A ética da reciprocidade: diálogo com Martin Buber

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indd 3 16/3/2010 09:38:15 .Luiz José Veríssimo A ética da reciprocidade: diálogo com Martin Buber Ética da reciprocidade.

Misticismo.br Editora Responsável: Leda Miranda Hühne Assistente de editoração: Thereza Martins de Oliveira Revisão: Michele Sudoh Diagramação: Nathanael Souza Ilustrações:  1a Foto do autor 2a Tela de Monet .10 Ética da reciprocidade. Martin. 3.com.br — e-mail: editorauape@terra.As papoulas 3a Pintura de Helena Felicidade Contracapa: Pintura de Helena Felicidade Direitos de edição da obra adquirida pela UAPÊ – Espaço Cultural Barra Ltda. 10-0119. Olegário Maciel. .com.indd 4 16/3/2010 09:38:15 . 22621-200 – Tel. Inclui bibliografia ISBN 978-85-85666-85-9  1. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. 201p.01. O sagrado.Rio de Janeiro : Uapê. 511/303 – CEP 22621-200 – Rio de Janeiro – Tel/fax: (21)2493-9175. Av. Ética. 2. 4. Filosofia e religião. Título. Luiz José  A ética da reciprocidade : diálogo com Martin Buber / Luiz José Veríssimo. Buber. : il. 5. (21) 2493-9175 homepage: www.10 12. RJ V619e Veríssimo.2010. Olegário Maciel. CDD: 170 CDU: 17 017071 11.01. by Luiz José Veríssimo Editora Uapê Av. 1878-1965.uape. CIP-BRASIL. I. 511/303 – CEP. 2010.

desde o mestrado. o valor ético da pessoa. pelos seus ensinamentos que ajudam a tantos alunos como eu a esforçar-se para “aprender a pensar”. Às alunas Ana Maria Abreu Pereira da Silva e Tássia Donadello Ferreira por sua reflexão a respeito da relação entre ética e psicologia. abrindo luzes para a construção do meu pensamento na religião. À Mestra. na psicologia e na filosofia. a cada dia. pela concessão de bolsa de estudos de doutorado. com a anima inspirada pela estética do imaginário e pela natureza. Ao meu “eterno mestre” Leonardo Boff pelo seu apoio em todas as minhas caminhadas. Ao Professores Doutores Emmanuel Carneiro Leão e Luiz Eduardo Bicca pelas suas aulas. pelo calor humano.F.AGRaDECIMENTOS Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. e por me ensinar. seu espírito acolhedor. Landim pelo seu toque feminino. até pelo seu exemplo vivo. Tereza Cristina Saldanha Erthal. modo de concepção da existência. |5| Ética da reciprocidade. e com muita fraternidade nos encontros. ensinamentos. apoio repleto de confiança. Ao meu orientador Professor Doutor Olinto Antônio Pegoraro. sua solicitude. escritos. Às professoras Doutoras Maria Helena Lisboa Cunha e Maria Luiza P. palestras.indd 5 16/3/2010 09:38:15 . sempre com solicitude e zelo nas suas avaliações. orientador. o significado do cuidado. ajudando-me a compreender um pouco mais. tecendo valiosas observações. por se fazer presente e inspirar a mais autêntica fé na existência.

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caminhando pela Vida. |7| Ética da reciprocidade. cuja dádiva do Cuidado não tem preço. que me mostra o exemplo vivo da Comunidade.Dedico esse trabalho às pessoas muito queridas que se fazem presentes nas conversas à mesa. À Família. para quem o compartilhar ainda faz sentido. À Marilda. Aos queridos Mestres.indd 7 16/3/2010 09:38:16 . nas aprendizagens do dia a dia. por partilhar a experiência do encontro.

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Somos éticos em relação aos outros. enfim. Leonardo Boff Não basta ser senhor de si. Passo então a dedicar-me a ele. ninguém é ético para si mesmo. de sua vida. de seus sofrimentos e de seus sucessos. visto que o comportamento é sempre transitivo e recíproco.indd 9 16/3/2010 09:38:16 . Olinto Pegoraro |9| Ética da reciprocidade.O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Ninguém é virtuoso diante do espelho. Disponho-me a participar de seu destino. de suas buscas.

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................................................................................ 29 O totalmente outro e o ocaso do ser humano...................................................................................................................... 17 Capítulo I – M  atrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica.......... 85 | 11 | Ética da reciprocidade........................... 48 O esquecimento do ser humano e o esquecimento   do sagrado....indd 11 16/3/2010 09:38:17 ..................... 57 Interpretando o sentido de reciprocidade.......................... o tudo e o trágico............................................. 55 Eu e Tu como uma relação originária entre   o ser humano e o sagrado.................. 83 A interface da imanência com a transcendência. 13 Introdução.................................... 53 Capítulo II – I  nterpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber........... 31 O nada......................................................................................................................................................... 36 Confronto da fenomenologia de Otto com a metafísica......................... 72 Capítulo III – A  condição humana e o sentido ético e psicológico da pessoa........................... 41 O renascimento do ser humano à luz do Ser...............................................................SUMÁRIO Prefácio.... 67 Caminhar pelo abismo.........

....... ....................................................... 176 Perspectiva ética acerca da psicologia da pessoa........... 193 | 12 | Ética da reciprocidade............................. 87 O falar com e o falar sobre................... 161 A construção da pessoa e o modo de ser “egótico”........................ 99 O caráter originariamente simples do encontro........... 146 Sobre a noção de comunidade.............................................................................LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO O modo Eu – Isso e o encontro Eu e Tu............................. 184 Bibliografia..................... 127 O encontro da pessoa com o Tu envolve a mística.... 112 Considerações sobre o sentimento.................................indd 12 16/3/2010 09:38:17 ..............

mas a partir deles. 2005. O trabalho de Veríssimo mostra um imenso aprendizado não apenas no convívio com esses mestres. Jung. Kierkegaard e outros.PREFÁCIO1 Luiz José Veríssimo acede ao tema da tese com uma bagagem considerável. Jung. São autores seminais dos quais podemos aprender sempre. 1 | 13 | Ética da reciprocidade.indd 13 16/3/2010 09:38:18 . 2002. Já fizera sua tese de mestrado nesta mesma Casa2.G. Apreciação de Leonardo Boff da tese de doutoramento “A experiência religiosa  segundo uma ética da reciprocidade: diálogo com Martin Buber”. Ele próprio pensa por si mesmo municiado por tudo aquilo que aprendeu deles. sobre a “Experiência religiosa como expressão de si-mesmo a partir de C. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A tese foi o ponto de partida para o presente texto.G. mas convoca para a mesma roda Martin Buber. 2 Referência ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UERJ. o que seria já muito. Schleiermacher. pois se trata de uma tese de doutorado em filosofia. de suas provocações e evocações. A tese de  mestrado. Agora não dialoga apenas com C. Mircea Eliade. Um estudo a partir de C. orientada pelo Professor Boff. Rudolf Otto. Pegoraro.G. E deveria ser assim. orientada pelo Professor Olinto A. Campinas: Livro Pleno. foi publicada com o título A psicologia do self e a função religiosa da alma. Rio de Janeiro. Jung”.

O sagrado emerge da relação eu – tu e. do intercurso. a experiência religiosa. | 14 | Ética da reciprocidade. tratado com cuidado e profundidade. Essa presença é carregada de espessura filosófica. Mas o sagrado possui uma raiz mais funda.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO O candidato deve mostrar que sabe pensar e não apenas que sabe e conhece.indd 14 16/3/2010 09:38:18 . na oposição entre racional e irracional. O totalmente outro. desde os tempos pré-socráticos. Ele é muito bem escrito em termos de dicção do discurso e bem urdido em suas conexões. É no campo da relação do “inter”. uma irradiação especial que fala e convence por si. a ética. Aí se fundam as religiões e os caminhos espirituais e se mantém vivos na medida em que organicamente bebem desta fonte. no interativo que emerge tanto o sagrado quanto o ético. E na minha apreciação cumpriu esse preceito básico de todo filosofar. tremendo e fascinante é simultaneamente a presença do Tu infinito. do santo. Todos viram algo verdadeiro. E quero parabenizar a Luiz José Veríssimo por este brilhante trabalho de pensamento. no seu termo. Rudolf Otto viu a realidade do sagrado. Numa palavra o nicho gerador de tudo é a reciprocidade como jogo de relações envolvendo a todos e a tudo. O suporte de toda experiência religiosa reside no sagrado. E ela foi vista especialmente por Martin Buber. Pois tal é a natureza do sagrado. É o que diz claramente o sub-título de seu livro clássico Das Heilige de 1917: “Sobre o irracional na ideia do Divino e sua relação para com o racional”. Presença não é estar-aí como pode estar uma pedra. do Tu eterno. Pois ele está num e noutro momento sempre presente e na forma do tu. Mas o que importa mesmo é o conteúdo. Tê-lo demonstrado é o maior mérito deste trabalho. Mircea Eliade coloca o sagrado na tensão e oposição entre o cotidiano e o ex­ traordinário. Presença significa uma densificação do ser. O totalmente outro que me faz fugir é um momento do totalmente outro que me chama de volta. É árduo o tema em tela: o sagrado.

para a vida e para a Terra. criatividade e contemporaneidade do fazer filosófico em nosso país. No contexto atual de crise dos fundamentos. Ele honra a Casa e fortalece uma tradição que se quer fundar de seriedade. felicitamos o autor. Vale ainda ressaltar que mostra segurança e boa orientação sempre que acena para temas teológicos. seja em sua vida profissional. estabelece a reciprocidade de eu-tu. Leonardo Boff Petrópolis. Mais ainda: revela um engajamento pessoal pela causa do sagrado e do ético seja manifestados nas linhas e entrelinhas do texto.PREFÁCIO A ética emerge desta mesma experiência do sagrado. Sempre que o outro fascinante e tremendo se faz presente. Estas e outras ressonâncias se encontram ao largo de toda a elaboração da tese de Veríssimo. Veríssimo não apenas discorre sobre tais coisas. O sagrado é a aura que alimenta a ética e que impede que decaia no moralismo e no fundamentalismo. aí nasce a ética como o jogo das relações que devem ser boas para todos.indd 15 16/3/2010 09:38:18 . 25 de maio de 2002 | 15 | Ética da reciprocidade. Uma vez mais. esta reflexão ganha relevância pois ajuda a criar luz num âmbito tão complexo e com bases geralmente tão escorregadias.

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para nós a compreensão da modalidade da existência fundamentada no diálogo. e seu sentido mais próprio em Martin Buber (1878-1965) é apresentado na perspectiva da relação Eu e Tu. como o “infinito”. Ela é formada por uma trama de relações. A relação eu – outro se ilumina de plenitude e transcendência quando revela a constituição da pessoa. O Tu liga-se à dinâmica relacional Eu e Tu formulada por Martin Buber em sua obra de mesmo nome3. como “Isso”. por vezes sentido e designado como o “totalmente outro”. tanto na  psicanálise quanto na psicologia analítica.INTRODUÇÃO A existência se apresenta sob incontáveis formas. como “Tu”. Assumir esse desafio convida a observar como se constitui a relação que o ser humano estabelece com uma experiência radical: a experiência de um outro.. Importa. O eu4 só faz sentido numa relação com o outro. nes- se momento. abertura à comunicação.indd 17 16/3/2010 09:38:19 . 3 4 2a edição revista. São Paulo: Moraes. diálogo. Admitir o Tu remete ao reconhecimento do outro enquanto tal. Seria impossível catalogar todas as formas como o outro é vivenciado e compreendido. troca.. reciprocidade. Essa dinâmica envolve um encontro mútuo. A noção de eu aqui apresentada | 17 | Ética da reciprocidade. 1977. A noção de eu aqui não deve ser confundida com a noção de ego. O que é essa experiência radical e relacional do eu com o outro? É o horizonte a partir do qual desejamos lançar luzes ao nosso estudo.

como por emoção. O outro. corpo. desejo. enquanto o outro é assimilado a mim. antes. mesmo torturado. seduz e suscita sentimento de ameaça. o outro pode se tornar familiar se ele é convocado para um encontro que propicie uma relação dialogada e recíproca. ele é apreendido como familiar e como um estranho por ser deixado como algo à parte. de tal forma que ele se torna uma projeção da subjetividade desejante. o eu é entendido basicamente como pessoa: uma totalidade de sentido constituída não só por racionalidade. que pode incluir a natureza. uma teia de relações que se estende ao infinito. | 18 | Ética da reciprocidade. paixões. energia vital. O Tu e o Isso se alternam e se misturam nas diversas formas é fundada numa perspectiva fenomenológica e dialógica. temos pistas do que se quer pronunciar com a “palavra-princípio” Eu e Tu. e deve permanecer discriminado. Esses são determinados modos que compõem o campo Eu – Isso. a comunidade. Pode surgir como estranho porque ele subverte todas as representações que são feitas sobre ele. um forasteiro. que pouco ou nada tem a ver comigo. do pensamento de Buber. atravessado pela temporalidade e espacialidade (o habitar) e que se constitui junto ao nó de relações pela qual transita em comunicação e diálogo. contido e controlado. o sagrado (um sentido tomado de valor).indd 18 16/3/2010 09:38:19 . atrai e assusta.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO O eu não é constituído pelo outro. ele é constituído com o outro: ele vai emergindo na medida das suas relações. vale dizer. observamos que não basta dirigir a atenção somente ao eixo Eu e Tu. admitimos que o outro é fascinante e amendronta. com toda a intensidade. Buber designa uma palavra para expressar. mutilado e morto. em toda a sua amplitude. Familiar. Nessas duas últimas referências. Na apreciação. por fim. Faz parte da existência também a relação Eu – Isso. Tomando emprestadas expressões do campo do sagrado. quando não subjugado. A representação do outro oscila. o sentido do Tu em nossas vidas: encontro. encanta e amedronta. Por outro lado.

arrancá-lo da condição de objeto para reconhecê-lo como existente. ainda.indd 19 16/3/2010 09:38:19 . meu projeto é girar em torno de Ti. Essa simplificação do viver e do conviver se resume em duas atitudes. objetal. esquecido. Em sentido bastante amplo. Através de Buber. julgamos importante apresentar um apanhado geral e introdutório do sagrado. por exemplo. dessa forma. ao mesmo tempo. Tu és o meu apêndice”.iNTRODUÇÃO com que as pessoas se dirigem umas às outras. ou. caindo em um esquema que modela um “totalmente outro” (completo estranho. estimam a natureza e o insondável. Tu és Tudo”. “Eu sou o centro. para Martin Buber. a experiência religiosa tem a ver com a adoção de um fundamento que religa todas as coisas. o Tu é negligenciado. lidam com o conhecimento. Ao longo de nosso estudo. afastarnos da arena onde se disputa o “tudo ou nada”. mas na existência ele não se mantém permanentemente atualizado. e mesmo renegado. sujeito a toda sorte de projeções psicológicas. ou seja. sentimentos básicos. Se trabalhamos com essa ideia. o meu projeto é aplicar o meu desejo sobre o teu desejo. visam o mundo. o sagrado como fasci| 19 | Ética da reciprocidade. estrangeiro). seja como um mundo à parte. Frequentemente. seja sob a aparência familiar. O jogo do Tu com o Isso é constantemente tematizado por Buber ao longo da obra Eu e Tu. a experiência religiosa é a experiência do sagrado. e. vivenciado como presença. submeter o meu desejo ao teu desejo. Em sentido mais específico. que são. ao menos em algumas de suas formas características de vivência e de concepção. pareceu-nos que. Quando o outro é enquadrado como Isso. sugeridas pelas assertivasmodelo: “Não sou nada. Abrimos nossos trabalhos procurando levantar algumas possibilidades vivenciais do Tu quando compreendido à luz da experiência religiosa. e tentam prever a sua ação. as pessoas o avaliam. notamos que não é tarefa das mais fáceis acolher o outro. o fundamento ético da existência é o Eu e Tu. expectativas e esquemas diretivos que antecipam conceitualmente ou “experimentalmente” o que o ser humano “é”.

onde encontramos algumas perspectivas de dar sentido ao ser humano que não se encerram numa singularidade solipsista. paradoxal. de uma ontologia. como um Isso. O sagrado é nomeado por Buber como o Tu Eterno. e enquadrado em conceitos que passam ao largo da vivência. “Tu (o sagrado) és nada. antes de conhecer a vivência. A contemplação no face a face não | 20 | Ética da reciprocidade. irracional. Tu (o sagrado) és Tudo”. tomamos o rumo para chegar à vivência cotidiana. abrimos as trilhas para dar passagem à pessoa e à comunidade. Só penetraremos no cerne de nossa questão caso não nos percamos no labirinto de divagações que nos afastem cada vez mais da vivência. trágico. metafísico. eu. Partindo de algumas considerações complementares acerca da experiência religiosa. de agora em diante sou o único sentido que importa na existência”. mesmo. Poderia mesmo afirmar que. apropriado. ainda. e. A relação Eu – Tu seria uma relação ontológica e existencial que precederia o relacionamento cognoscitivo. Então. sujeito. nesse ângulo. O sagrado reduzido ao Isso cria um ambiente de esquematização e normatização das problemáticas emergentes. temido.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO nante. O professor Zuben considera que é na e pela vivência que poderemos ter oportunidade para abrir clareiras que permitam acessar a ação recíproca entre o Eu e o Outro. é decomposto em fórmulas doutrinárias. nem o achatam frente a um coletivo indiferenciado ou ideológico-dogmático que abafa o si-mesmo no ruidoso som das normas indicativas de caminhos previamente estabelecidos. do estudo de um ser. ou. facilitando a adoção de um ponto de vista bastante extremado. mas pode ser tomado. “decifrado”. Na sequência de nossa pesquisa. que aponta para o vislumbre do outro enquanto Tu. ele se torna “familiar”. vale dizer. o ser humano. Trata-se. o homem a vive e a relação objetivante é um empobrecimento da densidade vivencial originária. dogmático ou cético: “Não sou nada. estás morto.indd 20 16/3/2010 09:38:20 .

já temos essa indicação. Diante da infinidade de modos de ser.iNTRODUÇÃO é uma intuição cognoscitiva. as nossas relações. nas instituições e nas práticas sociais. o nosso conviver. | 21 | Ética da reciprocidade. possibilidades. 2003. Este se realiza na relação a um Tu. Trabalhamos a noção de ética baseando-nos na tese de que a ética se fundamenta nas interações humanas. seu modo de compreensão da existência. com a cultura. Martin Buber. isto é. o ethos diz respeito à ideia de comunidade como a morada em comum na qual edificamos as nossas interações. crenças.indd 21 16/3/2010 09:38:20 . com os diferentes grupos. diferenças. sua interação com as demais pessoas. está em jogo uma multiplicidade de valores. os nossos projetos em comum. Cumplicidade e diálogo. a sociedade. iden5 Zuben. de mentalidades. de perspectivas do agir humano que compõem as diversas formas de convivências e interações. A expressão ética mais apropriada é o eu articulado e confrontado com o outro. mas doação de um Tu a um Eu. nossos conflitos. de interesses. Esse convívio se dá de muitas formas: na relação com o outro. de acordo com a proposição de nosso tema. A convivência. o que gera conflito. p. é o grande desafio ético. Newton Aquiles von. Na própria etimologia da palavra. com a natureza. o nosso viver junto. pois cada um tem uma forma própria de ser. com a comunidade. a natureza. Dito de outro modo. Entendemos mundo como a totalidade das vivências de cada pessoa. Um dos significados de ethos é morada. Na convivência. o mundo que os indivíduos compartilham. o viver segundo um sentido ético nos leva a conscientizar que os pronomes eu e meu sozinhos não expressam a ética em amplo sentido. Bauru:  EDUSC. a compreensão da existência segundo uma ética da reciprocidade e uma psicologia da pessoa.151.5 Gostaríamos de aproveitar a introdução de nosso diálogo para justificar a reciprocidade relacional como uma ética. o viver junto. o nós: o nosso com-viver. ou seja.

Ela acredita que a visada ao Tu promove a ligação fundamental entre mim e o outro. como ressalta Buber. pois devemos ponderar a medida de nossas ações e intenções. e com a natureza. participação. com desejos diferentes. a empatia e a compaixão (de com-paixão. na medida em | 22 | Ética da reciprocidade. uma ética que enfatiza a alteridade. desejar o outro apenas como meio de satisfação de desejos próprios. Não se trata de colocar o “eu” em primeiro lugar e visar somente a si. o que significa anular-se perante o outro. quando temos de lidar com outras pessoas. com os grupos com os quais interagimos. o diligente interesse pela presença do outro na existência de cada pessoa. e. o que implica superação de conflitos. mas de visar um projeto e uma praxis em comum com o outro. portanto. e. com a quebra de expectativas. no cenário dialógico. E isso é uma prática incessante. mais do que isso. e a dimensão afetiva. sentir junto).indd 22 16/3/2010 09:38:20 . um pronome importante para expressar um sentido ético. um exercício de elaborar a convivência através da atitude fundamental do diálogo: o desenvolvimento de um pathos relacional nos permite desenvolver o cuidado.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO tificações. a reformulação das nossas avaliações. ternura e cuidado no trato. nem de colocar o outro como o centro das decisões e da vida. O pronome nós é. A ética não é somente um conjunto articulado de ideias com ideais. a nossa convivência. A ética consegue integrar. segundo um sentido orientado pela gestão da reciprocidade e do diálogo. Tal sentido se dá a partir da perspectiva do Eu com Você. mais precisamente. no campo das diversas relações que se estabelecem. ou. uma prática consistente e coerente justamente no nosso viver cotidiano. a um só tempo. E assim tornamo-nos seres atuais uns para os outros. diferentes de nós. É nesse ponto que se desvela. a dimensão racional. inclusão. ou seja. e devemos levar em conta a relação com as pessoas. O Tu evoca o reconhecimento. Ela se torna no campo religioso um profundo ofício de fé. o “entre” é a melhor expressão para o ethos.

igualmente. responsabilidade. Elas envolvem. a exclusão e o sofrimento. que se desenvolve nas diversas interações estabelecidas).iNTRODUÇÃO que atualização é a realização da interação com a alteridade intencionada como um Tu. interessar-se por ele. Quando estamos interessados no destino nosso e do outro. conseguimos vislumbrar que o que fazemos. assim como pode instaurar e sustentar a dor. capacidade de formar e de cultivar vínculos. enfim. dialogada e responsável. um modo extático. O destino em comum nada mais é do que a conscientização de que as ações. a indiferença. decisão. suas particularidades e identidades. compartilhada e dialogada. formar a noção de um destino comum. A forma dialogal envolve reciprocidade. os modos de ser têm uma amplitude mútua. reconhecimento da diferença. Assim. ou seja. o revelador e preciso sentido do encontro. a compaixão. Buber estima que a condição relacional expressa em toda a sua amplitude a condição humana. o cuidado. o que desejamos. está fundamentado um dos sentidos fundamentais da pessoa: manter-se fiel aos valores que levem em consideração não apenas a nossa individuação (o processo de se converter no modo de ser próprio. A reciprocidade formulada por Bu| 23 | Ética da reciprocidade. cuidado. A atualização implica uma empatia fundamental: colocar-se no lugar do outro. quando estamos predispostos a assumir uma ética no sentido dialogal podemos vivenciar a solidariedade. o ódio. a negação do outro. a comunicação entre eles. A partir da convivência recíproca. A individuação e a relação rematam um sentido de fé como uma lealdade repleta de confiança no que se afirma e se experimenta como uma existência autêntica. os projetos de vida. uma repercussão recíproca nos integrantes da relação.indd 23 16/3/2010 09:38:21 . o que sentimos ou deixamos de sentir pode promover o bem comum. amor. empatia. como valores que considerem diligentemente os integrantes da relação. a manipulação e o desejo de posse do outro como um objeto-para-mim. a alienação. As relações que o ser humano estabelece não envolvem apenas a consideração para com o outro.

