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O livro das palavras que não existiam

The book of words that weren’t
(AMOSTRA)

Cristina Schumacher

Τό ονοματουργός.
/Tó Onomatourgós./
Eu sou o criador de nomes.
I am the creator of names.

na magia das coisas in things magic were
agiam deuses, vermes, lembrança Gods, worms and memories
na magia das coisas In things magic I
ajo eu, que esmago, mago enchant, act, artifact
e modelo experiências shaping experiences
em nomes para as coisas. into names for things.

1
Introdução

Recolho em cestos imaginários os passos que dei. As experiências são as coisas
guardadas para usar um dia, e dificilmente lembramos onde as guardamos e até mesmo
para que servem. Já os sentimentos que as experiências causam ficam iguais a uma nova
palavra.
Nascemos e morremos do mesmo jeito, todos nós, e nada há que realmente nos
diferencie além dessas novas palavras, mesmo não formuladas, essas necessidades de
expressar e de desbravar.

História, exemplos, justificativas

Pensei em suprir aqui algo de que eu seguidamente sinto falta quando leio um
livro curioso: saber um pouco da história de quem escreve, de forma que o leitor tenha
uma visão da mensagem completa, algo que vai além do livro para contar sobre quem o
produz. Depois, numa movimentação expressa para ganhar seu interesse, forneço alguns
exemplos para dar base aos pensamentos que foram a pedra de toque para esse jeito de
escrever. Mostro alguns conceitos e construções estrangeiras elucidativas da
possibilidade de dar outros e novos nomes para (mais) coisas. São palavras e frases com
que fui travando conhecimento ao longo da vida, e que foram, hoje percebo, sementes
para fazer este Livro.
Nos últimos oito anos publiquei vários livros técnicos tratando do ensino
de línguas estrangeiras, sobretudo o inglês, para o falante do português brasileiro. Uma
parte importante dessas publicações é a exploração dos conteúdos de aprendizado do
idioma que ficam sem equivalência simétrica com a língua materna. Os livros sobre
pronúncia tratam daqueles sons que não conseguimos produzimos naturalmente ou que
representamos de formas diferentes, para nomear algumas abordagens. Já os livros
sobre gramática e vocabulário exploram estruturas e palavras que não empregamos para
dizer o que dizem e do jeito que o fazem, na outra língua. Essa via de explicar os fatos
da língua através da comparação com traços lingüísticos conhecidos procura
desmistificar o processo de aquisição. Deve fortalecer a compreensão da origem de
muitas imprecisões quando se produz a comunicação na outra língua e mapeia melhor
as próprias dificuldades. Também apresenta o funcionamento das línguas como
ocorrendo dentro de sistemas mais amplos e frequentemente previsíveis, sejam eles

2
sonoros, conceituais ou estruturais. Essa visão de sistema serve para deixar o falante da
língua estrangeira mais confiante e com maior autonomia comunicativa. Quanto mais
autônomo e independente o aprendiz for dos rígidos padrões de desempenho
comunicativo que os métodos tradicionais adoram estabelecer como modelos para
perseguir, maior a chance dele conseguir comunicar-se efetivamente empregando o que
já sabe. Isso se aplica, é claro, após terem sido vencidas certas etapas básicas. Mas,
bem, esse é assunto de outros livros. Menciono tudo isso por que entendo que meu
apreço pela autonomia comunicativa é tanto que me permitiu, dentre outras coisas,
escrever este Livro.
Outro ponto importante da minha história é que eu sou tradutora e leio muito
dicionários. Sempre li.
E lendo dicionários também me deparei com um grande número de palavras que
praticamente ninguém conhece. Você por acaso saberia o significado de mitacismo ou
plumípede1 (espero que não tenha precisado usar nenhum)? Com isso em mente, pensei:
se existem tantas que não se usa, por que não pode haver algumas poucas que um
usuário atento (eu!) viu que estão faltando?2
Outro ponto: convivi com livros em línguas diferentes quando era pequena, e o
fato de folhear páginas incompreensíveis contribuiu para dar origem a dois traços
determinantes: primeiro, por não entender o que eu folheava, acabava por imaginar o
conteúdo e me tornei, assim, um tanto inventiva; segundo, pelo mesmo motivo,
desenvolvi um anseio muito grande por quem sabe um dia finalmente entender aquele
outro jeito de dizer as coisas e se comunicar. Engraçado, isso me faz pensar agora que
aqueles poucos livros em islandês que habitavam as prateleiras do quarto do meu irmão
mais velho nunca receberam qualquer decifração. Quem sabe ainda dá?
O fato é que, o islandês à parte, estudei um pouco mais de idiomas do que a
média dos meus conhecidos. Aprendi inglês e alemão formalmente, francês e espanhol
meio formal e bastante informalmente, e russo, polonês e japonês de forma bastante
incompleta, mesmo que incompleto, no caso dessa última, signifique cinco anos de
estudo, porque afinal estamos falando de uma língua muito diversa.

1
Gosto pela letra “m” e pés com penas, respectivamente.
2
Uma amiga psicóloga me disse outro dia que criar palavras que não existem é um sintoma de
esquizofrenia. Então, após investigar alguns outros sintomas da doença (para ter certeza, seja qual for),
criei a palavra que você encontra na página XXX. Significa “tentar enquadrar dentro de alguma patologia
qualquer comportamento que não esteja estritamente de acordo com o esperado e que não seja visto como
normal.”

3
E sempre tive um fascínio por estruturas gramaticais exóticas, o que fez com que
me deleitasse ao buscar saber o que fosse possível sobre o funcionamento de línguas
como o latim, sânscrito, grego, hopi, pali e alguma outra meia dúzia de línguas,
sobretudo indígenas. Palavras inusitadas nos mais diversos idiomas também tiveram sua
parcela na nutrição do meu encanto pelo assunto, e assim encontrei nomes
interessantíssimos para coisas inimagináveis. Didivido algumas com você nos
parágrafos que seguem.
Um clássico: os esquimós têm um número superior de nomes para neve,
descrevendo nuances nas mais diversas alterações climáticas, que para olhos tropicais
ou temperados ou subtemperados deste planeta provavelmente passariam despercebidos,
que dirá formulados. Não vou dissertar sobre a palavra saudade da língua portuguesa,
pois se trata de um clássico rebaixado a lugar-comum.
Em persa, um nome dado a Deus também é a forma imperativa da expressão vir
a sí, ou seja, existe uma correlação subentendida entre estar desperto e espiritualidade.
Bom, as interpretações ficam livres. Tenho certeza de que o material é fértil.
Em servo-croata, e essa é boa mesmo para quem fala português, a palavra nada,
escrita bem assim, N-A-D-A, quer dizer esperança. Eu tenho a impressão de que a
Clarice Lispector3 teria gostado muito de saber disso.
Numa certa língua chamada Yaghan (em inglês), de uma tribo da Terra do Fogo,
existe essa palavra: mamihlapinatapai. Está no Guiness como a palavra mais densa que
existe, a mais difícil de traduzir, e quer dizer um olhar compartilhado por duas pessoas,
cada uma desejando que a outra tome a iniciativa para algo que ambos querem mas
que nenhum dos dois deseja iniciar4. Estarrecedor.
Um livro de ficção científica americano da década de 50, chamado The
Languages of Pao, de Jack Vance, creio eu sem tradução para o português, tem como
um dos principais motivos do enredo o uso da linguagem para fins de engenharia social.
É sobre um planeta, Pao, cuja língua natural, Paonês, não tem verbos. Esse traço
lingüístico torna o povo de Pao apático e sua cultura, passiva. E assim, para vencer esse
estado e se tornar uma potência galáctica, Pao precisa passar por uma transformação
lingüística. O planeta passa a adotar três novas línguas, cujas características específicas
devem auxiliar os seus povos a tornarem-se erudito, guerreiro e comercialmente hábil.

3
Ela tem essa citação que eu considero inesquecivel: “a palavra mais importante da língua portuguesa
tem apenas uma letra: é.”
4
Definição da Wikipedia.

4
Embora seja fantástica, a narrativa apresenta a possibilidade, extremada pela ficção, de
dar à lingua uma finalidade.
Em japonês, em meio a dezenas de traços lingüísticos totalmente diversos das
nossas ocidentais e correntes obviedades, os nossos conceitos de dar e receber se
desdobram em dar, receber por solicitação e receber (ter sido dado) espontaneamente5
(os tradutores japonese me perdoem, por favor). Isso vai bem mais longe do que nossa
mais intensa – e desavisada - imaginação pode conceber, pois há desdobramentos para
indicar e observar a hierarquia do interlocutor. E esses verbos funcionam também como
auxiliares. Ou seja, onde temos a possibilidade de exprimir dever ou habilidade, ao
dizermos, respectivamente, devo fazer isso ou aquilo ou posso fazer isso ou aquilo, os
japoneses têm mecanismos estruturais nas suas frases para exprimir doação,
cumprimento de obrigação (por ter havido solicitação anterior) e cooperação,
contribuição.
Se eu falei em dezenas de traços diversos, posso comentar mais um: quando em
japonês se diz dois livros, o numeral dois é expresso de forma diferente de quando se
diz, por exemplo, duas pessoas. Os números podem ter sufixos ou mudar integralmente,
indicando assim a natureza daquilo que se conta: pessoas, objetos chatos, veículos,
objetos longos, casas, sapatos, objetos grandes. Por ai vai. Eis ai uma comunicação
inegavelmente mais próxima de contextualizar e relativizar.
Num dos livros que uso para explorar as partes de palavras, chamado “Word
Parts Dictionary” (Dicionário de Partes de Palavras), de Michael J. Sheehan, existe um
capítulo apenas para apresentar palavras que descrevem formas de adivinhação. Ali
aparecem desde a tradicional cartomancia, de onde nos falam as cartomantes, até coisas
malucas como a masomancia (masomancy), que é predizer o futuro através da escolha
do seio em que o bebê que vai mamar (imagino que seja seio direito significa sim,
esquerdo, não, ou variações não muito criativas disso), passando pela labiomancia
(labiomancy), que fala por si, a colimancia (collimancy), que é a divinação pelas rugas
no pescoço de alguém e até a versão grega da leitura de búzios, a conchomancia
(cochomancy). Trata-se de uma infinidade de -mancias, predições, o que mostra o
quanto o povo grego se dedicou a explorar esse lado das coisas, a ponto de ter palavras
para as mais diversas práticas divinatórias.
Também existe uma seção exclusiva para medos e desagrados, e por isso todas
as palavras ali terminam em -fobia. Medo de abelhas, melissofobia, medo de flores,
5
Ageru, morau, kureru.

