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Pensamento Economico Capitalista, Estado e cidadania sobre a questão da saúde.

Erica Tokumoto Cerullo Acadêmica do curso de Ciências Econômicas Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

RESUMO: O artigo procura analisar o pensamento capitalista sobre a questão da saúde pública desde o mercantilismo até o atual neoliberalismo, com o enfoque para a cidadania. Primeiro a análise histórica é feita de forma geral e só nas décadas mais recentes expõe as principais linhas de política de saúde na América Latina e consequentemente no Brasil para finalmente opinar sobre o futuro da relação entre políticas sociais e o Estado brasileiro. PALAVRAS-CHAVE: pensamento econômico, políticas econômicas, políticas públicas de saúde, Estado e cidadania.

A análise da história do pensamento capitalista sobre a questão da saúde pública mostra que tal avanço teórico não acontece à medida em que a gravidade do problema aumenta ou diminui, e sim à proporção em que a atenção à saúde passa a ser, ou não, prioridade político-econômica (Braga & Paula;1981). Então, o maior ou menor bem-estar nas políticas de saúde está relacionado com a aplicação de determinadas ideologias econômicas. Em meados do século XVI com a Revolução Comercial nasce o Mercantilismo, modelo de transição entre o Feudalismo e o Capitalismo (Hunt;1987) e que tinha como fundamentos econômico que a quantidade de moeda tinha de ser suficiente para garantir o comércio e que a população de uma nação tinha de ser numerosa para possibilitar a expansão da produção e da riqueza (Braga & Paula;1981). William Petty (1623-1687) foi um pensador mercantilista, considerado por Karl Marx o fundador da moderna economia política por ter percebido, pela primeira vez, que a origem do valor era o trabalho. Petty vinculava questões sociais aos problemas de saúde. Discípulo de Hobbes, tinha a idéia de que o governo deveria desenvolver medidas para melhorar os padrões de vida da população. As pessoas deveriam ser saudáveis e felizes. Em alguns escritos, o autor reduz a vida humana à sua capacidade de trabalho, como fariam os neoclássicos alguns séculos depois (Braga & Paula;1981). Mas a mais expressiva abordagem mercantilista sobre a questão da saúde pública foi feita pelo alemão Veit Ludwig von Seckendoff (1626-1692) que dizia ser obrigação do governo garantir o bem-estar do povo, para estimular o crescimento da população. Os cuidados deveriam ser: supervisão do trabalho das parteiras, amparo aos órfão, prevenção contra pestes, e os males do uso excessivo de tabaco e da bebida alcoólica, os alimentos e a água deveriam ser inspecionados, as ruas deveriam ser limpas e drenadas, os pobres deveriam ter acesso aos hospitais e à assistência médica. Essas políticas de saúde pública são semelhantes às que se espera atualmente do Estado (Braga & Paula;1981), não mais com a intenção de crescimento populacional, e sim de garantia de cidadania.

conhecido atualmente como dumping social (Pinheiro. É neste período que nasce a escola clássica ou liberal.1981). 1995) Por isso. Mas podemos subentender suas análises sobre a reprodução da força de trabalho e o mínimo de subsistência como influentes sobre a saúde dos trabalhadores na época da Revolução Industrial (Braga. Mas isso só seria possível se fosse adotado o laissez-faire: quando a livre concorrência e o jogo entre oferta e demanda regulando a economia ficasse livre das intervenções governamentais (Hunt. Nota-se o perfil pragmático do Liberalismo na Inglaterra. chegando-se a um estado de miséria. Adam Smith escreveu a Riqueza das Nações (1776). se não contidas.1987).1987).1987). e voltou sua atenção para a identificação das forças sociais e econômicas que promoveram o bem-estar humano para poder recomendar políticas que favorecessem a felicidade humana. inclusive o Mercantilismo. estavam interessados em demonstrar a superioridade do capitalismo sobre os sistemas anteriores. os atos egoístas seriam guiados por uma “mão invisível” capaz de levar à maximização do bem-estar econômico (Hunt. no começo da Revolução Industrial. a harmonia social e a “mão invisível”. (Hunt.1987) Malthus é outro autor clássico relevante devido sua análise sobre o problema do crescimento populacional. XIX o açúcar brasileiro era sobretaxado no mercado internacional sob o argumento de que o trabalho escravo distorcia o preço do produto prejudicando as ex-colônias inglesa. Os primeiros reduziriam a taxa de natalidade: esterilidade. e a oferta de alimentos cresceria em progressão aritmética. desta maneira a Inglaterra protegia suas ex-colônias.1981). ou seja. miséria. o mercantilismo atrapalhava a economia inglesa que não tinha acesso direto às colônias de outras metrópoles. Em um mercado livre. e que de forma indireta está relacionado com a problemática da saúde (Braga. então . com atuação do Estado (Braga. que eram ingleses. O autor também destacou a importância da divisão social do trabalho e percebeu que o processo de trocas de mercadorias era um processo social e o trabalho era a medida do valor das mercadorias (Braga & Paula. Os últimos aumentariam as taxas de mortalidade: fome.A maior contribuição dos pensadores mercantilistas foi a integração entre a ciência da saúde e