais (CRPs) –. geralmente inexistindo a corrente oposta em cada um dos estados. Assim. possibilita uma maior eficácia na luta política dentro das diversas instâncias do Estado e maiores facilidades para a articulação política em todo o território nacional. para estimular a mobilização/organização do movimento e para promover serviços e eventos. Na medida em que as organizações médicas e de psiquiatria sempre foram mais ambíguas ou às vezes até contra a reforma psiquiátrica. para colaborar no debate dos desafios e das sugestões de encaminhamento mais adequadas para o atual momento. em suas articulações12. algumas das principais questões envolvidas neste quadro atual do movimento podem ser descritas da seguinte forma: a) A sustentação organizativa do movimento e suas bases políticas e sociais: Um dos grandes dilemas dos movimentos sociais populares em toda a história é constituído pelas bases econômicas e organizativas que asseguram a sua existência. a nosso ver. Isso tudo resulta em uma maior precariedade na base organizacional da corrente. praticamente impossibilitando a comunicação entre as correntes e dificultando a articulação de ações comuns mínimas em âmbito nacional com maior eficácia e cobertura geográfica. particularmente nas conjunturas em que o espaço político dentro da gestão estatal diminui.núcleos e grupos pelo país. Em paralelo. comunicacional e recursos para isso. com duas linhas institucionais mais importantes de suporte para polarizar a ação política. 173-206 188 . infelizmente o debate na luta antimanicomial tem sido muito polarizado e marcado por enfrentamentos com forte nível de pessoalização. o MNLA tem uma postura mais explícita e militante de mobilizar. enquanto ocupantes de cargos de gestão pública no campo da saúde mental e como gestores de organizações profissionais. mas deixando claros nossas próprias concepções sobre os pontos específicos discutidos11. prioridade que implica mínimos recursos organizacionais próprios. geralmente de cunho regional ou local. mantida apenas pelos recursos pessoais de suas lideranças.

Além disso. a existência de meios econômicos e organizacionais próprios muito estáveis. em relação a outras categorias profissionais. em ocasiões importantes algumas delas assumiram claramente a defesa dos interesses da maioria da população. nos quais lideranças de usuários e familiares em níveis mais avançados de recuperação e experiência possam promover. grupos de ajuda e suporte mútuos. . Há inúmeras formas de estimular isso. tanto o principal grupo de liderança da RI como grande parte das equipes gestoras de programas de saúde mental têm investido de forma pouco sistemática na disseminação de organizações de base e associações de usuários e profissionais.introdução em toda a rede de serviços de saúde mental do país de esquemas amplos semelhantes ao de conselheiros de álcool e drogas. há na atual estrutura do movimento um risco a ser considerado com seriedade. assumir-se como desafio a questão dos meios econômicos e organizacionais concretos para essas iniciativas. . As organizações profissionais. independentes do movimento social vivo – particularmente se sustentados em apenas uma categoria profissional e com uma diretoria muito centralizada . como. para além da militância política de lideranças mais individualizadas.desenvolvimento de pesquisas para conhecer a realidade desses grupos em todo o país. na perspectiva de buscar construir no médio e longo prazo um deslocamento mais efetivo do poder para o público alvo dos programas de saúde mental13. 173-206 189 .produção de cartilhas. 32 2007 p. a despeito de seus interesses corporativos. do ponto de vista da economia política de um movimento social: da mesma forma que uma sustentação unilateral do movimento na gestão pública. como organizar associações. e essa deve continuar a ser uma das prioridades para o movimento. em tese. Entretanto. como oficineiros ou assalariados. iniciativas próprias de grupos. por exemplo.maior divulgação das ações e projetos desenvolvidos pelas associações e grupos. como se deu com a psicologia. de defesa de direitos e mudança da cultura estigmatizante. etc. particularmente quando o movimento tem várias tendências internas.criação de fundos públicos para financiamento regular de projetos autônomos de associações de usuários e profissionais. a nosso ver.pode levar a um distanciamento e descolamento dessas lideranças das bases e da dinâmica mais real do movimento mais amplo no país. dada a ausência de mediações estáveis e regulares de legitimação de idéias e de decisões coletivas no conjunto dos atores e grupos do movimento social mais amplo. ele também aumenta a probabilidade de iniciativas isoladas e pouco representativas no movimento. principalmente no Brasil. por um lado.concursos públicos com prêmios para sustentação dos melhores projetos em realização ou a serem implementados. esse tipo de poder institucional mais autônomo pode ser funcional para sustentar uma vanguarda e ter eficácia imediata nas lutas políticas no Estado e na sociedade civil. através de: . . n.Em nossa opinião. bem como de abordagens efetivas de empoderamento. . há um grande mérito no processo de maior politização das organizações profissionais e de seu posicionamento pela luta antimanicomial. particularmente. Uma estratégia como essa implicaria colocar como prioridade hoje não só iniciativas de fomento à organização mais autônoma de grupos e associações. mas. constituem atores políticos fundamentais na nossa história e. vídeos e DVDs bem como de outros meios de educação popular. Se. . discutindo experiências mais relevantes.

houve um esvaziamento da Comissão Nacional de Reforma Psiquiátrica.a crítica ao governo Lula não pode ser totalizante. de crise aberta das políticas sociais e de 190 n. inclusive merecendo a premiação recente pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos. de fundo. por mais que possamos identificar algumas limitações na atual gestão da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. No campo da saúde mental. sem considerar a autonomia relativa de suas agências e gestores específicos. dos valores éticos e das expectativas dos movimentos sociais populares mais conseqüentes do país. que não estariam realizando a redução de leitos em hospitais psiquiátricos e se mostrariam coniventes com o desrespeito aos direitos humanos nessas instituições. temos que considerar.a gestão federal tenderia a abordar a reforma psiquiátrica meramente como um programa de governo. . e faltariam. em torno das denúncias das violações dos direitos humanos nas instituições psiquiátricas. . Entretanto. no âmbito governamental.a direção geral desta gestão tem avançado efetivamente na implementação da reforma em vários aspectos. sem apreciar a dimensão decisiva de sua construção social. vários núcleos da RI vêm adotando uma crítica bem mais explícita. aberta. e participar de forma produtiva na capacitação e educação permanente de trabalhadores e profissionais de saúde. a relação destes com a gestão federal de programas sociais específicos vem constituindo um debate muito acirrado.o governo federal não teria se posicionado “com a firmeza necessária”. . essa discussão nos remete para um debate mais complexo e estrutural. tem sido fundamental e de grande mérito. da produção de material de educação popular. e não consideramos que as limitações e críticas possíveis justifiquem algumas tentativas isoladas de algumas lideranças de sua desestabilização e substituição. de forma tecnoburocrática. 32 2007 p. até dezembro de 2006.associações e projetos. e particularmente do CFP (estimulada pelas lideranças principais da RI). Os principais pontos destacados em suas publicações e documentos14 em relação a isso são: . b) A avaliação do governo Lula e da atual gestão federal em saúde mental: Tendo em vista o distanciamento político do governo Lula dos ideais históricos. . 173-206 .a maior parte dos recursos destinados à saúde mental ainda continua financiando hospitais psiquiátricos. em pesquisas de avaliação de serviços. Não temos dúvidas de que a mobilização do Sistema Conselhos de Psicologia. direta e totalizante à atual gestão da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Além disso. Os movimentos e correntes de esquerda que passaram para a oposição aberta ao governo Lula tendem para uma crítica mais totalizante a todas as políticas. iniciativas decisivas e claras para reverter esse quadro. pelo menos dois aspectos: . no sentido de apurar responsabilidades diante da denúncia de várias mortes ocorridas em hospitais psiquiátricos. que não tiveram apoio efetivo inclusive entre vários setores da RI. etc.há um chamamento aos governos estaduais e municipais. a ser levado em consideração: quanto podemos radicalizar a política de desinstitucionalização de forma massiva em um contexto neoliberal de desinvestimento no setor público. .

