17/04/13

Envio | Revista dos Tribunais

Mandado de segurança coletivo

MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO
Doutrinas Essenciais de Processo Civil | vol. 9 | p. 233 | Out / 2011DTR\2012\45018 Ada Pellegrini Grinover Área do Direito: Civil ; Processual Sumário:

Mandado de segurança coletivo Legitimação, objeto e coisa julgada Ada Pellegrini Grinover Professora Titular da Faculdade de Direito da USP. Revista de Processo • RePro 58/75 (DTR\1990\69) • abr.-jun./1990 1. Criado pela Constituição de 1988, no inc. LXX do art. 5.°, norma de eficácia plena ou autoaplicável, o mandado de segurança coletivo vem sendo amplamente utilizado, mesmo antes de sua regulamentação legislativa. O que é sem dúvida correto, mas tem provocado diversas manifestações dos tribunais, nem sempre harmônicas e por vezes incorretas. É normal que a elaboração jurisprudencial seja entremeada de marchas e contramarchas, com avanços e recuos, até que os tribunais venham sedimentar sua posição em torno dos novos institutos. Mas é por isso mesmo que são úteis considerações doutrinárias, a alimentar a formação da jurisprudência. O presente trabalho tem, pois, o objetivo de assentar algumas posições que possam, junto com outras, servir como suporte às decisões dos tribunais, E parece adequada sua publicação na Revista do Superior Tribunal de Justiça, a que a Constituição federal atribuiu competência para o andado de segurança, que poderá apresentar-se na modalidade coletiva. 2. Para que melhor se possa interpretar o inciso LXX do art. 5.° da Constituição, que criou o novo instituto, é preciso não olvidar certos princípios que regem o tradicional mandado de segurança, de que o coletivo é uma espécie. Duas ordens de considerações vêm a pêlo a esse propósito. 2.1 A primeira diz respeito à natureza do instrumento processual--constitucional instituído pela Constituição de 1934. O mandado de segurança (como também o habeas corpus, a ação popular e, hoje, o habeas data e o mandado de injunção) não são simples ações, reconduzíveis princípio de que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito" (art. 5.°, XXXV da Constituição vigente). Assim fosse, e não haveria necessidade de a Constituição delinear, em separado, referidos remédios. O certo é que os instrumentos constitucionaisprocessuais são ações a que a Constituição atribuiu – na feliz expressão de Kazuo Watanabe – eficácia potenciada. E esse reforço de eficácia, para o mandado de segurança, reside em diversas circunstâncias: a) por ele, a Constituição firma o princípio da inviolabilidade do direito líquido e certo, ao mesmo tempo fustigando a ilegalidade ou abuso de poder; b) ao proteger o direito líquido e certo (entendido como aquele que exsurge de simples prova documental), a Constituição desde logo impõe um procedimento abreviado, sem qualquer dilação probatória para a fase instrutória; c) a Constituição promete um provimento jurisdicionai que elimine ou evite a lesão e que restaure efetivamente o direito, mediante tutela in natura e não pelo equivalente monetário. E ainda, com relação ao mandado de segurança coletivo, a Constituição traça regras de legitimação para a causa e de objeto, que se impõem, tanto quanto as genéricas, ao legislador e ao intérprete. 2.2 Do fato de ser o mandado de segurança ação de eficácia potenciada, surge mais uma conseqüência, que se reflete no princípio da efetividade do processo, reforçando-o. É sabido que o processo moderno não é mais visto como mero instrumento técnico para o
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que agora a Constituição incorpora. em substituição processual. Nada mais.°. com associações de servidores ou com associações sindicais.br/maf/app/delivery/document 2/7 . por exemplo. A entidade de classe pode ser voluntária ou compulsória. para abranger qualquer coletividade de pessoas que se reúnam em torno de objetivos comuns. sim. que não seja comum a todos.1 Comecemos pela legitimação para o mandado de segurança coletivo. podem receber tratamento coletivo. É regra clássica de hermenêutica que ao intérprete não cabe diferenciar. exatamente no sentido que a common law confere às class actions. caso a caso. não uma ação qualquer. 