Ric€ur e a Vis•o ‚tica do Mal Marcio de Lima Pacheco1

omartelodezeus@hotmail.com

RESUMO A obra de Paul Ric€ur tem como ponto de partida a reflex•o ‚tica: o homem falƒvel, da culpa e do mal. Pretendemos nesse artigo abordar o que Ric€ur chama de vis•o ‚tica do mal. Para isso, ‚ necess„rio analisar dois autores que habitualmente n•o se associam, Santo Agostinho e Kant. O primeiro ao lutar contra a concep…•o maniqueƒsta do mal e o segundo, ao pensar o mal como uma heteronomia da vontade, um mal radical, isto ‚, o formalismo em moral. Para Ric€ur, a clarifica…•o do que seja o mal por esses dois filos†fos se traduz por uma perda de profundidade, pois o pre…o da clareza ‚ a perda da profundidade, da profundidade que corresponde ‡ tenebrosa experiˆncia do mal que aflora nos mitos e nos sƒmbolos prim„rios. Ric€ur ent•o encontra o que n•o ‚ admitido na vis•o ‚tica do mal: a tenebrosa experiˆncia que aflora de modo diverso na simb†lica do mal, e que constitui o ‰tr„gicoŠ da reflex•o. Por conseguinte, o que na teodic‚ia era apenas um falso saber como conceito ‚ tornado setor da esperan…a. A necessidade do mal ‚, pois, ent•o, o mais alto sƒmbolo racional que a inteligˆncia da esperan…a forma. Palavras-Chaves: Paul Ric€ur, Sƒmbolo, Pecado, Mal, ‹tica RESUM‚ Le travail de Paul Ric€ur a comme point de d‚part la r‚flexion ‚thique: l'homme faillible, de la faute et du mal. Nous avons projet‚ dans cettŒarticle pour approcher que Ric€ur tirent de vision ‚thique du mal. Pour cela, c'est n‚cessaire analyser deux auteurs qui habituellement n'associent pas, Saint Agustin et Kant. Le premier quand lutter contre le maniqueƒsta de la conception du mal et la seconde, quand penser le mal comme un heteronomia de la volont‚, un mal radical, c'est, le formalisme dans morale. Pour Ric€ur, l'‚claircissement de ce qui est le mal pour ces deux filos†fos la traduit pour une perte de la profondeur, parce que le prix de la clart‚ est la perte de la profondeur, de la profondeur qui correspond ‡ l'exp‚rience sombre du mal qu'il glace dans les mythes et dans les embl•mes fondamentaux. Ric€ur trouve ce qui n'est pas admis dans la vision ‚thique du mal alors: l'exp‚rience sombre qui glace dans une plusieurs entr‚e le symbolique du mal, et qu'il constitue le " tragique " de la r‚flexion. Par cons‚quent qui ‚tait juste une fausse connaissance comme section du concept de l'espoir dans le teodic‚ia est tourn‚. Le besoin du mal est, par cons‚quent, alors, le plus haut embl•me rationnel qui l'intelligence des formes de l'espoir. Mots Clƒs: Paul Ric€ur, Symbole, P‚ch‚, Mal, ‹thique 11

INTRODU„…O

Mestrado em Filosofia pela UFRN, Licenciado em Filosofia (UERN), Pedagogia (FASE) e em Ciˆncias Biol†gicas e Bacharel em Teologia (FPA e pelo Instituto Nossa Senhora da Assun…•o); Professor da Faculdade de Filosofia Ciˆncias e Letras de Cajazeiras- FAFIC e da Faculdade do Serid†FAS; Professor do Ensino M‚dio no Estado do Rio Grande do Norte.

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Santo. San. em parte. Que ‚.A. ante o olhar do meu espƒrito. Para descobrir este segredo. As 2 Ver: AGUST•N. 1968.258). De Moribus Ecclesiæ et de Moribus Manichæorum. mas sua tenebrosa riqueza anal†gica. visto que n•o se pode perguntar quid malum (o que ‚ o mal?) somente podemos perguntar: unde malum faciamus? (de onde adv‚m que fa…amos o mal?)4 . temos de precisar o que ‚ o mal. por dois grandes nomes que. ainda mesmo nessa indaga…•o. todas as criaturas. San Agustín: ideario: selección y estudio. Agustƒn. que ‚ a minha impotˆncia preliminarŠ (CI.C. n•o podemos responder ‡ pergunta malum esse (o mal existe?). afirma que o mal n•o ‚ uma coisa. n•o poderia viciar-se ou ser corrompida. e passa a ser tomada como sƒmbolo verdadeiro? Responder a esta quest•o ‚ apreender o alcance da vis•o ‚tica do mal. O mal. se o primeiro.p. Sua for…a est„ em remeter intencionalmente ‡quilo que h„ de mais radical na confiss•o dos pecados. E AGUST•N. o mal? Onde ele se encontra? (cf. mas que n•o o explica. ao longo do artigo. 188). ConfissŽes. afinal. Madrid: B. ele ‚ uma subst•ncia sumamente boa. MART•NEZ. portanto. para Ric€ur. De gratia Christi et de peccato originali. Evidentemente. mas buscava-a erroneamente. 1968.Em que se torna a investiga…•o filos†fica sobre o mal. Buenos Aires: Espasa Calpe. 1999. E. quando a no…•o de pecado original deixa de ser visada como conceito. n•o ‚ uma subst•ncia.. n•o enxergava o mal que nela havia. AGOSTINHO. ‚ um nada quanto a sua subst•ncia e a sua natureza. p. Madrid: B. S•o Paulo: Nova Cultural. desenvolver-se-„. in: Os Pensadores. que ele ‚ n•o-analis„vel em faltas individuais. 2‘ed. O m‚todo utilizado ser„ o da pesquisa bibliogr„fica e o objetivo ‚ mostrar como Ricoeur chega a uma filosofia da esperan…a a partir de uma vis•o ‚tica do mal. de um modo habitual. ‹ necess„rio. A vis•o ‚tica do mal.C. posto que. falso. 4 ‰Buscava a origem do mal. ao lutar contra a doutrina dos maniqueƒstas2 . Em suma. a saber que o mal precede minha tomada de consciˆncia. Obrigava a passar. as visŽes de Agostinho e Kant. 1946. San.A. Martinez comenta que: ‰O mal no mundo ‚ real. ent•o. n•o ‚ um ser. ‰n•o a sua falsa clareza. se o segundo. tamb‚m. 50). p.1978. A fim de tentar vislumbrar o pensamento a uma filosofia da esperan…a em meio a vis•o ‚tica do mal. ele seria em si uma subst•ncia boa. tudo o 2 . porque neste caso a subst•ncia do mal seria incorruptƒvel ou corruptƒvel. o mal n•o existe nem para V†s [Deus] nem para as vossas criaturasŠ (cf. Para isso. 3 ‰Em absoluto. algumas filosofias da totalidade como a de: Plotino. n•o ‚ mundo3 . ‚ inaugurada. n•o ‚ mat‚ria. que culminar„ por analisar. n•o associamos: Santo Agostinho e Kant. de outro modo. Spinoza e Hegel e vermos que essas cont‚m um modelo explicativo da entrada do mal no mundo. sondar no conceito de pecado original. 2 -A VISÃO ÉTICA DO MAL Santo Agostinho. ‚ ineg„vel: assim nos parece o mundo.

