You are on page 1of 137

............

000

cacaca

Q)Q)Q)

Q)Q)Q)

ano

bbb

ca
·-'1-

o
·-'1-

o
0

.! i>>

...

E
I

ã ~2: ~2:

>

à;

O.tntn

E

ww

o i:

o w

...

1

1 ...

( 'u h:çll o

llirl gidu

De b a tes po r J . Guinsburg

m. merleau·ponty

O VISÍVEL E O INVISÍVEL

Equip e de Realização- Trad ução: José Artur Gi anotti e Armando Mora

d ' Oli ve ira; Revisão: Pérola de Carvalho , Luiz Henrique Lopes dos San-

tos e R icardo Terra; Produção: Ricardo W. Neves, Heda Maria Lopes e

R aqu e l Fernandes Abranch e s.

~,,,l

-

-;a

::

~

~,,,~

Tftu lo do

o ri gina l :

Visible et l 'Invisible

© Éditions Gallimard 1964

4• edição -

1• reimpressão

Direitos reservados em língua portuguesa à EDITORA PERSPECTIVA S.A. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025 01401-000 - São Paulo- SP- Brasil Telefax: (0--11) 3885-8388 www.editoraperspectiva.com.br

2003

SUMARIO .. . . .. . . . . . . .. . . . .
SUMARIO
..
.
.
..
.
.
.
.
.
.
..
.
.
.
.
.
.
.
.
..
..
.
.
.
.
.
.
.
7
V"ívcl e a Natureza:
I Interrogação Filosófica
13
,., bão e~ Interr?g~~ão .......................
111r1 wgaçao e D~aletica .......................
l111r11 ogação e Intuição
) I 111 rdaçamento -
.
15
.
57
.
105
.
127
151
111'111
O Ser Pré-objetivo: O Mundo Solipsista
.
153
1•11' d e trabalho
.
.
161
l'o•{ttdo
.
247
I
alemães
·
·
.............
.
269
t ' •lllrl.l'

PREFÁCIO

Mauri ce

fi

I

.

En tre

Merleau-Ponty faleceu no dia 3 de maio de

seus papéis encontrava-se, em especial, um

'lilllll~crito c ontendo a primeira parte de uma obra que co-

H!~·"" a

redigir

dois

anos antes.

Intitula-se:

O

Visível e

/nl 'i.I'Ível.

Não achamos traços desse título antes de mar-

' dl~ 195 9. Anteriormente, as notas que concernem ao

'"10 pro jeto mencionam:

Ser

e Sentido

ou

Genealogia

l't•r ·dadeir o ou ainda, por último, A Origem da Verdade.

lllttllltSCrit o.

<' onta cento

e

cinqüenta

grandes

páginas,

cobertas

"'" 111na es cr ita cerrada e abundantemente corrigidas. As !11ih;~~ síi o e sc r itas recto-verso.

 

Na primeira página, figura

a data

de

março de

195 9 :

n a de número 83,

a

de

1. 0

de junho de

1959.

É provável

que

o

autor

tenha

redigido

cento

e

dez

páginas

entre

a primavera e

o

verão

desse

ano.

Depois, no outono do

seguinte ano, retomou a redação

de

seu texto,

sem levar

em conta as oito últimas páginas

(p.

103-110)

que abri-

riam um segundo capítulo.

A

data de novembro de

1960

aparece

na

segunda

página,

sob

o

título

Interrogação

e

intuição.

 

Estrutura da obra.

 

As indicações de um plano são raras e não concordam exatamente entre si. É certo que o autor remanejava seu projeto no decorrer da execução. Pode-se, todavia, pre- sumir que a obra deveria ter dimensões consideráveis e que o texto que possuímos constitui apenas a primeira parte, desempenhando o papel de uma introdução.*

Eis alguns esquemas que pudemos encontrar:

 

a)

Março de 1959, no caput do manuscrito:

1.a parte. Ser e Mundo.

 

Cap. I Reflexão e interrogação.

Cap.

II

O ser pré-objetivo: o mundo solipsista.

Cap. 111 O ser pré-objetivo: a intercorporeidade.

Cap. IV O ser pré-objetivo: o entremundo.

Cap. V Ontologia clássica e ontologia moderna.

n.a Parte. Natureza.

 

111.a Parte. Logos.

 

b)

Maio de 1960, numa nota, na primeira página:

Ser e Mundo I.a Parte:

 

O mundo vertical mudo

ou

o ser interrogativo bruto selvagem

A

n.a Parte será:

O ser selvagem

e a ontologia clássica .

E na segunda página:

( •)

Cf. .

nosso

posfácio.

I

A

carne do

presente ou o "há".

li

O

tra çado do tempo, o movimento da ontogênese.

til

O

cor po,

a luz natural

e

o verbo.

IV

O

q ui asma.

V

O

en tremundo e o Ser.

Mundo e Ser.

\') Mai o de 1960 , numa nota:

S•:•

c M undo.

11

I' arte:

O mundo vertical ou o Ser selvagem. O Ser selvagem e a ontologia clássica:

Nature za

  • I t ome m Deus.

'onclusão : o pensamento fundamental -

h·H·nciaçõ es do Ser selvagem. log os história

o se r cultivado a Erzeugung.

Natureza:

Passagem

às

di-

11. Phy sis e Logos

 

d)

Outubro de 1960, numa nota:

 

..

I

.

Ser e Mundo

1•I

P a rte:

Reflexão e interrogação

 

11a

P art e :

O mundo

vertical e

o

Ser

selvagem

111.a Parte:

O Ser Selvagem e a ontologia clássica.

I

.

e ) Novembro de 1960, numa nota:

O visível

a natureza.

 

I

.

A

e interrogação filosófica.

2.

O visível

  • 3. O mundo do silêncio.

 

O visível

  • 4. e

a ontologia (o Ser selvagem).

ti.

A palavra e o invisível.

f)

Sem data, mas provavelmente de novembro ou de

deze mbro de

1960, numa nota:

I.

O visível

e

a natureza.

A interrogação filosófica :

interrogação e reflexão;

9

interrogação e dialética; interrogação e intuição (o que faço neste momento).

O visível. A natureza. Ontologia clássica e ontologia moderna.

11. O invisível e o Jogos.

Essas poucas indicações não permitem imaginar o que seria a obra em sua matéria e forma. O leitor terá uma idéia mais exata consultando as notas de trabalho que pu- blicamos depois do texto. Pelo menos, essas indicações podem levar-nos a perceber mais claramente a ordenação do próprio manuscrito.