5. no sentido de que o processo seja aderente à realidade social e política subjacente e adequado para uma resposta eficaz às controvérsias que estão à sua base. O processo. uma coisa é clara: o intérprete. dentro da linha mais aberta de interpretação a que a eficácia potenciada do writ induz que a própria expressão entidades de classe indica algo transcendente às entidades representativas de categorias profissionais. mas uma ação potenciada. tendo também objetivos sociais e políticos. logo se vê que existem diversos graus de coletivismo. Vale lembrar. consistente na falta de representação no Congresso Nacional. e neste caso a legitimação seria ordinária. retirando da norma a maior carga possível de eficácia e de efetividade. que não os decorrentes da Constituição. dever-se-á verificar se a entidade age na defesa de seus interesses institucionais – proteção ao ambiente. A doutrina já se havia encarregado de fazer a distinção entre interesses difusos e coletivos. nem os partidos políticos. referindo--se-lhes no art. Aqui também. por sua homogeneidade. 3. nem as organizações sindicais. as únicas restrições que exsurgem da Constituição são a ausência de pré-constituição da associação. compete dizer algumas palavras sobre o tipo de legitimação para a causa que a Constituição estabelece. decorrente de legitimação extraordinária conferida pelo texto constitucional (art. membros ou associados. haveria uma verdadeira substituição processual. assim como o futuro legislador. há pelo menos um ano. a Ordem dos Advogados do Brasil. onde a lei – e sobretudo a Lei Maior – não faz distinções. o intérprete deve aproximar-se do texto constitucional disposto a considerar o mandado de segurança coletivo. estabelecida pelo inciso LXX do art. 129. podendo-se falar. que não a segurança coletiva. para o ajuizamento do mandado de segurança coletivo.° do Código de Processo Penal (LGL\1941\8)). é a de que somente serão consentâneos com a Lei Maior a norma e a exegese que consigam extrair do preceito constitucional a maior carga possível de eficácia e de efetividade. em muitos casos. contudo. a moderna tendência doutrinária que vê.2 Em termos de direitos ou interesses coletivos. Kazuo Watanabe e a autora deste estudo). Aliás. aos contribuintes. por intermédio dos interesses protegidos. Tendo em mente esses princípios. nem as entidades de classe e nem mesmo as associações legalmente constituídas necessitam daquela autorização expressa a que alude o inciso XXI do 5. por exemplo –. É o que se passa a examinar nas considerações que seguem. abrangendo desde os mais espalhados. Mostra bem essa tendência Vincenzo Vigoriti. atribuindo-se especial ênfase à sua efetividade. poder-se-ia chegar a afirmar. não podem estabelecer outros obstáculos à legitimação. Se isso é verdade para o processo em geral. para o legislador e o intérprete. Na alínea “b" está prevista a legitimação de organização sindical. Na lúcida lição de Cândido Dinamarco. Por isso é que não temos dúvida em afirmar que.° da Constituição para outras ações. como o é. as associações podem ser regidas pela lei civil. A questão há de ser examinada à luz dos princípios gerais do processo. por regras de direito administrativo ou mesmo por outras normas legais. 6.revistadostribunais. Seja como for. tanto mais verdade é para os instrumentos potenciados pela Constituição. sociais e políticos – tem assim reforçada sua característica de instrumentalidade. A legitimação é ampla e só pode sofrer a restrição decorrente do texto constitucional. A alínea “a" do dispositivo refere-se a partido político com representação no Congresso Nacional. José Carlos Barbosa Moreira. considera-se hoje que a jurisdição não está pré-ordenada apenas a escopos jurídicos.com. 3. De modo que. sendo todos www. na legitimação de entidades que ajam na defesa de interesses institucionais. ou se atua no interesse de alguns de seus filiados. entidade de classe ou associação legalmente constituída há pelo menos um ano. aos consumidores. Mas o discurso já nos leva à análise do objeto do mandado de segurança coletivo. III. nem esteja compreendido em seus objetivos institucionais: neste caso. Vincenzo Vigoriti. passando por outros mais restritos e chegando a direitos individuais que. como pode ocorrer. por exemplo. Qualquer lei e qualquer interpretação restritivas serão inquestionavelmente inconstitucionais. 3. Não há dúvida de que tanto os interesses difusos como os coletivos pertencem à categoria dos meta-individuais. como instrumento posto a serviço dos escopos da jurisdição – jurídicos. uma verdadeira legitimação ordinária (v.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais exercício da jurisdição. e a falta de observância das condições legais para sua constituição. Finalmente. De modo que a regra que se impõe.