contudo sem sucesso. se h„ culpabilidade. 288). como o firmamento do c‚u. bem como aquilo que n•o vemos nela. in: Obras completas de San Agustín. que n•o tˆm sua origem Nele. se ‚ que se pode dizer o poder do nada que est„ contido no mal.. mas enfim. Se existissem e j„ n•o pudessem ser alteradas. ‚ que h„ culpabilidade. 1986. e no Contra Felicem (Contra F‚lix).1998. se h„ vontade no pecado. e se n•o tivessem nenhum bem. e. o Criador e as criaturas todas s•o bons. AGOSTINHO. seriam melhores porque permaneceriam incorruptƒveis.p. p. nem se poderiam corromper se n•o fossem boas. p. 19).. seriam incorruptƒveis. Isto ‚ o que aceitamos em nossa f‚: o mal ‚ alheio a DeusŠ (cf.S•o Paulo: Paulus.A. coloca-se em contato direto com o problema. Qual a origem do mal. Portanto . quando diz: o mal ‚ a ‰inclina…•o do que tem mais ser para o que tem menos serŠ (CONFLITO DAS INTERPRETAÇÕES6 . pois. fez todas as coisas? Sendo o supremo e sumo Bem. quer dizer. Actas del debate con Fortunato. 176177). 1978. Santo. O conflito das interpretações: Ensaios de Hermenêutica. criou bens menores do que Ele. o poder de ‰faltarŠ (deficere). (Citaremos esta obra como CI). o ar. de ‰declinarŠ (declinare). Isto n•o admite d’vida. Rio de Janeiro: Imago. nada haveria nelas que se corrompesse. que se oporia ao ser5 . o mar. como a terra. e esse contato ‚ comprovado pelo pr†prio Agostinho no Contra Secundinum (Contra Secundinio). de tender para o nada (a non esse) de um afastamento da criatura para com o Criador. e a liberdade a operar na vontade. n•o ‚ a natureza que nos coage. fossem privadas de todo o bem. AGUSTIN. se n•o diminuƒsse o bem n•o seria nociva. todos os anjos e todos os espƒritos celestes (. se Deus que ‚ bom. E ainda. ‰Vi claramente que todas as coisas que se corrompem s•o boas: n•o se poderiam corromper se fossem sumamente boas. as estrelas.questŽes chegam a extremos doutrin„rios: de um lado. Com respeito ‡s demais coisas que se manifestam como contrarias neste mundo. RICOEUR. Ric€ur mostra que Santo Agostinho coloca-se em contato direto. Madrid: B. de outro. a corrup…•o ‚ nociva. afirmo que n•o derivam de Deus nem apareceram neste mundo como obra sua. vem o mal? [unde est malum?]Š (cf. deixariam inteiramente de existir. n•o tinha um aparelho conceitual adequado para deles se aproximar e estabilizar a oposi…•o entre natureza e vontade. Somente poder„ dispor a remodelar certos conceitos recebidos do neo-platonismo e tomados na gama dos graus do ser a tal ponto de fazer da liberdade poder origin„rio de dizer n•o ao ser. Donde. Com efeito. art. 3 .ou todas as coisas que se corrompem s•o privadas de algum bem. os maniqueƒstas afirmam o mal como natureza. 6 Cf. ‚ que h„ vontade. por‚m.. Paul. Confissões. pois n•o tinha nenhum meio de tematizar tais conceitos. 231). Santo Agostinho cria um conceito negativo do mal. 5 ‰Afirmo que Deus todo-poderoso n•o produz de si nada que seja mal e o que ‚ seu permanece incorrupto por haver sido engendrado de uma fonte inviol„vel. se fossem absolutamente boas. Se.Confissões. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo bem?Š (cf. De forma a opor no Contra Felicem vontade-m„ e natureza-m„.). quando diz que se h„ penitˆncia. De fato. que nelas podemos ver.C. 1999. as „rvores e os animais sujeitos a morte.

Para resolver este problema Agostinho se funda no eudemonismo . ‚ uma condi…•o incomoda: n•o h„ adequa…•o entre ser em e o seu ser paraŠ (cf. Contudo ele estava certamente livre de resistir a vista das sedu…Žes inferiores. que ‚ a busca da felicidade. Assim o problema do mal est„ no ato de liberdade do homem que prefere amar as coisas criadas (criaturas) do que o pr†prio Deus (Criador). deve-se aspirar ao amor de Deus. a d’vida de Agostinho era de como o homem poderia usufruir os bens terrenos aspirando aos bens eternos8 . sejam inferiores de tal modo que a vontade racional pode escolher entre os dois lados o que prefere. n•o obstante. E ser„ conforme o m‚rito dessa escolha que se seguir„ para ela o infort’nio ou a felicidade. Pois nem o que o Senhor ia prescrever. ConfissŽes. havia como objeto percebido: vindo do lado superior. mas n•o para este mundo7 . Le probl•me du mal d‚apr•s Saint Augustin. Ora. p. quando a raz•o domina os movimentos da alma. Paris: Grabriel Beauchesne et Ses Fils ‹diteurs. que n•o ‚ deste mundo. SCIACCA. Do mal moral merece propriamente o nome de malŠ (cf. Conforme Sciacca: ‰O homem est„ no mundo feito para ele. 7 ‰Criastes-nos para V†s e o nosso cora…•o vive inquieto. pois o homem tendo sido criado na sanidade da sabedoria achava-se isento de todos os liames que dificultavam a sua escolha. Ningu‚m pode determinar qual o objeto cuja vista o impressionar„. de forma que o problema do livre arbƒtrio n•o est„ nos bens temporais. por‚m ele ‚ feito para Deus. nem o que a serpente ia sugerir foi deixado ao poder do homem. pecado9 . 1995. este ‚ a ’nica fonte de felicidade. pelo qual o homem conhece seu ser e procura a Deus e. cada vez mais circunscrito. Isto ‚. para Agostinho a vida moral se constitui de uma seq“ˆncia for…osa de atos individuais de escolha. p. 1955. p. de cora…•o inquieto (Cordis inquieti).237. Isto ‚.Agostinho ‚ um homem que est„ em constante busca por Deus. que para Santo Agostinho se encontra em Deus. ‰‹ por isso que o problema. e que a livre vontade do homem ‚ o sujeito da obriga…•o moral. sejam superiores. 37). pois foram criados por Deus. ao mau desejo. Entretanto. Assim no paraƒso terrestre. JOLIVET. para o bispo de Hipona. 394). 63). Barcelona: Luis Miracle Editor. 9 Santo Agostinho mostra que n•o existe nada mau em si. A isso Santo Agostinho chama de m„ vontade. Porque a submiss•o de coisas melhores ‡s coisas menos boas n•o podem ser chamadas de justa ou de ordem. a n•o ser por meio de algum objeto. enquanto n•o repousar em V†sŠ (cf. ainda que lhes seja penoso renunciar as do…uras envenenadas de seus h„bitos funestosŠ (O Livre-Arb€trio. nos conduz a reconhecer que o mal n•o se encontra nas coisas sen•o na atividade daquele que usa das coisas. 1936. E se cada pessoa tem o poder de escolher o que vai a aceitar ou rejeitar. pois. mas na forma como s•o utilizados pelo homem. e vindo do lado inferior. o que o coloca em situa…•o de conflito. 1999. ningu‚m possui o poder de escolher ou rejeitar.238). ‚ preciso reconhecer: a alma fica impressionada pela vista de objetos. e que o mal se segue sempre do mau uso das criaturas. o qual vem a perceber. o preceito divino. que s•o bons. o homem ‚ perfeitamente ordenado. sente que foi feito para a vida no mundo. pois. 4 . p. na finalidade ’ltima que h„ no homem. Podemos compreender isso pelo fato de os pr†prios insensatos chegarem a vencer-se e se elevarem at‚ „ sabedoria. Michele Federico. Para Agostinho o mal moral (pecado) est„ na submiss•o da raz•o ‡s paixŽes frƒvolas. Ora. Regis. 8 Esta tamb‚m era a condi…•o de d’vida do primeiro homem com diz Agostinho: ‰O que pode mover a vontade de nossos primeiros pais? Mas a vontade n•o fica solicitada a um determinado ato. a sugest•o da serpente. San Agust€n.