Se nos ativéssemos às articulações marcadas no tex- to deveríamos limitar-nos a mencionar apenas uma primeira parte: Ser e Mundo e um primeiro capítulo: Reflexão e interrogação, permanecendo todas as demais divisões num mesmo plano, já que estão indistintamente precedidas do sinal §. Ora, a nota (f), que confirma e completa a ante- rior, e possui o interesse de ter sido redigida ao mesmo tem~ po que o capítulo Interrogação e intuição (o autor precisa:

o que faço neste momento), mostra que não podemos conservar essa estruturação. Além do título da primeira parte, Ser e mundo, ter sido abandonado e substituído por O visível e a natureza, os fragmentos precedidos do sinal § estão reagrupados em função de seu sentido, tornando claro que os dois últimos não possuem a mesma função que os primeiros.

Decidimos, pois, reestruturar o texto segundo as últi- mas indicações do autor. Distinguimos primeiramente três capítulos, inserindo-os sob a rubrica comum: A interroga- ção filosófica. O primeiro, Reflexão e interrogação, que comporta três articulações, contém a crítica da fé percep- tiva, do cientismo e da filosofia reflexiva; o segundo, In- terrogação e dialética, dividido em duas partes, compreende a análise do pensamento sartreano e a elucidação das rela- ções entre dialética e interrogação; o terceiro, Interrogação e intuição, visa essencialmente à crítica da Fenomenologia.

Restava situar o último fragmento, intitulado:

O

en-

trelaçado - o quiasma, que a nota (f) não menciona.

Poder-se-ia transformá-lo ou no último capítulo

de Inter-

rogação filosófica, ou no primeiro da segunda parte anun- ciada, O visível. Estamos persuadidos de que ambas as escolhas poderiam ser justificadas por argumentos funda- dos. Mas, faltando uma recomendação expressa do autor, estes nunca seriam decisivos. Nestas condições, preferimos

10

il••l •• tt solução que restringia ao máximo nossa interven- ''·

dl·ix:ando, portanto, o referido capítulo em seqüência olo·muís.

1

elo

texto.

(I manuscrito do Visível e o Invisível foi longamente lh aúo, como o atesta a presença de numerosas rasuras rt ·o;õcs . Não se poderia, entretanto, pensar que já ti- atongido um estado definitivo. Certas redundâncias 111 rndubitavelmente suprimidas e não devemos excluir rhilid a de de reformulações mais amplas. Em parti- , cabe ter dúvidas sobre a ordenação inicial, já que unt a evoca a possibilidade de novo arranjo da exposi- 0 autor escreve: "Refazer talvez as páginas 1-13, jun-

l

.

as certezas

(a coisa)

(o outro)

(a

verdade) ; 2.

tll'l'llezas (as dificuldades pirronianas, as contradições matização ); 3. não é possível aceitar as antíteses, nem tls certezas materializadas ~ passagem à reflexão".

l'ol' outr o lado,

é significativo que o autor faça

duas

 

11~0 de

um mesmo

texto

de

Paul Claudel (cf. abaixo,

104

e

119)

sem advertir o leitor dessa repetição.

A

o

da

cita ção

nas

duas passagens é tal

que teria sido

ia uma reelaboração de vulto.

/ri.\' de trabalho.

conveniente acrescentar ao texto do

,.,.,

t•

o

Invisível

certo

número

de notas

de trabalho

vi·m esclarecer-lhe o sentido. O autor tinha o hábito

lnno;ar suas idéias no papel sem,

na maioria das vezes,

r

do

estil o

e

até mesmo

sem compor frases

inteiras.

rndo-se a algumas linhas ou estendendo-se por vá-

paginas, essas notas constituem esboços que foram 1volvidos na primeira parte ou que iriam figurar

na

llnii.1Ção da obra. Desde fins de 1958, estavam regu-

o·nll' datadas e classificadas.

Na1l era possível nem desejável publicá-las todas.

Sua

ll'ria esma gado o texto; por outro lado, muitas delas,

  • 1 I "'~em demasiadamente elípticas, quer não tivessem re- P d11·cta com o tema da investigação, não poderiam ser

tt!l.o·. 11lilmente.

I 1a, pois, necessária uma seleção, ainda que

isso sus-

o r l'rtos problemas de ordem interpretativa.

Temía-

i il(•m do mais, enganar-nos.

Preferimos, em vez de

ll

enu n ciar, correr o risco da escolha, de tal modo estávamos persuadidos de que, pela variedade dos temas abordados, pela qualidade da reflexão, pela expressão abrupta mas sem pre rigorosa do pensamento, tais notas poderiam tor- nar sensível ao leitor o trabalho do filósofo.

Edição do manuscrito e das notas.

No que concerne ao manuscrito, limitamo-nos a pre- cisar a pontuação, visando a tornar a leitura mais fácil. Em compensação, a disposição do texto, nas notas de tra- balho, foi literalmente conservada, pois era mister deixar à expressão seu primeiro movimento. Demos, sempre que possível, as referências exigidas pe- las notas de trabalho, ou completamos as do autor. Quando obrigados a introduzir ou a restabelecer um termo para darmos sentido à frase, colocamo-lo entre col- chetes, acompanhando-o de uma nota justificativa de ro- dapé.

Os termos ilegíveis ou duvidosos estão assinalados no próprio curso do texto da seguinte maneira:

ilegível: [?] duvidoso: [verdade?]

As notas de rodapé estão sempre precedidas de alga- rismo arábicos, quando do autor, e de asterisco, quando nossas. Os comentários marginais, que decidimos reprodu- zir, quando não eram literalmente retomados na seqüência do texto, vão inseridos em nota antecipada de asterisco. Para evitar confusão, o texto do autor está escrito, seja qual for a nota, em caracteres romanos e o nosso, em itálico.

c. L.

Agradecemos a cuidadosa revisão feita por Luiz Henrique Lopes dos Santos e Ricardo Terra.

Os TRADUTORES.

O VISÍVEL E

A NATUREZA

A · interrogação filosófica

REFLEXÃO E INTERROGAÇÃO

A perceptiva e sua obscuridade.*

Vemos as coisas mesmas, o mundo é aquilo que vemos

  • - f órmulas desse gênero exprimem uma

fé comum ao ho-

mem natural e ao filósofo desde que abre os olhos, reme- tem para uma camada profunda de "opiniões" mudas, implí citas em nossa vida. Mas essa fé tem isto de estra-

nho: se procurarmos articulá-la numa tese ou num enun- ciad o, se perguntarmos o que é este nós, o que é este ver

e

o

que

é

esta coisa

ou

este

mundo,

penetramos num la-

birin to de dificuldades e contradições. Santo Agostinho dizia do tempo, que este é perfeita- men te familiar a cada um, mas que nenhum de nós o pode

 

( *)

O

autor

nota,

com

relação

ao

título

deste

capítulo:

Noção

de

a

precisar .