as ciências sociais. abstinência sexual e abortos. os economistas clássicos. o bem-estar poderia ser aumentado à medida que a composição do produto mais satisfizesse às necessidades e desejos dos que iriam consumi-lo. No séc. Smith partia do pressuposto que o comportamento econômico era estimulado por motivos egoístas e gananciosos. “inaugurada” por Adam Smith (1723-1790) e que tem como seguidores importantes David Ricardo (1772-1823) e Thomas Robert Malthus (1766-1834). XIX: a marxista e a utilitarista. que utilizavam mãode-obra assalariada. Não escreveram especificamente sobre saúde pública. Durante a Revolução Industrial. guerras e morte pela fome.1981). Este tipo de argumento ainda é utilizado no comércio internacional. A Revolução Industrial que teve início no final do século XVIII na Inglaterra modificou a História das sociedades (Hunt. bem-estar humano era resultado da quantidade do produto do trabalho e do número de pessoas que deveriam consumi-lo. Mas este era unilateral. O crescimento da população poderia ser contido de duas maneiras: pelos controles preventivos e positivos. Já o liberalismo econômico era interessante à expansão da Inglaterra para que esta conseguisse acesso direto às matérias-primas e mercados consumidores. e ora a teoria do valor-utilidade. o que aumentava seus os custos. Para ele. A população seria. A Riqueza das Nações é contraditória: ora o autor enfatiza a teoria do valortrabalho e o conflito de classes.1981). Por isso o autor acabou influenciando duas correntes do pensamento econômico antagônicas no séc. pragas. As taxas de reprodução provocariam aumentos em progressão geométrica da população.

explicando que a superpopulação é produto de cada modo de produção e não um dado uniforme ao longo da história de qualquer sociedade (Braga & Paula. utilização de máquinas e equipamentos inadequados à saúde (Braga & Paula. “A divisão do trabalho e a manufatura” e “Maquinaria e grande indústria” de O Capital. Pelo contrário. a pobreza e o sofrimento seriam o destino inevitável da maioria das populações e qualquer intenção de reverter essa situação seria inútil (Hunt.1981). principalmente de Ricardo. Por conseqüência. que o emendou dizendo que o trabalhador estaria na categoria de superprodução devido à existência ou não de empregos e não pela existência ou não de meios de subsistência (Braga & Paula. Quanto a Ricardo. sobretudo nos capítulos “A Jornada de Trabalho”. num período seguinte. Notamos a que a noção de Ricardo sobre níveis de saúde e mortalidade são semelhantes às de Malthus. Karl Marx (1818-1883) foi um pensador cuja perspectiva histórica possibilitou-o perceber que a produção é uma atividade social. etc. 1981) Marx percebeu que além da questão do salário. Essa massa. Marx foi influenciado pelas teorias do valor e dos lucros de Smith e Ricardo. (Braga & Paula. Colocou-se ideologicamente na defesa dos operários e analisado a sociedade como um todo. são as condições determinadas de produção que lhe fixam os limites e determinam também o nível da superpopulação.1981). os aumentos salariais. políticas e ideológicas permitiu-lhe significativas reflexões diretamente relacionadas com a questão da saúde.1987). que existem características de produção comuns a todos os modos de produção e outras que eram específicas do capitalismo (Hunt.1981).1987). Para Ricardo. David Ricardo é um autor clássico. 1981).1981).1981).1968 apud Braga & Paula.1981): “A máquina é constantemente conservada e reparada. unindo questões econômicas.1981): “A população não é determinada por um limite absoluto na produtividade dos alimentos. a taxa de crescimento populacional superaria a taxa de crescimento econômico e o excesso de mão-de-obra provocaria a miséria que diminuiria a população e o ciclo recomeçaria (Braga & Paula. para ficar nos limites da oferta de alimentos. Mas a conservação e reparação da saúde dos trabalhadores está subordinada a determinações econômicas e principalmente políticas” (Braga & Paula. Para Malthus. nos quais. (Braga & Paula. por causa da melhoria das condições de vida. que varia historicamente (Braga & Paula. Marx foi um crítico antagonista (Hunt.1981).1981). . Percebeu também que a saúde do proletário é atingido também pelo processo de trabalho: extensão da jornada de trabalho. contemporâneo de Malthus. mas quanto as outras partes de sus teorias.equilibrada por esses dois fatores. ou exército vive em condições inferiores as dos trabalhadores empregados e consequentemente apresentando taxas de mortalidade e morbidade superiores daqueles (Brag. numa fase em que o crescimento da economia fosse superior ao crescimento populacional.” (Marx. o autor escreveu sobre a destruição das qualidades físicas e mentais provocados pelo processo de trabalho. As teorias de Malthus serviram de base para as teorias sobre salário de subsistência e influenciou a política econômica clássica (Braga & Paula. Marx inverteu seu raciocínio: disse que as relações de produção é que terão como conseqüência a determinação daqueles níveis de subsistência. levaria a um aumento da taxa de reprodução das famílias. Marx também criticou Malthus. existe no Capitalismo o fator do exército industrial de reserva: junto dos trabalhadores ocupados há uma massa de desempregados.1987).