mas um n•o-ser causado pela degrada…•o do bem nas sucessivas emana…Žes do Uno. o outro problema que os nos tƒnhamos proposto. desta maneira. Agostinho se afasta do maniqueƒsmo e do neoplatonismo. Desta forma o mal n•o ‚ mais que um acidente. para Agostinho. ap†s a primeira quest•o: o que ‚ proceder mal?. Com efeito quem n•o peca livremente. p. p. 11 ‰Se Deus n•o tivesse outorgado o livre-arbƒtrio ao homem. a causa das coisas boas ‚ Deus. p. O Livre-Arbítrio. Assim. que escolhe livremente afastar-se do Bem que ‚ imut„vel e infindo. ‚ pr†prio de uma alma pervertida e desordenada escravizar-se a elas. Porque n•o se pode falar de ordem justa. Ao mesmo tempo. ao pecar. pois o pecado resulta da m„ vontade que ‚ a soberba (tamb‚m pecado) 11 .quando a raz•o governa os movimentos irracionais da alma ‚ que domina o que verdadeiramente deve dominar. uma deficiˆncia de bem que acontece na mat‚ria. que ‚ buscar a Ele.). O Livre-Arbítrio. 47). Isto significa antes de tudo que. para conduzir conforme o seu benepl„cito. Contudo. 5 . s† quando a raz•o domina a todos os movimentos da alma. afasta-se das coisas divinas e realmente dur„veis para se apegar as coisas mut„veis e incertas ainda que estas se encontrem perfeitamente dispostas. mas tem causa e natureza negativa. 1986.parece-se que j„ temos resolvido com clareza. 256) 12 ‰‹ bem como dizes e eu concordo em que todos os pecados encontrem-se nessa ’nica categoria. a saber: de onde vem praticarmos o mal? Se n•o me engano tal como a nossa argumenta…•o mostrou. o pecado ‚ ao mesmo tempo causa e efeito do mal. e de si mesmo. A raz•o ‚ que. o mal ‚ moral. n•o forma um ser. tem sua causa na vontade. cada uma em sua ordem. para tender para o n•o-ser. 68-69). para a desordem que n•o parte sen•o de uma vontade livre 12 . Ent•o. o Uno. Ora. Dessa forma. mas que ‚ uma subst•ncia corp†rea. que colocavam a origem do mal na mat‚ria. quando a raz•o a mente ou o espƒrito governa os movimento irracionais da alma. o pecado ‚ a fonte ’nica do mal. no Contra Felicem. n•o ‚ mat‚ria.. para Agostinho. devido ‡ virtude da lei eterna de Deus10 . n•o pecaŠ (cf. n•o forma uma coisa. o mal moral [pecado] tem sua origem no livre-arbƒtrio de nossa vontadeŠ (cf. o pecado. Neste ponto. em virtude daquela lei que reconhecemos como sendo a lei eternaŠ (cf. nem m‚rito ao bem obrar. enquanto a causa do mal ‚ a vontade criada.e realizem a beleza que lhes corresponde. pois se traduz pela a…•o culposa do homem. A primeira afirmava que o mal n•o s† existe. Agostinho sugere uma resposta na qual. mat‚ria. a opor vontade m„ e 10 ‰Por conseguinte. O mal. Agostinho chega. 1995. ‚ que est„ a dominar. Actas del debate con Fortunato. Ora. O neoplatonismo nega que o mal seja em si ou que a mat‚ria seja o mal em si. a saber: cada um.. onde as coisas melhores est•o subordinadas ‡s menos boas (. Ora esse mal para o Bispo de Hipona n•o ‚ positivo. n•o poderia existir nenhum juƒzo justo que o castigasse. o homem deve se dizer perfeitamente ordenado. assim como tampouco o preceito divino de fazer penitencia pelos pecados. O mal ‚ um contr„rio da ordem estabelecida por Deus. nem mesmo perd•o dos pecados que Deus nos tem dado por Jesus Cristo nosso senhor. submiss•o da raz•o ‡s paixŽes propriamente. o mal. por ordem e direito divinos. foi a alma posta ‡ frente das coisas inferiores. sequer simplesmente de ordem. 1995. j„ que para o neoplatonismo tudo derivaria de um ’nico Ser.

um mal radical. na sensibilidade do homem e nas inclina…Žes naturais daƒ derivadas. nem num instinto natural. 17 O fundamento do mal radical n•o pode ‰ser colocado. por sua vez. Kant et le problème du mal. 13 ‰O hiato entre a finitude e o mal seria injustific„vel por excelˆnciaŠ (cf. deve poder ser-lhe imputado como sendo sua pr†pria culpa. devem ser consideradas contingentes. por conseguinte. 1971. d•o ocasi•o para a virtude). malgrado a raiz profunda da mesma no arbƒtrio. estranhos a raz•oŠ (cf. sua lei ‚ a pr†pria lei moral e. entretanto. ‚ pensado nesse primeiro momento como uma heteronomia da vontade15 . O mal. Paris: Seuil. Ric€ur mostra que um caminho paralelo foi posteriormente seguido por Kant no Ensaio sobre o mal Radical.. A religião dentro dos limites da simples Razão. Montreal: Press de lŒUniversit‚ de Montr‚al. de fato. deve consistir. conseq“entemente. 249). 14 ‰Por conseguinte. em m„ximas do arbƒtrio contr„rias ‡ lei. Nesta condi…•o h„ um hiato entre a finitude e o mal n•o pode ser vencido13 . a lei moral pode e n•o pode ser a lei de uma vontade livre. um salto qualitativo. por conseguinte. Lectures 2. p. ‚ encontrado nele. o quadro conceitual que tinha diante de si n•o favorecia a estabilizar e inscrever a oposi…•o ‰natureza versus vontadeŠ numa concep…•o coerente. mas somente numa regra. 282). que o arbƒtrio fornece a si mesmo para o uso de sua liberdade. inato natureza humanaŠ (cf. como num ente que age livremente. de uma maneira qualquer. Pois n•o s† por que elas n•o tˆm uma rela…•o direta com o mal (muito antes com o que a inten…•o moral pode provar em sua for…a. RIC”UR. 1980. Uma vez afirmado. que num ente que a moralidade do sujeito. O mal ‚ ent•o heteronomia. m„xima da vontade. inversamente. p. por serem inatas. Mais ainda.1991. 65). para Kant. por causa da liberdade. A religi•o dentro dos limites da simples Raz•o. uma formaliza…•o moral no Ensaio sobre o mal radical. sem sucesso. no qual elabora o quadro conceitual14 que faltou a Agostinho. estas. entrela…ado com a pr†pria humanidade e como que enraizado nela. p. visto que. S•o Paulo: Editor Victor Civita. o salto entre o bem e o mal. e como deve ser sempre ele mesmo [o homem] culpado. KANT. Inicialmente. isto ‚. Paul. 16 A propens•o do homem para o mal ‰deve ser considerada como moralmente m„. n•o estaria de acordo com a universalidade deste mal se seu fundamento supremo subjetivo de todas as m„ximas n•o estivesse. contra a qual deve-se dizer que 6 . p. como comumente se faz. leva em conta a especificidade os conceitos pr„ticos como: vontade. n•o somos n†s os autores). o fundamento do mal n•o poder„ ser encontrado em nenhum objeto determinante do arbƒtrio por ina…•o. O. 15 ‰A vontade ‚ essencialmente boa vontade. mas sim a propens•o para o mal. sen•o o m„ximo feito de uma vontade livre que se determina pelos movimentos sensƒveis.natureza m„. poderemos denominar esta propens•o uma propens•o natural para o mal. Emmanuel. mas como algo que pode ser imputado ao homem. assim n•o devemos ser respons„veis por sua existˆncia (nem o podemos. n•o reside mais na sensibilidade17 . elabora a condi…•o principal de uma conceitualiza…•o do mal como mal radical16 . arbƒtrio. Para Ric€ur seria necess„rio uma filosofia do agir e uma filosofia da contingˆncia na qual estaria dito que o mal surge como um acontecimento. n•o como disposi…•o da natureza. Mas o pecado configura. Kant realiza uma oposi…•o entre a vontade e a natureza esbo…ada por Agostinho. uma ruptura entre a comunidade boa e a preferˆncia solit„ria. numa m„ximaŠ (cf. REBOUL. Para Kant o mal. In: Os Pensadores. Contrée des philosophes. 274). o que. 1980. por‚m.

da culpa nos leva a uma experiˆncia. 283). A liberdade. um fundamento do moralmente mau no homem. E segundo. um poder que corresponde a esse dever. Assim Kant tem raz•o em dizer que agir segundo uma representa…•o de uma lei ‚ diferente de agir segundo leis. A imputa…•o do ato ‚. Nenhum dos dois ‚ aplic„vel ao homemŠ (cf. mas que posso agir sob a condi…•o de uma lei que se me apresenta. qualificada moralmente pela sua rela…•o ao dever e ao poder. Uma vez que ‰Kant afirma que as inclina…Žes naturais que resultam da sensibilidade nem se quer tem rela…•o direta com o malŠ (CI. 255). por conseguinte. 7 .255). o mal. a experiˆncia do remorso • uma experiˆncia da rela…•o da liberdade ‡ obriga…•o na qual: primeiro. assim.. est„ ligada ‡ consciˆncia de ter devido fazer de outra maneira: ‚. E tal poder de agir conforme a representa…•o de uma lei ‚ a vontade. porque mediante isto a o posi…•o ‡ pr†pria lei ser„ elevada a motivo (pois sem qualquer motivo n•o pode ser determinado o arbƒtrio) e o sujeito tornar-se-ia um ente diab†lico. e aƒ est„ o que foi feito. A religião dentro dos limites da simples Razão. por natureza. reside em uma rela…•o. ‚ a subordi…•o e aliena…•o pelo homem do puro motivo do respeito aos motivos sensƒveis. ‚ o poder de agir conforme a representa…•o de uma lei e de passar ‡ obriga…•o. este. declaro ter agido contra a lei que me parece obrigat†ria. demais. a sensibilidade cont‚m muito pouco. indica um ato pelo qual me responsabilizo por uma a…•o passada. p. ou melhor. desta forma. portanto. No seguimento de uma lei posso tamb‚m descobrir o poder de agir contra. na subvers•o de uma rela…•o. mas de outra maneiraŠ. O mal. se encontra. que ‰as inclina…Žes naturais que resultam da sensibilidade n•o tˆm rela…•o direta com o malŠ (CI. reconhe…o para mim um dever. 1980. do pecado cometido. mas uma raz•o. o reconhecimento dever ter feito de outro modo que reconhe…o o poder fazer de outro modo o dever serve como um detector: se me sinto. ou ao menos me creio obrigado. no homem (. todavia. poderia ter feito . conv‚m. entretanto. que libera da lei moral. da declara…•o do mal. p. ou constrangimento do desejo. A experiˆncia da confiss•o. ‚ porque sou um ser que pode agir n•o somente sob o impulso.). que. ao retirar os motivos que se podem originar na liberdade. O mal ‚ o que acontece quando o homem subordina e aliena o puro motivo do respeito aos motivos sensƒveis. No momento em que me imputo a responsabilidade de um ato como se dissesse: ‰n•o poderia ter feito isso assim. mas ao mesmo tempo maligna (uma vontade absolutamente maligna). p. Est„ aƒ o que deveria ter sido feito e.por Kant.. Para dar portanto. ‹ uma transgress•o. ao contr„rio. pois ela torna o homem meramente bestial. ou melhor. Essa consciˆncia de ter podido fazer de outra maneira.