Não

é

a

no

sentido

de

decisão

mas

no

sentido

daqu ilo

que

existe

antes

de

qualquer

posição,

animal

e

[?] .

explicar aos outros. O mesmo é preciso que se diga do

 

Po is se é certo que vejo minha mesa, que minha visão

mundo. [Incessantemente, vê-se o filósofo]* obrigado a rever e redefinir as noções mais fundadas, criar novas, com

• '111 ina nela, que ela fixa e detém meu olhar com sua den- "Lul c ins uperável, como também é certo que eu, sentado

novas palavras para designá-las, empreender uma verdadei-

l1111ll c

de minha mesa,

ao

pensar na ponte da Concórdia,

ra reforma do entendimento, ao término da qual a evidên-

, , ~~stou mais em meus pensamentos, mas na ponte da

cia do mundo, que parecia a mais clara das verdades, sur-

t 11ll"6 rdia; e que, finalmente, no horizonte de todas essas

ge apoiada em pensamentos aparentemente os mais sofis-

1-t"H'S ou quase-visões está o próprio mundo

que habito,

ticados, onde o homem natural não mais se reconhece, o

mundo natural e o mundo histórico,

com todos

os ves-

 

que vem reavivar o secular mau humor contra a filosofia, e a censura, que sempre se lhe fez, de inverter os papéis do claro e do obscuro. Que pretenda falar em nome da evi-

IIS hum anos de que é feito - é certo também que esta 1h •za é combatida, desde que atento para ela, porquanto l mta de uma visão minha. Não estamos pensando pro-

dência ingênua do mundo, que se proíba a si próprio de

11111\Cnt e no

secular argumento

do sonho,

do

delírio ou

acrescentar-lhe algo, que se limite a dela tirar todas as con-

dusõe s, convidando-nos a examinar se o que vemos não

seqüências, isso não o desculpa, muito pelo contrário, ele

'" l also" ,

pois

tal

argumento

se vale

dessa

mesma fé

no

apenas a [a humanidade]** despoja mais completamente,

mlo que ele parece abalar: nem saberíamos nós o que é

convidando-a a pensar-se como enigma.

t also, se algumas vezes não o tivéssemos distinguido

 

Assim é, e nada se pode fazer em contrário.

Ao mes-

verdadeiro. Postula, assim, o mundo em geral, o ver-

mo tempo é verdade que o mundo é o que vemos e que,

d,•iro e m si, invocando-o secretamente para desclassificar p ercepções, que, misturadas com nossos sonhos, a

contudo, precisamos aprender a vê-lo.

No sentido

 

de

que, em primeiro lugar, é mister nos igualarmos, pelo

sa-

dt'pcito de todas as diferenças observáveis, são por ele l1111t.;adas em nossa "vida interior", em virtude desta única

ber,

a essa visão, tomar posse dela,

dizer

o

que

é

nós

e

o

11nío: a de terem eles sido, naquele instante, tão convin-

que

é

ver,

fazer, pois, como

se nada soubéssemos, como se

r ntcs quanto elas, esquecendo que a própria "falsidade"

a esse respeito tivéssemos que aprender tudo.