para estes. existe um vínculo jurídico. é que.°. Já nos interesses chamados coletivos. ou uma relação jurídica base. difusos e coletivos. O mesmo se dá. aliás. 5. independentemente de sua divisibilidade e de sua precisa titularidade. pode o Partido buscar. dos sindicalizados. aprovado no Senado. LXX do art. à primeira vista. que se titularizam nas pessoas filiadas ao partido. III e. do consumidor. por exemplo. titularizados nas mãos daquelas pessoas que sofrem uma lesão ou um perigo de lesão em decorrência do dano. no Brasil. as normas específicas cuidam de interesses coletivos da categoria. A distinção – que no sistema jurídico brasileiro é inteiramente despicienda. E não só pelo argumento acima exposto. Por isso.°. Quanto à alínea “b" do inciso LXX mesmo 5. parece claro que nenhuma restrição há de ser feita. exatamente na medida em que os ordenamentos jurídicos da atualidade se preocupam em dar a mesma proteção a uns e outros. o sistema de common law há muito tempo vem dando tratamento coletivo. o partido político está legitimado a agir para a defesa de todo e qualquer direito. No segundo caso – quando. a nosso ver. os que têm por objeto a proteção ao ambiente. O Projeto do Código de Defesa do Consumidor (LGL\1990\40).com. ou de direitos individuais de seus membros. espontâneas ou compulsórias. e não em interesses. em sintonia com o disposto quanto aos sindicatos e às entidades associativas. consumirem determinados produtos. pelo inc. Não é por outra razão. Mas a interpretação que restringisse o objeto da segurança coletiva aos interesses dos membros da categoria fugiria ao critério da maior amplitude do instrumento potenciado. ou não.°. dos contribuintes – será substituto processual. contingentes e variáveis. que transcendam aos seus filiados.revistadostribunais. aos consumidores. a adotar-se essa posição. a pretensão de todos os contribuintes de determinado tributo à declaração de sua inconstitucionalidade por via indireta etc. dos pertencentes a entidades associativas. aos usuários de serviços públicos. atuar para a defesa do ambiente. por intermédio das class actions. pela via da segurança coletiva. a Constituição adotou a redação mais ampla possível: e para retirar-se do dispositivo a maior carga de eficácia. para as entidades associativas. ligadas que são apenas por circunstâncias de fato. que une as pessoas pertencentes ao grupo: como os filiados a um sindicato. real ou potencial. Agirá. A locução parece restritiva. 8. enquanto a via potenciada do mandado de segurança coletivo não encontra restrições. dela excluindo os direitos subjetivos homogêneos. A diferença consiste em que se entende por interesses difusos aqueles em que não há nenhum vínculo jurídico entre as pessoas pertencentes ao grupo. pelo disposto no art. claramente exsurge a posição dos detentores de direitos individuais. 5.°. coletivamente causado.br/maf/app/delivery/document 3/7 . Tampouco convence a linha interpretativa que pretende incluir no objeto da tutela apenas os interesses difusos e coletivos. São esses direitos individuais tão homogêneos. E ainda. sim. que também se lhes pode dar tratamento coletivo: inserem-se aqui a reparação do dano pessoalmente sofrido em virtude de relações de consumo ou da lesão ecológica. Mas nenhuma outra restrição deve sofrer quanto aos interesses e direitos protegidos: além da tutela dos direitos coletivos e individuais homogêneos. absorvido como ficaria. divisíveis pelo menos em um segundo momento. Mas tanto na primeira como na segunda categoria. por outras. como as de habitarem a mesma região ou o mesmo bairro. 5. A esses direitos individuais. o Partido estará defendendo seus próprios interesses institucionais.