De acordo com a forma com que desejamos e reconhecemos o outro. a psicologia não se livra tão facilmente da esfera metafísica: em algum momento. independentemente da relação ser tomada eventualmente como “íntima”. que se trato o outro dessa forma. Podemos romper com “o mundo do Isso”. mesmo que o espaço entre os corpos seja zero. O Isso convive com o Tu. também. uma compreensão. eu mesmo me torno um objeto. Buber ataca Jung.indd 24 16/3/2010 09:38:21 . principalmente. Uma última observação diz respeito à presença de uma orientação não apenas filosófica como psicológica em nosso trabalho. a todo momento. Desse modo. Não é de hoje que nutrimos um acentuado interesse pela analítica junguiana. relacionando-se como um átomo sobreposto ao outro. A psicologia deve ser entendida em amplo sentido. e. Entendemos psicologia como um discurso.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO ber quer dizer. estamos retomando o mundo da causalidade. Jung ressaltou o desdém que uma tradição cientificista e racionalista nutre contra a psicologia. em nenhum momento nos permitimos esquecer que Buber manteve uma acirrada polêmica com Jung em torno de certas discussões. A psicologia nos conduz a uma hermenêutica que atende a uma abertura do logos à psique. acusando-o de ter reduzido Deus à imanência. Jung se defende | 24 | Ética da reciprocidade. da necessidade. ou ainda. E não é pouco comum nos projetarmos de forma ambivalente em nossas interações. sobre a transcendência e imanência de Deus. mesmo convivendo no mesmo espaço. do objeto e da fascinação por manter-se à parte – o eu isolado. acusando-a de mero psicologismo. Ocorre que. da mesma forma que. fenomenológico e existencial. ambos se alternam. relacionar-se com ele como se fosse um forasteiro. seus autores mais arrojados tangenciam com a radicalidade do pensar acerca dos fundamentos originários do ser humano. neste trabalho. estaremos nos projetando como um Isso ou como um Tu nas relações. um estudo (logos) acerca da alma humana (psiqué). e nos envolver com a dinâmica do Eu e Tu.

pois. enquanto. ele está analisando Deus do ponto de vista psicológico. Mas. 2005. para o pensamento de Buber. entendemos não apenas a relação paciente-analista. Há quem aposte nas noções de Deus como relação e alteridade. a grosso modo. digamos assim. ressaltemos que essas apreciações são meras generalizações. E essa exigência deveria ser satisfeita. as primeiras assertivas “pendem mais”. Da mesma forma. dos arquétipos do inconsciente coletivo e da individuação da pessoa.indd 25 16/3/2010 09:38:22 . Jung. interpretam e reproduzem os conteúdos simbólicos no campo da experiência religiosa. como todas as perspectivas das relações humanas. A psicologia do self e a função religiosa da alma. Colocadas. veja Veríssimo. Ainda que as projeções psíquicas de um determinado sujeito sejam analisadas retrospectivamente até a sua origem. permanece a demanda por parte do paciente de relacionar-se com um ser humano. Um estudo a partir de C. Campinas: Livro Pleno. Jung não deixa passar em branco a consideração da relação para a constituição do ser humano. “pois o ho6 Sobre a importância capital que Jung confere à psique. | 25 | Ética da reciprocidade. Aqui.iNTRODUÇÃO argumentando que nada tem a objetar quanto à tese do Eu e Tu. por outro lado. ­ mesmo assim. o pensar complexo não admite que a visão de Buber seja considerada um pensamento do sagrado apenas do ponto de vista transcendente. por exemplo. sobretudo do si-mesmo. Jung se dedica ao estudo das formas como o indivíduo e as culturas produzem. e que a primeira questão é tão decisiva quanto a última. não aceitamos que Jung se contente com uma superestima da interioridade em prejuízo da ética em sua perspectiva relacional. e não metafísico. encontramos quem se concentre na avaliação da “imagem de Deus” como uma imagem originária indissociável do psíquico. as afirmações lado a lado.G. Enquanto para Buber interessa como o ser humano se relaciona com o Tu eterno. as últimas se afinam especialmente com o sistema de Jung6. Luiz  José.

A neurose obriga-nos a ampliar o conceito de “doença” além da ideia de um corpo isolado. Sussex: Harvester Press. O ponto de vista clínico. cai no vazio”. par.8 Até mesmo uma relação etiquetada de “profissional” pode evocar a relação no modo dialógico. transferência. não abarca.G.8. Petrópolis: Vozes. p. Ab-reação. 1987. 1979 (edição brasilei ra: Campinas Verus. e a considerar o homem neurótico como um sistema de relação social enfermo.” Nessa situação psicológica.22. e os textos de Jung “Religião e Jung. par. par. p. XVI/1). por si só. 1987. 8 I  dem.9 Para aqueles que tiverem interesse no fogo cruzado do debate envolvendo Jung e Buber. o paciente se coloca diante do médico em igualdade de condições. recomendamos a leitura do livro Eclipse of God. Com relação ao encontro paciente-analista. de Martin Buber10. ����������õ������������������������������ Considerações sobre a relação entre religião e filosofia). perturbado em suas funções. 286. O livro do comentador Maurice Friedman To 7 | 26 | Ética da reciprocidade. 37 (Obras completas.  p. totalmente sem qualquer espécie de relação humana. a essência da neurose. em oposição aos grilhões da transferência”. 289 e 290.8. 2007). vol. 3a ed. Studies S��������������R�����������w����R������������P��� in the Relation Between Religion and Philosophy (Eclipse de Deus. “esta forma de relacionamento pessoal corresponde a um compromisso ou a uma ligação livremente assumida. 9 Ibidem (mesma obra). 10 New Jersey: Humanities Press. A prática da psicoterapia. análise dos sonhos. ele é visto como uma parceria: “Esta relação de pessoa a pessoa é a pedra de toque de toda análise que não se dá por satisfeita com um pequeno resultado parcial. 285 (Obras completas. Petrópolis: Vozes. vol.7 O sofrimento humano não é apenas uma questão pura e simplesmente individual. pois ela é muito mais um fenômeno psicossocial do que uma doença estrito senso. XVI/2).LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mem. nem pode abarcar.indd 26 16/3/2010 09:38:22 . C.

iNTRODUÇÃO psicologia: uma resposta a Martin Buber” (em A vida simbólica. mas. numa trajetória que provoca constantemente a consciência da alteridade no horizonte da descoberta do si-mesmo. Temos aqui um sonho mais modesto: o projeto de desenvolver uma interpretação de Buber que nos ajude a elucidar aspectos fundamentais da existência quanto ao que religa o ser humano com os seres humanos e com uma concepção de totalidade. fonte de nossas pesquisas há alguns anos. O filósofo inspirou. não somente em nossa consciência. onde.9 e IX. Obras completas. Nesse sentido. a Kierkegaard. XII)11. Contemporary Images of Man também se refere ao debate entre Jung e Buber. à mística em geral. assim como teríamos de fazer o mesmo para acompanhar integralmente as diferenças colocadas por Buber quanto ao budismo. vol. as problemáticas levantadas concernem ao debate em questão.indd 27 16/3/2010 09:38:22 . Veja os capítulos VI.16. a Platão. | 27 | Ética da reciprocidade. somos gratos a uma releitura acerca da existência sob a fonte do pensamento de Buber. em nosso coração. a Heidegger. ao hinduísmo. Obras completas. apesar de Jung não se referir diretamente a Buber. a perspectiva relacional de uma ética do diálogo. vol. Entrar no confronto direto do pensamento de Buber com o de Jung exige um trabalho todo à parte. sobretudo. Deny Our Nothingness. 11 Ambas as obras publicadas pela Editora Vozes. que acreditamos ter se insuflado definitivamente em nosso percurso de vida. XVIII/2) e “Introdução à problemática da psicologia religiosa da alquimia” (em Psicologia e alquimia.

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indd 29 16/3/2010 09:38:25 .Capítulo I Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica Ética da reciprocidade.

Ética da reciprocidade.indd 30 16/3/2010 09:38:25 .

o terror. Quando o sagrado aparece sob a forma exclusivamente transcendente. e o ser humano é apresentado como a figura de um astro que gira em torno de uma estrela. mal podemos vislumbrar uma relação: trata-se. marcada por categorias como o temor. seguindo o sentido convencional de transcendente como aquilo que se inscreve fora do mundo. antes. Essa forma o reconhece apenas como uma realidade transcendente ao indivíduo. Segundo essa perspectiva. caracterizada por um imenso abismo entre a pessoa e o sa­ grado. Esse ponto de vista reproduz um modo típico de se com­ preender o sagrado: ele supõe a existência de uma realidade que se impõe ao indivíduo. hierarquicamente superior. a nadificação do eu.indd 31 16/3/2010 09:38:25 . consequentemente. além do âmbito humano. que não raras vezes é entendida como regente do tempo e do destino. onde o sagrado ocupa o lugar central. a concepção do indivíduo como finito diante de uma infinitude ao qual ele deverá se submeter se quiser sublimar a sua condição trágica. e. De acordo com essa mentalidade. estamos diante de uma relação desigual (se é que podemos chamar de relação) entre o ser humano e o sagrado. se resta ao | 31 | Ética da reciprocidade. da marcação de uma posição hierárquica.O TOTaLMENTE OUTRO E O OCaSO DO SER HUMaNO Iniciemos o nosso exame do sagrado observando uma forma frequente pela qual ele é experimentado.

Ela sente um verdadeiro terror. que não se confunde com o que possamos entender ordinariamente como medo. reduzido a pó e cinzas. pode inspirar. em O sagrado.” Otto vê nesse terror justamente a origem do fenômeno religioso. A sua obra se inicia com a descrição do aspecto mais assustador do sagrado. “Trata-se de um terror cheio de horror interno que nenhuma coisa criada. trata-se do apagamento e do aniquilamento 12 O sagrado. como ele é sentido pelo homem que se dirige a ele em oração. fora de qualquer medida conhecida. O sagrado é de tal maneira grandioso. eu que não passo de pó e cinzas” (Gênesis 18.27). 23-24. O tremendo é um sentimento característico da pessoa que se defronta com o sagrado. Para ilustrar tal situação. o tremendum. etc. que envolve o que é considerado sagrado. Lisboa: Edições 70. que para designar tal quadro a cons­ ciência mítico-religiosa apela para o termo “tremendo”. Otto cita a “ousadia” de Abraão ao dirigir-se a Deus: “Tive a ousadia de falar contigo. de fato. Tal aspecto não é ignorado por Rudolf Otto ao fazer uma apreciação fenomenológica do sagrado. | 32 | Ética da reciprocidade. manifesta-se de forma tão imprevisível e indomável.”12 O tremendo causa temor. Otto observa que. O autor procura analisar. tremendo. p.indd 32 16/3/2010 09:38:25 . pois jamais se nivelará ao fundamento sagrado que cultua.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO homem algum campo de possibilidades e de liberdade. faz tremer a alma e gera um espanto na consciência. ele jamais pode afrontar os desígnios divinos. O terror se apresenta para quem se encontra diante de um poder avassalador e. Uma primeira impressão que nos deixa a leitura de Otto é a de que o sagrado é experimentado de tal forma que diante dele o ser humano se vê esmagado. “Aqui está a origem dos ‘demônios’ e dos ‘deuses’ e de tudo que a ‘percepção mitológica’ ou ‘imaginação’ produziram para objetivar este sentimento. mesmo a mais ameaçadora e mais poderosa. para tal compreensão do sagrado. 1992. no culto. dotado de um incomensurável poder.

Quem habitualmente apenas conceber a divindade sob a forma dos seus predicados racionais. “Inflama-se” e revela-se. verá na “cólera” um capricho e uma paixão. misteriosamente.indd 33 16/3/2010 09:38:26 . à vida espiritual do homem. | 33 | Ética da reciprocidade. o qual. Assim. por analogia com um termo emprestado ao domínio natural. o ser humano se nadifica. ressalta claramente de várias passagens do Antigo Testamento que esta “cólera”. na p.” 14 Ibid.28. ou seja. tanto melhor reconhece a sua própria pequenez. nada menos surpreendente do que se estabelecer uma relação de terror e temor entre Deus e o ser humano. como a eletricidade acumulada se descarrega sobre quem dela se aproxima. p. Mas os homens piedosos da antiga aliança teriam decerto rejeitado energicamente esta forma de a considerar. não sendo de modo algum racional.. “como – dizse – uma força escondida da natureza”. Otto cita. 14 13 I  bid. Greith: “O homem afunda-se e dissolve-se no seu nada e na sua pequenez. submete-se a um poder infinitamente superior a ele. originariamente. clara e pura a seus olhos.19.31 de O Sagrado.13 Nesse cenário. imaginamos que onde entra em cena o sagrado. esta ira é apenas o próprio tremendum.. deixa-se captar exprimindo-se aqui de forma primitiva. Quanto mais se descobre. a grandeza de Deus. Isso constitui nada menos que o “sentimento do estado de criatura”. (. p. Em primeiro lugar. A “cólera de Javé” apresenta um caráter estranho que sempre nos impressionou.) Com efeito. não tem relação alguma com os atributos morais. Otto nos mostra na cólera de Javé um exemplo do que institui esse tipo de relação.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica da criatura perante um poder soberano numinoso. “o sentimento da criatura que se abisma no seu próprio nada e desaparece perante o que está acima de toda a criatura”. É “incalculável” e “arbitrária”.. G..

e. “Os profetas de Israel experimentaram o seu Deus  como uma dor física que torcia cada membro e enchia-os de fúria e exaltação.12). As observações de Rudolf Otto com relação ao aspecto tremendum do sagrado acentuam uma formulação desenvolvida a partir da vivência do sagrado como o “totalmente outro”. | 34 | Ética da reciprocidade.. Essa ideia da alteridade absoluta nos fornece o nosso ponto de partida.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A cada indivíduo resta a impotência em face da absoluta superioridade de poder. o judaísmo. desolação. 1994. Ele conduz ao aniquilamento do eu. New York: Ballantine Books. a apreciação da noção grega do destino) etc. p. igualmente. porque o nosso estudo vai procurar circunscrever os limites dessa concepção.xxii (edição brasileira. na mentalidade de muitas pessoas. Por outro lado. em imagens da mitologia grega (veja.30. A experiência Ocidental de Deus pareceu particularmente traumática. São Paulo: Companhia Das Letras. expressão e interpretação do sagrado.. Uma história de Deus.indd 34 16/3/2010 09:38:26 . Por 15 16 Ibid. trevas. crucificação e terror. mais adiante.15 A versão do sagrado com o hemisfério tremendo voltado para a janela do indivíduo que o espia é encontrada em tradições como o islamismo. Se nos detivermos unicamente no “totalmente outro”. é quando se revela o sentimento do nada da criatura. corremos o risco de negligenciar os demais aspectos do sagrado. p. e sublinhar o caráter dialogal da experiência religiosa a partir do estudo da perspectiva de Martin Buber. o cristianismo16. até hoje. Para Karen Armstrong.” A History of God. ou mesmo de negar que ele constitua uma das formas mais destacadas da experiência religiosa: gostaríamos de ressaltar que essa proposição não esgota todas as possibilidades de vivência. 1994. p. A realidade a que chamavam de Deus foi repetidas vezes vivenciada pelos monoteístas sob um estado de [condição] limite: leremos sobre o cume das montanhas. não se trata de rejeitar a observação de um “totalmente outro”. e à afirmação da absoluta e única realidade do transcendente.

o sagrado afirmado como uma mística associada ao amor. melhor. se tornariam plenamente humanos.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica exemplo. uma ética cuja “fatalidade” é possibilidade. O fascinante é a modalidade do sagrado que encanta. ao tomar consciência da centelha divina dentro deles. Israel Baal Shem Tov. Uma ética da fé fundada no diálogo é uma forma fundamental de religare: ao descobrir o sagrado. seguire17 O sagrado. aquieta a alma.59. p. de acordo com a via eminentiae et causalitatis. ser nada mais que “pó e cinzas”. mais poderosa. Eis outro aspecto complementar do tremendum que nos faz admitir o sagrado como uma noção complexa: o sagrado apresenta-se também como o fascinosum. Deus é. de acordo com a via negationis. o sagrado permanece em Otto como uma instância completamente extra-humana: Afirmamos. à compaixão. suprema e doce paz. mais bela e mais querida. Como nas convicções do fundador do hassidismo.17 Da mesma forma que a experiência religiosa pode suscitar o sentimento do nada da criatura. à solidariedade. oferece ampla consolação. Os hassidim acreditavam que. Daí. à comunhão. que o divino é a realidade mais elevada. Mesmo na instância atrativa. que tentava descrever a interdependência entre Deus e a humanidade. em si mesmo. Deus não era nenhuma realidade externa. Mas. revela a natureza mais íntima de cada um que se inclina a ele. que suscita compaixão. portanto. Nosso começo pretende interrogar o que significa ser “nada” perante um “tudo”. coroamento de tudo o que um homem pode conceber.indd 35 16/3/2010 09:38:26 . dizemos que não é só o fundamento e o superlativo de tudo o que é concebível. essa mesma experiência pode se revelar como a celebração de uma ética afirmadora da existência. irradia amor e misericórdia. | 35 | Ética da reciprocidade. uma essência à parte. fascina.

desaparecendo em meio a fogo e fumaça (. quando o culto a Javé é subvertido ao paganismo popular (o culto a Baal). o Senhor prescreve um ritual de sanguinolência sem precedentes para a investidura dos sacerdotes.) indica que. tentando amarrar um fio condutor que pode se desfazer a cada noite.. Na Bíblia. o seu aspecto assustador. agora veio para ficar. quebra as tábuas da lei e induz os levitas a uma sangrenta e indiscriminada represália 18 Ibid. Em meio a essas instruções..31. No fundo. Javé expressa todo o seu aspecto tremendum.. segundo as palavras evocadas por ele em nome de Abraão – “não sou nada. cada conclusão. A elaboração de um estudo exige uma tarefa heroica de não se apavorar e prosseguir em frente tecendo laboriosamente o fio do sentido. quase infindavelmente.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mos desenvolvendo temáticas que emergem a cada passo. não raras vezes. e..indd 36 16/3/2010 09:38:27 . Em sua ira. uma pausa no pensar para irrigar o vigor desse mesmo pensar. não nos iludiremos: cada ponto será apenas uma vírgula. como nos mostram vários relatos míticos. tu és tudo”18 – traz à mostra o apagamento e o aniquilamento da criatura perante um poder soberano. O TUDO E O TRÁGICO Procuramos descrever que o modo de aparição do sagrado sob o aspecto revelado por Otto.) O Senhor (. O NaDa. com todo o seu aspecto aterrador. ou podiam armar uma trama que redundaria num destino trágico. p.. Moisés retorna do monte e descobre que o povo mergulhou na idolatria. como nos conta Jack Miles: Moisés volta ao monte por 40 dias e 40 noites. Os deuses gregos podiam tanto auxiliar e proteger os homens quanto aniquilá-los de um só golpe. Tal poder expressa. | 36 | Ética da reciprocidade.

Deus atinge a nação com uma praga. Essa criança pode ser interpretada como a nossa própria inocência diante de algumas situações que se apre19 Deus. acarreta um desfecho trágico? Esse aspecto tremendo expressa simbolicamente certas condições da existência. Apesar de reconhecermos o que descrevemos como um sentimento frequente em muitas pessoas ao procurarem uma ligação com o sagrado. a fim de não provocar a ira divina e conseguir manter-se sob a sua proteção. não consideramos que os problemas religiosos terminem aqui. Uma biografia. O que significa esse aspecto tremendo do sagrado? Em que medida ele resulta num esmagamento do ser humano.19 Estamos diante de uma imagem dramática. p. | 37 | Ética da reciprocidade. e. levantando algumas questões. cozinharam-no. o cenário descrito é o nosso começo. quando o deus ainda se chamava Zagreu. a seguir.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica contra os israelitas. Os Titãs o dilaceraram criança pequena.indd 37 16/3/2010 09:38:27 . e. São Paulo: Companhia Das Letras. Deus prova que em suas ações junto ao seu povo escolhido será tão violento e perigoso quanto em sua primeira e assustadora aparição a eles. algumas situações da existência são sentidos como dilaceradores. Ocorre-nos uma passagem do mito de Dioniso. sob forma. e podem afetar sensivelmente o sentimento de determinação de nosso destino e de nossa personalidade. devastadores.136. por exemplo da hybris grega (a temida perda da medida divina) ou do pecado judaico-cristão. 1997. seja por pessoas ou situações que nos dão a impressão de nos machucar profundamente. o devoraram. Ao contrário. esmagadores. o ponto em que daremos início a nossa prosa. Milhares morrem. do sentimento de ser como que despedaçado. cuja insurreição contra os mandamentos divinos. além disso. Alguns golpes do destino. Todos experimentamos a experiência da dilaceração. em que o ser humano parece não ter qualquer outra possibilidade a não ser submeter-se ao sagrado da melhor forma que puder.

ou seja. 1987 (Os pensadores). Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida. E algumas delas soam como titânicas.43. todos desamarrados. voltar. estamos soltos. O pensamento grego expressou bem isso: nem Zeus pode com as Moiras. o que parece restar é. Sua tecedura não tem apelação. Esses liames podem ser compreendidos simbolicamente como os sentidos que tecemos ao longo de nossa vida. XIX). O sagrado confunde-se com a noção de destino. p. finalmente.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO sentam a nós. é o destino inevitável. o todoPoderoso pai dos deuses e dos homens pode com elas! Ele é uma espécie de zelador do que está decretado pela Moira. mas nunca lhes é superior. quanto ao qual nada se pode fazer. Significam. E. Elas constituem as tramas de nossa vida. Láquesis é aquela que mede o tamanho do fio. | 38 | Ética da reciprocidade.20 Ao experimentarmos algumas formas do trágico. através do ato do corte. o indivíduo se sente anulado e impotente perante o sagrado.indd 38 16/3/2010 09:38:28 . em outras palavras. Tal feição nos leva a pensar o destino. o sentimento do nada da criatura. No sentimento do nada da criatura. Essa noção mítica grega acabou desmembrando-se em três personagens: Cloto é a fiandeira. a seguir cozidos e devorados. do verbo trepein. São Paulo: Nova Cultural. Quando Átropos. o sentimento de ser violentado. quando muito o pai dos deuses e dos homens é nivelado a elas. Sentimo-nos como se fôssemos dilacerados. os liames são todos desfeitos. de fato. é a que corta o fio. Ela tece nada menos que o fio das tramas da vida de cada pessoa. literalmente. Átropos. de nosso destino. Em Ensaios I (cap. a dilaceração. nem Zeus. desligados 20 Montaigne refletindo sobre a morte observa que “a sorte aguarda por vezes  nosso último dia. a extensão da vida. a que não volta atrás. o sofrer. sentimo-nos como se não sobrasse nada de nós. o destino. como a morte. a fim de nos fazer compreender o poder que possui de derrubar em um instante o que custou longos anos para edificar”. corta o fio da vida. logo Átropos é a que não volta atrás. As Moiras determinam o destino sem apelação. As Moiras são símbolos da fatalidade.