Mas

a

filo-

sofia não é um léxico, não se interessa pelas "significações

o poeta na palavra ou o músico na música. São as próprias

~~~s son hos não pode ser estendida às percepções, pois ll jt H:la só aparece relativamente a estas, e que, para poder-

das palavras", não procura substituto verbal para o mundo

" " 1s

fa lar

de

falsidade,

é

preciso termos experiências da

que vemos, não o transforma em coisa dita, não se instala na

wrdade .

Válido

contra a ingenuidade,

contra a

idéia de

ordem do dito ou do escrito, como o lógico no enunciado,

coisas, do fundo de seu silêncio, que deseja conduzir ,à

um a pe rcepçãÔ que fosse surpreender as coisas além de 'l " alque r experiência, qual luz que as tirasse da noite onde pn·cxis t i am, o argumento não é [esclarecedor?], estando

expressão.

Se

o

filósofo

interroga e assim finge

ignorar

t• h

pró prio impregnado da mesma ingenuidade, na medida

o mundo e a visão do mundo, que nele operam e se reali-

 

r m que só iguala a percepção e o sonho colocando-os face

mostra o argumento no que tem de válido, devemos rejei-

zam contmuamente, é precisamente para fazê-los falar, por- que acredita nisso e espera deles toda a ciência futura.

Aqui a interrogação não é um começo de negação, um tal-

n 11m Ser que somente seria em si . Se, ao contrário, como

tou· inte iramente esse fantasma, então as diferenças intrín-

vez (peut-être)

posto

em lugar do

ser

(être).

Para

a filo-

M'l' ns, d e scritivas, do sonho e do percebido, adquirem valor

sofia, é a única maneira de concordar com nossa visão de

 

ontológ ico, e damos uma boa resposta ao pirronismo mos-

fato,

de corresponder ao que nela,

nos

leva

a

pensar,

aos

lt .tndo que há diferença de estrutura e, por assim dizer,

paradoxos de que é feita;

a única maneira de ajustar-se a

dt) grâ nulo entre a percepção ou visão verdadeira, dando

esses enigmas figurados, a coisa e o mundo, cujo ser e

lugar a uma série aberta de explorações concordantes, e

verdade maciços fervilham de pormenores incompossíveis.

" sonh o , que não é observável e, quando examinado, é qua- " '

só l a cunas.

Efetivamente, isso não líqüida o problema

 

(*)

Incessantemente

vê-se

o

filósofo ...

 

estas

palavras

que

intro-

duzimos

para

dar

sentido

às

proposições

seguintes

eram

as

primeiras

de

um

corpo

de

frase

inteiramente

riscado

pelo

autor.

 

(**)

P:

preciso

compreender,

sem

dúvida

"despoja a

humanidade"

pertencendo estes

krmos

ao

último

membro

da

frase

precedente riscada

pelo

autor

e

que

reproduzimos

aqui

entre

colchetes

.

" a

censura

 

que

sempre se

lhe

fez

de

inverter

os

papéis

do

claro

e

do

obscuro

[e

de

arrogar-se o direito

de fazer

a humanidade viver em estado

de

alienação,

na

mais

completa

alienação,

pretendendo

o

filósofo

compreendê-la

melhor do que ela se compreende

a

si

mesma].

 

16

dll nosso acesso ao mundo: nada mais faz, ao contrário, do

q11e ini ciá-lo, pois resta saber como podemos ter

a

ilu-

•io de ver o que não vemos, como os farrapos do sonho

podem, diante do sonhador, ter o

mesmo valor do

tecido

l

L' rrad o

do mundo

verdadeiro,

como

a

inconsciência

de

n:lo

t er

observado

pode, no

homem fascinado,

substituir

11 cons ciência de ter observado. Se se diz que o vazio do

17

imaginário sempre permanece o que é, jamais equivale ao

pleno do percebido, e jamais dá lugar à mesma certeza,

que esse vazio não vale por si, que o homem adormecido

perdeu todo ponto de referência, todo modelo, todo câno-

ne do claro e do articulado, que uma única parcela do

mundo percebido nele introduzida desmancha num átimo o

encantamento, ainda resta que, se podemos perder nossos

pontos de referência sem o sabermos, nunca estamos se-

guros de tê-los quando acreditamos possuí-los; se pode-

mos, ainda que o ignoremos, retirar-nos do mundo da per-

cepção, nada nos prova que nele estivemos alguma vez,

nem que o observável o seja inteiramente, nem ainda que

seja feito de tecido diferente do sonho; uma vez que a di-

ferença entre eles não é absoluta, podemos colocá-los jun-

tos com "nossas experiências", e é acima da própria per-

cepção que precisamos procurar a garantia e o sentido de

sua função ontológica. Percorreremos esse caminho, que

é o da filosofia reflexiva, quando ele se nos abrir. Mas

começa muito além dos argumentos pirronianos, que, por

si próprios, nos desviariam de toda elucidação, pois se re-

ferem vagamente à idéia de um Ser inteiramente em si e,

por contraste, juntam confusamente o percebido e o imagi-

nário como "estados de consciência". No fundo, o pirro-

nismo partilha das ilusões do homem ingênuo.

É a ingenui-

dade que se dilacera a si mesma dentro da noite. Entre

o Ser em si e a "vida interior", nem mesmo entrevê o

problema do mundo. Nós, ao contrário, é em direção a

esse problema que caminhamos.

O

que

nos interessa não

são as razões que se podem ter para tomar como ~'incerta"

a existência do mundo - como se já soubéssemos o que é

existir e como se toda a questão fosse aplicar corretamen-

te esse conceito. ( O que nos importa é precisamente saber

o sentido de ser do mundo; a esse propósito nada devemos

pressupor, nem a idéia ingênua do ser em si, nem a idéia

correlata de um ser de representação, de um ser para a

consciência, de um ser para o homem: todas essas são

noções que devemos repensar a respeito de nossa experiên-

cia do mundo, ao mesmo tempo que pensamos o ser do

 

mundo.

Cabe-nos reformular os argumentos céticos fora

de todo preconceito ontológico, justamente para sabermos

o

que

é

o

ser-mundo,

o

ser-coisa,

o ser imaginário e o ser

I .--

 
 

Agora que tenho na percepção a própria coisa e

não

uma representação, acrescentarei somente que a coisa está

no ponto extremo de meu olhar e, em geral, de minha ex-

ploração: sem nada supor do que a ciência do corpo alheio

me possa ensinar, devo constatar que

a

mesa diante de

mim mantém uma relação singular com meus olhos e

meu corpo:

a vejo

se

ela estiver no raio

de ação deles;

18

" una

dela,

está

a

massa

sombria de

minha

fronte,

 

em

lo.dxo, o contorno mais indeciso

de

minhas faces,

ambos

"''tvcis no limite, e capazes de escondê-la, como se minha

I" úpria

visão do mundo se fizesse de certo ponto

do mun-

do

Ai nda mais:

meus

movimentos e os de meus olhos