ao contr„rio de Agostinho. Esse formalismo. que o formaliza. ‚ o poder do desvio. da boa m„xima. Desta forma. sen•o uma certa rela…•o invertida. por conseguinte. p. ‚ a ordem pela qual um agente dispŽe as suas m„ximas. agora. Esta ideia de Kant. conforme Ric€ur. O mal n•o ‚ qualquer coisa. j„ tentara. Para Ric€ur. Desta forma. por outro lado. em Kant. O mal n•o mais reside na sensibilidade na qual o mal n•o ‚ mais aquela inclina…•o para o sensƒvel e aos prazeres do ser finito. uma rela…•o e n•o uma coisa. do ponto de vista moral. por assim dizer. a confus•o entre o mal e o efetivo. de o assumir. do mal ‚ a ratifica…•o enganosa da m„xima pela conformidade. em Kant aparece como uma determina…•o do mal como uma determina…•o da liberdade. tira toda a natureza do mal. em aten…•o a uma ordem de preferˆncia e de subordina…•o indicada pela obriga…•o. ali„s. como. encontra-se o equivalente racional desse esquema na id‚ia da subvers•o da m„xima. da profundidade que 8 . situa-se. n•o ‚ mais ‰a infra…•o grosseira do dever. mas no solo da raz•o. o mal se torna. A determina…•o do mal pode ser expressa como a invers•o da rela…•o entre m†vel e a lei no interior da m„xima de minha a…•o. A liberdade. por uma impostura. a ideia kantiana da subvers•o da m„xima m„ ‚ o equivalente do esquema bƒblico do desvio. fazer Agostinho. mas a subvers•o da rela…•o entre os motivos da a…•o. o mal n•o ‚ nada em si. ‰subvers•o de uma rela…•oŠ (CI.256). assim. O mal. por conseguinte. mas aquilo que o caracteriza. e isto implica que a liberdade ‚. o passional.Para Ric€ur. aquilo a que n†s chamamos uma rela…•o invertida. mas a malƒcia que faz passar por virtude o que ‚ a sua trai…•oŠ (CI. n•o no sensƒvel. Desfazendose como ‰algoŠ.256). o mal para Kant n•o ‚ algo. acaba-se. mas a subvers•o da ordem. traz consigo o beneficio de ‰construir o conceito da m„xima m„ como regra que o livre arbƒtrio forja para si pr†prioŠ (CI. ‚ uma preferˆncia que n•o deveria existir. O mal para Kant. Assim. Tal como temos no mito ad•mico • oposto ao esquema †rfico da exterioridade. poder de uma subvers•o da ordem. O mal. desenraiza-o: o mal n•o s† existe apenas pelo ato de o tomar sobre si. esse poder de afastamento. p. nem na natureza nem na consciˆncia. ou seja.256). pois ‰o pre…o da clareza ‚ a perda da profundidadeŠ (CI. 255). p. a clarifica…•o disso se traduz por uma perda de profundidade. por assim dizer. e uma rela…•o invertida.p. a defini…•o kantiana pode ser compreendida de maneira que: se se chama m„xima ao enunciado pr„tico daquilo que algu‚m se pŽe a fazer.

Ric€ur mostrou que por meio da confiss•o dos pecados que o homem declara o mal. mas como mostrou Ric€ur: Ad•o ‚ o mais velho dos homens e n•o somente o homem exemplar. podemos voltar a uma mitologia dogm„tica. com reino j„-aƒ . que os pecados s•o apenas acidentes ocorridos na vontade. n•o analis„vel em culpabilidades individuais e atuais. e bastante ardilosa. o primeiro ‰quando passa do mal atual ao 9 . a serpente a qual j„ se encontrava aƒ. c)diante da anterioridade do mal por Ad•o e pela serpente.corresponde ‡ tenebrosa experiˆncia do mal que aflora nos mitos e nos sƒmbolos prim„rios. destes trˆs pontos. o desvio –contingenteŒ (CI. Neste ponto. mas natureza originaria do homem. Diante. Ad•o ‚ ent•o o arqu‚tipo. ‰a vis•o ‚tica do mal s† tematizar apenas o sƒmbolo do mal atual. o mal ‚ exterior ao homem. portanto. mas o anterior do mal a todos os homens. foi justamente o conceito de natureza (reifica…•o do mal) posta para compensar a contingência do mal.257). uma natureza que n•o seria natureza das coisas. vejamos: a) ao nƒvel dos sƒmbolos prim„rios. e que constitui o ‰tr„gicoŠ da reflex•o. que regulou o primeiro movimento do pensamento. Cabe agora. Logo. Sen•o. o exemplar do mal presente que repetimos e imitamos cada vez que come…amos o mal. reificando o mal numa ‰naturezaŠ. se continuamos o mal ‚ necess„rio tentar dizer o mal como tradi…•o. como encadeamento hist†rico. portanto. sair deste esquema gn†stico e pensar alguma coisa como ‰uma natureza do mal. Ad•o tem seu outro. como j„aƒ. que suscita o ciclo dos mitos distintos do mito ad•mico por um esquema de exterioridade. Ad•o ‚ o primeiro a praticar o mal. mas natureza da liberdade. p. isto ‚. por assim dizer. Ric€ur nota o perigo de voltar a cair no tenebroso la…o da gnose. b) a experiˆncia do mal j„-aƒ. causa da liberdade do homem. pois ao introduzir um esquema de ‰heran…aŠ (de Agostinho) e tent„-lo coordenar com o do ‰afastamentoŠ (de Kant) num conceito plausƒvel. uma figura anterior a ele. este o j„ encontra na face da terra. maneira advinda de ser da liberdadeŠ (CI. n•o necess„ria. logo habitus contraƒdo. Contudo. ent•o.p. o –afastamentoŒ. para Ric€ur. ‚ preciso retomar Santo Agostinho e Kant. Esse o ciclo mƒtico n•o ‚ excluƒdo no mito ad•mico. Ric€ur ent•o encontra o que n•o ‚ admitido na vis•o ‚tica do mal: a tenebrosa experiˆncia que aflora de modo diverso na simb†lica do mal. Ora. no qual nas…o e no qual se encontra o mal. 256).