representação e de política pública do Estado. Naves. Landim. mas não estatal. As organizações não-governamentais (ONGs) e o terceiro setor no campo da saúde mental Seguindo uma tendência presente em todas as sociedades ocidentais. Não temos dúvidas de que essas discussões são complexas. em Gohn. e os grupos mais comprometidos também buscam rigor e transparência na prestação de contas. que normalmente têm dificuldades imediatas de serem reconhecidas e inseridas nos canais de controle. e passaremos a focar as entidades do chamado terceiro setor como atores políticos do processo de reforma psiquiátrica no Brasil.governos pouco comprometidos com elas. visando à consolidação de uma agenda de iniciativas e lutas sociais. como em vários outros movimentos sociais populares. mas principalmente nos anos 1990. A análise sociológica e política do terceiro setor no Brasil indica um debate complexo e polêmico (por exemplo. Assim. à transformação de projetos filantrópicos. 173-206 191 . d) O setor apresenta um forte perfil de profissionalização técnica e administrativa. ainda. participação e de iniciativas voltadas para particularidades das demandas sociais. mas isso seria impossível no âmbito deste trabalho. o que envolve necessariamente outros setores da administração pública e. empresariais e de movimentos sociais em organizações não-governamentais (ONGs) e no que foi denominado terceiro setor. e) As iniciativas mais conseqüentes visam fortalecer o papel articulador no âmbito nacional e internacional. Nesse quadro. de forma autônoma em relação aos coletivos da luta antimanicomial. 2003). c) Nessa linha. consideramos como concluída por ora essa contribuição à análise do movimento da luta antimanicomial no atual momento. influenciando a sua visibilidade social e sua inclusão e reprodução na política pública formal. como profissionais e gestores de saúde mental. 32 2007 p. Entre outras. ou. com o objetivo de desenvolver uma atuação sociotécnica independente de suas inserções no aparelho de Estado. alguns dos coletivos do movimento mais amplo de reforma psiquiátrica também seguiram essa estratégia mais geral de se criarem ONGs especializadas em saúde mental. b) As iniciativas mais conseqüentes buscam estimular o poder demonstrativo de projetos bem-sucedidos. assistimos no Brasil. à dinamização das redes de n. ambientais. há um período razoável para que as iniciativas inovadoras sejam reconhecidas e assumidas pela esfera pública e estatal. sem gerar desassistência15. 2002. portanto. 1998. a partir dos anos 1980. e pela prestação de serviços de forma conveniada. Montaño. cheias de aspectos particulares. podemos assinalar as seguintes características importantes desse setor: a) Trata-se da emergência de uma esfera de características públicas. que pode agregar aos mecanismos convencionais da democracia um dinamismo efetivo de lutas sociais. que mereceriam algum maior aprofundamento. na maioria das vezes. nem sempre podemos garantir integralmente uma atenção adequada e responsável à comunidade. pelo apoio com sugestões e exemplos alternativos de ação. a interação com o Estado pode dar-se pela crítica e pressão política. No Brasil. 2000. ao aperfeiçoamento de sua gestão.

já que elas não devem participar agora apenas como representantes da sociedade civil. d) A crescente dependência das ONGs e de associações civis de financiamento estatal. No campo da saúde mental no Brasil. assinala que ainda não houve uma regulamentação mais global dos processos de licitação e gestão publica dos convênios com o terceiro setor. conseqüentemente. coerente e capaz de cobertura universal. sua capacidade de denúncia. na cidade do Rio de Janeiro: foi fundado em 1989. como sucedeu em Porto Alegre (RS) no início da década. precarização e perda dos direitos trabalhistas e de iguais oportunidades para o conjunto dos trabalhadores da área pública. Uma segunda linha de debates. denominada Marco Legal do Terceiro Setor.comunicação e ao amadurecimento de propostas para políticas públicas alternativas. o desenvolvimento do terceiro setor no Brasil apresenta também riscos. particularmente dos mais espoliados e excluídos. de crítica e pressão sobre a esfera estatal e a sociedade civil. somado à histórica cultura patrimonialista no país e ao atual contexto de impunidade na gestão pública. temos alguns bons exemplos de ONGs atuantes e que têm desenvolvido um trabalho extremamente relevante para o processo de reforma psiquiátrica. c) Da mesma forma. implica também uma nova identidade institucional. até mesmo. na representação em órgãos e conselhos de controle social. particularmente por parte de cooperativas de trabalho. vem possibilitando a emergência de inúmeras ONGs ligadas a esquemas de clientelismo e corrupção política. e agora em outros países. o que tem conseqüências. avaliação e controle. com a criação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). exigindo um incisivo processo de coordenação. mas conta também com a participação de lideranças de usuários. podendo ser claramente apropriado para adequar-se a políticas de terceirização e desresponsabilização maciça das obrigações estatais para com as demandas sociais e ambientais da sociedade.790. ausência de concursos públicos e massificação de contratos de trabalho provisórios e precários. privativistas. Além disso. que aponta nessa legislação uma forma de estímulo à terceirização e privatização do setor público. ele pode ser utilizado para estimular ou manter o atual processo de desqualificação do trabalho. dificultando uma ação coordenada. 32 2007 p. na Lei 9. o que. no extremo. que aflorou nos jornais no país em 2006. 173-206 . encabeçado por lideranças profissionais. assistencialistas e. diminui sua autonomia política e. Mas essa lei ainda convive com a superposição das leis de incentivos fiscais. os atestados de utilidade pública e de fins filantrópicos. b) Ele se desenvolve em um contexto de neoliberalismo e de desinvestimento em políticas públicas. Exemplo de atuação nessa linha é a organização do Fórum Social Mundial e de seus encontros anuais. Assim. por meio de processos de terceirização. na medida em que passam a ser também agentes estatais. e é muito vulnerável a sua apropriação por interesses particularistas. Vejamos dois desses exemplos: a) O Instituto Franco Basaglia (IFB). por elementos corruptos. Podemos resumir os principais problemas nos seguintes pontos: a) O terceiro setor implica uma fragmentação da agenda e da ação pública. Vem atuando em: 192 n. f) O perfil do terceiro setor foi regulamentado em 1999. inclusive. oriunda da esquerda. particularmente nos processos de terceirização e convênios. Há pelo menos duas linhas principais de debate em relação a ela: a primeira.