l ut.cm vibrar o mundo como se pode, com o

dedo, fazer

tm~xcr um dólmen, sem abalar-lhe a solidez fundamental.

1\

cad a

batida de meus cílios, uma

cortina se baixa

e

se

k van t a,

sem que

eu pense, no momento,

em imputar esse

l'l lipse às próprias coisas; a cada movimento de meus olhos

v.trren do o espaço diante de mim,

as coisas sofrem breve

hH Ção , que também atribuo a mim mesmo; e quando ando

Jll' la r u a , os olhos fixos no horizonte das casas, todo o meu

nrnbie nte mais próximo, a cada ruído do salto do sapato

Mlbre o asfalto, estremece para depois voltar a acalmar-se

l' ll l se u lugar. Exprimiria muito mal o que se passa dizendo

q ue " um componente subjetivo" ou uma "contribuição cor-

poral" passa a recobrir as próprias coisas; não se trata de

o utra camada ou de um véu que viria colocar-se entre mim

J

1· elas .

Assim

como

as

imagens

monoculares

não

)

____

intervêm

q uan do meus dois olhos operam em sinergia, assim também

; 1 deslocação da "aparência" não quebra a evidência da

coisa.

A percepção binocular não é feita de duas percep-

ções monoculares sobrepostas, é de outra ordem.

As ima-

gens monoculares não são, no mesmo

sentido

em que

é

a

cois a percebidlf pelos dois

olhos.

São fantasmas, e ela é o

real, são pré-coisas e ela é a própria coisa, desaparecem

qua ndo passamos à visão normal, voltam para dentro da

cois a como para sua verdade meridiana. Estão muito lon-

ge de ter densidade capaz de rivalizar com ela: não são

mais do que certo distanciamento em relação à verdadeira

visão iminente, inteiramente desprovidas dos [prestígios?]

dess a visão e, por isso mesmo, esboços ou resíduos da visão

verd adeira que os completa na medida em que os reabsor-

ve. As imagens monoculares não podem ser comparadas

à pe rcepção sinérgica: não podemos colocá-las lado a lado,

é m ister escolher entre a coisa e as pré-coisas flutuantes.

Pod e-se efetuar a

passagem olhando ativamente, despertan-

do para o mundo, não se pode assistir a ela como especta-

dor. Não é síntese, mas metamorfose pela qual as aparên-

cias são instantaneamente destituídas de um valor que pos-

suía m unicamente em virtude da ausência de uma percep-

ção verdadeira . Assim, a percepção nos faz assistir a este

mila gre de uma totalidade que ultrapassa o que se acre-

dita serem suas condições ou suas partes, e as domina

de longe, como se existissem apenas em seu limiar, estan-

do destinadas

a

nela

se

perderem.

Mas para deslocá-las

19

como faz, é preciso que a percepção guarde, no fundo

de

si, todas as relevâncias corporais delas: é olhando, é ainda

com meus olhos que chego à coisa verdadeira, esses mes-

mos olhos que há pouco me davam imagens monoculares,

simplesmente, funcionam agora em conjunto e como que a

s é rio. Assim, a relação entre as coisas e meu

corpo é de-

cididamente singular: é ela a responsável de

que,

às

ve-

zes, eu permaneça na aparência , e outras, atinja as próprias

coisas; ela produz o zumbir das aparências, é ainda ela

li>~ nu da per cepção

que se patenteia através dele: por todo

'' urranjo interno, por seus circuitos sensori-motores, pelas

"'"' de re torno que controlam e relançam os movimentos,

k

~c

pre para,

por

assim

dizer, para uma percepção de

1. utcsmo se nun~ ele que ele próprio percebe ou ele

qunn o p ercebe. / Antes da ciência do corpo- que implica

,,.Jação c om outrem -, a experiência de minha carne'

'11111~) gan ga de minha percepção ensinou-me que a percep f

Ao não nasce em qualquer lugar, mas emerge no recesso

quem o emudece e me lança em

pleno mundo.

Tudo

se I

dr 11111 c orpo. Os outros homens que vêem "como nós",

passa como se meu poder de ter acesso ao mundo e o de

qu•· vemos vendo e que nos vêem vendo, apenas nos ofere-

entrincheirar-me nos fantasmas não existissem um sem

o I

élll uma amplificação do mesmo

paradoxo. j Se já é

difícil

outro. Mas ainda: como se o acesso ao mundo não fossv

senão o outro aspecto de um recuo, e esse recuo à margem

do mundo, uma servidão e outra expressão de meu poder

natural de entrar nele. O mundo é o que percebo, mas

sua proximidade absoluta, desde que examinada e expres-

sa, transforma-se também, inexplicavelmente, em distância

\ irremediável. O homem "natural" segura as duas pontas

da corrente, pensa ao mesmo tempo que sua percepção

penetra nas coisas

e

que

se

faz

aquém de

seu corpo.

Se,

todavia, na rotina da vida, as duas convicções coexistem

sem esforço, tão logo reduzidas a teses e enunciados, des-

troem-se mutuamente,

deixando-nos confundidos.

Que aconteceria se eu contasse, não somente com mi-

nhas visões de mim mesmo, mas também com as que

outrem teria de si e de mim? Meu corpo, como encenado q

da minha percepção, já destruiu a

ilusão de uma coinci-

dência de minha percepção com as próprias coisas.

Entre

mim e

elas,

há,

doravante, poderes ocultos, toda essa ve-

getação de fantasmas possíveis que ele só consegue dominar

no ato frágil do olhar. Sem dúvida, não é inteiramente meu

corpo quem percebe: só sei que pode impedir-me de perce-

ber, que não posso perceber sem sua permissão; no momen-

to em que a percepção surge, ele se apaga diante dela, e

ll<'r que minha percepção, tal como a Vivo, vai às pró-

ruas cois as, é impossível outorgar à percepção dos outros

uccsso ao mundo; e, à guisa de revide, também eles me

rn1sam o acesso que lhes nego.

Pois, em se tratando dos

outros

( ou

de

mim , visto

por eles),

não

é

preciso dizer

11p•·nas q ue a coisa é envolvida pelo turbilhão dos movimen-

h•~ expl o radores e dos comportamentos

perceptivos, e pu-

xnda pa ra dentro. Se talvez não tenha para mim sentido

11lgum

dizer

que

minha percepção e a

coisa visada por ela

"'llio

"e m minha cabeça"

(a única certeza é

a

de

que não

,tt[o em outra parte), não posso deixar de colocar o outro,

t'

a perc epção que tem,

atrás de

seu corpo.

Mais precisa-

nwnte, a coisa percebida pelo outro se desdobr a : há aque-

,,, que ele percebe, sabe Deus onde, e há aquela que vejo

1'11,

fora

de

seu corpo e

que chamo de coisa verdadeira -

mmo ele chama de coisa verdadeira a mesa

que

e

re-

mete à s aparências a que eu vejo . As cois a s verdadeiras e

os corp os que percebem

não se

situam , dest a vez, na rela-

<><~O am bígua que há ~ o encontraríamos entre minhas

··oisas e meu corpo . fu ns e outros, próximos ou afastados,