quando remonta da m„xima m„ do livre-arbƒtrio ao fundamento de todas as m„ximas m„s. denominam-se –pecadosŒ. p. 259). Desta forma. somente podemos fazˆ-lo. O mal se torna advindo de uma maneira da liberdade. est„ para a liberdade. assim.259). Ora. esse fundamento supremo de todas as m„ximas exigiria por sua vez a admiss•o de uma m„xima m„Š (CI. em conseq“ˆncia. concupiscˆncia) enquanto contingente para a humanidade em geralŠ (cf. A religião dentro dos limites da simples Razão. 18 ‰As m„s a…Žes que cometemos por ignor•ncia e as boas que n•o conseguimos praticar. ‚ anterior a mim. 1980. pois se trata de uma rela…•o da liberdade ‡ lei cujo conceito ‚ sempre n•o empƒricoŠ (CI.p. Kant. o segundo. desse mal que ‚ come…o. ‚ sabido que tentou elaborar uma dedu…•o transcendental a partir da qual o mal de natureza apresenta-se como fundamento (possibilidade) das m„ximas m„s. raz•o compreensiva para a origem do mal. de forma que a inclina…•o para o mal ‚ de car„ter inteligƒvel.259). Portanto. n•o o podemos conhecer. ‰ela permanece para n†s impenetr„vel porque deve ser imputada a n†s e porque. mas ‰jamais descobrir a raiz do mal na m„xima suprema do livre-arbƒtrio como rela…•o ‡ lei. fornece o sƒmbolo da concilia…•o da contingˆncia e da anterioridade do mal.p. p. 19 ‰Por Propens•o (propensio) entendo o fundamento subjetivo da possibilidade de uma inclina…•o (apetite habitual. come…o e antecedˆncia. No que diz respeito a Kant. diferentemente da gnose. que pretende sondar a origem desse mal.p. a natureza (Beschaffenheit) e o fundamento (Grund) desse pendor devem ser reconhecido a priori. como assinala Ric€ur. isto ‚ determina…•o da liberdade por si mesma. ou antes. em Kant h„ uma transposi…•o da figura mƒtica da serpente que representa o sempre aƒ do mal. Para mostrar isso. Ric€ur utiliza-se de uma cita…•o de um trecho de A Religião nos limites da simples Razão: ‰Se o Dasein desse pendor pode ser mostrado (dargetan) por meio de provas empƒricas do conflito no tempo. todavia. algo que ao longo da vida o tomo para mim19 . O Livre-Arbítrio. Toda a natureza do mal pode ser dada como nascimento. 10 . apesar da boa vontade.pecado originalŠ18 . visto tirarem sua origem daquele primeiro pecado cometido por livre vontade por Ad•o: estes n•o s•o mais que conseq“ˆncia daqueleŠ (cf. em h„bito. ‚ um ‰h„bito contraƒdoŠ. 1995. reconhece-se que o filos†fo vai ao encontro do inescrut„vel. mas n•o ‚ o nascimento sua causa. pois se trata de uma a…•o inteligƒvel que precede toda a experiˆncia Š (CI. 56). 279). do insond„vel no qual o mal come…a sempre pela liberdade j„-aƒ. n•o existi. Kant reconhece que no que faz referencia a origem dessa inclina…•o para o mal. Deste modo. e n•o sensƒvel. se esse ‰h„bito contraƒdoŠ do livre-arbƒtrio faz. Ao fazer isso. O mal est„ aƒ. podemos compreender donde proceda o mal.

Confiss‡es. por outro. antes eram muito diferentes (cf. de modo que. mas contra Pel„gio H„ agora. 1999. ao mesmo tempo em que o primeiro homem transgride uma regra (vontade20 ). categorias jurƒdicas e biol†gicas. no qual. quanto s•o demais homens. n•o mais uma id‚ia do mal natureza. p. Nesse caso. p. ao elaborar o conceito de pecado original. ‰ao destruir o envolt†rio gn†stico do conceito de pecado originalŠ e ao tentar uma ‰dedu…•o transcendental do fundamento das m„ximas m„sŠ (CI. 1955. Mas. como efeito ou pena imposta aos homens descendentes de Ad•o. quando. p. ainda que n•o me davam explica…•o alguma daquelas doutrinas. Depois da queda. punƒvel como um 20 ‰Assim Agostinho elabora uma vis•o puramente ‚tica do mal onde o homem ‚ integralmente respons„vel. mas sofrem ou. no ’ltimo livro do De Libero Arb€trio (O Livre Arbƒtrio). pelo primeiro pecado cometido por este (malum p„nƒ) (cf.2002. Marcos Roberto Nunes. n•o mais seria contra Mani22 que teria que lutar. h„ um duplo movimento. seus descendentes. agora ele aparece. se Deus. vem o mal?Š (cf. Isto ‚. Donde. ‰Qual a origem do mal. o mal aparecia como culpa (malum culpƒ). Com efeito. em uma no…•o. 21 ‰Apesar de afirmar categoricamente que o homem n•o foi programado deterministicamente nem para o bem. explica…•o da origem do mal • se pŽem para ele agora em termos filos†ficosŠ. p. criou bens menores do que Ele. que eu tinha bem averiguadas pelos n’meros e o testemunho de meus olhos. tamb‚m. em Santo Agostinho.Arb€trio. 11 . mas ‚ implica uma pena imposta aos homens. perdeu tal condi…•o. por trazerem em si as manchas do pecado original.completa Agostinho.259). o Criador e as criaturas todas s•o bons. Agostinho re’ne. 200). Ad•o. Contudo. entra-se na luz. 231). O problema do mal na pol…mica antimaniqu†ia de Santo Agostinho. 1. cf. os problemas que ele herdou do maniqueƒsmo e que ele n•o tinha ainda resolvido • impossibilidade de conceber um Deus sem extens•o e uma subst•ncia corporal. ele extrai de uma vis•o tr„gica onde o homem n•o ‚ mais autor. O Livre. inconsistente. Agostinho. E mais do que isso. ‰mergulha de novo no n•o saber a investiga…•o de um fundamento do fundamentoŠ (CI. Destas duas cita…Žes. Porto Alegre: EDIPUCRS. mas uma id‚ia de ‰culpabilidade de naturezaŠ. admite que n•o gozam plenamente da liberdade. momento em que gozava de perfeita ou plena liberdade. como vimos. que ‚ bom. 22 ‰Comparava-os [os escritos dos s„bios gregos] com os escritos de Mani. 28). nem dos eclipses das estrelas nem de outras coisas que havia lido nos livros da sabedoria deste s‚culo. mas enfim. ele transmitiu sua natureza decaƒda a seus descendentes. parecem sofrer de uma –certa dose de necessitarismoŒ. essa parece ser uma situa…•o v„lida unicamente para o primeiro homem.p. e n•o falava em nenhuma parte sobre a raz•o dos solstƒcios e dos equin†cios. fez todas as coisas? Sendo o supremo e sumo Bem. O mal n•o se torna somente pecado de Ad•o. p. descendentes de Ad•o. pois esta ‚ ‰efetiva como ato. essa falta ‚ transmitida a toda a sua gera…•o. ao retomar a natureza do mal como fundamento das m„ximas m„s. e ‚ julgado e condenado. ali mandavam que eu acreditasse. antes da queda (pecado original). mesmo que n•o seja cruelŠ (CI . pelo menos ‡ primeira vista. num primeiro momento. por conseguinte. eleva-se o pensamento e o faz de novo cair. Por um lado. perde-se na escurid•o inescrut„vel do n•o-conhecimento. nos diz: ‰Agora que ele [Agostinho] abandonou as care…as maniqu‚ias. p. ao colocar o pecado (soberba) como causa do mal no homem. delirando sem rumo. pois. Com isso. fechando o ciclo de sua explica…•o. na claridade do formalismo kantiano. pelo ato cometido21 . ao mesmo tempo. mas vƒtima de um Deus capaz de sofrer. 345). nem para o mal. que sobre estas coisas escreveu muito. No que diz respeito a Santo Agostinho. SCIACCA. 259).1995. COSTA.

a fun…•o simb†lica. por assim dizer. o que ‚ preciso sondar no conceito de pecado original. Pode a inteligˆncia criar argumentos v„lidos. enquanto mistura dois universos de discursos • o da ‚tica ou do direito. e n•o te†ricos. a id‚ia de pecado elaborado pelo Doutor da Gra…a ‚ inconsistente. Cabe. seja por direito. Ora. a peleja do ‰rigor reflexivo e a riqueza simb†lica se findar„ com a volta ao sƒmbolo impenetr„vel da queda?Š (CI. ent•o. o mal est„ para minha liberdade. mas neleŠ (CI. mas que s•o impossƒveis de se conhecer. A confiss•o do mal ‚ dada em outro nƒvel. Direito advindo da falta de Ad•o por via de gera…•o. insubstituƒvel. Aƒ est„ a fun…•o simb†lica do conceito: integrar o esquema de heran…a.p. embora herdado como doen…aŠ (CI. assim. mesmo da criancinha no ventre materno. assim. que ‚ a minha impotˆncia preliminarŠ (CI. e o da biologia. do conceito. 258). perguntar se ‚ possƒvel 12 . dos pecados. E id‚ia irris†ria. ainda. Trata-se de uma racionaliza…•o do tema Paulino. com Ric€ur. para Ric€ur. de maneira que natureza e nascimento sejam conceitos anal†gicos. em seu mist‚rio. mas n•o cognoscƒvel. e n•o na gera…•o de fato. Sua for…a est„ em remeter intencionalmente ‡quilo que h„ de mais radical na confiss•o dos pecados. mas sua tenebrosa riqueza anal†gica. escolhe uns e rejeita outros. A id‚ia deste mal que ‚ transmitido ‚ inteligƒvel. a saber que o mal precede minha tomada de consciˆncia. profundo e diferente do arrepender-se. ‹ tamb‚m uma id‚ia escandalosa enquanto ‚ outra a id‚ia de retribui…•o e de inculpa…•o em massa dos homens. simplesmente. A regenera…•o ‚. enquanto relan…a a eterna teodic‚ia . 258 ).261). ‹ neste contexto que. p. herdado na disputa como os maniqueus e de uma quase-natureza elaborado contra os pelagianos. Entretanto. que ele ‚ n•o-analis„vel em faltas individuais.crime. a saber. p.p. D„-se. Ora. n•o mais em face dele. e seu processo de justificar Deus. O mal aƒ ‰‚ uma esp‚cie de involunt„rio no seio mesmo do volunt„rio. abre-se um ‰intervaloŠ entre a natureza essencial do homem e a confiss•o da contingˆncia do mal. O mal est„ em um simbolismo. isto faz com que a perdi…•o. que ‚ integrar o esquema da heran…a ao da contingˆncia do mal. Para Ric€ur n•o. desta forma. E que a salva…•o seja dada por gra…a. logo se vˆ. convers•o. Contudo. ‰n•o ‚ a sua falsa clareza. p. como meu nascimento est„ pra minha consciˆncia atual. sempre j„ aƒ. 258). na qual Deus. pela bel vontade de Deus. pode-se perguntar: ser„ que ‰toda possibilidade de pensar estar„ ent•o extinta com o n•o-saber concernente ‡ origem do fundamento das m„ximas m„s?Š (CI.261) Ou.