A sociedade dependendo unicamente do mercado chegaria à harmonia social. que seriam dadas metafisicamente (Hunt. Por exemplo. inclusive os mentalmente incapazes. o individualismo extremo e a ausência de governo. ou se a maioria dos recursos à saúde forem distribuídos para esse 1%.1987). Notamos um conflito entre os objetivos de eficiência e equidade (Piola. XIX. Os eixos do gráfico medem quantidades das mercadorias. 2 A concorrência perfeita é definida por quatro condições: grande número de pequenas empresas. três anos depois. Quando a situação de um indivíduo ou grupo de indivíduos (no caso de uma firma) é melhorada.1987). A maximização dessas utilidades é dada pela curva de indiferença1. os fanáticos. a não relevância dos conflitos sociais. geralmente sofrem oposições de classes antagônicas. Caso a utilidade para um indivíduo seja afetada pelo consumo de terceiros. pelo ótimo de Pareto (Piola. Edgeworth (1845-1926) e ilustram graficamente o modo como o consumidor maximiza sua utilidade. as crianças. Os neoclássicos não levam em consideração a distribuição de renda. livre mobilidade dos recursos e perfeito conhecimento do mercado. 1976) 3 Vilfredo Pareto (1848-1923) foi um discípulo de Walras. A teoria neoclássica se divide em teoria da maximização da utilidade pelo consumidor e teoria da maximização do lucro pela firma.1987).1987). pois existem muitos conflitos humanos: conflitos de classes. para eles. numa situação em que 1% da população detém a maior parte da riqueza nacional. . imperialismo. Estas quatro condições garantiriam um mercado livre e impessoal ( Ferguson. Só analisam a relação do indivíduo com o objeto de consumo. Com início no séc.1987). quando existem apenas duas mercadorias. Os chefes de família não tomariam decisões pelos seus entes. preconceito sexual. As considerações sobre equidade de uma distribuição não são importantes. desemprego involuntário (Hunt.Outra corrente econômica influenciada por Adam Smith é a utilitarista ou neoclássica. principalmente na década de 1870 com as publicações de “Teoria de Economia Política” de William Stanley Jevons. essa é simplesmente uma questão de vontade pessoal. Para os utilitaristas a situação das pessoas melhorava com um mercado livre. estes fenômenos são considerados externalidades. que é um critério para definir eficiência econômica. 1 As curva de indiferença foram formuladas pela primeira ver por Francis Y. o bem-estar social. ambos publicados em 1871 e “Elementos de Economia Política Pura” de Léon Walras.1995). Uma situação seria ótima quando para um determinado perfil da alocação dos recursos disponíveis. E todos teriam conhecimento perfeitos sobre o mercado e não haveria incertezas sobre o futuro (Hunt. “Princípios de Economia” de Carl Menger. Além do mais. enquanto os outros 99% é miserável. Desprezar esses fatores é o mesmo que desprezar a realidade. etc. alienação. produto homogêneo. pode ser considerado um ótimo de Pareto se o conceito de eficiência estiver presente.1987). automaticamente.1995). exploração.1987). mas esta tomou por única base sua teoria do valor-utilidade. As críticas a teoria do ótimo de Pareto são a não equidade. Pareto reformulou as idéias de Walras sobre as curvas de indiferença (Hunt. tinham como ideologia que todos os motivos humanos eram causados pelo desejo de obter prazer e evitar a dor (Hunt. todo indivíduo seria capaz de maximizar seu bem-estar. Os indivíduos seriam capazes de escalonar as possíveis combinações das mercadoria (Hunt. considerando uma situação de concorrência perfeita2 (Hunt. pelo ótimo de Pareto. O bem-estar máximo é representado pelo ponto ótimo de Pareto3. só por si mesmos. racismo. No mundo da “mão invisível” dos utilitaristas os atos egoístas promoveriam o bem-estar social (Hunt.1987). É possível se ter uma melhoria até o ponto em que é possível beneficiar determinado indivíduo sem afetar outros. seria impossível alterar esse perfil sem prejudicar ao menos um indivíduo. Os consumidores que maximizam a utilidade. os empresários que maximizam os lucros maximizarão.