5
antofobia (está no Aurélio!), medo de mamilos que são vistos através da roupa,
telophobia (essa, nem no Aurélio, nem na Internet). Medo de coisas novas, xenofobia.
Essa é, enfim, a maior seção do livro. Certamente esse fato há de significar alguma
coisa também.
A constatação é que os povos se obrigam a ter palavras que espelhem os
conceitos que sua cultura, realidade, geografia, sociologia, etc exploram, produzem e
reproduzem. Se você quiser saber mais sobre o assunto, gugule ou gugle (de gugular ou
guglar, procurar no google – fazer o quê?) hipótese sapir-whorf, ou relatividade
lingüística, Sapir, Whorf. Humboldt, Herder. Weltanschauung6. Continue daí.
As palavras produzidas neste livro são voltadas mais para explorar a realidade
do que para descrevê-la. Por isso não tenho a expectativa de que sejam efetivamente
empregadas. Criá-las com essa finalidade teria sido excessivamente ingênuo, pois é
preciso muito mais do que sua mera invenção para uma palavra aderir. Minhas palavras
são, sim, um exercício, uma brecha, uma inspiração – criadas como se toma o ar para
fazer circular o sangue.
É verdade que ao usar conceitos que agrupam numa só palavra o que até aqui
exigia várias delas também temos maior facilidade para reformular e repensar as coisas.
Afinal, o tempo usado para dizer x + y + z = w é menor quando se diz xyzw e sobra
espaço nas frases para falar com mais complexidade, concisão, objetividade, ou,
simplesmente, sobra espaço.
Uma vez aprendi algo que, no caso das palavras, se aplica melhor do que em
qualquer outro: não devemos levar as coisas muito a sério ou, nesse caso, não devemos
levar as palavras muito a sério. Elas são de uma frivolidade inegável. Ou não.
A palavra alarme vem do italiano, às armas (al arme), e está relacionada muito
simplesmente com o barulho que faz um monte de soldados indo pegar suas armas ao
mesmo tempo. E o armário? Era mesmo para guardar armas, e a menos que se dê total
vazão àquela bobagem de que as roupas são as armas da sedução, de fato não há
relação. A não ser que, uma vez terminada a guerra, e não havendo mais razão para
guardar armas, o espaço do armário tenha ficado ocioso e, para ter utlidade, começou a
ser ocupado com roupas. Em espanhol, a palavra esposa significa algema. Certo,
algema tem de estar no plural. É preciso ou duas mãos ou uma mão presa a algum lugar,
com a outra algema do par - mas uma esposa é suficiente para completar o

6
Visão de mundo, em alemão. O termo virou uma maneira das ciências humanas expressarem uma visão
totalizante do universo e a relação que a humanidade – ou as humanidades – têm com ele.

6
aprisionamento? Me pareceu particularmente inacreditável quando há muitos anos
aprendi que Deus and Zeus têm a mesma raiz. Não deveriam essas palavras apresentar
traços morfológicos indiscutivelmente distintos para tornar coerente de fato a ideologia
por trás da primeira? Gift, em alemão, significa veneno. Em inglês, é presente. A
semelhança é que ambos têm a mesma raiz, do verbo dar (give). Também em alemão,
desiludir, ernüchtern, pode ter um significado positivo, que eu acredito ser impensável
em português ou inglês. Alemão em alemão, Deutsch (com mesma raiz que teuto, nome
dado a uma tribo germânica7), and deuten (um verbo alemão que significa fornecer ou
explicar o sentido ou intenção de algo, interpretar), têm a mesma raiz, de onde se extrai
que, quando você se comunica com o povo, precisa explicar o que quer dizer e ser
muito claro sob pena de causar uma grande quantidade de malentendidos. A pergunta
que resta é se esses últimos não ocorrem o tempo todo, de qualquer jeito. Janela e olho,
em polonês, russo, e possivelmente outras línguas eslavas, têm a mesma raiz. Entendo
que, no segundo caso, se olha para dentro. E na esfera da pronúncia: os mesmos sons
que usamos para expresser nossa dor, ai, significam eu em inglês, amor passional em
japonês, ovo em alemão e alho em francês. Perfeita desconexão.

Para mim escrever é uma forma de viver. Não escrevo apenas quando me sento
para fazê-lo ou quando tenho uma caneta na mão ou as mãos sobre o teclado. Escrevo o
tempo todo – as palavras são oportunidades constantes de compreender as coisas. E as
coisas me aparecem como poliedros, embora na maior parte das vezes sejam tratadas
como figuras planas e plenamente angulares, absolutas, sem lados. Assim, recombinar e
renomear é explorar um lado até então na sombra, até então obscurecido por não ser
alternativa para comunicar.
Com novos nomes podemos avançar na interminável descoberta das coisas.
Ninguém diz coisas definitivas, porque dizer é indefinido. A Torre de Babel é ao
mesmo tempo real e impossível, nem tanto porque não se pode construir infinitamente
até o céu, mas porque o céu não existe para ser um lugar onde se chega. O castigo de
Deus, de criar a pluralidade das línguas, é típico da sua amorosidade: através da própria
pena de não mais nos entendermos entre nós, chegamos ao caminho dos nomes para

7
“Os termos teuto e teutônico foram por vezes usados para se referir a todos os povos germânicos. O
nome latino Teutōnī foi emprestado do proto-germânico *Þeudanōz (que quer dizer eles, os da tribo) via
uma língua celta, e a palavra *þeudō consiste num nome proto-germânico para tribo ou povo”. Fonte:
http://en.wikipedia.org/wiki/Teutons

7
acharmos a nós mesmos e a Ele. As palavras são, assim, instrumentos para tentar chegar
mais perto da essência das coisas.
Nomear também resulta da necessidade de lidar com a realidade de outra forma.
E se pode interferir na realidade recriando-a com mais e novos nomes para aquilo que a
compõe. Que jeito melhor há de se entender com as coisas à nossa volta senão batizando
aspectos da vida, novos e antigos, com nomes que não existiam e significados que
justifiquem um sorriso, uma reflexão, uma mudança na forma de ver?
Na história da fala humana, nomear é quase sempre uma reação à necessidade de
identificar. Essa necessidade, por sua vez, acompanha a necessidade de incluir em um
esquema conhecido aquilo que até então era desconhecido, sendo o desconhecido
apenas aquilo que ficou fora do grupo de coisas nomeáveis. Espero, ao criar nomes,
incluir na realidade da expressão objetos, conceitos e experiências que um número
suficiente de pessoas pode reconhcer, e que por isso passam a ter a sua identificação –
seu nome - justificado e necessário.
Uma vez batizadas, uma vez nomeadas, as coisas e as experiências passam a ter
uma identidade, e é mais fácil de lidar com elas assim, pois com a identidade ganham
também uma inserção, um contorno, um limite. Como num batismo, as coisas e as
experiências ganham um enquadramento dentro de alguma área, alguma referência que
é naturalmente construída com e dentro de outras referências e assim o que era
desconhecido passa a fazer parte do conhecido num primeiro momento para em
seguida passar a ser conhecido e ideativamente dominado através desse conhecimento.
O verdadeiro nome de Deus é oculto. Se pudéssemos dizer Seu nome, teríamos o
controle da vida, da morte e dos acontecimentos e colocaríamos limites humanos na
criação.
Brincadeiras sérias à parte, nomear é fazer sentido.

Este Livro agrupa palavras de vários tipos que pretendem ajudar na tarefa para
sempre inconclusa - e por esses dias especialmente difícil - de fazer o momento humano
fazer sentido. Falo em momento humano e não no momento presente porque algumas
das palavras aqui listadas tratam de fatos humanos que me parecem recorrentes na nossa
natureza. Desejo identificar não necessariamente o que vivemos agora mas o que
vivemos com o aparato de vida que temos: a forma como pensamos, agimos, sentimos e
nos relacionamos uns com os outros e conosco mesmos.

8
Contudo o momento que vivemos também tem um papel fundamental no meu
impulso de criar novas palavras. Com tantos antigos e tradicionais conceitos cedendo na
sua utilidade e adequação, com os infinitos exemplos de disparidades, inconsistências,
incoerências, brutalidades, sofrimento, oportunidades, pequenas belezas do cotidiano,
angústias, dúvidas, o momento que vivemos exige fazer novo sentido. Existe uma
urgência de correr atrás de novos meios de expressar a realidade para entendê-la melhor
e assim ter na mão algum outro, inédito recurso, para interferir no seu percurso. É
importante dizer, aqui, intereferir com a realidade está mais relacionado com a maneira
como a percebemos e nos relacionamos com ela do que com aquilo que de fato fazemos
com ela. Como mudar o que precisa de mudança se só há velhos conceitos (estou sendo
totalmente vendedora da minha idéia)? A mudança requer novos meios, caso contrário o
novo se contamina e envelhece no momento em que nasce, porque sua expressão está
comprometida pelo uso de meios desgastados, ou seja, velhas palavras. Isso, é claro, é
uma descrição ideal, simplificada, de um complexo processo que permanece em grande
parte sem uma descrição definitiva. Mas parece que o ideal é como sementes semeadas.
Dependendo do solo, algumas brotam.
Ter nomes para as coisas que até aqui vimos nomeando através de uma
combinação de palavras é como ter examinado um caminho muitas vezes percorrido e
começar a prestar mais atenção a ele e assim ver o que até aqui permanecera sem ser
visto. Com mais nomes ou outros nomes como que avançamos nesta interminável
descoberta das coisas, pois haverá ferramentas mais sutis, mais precisas, afinadas,
exatificadas para isso.
Numa comparação, não selecionar palavras nem conhecê-las ou mesmo refletir
sobre elas é como ir vivendo sem tomar decisões sobre os rumos da vida. Tudo isso
pode parecer inédito demais, talvez até simplório, mas é ou não um fato que a língua
nos leva?
E quando ela nos leva, não nos dá muitas opções. Tudo tem seu jeito de dizer...
Assim o Livro é minha forma particular de dizer sim e não. É meu recurso intermediário
dos abismos oferecidos pelo absoluto, eternamente à espreita na linguagem em geral, e
dos modelos de linguagem estabelecidos, em particular.