Eles celebram. beatíficos e conciliadores. tanto quanto os acontecimentos sublimes. como a perda de entes queridos. a sua condição. quer dizer. Nesses mitos. A dupla condição finitude-transcendência aparece bem nítida no jogo morte-renascimento que envolve Dioniso. e. despedaçado brutalmente pelos Titãs e renascido sob o nome e forma definitiva de Dioniso. observamos que o próprio princípio sagrado se submete a uma espécie de finitude para poder revelar a sua transcendência. reingressar na infinitude. ressurgiram renovados. ou a morte simbólica. conciliação e dilaceramento compõem o sagrado. que. Essa conjugação de vida e morte. imersos no não sentido. promoveu o seu renascimento e. desde então. Estamos volta e meia diante de golpes do destino. Vendo-os. a sua existência. Ele. Osiris se torna também o deus dos mortos. No campo da religião. afinal. certos acontecimentos de conotação aparentemente trágica fazem parte do destino das divindades. desligados daquelas realidades com as quais nos identificávamos. deve morrer para poder ressurgir transmutado. sendo a deusa da magia. geração e destruição. o mistério que permeia as | 39 | Ética da reciprocidade. Cristo e Osíris em um simbolismo afim. mas em um renascimento transmutado no mito de Zagreu.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica do que nos amarrava. o aspecto tremendum dos deuses. nada menos que um princípio divino.indd 39 16/3/2010 09:38:28 . Todos foram deuses que sofreram um violento martírio e. Osíris foi assassinado por seu irmão Set. as perdas sentidas por nós como irreparáveis. também. como envelhecimento. Na Grécia antiga podemos reconhecer o tema do despedaçamento ou fim ­ trágico que implique não apenas em uma morte. A morte como fato inexorável. Seus pedaços foram recuperados por sua irmã-esposa Ísis. espelham a si próprios. Volta e meia a vida nos apresenta a morte. Cristo pregado na cruz é uma imagem da tensão culminante entre a finitude e a transcendência. a seguir. Vários povos não olvidam esse duplo aspecto da existência. traumáticas e dolorosas. estamos. assim. o grande deus das religiões populares.

o sentimento de dilaceração do eu. a morte.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO definições e as concepções tradicionais. símbolos e ritos para fazer frente à torrencial avalanche de situações-limite postas diante de nós e impostas pelo próprio existir. O “totalmente outro”. desenvolvendo noções acerca do que é “bom”. (Mysterium Tremendum). Elas apontam para uma articulação entre o sagrado e a noção do destino. o renascimento. qual seja. Ao expor o “estado de criatura” cuja máxima reza que o indivíduo afirma-se como não sou nada. mistério que deixa a todos espantados. cap.4. reconhecermos uma separação tão drástica entre o humano e o sagrado. e sente o sagrado como um “totalmente outro”21. tentando responder às inquietações através de mitos. Quem evoca uma manifestação do sagrado está. portanto. B. O estado de criatura. constatamos em tal concepção um fosso entre o ser humano e o sagrado. por exemplo. na tentativa de organizar. por exemplo. da dor. de caráter ontológico. encontramo-nos diante das perdas. o tempo. de se ver reduzido a pó e cinzas. assim como do que é “mau”. a religião celebra a existência em todos os seus matizes: celebra o trágico. das rupturas. p. Essa dimensão ontológica nos faz lembrar que a esfera religiosa permite experimentar as condições radicais da existência: a morte. apresentado por Otto faz vir a lume um sentimento que se apresenta ao longo de nossa existência. no entanto. como observamos nas Moiras. a vida. é uma constante em diversas religiões. As diversas culturas e tradições interpretam e expressam a existência em sua complexidade. tecer e manter ligadas as tramas dos sentidos que se formam e com os quais as pessoas se identificam. tu és tudo. na teologia e na metafísica ocidental. A distinção entre a condição humana e o sagrado encontramos. quando. a preocupação com os fins últimos da alma. 5. a superação. | 40 | Ética da reciprocidade. o êxtase.indd 40 16/3/2010 09:38:28 . ideias. de não ser nada.38 e ss. Dessa forma. Não é à toa que a escatologia. também. de uma forma ou de 21 O  sagrado. sem.

ele pretende ascender ao conhecimento das realidades em si mesmas. Para Otto. perfeição e verdade ao fundamento supremo. de barganhar com ele. as semelhanças de seu pensamento com a metafísica se detêm aí.. visa o supremo bem pelo desenvolvimento da ação virtuosa. quando. o ser e o princípio transcendente. 22 Ibid. o campo da metafísica. do sagrado enquanto poder soberano: essa soberania transforma a plenitude de “poder” do tremendum em plenitude de “ser”22. CONFRONTO Da FENOMENOLOGIa DE OTTO COM a METaFÍSICa A afirmação de uma absoluta realidade transcendente vai fundar. o homem mantém uma relação com o ser: mediante a elaboração racional. sua imbricação com o ser. mas. o sagrado é associado a categorias como o ser e o absoluto. por mais que sua alma se esforce. Quando lançados na experiência religiosa. E a existência nada mais é do que o nosso próprio destino. de recriá-lo. Ele as relaciona com o sentimento da soberania absoluta. o destino: seja pelo desejo de alterá-lo. na filosofia. de compreendê-lo. p. de aceitá-lo. cujas respostas suscitam novas inquietações. esfera divina. isto é. articulando.indd 41 16/3/2010 09:38:29 . empenha-se em elevar a sua alma a um mundo perfeito. No pensamento metafísico. para o qual apelamos incessantemente uma imagem ou palavra que faça sentido. Se Otto reconhece um caráter ontológico do sagrado. na verdade. numa unidade indissociável. o fundamento absoluto é atribuído ao ser. semelhante ao que postula a metafísica. Quer dizer: o homem não se nivela em dignidade. | 41 | Ética da reciprocidade. essa vivência estranha e arrebatadora é quem nos interpela sobre um sentido para a existência. defrontando-se com a mais extrema experiência.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica outra. 31. o sagrado é como um oráculo onipresente.

no entanto. antes de mais nada. para além da moral e da metafísica. Para Otto.173-4.23 O sagrado é sentido em primeiro lugar como inefável. a racionalidade como ascese ao sagrado.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A principal diferença entre as análises de Otto e o pensamento metafísico reside no papel da razão. Os elementos são para ele formas a priori do fenômeno religioso. O sagrado é.”24 Assim. Mas não devemos tomar um passo em falso e concluir que isso interdita o pensamento a contemplar o sagrado.. Esse é o processo pelo qual o numinoso é penetrado por elementos racionais. e tudo que está implicado na razão como fundamento metafísico: a ética. ao longo do desenvolvimento das concepções referentes ao sagrado. p. isto é. permanece sempre no fundo o elemento imperscrutável.. Pareceu-nos. a justificação da ideia de uma esfera divina por um crivo que visa transformar o mistério no inteligível. A seguir. nas imagens e nas conceituações do sagrado. O que tem caráter sagrado é basicamente sentido. Ibid. de uma finalidade metafísica.177. como na música: “O que na música se pode captar por conceitos já não é a própria música. 23 | 42 | Ética da reciprocidade. ele é “penetrado” pelos elementos racionais.indd 42 16/3/2010 09:38:29 . a que chama o numinoso. Otto procura desvendar a relação entre os elementos racionais e irracionais nos sentimentos. irracional e a-moral. uma categoria de interpretação e de avaliação complexa: Talvez aqui possamos reconhecer indicações da influência do pensamento de  Schleiermacher. No entanto. que supera todas as categorias conceituais. Otto procura destrinchar o traço mais marcante do sagrado. que Otto avalia que o mais fundamental é a dimensão de mistério. somente a razão não pode dar conta dos fenômenos sagrados. Ele pode ser pensado. 24 Ibid. graças aos quais entra no domínio do compreensível. o valor do ser humano. ou seja. Otto afirma que a religião não está sob a dependência nem do telos. nem do ethos (no sentido de moral). O estado “rude” é ultrapassado à medida que o numen se “revela” à consciência e ao sentimento. p.

Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica

compreende um elemento com uma qualidade absolutamente especial, que escapa a tudo o que chamamos racional, constituindo, enquanto tal, algo de inefável. Apesar de não ser muito proveitoso achar um nome especial para identificar a natureza mais própria do sagrado, Otto escolhe um termo, ao menos provisoriamente, para designar o elemento que bem caracterize o sagrado, abstraindo do seu elemento moral e, acrescente-se, de todo elemento racional. Otto designa tal elemento como o numinoso.25
Falo de uma categoria numinosa como de uma categoria especial de interpretação e de avaliação e, da mesma maneira, de um estado de alma numinoso que se manifesta quando esta categoria se aplica, isto é, sempre que um objeto se concebe como numinoso. Esta categoria é absolutamente sui generis; como todo o dado originário e fundamental, é objeto não de definição no sentido estrito da palavra, mas somente de exame.26

Observando a metafísica seguindo as coordenadas de Otto acerca do fenômeno religioso, concluímos que ela representa um esforço de domesticação do avassalador poder do sagrado, a que Otto chama majestas. Esse poder não pode ser comparado com nada conhecido, corresponde a uma “preponderância absoluta”, que se acrescenta a uma “inacessibilidade absoluta”. A metafísica, no que diz respeito à referência a uma realidade divina, passou a montar, através do discurso, um sistema teórico para justificar a relação entre o divino e o ser. Julián Marías nos dá um fiel retrato dessa mentalidade, quando procura descrever o momento do surgimento da filosofia na Grécia. Ele conclui
De numen, designação latina para divindade, poder divino, vontade divina.  Também significa, em sentido abstrato, majestade poder, grandeza. 26 O sagrado, p. 13-5.
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que o homem-filósofo começa a dispensar a magia e o mito: sua investigação acerca do “transfundo oculto das coisas manifestas”, ou seja, em última análise acerca do ser, “já não é mais um passivo recorrer ao oráculo; é dirigir-se ao que toma como realidade e obrigá-la a responder”.27 No desenvolvimento da metafísica grega, o fundamento divino se torna o resultado de um debate em praça pública, de um combate entre ideias. O ser resulta de uma pesquisa operada por um logos que passa a significar o discurso produzido pelo pensamento racional, imbuído de uma lógica que procura anular as contradições. Tal proposta de racionalidade tenta colocar, de um lado, o verdadeiro, o ser, o divino, o bem, o belo, a virtude, a medida, a alma, o conhecimento, e, de outro, combatendo-o sistematicamente, o falso, o nada, o mal, o erro, a desmesura, a ignorância. Roberto Machado comentando a obra de Nietzsche Assim falou Zaratustra, entende a metafísica como uma máquina de produção de dicotomias: um mecanismo criado para cindir as interpretações da realidade, a fim de dar ordem ao sentimento de caos no mundo, mais exatamente, segundo o pensamento de Machado, “a metafísica é incapaz de expressar o mundo, em sua tragicidade, pela prevalência que concede à verdade em detrimento da ilusão, ou pela oposição que estabelece entre a essência e a aparência”.28 Esbocemos uma definição genérica de metafísica.29 Ela designa os sistemas de pensamento que pretendem dizer o que é o
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Idea de la metafísica. 3a ed., Columba, 1962, p.15. Z  aratustra, tragédia nietzscheana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p.12. Gostaríamos de acrescentar que o mundo em sua tragicidade significa “aceitar o sofrimento como parte integrante da vida”. Palestra proferida no ciclo de debates A cena cultural, I – Os heróis: épico e trágico. Rio de Janeiro, 1999. 29 Uma apreciação ampla e que considera meticulosamente inúmeros aspectos  relevantes da metafísica, assim como a sua articulação, podemos encontrar no texto de Emmanuel Carneiro Leão “Metafísica e pensamento”. Em Aprendendo a pensar Vol. II. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 121-9. | 44 |

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ser, em que ele consiste, o que ele funda, qual a sua origem, assim como situar o ser humano em relação ao ser. O conceito de ser adquire tamanha importância, na Grécia filosófica, que se torna associado à ideia de uma divindade ou princípio supremo: Apolo (Sócrates), Demiurgo (Platão), Deus (Aristóteles). Ao lermos Otto, voltamo-nos para observar de perto uma das faces do sagrado, aquela em que ele é sentido como o indomesticável, o que não se enquadra em nenhum conceito, e, acrescentamos, o que abre sempre para novas possibilidades de significação, institui um permanente mistério, não se sujeita a uma única logia (psicologia, teologia, antropologia, sociologia, cosmologia etc.). O sagrado é “irracional” na medida em que se opõe às metafísicas que elaboram valores e definições unilaterais. Esse tipo de arquitetura mental acerca do ser omite a complexidade das várias dimensões que interagem permanentemente umas com as outras. A ética (concepções do bem e do mal), o conhecimento, o divino, o ser humano, a natureza, os símbolos se articulam intimamente. Tudo isso se encontra imbricado mutuamente, de tal forma que se torna insuficiente deter-se na proposição da cisão radical entre o “bem” e o “mal”, o “verdadeiro” e o “falso”, o ser e o nada, a imagem e o discurso. É interessante, no estudo desenvolvido por Otto acerca do fenômeno religioso, a consideração do sagrado de forma mais abrangente do que as ideias que tiveram a sua gestação na perspectiva metafísica racionalista grega, conferindo ao fenômeno religioso, ou melhor, restituindo a ele a dimensão do sentimento, da corporeidade, do mistério. Deus não é apenas objeto de uma razão rigorosamente ordenadora das realidades a partir do enfoque discursivo. Deus é compreendido por uma vivência, pelo sentimento. Ao mesmo tempo, o autor nos faz lembrar que Deus tem vida, o que aparece nas expressões simbólicas de paixão, vontade, força, movimento, excitação, atividade, impulso. De acordo com Otto: “A ‘omnipotentia Dei’ afirmada por Lutero no ‘De servo
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arbitrio’ é unicamente a síntese entre majestas, enquanto soberania absoluta, e a ‘energia’ enquanto força do Deus que não conhece nem obstáculo nem repouso, que age e subjuga, do Deus ‘vivo’ [grifos nossos].” Otto prossegue a sua análise em um estilo arrebatador:
No misticismo também aparece este elemento de energia na sua poderosa vitalidade, pelo menos no misticismo “vo­ luntarista”, o do amor. Encontramo-lo sob uma forma ver­ dadeiramente impressionante, no ardor devorador e na impetuosidade do amor cuja aproximação o místico mal ­ pode suportar; esmagado por este poder, pede que se atenue, para não morrer.30

Vitalidade quer dizer também que o sagrado apresenta uma espécie de temperamento, ele pulsa, por vezes até carregado de eletricidade que descarrega sobre o povo quando irado. Se o sagrado, até na forma de Deus, pode mostrar ira31, provocar temor, podemos, então, admitir que não há solução de continuidade entre os deuses e o Deus monoteísta. Para Otto, o parentesco teria a ver com o sentimento do majestas, do tremendum, do terror que inspira o que possui o caráter sagrado. O elemento de terror
desconcerta quem na divindade apenas quer admitir bondade, doçura, amor, familiaridade e, em geral, os atributos que unicamente se relacionam com a sua face voltada para o mundo. Esta ira, que muitas vezes se chama “natural” e que, na realidade, não é nada natural, já que é numinosa, se racionaliza, saturando-se de elementos éticos, de ordem racio30 31

O sagrado, p. 34-5. Segundo um místico que Otto não revela, “o amor” não é mais do que uma  cólera extinta”. Ibid., p.35. | 46 |

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E imaginou o seu projeto através de um pensamento que engendra uma lógica que acolhe certas realidades em detrimentos de outras. encontramos valores em jogo por detrás do cenário fleumático dos debates filosóficos..Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica nal. que se esforçavam por conferir ao ser absoluto um caráter de objetividade e moralidade. justiça distributiva que pune as transgressões morais. Mas. P  sicologia e religião oriental.. como lembra Jung.33 A metafísica antiga e medieval tentou demonstrar a existência de um princípio divino. §764. p. 1986 (Obras completa. Um Deus com a cara dos valores cultuados por grupos intelectuais e religiosos. que o Deuslogos racional é um Deus igualmente antropomórfico. p.29.32 Os filósofos metafísicos rejeitaram um temperamento para Deus.3.indd 47 16/3/2010 09:38:31 . acusando tal avaliação de antropomorfismo. Se esse método é problemático para a filosofia (especialmente a partir do pensa32 33 Ibid.. e basear tal proposição somente na argumentação. pelo menos. Mas importa observar que na noção bíblica da justiça divina este novo conteúdo permanece sempre misturado com o elemento primitivo. como bem apontou Nietzsche. Não percebem. sem se dar conta de que.) a natureza insustentável de quaisquer afirmações metafísicas e admitir que não existe uma possibilidade de provar que a inteligência humana é capaz de arrancar-se a si mesma do tremedal [pântano]. um caráter irascível. Petrópolis: Vozes. | 47 | Ética da reciprocidade. vol. (. puxando-se pelos próprios cabelos. no entanto. XI). os da justiça divina. ou. provavelmente inspirado em Kant. qualquer pensador honesto é obrigado a reconhecer a insegurança de todas as posições metafísicas. 3a ed.

tal procedimento não passa de uma crença supersticiosa e soberba: que reduzindo a variedade das representações mítico-religiosas a um Deus único. ao contrário. a qualquer expectativa. como bem situou Gilberto Kujawski: “Como posso saber que o transcendente não me responde. | 48 | Ética da reciprocidade. Ela se origina. do mal. estaremos decifrando integralmente o que “é” o sagrado e. para Otto.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mento moderno). um evocar o sagrado para uma aparição diante de nós. não se submete a nada. pelo contrário. por extensão. e submetendo esse Deus à “razão”. procuramos nos familiarizar ­ com a estranheza originária que suscita o numinoso. se não o interrogo? Toda interrogação é uma provocação. que estaremos resguardados do caos. Para Otto. do sofrimento. o sagrado. Só interrogando a transcendência esta se manifesta. a relação entre o ser humano e um outro de caráter sagrado. e. o pensamento deve abordar o sagrado como se fosse uma provocação. na relação fundamental constituinte do fenômeno religioso. da ignorância. Nesse caminhar.” 34 Não é vão para o pensamento o esforço de penetrar no mundo do sagrado. o que resta ao pensamento perante o sagrado? Admitimos as problemáticas levantadas por Otto no estudo da religião. enfim. portanto. 1994. do absurdo. do esquecimento. Deus origina-se de uma experiência originária. segundo Otto. e provocare significa ‘chamar para fora’. mas consideramos que elas não devem intimidar o pensamento. São Paulo: Ática. da injustiça. quebrando o selo do indevassável. Verificamos que tanto na metafísica quanto na ima34 O sagrado existe. escapa a todos os conceitos. do trágico.indd 48 16/3/2010 09:38:31 . vem para fora. O RENaSCIMENTO DO SER HUMaNO À LUZ DO SER Diante de tal levantamento de problemas para a presente investigação. p.18. às apreciações morais.

No entanto. ela não só mantém uma separação entre o ser humano e o sagrado. Rudolf Otto enriquece a paisagem do sagrado ao dilatar o horizonte da sua apreciação. As considerações do autor nos permitem descobrir que o sagrado é uma noção complexa. como a amplia consideravelmente. não diriam: “O Bom Deus”. Otto cita inúmeros autores: místicos. religiosos e filósofos. incompreensível e absolutamente inimaginável fosse igual a elas. na qual o ser humano. Se estivessem penetradas da sua grandeza deixar-se-iam de palavras | 49 | Ética da reciprocidade. o sentido de que a realidade humana se anula completamente frente à realidade sagrada. Caso contrário. aquela em que o sagrado instiga o sentimento do nada que se é perante o tudo do sagrado. o sagrado permanece como uma realidade absolutamente distinta da condição humana. teólogos. Na metafísica. Otto nos orienta para a dimensão do tremendum.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica ginação que somente admite o sagrado como o “totalmente outro” existe uma separação entre o ser humano e o sagrado. qual seja. por outro lado. pode reduzir a sua ampla significação a um sentido que parece deixar completamente de lado o ser humano.indd 49 16/3/2010 09:38:32 . tal concepção recusa-se a adequar o sagrado aos moldes da metafísica. Temos aí um considerável ganho na pesquisa sobre religião. E na dimensão fascinosum. geralmente em êxtase. se o “totalmente outro” não for suficientemente pensado e experimentado. quer ascender a ele ou ser tomado por ele. Se. o que pode alcançar extremos de se pensar que se é nada mais do que pó e cinzas. aspira a uma união com o numen. por um lado. o que abre as portas para o enriquecimento da investigação. entre eles Goethe: As pessoas tratam o nome divino como se o Ser supremo. essa separação não atinge o extremismo e a dramaticidade que apresentam as análises de Otto acerca da concepção de uma alteridade absoluta. Para ilustrar tal distinção.

não se anula completamente perante o divino. A metafísica não desconsiderou o ser humano como determinadas vivências do “estado de criatura’”. vale alguma coisa. assim forma-se a ideia de um ser-para o divino. O ser humano torna-se um ser que deve se elevar aos valores divinos. Não há mais o ser humano 35 Escrito a Eckermann. p. o ser humano aparece como corresponsável pelo seu destino. em 31 de dezembro de 1823. nota 2. não se reduz a ver-se submetido ao divino como um boneco manipulado por cordas invisíveis e irrevogáveis. na metafísica de Platão. o pensamento socrático.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO e. Citado por Otto.indd 50 16/3/2010 09:38:32 . | 50 | Ética da reciprocidade. Ao contrário. como veneração. O indivíduo. ele. O sagra do. ética.35 Na metafísica. seu telos (meta) é a exaltação da existência.46. política. o que significa uma valoração ainda maior da existência e dos problemas humanos. ao menos. a referência a um plano arquetípico como modelo para o ser humano é deixada um pouco de lado em prol da edificação de uma ética constituída no mundo. espiritual. que desenvolve. Só para citar alguns exemplos clássicos: Sócrates dá um vigoroso impulso à filosofia para pensar o ser humano. em que o indivíduo é pó e cinzas. na medida em que abre mão de especular sobre a realidade cosmogônica para centrar suas atenções na alma. A ética se constitui com o sagrado. Se na metafísica ela não se justifica sem a realidade supra-humana. E aqui reside a principal contribuição do pensamento metafísico para a nossa investigação do campo da religião: a dimensão antropológica. apesar de se considerar o ser humano distinto da pura essência transcendente. segundo um sentido de divinização da existência. até certo ponto. não ousariam sequer pronunciar o seu nome. Em Aristóteles. fundando a antropologia filosófica. promovendo uma virada no pensar. o ser humano é um ser passível de evolução cognitiva. na metafísica.