l'stão, em todo caso, justapostos no mundo, e a percepção,

que talvez não esteja "em minha cabeça", não está em

parte alguma a não ser em meu corpo como coisa do mun-

nunca

ela o apanha no ato de perceber 9 Se minha mão

 

do.

Pa rece, doravante, impossível limitarmo-nos à certeza

 

esquerda toca minha direita e se de repente quero, com a

111lima daquele que percebe : vista de fora, al'.ercepção des-

mão direita,

captar o trabalho que

a

esquerda realiza ao

l•za p or sobre as coisas, e não as toca. { Qu a ndo muito

tocá-la, esta reflexão do corpo

sobre si mesmo sempre

dirá ,

se

se

quer fazer jus

à perspectiva da percepção

aborta no último momento:

no momento em que sinto

\obre

si

mesma,

que

cada

um

de

nós

tem

um

mundo

minha mão esquerda com a direita, correspondentemente

pdvad o: tais mundos privados não são "mundos" a não

paro de tocar minha mão direita com a esquerda. Mas este

'l'C par a seu titular,

eles não

são o mundo.J O único

mun-

malogro de último instante não retira toda a verdade a

do,

is to

é,

o

mundo

único seria

o xo[v ;;;. -x6up.o<;,

e

não

é

esse meu pressentimento de poder tocar-me tocando: meu

·,obre e le que se abrem nossas percepções.

 

corpo não percebe, mas está como que construído em

 

Ma s então em que desembocam elas? Como

nomear,

 
 

como descrever esta

vivência de outrem, tal como

 

a

vejo

k

(

0 )

À

margem:

o

t8w·<; x6up.o<;

como

a

imagem

m o nocular:

não

dl.l n1eü lugar, vivêiiêi ãq ue ;tõ dãV'íã;"""nada é para mim, já

está interposto, isolado, mas não é um nada.

11ue c reio em outrem - e que, aliás, concerne a mim

·)

mesmo, já que aí está como visão de outrem sobre mim*?

ser um sortilégio.

Mas altere-se a voz,

que surja o insólito

unlis

secreta -

outra

e

mesma,

de

que,

mim

evidentemente,

Eis este rosto bem conhecido, este sorriso, estas modulações

<'I atr avés

do

mundo

posso sair

mesmo. \ Então

de voz, cujo estilo me é tão familiar como eu o sou a

,, mesm o verdade que os "mundos privados' ' se comunicam

mim mesmo. Talvez, em muitos momentos de minha vida,

o·ntre

si,

que

cada um

deles se

dá a seu titular como

mundo único,

como a

o outro se reduza para mim a esse espetáculo que pode

variant e

um lc>rma -nos em testemunhas de um

comum.

de

mundo

A comunicação trans:--1

-

na partição do diálogo ou, ao contrário, que uma resposta

'mcrgia de nossos olhos os detém numa única coisa.

Mas

responda bem demais ao que eu pensava sem tê-lo dito intei-

l•lnto num caso como

no outro,

a certeza,

embora inelu-

>4

ramente -

e, súbito, irrompe a evidência de que também

l(lvel,

permanece

inteiramente

obscura;

podemos vivê-la,

acolá, minuto por minuto, a vida é vivida: em algum lugar

não podemos nem pensá-Ia, nem formulá-la,

nem erigi-la

 

atrás ~àtrásâesses gestos,

ou melhor, diante

c·m

tes e.

Toda tentativa de

elucidação traz-nos

de

volta

deles,

ou ainda

em

torno

deles,

vindo

de

não

sei

que

o~os dilemas.

-

fundo

falso do espaço, outro mundo privado transparece

Ora, essa certeza injustificável de um mundo sensível

através do tecido do meu, e por um momento é nele que

comum a todos nós é, em nós, o ponto de apoio da verdade.

~

vivo, sou apenas aquele que responde à interpelação que

me é feita. Por certo, a menor retomada da atenção me

convence de

que esse outro

suas

que me invade

é

todo

feito

de

minha

substância:

cores,

sua

dor,

seu

mundo,

precisamente enquanto seus, como os conceberia eu senão

a

partir das cores que vejo,

das dores

que tive,

do mundo

em que vivo? Pelo menos, meu mundo privado deixou de ser apenas meu; é, agora, instrumento manejado pelo outro,

dimensão de

uma

vida

generalizada que

se enxertou

na

minha.

No

próprio

instante,

porém,

em que

creio

partilhar

da vida de outrem,

não faço

mais que

reencontrá-la em

seus confins, em seus pólos

exteriores.

É dentro do mundo

1 que nos comunicamos, através daquilo que nossa vida tem

' de articulado.

É

a partir deste gramado

diante

entrever o impacto

do verde

sobre

de mim

que acredito

a

visão

de outrem, é pela música que penetro em sua emoção musical, é a própria coisa que me dá acesso ao mundo

privado de outrem.

Ora, a própria coisa, já vimos, sempre

é para mim a coisa que eu vejo. A~~o de outrem não resolve o paradoxo interno de minha percepção: acres- centa este enigma da propagação no outro da minha vida

 

(*)

À

margem:

Retomada:

Entretanto,

 

como

pouco

os

fan-

tasmas monoculares

não podiam rivalizar

com

a coisa,

do

mesmo

modo

agora

poderíamos

descrever

os

mundos

privados

como

afastamento

em

relação ao PRóPRIO MUNDO. Como eu me represento a vivência alheia :

como uma

espécie

de duplicação

da minha.

Maravilha

desta

experiência:

ao mesmo tempo posso basear-me naqui1o que vejo, e que está em estreita

correspondência

com

o

que

o

outro

-

tudo

o

atesta na verdade·:

nós vemos verdadeiramente

a

coisa

mesma

e

a

mesma

coisa

-

e,

ao

 

mesmo

temvo,

não

alcanço

nunca

a

vivência

de

outrem.

É

no

mundo

que

nos

reunimos.

TOda

tentativa

para

reconstituir

a

ilusão

da

"coisa

mesma"

é,

na

realidade,

uma

tentativa

para

regressar

ao

meu

imperia-

lismo

e

ao

valor

da

MINHA

coisa.

Essa

tentativa

não

nos

faz,

pois,

sair

do

solipsismo:

é

uma

nova

prova

dele.

 

c)

Conseqüências:

obscuridade

profunda

da

idéia

natural

de

ver-

dade

ou

"mundo

inteligível".

   

A

ciência

vai

apenas

prolongar

essa

atitude:

ontologia

objetivista

que

se

mina

a

si

própria e

se

desmorona na

análise.

22

<)ue uma criança perceba antes de pensar, que comece

a

roloca r seus sonhos nas coisas, seus pensamentos nos outros , formando com eles um bloco de vida comum, onde

;IS per spectivas de cada um ainda

não se distinguem, tais

I atos

de

gênese

não

podem

ser

ignorados

pelo

filósofo,

\imple smente em nome das exigências da análise intrínseca.

A menos que se instale aquém de toda nossa expe-

riênci a,

numa

ordem pré-empírica

onde não

mais

mere-

ceria seu nome, o pensamento não pode ignorar sua his-

tória aparente, precisa encarar o

problema da

gênese de

É

segundo

o sentido

e

a estrutura

seu próprio sentido. intrí nsecos que o mundo

sensível é "mais antigo"

que

o

univ erso

do

p.ensamento,

porque

o

primeiro

 

é

visível

e

rela tivamente