Pense bem, estamos rodeados de certas palavras que para a maioria de nós não
fazem sentido. Os mais diversos jargões profissionais são um exemplo, mas também há
marcas e nomes de produtos, que aceitamos chamar por nomes próprios, embora nos

9
sejam desconhecidos. E além desses casos existem as palavras de sempre que – mal
percebemos – significam algo silenciosamente diferente para grupos diferentes de
pessoas: será que a areia na praia é a mesma que a do deserto? Não me refiro à
composição físico-química, mas ao que ela evoca para os povos do deserto e para
crianças em férias escolares à beira-mar, por exemplo. Ou ainda será que a fome dos
nômades da África subsaariana seria descrita do mesmo jeito por uma criança brasileira
de classe média alta?
A recriação acontece todo o tempo, porque o tempo todo são pontos de vista
diferentes que se confrontam, interesses que se compõem, só que o lado lingüístico, da
representação desse processo, acontece sem muita consciência, sem intenção, e
sobretudo veladamente. Aqui, a diferença é a intenção, a revelação e a nomeação, claro.
A próprias palavras que hoje usamos também são uma escolha que foi feita no
passado e calcificou em conceito, em nome, em parte da realidade conhecida. Um
hipócrita era, originalmente, um simples ator.

Outro motivo porque escrevo o Livro é que tenho dificuldade com falas longas,
textos longos, histórias longas (embora tenha economizado a leitura das últimas páginas
de Anna Karênina de um jeito que não consigo economizar nem dinheiro, mas isso é
porque estamos falando de uma obra prima, e obras primas se caracterizam por
provocar diferenças). De um modo geral, não vejo na linguagem do conto, crônica,
romance, etc. uma via para a minha expressão literária em particular, o que não significa
que eu não admire muito, como já disse, as boas narrativas dessa ou qualquer natureza.
Escrever esses verbetes se provou um jeito adequadamente econômico de expressão
para mim. O Livro atende minha demiurgia. É meu plano para atender uma necessidade
que sem querer descobri: a de repensar os fatos revelando novos.
Os verbetes do Livro, penso eu, falam por si. Mesmo assim, trazem algumas
explicações sobre como as palavras são formadas, o que deve ajudar o leitor a situar-se
em relação ao que se pretende com elas. Situar-se para cumprimentá-las, como se faz ao
chegar, porque a conversa que terão é assunto só deles, palavra e leitor. Pensei que
certos públicos em particular, como filósosos (panada, p??) ou historiadores
(historiensão, p??), ou físicos (cofrase, p??) ou psicólogos (altermania, p??), poderiam
dar um uso privilegiado a algumas dessas palavras. Não pude deixar de pensar neles
enquanto as criava.

10
Um lado prático do Livro: as palavras que construo são formadas com partes que
aparecem em palavras que todos usam. Portanto o leitor pode fazer descobertas sobre
significados ocultos dentro de palavras cotidianas, e estender essas descobertas para a
formação de palavras em inglês, que é apresentada em paralelo ao português, e com
equivalências tão propositais quanto possíveis.
Abordar partes de palavras, mostrar o que significam, em que palavras estão e
como por vezes se roupam de outra forma é explorar essa grossa camada de significados
ocultos do cotidiano. É ser apresentado a um velho amigo e descobrir que ele não nos
contou várias coisas a seu respeito e muito surpreender-se com elas.
Também entendo que lidar com partes de palavras é lidar com algo menos
específico do que a cultura e mais universal do que uma determinada língua. É um
conteúdo ilimitadamente humano. Assim essa escrita se provou um excelente exercício
para explorar a universalidade humana das palavras, que eu procurei tratar
didaticamente ao sempre fornecer uma versão inglesa em cada verbete. Espero ter
mostrado que em certos níveis as línguas podem ser menos um mistério e mais um
sistema com tantos mecanismos que se repetem e que portanto podem esclarecer e
desmistificar suas diferenças mútuas. Meu viés profissional não perdeu a voz.
E por que bilíngüe? Porque entendo que em nosso tempo tudo deve(ria) ser.
Seria melhor que todos os livros e publicações online fossem em inglês e na língua
local, e que o inglês de cada publicação fosse a versão em inglês da cultura que deu lhe
origem. Um inglês que segue padrões de clareza estrutural, vocabular e de pronúncia
suficiente pra permanecer acessível a qualquer outra cultura que queira ler o que a obra
contém, sem causar ruídos ou acidentes de leitura, e sem a preocupação de parecer
exemplar em qualquer sentido. E os leitores que têm inglês como língua materna teriam
de aceitar que falam uma língua que pode não ter dono, ou ainda, sob outra ótica, que
pode ser de todos.
Se por ventura já existir alguma palavra mencionada aqui como não tendo
existido até sua publicação, por favor me avise. Tomei cuidados para que isso não
ocorresse, mas esse terreno não é propriedade de ninguém nem dá, em tese,
exclusividade a pessoa alguma. Observe ainda que existem palavras criadas aqui que
são comuns em uma outra língua, como alemão, por exemplo. Mas de um modo geral,
não pensei em fazer traduções de conceitos de outras línguas, e sim me dei conta de que
os estava usando por serem tão representativos de alguma coisa que parece faltar em
português e em inglês.

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E finalmente, acho que é importante comentar que à medida que fui me
envolvendo com esse universo de criar palavras descobri que não estou sozinha.
Existem tantas inciativas na Internet de sites correlatos que dá para surpreender aqueles
que não pararam e não pensaram que, se falamos em palavras, falamos em códigos, se
falamos em códigos, falamos de informação, se falamos de informação, então nos
deparamos com tecnologia, e descobrimos que no mundo dos K-, M-, G-, T- e sabe-se
lá que novas letras ainda virão antes do B (de bytes), criar linguagens é corriqueiro, dá o
sustento de famílias e o poderio de mercados. Por que, pergunto, diante desse cenário de
criação de linguagens para atender o mundo que se digitaliza, não se criariam também
palavras?
Com tantas justificativas, ainda acho que esta aqui é uma das mais capazes: se a
palavra que não existia tocar o leitor a ponto de uma reação (sorriso, boca torcida, gesto,
careta, sombrancelha arqueada são exemplos das reações a que me refiro), me dou por
satisfeita, pois arrisco afirmar que as palavras só realmente não existem quando são
incapazes de evocar algo em nós. E nesse sentido, há muitas que existem e que não.
Tenhamos nós deixado elas assim ou tenham elas nascido estéreis, é uma compreensão
à procura de pensamentos que a alojem.

Ser cada vez mais específico é o caminho lógico para a evolução da expressão, e
portanto da palavra.

12
Introduction

The steps I’ve taken are kept in imaginary baskets. Experience is something kept
to be used some day, but we hardly remember where we keep it, let alone what use to
give it. Yet the feelings that experience produced remain like a new word.
We’re born and die the same way, all of us. There is nothing that sets us apart
but these new words, even the unformulated ones, the yearn for expression and
unearthing.

Background, examples, support

I thought about furnishing my readers with something I often miss when I have a
curious book in my hands: some knowledge about the author’s background, so that they
become acquainted with a picture of the entire message, something that transcends the
book by telling of who writes it. Then, in an express attempt to win my readers’ interest,
I provide some examples to support the thoughts which were the cornerstone for this
kind of writing. They are foreign concepts and sentence structures that I came in contact
with throughout life and which show us the possibility of naming things differently and
anew. Now I realize they fueled the making of this book even before it materialized as
what it is now.
So for the past eight years I have published several technical books directed to
Brazilian Portuguese speakers learning a foreign language, mainly English. An
important aspect of these publications is their focus on those contents without
symmetric parallels between both mother tongue and the language being acquired. The
books on pronunciation deal with the sounds we fail to produce naturally or characters
which have a different sound value, to name a few approaches, while the grammar and
vocabulary books explore the structures and words that we wouldn’t be able to employ
counting on our linguistic background only. The explanation of language facts through
comparisons with familiar linguistic traits seeks to demystify the acquisition process. It
is meant to foster the understanding of how one’s many inaccuracies in a foreign
language come to be and provides the means to accurately map one’s own difficulties. It
also presents the workings of a language as taking place within a (broader, more than

13
often predictable) system of sounds, concepts and structures. This system perspective
also helps the speaker become more confident and more self-sufficient while
communicating in the foreign language. The more self-sufficient and independent from
the stiff communicative performance patterns traditional language books love to set as
models to be pursued, the greater the chance to communicate effectively by using what
is already there at hand. This is true, of course, after a certain number of basic steps
have been taken. But, OK, this is the subject of other books. I bring it up because I
understand that my regard for autonomy in communication is such that, among other
things, it also allowed me to walk the path of writing this Book of words that weren’t.
The fact that I am a translator and have read miles of dictionary entries to this
day has had a hand in this work too. And, funny enough, while searching for the
meaning of certain words I have so often encountered words practically no one knows.
Would you for instance know the meaning of a word like mytacism or plumiped8 (hope
you never have to use either one)? With this in mind I thought to myself: if there are so
many words with little or no everyday use, why can’t there be a few new ones which an
attentive language user ( me!) happens to think are missing?9
Another point: when I was a child there were many books in foreign tongues
lying around in my home. Paging through pieces of unintelligible text has contributed to
two determining traits of my personality: first, because I didn’t understand it, I ended up
imagining what it meant, and this made me a rather inventive person; second, and for
the same reason, I developed a yearn beyond measure to one day understand that other
way of putting things. I recall those few Icelandic books on my eldest brother’s
bookshelf. They were never given proper attention. I wonder if I can still catch up on
them.

