Jornadas “Cá fora também se aprende!

” Seminário Papel das Entidades Culturais
Auditório do Conselho Nacional de Educação 2 de Março de 2009 Domingos Morais (Escola Superior de Teatro e Cinema - IPL / Instituto de Estudos de Literatura Tradicional – FCSH/UNL) Muito obrigado pelo convite. Eu sabia que o tempo era muito curto, e por isso optei por tratar um caso singular. Caso singular de um grupo de mulheres que tem um percurso de trinta anos na construção de um projecto cultural que considero notável. Aliás, não sendo “pai nem mãe da criança” acompanhei-as desde o início1. Trata-se do processo de crescimento de um grupo em meio urbano que fora de qualquer contexto de escola formal se organizaram para conhecer o que é que as mulheres do seu país cantam. De Norte a Sul, nas Ilhas e na diáspora, conhecer o repertório talvez tenha sido o primeiro ímpeto. E depois a necessidade de entender porque é que cantam ou cantavam e quem eram aquelas pessoas. Sem se dar conta, mas ganhando gradual consciência do que estavam a fazer, acabaram por saber mais sobre a vida e as práticas culturais das mulheres do nosso país do que muitos e letrados académicos. E, o que é de realçar, pela mera curiosidade e prazer em conhecer. Esse o motivo de o CRAMOL, o grupo de que falo, ser uma universidade sem diplomas. Quero dizer, nunca tiveram a intenção, de fazer um trabalho académico. E até o que poderia ser uma motivação principal, a apresentação pública em espectáculos, festivais ou nos circuitos de distribuição da indústria musical, se pode considerar ter tido pouca influência nas opções tomadas (repertório, registos audio, resposta a convites que lhes são endereçados). Ou seja, o que mais motiva o grupo é cantar e ensaiar. E de o fazer cada vez melhor. Condescendem, de vez em quando, em “abrir as portas”, através de espectáculos que concebem ou da participação em iniciativas para que são convidadas. Tomei como mote — no resumo desta comunicação — uma frase de João dos Santos2 que muito aprecio: “se não tens uma aldeia, tens que ir em busca dela.” Faz parte de uma descrição muito bonita na sua biografia, da sua história de vida, publicada nos Ensaios sobre Educação3.

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O CRAMOL teve o apoio na preparação vocal e nos ensaios, sucessivamente, de Rui Vaz (de 1979 a 1990), Luís Pedro Faro (de 1990 a 2003) e Eduardo Pais Mamede (desde 2003) 2 João dos Santos (1913-1987) 3 Ensaios sobre educação II: 103-104. Ed Livros Horizonte, 1990.

Sinto que esta pulsão, esta força que as pessoas têm de encontrar, para dar sentido à sua vida, a não existir, pode limitar a sua experiência e bem estar. Não que eu tenha tido consciência disso logo de início, mas tive bons mestres que me souberam alertar. Aprendi que o que importa fazer “cá fora” é criar oportunidades para as pessoas participarem em círculos de estudos. É um modelo que está bem descrito, nomeadamente nos países nórdicos e foi adoptado por muitos países, inclusive Portugal4. E porquê? Porque é em contextos de alguma informalidade, por vontade própria e sem a preocupação de obter benefícios imediatos (graus académicos, promoção profissional, melhoria salarial) que por vezes mais e melhor se aprende. E é essa atitude que transforma a vida das pessoas e dos grupos a que pertencem. Fui gravando e fotografando ao longo dos anos, tomando notas, registando as obras que iam fazendo. Quando conheci o grupo, a média de idades rondava os 30 anos. Comemoram este ano o 30º aniversário e é possível ver de que forma uma prática cultural continuada marcou as suas vidas. São pessoas com formações académicas e actividades profissionais muito diversas. Que mantém e afirmam opções de vida próprias. E que estão abertas a quem, como acontece actualmente, as procura para fazer parte do grupo. Há um reconhecimento que é feito, primeiro, por quem é próximo, pela família, pelos amigos, pelos colegas de trabalho. Todos beneficiam, nas conversas informais, na visita aos ensaios, no desafio para integrarem o grupo. Só mais tarde veio o reconhecimento público, quando a autarquia decide apoiar o grupo com um subsídio anual e comparticipa a primeira edição em CD. Esporadicamente, alunos do ensino superior fazem trabalhos académicos em que referem o grupo e os media (imprensa, rádio, televisão) citam ou divulgam as actividades do CRAMOL. Tudo foi mais fácil por existir uma associação local, a Biblioteca Operária Oeirense, criada em 1933 por jovens operários que queriam fazer uma biblioteca. Compravam livros cotizando-se em cinco cêntimos por mês. São apoiados na altura — e é de sublinhar como por vezes é tão importante ter o apoio de quem vê um pouco mais longe, nomeadamente nos estatutos e na legalização da associação — pelo Professor Doutor Agostinho José Fortes5 (1869-1940), catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, que foi determinante para que a associação fosse criada, tivesse opções sobre o acervo bibliográfico e realizasse conferências, palestras e cursos para os sócios. A Biblioteca Operária foi durante muitos anos vizinha de uma associação de socorros mútuos, ligada ao movimento mutualista e ao exercício da solidariedade. As duas associações tinham uma ligação muito forte, com a maior parte dos sócios (e Direcções) em comum e onde encontravam solução para o que mais as afligia, do auxílio na