contínuo

 

e

o

segundo,

invisível

e

lacunar;

à primeira vista, este não constitui um todo,

 

e

se tem

a sua verdade com a condição de apoiar-se nas estruturas

ca nônicas do outro.

Se reconstituirmos a maneira pela

qual nossas experiências dependem umas das outras segundo seu sentido mais próprio e se, para melhor revelarmos as rela ções essenciais de dependência, tentarmos rompê-las no pensamento, perceberemos que tudo o que para nós se chama pensamento exige essa sua distância, esta aber- tura inicial que constituem para nós campo de visão,

cam po de futuro e

passado. . .

Em todo caso, já qu~

se trata aqui apenas de tomar um primeiro contato com

nossa s certezas naturais,

não há dúvida de que elas repou-

sam, no que respeita ao espírito e à verdade, sobre a

pri meira camada do

mundo sensível, e que nossa segurança

de estar na verdade e estar no mundo é uma sóJ Falamos e co mpreendemos a palavra muito antes de ap~nder com Desca rtes (ou descobrirmos por nós mesmos) que nossa

reali dade é o pensamento. A linguagem onde nos

insta-

lamo s, nós aprendemos a manejá-la significativamente muito

an tes de aprender com

a lingüística (supondo-se que ela os

ensi ne) os princípios inteligíveis sobre os quais "repousam"

23

 

a

nossa

língua e todas

as línguas.

Nossa experiência do

 

verdadeiro,

quando

não

se

reporta

imediatamente

à

da

11

ulo

das opiniões

instituídas, indivisas entre nós como

 

'

 

coisa que vemos, não se distingue, inicialmente, das tensões

que nascem entre os outros e nós, e da resolução dessas

 

ill a M adeleine ou o Palais de Justice, muito menos

1''-''''ament os do que monumentos de nossa paisagem his-

tensões.

Como a coisa, como o outro, o verdadeiro cintila

'''''' a,

des de

que

se

tem

acesso ao verdadeiro,

isto

é,

ao

através de uma experiência emocional e quase carnal; onde

tllt~IVcl, pa rece, sobretudo , que cada homem habita a sua

 

)

as

"idéias" -

as

de

outrem como as

nossas -

são antes

qucna il ha, sem transição de uma a outra, sendo mesmo

 

traços

de sua fisionomia

e

da

nossa,

e são menos com -

1 .1 admi rar que concordem algumas vezes sobre uma coisa

/)

I

preendidas do que acolhidas ou repelidas no amor ou

no

t.dque r. Pois enfim, cada um começou por ser frágil

\ ódio. Por certo, muito precocemente, motivos, categorias

abstratíssimas funcionam nesse pensamento selvagem, como

bem o mostram

as antecipações extraordinárias da vida

adulta na infância; podemos dizer que o homem total

está ali. A criança compreende muito além do que sabe

dizer, responde muito além do que poderia definir, e, aliás,

com o adulto,

as coisas não se passam de modo diferente.

/ - Um

autêntico diálogo me conduz a pensamentos de que

que

eu não era capaz,

e às

vezes

eu não me acreditava, de

sinto-me seguido num caminho que eu próprio desenhava

e que meu discurso, relançado

por outrem, está abrindo

para mim.

Supor aqui um mundo inteligível a sustentar

a troca, seria tomar

um

nome por uma

solução -

isso,

aliás, viria corroborar o que sustentamos: que é tomando l

emprestado da estrutura do mundo que se constrói para

nós o universo da verdade e do pensamento. Quando que-

remos exprimir de um modo percuciente a consciência que

temos de uma verdade, nada encontramos de melhor do

que invocar um TÓ7ro> YOYJao> que seja comum aos espíritos

e aos homens, como o mundo sensível é comum aos corpos

sensíveis. E não se trata apenas de

uma

analogia:

é

o l

mesmo mundo que contém nossos corpos e nossos espíri- 1

tos,

desde que se entenda por mundo não

apenas a soma

das coisas que caem ou poderiam cair sob nossos olhos,

mas também o lugar de sua compossibilidade, o estilo inva-

riável que observam, que unifica nossas perspectivas, per-

mite a transição de uma a outra e nos dá o sentimento -

quer se trate de descrever um pormenor da paisagem quer

de pôr-nos de acordo sobre uma verdade invisível - de

sermos duas

testemunhas capazes de sobrevoar o mesmo

objeto verdadeiro ou, ao menos, de mudar nossa situação

em relação a ele, assim como podemos, no mundo visível

no sentido estrito, trocar nossos pontos de permanência.

Ora,

ainda aqui,

e mais

do

que

nunca,

a certeza ingênua

do mundo, a antecipação de um mundo inteligível tanto é

fraca quando pretende converter-se em tese, quanto é forte

na prática. Quando se trata do visível, uma massa de fatos

vem apoiá-lo: além das divergências dos testemunhos, é

freqüentemente fácil restabelecer a unidade e a concordân-

cia do mundo .

24

Ao contrário, tão logo se ultrapassa o

ll lltlllo de geléia viva e , se já é muito que tenham tomado

n tcsm o

caminho da ontogênese, muito mais será ainda

t h '

todo s eles, do fundo de seus redutos, se tenham deixado

t\'nlver pelo mesmo funcionamento social e pela mesma

guage m. Quando, porém, se trata de usar esse funciona-

nwnto e essa linguagem conforme seus propósitos ou de

dil<'r o que ninguém vê, nem o tipo da espécie nem o da

.wicdade garantem que

cheguem

a proposições

compatí-

\'l'ts. Quando pensamos na massa de contingências que

pndcm a lterar tanto um como outro, n.ada é mais impro-

\';tvcl que a extrapolação, que trata- também como um

ru und o , sem fissuras e sem incompossíveis, o universo

da

wrda de .

f

ciê ncia supõe a perceptiva

e

não a esclarece.

Poderíamos ser tentados a dizer que estas antinomias

In sol ú veis pertencem ao universo confuso

do imediato, do

VIVidO- OU ao homem vita9 que por definição é

sem ver-

dade, se ndo pois -necessário esquecê-las enquanto se espera

que a ciência, o único conhecimento rigoroso, venha expli-

' ar, por suas condições e de fora, esses fantasmas em que

nos e nleamos.

O verdadeiro não

é nem

a coisa

que vejo';)

nem o outro homem que também vejo com meus olhos J

nem enfim essa unidade global do mundo sensível e, em úl-

t ima instância, do mundo inteligível que há pouco tentá-

vam os descrever. O verdadeiro é

o objetivo, o que logrei

deter minar pela medida ou, mais geralmente, pelas opera-

ções autorizad'as pelas variáveis ou entidades por mim de-

fini das a propósito de uma ordem de fatos. Tais determi-

nações nada devem a nosso contacto com as coisas: expri-

mem um esforço de aproximação que não teria sentido al-

~um em relaçãÇ> à vivência, já que esta deve ser tomada tal

qual, não podendo ser considerada "em si mesma". Assim]