pelo seu processo de elevada profissionalização e institucionalização interna.promoção de eventos na cidade. Funciona em convênio com o Ministério da Saúde. a partir de uma equipe de lideranças profissionais remanescentes de um serviço residencial criado no governo Cristóvão Buarque no Distrito Federal.implementação de projetos de defesa dos direitos dos usuários e familiares.desenvolvimento de um banco de dados na Internet (www. pois efetivamente constituem um fenômeno social. por meio do programa SOS Direitos do Paciente Psiquiátrico. No limite. Esses casos serão discutidos mais à frente neste texto. podem ser identificadas como integrantes do terceiro setor típico no país. tanto recrutando e gerindo os recursos humanos como colaborando na própria gestão dos serviços. debates. saúde mental. em convênios com os governos municipais das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. serviços. . ao se transformar em “mais um braço do aparelho do Estado”. promoção de eventos da luta antimanicomial e um dinâmico sítio na Internet (www. . nossa pesquisa identificou nesse debate pelo menos três posições polares: . . . n. Há também casos de associações de usuários e familiares que assumiram projetos de moradia e trabalho com financiamento público. trabalhadores e “amigos” do campo da saúde mental e de outros movimentos sociais. sua articulação com o Estado e sua perda de autonomia e independência política.assessorias e projetos de implantação de novos serviços inovadores de saúde mental.formação de recursos humanos para o campo. Vem atuando nas seguintes frentes: .br).inverso. e que foi gradualmente sucateado no governo seguinte. político e institucional complexo e polêmico. inspirada principalmente em radicalizações teóricas de algumas idéias particulares de Foucault.promoção de informação. além de notícias diárias sobre saúde.uma perspectiva que poderíamos chamar de “posição antiestatista”. como exposições. edição de livros e cartilhas. legislação. com características similares às das ONGs e que. fundada em 2000. usuários e familiares. profissionais.org. cursos e atos políticos. de forma conveniada com governos municipais e estaduais. em Brasília: é uma ONG mais recente. Como adiantamos acima.ações de consolidação de serviços substitutivos. ou de perspectivas basistas e anarquistas. b) O Instituto de Convivência e de Recriação do Espaço Social (Inverso). álcool e outras drogas. que funciona em parceria com um café e um espaço aberto de convivência e reuniões com usuários. inclusive com a produção de um boletim informativo. da esquizoanálise. pesquisadores. . etc. informação atualizada sobre eventos. Faz forte crítica ao terceiro setor. como seminários e congressos. publicações.ifb. 32 2007 p. portanto. Propõe-se ser “o INVERSO das estruturas e práticas institucionais de tratamento da doença mental.abertura de uma casa. através de cursos e eventos. difusão da cultura antimanicomial e pesquisa. particularmente os CAPS. no qual reúne dados gerais.. e se constitui hoje em fonte de pesquisa para estudantes. de recriação de novas formas de conviver no mundo” (folheto de divulgação). familiares.org. . gestores. 173-206 193 . a avaliação e o debate crítico sobre o desempenho dessas ONGs no campo da saúde mental são longos.br). informal e aberto.

a expansão dos programas sociais deveria ter um perfil exclusivamente estatal. familiares e “amigos” não ligadas a serviços públicos de saúde mental. ainda. ou o caráter muito particular das iniciativas de ajuda e suporte mútuos que desenvolvem. Do outro lado. ganhando gradualmente reconhecimento e legitimidade. aspectos emancipatórios muito positivos. essa posição intermediária considera que o terceiro setor e as ONGs constituem um elemento essencial de uma estratégia mais ampla de articulação política e de inovação. . defendida por nós. e de aumentar a capacidade da sociedade para lidar com a diversidade e a complexidade crescente das demandas por serviços sociais. o maior risco a ser evitado. Nessa direção. de saúde e de saúde mental. Essa posição intermediária é melhor descrita em outro trabalho (Vasconcelos. seria a apropriação perversa dessa estratégia pelas políticas neoliberais. com acesso a maiores recursos sociais e culturais. temos uma perspectiva que poderíamos chamar de “posição estatista ortodoxa”. 173-206 . inevitável e crescente em sociedades complexas como a ocidental). nas sociedades democráticas contemporâneas. em que projetos inovadores normalmente são iniciados autonomamente pelos movimentos sociais e pelo terceiro setor. bem como para defender seus pontos de vista e interesses na sociedade mais ampla. Tendo em vista a ausência de políticas sociais específicas para a maioria desses casos.. geralmente de origem social nas classes média e alta. riscos que devem ser cuidadosamente monitorados e criticados. para se forçar então sua apropriação e institucionalização por programas formais do Estado. inspirada em visões muito particulares do marxismo. 2003. Associações de usuários. ampliar e dar visibilidade social a essa experiência de associativismo independente para prover suporte e serviços mais estáveis. 32 2007 p. no sentido de massificar a oferta de programas sociais via sua terceirização em ONGs. desinvestimento em políticas sociais e de precarização dos direitos trabalhistas dos servidores públicos. Cavalcante. 2003) e que acabaram desenvolvendo iniciativas de ajuda e suporte mútuos. Acima de tudo. Os elementos dos dois lados da argumentação já foram resumidos anteriormente.na direção oposta. e não precário.há. 2003). Nessa visão. sua importância cresce particularmente neste atual contexto neoliberal de crise do Estado e das políticas sociais em geral. esses familiares e/ou usuários passam a compreender a importância de consolidar. passemos agora às associações e grupos independentes da rede de serviços públicos de saúde mental. que indicamos aos leitores interessados em aprofundar essa discussão. 1993. 194 n. que avalia o terceiro setor e as ONGs como um fenômeno histórico progressivo (ou seja. fundadas a partir de iniciativas independentes e difusas da sociedade civil Essas associações foram criadas a partir de iniciativas independentes de usuários ou de familiares. uma posição intermediária. apresentando. exigindo forte vontade política preventiva. como vem ocorrendo em muitas áreas e níveis de implementação de política social no Brasil. Tendo já evidenciado as linhas centrais do debate acerca do terceiro setor e das ONGs. como aqueles desenvolvidos pelo terceiro setor. que enfatiza sua crítica ao terceiro setor como um todo como uma manifestação das ideologias neoliberais e de suas políticas de terceirização. mais complexa. Rosa. a experiência já consolidada das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAES)16 no país. por um lado. cuja experiência de contato com o transtorno mental grave normalmente teve profundo impacto em suas vidas (Tsu. e por outro.