Na metafísica. ou seja. O outro do sagrado se torna de fato um completo estranho. p. E Jung se refere. Ele define esse mesmo objeto como inacessível e inconcebível.36 Jung discorda de Otto quanto a se tornar o cerne da expe­ riência religiosa a partir do horizonte de um “totalmente outro”. Deus: “É totalmente impensável. nessa pontuação. não basta apenas a praxis ritual: o indivíduo tem que manter uma ação ética constante se quiser religar-se com o divino. o sagrado e o humano. mais elaboradas. o indivíduo deve desenvolver uma ética. que provoca na alma um interesse que não se pode dominar. ao invés de esmagá-lo e anulá-lo. unir-se a ele. do ponto de 36 O sagrado. Isso é de sua responsabilidade. o fundamento de excelência o alicia. seja pela prática da devoção. seja mais exato pensarmos num projeto da metafísica que visa a integração do indivíduo com Deus do que numa anulação do indivíduo perante Deus. seja pela caridade. O “totalmente outro” é algo que não entra em nossa esfera de realidade. seja por uma compreensão racional do divino. de outro. anulando-se completamente. o que é o numinoso em si mesmo. Deixando de lado o ser humano. a concepção que só reconhece o sagrado como um “totalmente outro” isola ambas as instâncias. | 51 | Ética da reciprocidade. No contexto do mundo medieval.indd 51 16/3/2010 09:38:33 . Mas. Se ele quer ser assimilado ao princípio originário. a uma das formas do numinoso. tornando inviável uma efetiva relação. para promover tal integração. Há um ser relacionado com o transcendente. recua: é o “totalmente outro”. mas pertence a uma ordem de realidade absolutamente oposta à realidade humana. exterior ao eu. seja extaticamente. a realidade suprema descarregando todo o seu incomensurável poder. o ser humano deseja unificar-se com Deus. um totalmente outro. Otto pergunta qual a natureza e a qualidade do objeto.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica de um lado. talvez. reduzido a cinzas e.41. que pressentimos. perante o qual minha consciência mais do que espantar-se. E.

no que concerne a sua dimensão que se estende na direção do humano e do mundo. restrito à magia. ao rito e aos rudimentos de uma mitologia. ou seja.23. ao se deparar com o que toma por numinoso. a concepção de “um totalmente outro” não leva em conta a totalidade da experiência originária promovida por uma vivência do sagrado. Dessa forma. o totalmente outro.8. que Deus seja apenas o “totalmente outro”. com raras exceções.38 De fato. a submissão. Mas. vol. nota 4. no Ocidente. a única realidade existente. Petrópolis: Vozes. como diz Kierkegaard. 1991 (Obras comp. a penitência. vê-se despertado pelo sentimento do numinoso. A grande potência não é o homem.indd 52 16/3/2010 09:38:33 .LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO vista psicológico. e conclui com relação ao homem ocidental: Para ele. P  sicologia e alquimia. a auto-humilhação. as promessas. mas um “totaliter aliter”. 37 | 52 | Ética da reciprocidade. Acrescenta-se a isso o fato de que. 38 Psicologia e religião oriental. um quase nada.. pois o “totalmente outro” não pode ser o íntimo mais íntimo da alma – e Deus é. p. XII). §772. a criatura humana é algo de infinitamente pequeno. §11. lembremo-nos que Otto se refere ao “totalmente outro” quando pensa em Abraão. Jung nota o amplo alcance da ideia de um “totalmente outro”. as obras e os louvores. pelo menos. “o homem está sempre em falta diante de Deus”. O homem procura conciliar os favores da grande potência mediante o temor. p.”37 Pode-se contra-argumentar que o “totalmente outro” seria uma noção mais adequada a um estádio pré-religioso. quando ele se depara com a absoluta superioridade de poder: é o sentimento do nada da criatura. Ou seja: para Otto. mas toma o numinoso necessariamente como fora dele. o ser humano. absolutamente perfeito e exterior.

ela resgata a polaridade antropológica da relação entre o ser humano e o sagrado.Matrizes da experiência religiosa: o “totalmente outro” e a metafísica O ESQUECIMENTO DO SER HUMaNO E O ESQUECIMENTO DO SaGRaDO O “totalmente outro” é uma proposição que nos interessa. O sagrado sob essa imagem frequentemente adquire feições dramáticas: o “tremendo”. O homem aparece. Deus). Interpretamos os deuses nessa forma como a expressão fiel de como nos sentimos perante a existência quando lançados no trágico: na dor. que procura trazer ao campo religioso a dimensão ética. por vezes “sinistro”.indd 53 16/3/2010 09:38:33 . por um lado. uma comparação entre a concepção do “totalmente outro” e a metafísica. Ao visar uma ética que reúne o ser humano ao fundamento sagrado (o ser. o belo. a lógica que rejeita a contradição. O nosso ponto de partida residiu na tentativa de compreender um pouco melhor a concepção do sagrado como o “totalmente outro”. a seguir. Estabelecemos. a metafísica tenta resgatar o ser humano do trágico. Nisso. Ela é o contraponto de nossa argumentação que reconhece o sagrado também a partir de um modo relacional. o que causa “tremor e temor”. a desconsideração das paixões e do desejo. perdido no aniquilamento de um indivíduo reduzido a cinzas. no absurdo. Maria Helena Cunha nota que é própria do pensamento reflexivo a dissociação dos referenciais sujeito-objeto. mas acaba levando a associação entre o ser e o divino a uma espécie de domesticação aos moldes de determinados valores: o bem. retomar o fio do sentido. como um ser livre. enquanto no pensamento intuitivo e na vivência processa-se o contrário. inventando e fundando a sua exis| 53 | Ética da reciprocidade. o “terrível”. no sentimento de aniquilação do eu. segundo um pensamento que considera o ser humano como uma trama de relações. na perda do sentido. Essas significações nos fizeram estabelecer uma associação entre o sagrado e o aspecto trágico da existência. o que mostra uma ira tenebrosa.

submetido a limitações. e a metafísica porque não mais tem em conta o sagrado em sua totalidade.39 E assim. uma proposição de religação com o sagrado. | 54 | Ética da reciprocidade. daqui em diante. discurso esse que só se detém em parte perante a exaltação da fé na filosofia e na mística medieval. 39 Espaço real. a contrariedades. A imagem não representa a coisa. (. permanecendo mais do que um estranho.) O universo mitológico não conhece distinção entre mundo do ser imediato e mundo da significação mediata. ela é a coisa. e por outro. nem considera o sagrado inteiramente deduzido de critérios racionais.indd 54 16/3/2010 09:38:34 . 1998. p. basicamente. esquece a pessoa.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO tência. e tenta domá-lo na medida em que nos apresenta um discurso que anseia por encontrar respostas racionais.108. Acompanhemos. 2a ed. um interdito ao ser humano. espaço imaginário.. A primeira porque.. Rio de Janeiro: Uapê. tanto a convicção que só reconhece um “totalmente outro” quanto a metafísica deixam de considerar devidamente aspectos relevantes da relação entre o ser humano e o sagrado. e com isso invade o território do mistério. que se recusa a considerar a experiência religiosa como da ordem exclusiva do que está à parte da existência.

Capítulo II Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber | 55 | Ética da reciprocidade.indd 55 16/3/2010 09:38:37 .

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quer isso dizer: ele é constituído na relação Eu e Tu. procuramos um pensar que não submeta o ser humano a uma concepção de experiência religiosa em que ele se mantém como uma peça secundária.EU E TU COMO UMa RELaÇÃO ORIGINÁRIa ENTRE O SER HUMaNO E O SaGRaDO Na leitura de Martin Buber. com o qual o eu se depara. Quando o numi| 57 | Ética da reciprocidade.indd 57 16/3/2010 09:38:37 . A confrontação entre um pensamento que adota a perspectiva relacional e dialogal e a fenomenologia de Otto concernente a determinadas concepções acerca do sagrado atinge o ponto máximo de tensão quando Otto descreve uma imagem do sagrado segundo a forma dicotômica que marca uma rigorosa separação entre o eu e a realidade objetiva. Ele é apresentado como fundamento constituinte de uma relação. ou melhor. Não é mais o único polo central da experiência religiosa. O que anuncia o pensamento dialógico a modo Eu e Tu é que o cenário religioso. No âmbito do Eu e Tu. entre um eu e um “objeto” exterior a ele. evoca-o para a relação com o sagrado. a comunidade formam uma identidade relacional. o sagrado. chamou-nos a atenção a apresenta- ção de uma determinada modalidade da experiência religiosa em que o sagrado se inscreve como relação. A tese que aceita o sagrado como um Tu é a de que o sagrado. a pessoa. ao invés de excluir o ser humano.

em que se pressente algo de caráter numinoso. Na página 59 de O sagrado. em que a alma se desvia de si própria para este objeto. referindo-se ao aspecto atrativo do sagrado. tomado de estupefação.. está relacionado ao objeto existente fora do eu. frente ao numinoso. o desviar da alma está relacionado ao numinoso como objeto exterior ao eu.”40 A alma se desvia de si própria? A experiência do sagrado também remete a alma a si própria. Jacyntho J.41. como no caso de Abraão. Pois esta é a grande descoberta que Teresa pretende divulgar: Deus habita no mais íntimo da alma. p. perante a estupefação que suscita41. Segundo essa forma. mas. Otto afirma. segundo Otto. | 58 | Ética da reciprocidade.indd 58 16/3/2010 09:38:38 . tampouco o encontro com o sagrado produz necessariamente um recuo. Brandão ratifica uma identidade de essência entre a alma e Deus. observa Otto: “É só aqui que se experimenta a presença do numen. Entendemos esse “desvio” da alma para o “objeto” numinoso como algo distinto da experiência mística. Ibid. ocorre uma cisão completa entre sujeito e objeto: o sagrado só é admitido como um absoluto transcendente e como uma realidade em tudo superior à esfera humana. remetimento. Pois. p.L.20. Na introdução da célebre obra de Santa Teresa d’Ávila Castelo interior ou moradas. debato-me com uma realidade inco mensurável perante a qual recuo. Otto acredita que. Da mesma forma em que não há sempre desvio. Tal verdade – compreendida por ela através da experiência – é das formulações mais antigas de seu pensamento.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO noso é experimentado sob a forma de um “totalmente outro”. que admitiam essa pre40 41 O sagrado. Não confundimos o “desviar de si própria” da alma com o “sair de si” da alma (característico da mística). Contra ela se posicionaram inclusive vários de seus confessores. igualmente. que Deus é uma essência à parte. quando ela propõe um sair de si (caráter de êxtase).

é uma revelação que se abre na medida em que se aceita o sagrado como relação. nunca em essência. Rio de Janeiro: Paulinas. o totalmente presente. o que estudamos em Jung: o caráter “religioso” dos símbolos. como é presença. p. antes de mais nada. Teresa. Ao se remeter ao que é sentido como sagrado. p. Ela é uma descoberta. O símbolo religa o ego ao si-mesmo (self). porém. o caos etc. Sem dúvida. o trágico. igualmente. o feminino. O sagrado é com o indivíduo. não somente Deus se faz presente. ele é o ‘mysterium tremendum’ cuja aparição nos subjuga. o heroico. o renascimento. o masculino. à totalidade humana.indd 59 16/3/2010 09:38:38 . 1981. Assim.”44 A experiência religiosa enquanto Eu e Tu concebe o divino em um modo relacional e dialogal. mas Ele é também o mistério da evidência que me é mais próximo do que meu próprio Eu. o despedaçamento.8-9. Essa relação não está dada. a salvação. estabelece-se uma relação única.42 Ocorre-nos. o sublime. mas. Esse foi o tema  de nosso trabalho citado A psicologia do self e a função religiosa da alma. ao invés de meramente colocar-se sob a sua proteção ou a sua suposta lei.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber sença divina apenas através da graça. é clara: Deus se encontra na alma como se encontra no céu. 44 Eu e Tu. no qual se pode entrar através da oração. assim como por imagens e ideias que expressam as formas constituintes de sua existência: a morte. 42 43 | 59 | Ética da reciprocidade. um encontro singular. Ele é porém o totalmente mesmo. na medida em que o sagrado também se dirige a cada um. o ser humano vê sua alma tomada pelos símbolos que expressam a transcendência. Buber aposta que o princípio sagrado existe na medida de sua relação com o ser humano: na medida não somente em que o indivíduo o evoca.43 Buber acentua que. “Sem dúvida Deus é o ‘totalmente Outro’.92. além da mística. Por isso mesmo a própria alma é outro céu.

ele aparece igualmente como uma grande mãe acolhedora (por vezes acolhedora e simultaneamente temível). O sentido do simbólico liga-se a uma vivência que é ao mesmo tempo um encontro com o sagrado. Se Deus. como um ser ordenador do mundo. por mais excelente que seja a forma de sua concepção. pela sua própria essência o Tu Eterno não pode. comemoradas. por dogmas impostos a partir de relações hierarquizadas.indd 60 16/3/2010 09:38:39 . um objeto. O sagrado é da esfera do simbólico. por exemplo) e abstrações da linguagem. suas aparições. mas também.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Isso nos permite concluir que as imagens do sagrado formadas pela humanidade são criadas a partir de genuínos encontros com o sagrado. como o “totalmente próximo”. renovadas. tor| 60 | Ética da reciprocidade. a sua “verdade” (a sua argumentação). a partir da nossa vivência. sublimando a angústia e o desespero. como uma total alteridade. Deus permanece apenas um Isso. as formas de culto e veneração são esquecidas. se Deus se mantém numa metafísica e numa teologia sem que essa reflexão se insira na existência. do meu estudo. que dá guarita e sentido que insufla a salvação e a esperança. O sagrado pode ser experimentado e pensado como um objeto da minha crença. uma coisa. nunca é totalmente acabada a sua feição. manipulável pelas categorias a Ele imputadas pela excessiva formalização de ritos. como transgressor de todos os limites e ordenações. a modo de um permitir a existência igualmente revolver o pensamento. Ele próprio. e pela sua própria natureza. como um grande pai simbólico. No entanto. como o Si-mesmo. como uma máscara. como produto de uma fantasia. por exemplo. uma mandala representando a terra em relação ao cosmo. transformadas. pela pregação sacerdotal. o plano bidimensional em perspectiva. ele escapa a todas essas achegas. Em suma. permanece sobretudo como um princípio conceitual. Concebemos símbolos não apenas por racionalizações das formas (a geometria. e sobretudo. os seus contornos são meros esboços. rememoradas. Por exemplo.

como produto da visão de mundo de alguns povos. um impulso cada vez mais poderoso levou-os a pensarem no seu Tu Eterno e falar dele como de um Isso. ­ 45 Ibid. Deus não se circunscreve nem num além. por exemplo. Deus não pode ser afirmado apenas como um “totalmente outro”. reduz Deus à imanência. A ênfase no aspecto vivencial da experiência religiosa não nos convence a confiná-la no campo do irracional. apesar de ser manipulado e intencionado.. pensavam sempre no Tu. não se fala somente sobre Deus.45 A letra viva da palavra que se dirige a Deus e que se origina do encontro com Ele. Todos os nomes de Deus permanecem. relatos e dogmas. santificados. Os nomes entraram. mas. do inefável. O caráter existente de Deus amarra. volta e meia. na linguagem do Isso.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber nar-se um Isso.indd 61 16/3/2010 09:38:39 . 87. então. Donde se justifica a afirmação de que não apenas se fala “sobre Deus”. não por isso. do incognoscível. que aparece em revelações. Dessa forma. Quando cantavam aquele que era assim chamado. p. a experiência religiosa desenha uma noção complexa: simultaneamente afetiva e cognitiva. no entanto. mas. se fala “com Ele”. tampouco. nem num aquém. uma identidade íntima entre a pessoa e Deus. | 61 | Ética da reciprocidade. apenas antropologicamente. Para Buber. mas também se fala com Ele. como uma imagem psíquica originária de uma instância profunda do inconsciente. ou seja. por assim dizer. Os homens têm invocado o seu Tu eterno sob vários nomes. como um objeto. os primeiros mitos foram cantos de louvor. ou. tem o seu sentido rematado na confrontação de um existente com o Outro existente. apenas psicologicamente. O que ressalta uma argumentação dialógica é a articulação radical do pensamento com a vivência. pois. igualmente.

§3. concluímos que. numa relação com o Ser cognoscível de quem deriva todo significado. acentuamos a noção de existência referida ao campo do sagrado. descobrindo o sagrado pela relação que estabelece diretamente com ele. e não fora dela (através exclusivamente de mensagens “reveladas”. Analogamente. O ser humano na fé se depara a um só tempo com o desconhecido e com o familiar.46 Aqui.33. ainda assim. segundo essa perspectiva. Quando estudamos a experiência do sagrado como encontro. mas. como o encontro genuinamente recíproco na plenitude da vida.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A experiência religiosa apresenta uma abertura à compreensão e ao pensamento na medida em que possibilita um desvelamento do mistério que anuncia o fundamento sagrado. entende-se fé como a inserção nesta reciprocidade. com respeito ao âmago da experiência religiosa. também é um existente. entre uma existência ativa e outra. O Tu eterno. entre sujeito e objeto. A religião é entendida mais exatamente como um contato mútuo. sem deixar de ser um transcendente. III. a fé evoca o princípio sagrado como presença. como lhe confere um caráter ontológico de mesmo 46 Eclipse of God. chama-nos a atenção que não se trata de concebê-la como mera oposição metafísica entre o homem e o numinoso. e sim contemplá-la como um genuíno encontro – recíproco. Assim. Martin Buber confere não só uma dignidade ao ser humano quando se projeta numa dimensão religiosa da existência. p. Não apenas o ser humano é um existente. pois antes ele se via reduzido a não muito mais do que pó e cinzas. sujeitas a interpretações exteriores ao sujeito que se submete à experiência religiosa).indd 62 16/3/2010 09:38:39 . como o ligar-se numa relação com o Ser indemonstrável e não comprovável. nada menos que um encontro entre duas existências. | 62 | Ética da reciprocidade.

Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber

peso que a realidade sagrada, ao admitir a copertinência do ser humano e do sagrado à esfera da existência. Nesse ponto, Buber promove uma ruptura com a noção tradicional que põe de um lado o sagrado como o Ser, a essência, e, de outro, o ser humano como existente. A proposição de que a essência fundamenta a existência é uma tese metafísica veementemente contestada por Sartre, que sugere o justo contrário: é a existência que precede a essência. Até o presente momento, não encontramos em nossos estudos do pensamento de Buber uma discussão sobre quem tem a primazia ontológica: a essência ou a existência. A partir da leitura de sua obra, passamos a nos perguntar como podemos admitir o sagrado como existente. Ele se revela existente, por exemplo, no encontro com os seres humanos, na sua atualidade, vale dizer, no seu fazer-se presente junto com o ser humano, na inter-ação mútua que se estabelece entre o sagrado e o ser humano de tal forma que se funda uma ligação dialogada. O sagrado se faz presente com o ser humano: com a pessoa e com a comunidade. Evocar o sagrado implica também ser evocado. Ambos são com-vocados para um encontro místico, no seguinte aspecto da mística: ambos se chamam mutuamente ao êxtase, ao sair de si para o encontro e para o diálogo. Considerar apenas o sentido mais valioso da existência no ser humano ou no sagrado nada mais é do que instituir uma presença unilateral, donde se acredita na morte do sagrado ou na negação do ser humano. Sem a perspectiva da existência, ousaríamos concluir que “Deus” é, mas não existe. Sem se constituir como existente o sagrado é – um ser solitário e distante: abre-se um abismo incomensurável e sem pontes entre o ser humano e o sagrado. Na perspectiva do sagrado inserido na existência, esse abismo se mantém, pois o mistério permanece, no entanto, ele se enche de possibilidades. A relação entre o ser humano e o sagrado se constitui como possibilidade nos “fatos que não se veem”, que deixam
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em aberto o destino da relação, sem margem para antecipações ou controle. O encontro entre os seres humanos e o sagrado envolve a disponibilidade para o reconhecimento da sua presença mútua. “Quem conhece Deus, conhece, sem dúvida o distanciamento de Deus, e o tormento da seca que ameaça o coração angustiado, mas não a ausência de presença. Nós é que não estamos sempre presentes.”47 Na esfera da experiência religiosa, quando não nos fazemos copresentes com o sagrado, configura-se para Buber o modo EuIsso. O sagrado é, então, eclipsado, para usar um termo do próprio autor, pela visão de mundo da esfera do Isso. Ele é retratado como uma realidade fechada sobre si mesma, uma instância onde Deus e homem têm lugar rigorosamente marcado e papéis convencionados. Desse modo, o sagrado aparece simplesmente como um ser que não permite a ninguém algo mais do que permanecer como uma criança, ingênua e sem responsabilidade alguma, ou mesmo como um “não sou nada” perante um soberano da fatalidade, do universo e do sentido da existência. No que toca à reciprocidade quando o sagrado é visado como um Tu, o ser humano se apresenta perante ele sem desejar se anular para salvar-se num ideal de alteridade que projeta valores para fora da existência. Por isso, Buber acentua que “não é necessário o despojar-se do mundo sensível como um mundo de aparência. Não há mundo aparente, só existe o mundo que, sem dúvida, se nos revela duplo, visto que nossa atitude é dupla”.48 Buber quer enfatizar que não deseja sugerir com as instâncias Eu e Tu e Eu – Isso mais uma dicotomia que separa o mundo do divino, assim como cava uma fenda intransponível entre o campo do Isso e a esfera do Tu. Buber não pretende conceber uma sepa47 48

Eu e Tu, p.114. Ibid., p.89. | 64 |

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ração entre a alteridade experimentada como Tu do mundo da realidade humana em suas formas de objetivação, por exemplo, o campo das dinâmicas psíquicas nas quais o desejo se articula com os seus objetos, da intencionalidade do outro como objeto, enfim, o mundo do “Isso”. Se estamos explorando uma ontologia pas­ seando pelo Tu e pelo Isso, trata-se, não somente, de possibilidades que se apresentam no enlaçamento da pessoa com o sagrado, como, antes, de dois modos de ser fundamentais do ser humano. Eles mantêm uma relação dialética, pois ambos ajudam a definir um pouco o que é esse fenômeno, o ser humano. Esses modos não são campos fechados. Eles não se definem em si mesmos. Eles se põem em função da atitude que tomamos conosco e com o outro, em como lidamos com o nosso desejo, e, por extensão, como desejamos o outro, em como intencionamos as nossas relações.
A dualidade de atitudes não é definida pelo emprego idêntico do “eu” nas possibilidades de relacionamento. Aliás, essas atitudes, como Tu e como Isso, não são definidas em referência a diferentes conteúdos determinados, por exemplo, o Tu representando uma pessoa e o Isso, uma coisa. Tudo aquilo que se apresenta no mundo diante do “eu”, pode ser um Tu ou um Isso de acordo com a atitude do “eu”.49

Recusando certas visões tradicionais do tipo o sagrado/essência versus o mundo/aparência, na esfera dialógica o valor depositado no sagrado faz sentido a partir da inserção do sagrado na existência: no dia a dia, no trabalho, na arte, no enlace erótico, no encantamento amoroso, no conflito, na angústia, na morte, no sofrimento, no prazer, na vida. Em outras palavras, a existência se faz presente no sagrado, assim como o sagrado se faz presente na existência. Isso é para nós um significado importante de recipro49

Zuben. Martin Buber: cumplicidade e diálogo, p.119 | 65 |

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cidade. Ele configura a noção de dialógico. Assim, a proposição do sagrado como existente, do ponto de vista da experiência religiosa dialógica, leva em conta essa mutualidade entre presença, existência e transcendência. Buber afirma o sentido de Deus como Pessoa inserido no sentido do Tu eterno, portanto, fundamentado na relação que Ele estabelece com as pessoas. Embora ele não creia que Deus possa se enquadrar definitivamente em qualquer designação, e, por isso, a ideia de “personalidade” não é suficiente para revelar a essência de Deus, Buber confere um valor inestimável à noção de Deus como Pessoa. Ela é indispensável “para quem, como eu, entende (...) ‘Deus’ [como] aquele que entra numa relação imediata conosco homens, através de atos criadores, reveladores e libertadores, possibilitando-nos com isso a entrar em uma relação imediata com Ele”.50 Vale a pena acrescentarmos o comentário de Newton von Zuben. Para ter mais intimidade com o que significa a relação de Deus com o ser humano, ou seja, Deus como Pessoa, precisamos observar que
não se trata de saber o que Deus é em si mesmo mas o que Ele é na relação com o homem. Deus não é pessoa em sua essência, mas em sua relação com o homem. Buber escolhe um caminho radical para a compreensão do ser de Deus em termos de seu sentido para o homem, ao mesmo tempo que empreende uma compreensão do homem em termos de seu ser-com-Deus. 51