a ciê ncia começou excluindo todos os predicados atribuídos

i\s coisas .por nosso encontro com elas. A exclusão, aliás,

6 ap enas provisória: quando aprender a investi-lo, a ciência

rcin troduzirá a pouco e pouco o que de início afastou como

sub jetivo; mas integrá-lo-á como caso particular das relações

c d os objetos que definem o mundo para ela. Então o

mundo se fechnrli sobre si mesmo c, salvo por aqui lo que

em nós pensa e faz a ciência, salvo por esse espectador im-

parcial que nos habita, viremos a ser partes ou momentos

do Grande Objeto.

Teremos muitas

ocasiões

de

retomar,

em

suas múl-

tiplas variantes, essa ilusão

para que dela nos ocupemos

desde

já;

cabe,

por

ora,

dizer

apenas

o necessário

para

afastarmos a objeção de princípio que paralisaria, em

seu

começo, nossa

investigação:

sumariamente,

que

o

Koap.o(hwpo-;, capaz de construir ou de reconstruir o

mundo existente graças a uma série indefinida de ope-

rações suas,

muito

ao

invés

de

dissipar

as obscuridades

de nossa fé ingênua no mundo, é, ao contrário, sua expres-

são mais dogmática, pressupondo-a e sustentando-se apenas

graças a ela. Durante os dois séculos em que levou avante

1111 que respeita i\ teoritl do conhecimcmto.

Verdades que

IHI~l deveriam deixar sem mudança sua idéia do Ser são

i\ custa de grandes dificuldades de expressão e de pen-

uncnto - retraduzidas na linguagem da ontologia tradi-

dona l- como se a ciência tivesse necessidade de excetuar-l

~~· das relatividades que estabelece, de pôr-se

ela própria

t ura do jogo, como se a cegueira para o Ser fosse o preço

que tivesse de pagar por seu êxito na determinação dos

~l·rcs./ As considerações de escala, por exemplo, se levadas

verda deiramente a sério, deveriam, não fazer passar tôdas

.as verda des

da física

para

o

lado

do

"subjetivo",

o

que

manteri a os direitos à idéia de uma "objetividade" inaces-

~(vel, mas contestar

o próprio princípio dessa clivagem e

fazer entrar na definição do "real" o contato entre o

observad or e o observado. No entanto, vimos muitos físicos

sem

dificuldade

sua tarefa

de

objetivação,

a

física

pôde

procur ar, quer na estrutura cerrada e na densidade das

crer que se limitava a seguir as articulações do mundo e

aparê ncias macroscópicas, quer, ao contrário, na estrutura

que o objeto físico preexistia, em si, à ciência.

Hoje, porém ;!

frouxa e lacunar de certos domínios microfísicos, argu-

quando o próprio

rigor de

sua descrição a obriga a reco- 1

ment os a

favor de um determinismo ou, ao contrário, de

nhecer como seres físicos últimos e de pleno direito as

 

uma realidade "mental"

ou "acausal".

Essas

alternativas

relações entre o observador e o observado, as determinações

mostr am

suficientemente a que ponto a ciência, desde que

que somente possuem sentido para determinada situação

do observador, é a ontologia do Koap.o(hwpo-; e de seu

correlativo, o Grande Objeto, que figura como preconceito ""'

IJré-científico.

Ela é, entretanto, tão natural

que

o físico

continua a pensar-se como o Espírito Absoluto diante do

objeto puro, e a fazer constar entre as verdades em si,

os próprios enunciados que exprimem a solidariedade de

todo o observável com um físico situado e encarnado. No

entanto, a fórmula que permite passar de uma perspectiva

real sobre os espaços astronômicos para outra, e que, sendo

trate de compreender-se em última instância, se enraíza

na pré-ciência, conservando-se alheia à questão do sentido

do ser. Quando os físicos falam de partículas que só

exis tem durante um bilionésimo de segundo, o primeiro

movi mento deles, sempre, é pensar

que elas existem no

mes mo sentido que partículas diretamente observáveis, só

que por um tempo muito mais breve. O campo microfísic õ)

é tido como um campo macroscópico de dimensões muito

pequenas, onde. os fenômenos de horizonte, as propriedades

sem suporte, os seres coletivos · ou sem localização abso-

verdadeira para todas elas,

ultrapassa

a situação

de

fato

luta, de direito não são mais do que "aparências subje-

do físico que fala, não a ultrapassa em direção a um

tivas" que a visão de algum gigante [traria de volta à]*

conhecimento absoluto:

pois não tem significação física a

interação de indivíduos físicos absolutos.

Isso, entretanto,

não ser reportada a observações e inserida numa vida de

implica em postular que as considerações de escala não

conhecimentos, estes sempre situados.

Não uma

visão de

são as últimas, em pensá-las de novo na perspectiva do

universo mas somente a prática metódica permite unificar

em si, no momento mesmo em que nos é sugerida a

umas

às

olirrãs-visõe-s

que

são,

todas - elas, perspectivas.

renúncia a tal perspectiva. Assim, as noções "estranhas"

Sêãtribuíiiws a essa fórmula o valor de

um Saber abso-

da nova Física só são estranhas para ela na medida em

luto, se aí procuramos, por exemplo,

o sentido

último e

que uma opinião paradoxal surpreende o senso comum,

exaustivo do tempo e do espaço, é que a operação pura

isto

é,

sem instruí-lo

profundamente

e

sem

nada mudar

da ciência retoma aqui, em seu proveito, a nossa certeza,

em suas categorias.

Não queremos dizer que as proprie-

muito mais velha e muito

menos clara do

que ela,

de

ter

dades dos novos seres físicos demonstrem uma nova lógica

acesso "às próprias coisas" ou

de

ter

sobre o

mundo

um

ou uma nova ontologia. Se tomarmos "demonstração" no

poder de

sobrevôo

absoluto.

sentido

matemático,

os

cientistas,

os

únicos

capazes

de

Ao ter acesso a domínios não abertos naturalmente

ao homem - aos espaços astronômicos ou às realidades

microfísicas -, a ciência tanto mostrou invenção na mani-

pulação do algoritmo quanto deu provas de conservantismo

26

fornecerem uma, também são os únicos capacitados para

( *)

Traria

de

volta,

está

riscado

e

tem

por

cima

reencontraria.

Restabelecemos

a

primeira

expressão,

uma

vez

que

a

correção

está

manifestamente

incompleta.

 

27

apreciá-la. Basta que alguns deles a recusem como petição

com humor o contraste entre sua ciência "selvagemente

de

princípio 1 ,

para que

o filósofo

não

tenha o

direito,

e

cs pec ulativa" e sua reivindicação para ela de uma verdade

ainda menos a obrigação, de nela se

basear. O que o

e m si. Teremos que mostrar como a idealização física1

filósofo pode observar - o que lhe dá o que pensar -

é