São exemplos desse tipo de dispositivo: a) a SOSINTRA. podem ser sintetizadas nos seguintes pontos: a) Essas associações geralmente visam inventar e prover formas de cuidado mais integrais e autonomizadoras. criando núcleos em vários estados da federação. com grupos de ajuda mútua e alguns serviços de suporte psicológico profissional em várias cidades de São Paulo. c) a AFDM . bem como a única usuária associada na época. É considerada a primeira associação voluntária de familiares do país no campo da saúde mental. em contraste com a oferta de serviços da época. o Jornal Mente Livre.psc. fundadas a partir da experiência pioneira iniciada em 1983 em São Paulo. se excluirmos os campos do alcoolismo e da deficiência mental. já que prefigurou valores. normalmente denominadas “Associação dos Amigos dos Autistas”. estavam entre as raras lideranças no país a assumirem uma identidade aberta e um militância explícita no campo da saúde mental em escala nacional.silvanaprado. vem passando por um processo interno de dificuldades e desmobilização. o processo judicial de suspensão da curatela de Graça foi promovido pela associação. Hoje conta com um site importante (www.br). Assumiu uma postura explícita e uma militância aberta contra o processo de reforma psiquiátrica no Brasil e contra a nova lei psiquiátrica aprovada em 2001. ainda nos anos 1980. nos anos 1990. a partir da década de 1930. Sua experiência é relatada e avaliada em livro (Cavalcante. no início dos anos 1990. cujos grupos e entidades se iniciaram anteriormente. obtendo suporte financeiro e organizacional de donos de hospitais psiquiátricos privados. buscando socializar o peso e o tempo de cuidar privatizados na invisibilidade da n. Em 2003 constituía uma rede de 28 associações organizadas por pais e 19 entidades distribuídas em 13 estados e no Distrito Federal. 32 2007 p. a partir dos quais trocam experiências e fazem contatos com os mais diversos tipos de pessoas. 2003). Rio de Janeiro e Minas Gerais. quando se expandiram no país. particularmente após 2003. particularmente aqueles com problemas semelhantes. mais tarde. José Souza de Paula. para a defesa dos direitos dos familiares e usuários.Associação de Familiares de Doentes de Saúde Mental -. fundada inicialmente na cidade do Rio de Janeiro. A SOSINTRA teve um papel inspirador e pioneiro na reforma psiquiátrica. estado de São Paulo. d) o APOIAR. Além disso. que abrem e disponibilizam suas vivências pessoais na Internet. como uma associação de familiares e “amigos” de portadores de transtorno mental voltada inicialmente para iniciativas e projetos de trabalho. fundada no Rio de Janeiro em 1978. advogada moradora em Franca. práticas e várias características que as associações de usuários e familiares iriam ter mais tarde. processo no qual teve destaque o Dr. a partir de nossas pesquisas. Graça Fernandes. Algumas das principais características e desafios desse tipo de iniciativas e associativismo. a partir de sua experiência pessoal de depressão e transtorno do pânico e de seus contatos com grupos semelhantes nos Estados Unidos. b) a rede das AMAs. Nos últimos anos. conhecido como o primeiro advogado no país a assumir a defesa profissional dos direitos dos usuários e familiares em saúde mental como militância social. ganhando repercussão exemplar. também associado da SOSINTRA. seus associados familiares. e) vários sítios e blogs pessoais de portadores de transtorno mental. No início dos anos 1990. para o qual remetemos o leitor interessado no tema. associação de ajuda mútua fundada por Silvana Prado. 173-206 195 . socialização e moradia independente e.

Nesse mesmo tópico. já que o trabalho voluntário é sustentado pelo carisma pessoal e pela busca de resposta aos interesses imediatos. como é o caso da AFDM. pois normalmente recaem sobre as mulheres. 1989. há casos de associações cuja articulação com instituições psiquiátricas convencionais vai além da ideologia e identidade coletiva. Os países marcados pelo catolicismo e pela cultura latina. No Brasil. e também do ponto de vista comparativo internacional. com uma cultura mais hierárquica e de forte peso nas relações comunitárias. pois visam garanti-lo sem institucionalização após o inevitável envelhecimento e morte dos pais cuidadores (Giannichedda. 196 n. como uma clara dimensão de gênero. Um sintoma típico desse processo é o uso do sistema de diagnóstico psiquiátrico convencional para construir a identidade da associação. voltado apenas para os filhos dos familiares diretamente envolvidos. indicadas acima. sem desenvolver linhas de atuação mais universalistas de caráter público. sem um claro perfil autonomista e independente em relação aos diferentes interesses de cada conjunto de atores. Giannichedda. aos serviços e aos profissionais (Vasconcelos. pessoais. 173-206 . 1992a. a) Do ponto de vista comparativo internacional. 1989. Vasconcelos. Outra implicação disso é a possibilidade de o grupo ser muito seletivo e excludente em relação a novos membros. Além disso. 32 2007 p. Felizmente. passando pelo financiamento. usuários. b) Uma questão central nesse tipo de associativismo diz respeito às bases culturais e de conhecimento que balizam a definição da identidade do grupo e orientam as suas práticas. como. tendem a produzir geralmente associações de familiares ou associações mistas. no caso muito comum em que os interessados não têm diagnósticos claros. 2003. como naquelas que reúnem portadores de uma síndrome ou transtorno específico. O caso da AFDM no Brasil é um caso extremo dessa tendência. com sua cultura predominantemente protestante e individualista. às instituições e profissionais da medicina. estas últimas incluem familiares. Um outro risco é as associações de familiares assumirem um perfil mais particularista. Weingarten. existem hoje no país inúmeras associações independentes de familiares que apresentam um perfil universalista. São também resultados do dilema geracional do cuidado familiar. O risco maior é em relação ao paradigma. 1992). São mais propensas a buscar abordagens mais médicas para o transtorno mental como estratégia de desculpabilização da família e chamam a atenção para o risco da reprivatização do cuidado na família em políticas de desinstitucionalização psiquiátrica. por exemplo. c) Esse tipo de processo associativo é altamente dependente das características biográficas. “amigos” e profissionais de forma indistinta. tanto na Europa mediterrânea quanto em outros continentes. que são historicamente hegemônicos e se difundem pelo conjunto da sociedade civil e pela cultura.vida familiar. 2000). o que gera um perfil muito conservador. 2001). em um contexto de menor disponibilidade da mulher para a produção do cuidado dentro da família (Vasconcelos. fortalecendo o saber médico e modulando as práticas do grupo dentro de seus limites e interesses profissionais. tendem a apresentar organizações independentes de usuários e familiares e com um perfil mais autonomista. como é o caso de várias AMAs. os países do norte da Europa e anglo-saxões. suporte institucional e profissional. e da visão de mundo de seus fundadores ou lideranças. as associações apenas de familiares tendem a apresentar um perfil e posicionamento político mais vulnerável ao conservadorismo em relação à reforma psiquiátrica e aos ideais antimanicomiais. bem como suas articulações concretas com instituições e profissionais de saúde mental. Rosa.

mas sem ligação orgânica prévia com o campo da saúde mental. trabalhadores e “amigos” ligados a profissionais e serviços de saúde mental. inclusive. mas que têm como objetivo central a reivindicação junto ao poder público de montagem desses serviços. Esse grande grupo compõe a maioria dos dispositivos associativos que temos hoje no país. bem como os vínculos com os serviços e o aparato estatal. ser tipificada por mais de uma das classificações a seguir: a) Associações que surgem onde não existem ainda serviços. podemos agora partir para conhecer as associações ligadas a serviços de saúde mental. o que lhes permite uma certa comunhão com os ideais de empoderamento dentro dos serviços de saúde mental. com a emergência dos novos serviços de atenção psicossocial. no Rio de Janeiro. a vinculação com os serviços profissionais e o aparato estatal tendem a gerar problemas novos. é importante observar que uma associação concreta pode. mas que reivindicam principalmente a provisão destes junto ao poder público: n. associação de familiares e “amigos” surgida no atual IMAS. em Jacarepaguá. já sob influência da reforma psiquiátrica. Associações e grupos de usuários. Por outro lado. particularmente aos novos serviços de atenção psicossocial Como indicado anteriormente. 173-206 197 . por iniciativas que partem principalmente de trabalhadores de saúde mental. conhecida até recentemente como Colônia Juliano Moreira. São geralmente mistos. acabam por se tornar perfeitamente funcionais para a lógica de desresponsabilização do Estado em relação às necessidades coletivas da população. com vários riscos para uma perspectiva de empoderamento voltada para os interesses popular-democráticos. Indicadas as principais observações acerca das associações resultado de iniciativas autônomas na sociedade civil. familiares. Alguns têm experiência anterior em alguma forma de militância social e popular. Um exemplo típico desse tipo é a APACOJUM. ligadas a serviços psiquiátricos mais convencionais. agregando familiares. Dada a ligação histórica ou organizacional mais direta com o ideário da reforma psiquiátrica. Entretanto podem também incluir simpatizantes individuais com interesse biográfico ou existencial no tema. a atuação de associações civis provedoras de serviços e de iniciativas de ajuda e suporte mútuos. Há outros casos também de associações que se organizam em locais onde não existem serviços de atenção psicossocial. muitos dos riscos assinalados para os dispositivos associativos independentes não existem ou ocorrem com menos freqüência. usuários e os chamados “amigos”. Incluem também organizações e grupos associativos e comunitários como também populares que originalmente tinham um perfil mais amplo de atuação e passam também a abraçar o trabalho no campo. particularmente nos anos 1980. Nesse amplo grupo. esses dispositivos associativos surgiram particularmente a partir dos anos 1990. tendo em vista as características do processo organizacional e dos atores mais atuantes.d) No atual contexto de neoliberalismo e crise das políticas sociais. usualmente trabalhadores e profissionais de saúde mental mais comprometidos com a luta antimanicomial. é necessário distinguir subtipos. Dado o caráter multidimensional da caracterização feita. para a luta antimanicomial e para o conjunto do processo de reforma psiquiátrica. 32 2007 p. Entretanto há casos de associações anteriores. quando apresentam um perfil exclusivamente voluntarista e assistencialista.