de que o homem pode ser falƒvel e a contingˆncia do mal. Mas n•o qualquer necessidade. (Citaremos esta obra como SM).deixar lado a lado a necessidade da falibilidade. vai do come…o do mal ao seu fim. n•o convidar„ a passar da contingˆncia do mal a uma certa ‰necessidadeŠ do mal? Para Ric€ur essa ‚ a maior tarefa e a mais perigosa. um sentido.. Paul. mas o que esse encadeamento de sentido retr†grado d„ a pensar? Porventura. e. isto ‚. de que o mal pertence a uma certa totalidade do real.p.. N•o importa que necessidade.. no qual Deus tentador e enganador participa da indistin…•o primordial entre o bem o mal. Em todos sƒmbolos de ordem mƒtica o sentido procede do fim para o come…o. de que uma figura significante desenha-se imperiosamente atrav‚s da contingˆncia do mal. 13 . o Enuma Elish. Philosophie de la volonté. no mito ad•mico. que faz uma reconcilia…•o do tr„gico pelo tr„gico. o mito ad•mico que ‚ balizado pela figuras do fim como: o rei dos ’ltimos tempos. conforme Ric€ur. La Symbolique du mal. Um texto bƒblico que demonstra isso para Ric€ur ‚ o de S•o Paulo aos Romanos onde diz: 23 RICOEUR. 318-321). visto que. Uma certa totalidade. o pensamento avan…a sobre dois abismos: o do pensamento reflexivo sobre a alegoria e o do pensamento especulativo sobre a gnose. Ali„s. justifica…•o do culpado. como o testemunha a imagem de Zeus. Paris: Aubier. o filho do homem. Tome II: 1. os mitos †rficos que narram o p‚riplo e a volta da alma exilada num corpo mau. Conseq“entemente. purifica…•o da m„cula. em suma. foi deixada de lado a dimens•o do mundo dos sƒmbolos mƒticos na qual os sƒmbolos do come…o s† adquirem seu significado pleno em rela…•o aos sƒmbolos do fim. por exemplo: o mito da cria…•o babil˜nico. por fim o relato bƒblico. ou pela vinda do rei-salvador. todavia apesar da contingˆncia do mal. s•o tipos do homem que ‰h„ por virŠ.. o segundo Ad•o de quem fala S•o Paulo. s•o mitos do come…o e do fim (Philosophie de la Volonté 23 . 1988. por meio de algum ritual. visto do fim. ‚ uma tarefa enorme porque ‰o pensamento simb†lico. por exemplo. como visto. remiss•o dos pecados.Finitude et Culpabilité 2. como. isto ‚. o necess„rio s† aparece depois. Uma certa necessidade. n•o importa que totalidade o caso ‚ que nos esquemas de necessidade. parece efetivamente supor a ideia de que tudo isso tem. afinal. que relata a vit†ria de Marduk. os grandes mitos. sendo esse exƒlio anterior a toda a apresenta…•o do mal por um homem respons„vel e livre. n•o qualquer totalidadeŠ (CI.261).. — primeira vista. o mito tr„gico do Prometeu Agrilhoado.p.

assim como pela falta de um s† resultou a condena…•o de todos os homens.).262). O que interessa aqui. como. Foi discƒpulo de Armonio Sardes que fundou o neoplatonismo em Alexandria. ‚ a doutrina do pecado original. 5. assim tamb‚m imperasse a gra…a por meio da justi…a. dar a raz•o da –declina…•oŒ das almas fascinadas por sua pr†pria imagem nos corpos com a necessidade de processão Š (CI. tampouco a oposi…•o destas. fil†sofo neoplat˜nico nasceu em Lic†polis em 205 d. at‚ os seus ’ltimos tratados. ou a inclui t•o bem que elimina por inteiro tanto a passagem da inocˆncia ao conhecimento do mal. do mesmo modo. Por conseguinte. Giovanni. a gra…a superabundou. História da Filosofia v. a obra da justi…a de um s† resultou para todos os homens justifica…•o que traz a vida (. I.) onde avultou o pecado. Com efeito. 455) 14 . para que. a escalada do homem em busca da justifica…•o. imagem pela qual Deus restaura a cria…•o. com quanta maior profus•o a gra…a de Deus e o dom gratuito de um s† homem. como em outros padres da Igreja (cf.Se pela falta de um s† todos morreram. 238-250.(Rm. que oferece entre a obra nefasta do primeiro ad•o e a repara…•o superabundante do segundo Ad•o. Jesus Cristo. Para Ric€ur. Plotino teve grande influencia sobre Agostinho de Hipona.. entrou no mundo a partir da falta de Ad•o.REALE. ao apostolo dos gentios n•o ‚ a compara…•o entre as figuras do velho Ad•o e do novo Ad•o.C e faleceu em 270.. 1990. Essa ‰superabund•nciaŠ paulina se constitui uma grande tarefa ao pensamento. o progresso. mas o paralelo e a grada…•o. Plotino e Spinoza conheceram algum dos problemas de dar raz•o a contingˆncia do mal num plano significante. Ric€ur diz que nenhuma grande ‰filosofia da totalidadeŠ p˜de dar razŽes ‡ inclus•o da contingˆncia do mal em um esquema significativo e totalizador. quanto o tr„gico do mal que se precede a ele pr†prio. na qualidade de um novo chefe da Humanidade. onde a necessidade deixa cair para fora a contingˆncia. ‰tentou. atrav‚s de Jesus Cristo. como imperou o pecado na morte.18. Disso Paulo conclui que o pr†prio pecado entrou na humanidade por meio desta falta inicial. contudo sem sucesso. se derramaram sobre todos (. ou o pensamento da necessidade do mal deixa cair para fora a contingˆncia. p.. o sistema dial‚tico de Hegel.p. castigo do pecado. Ora a morte.. A possess•o n•o ‚ 24 Tanto o texto grego como a vers•o latina s•o bem claros quando falam de um ’nico homem 25 Segundo Giovanni Reale: Plotino. 20) O pecado habita o homem. por exemplo. nosso senhor 24. como ‚ o caso dos sistemas n•o dial‚ticos de Plotino25 e Spinoza. Plotino. No primeiro caso. 15. para a vida eterna. S•o Paulo: Paulus.