A relação imediata entre o Tu, na qualidade de Tu eterno, e o ser humano é edificada com cada pessoa, com cada comunidade. E se abre em vias cada vez mais amplas, incluindo a relação do ser
50 51

Eu e Tu, p.154. Ibid., Notas do tradutor, p.168. | 66 |

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ao se perguntar o que é o sagrado. A existência da mutualidade entre Deus e o homem é indemonstrável. seja um testemunho presente ou futuro. O sagrado. p. insere Deus na existência de forma indissociável. É isso que dá concretude a cada relação. do mesmo modo que a existência de Deus é indemonstrável. não é estática. convoca-os todo o tempo para uma atualização. quando aparece de tal forma. nos fascina. ao revés. A condição de Deus como pessoa só é possível no contexto de uma mutualidade que apenas pode existir entre pessoas. para entrar em dialogação com cada um. não é antropocêntrica.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber humano e da comunidade com a natureza. entende que ele “é aquela qualidade das coisas e nas coisas que de forma compreensiva nos toma totalmente. Leonardo Boff.indd 67 16/3/2010 09:38:41 . de temor e 52 Eu e Tu. aquele que tenta falar d’Ele dá seu testemunho e invoca o testemunho daquele a quem Ele fala. com a comunidade e com o mundo. para uma aparição enquanto Tu. autoriza-nos a admiti-la como existencial: ela não está definida desde sempre e para todo sempre. sem deixar de legitimar o caráter supra-humano de Deus. | 67 | Ética da reciprocidade.156. Buber. para um fazer-se presente. torna-a viva e pulsante. É na apreciação do tema do Tu como Pessoa que Martin Buber conclui seu texto a respeito de Eu e Tu. Mais uma vez. Porém. é um outro igualmente extático. nos fala no profundo de nosso ser e nos dá a experiência imediata de respeito. não exclui o ser humano e o mundo. que sai de si.52 INTERpRETaNDO O SENTIDO DE RECIpROCIDaDE O divino é como uma máscara que revela no seu verso algum sentido vital na existência da pessoa que experimenta a fé.

tornando-os mais fracos. como ressalta Boff. isso quer dizer a afirmação desse valor pela coexistência com a pessoa. Em outros termos. O ser humano busca um valor que constitua o sentido para sua vida. na esfera dialógica. o sagrado é um valor. esse relato procura justificar a gênese do amor: cada um de  nós está até hoje a procurar a sua metade perdida. num mundo à parte. perderam completamente de vista a sua medida e quiseram medir-se diretamente com Zeus. O Banquete. com todo o seu poder. isso significa que o sagrado se faz presente junto ao ser humano. e acabando com a sua travessura. sua razão de ser se funda na relação que estabelece com o mundo. segundo o texto. O sagrado é uma qualidade das coisas. E por que não podia. morada dos deuses e do pai dos deuses e dos homens. as honras que lhe eram prestadas e os templos que lhe eram erguidos pelos homens desapareceriam. Se o sagrado é estimado como um valor de excelência. eles eram seres redondos. se assim fosse feito. Zeus se vê diante de um dilema. São Paulo: Ática. ao mesmo tempo não podia deixálos impunes. destroná-lo. A divindade não reina à parte. esse valor está pleno de concretude. o sagrado não é uma coisa. O soberano do Olimpo acaba cortando os homens em dois pedaços. Em Buber. Segundo Platão. p.indd 68 16/3/2010 09:38:42 . grito dos pobres. Os homens não eram como nós. 1995. Na visualização de uma relação dialogal ser humano – sagrado. com os seres humanos. Quiseram ascender ao Monte Olimpo. Zeus. In | 68 | Ética da reciprocidade. participa de sua existência cotidiana e concreta.54 Está claro aqui o entendimento 53 54 E  cologia: grito da Terra. Encontramos essa mútua participação sob a forma de um recíproco precisar já no mundo antigo.180. na imaginação de Platão ao apresentar o mito do andrógino através do discurso de Aristófanes. acabar com os homens? Pois. poderosos. e caíram na desmedida ambição. Eles caíram na hybris. um evoca o outro. Não podia acabar com os homens. ou seja. portentosos. 189c – 191e. e nele. um valor de excelência.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO de veneração.”53 De fato.

enamoramento. 55 Deus. acerca da criação do ser humano: “Façamos o homem à nossa imagem. Ele quer uma imagem porque precisa de uma imagem. o ser humano. Ele criou uma criatura. A ideia de um só Deus pode Diálogos / Platão. 26). Revela a não transparência inicial de Deus para si mesmo. ele não reina sozinho. encontramos duas interpretações que vão ao encontro das teses de Buber para a chance de um mútuo abrigo para o Tu emergindo da relação entre o ser humano e o sagrado.”55 Esse modo reflexo é uma forma de Deus ter conhecimento de Simesmo. A primeira nos é dada por Jack Miles. conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1. podemos reconhecer no texto de Platão a copertinência entre ser humano e o sagrado.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber que o desaparecimento daquele que presta o culto significaria o igual desaparecimento do deus e de seu séquito de deuses olímpicos. Notemos que Ele não criou uma cópia de si mesmo. o panteão dos deuses no Olimpo. Uma biografia. música.. sensualidade. rusgas. Diz Miles: “Essa frase sempre foi lida como uma afirmação da nobreza da humanidade. São Paulo: Nova Cultural. p. Miles faz uma referência à mitologia grega. 4a ed. comparando-o com a condição de Deus.22 e ss.indd 69 16/3/2010 09:38:42 . bastante limitada por sinal (em relação a Ele). mas ela pode ser tomada também como uma afirmação da não transparência de Deus para si mesmo. 1987 (Os pensadores). p. rivalidades. A próxima citação de Jack Miles traz o acento na ideia de que se Deus reina soberano. vemos cenas com festins. uma descoberta de Si que convoca um outro. mas com um potencial de crescimento e experiências fantástico. Assim. Quando nossa imaginação adentra no monte sagrado. que possibilitou a Deus conhecer melhor a Si mesmo a partir da relação com o ser humano e o curso da história.449. | 69 | Ética da reciprocidade. Ele se refere à afir­ mação-fundamento não só judaica como adotada também pelo cristianismo. Em outra tradição.

Jó.indd 70 16/3/2010 09:38:42 . como se comunica com as criaturas (Moisés. pede a Adão auxílio para nomear as demais criaturas (Gênesis). Ele os faz uma espécie (. sim.450. É uma visão de mundo que implica parceria. comunicação e relação..LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO supor um isolamento da divindade.56 O isolamento de Deus dura pouco. 57 Ibid. Javé. tinha uma personalidade que oriComenta Miles: “E fatidicamente [Deus] dota sua criatura do único poder  sobre o qual tem um mínimo de controle consciente.) Deus é onipresente. Zeus intervinha.. assim como o homem não permanece igualmente isolado. mas sua onipresença é apenas outro nome para a sua solidão. cuidando do bom andamento das leis cósmicas.. percebe que Adão precisa do outro.” Ibid.. Jung destaca o aspecto ordenador de Zeus: basicamente o deus zelava pela ordem do mundo. redigida por Jung. observamos que. Na mitologia grega. O isolamento instiga um movimento extático. e.. Na ordenação do mundo do Velho Testamento. cuja descendência ao mesmo tempo replicará e não replicará a eles próprios.. Abraão). no ato criador. (. Ele dá ao homem e à mulher. p. uma interpretação para a tradição que presta culto a Javé. ao casal que fez à sua imagem. Este estabelece uma comparação entre Javé e Zeus.. 56 | 70 | Ética da reciprocidade.57 Analisemos. desde o começo. ele parece não ter vida que não seja ligada à sua criatura humana. punindo a perda da medida da ordem. fala da sua criação (Jó). a não ser a criatura que fez à sua própria imagem. Parece não haver efetivamente ninguém com quem ele possa ficar. num novo desmembramento criativo. por sua vez.). p. na forma de se comunicar e intervir na vida da criatura humana.449-50. Deus não apenas intervém para que sua Lei seja assegurada. quando a ordem do cosmo era quebrada.) O que faz Deus divino?”. agora.. vem à luz um ser ao mesmo tempo semelhante e diferente do homem: a mulher. Quando perguntamos (. o poder de fazerem imagens de si mesmos. para fora de si.

59 Loc. que. que é o tema desta sessão de nosso trabalho. Petrópolis: Vozes. 1990 (Obras completas. XI/4). nem em reconhecer uma “semelhança”. Coube ao pensar filosófico uma interpretação no sen­ tido do reconhecimento de alguma forma de reciprocidade. Na tradição judaica. mas não pode ignorar os homens. vol. Zeus não parece muito interessado em promover uma proximidade. Zeus parece desejar manter-se num mundo à parte. 3a ed. cit. R  esposta a Jó. §568.59 No mito grego (tanto em Jung quanto em Miles) não achamos até o momento qualquer indicador relevante que nos dê a ideia de um mútuo vincular. 58 | 71 | Ética da reciprocidade. retomou o fogo divino roubado por Prometeu e dado aos homens. ameaçam destroná-lo.11. “nada queria da parte dos homens. Zeus pode aparentar desinteresse. Mais do que descrever uma situação incômoda. o mútuo reconhecimento é bem nítido não só para Miles. É Platão quem expressa a copertinência entre Zeus e os homens.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber ginava necessariamente um relacionamento pessoal entre Ele e o homem “ao qual outra coisa não restava senão sentir-se pessoalmente chamado por Ele”. a não ser os sacrifícios que lhe eram devidos. deixados em seu estado originário.58 Seguindo os argumentos de Jung a respeito do soberano grego. sobrando apenas a esperança na borda da caixa inadvertidamente aberta por Pandora. pois não tinha planos que lhes dissesse respeito”. podemos acrescentar que Zeus até tornou os homens menos poderosos (mito do andrógino). como para Jung. e não quis deixar com eles nem uma chispa desse fogo. punindo-os definitivamente com todas as desgraças e males imagináveis. Platão sugere (nas entrelinhas) a “imortalidade” dos homens (da raça humana) perante os deuses: acabar com os homens significa nada menos que enterrar os próprios deuses. p.indd 71 16/3/2010 09:38:43 . Nada queria com eles.

pelo contrário. se interessava pelos homens. podia irar-se desmesuradamente contra os homens enquanto gênero e enquanto indivíduos.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Pai Zeus era uma figura. temor e terror. Javé precisava dos homens do mesmo modo que estes também precisavam dele.11. Um caminhante. andando pelos abismos desse espaço a perder de vista. Em face deste relacionamento pessoal intenso com seu povo. Estes constituíam para Ele uma de suas principais preocupações. p.. Javé.indd 72 16/3/2010 09:38:43 . Nada tinha a objetar contra a humanidade como um todo. §568 e 569. enchendo sua alma de fascinação. mas sem jamais explicar-lhes que sua onipotência poderia criar coisas muito melhores que “miseráveis vasos de terra”. O atravessar de uma montanha a outra corresponde à atitude de lançar pontes sobre o abismo que se imagina existir.60 CaMINHaR pELO aBISMO Uma imagem nos fica de Martin Buber. quando estes não se comportavam como Ele queria e esperava. Quando alguém inserido na experiência religiosa caminha nas escarpas dos abismos que a toda hora se abrem diante de si. Javé. instaura-se um evento. era inevitável que se desenvolvesse uma aliança toda particular. entorpecendo seu corpo. O fascinante e o tremendo se juntam num complexo de opostos que deixa tonta a consciência do homem religioso. de maneira premente e pessoal [grifos nossos]. não uma personalidade. | 72 | Ética da reciprocidade. nem esta lhe interessava de modo particular. palmilhando as sendas de uma estrada que atravessa um desfiladeiro. entre o ser humano e o sagrado. mas somente sobre delinquentes isolados que contrariassem a ordem estabelecida. num primeiro momento. Nesse cenário se instala um ambiente psi60 Ibid. pelo contrário. É verdade que Zeus poderia lançar suas setas inflamadas.

“Boa vontade” aqui não tem o rigor conceitual da moral filosófica. uma morada) o homem com fé penetra no 61 62 Eclipse of God. como acreditam alguns teólogos. reconhecemos um acordo com as ideias de Rudolf Otto: a experiência do sagrado tem seu começo no que a religião bíblica chama de “temor a Deus. O acatamento é ser arrebatado e arrastado pela torrencial corrente do pulsar do imperscrutável. Eis o mistério essencial.36.indd 73 16/3/2010 09:38:43 . a inescrutabilidade que compõe sua verdadeira natureza. Buber não trata do mistério que se oferece ao desvelamento. como um “umbral”. O acatamento não é uma atitude de “boa-fé”. ao menos. Não apenas deve aceitar esse mistério. nesse aspecto. É como entendemos a argumentação de Buber que transcreveremos. III. | 73 | Ética da reciprocidade. é o incognoscível. Por essa obscura entrada (que é de fato um umbral e não. Buber demonstra acurada sensibilidade para captá-lo em seus modos fundamentais. de uma abissalidade. quando toda segurança é estilhaçada através desse mistério”. É o abismo que se abre no terremoto do tremor frente ao mysterium tremendum.” O temor “aparece quando nossa existência entre o nascimento e a morte se torna incompreensível e misteriosa.61 Aqui. como tem de conviver com ele. intraduzível. Ele nos fala sobre o ponto de partida da experiência religiosa. O ser humano imerso na experiência religiosa se vê numa condição peculiar. ou. intransponível. por assim dizer. de boa vontade62. com conhecimento íntimo de quem se dedicou à sua tradução. mas do mistério que insiste em permanecer como tal. a fim de que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Buber trabalhou intensamente o texto bíblico.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber cológico e vivencial propício ao sentimento e à concepção do “totalmente outro”. ou seja. p. §6. que emana da fonte sagrada. e. Dito com mais clareza: o mistério penetra e se espraia nas situações concretas da existência.

que é posta de tal maneira que atinge o fundamento do que interrogamos: como se dá a passagem do Deus do temor para o Deus do amor? Em outros termos: como se dá a passagem do totalmente outro para o Tu? Existe essa passagem? É uma passagem “secreta”? É reservada aos mystikós. sacrifício. A fé é um tema compreendido tanto na experiência do sofrimento. como conflito.indd 74 16/3/2010 09:38:44 . Kierkegaard.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO cotidiano que. contextuais de sua existência. alma. Ela se dá no entre. Vejamos o que Buber responde a respeito da questão de Whitehead: “Quem começa com o amor a Deus sem haver previamente experimentado o temor a Deus. somente aos iniciados nos mistérios? Ou. Jung. resulta consagrado como o lugar no qual ele deve viver com o mistério. ao discorrerem sobre Cristo. ferida. mantém-se um abismo intransponível.36. ser humano. luto. ele nos lança uma questão angular. O amor envolve não apenas harmonia e conciliação. Abraão. Igualmente. ama um ídolo feito por ele 63 Eclipse of God. é o que a religião bíblica chama o “temor a Deus”. Mestre Eckhart. Esses temas apareceram em Rudolf Otto. p. e retorna os olhos renovados a si e ao mundo. e tudo o que podemos fazer é gritar para o outro lado. como da “salvação”. | 74 | Ética da reciprocidade. Tal condição. Ele avança dirigido e remetido às situações concretas.63 Quando Buber repassa as inquietações do filósofo ­ Whitehead. São João da Cruz. por outra. o sagrado vem ao encontro daquele que enxerga para além de si. daqui por diante. Ir ao encontro é um ato de amor. Mircea Eliade. em uma mediação que liga o trágico à sublimação. rea­ lização. Deus. em nossas orações e evocações. que ele a partir de então a aceita como lhe dada pelo Doador. na esperança de nos sentir acolhidos? O sagrado vem ao encontro daquele que o encontra em seu coração e em sua consciência. consolação.

mas com inabalável convicção do caminho que trilha. para começar. A ama no amor em Deus. Uma primeira consideração nos ocorre. aproximar-nos da imagem de um “totalmente outro”. de certa forma. a quem tem aprendido a amar.37. percebemos que.. apoiando-se precariamente. nesse ponto. terrível e incompreensível. nós o encontramos incansavelmente vislumbrando pontes de comunicação com o sagrado. p. Isso seria um tipo de registro que não nos levaria muito longe. em caso positivo.65 64 65 Ibid. a nossa próxima indagação quer dar uma espiada se há uma distinção significativa para com a proposição que enfatiza o sagrado como o “totalmente outro”. Ibid. um deus a quem resulta fácil amar. então.”64 Nesse momento. ao dispor de uma ingênua crença. gostaríamos de identificá-la. por terrível e incompreensível que seja. de atribuir a Otto o tremendum e a Buber o fascinante. significa precisamente isso: que suporta ante a face de Deus a realidade da vida vivida. e. | 75 | Ética da reciprocidade. retornamos ao nosso ponto de partida. Não ama ao autêntico Deus que é. o “Deus companheiro”. Ao mesmo tempo. Bem. p. Que o homem em fé que atravessa o limiar do temor encontra-se lançado nas situações concretas e contextuais de sua existência.. à primeira vista.indd 75 16/3/2010 09:38:44 .Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber mesmo. Percorrendo as escarpas do abismo. Eis-nos às voltas novamente com um ambiente de vivência e concepção que parece. escorregando. Martin Buber não relega à poeira da estrada os aspectos insondáveis e o temor que suscita o mysterium tremendum. Nas andanças pelos penhascos do caminho que percorre. Buber se encontra com uma das faces do sagrado. por isso. Voltemos ao cenário das montanhas. de imediato: não se trata. mas que não está.36-7.

§1. da reivindicação e da interlocução. Fixemos. de entrar em relação com Deus.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Buber não aceita a referência exclusiva a um “totalmente outro”. não se deve restringir a uma ‘total alteridade’)”. Mas isso não quer dizer que possamos inferir desse sentimento originário a definição da experiência religiosa remetida somente a um “totalmente outro”. se adotada de forma absoluta. em seu conceito de Deus. O Deus do temor é proferido e imaginado pelo ser humano quando a existência se mostra para ele na forma predominante de um insondável e tenebroso mistério. um homem entende simplesmente tudo o que é. da palavra e da réplica. | 76 | Ética da reciprocidade. VI. e. Essa representação.97. Do diálogo e do dialógico. uma vez mais. O diálogo só pode ser experimentado quando a pessoa “não se fecha à alteridade. o sagrado. p. o que acontece entre um ser e outro ser.67 Um ponto central para a formulação do evento dialogal é não abrir mão da pessoa na experiência religiosa. p. naturalmente. Tal é o caso quando. nem mesmo na gênese do fenômeno religioso. 1982. entendido como um encontro-evento. ainda que fosse para perderse uma vez ou outra nessa relação. que.66 Quando Buber define na obra Do diálogo e do dialógico o modo dialógico. reciprocamente. São Paulo: Perspectiva. desfaz muito da possibilidade de diálogo. ele torna explícita a sua posição de não acompanhar inteiramente a ideia de um “totalmente outro”. o mistério da interpelação direta e da resposta. como tal. Não podemos falar de religião a partir de onde não existe relação e de onde não pode haver.85. à primitiva e ôntica alteridade do outro (à primitiva alteridade do outro.indd 76 16/3/2010 09:38:45 . fora do qual nem sequer ele mesmo pode existir como ser separado e capaz. mesmo em se tratando de Deus. a nossa atenção no “estado de criatura” descrito por 66 67 Ibid..

Tudo isso quer dizer o paradoxo: sair de si. não faz sentido a fé. com-partilha. Ela é paradoxal. Ao mesmo tempo em que não abre mão de seu amor ao seu filho. Segunda consideração: estudar Buber nos levou a admitir uma estranha.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber Otto. Abraão não abre mão do amor a Deus. Deus solicita a Abraão oferecer o seu filho Isaac em holocausto. atualiza-o. tu és tudo”.indd 77 16/3/2010 09:38:45 . enfim. Sem essa liberdade para decidir entregar-se. temos a fórmula conceitual e vivencial “não sou nada. Ao mesmo tempo em que nos convertemos ao sagrado. ao mesmo tempo. Ela não é mera parte do evento: ela participa do evento. e. afirmar 68 Eclipse of God. Abraão resolutamente vai à montanha sagrada com Isaac. apenas uma testemunha. Buber não aceita essa espécie de máxima moral e psicológica como possibilidade privilegiada para o encontro do ser humano com o sagrado. Abraão e seu filho Isaac. aceitando um destino fundamentado numa extensão transpessoal. Vai imolar o seu filho a Deus. 37. | 77 | Ética da reciprocidade. tomamos uma decisão num gesto de liberdade. Não custa repetir uma história bastante familiar. que se detiveram na interpretação do episódio bíblico que envolve Deus. III.”68 Não consideramos “a pessoa toma parte como pessoa” simples tautologia. Afirma ele: “Toda genuína expressão religiosa possui um caráter pessoal aberto ou encoberto pois é pronunciada a partir de uma situação concreta na qual a pessoa toma parte como pessoa. como já verificamos em nosso trabalho. surgiu-nos o tema da liberdade no fenômeno da fé: a fidelidade ao absurdo é um gesto de liberdade. A pessoa não é um mero ser passivo perante o sa­ grado. uma cópia ou simulacro de uma realidade ulterior. Quando temos a oportunidade de estudar a fé orientados pelo pensamento de Kierkegaard e pelas pesquisas de Mircea Eliade. porém: efetiva articulação do destino com a liberdade. p. § 6. Nele. co-responde. ela se correlaciona com o sagrado. Eis uma das razões da dificuldade de compreensão da fé.

69 Mircea Eliade. crê no absurdo. afrontando todo tipo de cálculos.136. antecipações e previsões. Kierkegaard procura nos mostrar que a fé envolve.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mais do que nunca o si mesmo. num certo sentido. pois. o primeiro filho era considerado o filho do deus. ressalta que a fé é a emancipação de qualquer tipo de lei. só o que pode salvar é o absurdo. E. o que concebe pela fé. São Paulo: Abril Cultural. pois que nem sequer alcançou a resignação infinita. conceberem o filho de um deus (por intermédio de seu representante. assim. o “estranho”). resignação e conversão ao absurdo que ela própria propõe. 1979. No antigo Oriente. A tensão é insuportável. a impossibilidade e. Ele tem também lúcida consciência desta impossibilidade. o sacerdote. O gesto de Abraão institui nas palavras de 69 Temor e tremor. volta e meia não ouvíamos falar de casos em que o primeiro filho tinha que ser padre. Eliade observa que o sacrifício de Isaac insere-se num contexto tradicional e arquetípico do sacrifício do primogênito ao deus. principalmente no interior do país? Prossegue Eliade: o sacrifício de Isaac por Abraão era enganosamente semelhante aos sacrifícios ofertados pela tradição semita. Aquele que se projeta na fé realiza um salto para o não sentido. porque. ao mesmo tempo. porque ele tinha sido dado a Abraão e Sara quando Sara já tinha passado em muito a idade de ter filhos. Isaac era um filho de Deus. por sua vez.indd 78 16/3/2010 09:38:45 . a um só tempo. se alguém imagina ter a fé sem reconhecer a impossibilidade de todo o coração e com toda a paixão da sua alma. p. Reconhece. era costume as jovens solteiras passarem uma noite no templo e. | 78 | Ética da reciprocidade. ou por seu emissário. engana-se a si próprio e o seu testemunho é absolutamente inaceitável. e inconcebível para um espectador curioso. Na nossa própria cultura brasileira.