Nesses casos. ou mesmo centralizador. como os CAPS. usuários. grupos e lideranças de outros movimentos sociais populares. b) Dispositivos associativos formados a partir de serviços já estabelecidos e fortemente dependentes deles e dos profissionais: Esse grupo pode compreender apenas uma fase inicial dos dispositivos associativos. A liderança do processo coube a poucos profissionais politizados.a Associação Chico Inácio. inclusive. ou dada a atuação mais centralizadora das lideranças originais de trabalhadores e profissionais. 32 2007 p. em regiões ou serviços nos quais não há tradição de organização independente. geralmente partem de trabalhadores e profissionais defensores da causa. na maioria dos casos. que foi fundado recentemente. oficinas. n. e a maioria dos seus membros ativos são usuários. o risco político e institucional para a perspectiva do empoderamento.Esse primeiro tipo corresponde a iniciativas geralmente organizadas por trabalhadores vinculados à luta antimanicomial. 173-206 198 . Entretanto esse perfil pode manter-se por períodos de tempo mais longos. inclusive. ganhos secundários. essa dependência é mantida por um viés paternalista. Essas associações assumem. o que é bastante compreensível. particularmente a provisão de serviços de atenção psicossocial. A associação assumiu um papel proeminente de reivindicação junto às autoridades para a abertura de um CAPS. então. estado no qual até recentemente só existia um hospital psiquiátrico convencional e dois ambulatórios. ou se apresentam um perfil radicalmente autonomista. assistencialista. que mobilizam outros trabalhadores. convênios com as respectivas prefeituras para financiar tais atividades. Tendo em vista a preservação das associações e das pessoas envolvidas. Isso se dá geralmente onde há apenas serviços convencionais de psiquiatria ou mesmo ausência de quaisquer serviços. em uma região em que a maioria dos municípios vizinhos não possui nenhum serviço substitutivo. Esse tipo de associação geralmente tem um perfil muito combativo e constrói laços significativos com outros movimentos sociais. para “segurarem minimamente a organização” até que o estímulo ao empoderamento de lideranças mais autônomas dos usuários e familiares possa gerar frutos e elas tenham a possibilidade de assumir a liderança do processo. contudo. de Ipatinga. como objetivo principal. Nesses casos. . defesa dos direitos e eventos de combate à cultura manicomial e de exclusão de pessoas diferentes. São exemplos desse tipo: . Outras vezes. às vezes conseguindo. da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica é claro. em um contexto de desengajamento dos demais trabalhadores de saúde mental. familiares.a Associação Loucos por Você. esses líderes podem às vezes manter o controle do processo organizativo por razões táticas. possibilitando. Algumas delas desenvolvem iniciativas de ajuda e suporte mútuos. Os limites e riscos políticos potenciais podem existir se elas não investem na mobilização dos demais trabalhadores de saúde mental. reivindicar avanços na assistência local e regional de saúde mental. Teve início em 1999 e já realizou uma lista de atividades e eventos fortemente influenciados pelos ideais antimanicomiais. em Manaus. já completamente abarrotados. sem reivindicar do Estado as suas responsabilidades na provisão de serviços de atenção psicossocial substitutivos. o que não é o caso das duas associações citadas. usualmente ligados ao movimento de reforma psiquiátrica ou luta antimanicomial. Amazonas. Minas Gerais. manipulações e corrupção. em 2006. clientelista. dado que a tomada de iniciativa e o estímulo. autoritário. exemplos concretos não serão indicados. contando com um convênio com a prefeitura local.

independente e universalista. 32 2007 p. d) Associações que nascem no âmbito dos serviços. elas ficaram estarrecidas com a gravidade da situação encontrada e resolveram enfrentar o problema de forma n. mas que desenvolvem um forte viés autonomista e independente: Existem casos de associações nascidas . vinculada ao Conselho Nacional de Saúde. Também podem atuar nas diversas instâncias de controle social no sistema de saúde e em campanhas reivindicativas do campo específico da saúde mental. não necessariamente ligadas ao campo da saúde mental. Luís da Rocha Cerqueira. bem como em capacidade de atuação específica no campo da saúde mental. para outros usos pela comunidade vizinha. foi realizada uma pesquisa-ação do quadro de saúde mental da população dos bairros populares de referência do posto. nascida no interior do CAPS Prof. o cargo de representante nacional dos familiares na Comissão Nacional de Reforma Psiquiátrica. Quando o diagnóstico foi apresentado às lideranças e organizações populares da região. na cidade de São Paulo. no Engenho Novo). Outro exemplo histórico e exemplar é o CISC . em Brasília.no âmbito de serviços. familiares e profissionais no ECCO – Entidades do Centro Comunitário.ou mesmo que se mantêm . mas também como atores políticos na sociedade civil mais ampla. mas que em seu processo de fortalecimento ampliam a sua rede de articulações e de vínculos com outras entidades e organizações do movimento popular. 173-206 199 . Um exemplo típico desse tipo de dispositivo é a Associação Franco Basaglia. nos movimentos sociais no campo. ganhando significativamente em autonomia. Elas tendem a assumir um papel importante no desenvolvimento de iniciativas de ajuda/suporte mútuo e na defesa dos direitos dos usuários e familiares dentro dos serviços. ocupou até recentemente. Exemplos significativos são o trabalho associativo de usuários. força social e política mais aberta. que incluiu um amplo projeto de saúde mental de linha comunitária dentro do conjunto de organizações populares da região da Cabana do Pai Tomás. Nesse processo. desde o final dos anos 1980. em uma obra hoje considerada de referência na temática da família e saúde mental. que funcionam dentro do Instituto Nise da Silveira (antigo Pedro II.c) Associações que nascem dos ou nos serviços. em 2005. no Rio de Janeiro. anteriormente de caráter estritamente asilar. lançando-se com uma organização mais autônoma. mas que ampliam sua articulação e sustentação em outras entidades e organizações do movimento popular: Existem casos de associações ou entidades que são formadas no interior de serviços convencionais de saúde e saúde mental. fortalecendo a associação específica ali existente. Outra associação que desenvolveu um perfil de atuação desse tipo é a já citada APACOJUM. mas que conseguem superar a fase inicial de dependência dos profissionais e dos recursos organizacionais dos serviços. como também em mobilizações mais gerais na sociedade. no Rio de Janeiro. A partir de um posto de saúde e de seu atendimento de mulheres identificadas por um sofrimento psíquico difuso. Iracema Polidoro. independência. outras associações e entidades populares da região. aceitaram o convite e também passaram a se preocupar com as questões do campo da saúde mental. em Belo Horizonte.Centro Integrado de Saúde Comunitária. cuja experiência foi sistematizada por Melman (2001). particularmente no movimento da luta antimanicomial e no movimento mais difuso dos usuários e familiares em uma amplitude espacial mais ampla. cuja líder principal. colaborando para a formação de novos dispositivos associativos. aliadas a outros movimentos sociais. Essa ampliação se deu no processo de abrir o espaço de uma instituição.