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais indivisíveis e titularizando-se em porções mais ou menos amplas da coletividade. seja ele de natureza eleitoral. participarem de certos empreendimentos. por exemplo. Conclui-se daí que a única interpretação harmoniosa da alínea “b" do inc. para os quais se constituiu. Situam-se nessa espécie interesses espalhados e muito amplos. defendendo em nome próprio interesses alheios. os membros uma entidade associativa. 3. Com relação à alínea “a" do inciso LXX do art. para os sindicatos. chegaríamos à conclusão de que o dispositivo é supérfluo. investido de legitimação ordinária. é bem de ver que a Constituição se refere à defesa dos interesses de seus membros ou associados. XXI do art. aquela atinente a interesses difusos. ou. a partir da nova Constituição. por sua origem comum. qual é o objeto deste. mas também interesses difusos (que transcendem à www. Interesses de membros ou associados. pois nem mesmo a justifica o critério de competências estabelecido nos países que adotam o contencioso administrativo – seria retrógrada e não levaria em conta as modernas tendências do direito e do processo. pessoas interessadas na preservação ambiental ou na eliminação da propaganda enganosa.°. mas ainda porque a distinção entre direito subjetivo e interesse esbate--se hoje e perde consistência.3 Trata-se agora de verificar a que espécie de direitos e interesses se dirige a tutela do mandado de segurança coletivo. com os direitos individuais dos filiados a partidos políticos. explicita a técnica adequada ao tratamento coletivo desses direitos individuais. levando eventualmente a ser interpretada no sentido de que os interesses visados são apenas os coletivos. que a doutrina mais atualizada prefere falar em direito. No primeiro caso. a associações as mais diversas. que associam para a defesa de seus interesses de categoria ou de classe.

E hoje.com. pelo menos até certo ponto. em última análise. Monteleone. que se opusesse a quem não foi parte na causa. E ainda dos direitos pessoais. É certo que a extensão da coisa julgada a quem não foi individualmente parte no processo. age naturalmente dentro de limites mais circunscritos. em mora nas contribuições. mas. que tanto a alínea “a" como a alínea “b" do inciso LXX se voltam para a tutela de todas as categorias de interesses e direitos. a própria configuração das ações ideológicas – em que o bem a ser tutelado pertence a uma coletividade de pessoas – exige. comuns a todos os filiados. É mais fácil. exatamente porque não participou da relação jurídico-processual (Ada Pellegrini Grinover. uma verdadeira ampliação ultra partes. a extensão da coisa julgada ultra partes (cf. Luiso). no condomínio. para certas associações profissionais. não seria. nem significaria real exceção ao princípio da limitação subjetiva do julgado. de interesses coletivos. diversas são as peculiaridades da coisa julgada em relação aos interesses coletivos e difusos. Os legitimados à segurança coletiva podem agir na defesa de interesses difusos. E isso porque. o julgado negativo. de um lado. é preciso distinguir. então. operando efetivamente erga omnes. deve poder opor-se à sentença desfavorável proferida inter alios. utilizar certas técnicas tradicionais. porém. Cappelletti e Denti). mas que podem ter tratamento conjunto com vistas à sua homogeneidade. evitando-se. ou o fenômeno que Cândido Dinamarco expressivamente denominou de litisconsórcio multitudinário. Com efeito. Aqui. de outro lado. a ponto de afirmar-se que nesse caso o julgado não atuaria propriamente ultra partes. assim. aqui. membros ou associados. anulação do casamento). na família. assim como repugna às garantias constitucionais