Enfim. seguindo as emana…Žes que se dar•o pela Alma. História da Filosofia: Grécia y Roma. sendo a ultima possess•o do Uno e.sen•o um desdobramento interno das riquezas ‰virtuaisŠ do primeiro Princƒpio. ao se relacionar com o mundo por ela produzido. de forma que a Providˆncia se serve dos males que ela 26 ‰A mat‚ria ‚ em si m„ e ‚ o primeiro mal: a alma [. o Uno. BUSSOLA. Vit†ria: UFES / FCAA. 719).. Plotino: A alma no tempo. embora seja espiritual. para Ric€ur. emana uma possess•o.]. ‚ eterna e necess„ria27 . o principio animador que d„ vida a todos os corpos. que a ordem ‚ a raz•o da desordemŠ (CI. Ora. possibilidade do mal. Madrid: B. Desse princƒpio. No sistema plotiniano. e n•o poderia haver contr„rios se n•o existisse a mat‚riaŠ (cf. p. 1956. a alma est„ envolta por aquilo que vulgarmente chamamos de –malŒŠ (cf. ou melhor. in: Colletion des Universités de France: Paris: Soci‚y‚ dŒedition ‰Les Belles lettresŠ 1932. H„. a causa da deficiˆncia da alma. como tal. 1990. Daƒ que o mal n•o vem de n†s. um segundo estado. em sua uni•o com ela torna-se m„Š (cf. uma hierarquia pela qual tudo deriva do Uno que ‚ o princƒpio de tudo. 43). Guillermo. assim.p. perpassa tudo.A. a mat‚ria sendo necess„ria e o mal provindo desta mat‚ria. A mat‚ria ‚. p. at‚ o grau mais ƒnfimo que ‚ a mat‚ria que n•o ‚ outra coisa que o oposto do Uno. mas ‚ anterior a n†s e nos possui apesar dele. n•o no sentido corp†reo. FRAILE. entretanto permanecendo inteira em cada um das partes divididas. princƒpio. a Alma.. mas no sentido em que a alma que est„ nos corpos ao serem divididos tamb‚m se divide. nesse sentido. portanto. Carlo. 14). A luminosidade do Uno.C. Entretanto. ‡ mat‚ria. 8 vers.. 262). est„ sujeita a corromper-se. como se tornar divisƒvel. a Inteligência e Alma do mundo correspondem a trˆs realidades transcendentais nas quais o mal n•o tem lugar. Eneadas I. lugar da multiplicidade e. isto ‚. a alma n•o fica imune de impurezas e desordens. ou seja. o Uno. ent•o.Sendo que: ‰Por estar sempre ligada a um corpo. que nada mais ‚ sen•o uma c†pia do uno e com ela marca o inƒcio de v„rias possessŽes. ao dar forma aos corpos. Assim. 15 . De maneira que a Alma. 27 ‰A mat‚ria ‚ necess„ria por que o Universo consta de contr„rios. a terceira possess•o para Plotino ‚ a Alma do mundo. n•o por capricho ou vontade seus. Plotino nos velhos tratados sobre a Providˆncia ‰reanima o velho tema do logosŠ o qual ‰proclama que ordem nasce da disson•ncia e at‚ mesmo. PLOTINO. 28 ‰Parece que ela (a mat‚ria) ‚ movida e carregada por um poder m„gico que deu uma atra…•o irresistƒvelŠ (CI. Desta forma. A alma ‚ atingida pela mat‚ria. que ‚ o mal em potˆncia26 . art. ele engendra o ser ou a mat‚ria que ‚ o ’ltimo grau de possess•o. terceira emana…•o do Uno. que d„ origem ao seres corporais.. no qual a Alma universal d„ origem a mat‚ria. o mal ‚ necess„rio28 . 262). o mal. que ‚ Inteligência do mundo. recebem algumas de suas caracterƒsticas dos seres corp†reos.

‰Tal ‚ a m„ f‚ da teodic‚ia: ela n•o triunfa sobre o mal real. n•o ‚ conservada nessa mais ‚ dissipada como ilus•o de n•o poder conhecer a sua causa. certamente. de for…aŠ (CI. por assim dizer uma ‰est‚tica da discord•nciaŠ. HEGEL. o bem prevalece. Apesar da desordem h„ harm˜nia. por meio da qual ‚ concebido. em uma filosofia n•o dial‚tica da necessidade. por Spinoza. mas somente sobre seu fantasma est‚ticoŠ (CI. Tal argumenta…•o suspeita da teodic‚ia ‚ renunciada. v. 16 . 1988. Petr†polis: Editora Vozes. tudo mais ‚ contingente.p. A boa consciˆncia A bela alma. Com isso. Giovanni. 262) a qual recorre ‰a tantos argumentos. II. Para Spinoza os modos n•o existem sem os atributos. Os modos infinitos s•o sensa…Žes da subst•ncia. mais tarde. o mal e o seu perd•o. in: Fenomenologia do Espírito.1990. mas n•o para o mal que ‚ uma ilus•o que procede da ignor•ncia de todosŠ (CI. Parte II. Sem d’vida.G.W.p. Conforme Ric€ur.261). S•o Paulo: Paulus. Por conseguinte. cada um deles. responde ele.p. Ric€ur diz que ‰a teodic‚ia jamais ultrapassa o nƒvel de uma ret†rica argumentadora e persuasivaŠ (CI. 119-142.p. Porque o mal se instala ao mesmo tempo em que a hist†ria das figuras do Espƒrito30 . em Hegel o mal ‚ tanto conservado como ultrapassado. como a de Spinoza. 30 Cf. Quem n•o vˆ que isso n•o ‚ mais que uma teodic‚ia? Contudo. portanto. o que o intelecto percebe da substancia (Deus = Subst•ncia). Apesar do mal. portanto s† poder„ ser reconhecido dentro de uma vis•o ‚tica do mal. assim..262). o pensamento chegado a tal ponto pode dizer que por que existe ordem existe desordem e. p. se podemos dizer assim. ‚ esse ‰sem d’vidaŠ e pela mesma raz•o que uma filosofia como a de Hegel representa ao mesmo tempo a maior tentativa de explicar o tr„gico do mal. ‰h„ lugar para os modos infinitos. p. REALE.p.263 ). reduzir a problem„tica do mal a um jogo de luzes e de sombra. numa ordem de harm˜nicos de ordem e desordem. 29 ‰Esse ‚ o ponto fundamental a considerar para se compreender Spinoza: a –necessidadeŒ ‚ apresentada como solu…•o de todos os problemasŠ (cf. que ‚ necess„rio29 e nada pode existir sem que venha desse ser necess„rio. O mal s† pode ser contingente.n•o produz. De forma que tudo quanto existe ‚ determinado pela natureza de Deus. 263). Ora. Conservado no momento em que reside no reconhecimento das consciˆncias. ou seja. aquilo que existe em outra coisa. 417). Entretanto. isto ‚. como a maior tenta…•o. quanto mais abundantes que carecem. Todavia. Ric€ur pergunta: ‰uma filosofia da dial‚tica da necessidade far„ mais justi…a. História da Filosofia.F. ao tr„gico do mal?Š (CI.

‚ a ren’ncia a si mesma. 17 . e assim liquidar o injustific„vel do mal e a gratuidade da reconcilia…•o por meio de uma dissolu…•o do perd•o dos pecados em uma reconcilia…•o filos†fica. n•o seria algo de interior.p. portanto. que adquire um saber absoluto sem restos.2)Š (cf. a saber. ‡ qual equipara a outra consciˆncia que era o agir efetivo. de fato. que ‚ o espƒrito absolutoŠ (cf. Um certo esquema significativo. 731). que concede ‡ primeira [consciˆncia]. 1988. pois o mal ‚ menos –perdoadoŒ do que –superadoŒŠ (CI.C. abandona [tanto] essa diferen…a do pensamento determinado como seu juƒzo determinante para-si-essente. da a…•o. contraponiendo a justificacion a la condenacion fulminada por el pecado de Ad„n: Y no como por uno que pecó así fué el don. Contudo. ou melhor dito. ‚ o maître Jacques do hegelianismo.Ultrapassado no •mbito que ‚ por essa luta de consciˆncias que posso ter a cis•o entre consciˆncia julgadora e consciˆncia culpada. com o pre…o de eliminar o hiato entre o mal que se pŽe e o tr„gico do mal que j„ est„ aƒ. por assim dizer. que lo es] del pecado y de la muerte (8. mas el don. a boa-consciˆncia efetiva n•o ‚ esse persistir no sabere-querer. como da essˆncia universal em seu contr„rio. ele desaparece nesta reconcilia…•o33 . se resuelve en justificación (5. assim como a outra consciˆncia abandona o determinar. mas o universal ‚ o elemento de seu ser aƒ e sua linguagem exprime seu agir com o dever reconhecidoŠ ( Fenomenologia do Espírito. p. diz Ric€ur ‰a pr†pria lei ‚ julgada. M. oposi…•o entre interior e exterior na for…a. 32 ‰O perd•o. est•o atadas na negatividade. diz Ric€ur. 263).‡ sua essˆncia inefetiva. O perd•o. da singularidade ‡ universalidade da consciˆncia julgada e reciprocamente31 Š (CI. 141). diz de fato que os maltrata. que se opŽe ao universal. como mal pela afirma…•o de que opera segundo sua interior lei e boa-consciˆncia. porque la sentencia. Madrid: B. por‚m como contradi…•o. isto ‚. Fenomenologia do Espírito. quem diz de fato que age contra os outros segundo sua lei e boaconsciˆncia. o que podemos chamar de acento 31 ‰O mal se confessa.p. Mas ao mesmo tempo. pois ‰a negatividade significa ao mesmo tempo a invers•o do singular no universalŠ (CI. me libertó de la ley [de la carne. se essa lei e boa-consciˆncia n•o fosse a lei de sua singularidade e arbitrariedade. p. o sƒmbolo da remiss•o dos pecados ‚ perdido.no puro saber de si como singularidade absolutamente essente dentro de si: um recƒproco reconhecer.. Com efeito. [Agora] reconhece com bem o que era chamado mal. 136). 1956. A palavra da reconcilia…•o ‚ o espƒrito aƒ-essente. Em um capƒtulo da Fenomenologia do Espírito intitulado. Hegel. en Cristo Jesús. remata en condenación.A. Teologia de San Pablo. Como em S•o Paulo. O perd•o ‚ tal que destr†i o juƒzo o qual ‚ uma categoria do mal e n•o da salva…•o. partiendo de muchas ofensas. 263). n•o deixa d’vida de que a ‰remiss•o j„ ‚ reconcilia…•o no saber absoluto pela passagem de um contr„rio a outro. que contempla o puro saber de si mesmo. arrancando de no solo. Todas as negatividades.. pela determina…•o que o agir recebia no pensamento. BOVER. 33 ‰El paso Del pecado a la justicia lo describe asi ela apostol. . ‚ a pr†pria destrui…•o do juƒzo32 . ‰O mal e seu perd•oŠ. p. em oposi…•o ao universal reconhecido. J. .p.16). na falta. a negatividade hegeliana. H„ de se notar que o mal ao ser integrado na Fenomenologia do Espƒrito n•o o ‚ mais como mal. na morte. mas o universalmente reconhecido. Ao mesmo tempo. diz Ric€ur citando Kierkegaard.263). Essa negatividade. M„s comprensica es esta outra formula: La ley del Espiritu [que lo es de la justicia y] de la vida. 1988. de pr†prio. para-si-essente.