que já existiam de forma difusa na região. Os objetivos do centro incluíam estimular e sistematizar inúmeras práticas e projetos autônomos de base popular. e mesmo manipulação e corrupção. o processo é inteiramente relatado com riqueza de detalhes pelo psicólogo Willian Castilho Pereira (2001 e 2004). a gestão de projetos com financiamento público provoca uma mudança efetiva no status institucional dos ativistas dessas entidades. bem como da PUC-Minas. vetou de forma peremptória o financiamento da experiência. e) Associações que nascem diretamente ou cuja organização passa a ser polarizada pela transferência de recursos estatais para manutenção de projetos de suporte mútuo: A literatura acerca de movimentos sociais no Brasil já vem assinalando uma tendência à institucionalização de vários dos atuais movimentos no país. de forma independente do Estado. a coordenação da saúde mental do município. dada a necessidade de gerir mais autonomamente projetos de suporte mútuo. Com o apoio da Igreja Católica e de suas comunidades de base locais. é uma realidade bastante complexa e que precisa ser investigada com mais cuidado. este representa geralmente a passagem a um padrão de organização e relações institucionais muito dependentes de mobilização. negociação e avaliação dos recursos e projetos. ou criar outras novas. fundaram o CISC. O resultado desse processo. às vezes massivo. que tivemos o privilégio de poder acompanhar e sistematizar (Vasconcelos. mas sempre inovando em relação às práticas convencionais de psicologia. 2000). às vezes formadas apenas por trabalhadores de saúde mental. de programas sociais pelo Estado. inserida em um governo eleito pelo PT. de defesa dos direitos e de reivindicações. que mantinha um projeto de extensão em psicologia na área. Em se tratando da saúde mental. Infelizmente. não conseguiu reverter a decisão. Mais tarde. mas sem abrir mão de sua gestão própria dos projetos. suplantando o papel anterior de organização dos usuários e familiares. particularmente a partir dos anos 1990. Além disso. em avaliações mais sistemáticas. 32 2007 p. que. 173-206 . particularmente na área de trabalho e dispositivos residenciais. para modalidades de psicologia comunitária. também ligada ao movimento da luta antimanicomial. a nosso ver. 1992b). gerando um enorme embate sobre a proposta. Para os leitores interessados em um maior conhecimento dessa experiência tão rica e inovadora. centralização. No caso de associações ativas existentes antes do convênio. há casos recentes de associações que chegaram a desenvolver um perfil mais autonomista e independente. contudo. criadas diretamente para a execução desses projetos. com controle das organizações populares locais. ou voltadas quase exclusivamente para a execução gerencial dos projetos. a principal liderança profissional no processo. tendência incluída no atual processo de terceirização.coletiva. os movimentos sociais e seus dispositivos associativos passam então a se constituir e a atuar como agências semi-estatais do terceiro setor (Gohn. autoritarismo. mas que. Constatamos também a existência de entidades sem fins lucrativos. por não concordar com essa modalidade não especificamente estatal de serviços de caráter público. as ONGs. essas organizações passaram a reivindicar da prefeitura um financiamento específico para as atividades do CISC. sem um claro processo anterior de organização autônoma. de associações de moradores. Como vimos anteriormente. o que naturalmente não foi possível no âmbito do presente estudo. aumentando a probabilidade de uma ainda maior dependência do Estado e de profissionais. 200 n. passam a receber recursos financeiros diretamente do Estado ou diretamente dos serviços. ou mesmo associações de usuários e familiares.

tomado aqui em uma perspectiva crítica. da decoração. sobre as quais tem havido um número razoável de pesquisas e investigações17. exigiria licitação na gestão estatal. que serão muito bem-vindas.particularmente para efeito de participação em conselhos de controle social de políticas públicas. com maiores possibilidades de experimentação de modalidades diferenciadas de contratação de trabalhadores. diferentes formas de pagamento aos produtores. associativismo e empoderamento de usuários. 32 2007 p. a luta antimanicomial e as estratégias de empoderamento abordadas aqui. sobre a própria relação entre o processo de reforma psiquiátrica. Nossa sugestão. n. o presente trabalho significa uma sistematização mais global de uma pesquisa ainda em andamento. gestão do dinheiro comum. críticas e depoimentos sobre suas experiências. procuramos esboçar uma avaliação inicial de seus efeitos de empoderamento ou “desempoderamento” . com maior autonomização e empoderamento dos usuários. variadas modalidades de supervisão por profissionais. ampliando a flexibilidade para experimentação de diferentes trabalhos mais adequados aos usuários. vai não só no sentido de se considerarem as tendências mais gerais sobre o terceiro setor no Brasil. que precisam ser levadas em conta neste debate. e que deverá ter outros desdobramentos. 173-206 201 . A realidade que encontramos em algumas experiências concretas mostrou um lado mais positivo desses projetos: uma maior flexibilidade para a montagem e gestão diária de projetos. mas principalmente no de propor estudos mais aprofundados sobre o tema no campo específico da saúde mental no país. como móveis e eletrodomésticos. Contudo pensamos que temos alguns elementos para indicar algumas conclusões mais amplas. particularmente no atual contexto de políticas neoliberais. citando exemplos. etc. Pensamos que o leitor pode contribuir enormemente para ela com sugestões. familiares e trabalhadores do campo da saúde mental em todo o país.para os diversos atores institucionais e políticos do campo. Considerações finais Em primeiro lugar. Dentro da cada tipo. em relação ao que ocorreria se estivessem inteiramente sob a gestão estatal. encaminhamentos e novos estudos .com sugestões para debate. gestão do dinheiro arrecadado (o que seria impossível na gestão estatal). Acreditamos que a variedade e a complexidade das experiências em curso e do campo impedem a produção de conclusões gerais válidas para todos os tipos de dispositivos sistematizados aqui. essa discussão nos remete para todas as observações críticas levantadas na seção acima sobre o terceiro setor. Um exemplo é a formação de dispositivos residenciais singularizados. aquisição e venda de maquinaria. Projetos de trabalho e cooperativas no campo da saúde mental também se beneficiam dessa autonomia. A pretensão foi realizar uma análise descritiva dos diferentes tipos de dispositivos de organização. na medida em que essas lideranças passam a ter um status misto de representantes da sociedade civil e. Por outro lado. comprometida com as lutas e interesses populardemocráticos no país e com a luta antimanicomial. tópico em que os estudos mais sistemáticos e rigorosos ainda são raros. Isso é fundamental para determinadas iniciativas em saúde mental. A flexibilidade de projetos terceirizados permite aos futuros usuários participar diretamente da escolha e compra dos móveis. A aquisição de bens duráveis. então. dos eletrodomésticos e da gestão diária da casa. etc. a partir dos conceitos e estratégicas de empoderamento. ao mesmo tempo. de gestores. com escolha prévia e padronização dos artigos.