interesses investidos. A teoria econômica neoclássica é eficiente sim. .1981). “Não foi por inadvertência que a ‘ciência oficial’ imprimiu às suas barrocas construções sobre o conceito de Política Econômica a tonalidade irreal.1975 apud Braga & Paula.Os consumidores não escolhem racionalmente as opções de serviços de saúde. os dispêndios são realizados para curar. sociais e morais (Hunt. foi pelo contrário. mas para gerar miséria. portanto capaz de produzir um retorno (Braga & Paula. . os neoclássicos conseguiram camuflar valores filosóficos. . E o sistema de preços não pode ser aplicado nos casos dos incapazes de pagar. controle dos processos governamentais por uma classe. 1981). (Braga & Paula.Nas nações ocidentais desde muito tempo existe a noção de que o Estado tem de prestar pelo menos alguns serviços à saúde (Braga & Paula. distorcendo os padrões familiares de consumo (Braga & Paula. Seria um árbitro afastado. através de uma curva de indiferença (Braga & Paula.Quanto ao governo. saúde seria uma bem produzido e sujeito à decisões econômicas racionais.Medidas de controle da poluição e de combate a insetos. que em princípio não podem ser excluídos sobretudo quando há riscos para saúde pública (Braga & Paula. 1981). Os neoclássicos conseguiram reduzir tudo à sua expressão contábil. O interesse dos teóricos neoclássicos é o capital investido neste setor e não a saúde da população.1987). político e econômico e chegar a conclusão que a distribuição justa da riqueza não existe porque quem seria responsável para fazê-la se beneficia da distribuição de renda vigente. Quem possui riqueza tem poder político (Hunt. etc.Há falta de conhecimento do consumidor porque as informações lhe são negadas. Do lado da demanda: . etc. Não é simplesmente uma justa adequação do mercado. a idéia de maximizar apenas o ganho pessoal e a conseqüente maximização da miséria pública teria como denominação mais adequada o termo “pé invisível”.O lucro não é motivo adequado para esse “mercado”. Se essas omissões não fossem feitas. imparcial. 1981). . 1981). que vem sendo feita ao longo dos anos (Braga & Paula. Reduziram saúde a simples capacidade produtiva. 1981).Em qualquer classe social há maior concentração de recursos destinados aos cuidados médico nas famílias que sofrem com doenças. que pensar em produzir saúde nas sociedades anteriores ao Capitalismo seria absurdo (Braga & Paula. (Hunt. Não podem ser apreçados no mercado e a preferência da sociedade não pode ser medida. Se esforçaram em definir as despesas com atenção à saúde como um gasto de investimento. 1981).1987). os neoclássicos seriam obrigados a analisar a natureza do poder social. pela prestação de serviços por parte de instituições filantrópicas. de sabedoria oficial” (Lessa. um ato de bom-senso. . Usando uma matemática bem elaborada. Pela teoria neoclássica. 1981). Não citam a existência de corrupção. 1981). este deveria apenas corrigir as eventuais externalidades com impostos e subsídios. Outro nível de críticas que cabem à teoria neoclássica é sobre suas falhas sobre oferta e demanda relacionadas com a questão da saúde (Braga & Paula. Segundo Hunt (1987). Ignoram que as necessidades e satisfações são limitadas por cada sistema. É o médico quem determina que tipo de serviços o paciente deve utilizar (Braga & Paula. Do lado da oferta: . o indivíduo se satisfaria com saúde como se satisfaria com qualquer utilidade.1981). 1981).1987).