99). compreendemos que o cenário trágico revela a fé de Abraão. A nossa emancipação de qualquer lei não quer dizer que possamos submeter o sagrado à nossa liberdade. um sagrado que submete o ser humano às suas determinações. Um animal toma o lugar de Isaac no sacrifício. e assim se dispõem em sua totalidade para o encontro. pois Abraão não entende por que o sacrifício lhe é requisitado. a responsabilidade pessoal pelo ato de entrega ao evento do encontro. O puro e simples acatamen70 L  e mythe de l’éternel retour. 1969. e se torna não mais do que arbitrariedade. 1992. Abraão funda nada menos que uma nova experiência religiosa: a fé. Da mesma forma. Mas precisamos nos manter bem atentos nesse ponto. supostamente ditadas por uma divindade que se ouve falar. já que é realizado mediante um ato de fé. tanto o sagrado quanto a pessoa mantêm a sua liberdade.130 (ed. também. sem que o indivíduo as converta em um sentido para a sua existência. São Paulo: Mercuryo. oprimindo-o de tal maneira que ele tenha que se moldar a elas por submissão é um sagrado aprisionado à fatalidade. | 79 | Ética da reciprocidade. Por esse ato.indd 79 16/3/2010 09:38:46 .Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber Eliade nada menos que uma nova posição do homem no cosmo. Por outro lado. perseverar com lealdade e esperar com confiança. a emancipação da lei diz respeito à insubmissão às prescrições convencionadas. Ele se perde na fé e se vê salvo pela própria fé. p. Como a perspectiva dialógica é uma reciprocidade. mas o gesto daquele pai permanece aterrador e incompreensível para uma moral que se situe fora da vivência originária.70 A emancipação da lei mencionada por Eliade pode ser admitida. p. como a instância ética da liberdade. aparentemente absurdo. No fim do relato. Paris: Gallimard. Mito do eterno retorno. bras. Na fé isso não se faz sem a opção de assumir tais atos decisivos. Uma autonomia do sujeito que submete o sagrado aos seus parâmetros morais perde de vista a dimensão da liberdade. A fidelidade à lei significa confiar nessa lei.

indd 80 16/3/2010 09:38:46 . lembrando os passos do Mestre Baal Shen. não passando por cima da luta com a realidade. §5. Esta é a certeza de que o significado da existência é aberto e acessível na situação vivida. III. ela descobre um sentido significativo para a fé. importa nos conscientizarmos de que essa não é uma luta que se processa contra a realidade.35. para ele. pelo contrário. p. O abis71 72 Eclipse of God. mergulhado na existência. “A essência da religião em toda religião pode residir em sua certeza mais elevada.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO to de um dogma que. no fundo.”72 Assim. mas sim. de maneira alguma. até a espiritualidade mais suprema é uma ilusão se não se acha intimamente ligada à situação em que se encontra. Ibid. Pode. ela tem que suportar o conflito inerente à fé. §6. prossegue Martin Buber o seu caminhar.37-8. no seio dela. ao contrário. não passa da instância do arbitrário.. nada ressoa dentro do indivíduo. Quando a pessoa se converte ao destino.71 Portanto. p. ele aceita o lugar em que se encontra projetado. Mas não se aliena da situação concreta tal como é na realidade. III. Que alguém aceite a situação concreta como algo que tenha sido dado não quer dizer. | 80 | Ética da reciprocidade. Não conhece o sobrevôo do espírito sobre a realidade concreta. que deve estar disposto a aceitar o que vai ao seu encontro como “dado por Deus” em sua pura factualidade. mas que se dá justamente dentro dela. declarar a oposição mais extrema até este acontecimento e tratar sua condição de coisa dada como apenas destinada a por em ação a sua força contestatória. concreta e real. penetrará nela. Campo de trabalho ou campo de batalha. o confronto do destino com a sua vontade de realizar plenamente a sua liberdade. ainda que sob a forma de uma luta contra ela.

ou. Desejava exprimir com isso que não me coloco numa larga e alta planície de um sistema feito de proposições seguras quanto ao Absoluto. pelas escarpas. superação. tornando o sagrado inacessível e isolando-o num mundo à parte. estabelecemos pontes. salvação. assim como podemos deixar que o abismo se amplie indefinidamente. em outros termos. lançar-se no vazio do sentido para alcançar um inusitado sentido do outro lado do mesmo cenário. entre dois abismos.Interpretação do sagrado a partir da leitura de Martin Buber mo que se dilui quando se realiza o evento do encontro é a mesma fenda que se abre quando queremos avidamente tomar posse do que poderia ser um genuíno diálogo. p. desfiladeiros. mergulhando no mistério e emergindo dele. separação. frestas. profundidade abissal. religar. isolamento. despencando das certezas tão precariamente adquiridas. costuramos tramas.XIX. Citado por von Zuben. evocação. escalar montanhas. segurando-se na ponta dos dedos para não cair de vez.92 da tradução francesa. tão arraigadas. A existência adquire o caráter de um processo constante de encontro. A imagem do abismo expressa mistério. reencontro. | 81 | Ética da reciprocidade. “Introdução”. p.73 73 O  problema do homem.indd 81 16/3/2010 09:38:46 . lançamos cordas. fundamento. desligar. mas onde existe a certeza do encontro com aquilo que está encoberto. em Eu e Tu. desencontro. onde não existe segurança alguma da ciência enunciável. mas sobre uma senda estreita de um rochedo. percorrer os penhascos. A fé é um colocar-se perante o abismo. ligar. ela era semelhante a uma “estreita aresta”. arestas. perigo. Ele comentou certa ocasião com seus amigos: Eu falava às vezes sobre minha posição a meus amigos. desafio. por outra. No caminhar através da experiência religiosa. Essa é para nós a imagem mais forte que responde precisamente à proposição da composição originária da existência formulada por Buber. ou.

de forma alguma. bem-mal. e. na existência de quem se descobre na experiência religiosa como alguém que se dispõe para um encontro face a face com o Tu Eterno.74 74 Eu e Tu. ignorando-os simplesmente a fim de escapar das situações delicadas e embaraçosas provocadas por eles. unidade-dualidade. A união dos contrários permanece um mistério na profunda intimidade do diálogo. superando as soluções de compromisso daquilo que geralmente é entendido como dilemas ou alternativas: orientação-atualização.indd 82 16/3/2010 09:38:47 . Eu-Tu Eu-Isso. é antes de mais nada o vislumbre da união paradoxal da plenitude. Tal “aresta” onde Buber se coloca. não é. uma posição de facilidade que tende a transcender a existência real eivada de paradoxos e contradições. p. | 82 | Ética da reciprocidade. Diálogo é plenitude. Esta “estreita aresta” não é uma solução de tranquilidade que se torna um refúgio para os espíritos pusilânimes.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Newton A. dependência-liberdade. von Zuben apresenta uma interpretação interessante sobre o significado do abismo no pensamento de Buber.XIX-XX. por extensão.

Capítulo III A condição humana e o sentido ético e psicológico da pessoa Ética da reciprocidade.indd 83 16/3/2010 09:38:53 .

indd 84 16/3/2010 09:38:53 .Ética da reciprocidade.

Então. pinçando alguns temas trazidos pela Filosofia do Diálogo. na direção do sentido da experiência do sagrado para a existência.indd 85 16/3/2010 09:38:54 . Por isso. aparecerão juntos. aprofundou-se uma fissura entre produção de | 85 | Ética da reciprocidade.A INTERFaCE Da IMaNÊNCIa COM a TRaNSCENDÊNCIa Para confirmar os termos de Buber. Já vem de um tempo mais do que secular uma tradição de inversão de 180 graus nos valores do Ocidente. Quanto a nós. compreendido. Nietzsche. A questão religiosa. pronunciada por Buber como remetida ao Tu eterno. a questão religiosa com a questão existencial (dimensão imanente). Freud) para cá. em termos gerais. Ele não hesita em afirmar e incluir Deus na instância da existência. não recua para alguma trincheira científica ou filosófica ao afirmar a existência de Deus. miramos nossas setas. temos que confessar que não conseguimos nos livrar da cerimônia no qual fomos educados a ter quanto ao corte e costura do pensamento se quisermos cerzir o tênue e frágil fio de uma hermenêutica. falando com mais clareza. Antes da Modernidade. a partir desse marco. estimava-se que fora de Deus não havia salvação. é caminhando pelas arestas e pelos abismos que prosseguimos em nossa trilha. é colocada por ele sem nenhum pudor. e significado. antes do mais. os seus modos de ser apropriado. passo a passo. Dos mestres da suspeita (Marx.

um cabide que possa sustentar o ser frente ao terror da morte e da sorte. e feito uma correlação hermenêutica da simbólica dos seus conteúdos com aspectos comportamentais do ser humano. pode-se propor com convicção o fim do próprio homem enquanto fenômeno. só para citar algumas referências. que se deseja como uma espécie de apólice de seguro frente ao trágico. das religiões comparadas. o sentido fenomenológico da cons­ ciência. sob a inspiração de Leonardo Boff. Heinrich Zimmer. leia-se também o sagrado. como a compreensão ampla da sexualidade e do desejo.indd 86 16/3/2010 09:38:54 . a imbricação do corpo e do vivido com o pensar. Se quisermos questionar se é possível “conhecer” o que quer que seja. Martin Buber. Joseph Campbell. Gilbert Durand. Rudolf Otto. Estamos. Kierkegaard. Mircea Eliade. frente ao fluxo e à angústia que formata a própria existência. na esperança de se obter salvação e segurança. somente por ter se dedicado ao estudo da alquimia. Ernst Cassirer. em última análise. Jung. Carl Jaspers. foi tachado de bruxo para baixo. consequentemente. a pesquisa das fontes mais originárias como pro| 86 | Ética da reciprocidade. e. Jung. Jean-Pierre Vernant. notamos que pouco se trabalha nas academias laicas o sagrado fora das representações usuais de um Deus “cabide”. dispostos a trazer “Deus”. o corpo como fundamento do ser humano. relegado ao “lodo negro do ocultismo”. não faz muita diferença porque Deus e o sagrado não são colocados mais como questão. passamos para uma nova norma. tão dogmática quanto a primeira: “fora da morte de Deus não há a existência”.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO saber e a afirmação de um fundamento sagrado. dos mitos. Paul Ricoeur. Da prescrição de que “fora da metafísica não há salvação”. pois muitos acham que não há mais interrogações para pautar o que já se considera uma noção esgotada. Viktor Frankl. não há conhecimento de coisa alguma. o mito. em que se penduram inúmeros temores e tremores. No entanto. Pode-se embrenhar o arrojo do pensar nos terrenos mais inóspitos à lógica formal-racional e à lógica experimental.

antes de ser uma realidade. o rito. e. representação psíquico-cultural ou ilusão. A própria incerteza. o sagrado ainda toma parte na vida de muitas pessoas. difícil até de desembaraçar os fios. Todas essas instâncias apresentam campos bem próprios. Não arrumamos de um lado o imaginário. na tradição de muito tempo. mais uma norma instituída para o pensar. isso em nada ou pouco alterou o velho e permanente balancear entre o dogmatismo e o ceticismo. ao mesmo tempo.indd 87 16/3/2010 09:38:54 . que tanto incomodou Descartes. Onde. Matar Deus não livrou o candidato a pensador do dogmatismo. o relativismo. marcando o nosso passo segundo uma metodologia que. e estabelecidos em suas convicções como se constrói paliçadas em torno de um castelo. Mas. Resta ao pensamento sempre vagar. sujeito a todo tipo de achaques. sem descanso. uma vez que não separamos Deus do sagrado. e. a teologia e a metafísica. parece ter se tornado quase uma nova certeza. Se quisermos entender o ser humano e a existência. sobretudo porque. O MODO EU – ISSO E O ENCONTRO EU E TU Martin Buber apresenta uma concepção do ser humano e sua relação com os demais seres humanos. | 87 | Ética da reciprocidade. sem guarita. com o mundo e com Deus a partir de dois modos básicos de relação: Eu e Tu e Eu – Isso. de agora em diante. É um logos que inclui no Tu nas esquinas da transcendência e da imanência. misturam-se numa relação complexa. prosseguimos. agora se fala de Escolas. um novo dogmatismo e o niilismo um lugar comum. utopia. sem porto seguro. nem mesmo do niilismo. não podemos mutilá-lo a partir de discussões erguidas sobre argumentos e conceitos distanciados da vida. o mito. vai da análise de algumas implicações da experiência religiosa para o exame de outras aproxi­ mações que dão pistas para um sentido extenso do Tu. Assim. falava-se de Mestres. E. e as convida para o baile da compreensão da existência. de outro.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa blema que vale a pena ser examinado. Primeiro.

vivendo dentro e limitado pelo corpo físico – um polo que se defronta com um mundo “exterior” de pessoas e coisas. a palavra vale mais que a imagem. a máquina é considerada mais eficiente que o ser humano.. A partir dessas distinções. o ser humano e o transcendente etc. No plano da relação intersubjetiva. observamos a exaltação de uma subjetividade independente e autônoma. filosóficos. (.) atua com uma força irresistível a per| 88 | Ética da reciprocidade... Nessa composição.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Achamos por bem riscar os primeiros traços para conhecer algo a respeito das possibilidades de o ser humano desenhar as suas relações pela descrição do modo Eu – Isso. por assim dizer. o ser humano não se nivela de modo algum ao divino. que não se altera nas interações. teológicos. Trata-se da mentalidade que identifica “relação” como uma composição de pares de opostos na forma da contraposição de dois elementos distintos: o sujeito e o objeto.indd 88 16/3/2010 09:38:55 . fazendo contato com uma realidade distinta. onde o que em geral se entende por “autenticidade” (ou se quer entender) ratifica um modo de ser descrito por Luiz Bicca. considera-se que cada elemento sustenta uma identidade inflexível. a atividade intelectual prepondera sobre a afetividade e sobre a expressão corporal. são idealizadas escalas valorativas: o homem se reconhece superior à natureza. A maioria dos homens comporta-se segundo a representação habitual de que o “eu” significa um núcleo ou polo separado de sensibilidade e ação.) O que chamamos de “realidade exterior” ou de “sociedade” (. Chama-nos a atenção uma forma de conceber “relação” que se insere na mentalidade de muitas pessoas. a racionalidade e a natureza. e que não está apenas “na cabeça” de algumas: podemos identificá-la em sistemas psicológicos. certos comportamentos são considerados válidos. outros são reprovados pelas convenções morais. a alma e o corpo.. científicas e religiosas. que se conserva em sua “pureza original”.

1999. um ser localizado num mundo. | 89 | Ética da reciprocidade. confrontar. O ser humano lança-se no mundo em um modo de ser relacionado indissociavelmente com o mundo. 1989. não abrir mão nas suas relações da centralidade dessa “personalidade”. estar sempre e constantemente em contraste com alguma coisa. ed.76 Quem oferece a possibilidade de 75 76 O mesmo e os outros.”75 Observar algumas formas cotidianas de as pessoas se re­ lacionarem nos ajuda a visualizar uma fenomenologia do eixo Eu – Isso. e até apaixonadamente. exercitar e desenvolver unicamente a afirmação do “eu” através da relação. Donde o significado do “tocar” quanto ao mundo da relação é bem distinto do tocar das coisas “porque. p. ele faz a si e constrói o mundo. constatamos como resultado de tal quadro mais uma tentativa de se defender do outro do que um encontro propriamente dito entre as pessoas. Para tanto. Frequentemente observamos que. Rio de Janeiro: Sette Letras. 3. o pensamento do filósofo Martin Heidegger. Ser e tempo. §12.indd 89 16/3/2010 09:38:55 . de tal modo que o que mais importa é “ser autêntico”. Não poucas vezes. em suma.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa suadir-nos de que somos. ambos se desejam fraternal. a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero. Não é.93. pura e simplesmente. em princípio. átomos de existência. Nessa interação. p. O que define o ser humano para Heidegger é justamente a condição originária de ele se revelar como um ser que vai ao encontro do mundo nas suas relações.56-7. nesse instante. Um indivíduo estabelece contato com outro. antes de qualquer outra coisa. A partir daí torna-se muito fácil e natural o comportar-se como se ser fosse essencialmente contraporse. cada um deseja afirmar na relação a sua “personalidade”. Petrópolis: Vozes. seria necessário pressupor que a parede viesse ao encontro “da” cadeira”. Surge à nossa mente. apesar disso. disputar. Por vezes.

os indivíduos se tocam. nessa condição. é preciso. cultuando valores do tipo “eficácia”. ou seja. “o outro não sou eu”. tal como o que ocorre com a cadeira e a parede imaginadas por Heidegger. Ele não consegue sair de si e entrar em empatia com o universo do outro: a empatia implica uma série de compreensões. “autonomia”. e não as coisas. observamos que as pessoas volta e meia se apresentam umas perante as outras como se pudessem tornar-se coisas.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO ir ao encontro são os seres humanos (e há quem admita os animais77). acreditando que para alguém se “dar bem” com o outro. sua “liberdade”. não se encontram efetivamente. mas objetais. estabelecem-se relações não pessoa-pessoa. algo que põe em risco o projeto do eu de se manter no que acredita ser o valor maior. o reconhecimento da diferença. As fricções inerentes às diferenças de cada uma são encaradas como “desgaste”. Dessa forma. eles se esbarram. que delimita o eu e o outro de lados diferentes de tal forma que observamos dois procedimentos correntes. mas não se encontram. Sartre e Buber. seu modo de ser e encarar o mundo etc. “só depende de você”. “goste de si mesmo”. desenvolvida por determinadas orientações de consultores que pululam das mais diversas técnicas de decifração e “tratamento” do indivíduo. dos limites do outro. Essa percepção se insere numa ética do cuidado. “autenticidade”. Essa moral tem como suporte ideológico uma cultura narcísica.indd 90 16/3/2010 09:38:56 . tais como. O que acontece comumente nas relações que se processam segundo o modo de ser Eu – Isso é o desenvolvimento de uma dualidade dicotomizada. Pois bem. propagada na mídia. “seja você mesmo”. ou melhor. O primeiro: o sujeito se considera o centro da relação. uma ideologia narcísica que se inscreve no seio da cultura consumista e tecnicista. lendo Heidegger. em primeiro lugar. Assim. proposta por Leonar77 Veja a fala de Buber sobre a interação dele com um gato mais adiante. mesmo que o espaço entre eles seja igual a zero. “crise”. “ser autêntico”. | 90 | Ética da reciprocidade. enfim.

Acrescente-se a essa dupla atitude uma terceira. Ética do humano – compaixão pela terra. a ambivalência.91. cabe a definição de Sartre acerca de uma das facetas da condição humana. e já não sabe mais o que significa o seu desejo.indd 91 16/3/2010 09:38:56 . ela se perde completamente. Passo então a dedicar-me a ele. resta ter o outro como um aparato em que se descarrega toda sorte de frustrações e agressividade. Nas palavras de Jurandir Freire. enfim. O cuidado solicita desvelo. atenção. zelo. 1999. disponhome a participar de seu destino. bom trato. | 91 | Ética da reciprocidade. É uma atitude fundamental. o “ser-para-outro”). É comum a oscilação entre uma modalidade e outra com relação à mesma pessoa. Tentemos resumir essas duas atitudes frequentes no modo em que se estabelecem “relações” recorrendo a duas expressões: Primeira: “Só eu existo (o outro é nada)”. Segunda: “Eu não existo (o outro é tudo)”. que ela mal reconhece a si própria. diligência. “O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Petrópolis: Vozes.”78 Segundo procedimento corriqueiro: quando uma pessoa não se dispõe para o relacionamento como o centro dele. por um motivo qualquer. desaparecer do horizonte da sua existência. e se desmancha o sentido da sua vida (aqui. é comum ela viver em função do outro de tal modo que ela experimenta o justo oposto: sua vida torna-se algo como um planeta que gira em função do sol (o outro). O psicanalista e professor Jurandir Freire Costa está convencido de que os modelos tradicionais de representação do outro estão se perdendo. Em lugar da representação do modelo de que uma relação implica esforço. Se o outro.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa do Boff. a recusa 78 S  aber cuidar. um modo de ser mediante o qual a pessoa sai de si e dirige-se ao outro com desvelo e solicitude. Há uma tal identificação com o outro. 4a ed. de sua vida. p. as pessoas querem ceder pouco ao outro em busca de alguma coisa que dê sentido. de seus sofrimentos e de seus sucessos. de suas buscas. Hoje.

eu mato. Do Estado. isso nada mais é do que tentar ter no outro um ob79 A crise do outro. a si próprio. da mãe. é que não devo nada ao outro porque ele está o tempo inteiro em dívida comigo. qual seja. eu faço o que bem quiser e entender. Não raras vezes. e se torna passível de apropriação e dominação. mesmo na condição de viver em função do outro.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO em abrir mão de coisa alguma pode aparecer no modo da “arrogância antissocial”. nesse tipo de modalidade Eu – Isso. em que o indivíduo se sente fragilizado. pequeno. Entrevista ao caderno Mais!. Folha de São Paulo. o modo da vítima. Porque. e tudo que ele fizer que não corresponda ao “meu desejo” é motivo de frustração. começa todo um processo de desenvolvimento consciente e inconsciente de defesas narcísicas.79 Na modalidade Eu – Isso. eu esfolo. de quem quer que seja. e aquilo é palco da execução e da ação do meu desejo. domingo. me retirou. eu roubo. Desse modo. quando não de retaliação. Mas tal recusa apresenta a representação do outro numa outra borda: não mais fazer do outro um boneco de pancadas. do pai. p. podemos concluir que não se forma uma relação sujeito-sujeito.indd 92 16/3/2010 09:38:56 . o “ego” torna-se “inflado” (como dizem alguns junguianos) e o outro é tomado de forma compulsiva predominantemente como um objeto do “meu desejo”. No primeiro [modo de representação]. O segundo. o alojar-se na trincheira da “vitimização”. me fez sofrer. não devo nada a ninguém. mas objeto-objeto: o ser humano deixa de lado a sua dimensão de ser de relações em abertura de possibilidades para se deixar moldar numa perspectiva objetal. Ele não me deu. quase insignificante. 3  de julho de 2005. E tanto faz. eu quebro. o arrastar-se pelo mar de lamúrias. | 92 | Ética da reciprocidade.6. e agora peço o tempo inteiro o ressarcimento. mas. o sujeito se enquadra como o centro ou como a periferia. eu não devo nada ao outro. se.