mas os elementos que já temos hoje no campo são indícios claros nessa direção. onde eles têm um protagonismo crítico e inovador muito importante em saúde mental. como também dividem o peso do cuidar. Esta n. dispositivos e estratégias de empoderamento que poderíamos estar estimulando de forma mais sistemática colaborando na organização de base de um conjunto bem mais amplo de usuários e familiares.Em nossa opinião. também devemos considerar nossas utopias de um futuro mais distante. Essas novas formas de cuidado prescindem das instituições fechadas. Queremos não só uma sociedade sem manicômios. Estado e profissionais. As sugestões que apontamos aqui não partem apenas da avaliação da realidade brasileira. mas também uma sociedade não pautada pela indiferença e a exclusão e. mas também e fundamentalmente do acompanhamento do movimento de usuários e familiares no âmbito internacional. já se mostram hoje na atenção básica à saúde e nas políticas oriundas dos estatutos da criança/adolescente e do idoso. avaliam a intimidade das nossas relações e os nossos corpos. que ficou historicamente nos ombros das mulheres. nós. familiares e de trabalhadores em saúde mental no país. verdadeiras máquinas de intervenção nas esferas mais íntimas das pessoas. têm valorizado quase exclusivamente a formação e a militância política dos usuários e familiares. Entretanto. poucos núcleos do movimento e gestores assumem essa bandeira de forma mais incisiva. entram em nossa privacidade. Como indicamos na descrição e avaliação da gestão pública e do movimento da luta antimanicomial. Algumas iniciativas em curso. hoje constituímos no Brasil uma sociedade desigual e combinada. É verdade que ninguém tem “bolas de cristal” capazes de visualizar o futuro. verdadeiros Big Brothers de nós próprios e de todos os cidadãos comuns. batem nas portas das casas. As novas modalidades socializadas de cuidar usam instituições abertas. que mistura elementos de sociedades tradicionais e hierárquicas com elementos culturais mais contemporâneos. tanto no SUS em geral como em saúde mental. mas também. na invisibilidade dos lares e da vida privada. estadual e municipal. no território. particularmente a partir dos anos 1990. também estamos construindo. individualizadores e autonomistas daqueles países. mas procuramos também mostrar suas limitações particularmente no campo da saúde mental. algumas vezes voltados para a sua atuação nos conselhos de política de saúde. mas particularmente para todos aqueles marcados por formas de dependência e sofrimento. o papel e a importância desses dispositivos e da perspectiva de empoderamento não foram devidamente reconhecidos pela maioria dos atores sociais e políticos da reforma psiquiátrica no Brasil. que assuma as bandeiras da garantia da cidadania e do cuidado para todos os cidadãos. apesar do estímulo à formação e do crescimento do número de dispositivos associativos de usuários. Apesar das diferenças socioculturais. Assim. Essas iniciativas são fundamentais. e além disso. inclusive como atores-chave promotores dos processos de reforma psiquiátrica. de realizar uma pesquisa mais sistemática sobre os diversos dispositivos em experimentação e implementação no país e de estabelecer uma política mais explícita de fomento a esses dispositivos. na busca ativa de cuidar e defender os direitos humanos e sociais. indicando um leque mais amplo de atividades. para cuidarem e defenderem os direitos de todos os que têm alguma fragilidade ou limitação em sua autonomia. portanto. de certa forma. particularmente nos países anglo-saxônicos e do norte da Europa. e está passando da hora de colocar o tema na agenda de prioridades dos programas públicos de saúde mental em nível federal. a longo prazo. 32 2007 p. 173-206 202 . que reconheça a legitimidade das diferenças existenciais e subjetivas.

. como na última. Entretanto um contato mais sistemático com tais movimentos se deu com nossa amizade e intercâmbio com Richard Weingarten. mas ampliamos nossos contatos com esses movimentos no Reino Unido. vimos publicando alguns trabalhos (Weingarten. opressão e discriminação. tão marcante na cultura individualista e alienada difundida na sociedade atual e no mercado editorial contemporâneo no Ocidente. 173-206 203 . liderança do movimento de usuários dos EUA.. pela criação de um contrapoder dos cidadãos receptores de cidadania social e cuidado. Holanda e Suécia. Vasconcelos (2000. o empoderamento dos usuários e dos cidadãos busca colaborar na lida com as negligências ou excessos do poder hoje. a dos Alcoólicos Anônimos. Assim. n. Sobre o movimento dos familiares. nas instituições tradicionais. mas também visam a um futuro mais longo.. “fortalecimento” e “empoderamento” ou são parciais. 2006). 2003 e 2006). defendemos o uso do conceito original inglês nos textos em português. violência e desassistência que o neoliberalismo nos impõe hoje. será impossível discorrer mais extensamente sobre a importância das narrativas pessoais para a perspectiva do empoderamento.. Para o leitor interessado. Contudo essa é uma “conversa” mais longa. Uma das razões é buscar estabelecer a distinção em relação ao sentido amplo e a-crítico associado à “literatura de auto-ajuda”. Além disso. particularmente em pesquisas voltadas para teses de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ. NOTAS 1 Em nossos primeiros trabalhos. sob nossa orientação.discussão talvez tenha sido temporariamente ofuscada pela miséria. o desdobramento do conceito permite acentuar o componente de suporte mútuo. como “autonomização”. 4 Nosso contato com movimentos internacionais mais estruturados de usuários e familiares se iniciou em nossa estada no Reino Unido e viagens à Holanda no período de 1987 a 1992. da língua inglesa. mas o dispositivo é remontado a cada passo de construção de nossas utopias de atenção social. vetor muito frágil na tradição principal de origem norteamericana que se espalhou em todo o mundo. Mais tarde. para outros trabalhos. como nas três primeiras. Assim. 1999 e 2001. ajuda mútua e suporte mútuo). Weingarten (1999 e 2001). e porque as traduções usuais em português. para se adequar à realidade brasileira e aos pressupostos ético-políticos que defendemos. 2003) e um interessante texto publicado no Brasil. 6 No âmbito deste trabalho. no período 2000-2001. tendo implícitas visões liberais fortemente individualistas inspiradas na cultura da temperança. sugerimos retomar um outro trabalho nosso (Vasconcelos. com os grupos e associações brasileiras que se desenvolveram no Brasil principalmente a partir dos anos 1990. no qual o tema dos Alcoólicos Anônimos e da política e programas nacionais dirigidos ao uso e abuso de álcool e outras drogas é objeto freqüente de seminários e discussões individualizadas e coletivas. tanto para hoje como para amanhã. por Richard Weingarten e outros (Vasconcelos et al. a representação historicamente sedimentada de auto-ajuda enfatiza a capacidade do próprio indivíduo de promover o seu processo de recuperação. 3 O Projeto Transversões é composto de um grupo de pesquisadores. depois de nossa chegada. indicado a seguir. Para aqueles que quiserem aprofundar-se no assunto. sem ajuda externa. ver Pereira (2000) e Melman (2001). 5 O conceito amplo e impreciso de self-help. nos trabalhos mais recentes. ou perdem força. por Rüdiger (1996). difundida a partir do século XIX nos países anglo-saxões. Entretanto. realizamos nosso programa de pós-doutoramento novamente na Inglaterra. e Vasconcelos et al. ver Chamberlin (1997). Entretanto fomos percebendo que o uso do termo em inglês o torna inacessível exatamente para aquelas pessoas a quem mais se destina: os indivíduos e grupos sociais submetidos a processos de exclusão. recomendamos o trabalho organizado por nós. para onde pudemos realizar uma viagem de pesquisa. é para já nossa responsabilidade em iniciar respostas a esses desafios tão importantes de nosso presente e de nosso futuro. foi reapropriado criticamente aqui de forma a ser desdobrado em três diferentes conceitos (cuidado de si. individualmente ou em conjunto. 2 Sobre o movimento dos usuários. para garantir o sentido e a força da expressão original. 32 2007 p. quando realizávamos nosso curso de doutoramento e. decidimos optar pelo uso do termo português “empoderamento”. Com ele. 2006). Finalmente. “aumento do poder”.