a sujeição ex post ao julgado de terceiros que permaneceram estranhos ao juízo. a cláusula norte-americana tem fundamento constitucional e pretende exatamente conciliar as garantias do devido processo legal com as ações coletivas. para que qualquer condômino aja contra outro. aderente às novas exigências da sociedade (Monteleone). até tradicionalmente. cujas decisões sejam vinculativas para o grupo de interessados. transcendentes à categoria. A parte ideológica leva a juízo o interesse meta-individual. mas nele foi adequadamente representado (na fórmula da Rule 23-a das Federal Rules of Civil Procedure norte-americanas de 1966) pelo portador em juízo dos interesses meta-individuais ou dos direitos coletivamente tratados. que poderiam ser defendidos pela via do mandado de segurança individual. a proliferação de seguranças com decisões contraditórias. representando concretamente a classe. na medida em que o terceiro. pelas quais os co-titulares são representados ou processualmente substituídos pela pessoa ou ente legitimado: é o que ocorre. Isto significa. a limitação da coisa julgada às partes é princípio inerente ao contraditório e à defesa. juridicamente prejudicado. Em primeiro lugar. O que vale frisar é que. que se titularizem em apenas uma parcela dos filiados. poderia ferir mais fundo as situações jurídicas substanciais tuteladas pelo direito.br/maf/app/delivery/document 4/7 . a orientação dominante é francamente no sentido da compatibilidade entre o devido processo legal e as técnicas da coisa julgada nas ações coletivas (Monteleone). Nos primeiros. Mas. membros ou associados. Reconhecida a complementaridade entre o interesse individual e social (Vigoriti). Já se observou que é justamente na ótica da adequada representação do conjunto de interessados que se podem resolver os problemas constitucionais da informação e dos limites subjetivos da coisa julgada.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais categoria) além dos coletivos e dos direitos individuais homogêneos. perfeitamente identificáveis. mas configuraria antes um novo conceito de representação substancial e processual. que terá exercido seus direitos processuais através das garantias da defesa e do contraditório asseguradas ao representante. a autoridade da sentença pode ficar restrita aos componentes do grupo. ou para a responsabilização dos diretores pelos atos nocivos ao patrimônio social. legitimado à ação. na declaração de nulidade das assembléias societárias. a dimensão do problema se torna mais vasta. 3. Situações semelhantes ocorrem quando o sindicato é legitimado à ação coletiva trabalhista ou. para a tutela dos interesses comuns (interdição. de interesses coletivos. se trata de interesses difusos. Quando. também se indica a coincidência e solidariedade entre o processo constitucional e as modernas exigências de efetiva www. porquanto os adequadamente representados não são propriamente terceiros.revistadostribunais. e o portador dos interesses. coaduna-se com elas a idéia de representatividade adequada dos interesses da categoria por parte de pessoas e sobretudo de entes exponenciais. em última análise. O mecanismo baseia-se na concepção de que o esquema representativo é apto a garantir aos membros da categoria a melhor defesa judicial. Maiores cautelas ainda devem ser tomadas quanto às ações que dêem tratamento coletivo a direitos individuais homogêneos. na medida em que a impossibilidade prática de se determinarem os titulares dos interesses torna mais ampla a extensão da coisa julgada.4 O regime dos limites subjetivos da coisa julgada oferece peculiaridades nas ações coletivas. quanto à legitimação para a defesa dos interesses dos associados.