revela-se. em que o outro é basicamente um objeto do meu desejo. uma identificação. isto é. por assim dizer. minha relação com a natureza. recusar-se a desenvolver um sentido próprio para a existência (muitas vezes pelo pânico da solidão. É. oferta-se. Nas interações entre os seres humanos. | 93 | Ética da reciprocidade. com uma obra de arte etc. perda do objeto que preenche várias demandas: “carência”. O Isso implica uma forma objetal. o que designa uma relação entre mim e um outro.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa jeto para si. não tem sua existência plenamente aceita e reconhecida por mim. compondo uma identidade na diferença entre nós. ao que estamos examinando. pelo diálogo.indd 93 16/3/2010 09:38:57 . a relação Eu e Tu é caracterizada por um ir ao encontro do outro com interesse. entre os integrantes da relação. A relação se constitui na interação entre o Eu e um Tu. No modo Eu e Tu a relação é caracterizada pela reciprocidade. companhia. com uma divindade. pelo medo da perda do outro. nem no outro. O outro. com um grupo social. uma personalidade. O que nos permite uma primeira compreensão do que seja a modalidade existencial Eu e Tu resume-se na seguinte premissa: numa relação dialogada. Compreendemos por Eu e Tu. portanto. Devemos pensar uma relação composta por “integrantes”. Buber acrescenta que tanto faz designar o outro como “Isso”. mas pode não passar de um Isso. ou como “Eu/Ela”. o centro dessa relação não reside mais em um eu. diligência e consideração recíprocos. O “Tu” e o “Isso” são denominações para designar a alteridade e a nossa forma de intencioná-la. nos aparece com um nome. sem perceber o quanto se está só. portanto. por exemplo. em que um se apresenta ao outro. uma modalidade de relação caracterizada por uma abertura recíproca.). porque é preciso acrescentar que podemos considerar. valorizar-se através do outro etc. segurança. na medida em que não permanecem fechados em si mesmos. pela inclusão dos pares envolvidos: forma-se uma identidade na qual ambos se enriquecem na relação. E. conforme a maneira com que a relação é processada.

face a face. | 94 | Ética da reciprocidade. uma pessoa e outra. ser humano e Deus. inclusiva. O Tu implica uma forma de relação participativa. p. ser humano e natureza. participação mútua. não é desgarrado da dimensão interpessoal. na infindável e complexa rede de relações. a comunidade. e segue numa avaliação sem surpresas – ou de má-fé acerca de Martin Buber. vale dizer. e este não se dobra ao pensar. onde só se destaque o lugar. B. obra e artista. no entre. O que é remetido ao “político”. na qual tanto faz que se nomeie A. A própria pronunciação de um entre supõe uma multidão de direções.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A relação Eu e Tu não trata apenas do “relacionamento Eu e Você”. O espiritual não omite o imanente e vice-versa. confronto. Reconhecer o outro e si mesmo como Tu significa um modo de ser que tende para a afirmação da condição de pessoa. comunidade e natureza. comunidade e pessoas. interativa e orientada pelo cuidado. a poética do 80 Eu e Tu.32. e mais: “o homem se torna um Eu na relação com o Tu”. sejam eles eu e você. não é uma instância nem a outra que são o eixo central. instâncias e de atores para configurar o modo Eu e Tu. “Eu e Tu” envolve dois “sujeitos” em relação. O cósmico não relega o mundano para o fundo de cena. mas a relação na forma dialogada e recíproca. Quem ocupa o lugar da polaridade em interação não é uma instância anônima. as outras pessoas. e sim. ou Z. A relação Eu e Tu diz respeito a uma atitude de dialogação.indd 94 16/3/2010 09:38:57 . Ela não se realiza nem no primeiro. nem no último eixo. Quem só admite essa forma para o dialógico o encarcera na díade do esquema mais previsível. professor e aluno. ao espaço comum onde os encontros visam a interface comunitária e dialógica entre as pes­ soas. eu e comunidade. comunidade e outras comunidades. a função. e desenvolve um modo próprio de ser nas relações. No modo de relação Eu e Tu. com o mundo. a natureza.80 O ser humano em sua totalidade expressa-se na relação com um Tu. O pensamento não dobra o corpo.

por uma avassaladora impregnação do modo de ser voltado para a impessoalidade. e volta a submergir em esquecimento. Em última análise. Pois ela rompe com a forma trivial de ser. com um ser enovelado por um sentido de mística. | 95 | Ética da reciprocidade. a linguagem da aurora e do ocaso. Eu e Tu e Eu – Isso são modos originários. por um intenso olhar entre ambos. sagrado-comunidade. religião-sociedade. e.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa imaginário. marcada pelo individualismo. pessoasociedade. com as várias expressões e possibilidades de ser. Ele descreve o seu encontro com um animal. comunidade-sociedade. A dimensão Eu e Tu é como uma figura que emerge de um fundo de Eu e Isso. comunidade-comunidade. sociedade-natureza. estenderíamos os pares Eu e Tu e Eu – Isso para as relações em todas as direções: Eu e o Outro.indd 95 16/3/2010 09:38:57 . conhecimento-natureza. ao mesmo tempo. Na sua interação com um gato. no que diz respeito à nossa existência. religião com outra religião. Buber admite que o Tu. o mundo do Isso nos envolvia. Buber constata o jogo do outro como Tu e como Isso. a forma Eu e Tu constitui. o mundo do Tu havia emanado das profundezas no instante de um olhar e agora já caiu de novo no mundo do Isso. em que. reluz por algum tempo. pessoa-sagrado. por um lado. Da mesma forma com que rompe as convenções e condicionamentos com os quais as pessoas entram numa relação. descrevem com precisão a existência. e no modo com que as relações se constituem e se processam. o gato. Assim. juntamente com a modalidade Eu – Isso. Eles se alternam e se entrelaçam no modo de os indivíduos encararem e desejarem uma relação. Há pouco. Como não somos Deus. não é eterno. a própria existência humana. por breves instantes. Ambos os modos. ele teve a nítida impressão de que ambos apareciam um ao outro como um Tu. mesmo que através da expressão da linguagem não verbal. artista e natureza etc. Buber admite nossa condição oscilante. O único Tu que ele admite como tal é Deus.

O artista. tal como eu posso ser.. com a obra.. Pois. sociais. Ele se define na relação e através dela. à conceituação. no espaço de um olhar? Eu podia. Como é poderosa e continuidade do mundo do Isso! e como são frágeis as aparições do Tu!81 O outro enquanto Isso pode ser medido. do homem atual. o público. vamos identificando inúmeras relações. a sua temática. de nossa vida e de nosso mundo e não de um eu em si ou de um ser em si. nem corpo. p. submetido a procedimentos experimentais. Referindose à intersubjetividade. apresenta uma especificidade de escapar das determinações que projetam como ele deve ser antecipadamente. infinitamente. a luz do Tu apenas aparecia e já se desvanecia. a existência se define como essa rede infinita de relações. com a comunidade científica. único. um ponto numa escala numérica. É imprevisível.indd 96 16/3/2010 09:38:58 . o inconsciente. p. entre a manhã e o anoitecer se fundiam um no outro. diz Martin Buber: “Pois. na verdade.. | 96 | Ética da reciprocidade.. lembrar-me ainda. em todo caso. pode ser tratado como um número estatístico.) profundamente a efemeridade da atualidade de todas as relações com os seres. científicas. desaparece. a melancolia sublime de nosso destino. sem consciência. com os seus alunos.114. eu estou falando. Assim. torna a aparecer. caso contrário.”82 Descobriremos de que forma nos reconhecemos mutuamente na relação. Um cientista se relaciona com o que está pesquisando. mas o animal havia recaído do balbucio de seu olhar à ansiedade muda e quase sem lembranças.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO (. O peso do mundo do Isso havia sido realmente tirado de mim e do animal. a volta fatal do Tu individualizado ao Isso. por sua vez. aparece. Define-se.15.) senti (. O modo de ser do Tu.. expressa-se. como Leonardo Boff 81 82 Ibid.. Ibid. pode ver-se submetido a leis – morais. inusitado. de ti e de mim.

83 Saber cuidar. e nos leva ao sair de si e deixar o outro comunicar-se e interagir conosco. “A contemplação autêntica é breve. | 97 | Ética da reciprocidade. O tom algo místico da exaltação da forma Eu e Tu surpreendentemente nos remete a uma certa melancolia. a partir da sua interpretação do pensamento de Martin Heidegger. e. constatamos que “a grande melancolia de nosso destino” é a imersão do Tu novamente no mundo do Isso. de estar presente. mundo em que as pessoas se veem etiquetadas: “são” desta ou “são” daquela maneira.indd 97 16/3/2010 09:38:58 . decomponível. junto com plantas. cada pessoa abre perspectivas de vivenciar o outro como Tu e como Isso. dos conceitos fixos. nessa navegação e nesse jogo de relações. que ultrapassa todas as medidas. que tem um valor incomensurável para a existência.83 No modo originário de um ser-de-relações. o mundo das delimitações esquemáticas. ou seja. de navegar pela realidade e de relacionar-se com todas as coisas do mundo. Isso pode estar incluído. Buber nos descreve a relação Eu e Tu de forma quase religiosa: como algo sagrado. o ser natural que acaba de se revelar a mim no segredo da ação mútua. e da singularidade dessa relação que se enuncia como entre mim e o outro.92. animais e outros seres humanos. na condição da singularidade própria. o ser humano vai constituindo o seu próprio ser. Nessa coexistência e con-vivência. Significa uma forma de ex-istir e de coexistir. classificável. no face a face. se torna de novo descritível. da singularidade do outro. p. mas a compreensão de ser-no-mundo é algo mais abrangente.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa tenta nos descrever. sua autoconsciência e sua própria identidade. Quando dizemos ser-no-mundo não expressamos uma determinação geográfica como estar na natureza. como se acordássemos de um sonho.

85 Estamos inclinados a supor que a pessoa é constituída na relação com o mundo e consigo mesma (o entrosamento e o desentrosamento entre as suas várias dimensões: afetiva. A alternância de nossa imersão no modo do Tu e do Isso é evocada por Buber de forma poética: o Isso é a crisálida. o Tu. estética etc. pois o Tu é mais do que aquilo de que o Isso possa estar ciente. a retornar à coisidade. são processos que se enlaçam confusamente numa profunda dualidade. ao mesmo tempo. amiúde.). p. mas. A individuação desenvolve o tornar-se pessoa. cognitiva. ainda  mais contundente: “O Eu não é algo que existe ‘em mim’ – e todavia. não como se fossem sempre estados que se alternam nitidamente. [o Eu] é somente em mim que me uni a ti. reconhecido e estimado como tal..84 Em nossa pesquisa.19-20. Achamos no texto uma proposição que diz isso de uma outra forma.114. Impressiona-nos a afirmação “o homem se torna um EU na relação com o TU”.” Ibid. e reconhece seus pares da mesma forma.indd 98 16/3/2010 09:38:59 . Martin Buber ressalta o que para ele constitui a pessoa: o campo intersubjetivo.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO um simples ponto de interseção de vários ciclos de leis. que. e. ainda que ele possa se esvaecer em meio ao ­ mundo das ocupações em que um indivíduo se inscreve na dimensão do Isso. envolve a ênfase na interação com o outro. a borboleta. Se nos dirigimos a alguém na condição de pessoa. à própria individuação. O Tu é mais opeEu e Tu. | 98 | 84 85 Ética da reciprocidade. a força do Tu (utilizamos a palavra “força” por falta de uma expressão melhor) se faz sentir de tal modo que a relação pode perdurar mesmo quando o homem a quem digo Tu não o percebe em sua experiência. instintiva. por sua vez. igualmente relacional.” Cada Tu está condenado à liberdade. A reabsorção do Tu no Isso fecha a abertura ao ser-próprio (self). ou seja. Porém. p. que diz respeito ao nosso encontro com um outro ser singular. interessa-nos conhecer um pouco mais a respeito do Tu.

agora. p. Aí não há lugar para fraudes: aqui se encontra o berço da verdadeira vida. (. ambos afirmam plenamente a sua pessoa. do relato mítico. Ibid. que Buber entende como “Deus”.18.indd 99 16/3/2010 09:38:59 . Meu Tu atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele.86 Para rematar de forma mais bem acabada o nosso pensamento. Essa constatação nos remete a evocar um elemento fundamental na composição do modo Eu e Tu. e ele próprio se apresenta como um Tu.) Nós vivemos no fluxo torrencial da reciprocidade universal.10. concluímos que o ser humano deixa de ser uma “coisa”. da doutrina. irremediavelmente encerrados nela. mas interessa-nos perscrutar o falar sobre o sagrado e com o sagrado.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa rante e acontece-lhe mais do que aquilo que o Isso possa saber. e meditemos sobre isso. Na instância do falar sobre “Deus”. o falar com não se restringem a Deus. Ibid. um dado experimental ou estatístico quando vislumbra no horizonte de sua existência um Tu. Nossos alunos nos formam. quando nos detemos para examinar a experiência religiosa: “pois não se fala somente sobre Deus. p... por outro lado. O falar sobre “Deus”88 é o campo da teologia. nossas obras nos edificam. não é  ressaltar o falar com esse ou aquele deus especificamente. 86 87 | 99 | Ética da reciprocidade. Iremos da experiência religiosa para o acompanhamento da inserção dos modos do falar assinalados em outras paisagens da existência.. a reciprocidade: “Relação é reciprocidade. uma ideia de Buber supracitada. Dessa forma. na verdade. mas também se fala com Ele”. 88 Colocamos Deus entre aspas porque o que nos interessa. É interessante porque o falar de ou falar sobre e.”87 O FaLaR COM E O FaLaR SOBRE Observemos.. da metafísica. um conceito.

indd 100 16/3/2010 09:38:59 .11) | 100 | Ética da reciprocidade. Mt 28.46. 47. Lc 24. Tal aspecto é uma experiência compartilhada. As mulheres vão ao sepulcro. Fogem. O fato do sepulcro vazio porém não é feito.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO o pensamento e o simbólico se articulam na tentativa de com­ preender e transmitir a ideia do sagrado.4). prova da Ressurreição de Jesus. e deixar aberturas à expressão do mistério. (. e envolve comunicação. segundo a narrativa de Marcos (16. então o falar sobre o sagrado pode tornar mais familiar o que parece inacessível. 89  eonardo Boff. A descoberta do sepulcro vazio de Jesus foi feita pelas mulheres. e não lhes deram crédito.. mostrar uma das suas faces. de uma aparição. Essa anunciação muitas vezes é motivo de descrédito. pareceu-lhes como um desvario.. (. A nossa ressurreição na morte.89 Interessante que no relato neotestamentário coube às mulheres.) O relato contudo atém-se ao essencial: o Senhor vive e ressuscitou. Petrópolis: Vozes. num sepulcro. em nenhum evangelista. de um testemunho.6.8. revelação.. “Mas o L que as mulheres diziam [aos apóstolos]. acessar a revelação de um grande mistério justamente num local semelhante à caverna. Em vez de provocar fé originou medo. Se a significação não ficar aprisionada numa única possibilidade de interpretação. o “vaso” onde ocorre a gestação de um novo indivíduo. procura manter a divindade “viva” no seio da coletividade. o ser que porta o útero. compreender o conteúdo de uma revelação. espanto e tremor.) Para os discípulos ele não passa de um diz-que-diz-que de mulheres. 1-8). encontram-no vazio. cumplicidade. e em cada um. Os conceitos e a linguagem são formas de nomear e dar contornos ao sagrado.. O sepulcro está vazio. p.” (Lc 24. anunciação. O falar sobre o sagrado não o faz cair em esquecimento. ou seja. ao feminino. De medo nada contam a ninguém. de sorte que “elas fugiram do sepulcro” (Mc 18. 8a ed.

1986. O iniciado torna-se outro”. eles são conduzidos a um local que simboliza as profundezas. à gruta. por sua vez. o mundo do mistério (o místico é o praticante dos mistérios). ligado. que resulta numa nova vida. Ao final de toda uma série de experiências. em que na caverna o iniciado tornava-se “outro”. às origens primordiais e às energias vitais que jorram da fonte da qual emanou todo o cosmo atual. por sua vez. lembrando-nos as imagens dos ritos pagãos realizados nas cavernas cretenses. donde se emerge de tal maneira transformado. O corpo de Jesus desapareceu. a entrada no labirinto. orientando o candidato à iniciação que procura ingressar num tempo e espaço sagrados a atingir uma renovação da qual emerge uma transformação. Nos ritos iniciáticos. I. O grande estudioso de mitos Junito de Souza Brandão nos revela o sentido final da “catábase”. ou seja. de agir. contém todos os tempos reunidos numa só duração. vão 90 Mitologia grega Vol. Ele foi levado? O que aconteceu? As mulheres se surpreendem numa situação espantosa. uma verdadeira iniciação. que se troca até mesmo de nome. e de compreender a existência. Para isso. A descida à caverna.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa no qual ocorre um fato surpreendente: uma estranha mudança da situação anterior. do movimento de descida às profundezas. a morte ritual. Por isso. | 101 | Ética da reciprocidade. quando jazia um corpo morto. os que a eles se submetem passam por várias experiências que envolvem a morte e o renascimento. A iniciação requer que quem a experimenta esteja apto a morrer para determinada forma de ser e de ver o mundo e renascer para uma profunda modificação em seu modo de ser.54. p. o saber iniciático conduz o indivíduo ao saber das origens. misteriosa transformação que se dá fora da vista de todos. no sepulcro simbolizam um tipo de morte. o simbolismo ritualístico da caverna trabalha o par arquetípico morte-renascimento. Petrópolis: Vozes.indd 101 16/3/2010 09:39:00 . do retorno ao útero materno. isto é.90 Voltemos ao sepulcro. Em determinadas culturas. que. “Esta catábase é a materialização do regressus ad uterum.

Falar e pensar sobre os fatos que não se deixam ver a todos. E como estivessem medrosas. mas ressuscitou. e que ressuscite ao terceiro dia” (Lc. numa comunicação imediata com ele. Bem nesse local Alguém desapareceu e reaparecerá numa nova forma. por motivos vários como a adesão ao dogma desvinculada da vivência.. exige do falante e do ouvinte um depósito de confiança na palavra. e instauraram um novo relato. eis que apareceram junto delas dois homens vestidos de brilhantes roupas.. 24. sob a forma de dois homens de vestes reluzentes. E aconteceu que. Quando as mulheres se deparam diretamente com o numinoso. onde os sentidos se desligam de seu sentido originário.indd 102 16/3/2010 09:39:00 . Para que tal crédito não caia no vazio da crençadescrença. em última análise.) “Importa que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores. remodelando a tradição e recriando uma nova forma tradicional. que somente são vislumbrados por pessoas que tiveram um contato direto com o numinoso. disseram para elas: Porque buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está mais aqui. em uma das suas múltiplas formas de aparição. encontram-se diante do sagrado. estando por isso consternadas. não perguntam mais entre si sobre o paradeiro de Jesus. É o que os gregos chamavam de pistis.. o | 102 | Ética da reciprocidade. o passivo acatamento do apelo de uma “autoridade”. e que seja crucificado. fé. e com os olhos no chão. Lealdade repleta de confiança. 4-8). lembrai-vos do que ele vos declarou (. está sendo posto um mistério que também toca a própria realidade humana. Nessa hora.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO descobrir um significado inusitado para as suas vidas. Seu espanto tem início num local escuro como um labirinto ou uma caverna. Ele se tornará um símbolo da morte e do renascimento.) Então elas se lembraram de suas palavras: (.. não falam mais sobre o que aconteceu.

Pensemos numa prática comum. da linguagem. Quando experimentada no diálogo com o divino. a oração. é preciso que a presença divina se faça sentir. cantado ou escrito. 91 Tal como a punição do deus grego Apolo a sua amada. a quem tinha  conferido um de seus dons. instala a renovação da fé onde parece haver nada além de mera repetição.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa desejo de deixar a responsabilidade da existência inteiramente a cargo de uma vontade divina. ou pelo simples dizer repetitivo e compulsivo. a imagem. deus da razão e patrono da revelação da verdade. da revelação. A oração é um texto – falado. já que não podia voltar atrás do que lhe tinha conferido. que remata a experiência da fé. da doutrina. torna viva a letra. ou seja. Cassandra. o da vidência. ela não as exclui necessariamente. Enquanto o falar sobre “Deus” demarca o campo da pesquisa. a cada acentuação. O falar sobre “Deus” e o falar com “Deus” são possibilidades de encontro com o sagrado. dá a cada palavra. o falar com “Deus” caracteriza. | 103 | Ética da reciprocidade. é preciso que. como confiança. mas ninguém acreditava. a modo de um revigoramento da esperança e do sonhar. Ela o rejeitou. e em punição Apolo. É um tipo de encontro face a face. sobretudo. No episódio da surpresa da ausência do corpo de Jesus se percebe que esse encontro envolve não apenas comunicação. comunhão de fé. Daí em diante tudo que ela dizia caía em imediato descrédito. modela imagens que projetam uma nova concepção de mundo. do simbólico com o vivido. a instância mística. cospe em sua boca. de alguma forma. Uma palavra vazia. mas sem crédito91. promovendo a conjunção da linguagem e da imagem com o experimentado. A integração da linguagem com o vivido nos permite observar que se a mística pode prescindir de mediações. a melodia. a cada som uma existência concreta.indd 103 16/3/2010 09:39:01 . ela seja reconhecida intimamente. sem contato com a realidade íntima. guiada somente pelo “ouvir dizer”. é o mesmo que uma palavra-testemunho gritada do íntimo. o enredar a consciência nas articulações lógicas de uma razão arguta e niilista. Ela via tudo.

elas próprias se arrogam a apresentar uma nova esfera de interpretação contra todas as “distorções” anteriores. O discurso que visa ao ser humano passa a vigorar sob a égide de uma armação conceitual. Nosso interesse passa a ser a confrontação do falar sobre com o falar com na direção da imanência. construída a partir de observações meticulosamente “epistemológicas”. como canhoto. ou. lógica. ou de elaborações intelectuais. Pensemos. Há aqueles que acreditam que é preciso primeiro conceituar para. Encontram-se tão ocupadas com a avaliação que se esque92 Neologismo derivado de canhestro: feito de modo desajeitado. Nesse sentido. Se o ser caiu em ociosidade como fundamento do conhecimento. embasada. Ou. mais especificamente. alguns saberes têm o seu valor depreciado. coerente. que adquirem o caráter de tradição ou de canhestrice92. da desconstrução. entre o exercício do pensar e a ação. | 104 | Ética da reciprocidade. entre pensamento e vivência. A maioria delas se diz como lugar do pensar renovador. queremos nos referir ao ser humano. elas próprias se põem no lugar do profeta da retificação ou mesmo da demolição. argumentada. pelo menos. daquele que aponta a trilha por onde deve correr o fio da compreensão. Então. da denúncia.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO O falar com ou sobre Deus nos inspirou para uma nova contemplação. quer dizer. virado do avesso. Esse cenário pode criar condições para um falar sobre que dispense uma articulação entre conhecimento e prática. Comecemos pelo falar sobre. entender. ou de hipóteses de trabalho. feito  às canhas. no plano das formas de emprestar ao ser humano um reino de conceitos. Os esforços para desenvolver uma compreensão do fenômeno humano podem se ver submersos em meio a rígidas e ferinas reservas epistemológicas.indd 104 16/3/2010 09:39:01 . permanece o apreço pela ancestral disputa agonística pelo dom da palavra. a seguir. que é preciso primeiro demolir para poder entender. primeiramente. Algumas racionalizações. às avessas. da crítica.