Icelandic aside, I ended up learning more languages than most people I know. I
had English and German classes, and learned French and Spanish partially in class and
much outside of it. Russian, Polish and Japanese were the object of incomplete studies,
even when incomplete is synonymous with a 5-year-long instruction process, which is
the case with Japanese. After all, it is Japanese.

8
‘Fondness for the letter m’ and ‘having feathered feet’, respectively. Source: Webster’s New 20th
Century Unabridged.
9
A friend, who is a psychologist, said to me the other day that coming up with non-existing words is a
symptom of schizophrenia. So, after studying a few other symptoms of the disease (to be on the safe side,
whichever it may be) I created the word you’ll find on page XXX. It means “to try to classify any
behavior which is not strictly expected or regarded as normal under some behavioral pathology.”

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I have always been fascinated by diverse grammar structures too. I delight in the
pursuit of any grasp of how languages like Latin, Sanskrit, Greek, Hopi, Pali and
another dozen languages work. Unique words in various tongues have seduced me
permanently. I’ve found arresting names for unimaginable things. I share some with you
in the following paragraphs.

A classic: Eskimos have a higher number of names to describe snow, which
account for weather nuances that the tropical, temperate and sub-temperate experience
most of us have would not let us recognize, let alone name. There is the word saudade10
in Portuguese, which for English speakers may still raise some interest. But I have to
say that for a Brazilian who often hears people bringing it up as the utmost linguistic
achievement on Earth it stands as quite a commonplace.
In Persian, one word used to describe God is also an imperative phrase meaning
“Come to (your) senses!”. There’s an implied connection between being awake and
spirituality. Interpretations are free, but I’m convinced this synonymity is not the
product of chance.
This is a good one for speakers of Portuguese, really: The word nada, which
means nothing in Portuguese, means hope in Serbo-Croatian or Croato-Serbian (or
Croatian or Serbian, Serbian or Croatian, to stay politically aware). I’m sure Clarice
Lispector11 would have enjoyed this pitch.
In a certain Yaghan language from Fire Land, in the southernmost region of
South America, there is this word: mamihlapinatapai. It’s in The Guinness Book of
World Records as the densest and hardest word to translate there is. It means a look
shared by two people with each wishing that the other will initiate something that both
desire but which neither one wants to start.12 I find this astounding.
One of the key concepts in an American sci-fi novel from the Fifties called The
Languages of Pao, by Jack Vance, is the use of language for social engineering
purposes. It’s about a planet called Pao whose natural language, Paonese, has no verbs.
This linguistic trait renders the people in Pao apathetic and makes their culture one of
passiveness. And so, to overcome this state and become a galactic superpower, Pao has

10
The nearest rendering in English is probably homesickness, but it doesn’t really apply, as saudade is a
noun extensible to describe the feeling you get from missing about anything and anyone.
11
Born in Ukraine, in 1920 - died in Rio, in 1977. A very famous and significant Brazilian author, whom
I’d like to quote in what was to me a memorable statement: “the most important word in the Portuguese
language has only one character: “é” (is).”
12
Wikipedia definition.

15
to undergo linguistic change. It then adopts three new languages, the specific
characteristics of which are to help Paonese peoples become learned, warlike and
skilled in the arts of trade. Even though the narrative is just fantasy, the book presents
us with the possibility – enhanced through fiction – of intentionally exploiting language
for purposes other than communication.
Among many linguistic traits that are entirely different from Western languages’
and which we take for self-evident and universally current, but are not, our concepts of
giving and taking unfold into the intricate Japanese giving, taking because requested
and receiving (being given) spontaneously13 (Japanese speakers and translators, do
forgive me). This has wilder implications than our imagination would ever be able to
conceive, as it unfolds further to indicate and maintain the interlocutor’s hierarchical
position in society. And these verbs work as auxiliaries, too. In other words, while we
are capable of expressing duty or possibility when we say that “we must do something”
or that “we can do something else”, respectively, the Japanese have sentence structure
mechanisms to express donation, fulfillment of duty (due to a prior request) and
cooperation, contribution.
Because I referred to “many” Japanese linguistic traits, let me introduce one
more: when you mean, for example, two books, the number “two” is expressed
differently from when you say two people. Numbers may have suffixes or change
entirely to indicate the nature of what is being counted: people, flat objects, vehicles,
long objects, houses, shoes, big objects, and so on. Here the act of communicating is
undeniably more context-dependent and – why not say it - accurate.
In the “Word Parts Dictionary”, by Michael J. Sheehan, there’s a chapter only
dedicated to listing divination forms. There is the traditional cartomancy, from where
fortune-tellers draw their savoir-faire, and crazy things like masomancy, which is to tell
the future by the choice a baby makes of the breast from which it will be breastfed (I
imagine it’s right breast means yes and left breast means no with not many variations
thereof. There’s also labiomancy, telling the future from the movements of the lips,
collimancy, which is divination through the wrinkles of one’s neck, and conchomancy,
divination from shells, among others. These many uses of the word part “-mancy”,
telling the future, show how much effort the Greeks put into exploring this side of
things, as they did it to the point of having a variety of distinctly named divination
methods.
13
Ageru, morau, kureru.

16
There is also a chapter just for fears and disliking, where all entries end in “-
phobia”. Fear of bees, melissophobia, fear of flowers, antophobia, fear of nipples that
are seen through clothes, telophobia. Fear of new or different things and people,
xenophobia, which is rather common. This is by far the longest chapter of the book, and
I believe this fact carries some meaning too.
It is a fact that people are impelled to have words that mirror the concepts which
their culture, reality, topography, demographics, etc. explore, produce and reproduce.
To know more, google “sapir-whorf hypothesis”, “linguistic relativity”, “Sapir”,
“Whorf“Humboldt”, “Herder”. Weltanschauung14. Go on from there.
The words found in this Book are aimed more at exploring reality than at
describing it. I do not expect them to be employed; that would be too naïve on my part.
I know it takes a lot more than its mere invention for a word to live on. My words are
the product of an exercise, they’re a chasm, an inspiration – they were invented in the
way air is inhaled to make our blood flow.
It is true that in using concepts that group in one word what until this moment
had required many words it is also easier to rephrase things and think them over. After
all, the time spent in saying x + y + z = w is shorter when you say xyzw and there is
sentence room left for increased complexity, concision, objectivity or, simply put,
there’s more room left.
I once learned something that happens to apply even more to words than
anything else, namely that we should not take things too seriously or, in this case, we
should not take words too seriously. They are incontestably fickle. Or maybe not.
The word alarm comes from the Italian to arms (al arme). It is connected to the
clattering a company of soldiers can produce when they run to grab their arms all at the
same time. The word esposa means handcuff in Spanish and wife in Portuguese. Ok,
handcuff must be used in the plural, but then is one wife enough to complete the job of
bonding? It struck me as very hard to believe when many years ago I learned that Deus
(God, in Portuguese) and Zeus (the ancient Greek God) stem from the very same root.
Shouldn’t these words have indisputably distinct morphological traits for the ideology
behind God to be really consistent? Gift, in German, means poison. Like gift in English,
it must be given by someone to someone else. Also in German, to disillusion,
ernüchtern, can have a positive meaning, which is I think unthinkable in Portuguese or

14
Worldview.

17
English. Deutsch (same root as in Teutons, a Germanic tribe name15) and deuten, (a
German verb that means “to give or explain the meaning or intention of something;
interpret”16, have the same root, whence when you talk to the people, you better be very
clear lest there will be plenty of misunderstandings. Aren’t there permanently? And on a
different sphere now, the same sounds we use to pronounce the word I, me, will refer to
passionate love in Japanese, egg in German, an exclamation of pain in Portuguese, and
garlic in French.

To me, writing is a form of life. I do not write only when I take a seat to do it or
when I’m holding a pen or typing. I write all the time. Words are permanent
opportunities to understand things. And things appear to me like a polyhedron, even
though they are most of the time treated as flat and plain angular forms. Thus
rearranging meanings and re-dubbing things is exploring segments that had been in the
dark, obscured for not having been an alternative for communication.
With new words we may be walking one more way towards the limitless
unfolding of reality.
No one can say definitive things because the act of saying things is indefinite.
The Babel Tower is at one time impossible and real. Not so much because man cannot
build a limitless tower up into heaven, but because heaven does not exist as a place to
arrive. God’s punishment of creating the multiplicity of languages is typical of His
lovingness: through the very penalty of putting an end to common understanding we
must turn and walk the path of naming to understand ourselves and Him. Words are
instruments with which we come closer to what is essential in things.
Giving things a name also results from the need to deal with reality otherwise.
And one can interfere with reality by recreating it with more names and new names for
that of which reality is made. What better way is there to get along with what surrounds
us if not by calling new and old aspects of life names that were not and providing
meanings that can provoke a smile, a thought, a change in one’s standpoint?
In the history of human communication, naming is mostly a reaction to a need
for identification. This need follows another in turn, namely, that of placing within a

15
“The terms Teuton and Teutonic have sometimes been used in reference to all of the Germanic peoples.
The Latin name Teutōnī was borrowed via a Celtic language from Proto-Germanic *Þeudanōz (meaning
'they of the tribe'), the word *þeudō being a Proto-Germanic name for 'tribe' or 'people'. The words can be
further reconstructed as an earlier name *Teut-onōs and the root *Teutā, which is a western Proto-Indo-
European word root meaning 'people'.” Source: http://en.wikipedia.org/wiki/Teutons
16

18
familiar arrangement what had until then remained unknown, being the unknown
merely that which has had no name. In creating words I expect to enlarge the
possibilities of expressing objects, concepts and experience that a sufficient number of
people can recognize, and which for this reason have a justified and necessary
identification, a name of their own.

Once baptized and named, things and experience begin to have an identity. It is
easier to deal with them when they have one, because an identity usually entails
usability, insertion and limits. As in a christening, things and experience start to belong
somewhere, with reference from and within further and broader references. Thus what
used to be unknown at first turns into a part of what is known and then begins to be
known and have a place in the world, the world of ideas at least.
God’s true name is occult. If we could pronounce His name, we would have
control over life, death and events would be given human limits.
Serious fun apart, to name is to make sense.