podendo levar a coisas julgadas contraditórias (a primeira. é esta a solução encaminhada ao Congresso Nacional para as ações coletivas em defesa do consumidor (incluindo o mandado de segurança). satisfazendo-se com o critério da existência legal e da préconstituição dos corpos intermediários legitimados à ação de segurança. obrigado a repetir sua defesa. com eficácia erga omnes. a sentença fará coisa julgada: I – erga omnes. parece claro que demandas sucessivas. valendo-se de nova prova. 23.com. Por isso. De lege ferenda. do segundo Projeto. de qualquer modo. os ordenamentos da civil law podem extrair do sistema norte-americano elementos úteis à solução do problema. não se pode olvidar que na common law a existência da adequacy of representation é analisada caso a caso pelo juiz. para a aferição da fair notice do processo e do desenvolvimento da defesa da categoria com os necessários cuidados. por nós e por Kazuo Watanabe. negativa para um co-legitimado. a título individual. Reproduzemse. Todavia. se procedente a ação. passa pela revisão das posições clássicas contrárias à coisa julgada secundum eventum litis: aliás. Por outro lado. na hipótese do inciso I do parágrafo único do art. quando a fórmula seja utilizada para os casos de acolhimento da demanda.revistadostribunais. G. a solução para a fixação dos limites subjetivos do julgado no mandado de segurança coletivo – a única admissível de constitutione lata e também a melhor de lege ferenda – parece ser a adoção da coisa julgada secundum eventum litis. 80.4. sem poder opor a eficácia de um julgado a ele favorável. Não haveria aí nenhuma ofensa aos princípios constitucionais. Todavia. Barbosa Moreira apontou a falha denunciada por Schwab. se necessário. Vigoriti e Luiso observaram que a não oponibilidade do julgado negativo frustraria a necessidade de uniformização das decisões nas ações coletivas. abrangendo também o primeiro. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação. já Allurio observava que o princípio não merecia as críticas que lhe eram movidas. somente a pessoas físicas. na medida em que o demandado na ação coletiva foi. sujeito do contraditório. de outras cautelas. Não se desconhecem os argumentos que ainda se levantam contra a coisa julgada secundum eventum litis. como na oferecida pela Comissão Mista do Senado e da Câmara. com técnicas diversas. (obs. o sistema norte-americano possibilita a exclusão do processo de quem não deseje submeter-se à coisa julgada (Federal Rules of Civil Procedure de 1966. como por exemplo a de reservar a via às demandas posteriores. constante do Projeto de Código de Defesa do Consumidor (LGL\1990\40). além disto. como notou Carpi. Mas.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais tutela jurisdicional dos direitos e interesses emergentes na sociedade de massa (Grinover). Antes de tudo. ultra partes ou erga omnes. é possível responder a essas críticas: nas ações coletivas. E o pretenso desequilíbrio entre as partes não parece existir. que perdeu a demanda). Pugliese preconizou que a extensão do julgado secundum eventum fosse tomado em séria consideração. note-se que a reestruturação dos esquemas processuais. parece inquestionável que o legislador poderia legitimamente determinar a extensão subjetiva do julgado. dos interessados que o requeressem. Diante disto. que são justamente aqueles que levam a propugnar a adoção da coisa julgada secundum eventum litis. o constituinte brasileiro não escolheu o caminho do controle judicial da representatividade adequada. as normas seguintes: Capítulo IV do título III Da coisa julgada “Art. da coisa julgada. exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas. embora reconhecesse que as exceções à proibição deviam resultar de lei. com idêntico fundamento. “c"2 e “c"3).br/maf/app/delivery/document 5/7 . só teriam alguma chance de êxito em casos excepcionais. n. podem ser imaginadas técnicas para minimizar os inconvenientes apontados. ampla informação. por nós coordenada e moldado. não se podendo dizer o mesmo quanto aos que em juízo tenham porventura sido inadequadamente representados. Os dois textos adotaram as sugestões do Anteprojeto da Comissão de Juristas nomeada pelo Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. mais recentemente. sempre que se tratasse de ações coletivas em que a adequação da representatividade pudesse ser criteriosamente aferida. além dos cuidados com a indispensável. 103 – Nas ações coletivas de que trata este Código. na parte processual. sendo de se supor que pela magnitude da lide tenha concentrado todos os seus esforços no exercício da defesa.1 Diante do que foi dito. em caso de derrota do autor coletivo. além de impor um desequilíbrio às partes e um excessivo ônus ao réu. tanto na versão aprovada pelo Senado Federal. como a possibilidade de intervenção individual e a exclusão. e o legislador – como fez o norte-americano – ainda poderia valer-se.: interesses difusos) www. E esta também é a posição de Carpi. em caráter individual. indispensável à tutela jurisdicional dos interesses meta-individuais. a segunda. 3. ainda que.