Entre 1929 e 1932 a produção industrial caiu quase 50% nos Estados Unidos. 1873. cuja ascensão está relacionada com a crise na economia alemã (Sachs & Larrain. 1998). Charles Kindleberger. a Grande Depressão foi conseqüência da Primeira Grande Guerra. Com o craque da bolsa de valores americana em outubro de 1929 a economia internacional entrou em colapso com deflação. Na primeira metade do séc. Portanto o governo deveria intervir quando a poupança superasse os investimentos: tomar emprestado o excesso de poupança e gastar o dinheiro em projetos sociais. Na última metade do século as crise aumentaram para cinco: 1854. beneficiando. A Grande Depressão afrontou a teoria neoclássica de que o livre mercado evitaria o desemprego demorado e em grandes proporções (Sachs & Larrain. Segundo Keynes. Os modelo neoclássico é aplicado indistintamente em qualquer sociedade. 1884. 1987). queda na produção. O colapso econômico gerou instabilidade política e conseqüentes ditaduras. do MIT. O maior custo humano foi o desemprego. Para Peter Temin.1987).1987).. O economista John Maynard Keynes (1883-1946) foi o primeiro e mais brilhante teórico a sugerir medidas governamentais de políticas fiscais e monetárias contra a Depressão. Também não existiam instituições internacionais para fornecer empréstimos às nações (Sachs & Larrain. que detinha o poder político e poderia se mostrar contrária às políticas de redistribuição de renda (Hunt. 40% na Alemanha. 1998). 1998). 1987). 1998) e a incapacidade dos capitalistas encontrarem oportunidades de investimentos suficientes para compensar os níveis crescentes de poupança gerados pelo crescimento econômico (Hunt. XX e culminou na Grande Depressão dos anos 30 (Hunt.1981). 1893. uma crise tão grande não iria ser solucionada rapidamente só com as forças do mercado (Sachs & Larrain. pois estavam financeiramente enfraquecidas (Sachs & Larrain. 1998). assim. não há considerações históricas e culturais (Braga & Paula. que em 1933 chegou a atingir um quarto da força de trabalho norte-americana (Sachs & Larrain. o sistema capitalista de mercado não se ajusta tranqüila e automaticamente ao equilíbrio com pleno emprego. 1998). executadas por empresas privadas. Deixam de lado os problemas sociais e não consideram a possibilidade de depressões ocorrerem e não serem resolvidas pelo mercado (Hunt. etc. nem diminuíssem a oportunidade de investimento futuros. Em uma economia capitalista. Na realidade. 1998).1987). A situação piorou no séc. Há várias explicações sobre as causa da Grande Depressão. Ao contrário do que diziam os neoclássicos. 1998). . falências e desemprego (Moffitt. como a de Hitler. empréstimos internacionais. nos lucros e não nas necessidades das pessoas (Hunt. XIX os EUA tiveram duas crises econômicas graves: em 1819 e em 1837. As nações industrializadas tentaram combater o desemprego com barreiras sobre importações. Vencedores e vencido brigavam por reparações de guerra. o que causou desemprego nos outros países (Sachs & Larrain. também a classe alta. O governo deveria gastar em obras públicas úteis que beneficiariam a classe média e baixa. que teria como causa a instabilidade da confiança dos investidores (Sachs & Larrain. as decisões de produção baseiam-se. 1857. principalmente. A ausência de liderança teria sido um acidente histórico: a Inglaterra estava em decadência econômica e política e os Estados Unidos não tinham ainda assumi do (e nem queriam assumir) essa liderança. a história do capitalismo é uma história de crises econômicas. que não aumentassem a capacidade produtiva da economia. quase 30% na França e 10% na Inglaterra. historiador econômico do MIT( ) disse que as nações mais ricas não combateram o declínio econômico por causa da falta de uma liderança econômica mundial.1984).Os desejos dos indivíduos não são produtos de um processo social para a teoria neoclássica do bem-estar.