This Book of words that weren’t brings together words of various kinds which
are meant to assist us in the permanently incomplete task of making the human moment
make sense, a task which these days appears to be particularly hard to accomplish. I
speak of the human moment and not of the present moment because some of the words
appearing here seem to point at recurring aspects of our nature. I wish to identify not
necessarily what we are going through now, but aspects of what we have been through
with our living apparatus: the way we think, act, feel and relate to each other and
ourselves.
Nonetheless, the present moment does play an important role in my impulse to
create new words. With so many traditional concepts yielding their capacity to raise
confidence in us, with countless examples of social discrepancies, human
inconsistencies, brutality, suffering, opportunities, diminutive beauties of daily life, the
present moment requires making new sense. There’s an urge to run after new means of
expression to better understand reality and thus have some other, unprecedented
resources at our disposal that can be used to interfere with its course. A remark is
needed here, as I think interfering with reality is more connected to how we perceive it
and relate to it than actually to what we do with it. Anyhow, how can change be effected
if old concepts are all there is? Change requires alternative measures, otherwise what is

19
new becomes tainted and grows old the moment it comes to be, because its expression
is compromised through worn-out means, i.e., old words. This is, of course, an idealized
description of a complex process, but it seems that setting an ideal is equivalent to
sowing seeds. Depending on the soil, some will indeed germinate.
Having new names for things that had so far been designated through a
combination of words and explanations is like walking a well-trodden path and noticing
things in it which had never been seen before. We begin to heed what had remained out
of sight until now. With more or other names at hand it is as if we progressed in the
endless uncovering of things, because there are subtler, more precise and more finely
tuned instruments available.
By contrast, not selecting or knowing or even reflecting upon one’s words is like
living without making decisions about one’s life course. All this may seem rather
remote, perhaps even foolish, but isn’t it true that language is the steering wheel of life?
And when the wheel turns, there are not many directions to choose from. There’s
a definite way to say nearly everything... Therefore this Book is my personal way of
saying yes and no. It is my mediating escape from the abysses of the absolute that is
always hiding behind everyday language.

Consider this: we are helplessly surrounded by words that make no sense to most
of us. A great variety of professional jargons are a good example, but there are brands
and product names whose alien nomenclature we accept and adopt. Besides all this,
there are still those cases where same word will have silently different shades of
meaning depending on who’s using it. Is the sand on the beach the same as in the
desert? I do not mean its physicochemical properties, but rather what it evokes to the
desert peoples and school children on vacation at the seashore, for instance. Does the
hunger of subSaharan children compare to that of an American middle-class child? Both
say they’re hungry…

Recreation happens all the time, too. Different points of view are in constant
confrontation and renewed interests form permanently, only that as a rule, the linguistic,
representational side of this process happens with not much awareness or intention.
Here the difference is the intent, the disclosure and, of course, the act of naming itself.

20
The very words we use today are also the product of a choice in the past, which
crystallized in a concept and a name as a part of known reality. Originally, a hypocrit
was just an actor.

Another reason why I took to this kind of writing is that lengthy speeches, texts and
stories are, to me, hard to deal with (even though I saved the last pages of Tolstoy’s
very lengthy Anna Karenina in a way that I can’t even apply to money saving…- but
then we’re talking about a master piece, and master pieces are characterized for making
a difference). Generally speaking, the language of short stories, chronicles and novels
does not strike me as a viable means of literary expression, which does not mean I don’t
appreciate good narratives of this or any kind. Producing these entries has been an
adequate means of expression for me. The Book responds to my demiurgic drive. It is
my plan to cater to an unpremeditated need I have: that of thinking facts over by giving
new names.

I believe the entries speak for themselves. Even so, there are explanations on
how the words are formed, which should be of help to the reader when it comes to
understanding their purpose. By understanding the words’ purpose I mean the first
impression they can cause, as when we arrive somewhere and greet those who are
present. The ensuing interaction is exclusively the reader’s business and the word’s gist.
I thought that some particular audiences, such as philosophers (pannaught, p??) or
historians (historiension, p??), or physicists (cosentencing, p??) or psychologists
(altermania, p??), could give some of these words a privileged use. I couldn’t help
recalling their mode of thinking as these words were created.
A practical side: many words are formed with parts that appear in words
everybody uses. Therefore, from reading this Book, the reader can gain some knowledge
on the meanings hidden in both English and Portuguese words, as there is a bilingual
rendering for every entry. Translations were meant to be as directly rendered as
possible.

Approaching word parts, showing what they mean and in which words they
appear is exploring the thick layer of hidden meanings contained in ordinary
communication. It is quite like being introduced to an old friend and finding out about

21
so many things he or she didn’t tell us about themselves, and being taken aback with
what you hear.
I also realize that dealing with word parts is dealing with something less specific
than culture, more universal than one particular tongue and limitlessly human. In a way
this activity has proven an excellent exercise to explore the human universality in
words, which I forced a little further by always providing an English version to
accompany them. Sometimes they came to be in English and were then translated into
Portuguese. I hope to have shown that at certain levels languages are less of a mystery
and more of a system with so many overlapping mechanisms that can clarify and
demystify their mutual differences. My professional bias will not let me be.
And why bilingual? Because I reckon these days everything should be. It would
be better for all books and online material to be in English and in the local language,
and that the English version of all things could reveal aspects of the culture in which the
publication came to be in the first place. A kind of English that is plain and clear and
which would stay accessible to just about any one from a different culture who wishes
to know about what is written in it. A kind of English that complies with essential rules
to keep its users from having constant reading slips or communication noises, but with
no concern for seeming exemplary in any sense. And those readers whose mother
tongue is English would have to accept the fact that they speak a language that isn’t
owned by any one in particular, or still, from a different perspective, that they speak a
language that is owned by all.

If by any chance a word is quoted here as being new and it appears elsewhere,
please let me know. I was careful to avoid it, but the realm of words does not
accommodate ownership or exclusivity. Note that some words appear here that are
common in another language, like German, for example. Nonetheless it was not my
intent to translate concepts from other languages, rather I found myself using some of
them because they were so representative of something that I considered to be missing
in Portuguese or English.
Finally, it is worthy of notice that as I got involved with the world of creating
words I realized I had plenty of company. There are many Internet initiatives in the
field. Also, if we say words, we say codes, if we say codes, we mean information, and if
we mean information, we’re certainly talking technology. In the world of the K-, M-,
G-, T- and whatever other characters will come before the B (as in bytes), creating

22
languages is a trivial thing. It provides the livelihood of families and accounts for the
power of markets. Why then, I ask myself, wouldn’t words be created in this scenario of
multiple language creation that supports an increasingly digitalized world?
So, if any entry here touches you to the point of causing you to show some
reaction (smiles, grimaces, gestures, deep breaths, raised eye-brows are examples of the
reactions I mean), I can consider my Book to be successful. I can even say that a word
can really be called “non-existent” when it is fully incapable of evoking anything in us.
In this sense, there are many words that exist, but are more like communicative
zombies. Whether we left them so or they were born sterile is something we’ll all have
to check sooner or later.
Becoming more and more specific is the logical course for expression and words to
evolve.

23
Autolência

substantivo

forma curta para “auto-violência”

convívio neutro com os absurdos da civilização, como se
fossem naturais.

_________________________________

Autolente

adjetivo

(1) que não reage diante do absurdo;

(2) sinônimo de coletivo, por serem os grupos normalmente
sem reação.

24
Selfence

noun

short for “self-violence”

the neutral witnessing of the absurd in our civilization, as
though it was natural.

_________________________________

Selfent

Adjective

(1) unconcerned with the absurd;

(2) synonymous with collective, for it is groups that normally
show no reaction.

25
Panada

substantivo masculino

lê-se /pãnada/

pa(n)-: todo, como em panamericano, pandemia
+
nada

(1) tudo que não existe; anti-lugar, anti-substância, anti-
tempo; que contém o que não foi pensado, não foi dito, não
foi feito, nessa ordem17; hipótese jamais comprovável mas
evidente de que existem muitas coisas que não existem;

(2) intuição de que o que existe não é tudo.

17
Diz-se que primeiro se pensa, então se diz e por último se faz, sendo essa a ordem de manifestação que
deuses e homens seguem no momento de criar.

26
Pannaught

noun

pan-: all, as in pan-American, panorama
+
naught

(1) all that is not; antiplace, antisubstance, antitime; that
which has not been thought, said, and done, in this order ; the 18

undeniably evident hypothesis, though forever impossible to
substantiate, that there are many things that are not;

(2) the intuition that what there is is not all.

18
It is said that thoughts come before words that come before deeds – this is the order of manifestation
applied by gods and men during their acts of creation.

27
Fatista

substantivo

fat(o)
+
-ista: seguidor de doutrina ou escola, como em darwinista,
socialista

também fatólatra (q.v.); pessoa que só crê nos fatos. Se não
houver quantificação ou estatística ou prova possível, por
mais falho que seja o método em uso, o fatista não
considerará digno de ser real o tópico sob apreciação; também
antionomaturgo, (não-criador de palavras).

_________________________________

Fatismo

substantivo masculino

28
Factist

noun

fact
+
-ist: follower of doctrine or school, as in Darwinist, Marxist

also factolater (q.v.); one who believes in facts alone. If there
is no quantification or statistics or possible proof to
something, however faulty the measurement method applied,
the factist will not think it is worthy of being considered real;
also antionomaturgist (non-creator of words).

_________________________________

Factism

noun

29
Fatolatria

substantivo

Fato
+
-latria: culto, adoração, idolatria, egolatria

o mesmo que fatismo (q.v.).

_________________________________

Fatólatra

Substantivo

Fat(o) + -ólatra: adorador, como em alcólatra, idólatra

que adora os fatos.

30
Factolatry

noun

fact
+
-olatry: devotion, worship, as in idolatry

the same as factism (q.v.)