no qual lideranças de todas as tendências foram convidadas a falar. no movimento da luta antimanicomial. Rio Grande do Norte. Alagoas. a experiência histórica vem demonstrando que ela implica necessariamente políticas compensatórias. Perez e Junqueira (2002). Apesar disso. 16 Este trabalho segue a tradição já consolidada no campo das políticas sociais no Brasil de não incluir a questão da deficiência mental dentro do campo da saúde mental. Reconhecemos que essa constitui uma posição também influenciada por nossas idéias e por nossa divulgação das abordagens de empoderamento dos usuários e familiares. no início de 2007. CFP. 32 2007 p. quando. e significa mais um convite para contribuições. problematizamos essa concepção moderna de cidadania no campo da saúde mental.com. Exemplos típicos dessas articulações no nível dos estados são os fóruns estaduais da luta antimanicomial ou de saúde mental. mas os endereços são: 9 psiquiatrasdasaudepublica@yahoogrupos. podemos citar os seguintes estudos: Montaño (2002). a maioria absoluta dos grupos e coletivos está polarizada pelo MNLA. artigos e conferências. mas uma análise mais extensa. e que. 12 A nosso ver. se funda em uma concepção racionalista do ser humano.cvv. De nossa parte. Gaiger (2004). foi fundado em 2004 um fórum interestadual reunindo os estados do Ceará. Pará.7 A tradição dos Alcoólicos Anônimos é extremanente importante. de discriminação positiva e de estratégias de empoderamento. Garcia et al. 2003). Nos estados de São Paulo e Ceará. representa uma questão em que nos identificamos plenamente com o MNLA. São Paulo. 2003). base dos princípios de universalidade da igualdade e da liberdade. já que eles possuem maiores recursos econômicos. consideramos que esse esforço vale a pena como um estímulo ao debate e aprofundamento das questões. e Landim (1998). que é hegemônica na visão moderna e contemporânea dos direitos políticos e das práticas democráticas. 17 Para os interessados no tema. Piauí e Maranhão. que nos mantém um pouco mais distantes da militância direta nos movimentos sociais. Pará. Registramos a sua existência no Rio de Janeiro.. e dadas as exigências do mundo acadêmico. o documento mais atual e que melhor expressa as posições da RI para esse tópico é a “Carta da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial” para o dia 18 de maio de 2006. em 18/01/2007. que tende a conservar a tradicional hegemonia organizacional e política dos profissionais. a partir das manifestações mais conservadoras de várias entidades da psiquiatria brasileira contra o processo de reforma psiquiátrica no país em 2006. 2003). Em suma. remetemos o leitor aos trabalhos de Bezerra Jr. estamos falando de uma cidadania especial e de uma inscrição social diferenciada. em textos mais substantivos. inclusive dentro de nossos próprios dispositivos de organização política. 14 204 n. Goiás. críticas e aprofundamento do debate.br emdefesareformapsiquiatrica@yahoogrupos. Pernambuco. 10 A Rede Internúcleos (RI) polariza a maior parte das associações. Bahia. particularmente mais elaborada em Vasconcelos (1992a). 173-206 . Isso será esboçado no trabalho. que seria universalmente capaz de plena razão e autonomia para a tomada de decisões. (1992) e aos de nossa própria autoria (Vasconcelos. e nos posicionaremos em relação às diferentes idéias e posturas das duas correntes no decorrer do texto. Em nossa opinião.com. como em Silva (2001). Amazonas. e precisa ser avaliada com bastante cuidado.br 11 Reconhecemos que tentativas como essa são sempre limitadas. núcleos e fóruns estaduais. A concepção iluminista da cidadania. como referência histórica dos grupos de ajuda mútua e como abordagem e enfrentamento do alcoolismo. culturais e organizacionais para a prática política. Nos estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina. particularmente nos estados de Minas Gerais. e em Conselho Federal de Psicologia (2003). Alagoas e Rio Grande do Norte. dada a impossibilidade de coleta dos vários pontos de vista de forma mais direta e fidedigna com os vários protagonistas. A primeira foi a realização do Encontro Nacional em Saúde Mental promovido pela RI. Distrito Federal e Rio Grande do Sul. há coletivos das duas tendências. com indicação de outras fontes internacionais. Naves (2003). 15 Essa constitui uma discussão que vimos levantando desde 1992. a partir de nossos livros. no dias 13 a 16 de julho de 2006. está em outro trabalho de nossa autoria (Vasconcelos. 8 Dados disponíveis no site www. Além disso. Não é aleatório que. assumindo plenamente o problema da diferença colocada pela experiência da loucura e sua necessária inclusão na vida social e política. 13 Essa discussão implica um debate teórico importante. publicado pelo CFP. os aspectos de irracionalidade colocados pela loucura implicaram a polarização histórica entre inclusão/exclusão do louco na vida social e política. (2003). Santa Catarina. algumas das principais lideranças da RI expressam uma clara defesa dessa posição igualitária indiferenciada e dessa hegemonia dos profissionais (Silva. Temos registro de que existem hoje no Rio Grande do Sul. Fórum Mineiro de Saúde Mental e CRP-MG em Belo Horizonte. essa concepção exigiria mudanças na concepção de indiferenciação e igualdade universal dos atores vigente até hoje dentro do movimento. Recentemente duas iniciativas vêm “quebrando o gelo” entre as duas tendências principais do movimento. Outra forma similar é a dos núcleos estaduais da luta antimanicomial. portanto.redpsi. temos lutado para a possibilidade de maior intercâmbio entre as correntes do movimento. geralmente não tão amplos e diversificados como os fóruns. A segunda são dois grupos de discussões na Internet. Apesar de isso constituir objeto de uma invenção social e política ainda não conhecida plenamente. Na perspectiva inversa. Goiás. para o qual remetemos o leitor.com. Para uma introdução a esse debate teórico.br. acessado em www. A entrada depende de convite de membro já participante do grupo. nessa concepção.com. Paraíba. Ceará e em Minas Gerais. em 12/01/07. nos quais lideranças de todo o país vêm participando. para que possam ter um mínimo de atuação conjunta em torno dos pontos comuns.br. Paraíba. Entretanto há publicações anteriores dessa corrente na forma de livros.

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