1984). com a finalidade de evitar novas guerras e depressões econômicas (Moffitt. mas também ao Japão. 1984). a capacidade produtiva e a produção cresceram consideravelmente. saneamento. Keynes em abril de 1946 e White em agosto de 1948 (Moffitt.). o FMI e o BM não foram capazes de promover a recuperação européia. O primeiro com objetivo de ajuda de curto prazo aos países em crise. O bom desempenho da economia americana no pós-guerra também foi causado pela expansão do endividamento. principal assessor técnico do Secretário do Tesouro americano Henry Morgenthau (Moffitt. através de ajuda de longo prazo (Moffitt. New Hampshire – Estados Unidos na data de primeiro de julho de 1944 para desenvolver um plano econômico mundial. e criaram-se condições para um grande avanço no sentido da liberalização comercial entre a Europa e o resto do mundo. a estabilidade financeira foi reestruturada em grande parte. .Além das benfeitorias diretas das obras públicas (construção de estradas. de forma geral. o governo norte-americano gastou quase dois trilhões de dólares em gastos militares (Hunt. as barreiras comerciais na Europa foram reduzidas substancialmente. 1984). Os países antes de conseguirem empréstimos junto ao BM tinham de se aliar ao FMI. o Secretário de Estado George Marshall apresentou o grande programa de ajuda aos aliados europeus dos americanos. Keynes tinha demonstrado que seria eficaz financiar os gastos do governo pelo empréstimo. 1984). representantes de 44 países se reuniram no Mount Washington Hotel. 1984). Depois da guerra este padrão continuou estabelecido: entre 1947 e meados da década de 1970. mas estes foram canalizados principalmente para a indústria de armas quando a Segunda Grande Guerra foi deflagrada. 1984). o desemprego realmente diminuiu com os gastos governamentais. 1984). e. Keynes e White morreram antes de verem o resultado de seus trabalhos. seria o fiscal do sistema financeiro internacional. para evitar a dominação comunista na Europa. com o aumento da oferta de empregos. Em Bretton Woods também ficou resolvido que os Estados Unidos assumiriam a posição potência hegemônica. o mais urgente na época eram os ganhos indiretos. A estrutura do balanço de pagamentos tornouse menos vulnerável. De meados de 1948 até 1952 o plano concedeu mais de US$12 bilhões em empréstimos e concessões. 1984). investimento em energia elétrica. ao invés de somente pela tributação. Mas como previu Keynes. a recuperação do pós-guerra foi conseguida pela Guerra Fria e não pelos acordos de Bretton Woods (Moffitt. As tensões entre EUA e URSS deram origem ao Plano Marshall4. devido à escassez de dólares. No mesmo período juntos. não só à Europa.. Keynes e White criaram o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o BM (Banco Mundial). 1984). os padrões de via melhoraram. O aumento dos gastos do governo foram financiados pela dívida pública (Hunt. por serem o grande credor mundial e deterem a bomba atômica (Moffitt. etc. o BM e o FMI conferiram menos de US$3 bilhões (Moffitt. Na verdade. Como resultado desse Plano: “. Ainda durante a Segunda Guerra. criou-se um ambiente no qual as mais bem-intencionadas esperanças que inspiraram 4 Em junho de 1947. Nos Estados Unidos. O segundo seria para financiar o desenvolvimento dos países pobres e a reconstrução da Europa depois da Guerra. Os acordos de Bretton Woods responderam ao fracasso econômico das décadas de 20 e 30 no mundo capitalistas concluindo que a economia tinha de ser estimulada por políticas dos governos (Moffitt. Keynes foi o presidente da mesa e teve como assessor Harry Dexter White. As duas instituições já nasceram como norte-americanas pois os recursos iniciais vieram das emissões de títulos da bolsa de valores de Nova Iorque (Moffitt.. 1987). 1987). em Bretton Woods.

1984). Graças à guerra e a destruição da elite fascista européia.1987). Em 1973. . amenizando o desemprego e o déficit americano. Ente 1968 e 1973 houve uma ruptura no modelo econômico mundial. Mas apesar de todo o desenvolvimento e conseqüentes melhorias das condições de vida da população.” ( Roll.os acordos de Bretton Woods já não pareciam tão impossíveis de realização. Nos EUA entre 1959 e 1966 a esperança de vida dos cidadãos masculinos passou do 13º para o 22º lugar entre as nações. encareceram os produtos industrializados americanos. acabando com sua competitividade no mercado externo.1987). e ambientais. Além disso. os EUA já patrocinavam experiências liberais no Chile e na Argentina (Fiori. o bem-estar social capitalista criou suas próprias doenças. pela impotência das políticas nacionais anticíclicas e aumento da internacionalização financeira estimulada pela reciclagem dos petrodólares e pela expansão da dívida pública norte-americana (Fiori. Os acordos de Bretton Woods foram revogados unilateralmente pelo governo do presidente norte-americano Richard Nixon. Essas medida foram tomadas para combater a crise interna. à medida que outras foram sanadas.1997). Foi decisivo o papel do Estado como regulador. Eric apud Moffitt. mostrando que o capital modifica algumas condições de vida. o crescimento do déficit americano entrou em um círculo vicioso (Fiori. Durante o fim da década de sessenta e a década de setenta descontentamentos sociais espalham-se pela Europa e EUA: greves. Os Estados Unidos na década de 60 sofreram o crescimento de seu déficit porque passaram a sofrer competição das emergentes indústrias européias e japonesas e devido à Guerra do Vietnã. quando o aumento dos gastos social e estímulo ao endividamento para aumentar o consumo e a produção (Hunt. o estado keynesiano e teve início a crise da hegemonia norteamericana. produtor e planejador dos investimentos. o mundo ficava completamente dependente do dólar. ampliando a problemática da