_________________________________

Factolater, factolatrist
noun

fact + -(o)later: worshiper, as in idolater

one who worships facts.

31
Origenalgia

substantivo

origem
+
-algia: dor, como em neuralgia, nostalgia

(1) jeito de pensar que elege que apenas o que vem
originalmente com as coisas é bom.

(2) sentimento que surge quando se descobre que algo não é
original, como quando uma peça de museu de aparência
particularmente antiga se revela apenas uma réplica de um
original que se perdeu.

(3) lamento sobre as coisas nunca serem (agora) como (antes)
eram.

Quem pensa com origenalgia acha que a solução para o que
não está bem é voltar a ser como era.

_________________________________

Originálgico (com –i-)

adjetivo

simplista (por reduzir a solução ao passado).

32
Originalgia

noun

origin
+
-algia: pain, as in nostalgia

(1) stream of thought that mandates that only what is original
in things is good.

(2) feeling aroused when one finds out something is not
original, as when for example a museum piece of a
particularly ancient appearance is found to be a replica of the
long lost original.

Those who think with originalgia understand that the solution
for what is not well is to restore it to what it used to be.

_________________________________

Originalgic
Adjective

Oversimplifying (for cutting the solution of things down to
restoring them to what they used to be).

33
Idioglota

Substantivo

idio-: própri, como em idiota, idiossincrasia
+
-glota: língua, com em poliglota, monoglota

aquele que critica a tudo e a todos, mas jamais a si mesmo.

O idioglota fala uma língua própria; não dialoga com a
realidade e os outros; não investe em códigos de
comunicação comum ou formas flexibilizadas de interpretar
as palavras; não se coloca no lugar do outro.

_________________________________

Idioglosia

substantivo

quando algo de errado acontece, e a culpa é apontada como
sendo de tudo e de todos, mas nunca daquele determinado
envolvido que abriu a boca para falar em culpa.

34
Idioglot

noun

idio-: one’s own, as in idiot, idiosyncrasy
+
-glot: tongue, as in polyglot, monoglot

(1) one who criticizes each and everyone around, but never
one’s self.

Idioglots speak a language of their own; they do not converse
with reality and others; they do not invest in common codes
of communication or flexible forms of interpreting words;
idioglots do not place themselves in other people’s shoes.

_________________________________

Idioglotism

noun

when something goes wrong and each and everyone is blamed
except the one who took the initiative of blaming.

35
Frenografia

substantivo

freno-: mente, espírito, inteligência, como em frenesi
+
-grafia: escrita, registro, como em psicografia, radiografia

(1) arte de desenhar em pensamento;

(2) as conseqüências do que se pensa e ninguém vê e ninguém
sabe, e que nem se sabe que têm conseqüências;

(3) o pensamento de que pensamentos são coisas sem
conseqüência.

_________________________________

Frenográfico

adjetivo

referente àquele pensamento que, de tão recorrente,
involutariamente afeta nosso comportamento e a forma como
vemos o mundo.

36
Phrenography

noun

phren-: mind, spirit, intelligence, as in frenetic
+
-graphy: writing, recording, as in biography, photography

(1) the art of drawing in thoughts;

(2) the consequences of what we think, which no one sees or
knows, and which we ourselves don’t know have
consequences

(3) the thought that thoughts are unconsequential.

_________________________________

Phrenographic

adjective

pertaining to those thoughts whose reoccurrence involuntarily
affects our behavior and the way we see the world.

37
Girofrase
Substantivo feminino

Brasil19

giro–: círculo, como em girar,giratório
+
-frase: modo de falar, como antífrase, metáfrase

comunicação em torno do que interessa ou é perguntado, sem
no entanto falar do que interessa ou responder à pergunta
feita; fala em círculos.

_________________________________

Girofrasal

adjetivo

(1) que não conclui.

(2) que fala demais e não conta nada.

19
Faz especial sentido no contraste de estilos de interação, como, por exemplo, brasileiro e anglo-saxão.

38
Gyrospeech
noun

Brazil20

Gyr(o)-: circle, as in gyrate, gyroscope
+
speech

the communication around what matters or is asked without
actually addressing what matters or answering what is asked.

_________________________________

gyrospeechful

adjective

(1) that does not draw conclusions

(2) that talks a lot but says nothing

20
Makes sense especially in the contrast between interaction styles, like Brazilian and Anglo-Saxon, for
example.

39
Partonímia

substantivo feminino

part(o)
+
-onímia: nome, como em sinonímia

(1) necessidade de dar nomes às coisas.

(2) sinônimo para a existência humana.

O nome traz a diferenciação, de onde se origina a
individualidade. O bebê que não tem nome não pode ser
chamado; sem nome, não se faz referência a ele e ele não
existe. Ter nome é preciso para ser.

40
Parturonym
noun

partur- from parturire: to be in labor,
as in parturition
+
-onym: name, as in synonym

(1) the need to give names to things.

(2) a synonym for with human existence.

A name causes differentiation, from whence individuality
originates. The baby with no name cannot be called; without
a name, it is not spoken of and does not exist. To have a name
is needed to become.

41
Radistante

adjetivo

radi-: raiz, como em radical, radicado
+
(di)stante

(1) distante da raiz, portanto crescido, amadurecido, à
semelhança das árvores altas que têm grandes copas.

(2) que venceu os padrões de pensamento e comportamento
herdados e impostos pela família e pelo meio e desenvolveu
seu jeito próprio de ser e viver; maduro e independente.

42
Radistant
adjective

radi-: root, as in radical, radicalize
+
(di)stant

(1) distant from one’s root, therefore fully grown and mature,
like a tall tree with long branches.

(2) free of thought and behavior patterns that were inherited
and imposed by family and environment, after having
developed one’s own independent way of thinking and being.

43
Ajulgativo

Adjetivo

a-: não, como em afasia, anarquia
+
ju(lg): julgar, como em juiz, julgamento
+
-ivo: pertencente, como em erosivo, decisivo

(1) que não julga;

(2) sinônimo de raríssimo.

44
Nullijudgmental

Adjective

nulli-: not, as in nullify
+
judgmental

(1) that doesn’t judge.

(2) synonymous with very hard to find.

45
Perfectio, números de
expressão

conhecimento secreto, de posse do qual sabe-se a verdadeira
ordem de aparecimento de cada coisa da criação desde o
início do tempo. Os números de Perfectio revelam o nome
real do que existe. São a descrição da seqüência perfeita do
surgimento de tudo, pois tudo que se conhece só existe no
tempo e portanto surge antes ou depois de algo mais.

Não há notícia de quem tenha conhecido os números de
Perfectio e sabido do que significam. A menos que, dada a
nossa condição transiente, a conseqüência de tal
conhecimento seja inevitavelmente desaparecer.

46
Perfectio, numbers of
expression

secret knowledge, through the possession of which one
knows the actual order of appearance of each thing created
since the beginning of time. The numbers of Perfectio reveal
the true name of all there is. They are the description of the
perfect sequence of appearance of all, because all that is
known exists only in time and therefore comes to be before or
after something else.

It is not known of anyone who has known the numbers of
Perfectio and what they mean, unless our transient condition
determines that the consequence of such knowledge is to
disappear.

47
Malurgia

substantivo feminino

mal
+
-urgia: trabalho, técnica, como em dramaturgia, demiurgia

(1) em peças de entretenimento de massa, principalmente
filmes, a utilização de símbolos e imagens com inspiração no
mal.

(2) a busca pela gratificação de anseios catárticos através do
desfrute de tal entretenimento.

48
Evillurgy

noun

evil
+
-urgy: work technique, as in metallurgy,dramaturgy

(1) the use of evil-inspired symbols and images in the
production of mass entertainment pieces, mostly films.

(2) the attempt to appease cathartic craving by enjoying such
pieces.

49
policoisa

substantivo feminino

poli: mais que um, como em policromático, poligamia
+
coisa

tudo que uma mesma coisa evoca, e o que ela é além dela, por
redirecionamento.

Cheiros costumam ser policoisas: lembram momentos,
experiências, pessoas.O cheiro da pomada usada em bebês
faz recordar deles, depois dá alegria pela lembrança e nos
deixa tristes também, porque agora não passa de lembrança.
Há cores que são policoisas de ver. Histórias, que são
policoisas de sentir. E gestos, que são policoisas de
companhias tidas.

50
Polything
noun

poly: more than one, as in polychromy, polygamy
+
thing

everything that a same thing evokes; what a thing is beyond
itself, through redirection.

Odors are often polythings: they remind one of moments,
experiences, people. The smell of the balm used on babies
reminds us of them, then it makes us happy, because we
remembered, and sad, because now it’s just memories. There
are colors which are polythings of seeing. Stories that are
polythings of feeling. And gestures, which are polythings for
past companions.

51
Analúmica

substantivo feminino

ana:- repetição, intensidade, como em analogia
+
-lumin-: luz, como em luminoso, iluminar
+
-ica: técnica, arte, ciência, com em aerodinâmica, ética

(1) arte de desfrutar o prazer da manhãzinha, principalmente
junto à natureza.

(2) gosto pela renovação constante.

Analúmica.

52
Analumics

noun

ana:- repetition, as in analogy
+
-lumin-: light, as in luminous, illuminate
+
-ics: technique, art, science, as in aerodynamics, ethics

(1) early morning pleasure, mainly in the natural world.

(2) liking for constant renewal.

Analumics.

53
Sominto

substantivo masculino

forma curta para sócio-helminto

soci(o)-: social, companhia, como em sócio, sociedade
+
-helminto: verme, como em anti-helmíntico ou antelmíntico

(1) aquele para cujas mentiras as crenças de outros são
atraídas.

(2) guardião de crédulos acríticos; líderes religiosos
questionáveis.

_________________________________

Somíntico

adjetivo

de falsidade premeditada.

54
Sociominth

noun

short for sociohelminth

Socio-: companion, as in social, society
+
helminth: worm

(1) one to whose lies other people’s beliefs are attracted.

(2) guardian of believers and non-critics; dubious religious
leaders.

_________________________________

Sociominthic

adjective

purposefully false.