5 Essa interpretação é a única que se harmoniza com o disposto no art. quer os legitimados pela alínea “b" podem agir em juízo. coletivos e individuais homogêneos. que por sua homogeneidade possam ter tratamento coletivo. Nenhum outro pré-requisito. se não for requerida sua suspensão no prazo ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva". 104 – As ações coletivas.: interesses coletivos) III – erga omnes. de interesses coletivos de toda a categoria. a limitação do julgado às partes é princípio inerente ao contraditório e à defesa. quando se tratar da hipótese prevista no inciso II do parágrafo único do art. “Art. a técnica mais consentânea com a norma constitucional. Const. 88 do mencionado Projeto (reproduzido. a contar da Vale lembrar que o art. assim. a outros direitos ou interesses difusos. caso a caso. de constitutione lata. pois. categoria ou classe. efetivo controle sobre a representatividade adequada. do grupo. 8. a ser respeitada. nem mesmo a autorização do inciso XXI do art. para o mandado de segurança coletivo.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais II – ultra partes. 4. de interesses coletivos de parte dela. que também de lege lata a solução da extensão in utilibus da coisa julgada. 4. 80. www. 4. Quid inde. nos termos do inciso anterior. Das normas que o regulam. e no inciso XXI do art. 5. salvo improcedência por insuficiência de provas.4 Quer os legitimados pela alínea “a". não atuam na qualidade de substituto processual.7 A extensão da coisa julgada ultra partes é ínsita às ações coletivas. (obs.br/maf/app/delivery/document 6/7 . ao agirem na defesa de interesses coletivos de toda a categoria. categoria ou classe.revistadostribunais.°. no já aprovado no Senado Federal) estabelece que as normas do título atinente às disposições processuais do Código se apliquem. que poderá ser adotada. poderá tratar-se de legitimação ordinária ou extraordinária. de lege ferenda. 5. tratados coletivamente. É tempo de concluir. 80. parágrafo único do art. deve extrair-se a maior carga possível de eficácia. em via de mandado de segurança coletivo.° – Na hipótese prevista no inciso III. se faz necessário para o ajuizamento da ação. de outro lado. por confundir-se o interesse com seus objetivos institucionais.°. espécie da segurança tradicional. E o fazemos. enquanto o legislador não dispuser sobre a coisa julgada na ação coletiva de segurança? A solução só pode ser a mesma. previstas nos incisos I e II do induzem litispendência para as ações individuais. Pensamos. em sua natureza. quando improcedente o mandado de segurança coletivo. exclusivamente individuais. os coletivos e os individuais homogêneos. para beneficiar todas as vítimas e seus sucessores. que transcendam aos da categoria. obstam a que o julgado possa desfavorecer aquele que não participou da relação jurídico-processual. Esta é. Em contrapartida. 4. pelo legislador e pelo intérprete. III. no que for cabível. ambos de abrangência mais restrita. 80. as garantias do devido processo legal. do contraditório e da ampla defesa (art. com outra numeração. 5. seja a solução que se harmoniza plenamente com a natureza do remédio e com o ordenamento constitucional de que ele decorre. 4. Parágrafo 2. mas os efeitos ultra partes a que aludem os incisos II e III do artigo anterior ações individuais. Assim. apenas no caso de procedência do pedido.). 4. de direitos individuais. mas limitadamente ao grupo.2 Por isso. na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. é da própria índole das ações coletivas a extensão do julgado ultra partes ou erga omnes.