saúde além da relação óbvia ente pobreza e doença (Braga. pois em vários países começava a ruir o modelo de industrialização por substituição de importações.1997). impôs uma sobretaxa de 10% sobre as importações e os juros foram aumentados. A década de setenta foi caracterizada pela estagflação nos países desenvolvidos. melhorando os níveis de renda da população melhora-se os níveis de saúde. Neste período ocorreram os principais fatos que mudaram a história dos últimos 25 anos do século XX. A partir de 1979 com o renascimento da economia norte-americana e a 5 A época de ouro do capitalismo (Fiori. consolidaram-se os objetivos de pleno emprego. manifestações de pacifismo e contracultura. A inflação interna. durante o Welfare State ocorreu uma contradição na área de saúde: se por um lado. Nesta época.1997). Romperam-se os acordos de Bretton Woods e recomeçaram os conflitos sociais na Europa. Ergueram-se os pilares ideológicos do Welfare State5 e também consolidaram-se as democracias nos países desenvolvidos. pois bloqueando as transações com ouro. que em 1971 acabou com o lastro do dólar ao ouro. Os países capitalistas desenvolvidos viveram uma excepcional período de prosperidade (Moffitt.1984) com o renascimento da teoria do valor-trabalho (Hunt.1997).1997).1981). 1997). o preço do petróleo aumentou e a OPEP (Organização do Países Produtores de Petróleo) quebrou o pilares que sustentaram o crescimento da economia mundial durante as décadas de 50 e 60: energia barata (Fiori. equidade e solidariedade. Acabou a “época de ouro” do capitalismo. Os sistemas financeiros nacionais ficaram submetidos às políticas econômicas (Fiori. alimentada pela guerra. mas não há melhorias plena.1997). Como podemos perceber. A potência hegemônica opta por defender seus interesses nacionais (Fiori. por outro. Esse descontentamento se estendeu para a América Latina e África.

A democracia foi um fenômeno global que. A produção real e o crescimento foram reduzidos nas primeiras. os países endividados tiveram o conseqüente processo hiperinflacionário (Sachs & Larrain). e concidiram com o aumento das receitas de exportações devido ao aumento dos preços das matérias-primas. além da América Latina. estava convencida de que a crise da década tinha sido causada por excessos estatais. Os juros internacionais aumentaram e a receita das exportações caíram devido à queda dos preços das matériasprimas. privatização de empresas públicas. Com a eleição em 1979 de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha e de Helmut Kohl na Alemanha em 1982 o governo norte-americano ganha apoio para a restauração conservadora. A crise do petróleo. Além do mais. Estes empréstimos eram concedidos a taxas de juros muito baixas ou negativa. surgiu uma diferença entre as taxas de crescimento entre as nações mais endividadas em desenvolvimento e as nações também em desenvolvimento. principalmente os gastos social. mas sem o problema da dívida externa. Ásia.globalização financeira criam-se as condições para a reorganização da economia mundial de forma conservadora (Fiori. enquanto que nas segundas continuaram a crescer. No final da década de oitenta. ao contrário dos países ricos. 2000). apesar de intensa. a partir de 1982.1997). diminuição dos gastos sociais. a intervenção estatal no período militar. eficácia empresarial e industrial substituem as idéias de equidade do bem-estar social (Fiori. conseqüente da crise da dívida e a dívida social. A partir de então os outros países industrializados adoraram as mesma políticas de retorno ao pensamento liberal idealizados pelos clássicos (agora chamado de neoliberalismo). aumentou a iniquidade no acesso. a aplicação de ajuste estrutural: abertura das economia nacionais.1997). Então junto do neoliberalismo. estimulado pelos poderosos atores econômicos e políticos internacionais (Gómez. As idéias de competitividade global. ratificados pelos acordos de política econômica mundial do “Consenso De Washington” de 1989 (Gómez. pois os empréstimos foram feitos à taxas flutuantes (Sachs & Larrain) Com a crise da dívida. sem distinção de países. flexibilização (perda) dos direitos trabalhistas. a deficiência no controle e 6 A democracia foi institucionalizada no Brasil com a Constituição Federal de 1988. 2000). o aumento do preço do petróleo permitiu que as nações exportadoras de petróleo depositassem vultosas quantias em bancos europeus que. no caso da saúde pública brasileira. que universalizou os direitos dos cidadãos. . Os países em desenvolvimento passaram a pagar juros reais mais altos sobre as dívidas externas. Afinal os governos não se mostraram neutros e benevolentes e voltados ao bem-estar social (Hunt. a América Latina. África. principalmente porque. se estendeu ao Leste Europeu. 2000). não promoveu acesso à saúde para a totalidade da população. desregulação dos mercados. influenciada pela ideologia vigente nos países centrais. assim como em toda a América Latina capitalista foi mesmo a crise econômica. provocando um rápido crescimento econômico nos países em desenvolvimento durante a década de 70 (Sachs & Larrain) No início da década de 80 a situação econômica muda. nem de democracia (Fiori. estes excessos não foram acompanhados por extensão dos direitos e das políticas de proteção social. já que o estado regulador foi considerado culpado pelos desequilíbrios orçamentários causados pelos gastos público.1997). O neoliberalismo passou a defender.1987). por outro lado. por sua vez. prioridade ao controle dos déficits orçamentários. emprestaram esses depósitos aos países em desenvolvimento. Mas o fundamental para a queda do regime militar no Brasil na década de 80. a democracia6 também se tornou popular (embora não tenha se tornado plena de fato) na década de 90 (Gómez. Por exemplo.