55
Solifazer-se

verbo

soli-: só, como em solilóquio, solidão
+
fazer-se

para usar na frente do computador (ou não)

(1) quando algo não clicado, não configurado e não solicitado
acontece, geralmente trazendo conseqüências desastrosas para
o trabalho em andamento.

(2) o que às vezes aparentemente ocorre com a vida à medida
que é vivida.

56
Solarise

verb

short for soliarise

soli-: alone, as in solitary, solitude
+
arise

to be used in front of the computer (or elsewhere)

(1) when something unclicked, unconfigured and unrequested
happens, usually with some disastrous consequences to the
work in progress.

what apparently happens in life as it is lived.

57
Teufuturo

substantivo masculino

forma curta para teutofuturo

teuto-: alemão
+
Futuro

As frases que em alemão expressam um futuro mais certo de
acontecer são construídas com as formas verbais do
presente;o presente torna-se uma forma de futuro, mas
também o futuro é uma forma de presente.

(1) determinação e certeza de agir.

(2) noção de que o futuro depende do presente.

(3) conceito unificado de presente e futuro.

58
germmorrow

short for germantomorrow

German
+
Morrow

In German the sentences used to express the most certain
kind of future are built with verbal forms of the present; the
present becomes a form of future, but also the future is a form
of present.

(1) purposefulness.

(2) notion that the future depends on the present.

(3) unified concept of future and present.

59
escriderme

substantivo

escri(t)-: escrita, como em escritor, escritório, escrita
+
-derme: pele, como em paquiderme, epiderme

quem tem a pele escrita; diz-se dos que se tatuam palavras ou
desenhos diversos.

_________________________________________________

escridérmico
adjetivo

(1) referente a escridermes.

(2) que tende ao arrependimento com o passar do tempo.

60
scriderm

noun

scri(b)-: write, as in inscribe, transcribe, scribe
+
-derm: skin, as in pachyderm

(1) one with written skin; the name given to those who tattoo
themselves with words or drawings of various kinds.

scridermic
(1) pertaining to scriderms.

(2) tending to regret as time goes by.

61
Sobreeu

(sobretu, sobrenós)
pronome

Sobre-, o mesmo que super-: além dos limites, superior, como em
supermercado, superar
+
eu / tu / nós

(1) o que se almeja ser quando se fala (de si, do outro, do grupo a que se
pertence); a colocação do eu (do tu, do nós) sob outra identidade que em
tudo supera a atual mas não a abandona, senão a eleva ao que pode ser
de melhor.

(2) o muito melhor de cada um, enquanto fala de si.

Sobreeu sei, mas eu (ainda) não consigo.

62
Overme

pronoun

(ovyou (short for overyou), overus)

over-, the same as super-: beyond limits, superior, as in supermarket,
supercede
+
me / you /us

(1) what one aspires to be when one speaks (of one’s self, another, the
group one to which one belongs); the placing of one’s self (of another,
one’s group) under an identity which overcomes the current one but does
not relinquish it and makes it rise to its possible best.

(2) the very best in one, as one speaks of one’s self.

Overme knows, but I (still) can’t.

63
Intrálogo

substantivo masculino

intra-: dentro, como em intrauterino, intranet
+
-logo: palavra, como em diálogo, monólogo

diálogo que ocorre com a constante e indesejada intervenção de
terceiros.

Ocorrem principalmente em família, como quando os filhos
discutem ou conversam e o pai ou a mãe entende que é evidente
que sempre devem dar sua opinião.

64
Intralogue

noun

intra-: inside, as in intrauterine, intranet
+
-logue: word, as in monologue

dialogue taking place under the constant and unsolicited
intervention of third parties.

Taking place mainly among members of the same family, as
when sons and daughters are arguing or talking and the father
or mother take for granted they must always give their opinion.

65
Gratidade

substantivo feminino

Forma curta de gratidivindade

Grat(i)-: gratidão, como em grato, gratuito
+
divindade

(1) Ato gratuito, espontâneo e repetido de agradecer,
geralmente aos Deuses, pela vida.

(2) forma autodidata de espiritualidade, pois o ato de agradecer
revela o reconhecimento de que Alguém o merece.

66
Gratinity

noun

short for gratidivinity

Grati-: thankful, as in gratitude, grateful
+
divinity

(1) disinterested and spontaneous desire, generally directed to
the Gods, to thank for one’s life.

(2) self-taught form of spirituality, as giving thanks is
recognizing that Someone deserves it.

67
Vacaclé®

substantivo

vaca
+
chiclete

marca de goma de mascar, ainda não lançada no mercado, que
explora o quanto o ato de mascar chiclete pode lembrar um
bovino ruminando.

68
Cowing gum ©

noun

cow
+
chewing gum

a chewing gum brand, unlaunched as yet, that explores how the
act of chewing gum can remind one of a ruminating cow.

69
Altermania

alter-: outro, como em alterar, alternativa
+
-mania: desordem mental, como em megalomania, piromania

(1) suposição de que se pode pensar pelos outros;

(2) imaginação de que se sabe o que os outros pensam; ação com base
nessa imaginação.

A altermania é usual entre casais que com o passar do tempo começam a
agir de uma forma que impede a inovação na sua vida de casal.

_________________________________________

Altérmano

Aquele que tem altermania.

70
Altermania

Noun

alter-: another, as in alter, alternative
+
-mania: mental disorder, as in megalomania, pyromania.

(1) supposition that one can think for others;

(2) imagination that one knows what others think; action on the basis of such imagination.

Altermania is customary among couples who as time passes begin to act
in such a way that innovation is ruled out from their lives as a couple.

_________________________________________

Altermaniac

noun, adjective

one who developed altermania.

71
Ordem volítica
Expressão

Ordem
+
Volítico

Vol(it)-, de volere, querer, como em volição, volitivo
+
-ico, relacionado a, contendo, como em sulfúrico, atlético

Comp. Ordem surgimental

Em contraste à ordem alfabética, que não permite intenções ao
ordenar, é a ordem em que as coisas acontecem conforme a
vontade de quem as ordena.

72
Volitical order
Expression

Volitic

vol(it)-, from volere, to want, as in volition, volitional
+
-ical, characteristic of, as in poetical, typical

The order in which things happen in accordance with the
ordering party’s will, as opposed to the alphabetical order which
does not allow intentions to manifest through ordering.

73
Ordem surgimental
expressão

ordem
+
Surgimental

surgimento
+
al, característico de

Comp. Ordem volítica

A ordem em que as coisas acontecem.

74
Manifestational order
expression

manifestational

manifestation
+
al, characteristic of

Comp. volitical order

The order in which things take place.

75
prontolúcido
adjetivo

pront-, de promptu, disponível, como em prontidão
+
lúcido

Como se fica ao receber uma notícia chocante. Por um instante tudo é
visto de forma diferente. É quase ventolúcido, sopra e já termina. Acaba
a lucidez que o choque trouxe, e volta-se a mergulhar na grossa camada
do eu que reveste os pensamentos cotidianos.

76
prontolúcido
adjetivo

pront-, de promptu, disponível, como em prontidão
+
lúcido

Como se fica ao receber uma notícia chocante. Por um instante tudo é
visto de forma diferente. É quase ventolúcido, sopra e já termina. Acaba
a lucidez que o choque trouxe, e se mergulha outra vez na grossa camada
do eu que reveste os pensamentos cotidianos.

77
promptlucid
adjective

prompt
+
lucid

How one becomes as one receives shocking news. All is suddenly seen
differently. It is nearly windlucid, because it blows and ends. The clarity
brought about by the shock is soon over and one is again immersed in the
I thickness that covers all-day thoughts.

78
poscaosanteordem

substantivo masculino

pos-, após, como em pós-doutorado, posfácio
+
caos
+
ante-, antes, como em anteprojeto, antegozo
+
ordem

Imediatamente após terminar o que gerou caos, que pode ser
terremoto, tiroteio, discussão extremada, dependendo do
ambiente, e antes de retornar qualquer ordem. O
poscaosanteordem de um terremoto é depois do último
desmoronamento da última parede ou muro, e o tempo todo até
pelo menos o início da reconstrução; no tiroteio, é depois do
último disparo e dura até não haver mais balas ou vontade de
usá-las; na discussão, é aquela hora em que um dos que
vociferam ou deixa o recinto ou fala subitamente muito alto ou
diz algo muito sério – geralmente uma verdade dolorida para o
outro - e se dá conta de que destruiu toda a chance de voltar a
conviver por muito tempo. Nesse caso, o poscaosanteordem
pode durar para sempre, dependendo, neste caso específico, do
quanto os envolvidos estão adultecidos (q.v.).

79
postchaosanteorder

noun

post-, after, as in postgraduate, postindustrial
+
chaos
+
ante-, before, as in antecedence
+
order

Immediately after the end of whatever it was that generated
chaos, which can be an earthquake, gunfire, a heated argument
(it’s all context-dependant) and before the reintroduction of any
order. The postchaosanteorder of an earthquake is after the last
wall falls and before any reconstruction begins. In a gunfire, it
is after the last shot is heard and there are no more bullets left
nor the will to use them; in an argument it is that moment when
one of the vociferating parties leaves the room or suddenly
speaks much louder or says something very serious – generally
striking the interlocutor as an unbearable truth – and realizes
every chance of once again sharing a peaceful atmosphere is
gone forever. In this case the postchaosanteorder may be never-
ending, depending on how adulted (q.v.) the parties involved
are.

80
Adultecido

adjetivo

de adultecer, em simetria com adolescer ou envelhecer, no
particípio do passado

(1) que age como um adulto, na medida em que isso se opõe ao
que a saudável simplicidade infantil elegeria como curso de
ação;

(2) que não pede desculpas ou não reconhece o próprio erro
quando está realmente errado, e mente para parecer igual ou
melhor do que o outro.

81
Adulted

adjetive

adult
+
-ed, made that way

(1) that acts as an adult as an adult’s behavior opposes to what a
child’s simplicity would choose to be the right course of action;

(2) that doesn’t apologize or recognize one’s own mistake and
lies to be on an even or better position.