Ora.G…nese et Struture de la Ph•nom•nologie de l‚esprit. donde procede um movimento retr†grado em busca do verdadeiro. Por 34 Esse trecho ‚ do livro citado por Ric€ur no texto em o Conflito das Interpreta…Žes. Ric€ur pergunta se a resposta. nem tampouco ‰gra…as aŠ. p. uma escatologia. ser„ possƒvel ‰conceber um vir-a-ser do ser onde o tr„gico do malŠ seria ao mesmo tempo reconhecido e superado? Ric€ur. com o mal. do desmentido. do movimento que vai da queda ‡ perfei…•o. que ela ‚ um momento da verdade totalŠ34 (CI. n•o h„ provas disso. no qual da maravilha ‰onde abundou o pecado. 1978. inteligibilidade simb†lica. diz n•o estar em estado de respondˆ-las. seja dial‚tica ou n•o? Ou mais. Todavia.. com uma nota de J. de elocu…•o (aliena…•o) do pr†prio Espƒrito.. que o infinito assume o mal da finitude. 263-264). Terceiro e ’ltimo. todavia. por‚m pecado. visto que acontece na totalidade da hist†ria humana. isto ‚.J. replica da dissolu…•o da vis•o ‚tica do mundo consumada em saber absoluto. p.tr„gico se desloca do mal moral para o movimento de exterioriza…•o.. 255: HYPPOLITE. 264).Š nasce a necessidade que coloca o mal na luz do ser. Essa maneira de ver a queda por parte de Hegel ‚ apelidado por Ric€ur de ‰pantragicismoŠ. o apesar do mal ‚. vista a transposi…•o da remiss•o dos pecados em reconcilia…•o filos†fica. 3CONCLUSÃO Fracassadas as necessidades n•o-dial‚tica do mal de Plotino e Spinoza e da dial‚tica de Hegel. Contudo. Ora o desmentido ‚ tal pedagogia escondida que faz Agostinho dizer etiam pecata. a hist†ria dotada de sentido da superabund•ncia paulina engloba o ‰apesar deŠ e o ‰gra…as aŠ e ‚ justamente o que constitui o milagre do cosmo. sem d’vida. antevˆ a dire…•o para a possƒvel medita…•o delas: Primeiro. depois de colocadas essas questŽes. mas somente sinais no quais o meio ou lugar de implanta…•o desta categoria ‚. 18 . n•o estar„ do lado de uma hist†ria dotada de sentido de preferˆncia a busc„-la numa lˆgica do ser? Pois n•o ser„ exclusiva. como esclarece Ric€ur. o Princƒpio das coisas faz o bem. que ‚ uma revela…•o de Deus. ‰a reconcilia…•o ‚ aguardada a despeito do malŠ (CI. Nada restando da gratuidade da reconcilia…•o. Entretanto.p. tampouco do injustific„vel do mal. Segundo. a hist†ria e n•o um sistema ou uma l†gica.Hyppolite: ‰Toda essa longa hist†ria de erros que o desenvolvimento humano exibe e que a fenomenologia reconstr†i ‚ efetivamente uma queda. a reconcilia…•o ‚ atingida apesar do mal. esse ‰apesar deŠ ‚ um ‰gra…as aŠ. n•o h„ saber absoluto nem ‰apesar deŠ. 509. isto ‚. uma lˆgica. mas ‚ preciso aprender que essa queda faz parte do pr†prio absoluto. uma verdadeira categoria da esperan…a.

Histˆria da Filosofia v. Santo. Paris: Grabriel Beauchesne et Ses Fils ‹diteurs. 1978.C. AGUST•N.1991 REBOUL. Paul. VV.2002. S•o Paulo: Paulus. o que na teodic‚ia era apenas um falso saber ‚ tornado setor da esperan…a. San Agust€n. 1988. MART•NEZ.G.A. Contr†e des philosophes. 1986. in: Fenomenologia do Esp€rito. S•o Paulo: Paulus. HEGEL. AGUSTIN. 1946. Madrid: B. Petr†polis: Editora Vozes. Carlo. JOLIVET. REALE. RICOEUR.1995. Barcelona: Luis Miracle Editor. Santo. San Agust€n: ideario: selecciˆn y estudio. Kant et le probl•me du mal. Marcos Roberto Nunes. 19 . Le probl•me du mal d‚apr•s Saint Augustin. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGOSTINHO. mas diz respeito a uma filosofia que.AA. O conflito das interpretaŠ‡es: Ensaios de Hermen…utica. De gratia Christi et de peccato originali. prepara-se para ir al‚m de si e cingir o mundo com a possibilidade de transform„-lo. Porto Alegre: EDIPUCRS. Madrid: B. Madrid: B. in: Obras completas de San Agust€n. Giovanni. Actas del debate con Fortunato.1990. 1971. BUSSOLA. PLOTINO.W. Guillermo. S•o Paulo: Nova Cultural.A..C. Rio de Janeiro: Imago. O.. Paris: Aubier..Finitude et Culpabilit† 2.1990 RIC”UR. AGUST•N. COSTA.conseguinte. San. 1955. 1936. ao aproxim„-los.. S•o Paulo: Paulus. 1968.. O problema do mal na pol…mica antimaniqu†ia de Santo Agostinho. BOVER. Vit†ria: UFES / FCAA. In: Os Pensadores. Eneadas I. 1980..C. pois.Biblia de Jerusal†m. Buenos Aires: Espasa Calpe. 2‘ed. Philosophie de la volont†. I. Plotino: A alma no tempo. Montreal: Press de lŒUniversit‚ de Montr‚al. Teologia de San Pablo. AGOSTINHO. S•o Paulo: Paulus. A boa consciˆncia A bela alma. Michele Federico. A necessidade do mal ‚. 1968. KANT. A Religi‰o dentro dos limites da simples raz‰o. 1956. 35 Registra-se um coment„rio oral do professor Abrah•o Costa Andrade: ‰Logo se percebe que a rela…•o entre sƒmbolo e pensamento n•o ‚ puramente te†rica. 1990. v. 1988. o mal e o seu perd•o.C. De Moribus Ecclesiƒ et de Moribus Manichƒorum. o mais alto sƒmbolo racional que a inteligˆncia da esperan…a forma35 . 1990. O livre arb€trio. Paul. Immanuel.F.. Agustƒn. Giovanni. Regis. ent•o. Paul. REALE. Tome II: 1. Histˆria da Filosofia. RIC”UR.A. J. S•o Paulo: Paulus. M. in: Colletion des Universit†s de France: Paris: Soci‚y‚ dŒedition ‰Les Belles lettresŠ 1932. FRAILE.. II.C.1999. tanto quanto aos homens que nele habitamŠ. 1956. SCIACCA. Madrid: B. Parte II. Histˆria da Filosofia: Gr†cia y Roma. Madrid: B. Paris: Seuil. La Symbolique du mal.A. Lectures 2. San. Confiss‡es.A.

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