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http://www.ccpfc.uminho.pt/uploads/001-cir - 2008.pdf . Os certificados de acreditação emitidos pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua (CCPFC) para acções de formação nas modalidades de Círculo de Estudos, Estágio, Oficina de Formação, Projecto e Seminário especificam o número base de créditos atribuído à acção de formação (creditação base), tomando como referência os critérios de contabilização horária para as referidas modalidades que foram aprovados pelo Despacho nº 4 469/97 (2ª série) da Secretária de Estado da Educação e Inovação. 5 http://www.prof2000.pt/users/avcultur/luisjordao/Agostinho%20Fortes.htm

doença, desemprego e mesmo funeral. O lema da Biblioteca Operária, “depois do pão, a instrução”6 é revelador dos princípios que a norteiam. Em 1976, associações de bairro como a Biblioteca Operária Oeirense lutavam pela sobrevivência, repensando práticas desajustadas aos novos tempos e procurando cativar novos sócios. Em 1979, ano da fundação do CRAMOL, havia já um trabalho realizado na reconstrução desse tecido de solidariedade e de entre-ajuda em que foi determinante a recusa de partidarização da Associação. A opção do grupo de sócios que integrou o núcleo de revitalização da Biblioteca Operária foi dizer: “meus caros, aqui há pluralidade e vamo-nos centrar nas obras que vamos construir.” Funcionou muito bem. A Biblioteca começou paulatinamente a trabalhar por projectos, criando grupos, cursos, oficinas, ciclos de conferências e exposições e renovando o acervo de livros7. As Direcções eleitas de acordo com os Estatutos (que seriam revistos na década de 80), apresentaram programas de candidatura, promoveram sessões de avaliação, contrataram profissionais para as diferentes Oficinas e grupos criados. O CRAMOL foi um deles. Em 1981, Francisco d’ Orey realizou para a RTP um documentário sobre a Biblioteca Operária Oeirense integrado na série “Inventário Musical”. Nesse programa8 são enunciados propósitos que iriam marcar todas as iniciativas futuras. O CRAMOL optou por não dar primazia a nenhum território, tendo como propósito conhecer o que se poderia designar como o repertório depurado pelo tempo das mulheres do seu país, sem excluir o que foi levado na diáspora da emigração e das perseguições religiosas para outras paragens. Perceberam que o país ou a sua aldeia era este país inteiro e todos os territórios por onde nos espalhámos. O que não as impediu, pontualmente, de trabalharem com grupos de música contemporânea, no último disco de Zeca Afonso, Galinhas do mato9, de cantarem com um artista do Malawi, Donald Kachamba10 que realizou várias residências em Portugal e com quem gravaram. Mas foi por terem uma “aldeia” e um “território” próprio que foram capazes de o fazer. Tudo o que conto do CRAMOL me remete para os “Estudos Gerais Livres”, criados em 1988 pelo Professor Agostinho da Silva11 e pelo Professor Viegas Guerreiro12, retomando uma designação de peso na história das universidades portuguesas. E estes estudos gerais livres caracterizavam-se por algo que o Professor Viegas Guerreiro e o Professor Agostinho da Silva diziam ser Estudos onde “ninguém vai para ter diplomas, aqui só vem quem quiser mesmo aprender e quem vai ensinar vão ser os melhores.” E os “melhores” embora reembolsados de algumas despesas, não eram pagos. Eram voluntários, na sua maioria professores universitários do ensino público ou profissionais
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Citando uma frase de Georges Jacques Danton (1759-1794) http://www.scribd.com/doc/20100549/19801986-BOO-Documentos 8 O programa pode ser visionado em www.vimeo.com/954988 9 José Afonso, Galinhas do mato (1985) 10 Malawi, 1953/2001. 11 Agostinho da Silva (1906-1996) 12 Manuel Viegas Guerreiro (1912-1997)