°.1 O mandado de segurança coletivo.6 O objeto do mandado de segurança coletivo pode ter influência no tipo de legitimação.°. os interessados que não tiverem intervindo no processo como litisconsortes poderão propor ação de indenização a título individual". é ação potenciada. com possibilidade de novas demandas.° – Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudicarão interesses e direitos individuais dos integrantes da coletividade.com. para a proteção de interesses difusos. recapitulando o que se disse. 4. Como vimos. não se deve exigir dos legitimados à ação de mandado de segurança senão aquilo que a Constituição expressamente requer. (obs. sem o correlato.: direitos individuais homogêneos tratados coletivamente) Parágrafo 1. para quantos entendam que as formações sociais. não da coisa julgada erga omnes ou não beneficiarão os autores das de 30 (trinta) dias. LIV e LV. 4. ou seja.3 O direito líquido e certo (expressão de sentido exclusivamente processual) a ser protegido pela via da segurança coletiva desdobra-se em três categorias de interesses: os difusos. em caso de improcedência do pedido.

L’efficacia “ultra partes" della sentenza civile. “Giudicato civile. in Revista de Processo. 1977.9 A Constituição brasileira. Giuffré. não acolheu o critério da aferição. ____. Milão. 4. G. vol. verb. Giuffré. Kazuo. RT. Saraiva.. n. 1978. Página 1 www. Ada Pellegrini. 1974. Dir. RT. a título individual. Pugliese. Principio del contraddittorio ed efficacia della sentenza verso i terzi. Carpi. Proc. satisfazendo-se com a existência legal e a pré-constituição dos corpos intermediários e legitimados à ação.. Eficácia e Autoridade da Sentença Penal. La cosa giudicata rispetto ai terzi. in Enc. de constitutione lata. A Instrumentalidade do Processo. Ed. Cappelletti. 1935. dir. São Paulo. São Paulo. 1975. 1980. São Paulo. “A ação popular do direito brasileiro como instrumento de tutela jurisdicional dos chamados interesses difusos" in Temas de Direito Processual. Denti. Watanabe. Grinover. “Formazioni sociali e interessi di gruppo davanti alia giustizia civile" in Riv.17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais 4. Giuffré.br/maf/app/delivery/document 7/7 . 1979. Giuffré. “Mandado de segurança contra atos judiciais". Proc.11 Também de lege ferenda essa solução é a que melhor se coaduna com o sistema brasileiro. Milão. Em caso de sentença desfavorável. “As garantias constitucionais do processo nas ações coletivas". XVIII. Dinamarco. Dir. Milão. 1974. Dir. 43. Cedam. da adequação da representatividade. os interessados poderão mover demandas pessoais.1986. de modo que neste caso o julgado não atua propriamente ultra partes. Barbosa Moreira. São Paulo. Cândido Rangel. a única técnica capaz de harmonizar.10 Diante disto. I limiti soggettivi del giudicato civile.. 1981. contudo. Ed. in Controle Jurisdicional e Mandado de Segurança contra Atos Judiciais. Milão. Vigoriti. Interessi collettivi e processo: la legittimazione ad agire. “Le azioni a tutela di interessi collettivi". caso a caso. 1987.com. na medida em que todos estão representados pelo portador em juízo dos direitos e interesses. Bibliografia Allorio. in Riv. Ed. Milão. Pádua. Giuffrè. as peculiaridades da coisa julgada no mandado de segurança coletivo com as garantias do devido processo legal.revistadostribunais..8 A criteriosa aferição da representatividade adequada é apta a garantir aos membros da categoria a melhor defesa judicial. Luiso. RT. José Carlos. 1969. 4. vigente". 1978. é a de extensão do julgado secundum eventum litis. 4. Monteleone.

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