82
Transatrasado

Brasil, possivelmente no trânsito, em São Paulo

adjetivo

trans-, para além de, como em transcendental, transcontinental
+
Atrasado

depois que já passou quase uma hora ou mais da hora de chegar
em algum lugar.

83
Transdelayed

Brazil, possibly in the SãoPaulo traffic

adjective

trans-, going beyond, as in transcendental, transcontinental
+
delayed

almost an hour or longer past the time one is due to arrive
somewhere.

84
aquiprolina

substantivo feminino

aqui(l)-, águia, como em aquilino
+
prol(e)-, filhos, como em prole, proletário
+
-ina, que forma substantivos abstratos, como em disciplina, doutrina

Compreensão de que é preciso vivenciar o que cabe a cada um, como
fazem os filhotes de águia ao serem empurrados para fora do ninho por
suas mães, para que comecem a voar.

Por vezes tudo se resume em ter ou não ter aquiprolina.

85
aquiproline

noun

aqui(l)-, eagle, as in aquiline
+
prol(e)-, children, as in proletarian
+
-ine, which forms abstract nouns, as in discipline, doctrine

The understanding that one has to live whatever ought to be lived, as is
the case with the eagle offspring when they are pushed off their nest by
their mother, so that they may take flight for the first time.

At times all revolves around having aquiproline or not having it.

86
Historiensão

Substantivo feminino

História
+
Apreensão

(1) Compreensão histórica; o entendimento de alguma coisa a partir do
conhecimento de como ela aconteceu ou não;

(2) conhecimento histórico imparcial;

(3) algo difícil de conceber; impossibilidade.

Isso de ser feliz é uma historiensão qualquer que inventaram.

87
Historihension

noun

history
+
apprehension

(1) Historical understanding; the appreciation of something from the
perspective of its historical moment;

(2) impartial historical knowledge;

(3) something hard to conceive; impossibility.

This thing about being happy is some historihension someone made up.

88
Fitocídio

fito-, planta, como em fitoterapia
+
-cídio, coisa ou pessoa que mata, como em genocídio

(1) assassinato de planta; normalmente por falta d’água.

89
Phytocide

phyto-, plant, as in phytoplankton
+
-cide, thing or person that kills, as in genocide

(1) murder of plants, usually through lack of water.

90
Cocejar

Verbo

co-, junto, como em cofrase (q.v.)
+
Bocejar

Bocejar por influência de outro, qualquer um, gente ou bicho, que
bocejou e se viu.

Cocejo

substantivo

Bocejo por influência.

91
Coawn

verb

short for coyawn

co-, together, as in cophrasing (q.v.)
+
yawn

To yawn by someone else’s - a man’s or an animal’s - influence, whom
one happened to see yawning.

92
Paleologismo

substantivo

Paleo-, antigo, como em paleolítico
+
-logo-, palavra, como em logomarca, logosofia
+
-ismo, como auto-robinhudismo (q.v.)

(1) o significado antigo das palavras e das coisas.

(2) nome dado às palavras ou à prática expressiva que não serve mais.

93
Paleologism

noun

Paleo-, ancient, as in Paleolithic
+
-log(o)-, word, as in logogram, logosophy
+
-ism, as in self-robinhudism (q.v.)

(1) the ancient meaning of words and things.

(2) name given to no longer useful words and communication practices.

94
Retrofaciente

adjetivo

retro-, para trás, como em retrovisor, retroceder
+
-faciente, que faz, como em estupefaciente, rarefaciente

que tão mais intensamente nos incomoda quanto mais
permitimos que nos incomode.

95
Retrofacient

adjetivo

retro-, backward, as in retrospect
+
-facient, making, as in stupefacient

That which disturbs us more and more as we more and more let
it disturb us.

96
Veriquietude

veri–, verdade, como em verificar, verídico
+
quietude

A verdade última de todos os fatos está no silêncio.

__________

Veriquieto
Adjetivo

Que faz silêncio diante da verdade.

97
Veritacitness

veri–, truth, as in verify, veritable
+
-tacitness

The ultimate truth of all facts lies in silence.

______________

Veritacit

adjective

that is quiet in the face of truth.

98
Espiridualidade

substantivo feminino

espiritual
+
dualidade

Nome dado à presença do anjinho e do diabinho, um em cada
ombro, tentando convencer a gente a fazer e a não fazer
alguma coisa. Encerra toda a dúvida existencial quando se
pergunta “devo ou não devo?”. Ao contrário da
espiritualidade, a espiridualidade é geralmente indesejada,
pois aumenta as dúvidas e enfraquece as decisões.

_________________________________
Espiridual
adjetivo

A semente da dúvida é espiridual.

99
Spiriduality

noun

spiritual
+
duality

The minute angel and devil, each standing on one of our
shoulders trying to convince us to do or not to do something;
the whole of our existential doubts when we ask ourselves
“should I?” “Should I not?”. Much to the contrary of the
usually high expectations to develop and foster one’s
spirituality, spiriduality is mostly an uninvited feeling as it
magnifies doubts and weakens the intent to do things.

_________________________________
Spiridual
adjective

The seed of doubt is spiridual.

100
cofrase

substantivo feminino

co-: junto, complementar, como em cooperar,colateral
+
-frase: modo de falar, como em epífrase, paráfrase.

(1) forma visionária de escrita em que a informação não é
mais fornecida necessariamente em seqüência. Em uma frase
comum, primeiro se diz quando algo acontece, depois onde,
de que maneira, e assim por diante, mas na cofrase a
informação vem empilhada, de forma a que muitas coisas
sejam expressas ao mesmo tempo. Não há informação
privilegiada por vir primeiro. A cofrase elimina as
características peculiares de tantas línguas que forçam o
falante a dar prioridade a uma informação em detrimento de
outra. Existem línguas que pedem para informar o tempo em
que algo acontece antes do lugar, outras que informam isso
por último. Algumas são muito rígidas, outras, muito liberais,
mas em todas existe a seqüência. Numa cofrase fica-se
sabendo de tudo ao mesmo tempo, como ao olhar um quadro;
(2) sinônimo de imparcialidade; impossibilidade; algo irreal
e humanamente impraticável;
(3) percepção aguda e reveladora, insaite21.

_________________________________
cofrasear
verbo
demorar muito para escrever ou explicar algo na expectativa
de alcançar uma expressão sublime, definitiva, e assim perder
a atenção do outro e o tempo dos dois.

cofraseado
particípio do passado
inspirado no (ainda) impossível.

21
Insight.

101
Cophrasing

noun

co-: joint; complementary as in cooperate, collateral (adj.)
+
phrasing

(1) a visionary form of writing where the information given
is no longer sequential. In a common sentence, you first say
where something happens and then when, and how, and so on,
but in cophrasing the pieces of information are piled up, so
that many things are expressed simultaneously. There is no
information privileged for coming first.Cophrasing eliminates
the peculiarities of so many human tongues that force the
speaker to prioritize one piece of information to the detriment
of another. There are languages that require the when-type of
information to come before the where-type, while others go
the other way round. Some languages are very strict in this
respect, others very liberal, but in all there must be a
sequence. By cophrasing you get to know everything at the
same time, as if looking at a picture.
(2) it also means impartiality; impossibility; something unreal
and not humanly feasible;
(3) an acute and revealing perception, insight.

_________________________________
cophrase
verb
to spend too much time writing or explaining something in
hopes of attaining sublime and definitive expression and thus
lose the interlocutor’s attention and the time of both speaker
and interlocutor.

Cophrased
Past participle
inspired in the (as yet) impossible.

102
Discluso

adjetivo

dis-: separação, negação, como em distrato, distorcido
+
-cluso, de cludere: “fechar”, “encerrar”, fechado,
encerrado, como em incluso, concluso

que permanece interminado, apesar de todos os esforços para
que se termine.

Livros engavetados são objetos disclusos.

_________________________________

Discluir

verbo

deliberadamente não terminar algo.

103
Discluded

Adjective

dis-: apart, asunder as in disloyal, disobey
+
-cluded, from cludere: “to close”, closed, as in concluded,
included

unfinished in spite of many efforts to bring to an end.

Unpublished books are discluded things.

_________________________________

disclude

verb

to leave something deliberately unfinished.

104
Rabotado

Adjetivo

do russo ροδοτα: /rabota/, “trabalho”, que também deu
origem à palavra “robô”
+
- ado: tornado assim

(1) que é traído pelo empregador, geralmente com a própria
demissão ou a promoção inesperada de outro, não merecedor;

(2) que se frustra por ver o próprio trabalho não reconhecido,
tido como uma tarefa qualquer, que os outros consideram sem
mérito.

_________________________________

105
Raboted

Adjective

from the Russian ροδοτα: /rabota/, “work”, which also
gave origin to the word “robot”
+
-ed: turned that way

(1) betrayed by one’s employer, generally in the form of an
unexpected layoff or someone else’s promotion, considered to
be illegitimately given

(2) frustrated to see one’s work unrecognized, taken as a mere
task in which others find no merit.

_________________________________

106
Auto-robinhudismo

Substantivo masculino

Brasil22

auto-: por si próprio, como em automóvel, auto-serviço
+
Robin Hood – aportuguesado para robinhude: lendário
ladrão inglês do séc. XII que roubava dos ricos para dar aos
pobres
+
-ismo: doutrina ou escola, como em coitadismo, banditismo

(1) corrente comportamental caracterizada por acreditar que o
bom é roubar dos que têm para dar para si. Também pode ser
roubar dos que não têm para dar para si; estende-se à receita
da arrecadação de impostos de todo o tipo, mas sobretudo os
federais.

22
Que faz muito sentido na cultura brasileira

107
Self-robinhoodism

noun

Brazil23

self- “agent and recipient of action are identical”, as in self-
service, self-sticking
+
Robin Hood
+
-ism: doctrine or school, as in barbarism, egotism

(1) behavioral trend characterized by the belief that it is good
to steal from the well-off to give to one’s self. It can also
apply to stealing from the poor to give to one’s self;
extendable to all kinds of tax levy revenue, but mostly those
of the federal sphere.

23
Makes a lot of sense in Brazil.

108