dos melhores nas suas especialidades a quem bastavam os nobres propósitos dos Estudos Gerais e a desinteressada participação dos alunos para se sentirem compensados. A filosofia dos estudos gerais livres pode ligar-se a um conceito criado por Ernesto Veiga de Oliveira13, os “trabalhos colectivos, gratuitos e recíprocos”, que permitiam de há muito a permuta de serviços agrícolas e a sustentabilidade na criação de animais (pecuária) entre pessoas que acordavam, através de sofisticados procedimentos, na troca de trabalhos e saberes. Este procedimento permitiu a sobrevivência de comunidades descapitalizadas, com acesso reduzido ao crédito e confrontadas com mudanças no sector agrícola, começando na debandada de mão de obra para o estrangeiro, nos anos 50 e 60 do séc. XX e no abandono das aldeias do interior para o litoral nos anos seguintes. Viria ainda a ter um efeito retardador das consequências, no sector agrícola, da adesão de Portugal ao Mercado Comum Europeu e nas sucessivas e contraditórias politicas que levaram à criação de pomares e ao seu abandono ou ao arranque de oliveiras considerado mais tarde como um erro que se tenta corrigir. Explica, na actualidade, como é possível em algumas localidades a sobrevivência de pequenas explorações familiares, criadas por vezes com as poupanças de emigrantes que retornam ou investem nas suas terras em Portugal. Tive ainda oportunidade de falar com Ernesto Veiga de Oliveira em 1988 sobre a necessidade de uns “Estudos Colectivos, Gratuitos e Recíprocos” que aproveitassem o melhor dos Estudos Gerais Livres e dos Trabalhos Colectivos Gratuitos e Recíprocos. Quer dizer, devíamos criar oportunidades do exercício do saber, sem entrar em contradição, antes pelo contrário, com a escola formal - ainda bem que ela existe, que é pública, que recebe todos os que a procuram. E cada vez será melhor. Mas para que servem as diferentes literacias proporcionadas pelo ensino formal se fora do contexto académico não são exercitadas e relacionadas? Estes Estudos Colectivos, Gratuitos e Recíprocos podiam ajudar. De certo modo, já o estamos a fazer no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional através de uma página na Internet, em www.memoriamedia.net, onde começámos a pôr à disposição dos possíveis interessados iniciativas que se passam dentro das universidades, nas organizações culturais, mesmo testemunhos pessoais organizados em saberes. Um exemplo recente, Mestre Leite de Vasconcelos foi homenageado em 2008 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas num ciclo de conferências notável14. Na sala por vezes estavam seis pessoas... Essas conferencias, na página referida15, já foram visionadas por mais de 600 pessoas. Eu gostava de saber quantos simpósios e seminários científicos neste país têm esta audiência... Não digo que os acessos na internet são de qualidade idêntica a quem esteve na sala, mas viram, interessaram-se, de formas muito diferentes, é certo.

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Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990) Jornada de homenagem a Leite de Vasconcelos, Lisboa, 28 de Outubro 2008 – FCSH, organizado pelo Instituto de Estudos Portugueses (IdEP), de colaboração com a Universidade do Algarve e o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) 15 http://www.memoriamedia.net/academicos/academicos.html
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Outro dos exemplos no memoriamedia é o da Associação Idade dos Sabores – Associação para o Estudo e Promoção das Artes Culinárias 16, que editou um DVD onde se descrevem receitas tradicionais portuguesas. Com o apoio do Programa Leader+, foi possível realizar com qualidade profissional filmes que mostram em detalhe e por quem conhece, p.e., como se secam frutas, ou como se fazem fios de ovos e se esfola um borrego. Poderia referir outros conteúdos, como os contos, histórias de vida, uma secção que se chama “saber(es) fazer(es)”. Hoje é possível mostrar, por exemplo, como é que se trata de um burro, mesmo que as pessoas não tenham um burro nem façam a mínima intenção de ter um, que é uma das questões que eu refiro no meu texto e que agora é altura de vos ler. As mulheres que refiro 17, são capazes de embalar sem ter de adormecer, chamar como se estivessem no alto de um monte e invocar trabalhos que já não existem, do linho, das mondas, da apanha da azeitona. E amam e sofrem sem objecto visível, inventam romarias e festas, lançam preces, esconjuros e maldições. Muito do que fazem são actividades de representação ou recriação, já não há uma ligação directa à função primordial. E por isso digo que a tradição já não era o que é, nem será o que foi. E nunca foi o que pensávamos que era. Ficamos por vezes bloqueados por uma adjectivação paralisante decorrente do que se entende por “autêntico”. Mata-nos, dá-nos cabo da vida. Porquê? Porque cada época, cada geração, inventa, recria, adapta, adopta e copia, sem sentimento de culpa ou pecado. É isso que o CRAMOL faz18, à semelhança de outros grupos e iniciativas que felizmente são cada vez mais comuns. Sabem de onde vêem, procuraram conhecer junto de fontes seguras as situações que tratam (no seu caso, os contextos em que se cantam ou cantavam os repertórios que escolhem) mas são donas do seu tempo e do seu lugar. E só assim ganha sentido o que fazem. A minha esperança e optimismo nas virtudes do que se pode aprender fora da escola assenta em iniciativas com a recentemente realizada no cinema São Jorge em Lisboa. Falo da homenagem ao cineasta António Campos, com a apresentação das suas obras mais importantes (sem edições acessíveis em DVD) e em que a realizadora Catarina Alves Costa estreou um notável documentário19. A sala, cerca de 600 lugares, estava totalmente ocupada por um público maioritariamente de jovens que não conheceram António Campos, nunca tinham visto a Almadraba Atuneira20 nem Vilarinho das Furnas21.

