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RAC.

Revista de administração contemporânea
ANPAD. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração.
rac@anpad.org.br
ISSN (Versión impresa): 1415-6555
BRASIL




2005
Luiz Alex Silva Saraiva
RESENHA DE: "HOMENS INVISÍVEIS: RELATOS DE UMA HUMILHAÇÃO SOCIAL"
DE FERNANDO BRAGA DA COSTA
RAC. Revista de administração contemporânea, janeiro-março, año/vol. 9, número
001
ANPAD. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração.
Curitiba, Brasil
pp. 1-2




Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal
Universidad Autónoma del Estado de México
http://redalyc.uaemex.mx

RAC, v. 9, n. 1, Jan./Mar. 2005: 1
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H HH HH O M E N S O M E N S O M E N S O M E N S O M E N S I II II N V I S Í V E I S N V I S Í V E I S N V I S Í V E I S N V I S Í V E I S N V I S Í V E I S : R : R : R : R : R E L A T O S E L A T O S E L A T O S E L A T O S E L A T O S D E D E D E D E D E U M A U M A U M A U M A U M A H HH HH U M I L H A Ç Ã O U M I L H A Ç Ã O U M I L H A Ç Ã O U M I L H A Ç Ã O U M I L H A Ç Ã O S SS SS O C I A L O C I A L O C I A L O C I A L O C I A L . .. ..
Fernando Braga da Costa. São Paulo: Editora Globo, 2004. 254 p. ISBN:
8525038911.
por Luiz Alex Silva Saraiva (FUNCESI)
Já há algum tempo contribuições teóricas interessantes para os pesquisadores
da área de Administração têm vindo de outros campos do conhecimento, como a
Psicologia, a Sociologia e a Antropologia, só para ficar em alguns. Mais uma vez
isso ocorre com Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social, de
Fernando Braga da Costa, fruto da sua dissertação de Mestrado defendida no
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É um livro interessante,
que pode ser recomendado a alunos de cursos de graduação e de pós-graduação
nas áreas de Gestão de Pessoas, Relações de Trabalho e Estudos Organizacionais,
particularmente os que trabalhem poder e simbolismo nas organizações.
Apoiado inicialmente nos estudos de Simone Weil sobre a opressão entre os
operários (WEIL, 1996), esta obra tem o mérito de trazer à tona, com uma
argumentação forte, e por vezes apaixonada, a questão da desigualdade e exclusão
dos indivíduos. Ao longo de quatro capítulos (Introdução, O lugar, As Condições
Materiais de Trabalho, e No pé da serra de Petrópolis), o autor se debruça sobre
um fenômeno muito interessante: o desaparecimento simbólico de indivíduos pobres
com profissões que não exigem qualificação escolar ou técnica. O que chamou a
atenção do então estudante de psicologia sobre a invisibilidade simbólica dos
garis da cidade universitária da USP se deu quando ele, vestido como eles, não
foi enxergado por amigos, colegas e professores que haviam estado com ele
apenas algumas horas antes. Por que ao usar um uniforme ele desapareceu?
Para responder a esta, entre inúmeras questões, ele desenvolveu sua dissertação
de mestrado, estando, atualmente, no doutorado em Psicologia Social da mesma
instituição.
Uma observação mais acurada do texto não deixa escapar que os principais
problemas são de cunho metodológico, nebulosos ao considerarmos o tom
argumentativo adotado. Em que pese que é provável que tenha havido uma
orientação editorial, a fim de que a obra fosse mais comercial, a carência de
maiores informações lança dúvidas sobre o teor das análises e conclusões. O
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autor nos informa de que a investigação foi conduzida por meio de um estudo
etnográfico realizado em dois níveis: investigação participante de uma modalidade
de trabalho não-qualificado e subalterno (trabalho de garis) e investigação do
encontro do pesquisador com trabalhadores pobres. Contudo, há poucos
esclarecimentos a respeito de como se deu o processo de inserção naquele grupo
específico, bem como os recursos utilizados para coleta e interpretação dos
depoimentos, o que, do ponto de vista científico, enfraquece o trabalho como um
todo. Além disso, o que salta aos olhos é que o pesquisador não conseguiu escapar
de uma armadilha comum em estudos etnográficos (GUIMARÃES, 1990): deixou-
se encantar pelo seu objeto de estudo, os garis. O evidente envolvimento afetivo
é manifesto na adoção de uma linguagem que chega a surpreender os leitores
acostumados a um certo distanciamento analítico e comedimento no uso das
palavras e adjetivos. Em alguns momentos, os argumentos usados chegam a ser
quase panfletários, soando como uma espécie de ideologia da humanização das
atividades profissionais, aparentemente a ser iniciada pelos garis.
Esses problemas, contudo, não ofuscam os méritos deste livro. Os depoimentos
coletados são riquíssimos porque permitem que entendamos o lado de lá de
profissões pouco qualificadas, de um ponto de vista parcial, sem dúvida, mas
provocativo. A postura corajosa do autor também é interessante porque pode
inspirar a elaboração de textos científicos menos ortodoxos na área de
Administração, menos preocupados com a obediência a um formato padrão –
que transforma em marginais iniciativas inovadoras em termos de método,
linguagem e construção teórica e analítica. Um outro destaque é o posicionamento
humanista do autor, que pode garantir momentos de reflexão para nós, estudiosos
do mundo organizacional, que em diversos momentos, por termos o olhar na
organização e suas múltiplas dimensões, desumanizamos um pouco nossa análise
para fazer ciência – o que é um contra-senso se pretendemos encarar as
organizações de forma sistêmica, com os homens em seu devido lugar.
R RR RR E F E R Ê N C I A S E F E R Ê N C I A S E F E R Ê N C I A S E F E R Ê N C I A S E F E R Ê N C I A S B BB BB I B L I O G R Á F I C A S I B L I O G R Á F I C A S I B L I O G R Á F I C A S I B L I O G R Á F I C A S I B L I O G R Á F I C A S
GUIMARÃES, A. Z.
Desvendando as máscaras sociais.
3.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1990.
WEIL, S.
A condição operária e outros estudos
sobre a opressão. São Paulo: Paz e
Terra, 1996.