Podemos concluir que as crianças estão pagando a maior parte da dívida externa e da recessão da década de 80 (Sachs & Larrain. Muitos hospitais e postos de saúde na América Latina e África foram fechados. EDITORA . Isso é moralmente trágico. Rio de Janeiro.precariedade no atendimento à saúde (Pinheiro. EDITORA VOZES. Quanto ao sistema de saúde pública no Brasil fica claro que não é possível compatibilizar o princípio de universalização da saúde. Rio de Janeiro. 1997. CEBES-HUCITEC. Panamá. E. como em toda a América Latina globalizada. E. ampliação da desigualdade econômica e social e exclusão (Gómez. FERGUSON. Teoria microeconômica.1998). 2000. previsto na Constituição Federal. no Brasil. já que seu capital humano da população – saúde e educação. E durante a década de 90 a América Latina continuou apresentando baixos níveis de participação e mobilização dos cidadãos. com os programas de ajuste econômico que vem sendo implementados desde a década de noventa. A democracia-liberal não resolveu os problemas sociais deixados pelo regime militar. Com a crise econômica os governos ficam com menos recursos e os gastos fiscais são afetados. BIBLIOGRAFIA: BRAGA. qualquer corte na receita tem efeitos graves sobre eles (Sachs & Larrain.K. em 1989. História do Pensamento Econômico. EDITORA VOZES. José Luís. o que causa danos permanentes. Políticas e Democracia em Tempos de Globalização. José Maria. EDITORA FORENSEUNIVERSITÁRIA.é seu principal fator de desenvolvimento (Sachs & Larrain. hegemonia e império. mas também é prejudicial ao futuro econômico. In Poder e dinheiro (orgs. TAVARES e FIORI). geralmente comandado por perigosos traficantes. O ajustamento econômico não levou ao ajustamento social. Rio de janeiro. Na década de 80. a parte do orçamento destinado à segurança teve de ser aumentado (Sachs & Larrain. HUNT. Saúde e Previdência.estudos de política social. A parte do orçamento destinado a programas sociais foi prejudicada porque os pobres não tem um lobby capaz de protegê-los dos cortes do governo. Paraguai e Peru. Petrópolis.1998). 1981.1998). O Fundo das Nações Unidas para a Infância e Juventude (UNICEF) alertou em 1989 (mesmo ano do Consenso de Washington) que a crise da dívida externa estava afetando o desenvolvimento social de muitos países. GÓMEZ. 1976 FIORI. Considerando-se que os mais pobres chegam a gastar mais de 75% de sua renda com alimentação. Equador. José Carlos de Souza & PAULA Sérgio Góes de. 1995). 5ª ed. Globalização. 2000). São Paulo. Mais crianças não estavam suprindo suas necessidades básicas. pode deixar de justificar sua existência pode ser derrubado e substituído por outra ditadura ou pelo chamado Estado Outro. Se o Estado democrático brasileiro não garantir direitos sociais básicos à cidadania. C. não tinham verbas nem para comprar vacinas. ao passo que os gastos fiscais dedicados à saúde e educação foi reduzida na maior parte dos países da América Latina e África. 1998).

Michael. SACHS. Felipe.De Bretton Woods à beira da insolvência. PINHEIRO. PAZ E TERRA. MAKRON BOOKS. O dinheiro do mundo . & LARRAIN. Rio de janeiro. Vinícius C. 1998. Macroeconomia. IPEA. .CAMPUS.1987. Jeffrey D.1995. Brasília. Modelos de desenvolvimento e políticas sociais na América Latina em uma perspectiva histórica. São Paulo.1984. MOFFITT.