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http://www.memoriamedia.net/saberes/sabores/idades_apresenta.html http://videos.sapo.pt/214qvIZbJNfBwpd2MyoT 17 Duas edições em CD reúnem parte do repertório do grupo. Em 1996, CRAMOL – ed. BMG Ariola. Em 2007, VOZES de NÓS – ed. Ocarina / IELT. Em Março e Abril de 1985, o Departamento de Música Popular da Westdeutscher Rundfunk de Colónia (Alemanha) gravou 13 fonogramas (WDR85189 a WDR85201) disponíveis em http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqdmwrd85/ 18 http://www.scribd.com/doc/20099859/2007-Cramol-Vozes-de-nos 19 “Falamos de António Campos”, RTP, 2009. 20 Almadraba Atuneira, 1961. 21 Vilarinho das Furnas, 1971.

Estavam lá e estiveram nas sessões seguintes, em que o documentário feito em Portugal22 foi muito bem tratado e melhor recebido. E ninguém pediu, no final, para lhe ser passado certificado de presença. Muito obrigado.

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http://ncinport.wordpress.com/2009/02/12/falamos-de-antonio-campos-de-catarina-alves-costa/

“Se não tens uma aldeia..., tens de ir em busca dela!” João dos Santos23 CRAMOL, uma Universidade sem Diplomas

Quem dá voz a este CLAMOR (ou CRAMOL) que se ouve há três décadas na Vila de Oeiras? E porque persistem estas mulheres em aprender e partilhar saberes que não pertencem ao seu universo urbano numa Associação, a Biblioteca Operária Oeirense, criada em 1933 por operários que tinham por lema “depois do pão, a instrução”? Ou será que pertencem, embora transfigurados e descontextualizados mas ainda apelando ao que de mais essencial as mobiliza? Talvez o segredo esteja no processo. Nos ensaios em que a voz e o corpo se soltam e revelam novos sentidos. São assim capazes de embalar sem ter de adormecer, chamar como se estivessem no alto de um monte, invocar trabalhos que já não existem do linho, das mondas, da apanha da azeitona. E amam e sofrem sem objecto visível, inventam romarias e festas, lançam preces, esconjuros e maldições, fazem encomendações, rezas e promessas cantadas a Divindades que quase deixaram de as acompanhar. A Terra e os seus frutos são temas constantes, marcando talvez a mais sólida ligação com o seu Tempo, no respeito e gratidão de quem dela depende, agora e sempre. E a Palavra que nasce e se organiza em textos cantados de uma poética deslumbrante. Quem passa por este processo como que renasce ao estabelecer os elos que permitem compreender o que é ser Mulher. As lições recebidas nessa nova liturgia do Canto terão talvez transformado as suas vidas, dando-lhes instrumentos únicos para ler o Mundo. E premiou-as, pela sua dedicação e persistência, com o mais vasto repertório de canto no feminino de todas as regiões de Portugal, alguma vez conhecido por um único grupo. Mesmo sabendo que a Tradição, “JÁ NÃO ERA O QUE É, NEM SERÁ O QUE FOI e NUNCA FOI O QUE PENSÁVAMOS QUE ERA” Cada geração inventa, recria, adapta, adopta e copia, sem culpa nem pecado. Será que este CLAMOR chegará a outras mulheres (e homens)? Domingos Morais Março de 2009

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Ensaios sobre educação II: 103-104. Ed Livros Horizonte, 1990.

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