O mesmo vale para o “homem” e seus sucedâneos. dispõem-se a colocar a cara em risco (como se diz). encaram o face a face.indd 105 16/3/2010 09:39:01 . Enquanto elas se confrontam com um outro. Como traz a público Jung. aponta os erros. ora se espantam com a emergência do outro com toda a sua estranheza. confrontam-se com o mesmo e com o outro enquanto tal. Não porque perderam de vista a “verdade”. para dizer em alto e bom tom: “isto é apenas psicológico”. escutam relatos de vidas. e de matá-lo quantas vezes achar que isso seja acadêmico ou contracultura. Enquanto isso. mas porque estão cara a cara. Vence aquele que convence. colocar o seu objeto nos moldes conceituais estabelecidos. O pensar com o vivido sofrerá uma série de acusações. Deparam-se tanto com desafios epistemológicos como com o senso comum. percorrem becos. avenidas. seus limites e fissuras. isso vem de uma mentalidade que. no reino do pensamento. com o dedo em riste. para. O pensamento tem o poder de explicar tudo. a de “psicologismo”. estabelecendo correlações. tudo é possível. ou seja.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa cem de voltar qualquer vislumbre de crítica a si próprios. numa disputa eterna. Ora. até Deus. E quando o pensar se dá a partir do vivido? Ele não se preocupa em engendrar articulações intelectuais primeiro. ao contraditório do outro. os saberes do que se etiquetou como “ciências humanas” se põem em campo. a seguir. a existência. O pensamento tem o poder de tornar um Isso tudo que é da ordem do mistério. indefinidamente. onde pouco importa que se chame de filosofia ou força. a primeira delas. um outro | 105 | Ética da reciprocidade. Assim. ruas. de cima para baixo. os “obstáculos epistemológicos”. Ora se identificam com o outro. Todos os demais pensares que passem pela diferença estão encerrados na “tradição” até que apareça alguém que diga que seu pensar é mais consistente. O pensamento se dá ao direito de dizer que Deus existe. conversam com a comunidade. em marcha. a vida. Essas pesquisas não falam apenas sobre. Elas se dispõem a falar com.

quem sabe. por exemplo. com cheiro de naftalina. enquanto a existência corre lá fora. o ser humano é um problema. Enquanto representação. doutrina. pois está sempre no devir. em sua concretude: o ser humano que se apaixona. Enquanto existente. que é atravessado pela história. e. no reino dos conceitos. escola. o humano pode ser relegado a algum capítulo da história da filosofia. que é fragmentado. prevalecem os argumentos. que é nomeado. o ser que é colhido por um sentido de destino. a partir do ser humano complexo. seja ela “a favor” ou crítica do “humanismo”. seja para desfazer seu estatuto de existente. dos limites com a transgressão e vontade de | 106 | Ética da reciprocidade. duas faces da mesma moeda. quando o ser humano é apresentado através de uma compreensão ou uma ética do “humanismo”. que sente. De fato. mas que também é consciência e se engaja. pelo tempo. assim. Como existente o “homem” não é propriedade deste ou daquele autor.indd 106 16/3/2010 09:39:02 . o ser que se vê diante de escolhas. que é pensado. O vir a ser não se processa à parte do ser em sua densidade. uma representação conceitual que gira em torno de si própria. pela cultura em continuidades (tradição) e rupturas. Justamente por ser constrangido e inserido numa categoria onde se deita tanta falação sobre.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO existente. Tais apreciações “anti-humanistas” ganham força justamente quando se fala sobre o ser humano e não com o ser humano. que recebe inúmeras representações. em um erro de determinada tradição. isso nada mais é do que o esforço axiológico de “colocar o homem no centro”. esse outro é transformado por alguns autores em um mero conceito. o “homem” pode ser reduzido a pó. e portanto passível de ser retirado do pensar como questão de relevo. seja para afirmá-lo acima da natureza e da vida. um novelo de relações que se perdem ao infinito. e identificá-lo com a natureza. Segundo algumas críticas do pensamento contemporâneo. “homem”. que se depara com o cruzamento do finito com o infinito. o “homem” é apresentado como uma categoria obsoleta. que deseja. vale dizer. Quando se fala com tanto à vontade sobre o ser humano.

O que o outro diz ou expressa é de capital importância. Freud tratou o ser humano e a cultura como um problema (uma questão). ele não se esquivou da interlocução com o paciente. O trabalho de compreensão do ser humano toma em Jung o rumo de uma abertura mútua. toda pronta como Atena nasceu ­ de Zeus. em sua confrontação permanente com o existente ao longo do trabalho psicoterapêutico. Isso requer um cuidado para não se apropriar indevidamente do outro. Jung ressalta que se tem de abrir mão de toda pretensão de superioridade no saber. dá sentido. apesar de rasgar o limite do conhecido ao formular a hipótese do inconsciente. Abriu mão de métodos de controle e padronização do comportamento para criar um método que se propunha como uma abertura ao desvelamento do desejo. o ser que respira e transpira não apenas ar. enfim. o qual dava voz às fantasias mais arcaicas.indd 107 16/3/2010 09:39:02 . Na difícil caminhada pelo terreno do humano. em primeiro lugar. ao mesmo tempo. linguagem e símbolos. e pode redirecionar a todo momento a compreensão. brilha e apaga. e que. penetrou nela com todas as forças. como também. que ainda havia muito que caminhar? Isso foi possível porque ele se dava ao trabalho de quebrar as lentes quantas vezes fosse necessário. Concebeu um método que instalou um tipo de relação analítica fundada no diálogo com o paciente. Quantas vezes Freud supunha que podia não estar bem certo. Ele não quis. ao revés. que recebe significados estabelecidos. No entanto. compreender o ser humano. o ser que é como um vaga-lume. trabalhar o pensamento com marretas e martelos. Sua obra é uma amarração de um primor epistemológico. Tra­­ tase de uma relação dialógica. mas uma interlocução de averiguações mútuas. e não como um alvo.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa superação. em que o outro não fala para uma teoria dentro da “minha cabeça”. simplesmente e antes de mais nada. Ele quis. “Mas isto só se torna possível se | 107 | Ética da reciprocidade. Freud era um adepto do reino dos conceitos. que se encontra na tensão da liberdade com as múltiplas formas de interdição e condicionamentos.

LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível sem limitá-lo pelos meus pressupos­ tos. nosso pensar nos envia para o terreno onde as pessoas utilizam a palavra para sobrepor o explicar ao acontecer. como a natureza ondulatória e corpuscular da luz. p. confirmam. na desmedida abertura para o Tu. negam hipóteses e elucubrações. Só que a psique é de natureza infinitamente mais complicada que a luz. §1.indd 108 16/3/2010 09:39:03 . vamos tentar entender algo acerca do falar sobre quando ele se torna uma forma de esquiva do outro. Sobre a complexidade do fenômeno humano.94 As contradições requebram o saber instaurado. Como se possibilita. escreve Jung: As contradições em qualquer ramo da ciência comprovam apenas que o objeto da ciência tem propriedades. E assim se passa do falar sobre para o falar com. Na relação permanentemente revivida.3. a pessoa em análise se relaciona com o terapeuta.2. então. Na relação efetiva entre seres humanos. Saindo da avaliação do falar sobre quanto ao conhecimento para penetrar uma vez mais no mundo da vivência.. Ibid. quando ele evita a confrontação com o outro. Aqui. um mobiliza o outro. desfaz a possibilidade do colóquio para assentar-se no solilóquio. No atendimento psicoterápico fica bem nítida essa atitude do falar sobre. | 108 | Ética da reciprocidade.”93 Desse modo. em uma espécie de ebulição sem fim. p. que por ora só podem ser apreendidas através de antinomias. afeta a pessoa do outro numa composição mútua. Tal procedimento não se reduz ao consultório. Ele se mos93 94 A prática da psicoterapia. algum tipo de conhecimento? No entre. perdida e retomada. §1. razão certamente do grande número de antinomias necessárias à descrição satisfatória da essência do psiquismo. um ser relaciona e se remete imediatamente ao outro.

Ocorrenos o falar sobre si. bem debaixo do seu nariz. o sujeito não fala. de cifras comportamentais que são expressas paralelamente à comunicação. e recusa a relação face a face. não expressam algum núcleo subjetivo mais significativo. o falatório volta-se para o falar sobre a vida alheia. “representam” os seus sentimentos. Aqui. no trabalho de Camile Claudel na sua escultura As Faladeiras. Esse falar sobre si tem afinidade com o falar sobre o outro e o falar do outro. como costumamos dizer coloquialmente. excitando-se com uma escuta curiosa e insaciável. Como ­ ondas. em um cem número de ocasiões. chamam a consciência de volta para um labirinto restrito ao mental. uma análise interminável de razões e lucubrações nas quais o que se passa com a pessoa acaba corren­ do despercebido. sentimentos. detalhes.indd 109 16/3/2010 09:39:03 . senão através dos chamados sintomas. ela se dispersa. mas não conseguem atingi-los. O ponto de nó é um falar que não passa da superfície. uma forma de distrair a atenção das questões próprias. seus pensamentos tomam a palavra. Vamos nos deter agora naquele típico modo do falar sobre. das suas frustrações. dar vazão a eles. expulsando-as para o mais longe possível das vistas de si mesmo. tão bem expresso na filosofia por Heidegger na seminal obra Ser e tempo. anuncia o que acha que pode vir a fazer ou deixar de fazer. o falar de alguém que é desejado por uma estima especial. acentua o que o outro faz/fez. argumentos desarticulados da vivência autêntica que não têm mais fim. O falar sobre se perde em um labirinto de explicações e justificativas que passam de sobrevoo sobre o corpo e o desejo. ou seja. O falar do outro constitui o falatório. Por vezes.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa tra a todo o momento. Fala das suas mágoas. e assim. da sua perplexidade. fala | 109 | Ética da reciprocidade. expectativas. alternam-se. memórias. Os pensamentos produzem um debate interminável de fatos. revela algo dos seus medos. e não a partir de si: são os processos de racionalização de si mesmo. O sujeito nesse modo procura um auditor. fantasias.

ao tarólogo. ao sacerdote. Quando perguntamos se ele se dirigiu ao sujeito ao qual a sua fala está remetida. menos com aquela com quem se sente envolvido na cumplicidade da sua vivência. expressão do desejo. ao analista. às pessoas em que deposita alguma confiança. a oportunidade de percepção do outro. O falante sobre divide uma parte de si com uma ou algumas pessoas. Com frequência. Se essa instância é desafiadora. ao astrólogo. porém pode funcionar como uma chama. Quando alguém consegue dirigir a palavra de sua intimidade a outro alguém. estamos abrindo o caminho para desenhar no outro o rosto do Tu. fugidio. nesse momento começa a se pronunciar a passagem do estado de objeto para a condição de pessoa. sua falação se dirige às pessoas amigas. Quando conseguimos dizer. a relação do entre Eu e Tu pode cair em um terreno que nem todos se sentem firmes: permanecer aberto a dar espaço para a resposta do outro. Para alguns. Rogers não defende simplesmente colocar para fora os sentimentos. ainda que por breves lampejos. Ele sugere que devemos nos comprometer tanto com os efeitos que nossos sentimentos causam em nosso | 110 | Ética da reciprocidade. disponibilidade para escutar o outro. é difícil. até uma sensação de ver-se surpreendido. pois implica risco. ao médico. menos aquela pessoa a partir da qual ele fala da vivência. risco de perder-se na imensidão de si e do outro. Lançar uma ponte e ir ao encontro do outro é uma empreitada que requer dialogação.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO numa torrente de pensamentos e palavras. É um momento rápido como um flash.indd 110 16/3/2010 09:39:03 . em vez de nos remetermos para “Deus e o mundo”. ou expressar corporalmente algo do que sentimos para o outro. Estamos passando do falar sobre para o falar com. Essa espécie de vácuo nas percepções familiares abre para a consciência. no abismo que está aberto entre um e outro. Estamos nos arriscando a tocar o outro e a sentir-nos tocados. ao terapeuta. Carl Rogers é quem nos chama a atenção sobre isso. vem aquele silêncio.

não excluído. Pouco a 95 Fadiman. em que podem ser em parte redimensionados. O desejo é nublado pelo temor ao outro. O outro se torna temível. sem o que estamos fadados à repetição não criadora.  1986. perderse. O casamento e suas alternativas. de não ser rejeitado. James e Frager. é uma relação cujo projeto de ser se liquefaz e se reduz ao de desempenhar bem papéis que deem a si mesmo segurança. desentendimento. É a disposição de aceitar os riscos reais envolvidos: rejeição.233. ou. acima de tudo. controle. matéria-prima para os papéis que se desempenha mutuamente. | 111 | Ética da reciprocidade. Rio de Janeiro: José Olympio. o sujeito pode se retirar da relação e passar a falar no modo do falar sobre. Esses papéis podem ser assimilados por uma necessidade de aprovação. que retornam sempre ao mesmo ponto. esta­ bilidade. Nessa lógica. o quanto já se está perdido.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa parceiro quanto com a expressão original dos sentimentos em si mesmos. em que condicionamentos sociais e os adquiridos desde tenra idade. ou constatar o que não se quer constatar. chamados novamente a uma provocação de ruptura. Temor pela perda do outro. um retorno a si e um sair de si. sentimentos feridos e [retaliação]. mediante a abertura ao outro. Isto é muito mais difícil do que simplesmente “desabafar” ou “ser aberto e honesto”.indd 111 16/3/2010 09:39:04 . Teorias da personalidade. perder o outro é perder a si mesmo. uma desesperada tentativa de ser amado.95 Frente a essas dificuldades. Permanece no mundo de pensamentos em redemoinho. ser de alguma forma admitido. a consistência de ser alguma coisa. A intencionalidade do outro como Tu envolve uma distensão do tempo. São Paulo: Harbra. 1977. A obra de Rogers que traz essas ponderações é Novas formas de amor. o sentido viscoso. ao menos. previsibilidade. são convocados. Uma relação em que o sujeito não se reconhece afirmativo de seu desejo: somente o fantasma do que o outro pode fazer. p. pela desaprovação do outro. Robert.

não é uma receita de vida. prazer ou coisa do gênero. começando pelo exame do procurar e do encontrar na experiência religiosa. o outro a si próprio. interrogar: se não temos a perspectiva de uma procura. o acolhimento. pois. de uma forma compartilhada. menos ainda. gostaríamos de pensar a proposição da condição originária da espontaneidade e da simplicidade no encontro entre a pessoa e o Tu. segundo Buber. p. O sagrado na condição de Tu não se faz presente apenas em instantes 96 Eu e Tu. para o olho que encontra o olho. | 112 | Ética da reciprocidade. o que encontramos? Com o que ou com quem nos deparamos? O que descobrimos quando observamos atentamente a maneira de assumir a experiência relacional no modo Eu e Tu? Vejamos o que conseguimos pesquisar. fundamentalmente.12. a que Buber chama por uma simples denominação. referindo-se à relação Eu e Tu: “O Tu encontra-se comigo por graça. um evento cuja possibilidade e amplitude é definida pela abertura mútua. Eu e Tu. agora. Não é uma construção segura. Martin Buber afirma.indd 112 16/3/2010 09:39:04 . a face na face.” 96 É do nosso interesse. o toque. Constitui. e expor de que forma nós a entendemos. O CaRÁTER ORIGINaRIaMENTE SIMpLES DO ENCONTRO Neste momento. Há espaço no ser humano para a comunicação enviada ao falar com.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO pouco pode-se descobrir. não é por uma procura que o Tu se torna reconhecido como relação fundamental. É possível descobrir possibilidades para ser em conjunto com a abertura ao outro. não é através de uma procura que é encontrado. trata-se de uma conquista definitiva e apaziguadora do ato radical de viver. Todo esse conjunto não configura uma constituição de intersubjetividade que promete felicidade. tampouco uma consolação para um mundo de tribulações e fantasias malogradas.

dedicar-se à leitura exaustiva dos textos considerados sagrados. 1969 (ed. Nada disso tem um caráter significativo se não surgir a disposição para encarar o divino na perspectiva do encontro. banhos purificadores. adquire o sentido da descoberta permanente do sagrado como presença. dessa forma. parece-nos que “procurar” pode ser interpretado da seguinte forma: só se procura algo que ainda não foi encontrado. a existência. obrigar-se a orar todos os dias. o que não se reconhece como presente. Em todos os procedimentos mencionados acima acredita-se estar procurando o sagrado. | 113 | Ética da reciprocidade. Vamos à segunda observação. cumprir zelosamente as práticas rituais. na medida em que se tenha em conta que o sagrado já é presença “Procura”.indd 113 16/3/2010 09:39:04 . O sa grado e o profano. Le sacré et le profane. A essência das religiões. Essa demarcação postula. o vegetarianismo. O Tu (já) é presença. Dessa forma. Não rejeitamos de todo a ideia de uma procura. adotar algum procedimento catártico como o ascetismo. de uma lado. o sagrado e o profano são integrados numa totalidade que os re­ 97 V. Paris: Gallimard. Façamos duas observações. quem se encontra envolvido com a experiência religiosa não tem que. Mircea Eliade.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa bem marcados.97 Na instância do Eu e Tu não há passagem do profano para a presentificação do sagrado. Não se alcança aquilo que já é presença. de outro. port. No horizonte do Eu e Tu. praticar sistematicamente exercícios de meditação. referente ao campo do profano. Primeira: o sagrado na condição de Tu deve ser reconhecido pela pessoa que vivencia o sagrado como presença em cada modalidade da experiência religiosa. Lisboa: Edição “Livros do Brasil”). em primeiro lugar. a experiência religiosa como a instância do sagrado e. em que se promove a delimitação entre o “sagrado” e o “profano”. No modo de concepção dialógico. lá começa o sagrado. Não há por que separarmos de forma necessária e sistemática o sagrado do profano para promover a ligação com o sagrado: aqui termina o profano.

. O que ressaltamos na perspectiva do sagrado como Tu é que ela não desenvolve uma lógica produtora de descontinuidades (alma x corpo. o sagrado não se mantém exilado da existência. e não se vê cir­ cunscrito a determinadas esferas metafísicas espaço-temporais da existência. racional x irracional.). eu x outro. na qual procuro o sagrado em prece. que envolve o cotidiano. ritos. quer dizer. | 114 | Ética da reciprocidade. “nada tem em comum com o meu pobre momento terrestre.101. o rito. sacralização e celebração dos elementos da natureza etc. O sagrado. o pensamento. Quem se dedica diligentemente aos procedimentos que visam religar-se ao sagrado. o que me importa. quando o indivíduo dá por encerrado o rito e sai dele para retornar às suas atividades cotidianas. onde não há solução de continuidade entre o rito e o profano.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mete a uma dialogação. profano x sagrado etc. p. são as multiformas de expressar a presença do sagrado na existência. o “profano”. portanto. o “racional” e o “irracional”. devo ainda viver com toda a seriedade?”. “quando alguém iluminado e esgotado.indd 114 16/3/2010 09:39:05 . e percebe essa ligação como uma rela98 99 Eu e Tu. o psíquico. após a meditação. meditação. as imagens e o discurso. a partir das quais se abriria um portal imaginário em que o sujeito passaria do profano para a experiência do sagrado. espírito x matéria. apresenta-se como abertura permanente à dialogação numa totalidade complexa. p. Com isso. ou seja. a arte etc. o mito e a “realidade”. atravessa todas essas instâncias. voltar à miséria das coisas terrestres”. pois devo continuar vivendo sobre a terra.. ele não fica restrito ao templo.100 Ibid. Todas elas são formas de mostrar a presença do sagrado.99 O Tu eterno é sentido como presença na existência. não se torna uma vaga lembrança após a prece. Ele como que passeia.98 Se o momento “celestial de abundante riqueza”.

A mística não é reservada somente a alguns bem-aventurados. os procedimentos rituais. Ele chama a atenção para a experiência do mistério que não se dá apenas no êxtase. de sua procura. designado como “a mística”: a comunhão entre a pessoa. Aqui. quando captam o outro lado das coisas”. “uma dimensão da vida humana à qual todos têm acesso quando descem a um nível mais profundo de si mesmos. tem no fundo de sua busca. fora da existência natural. mas. mas ela é. entre elas. antes do mais. ao mesmo tempo. na discreta sucessão de nossos dias. a comunidade e um sentido de sacralidade. o que se insinua como místico se refere necessariamente a um outro mundo. sob diversas formas. compõe um dos aspectos essenciais da experiência do sagrado. porque o sagrado não se dissocia dele. de seu caminho. É uma experiência que o senso comum considera pertinente ao “sobrenatural”. A noção de uma inserção do sagrado na existência (sem que o sagrado. perca o caráter de transcendência) é um dos sentidos mais importantes da experiên­ cia religiosa. onde a busca pelo espetacular dá lugar à experiência de respeito diante da realidade e da vida. Contra tal teoria. a noção da presença do sagrado inserida no cotidiano de sua existência. por vezes. “Quem não se extasia diante de uma criança que nasce? Quem não se enche de profundo respeito em face de um rosto sofrido e curtido de um indígena do altiplano da Bolívia? Quem não emudece diante dos pés grossos e calosos do camponês nordestino que trabalha no sertão árido de sol a sol?” O Professor Boff registra com muita propriedade que existe aí uma sacralidade que se impõe por si mesma. o mistério que se revela | 115 | Ética da reciprocidade. Segundo não apenas o senso trivial como algumas críticas à afirmação da experiência religiosa.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa ção dialogada.indd 115 16/3/2010 09:39:05 . Esse mundo é sagrado. sua busca já é encontro permanente. cabe a notação de Leonardo Boff. confirma-se que o sentido da mística é refeito a cada vez que o ser humano respira mais profundamente. num suspiro que se encanta com veneração com o mundo que se lhe apresenta. Seu caminhar é o seu caminho. também.

XXXII. montanhas perigosamente íngremes. místicos. Ele percorria as aldeias da Polônia curando as doenças dos camponeses e aldeões através de ervas. como a religiosidade. preferia andar na mata. Mística e espiritualidade. Martin Buber teve um contato estreito com essa modalidade da mística judaica. Rio de Janeiro: Rocco. o clima ou o molde do seu pensamento. os estudos teológicos. pois. Aliás. p. o movimento da mística hassídica representa para Buber. amuletos e preces.”100 Uma forma análoga de pensar foi desenvolvida por Martin Buber. a partir da Doutrina da Lei anunciada por Moisés. p. a marca decisiva do pensamento de que o divino se faz presente no mais ínfimo contexto do cotidiano tenha sido fortemente inspirada pelo hassidismo. Zuben vai mais longe: para ele. a sua experiência pessoal. Ele preferia o contato direto com a realidade em vez de estudá-la. Contam que ele percorria. | 116 | Ética da reciprocidade. Em Eu e Tu.101 O fundador do hassidismo foi Israel ben Eliezer. O mestre fundador era uma figura ao mesmo tempo histórica e mítica. Talvez.. em seus devaneios místicos. Ele morava na encosta de uma montanha. O tradutor e comentador de Eu e Tu. Introdução. não tem dúvidas de que o hassi­ dismo foi a mais relevante influência no pensamento de Martin Buber. Seus seguidores começaram a chamá-lo de rabino Baal Shem Tov (ou simplesmente Besht).indd 116 16/3/2010 09:39:06 . Newton Aquiles von Zuben. mais do que simples influência. “Todos. a filosofia. visitar e tratar as pessoas (como curandeiro e exorcista). O Talmude contém comentários acerca dos textos do Velho Testa mento. certamente através de diversas fontes. e apresenta discussões.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO a quem se permite o espanto e o encantamento. contar histórias às crianças a estudar o Talmude102. 1994. Eis o que nos diz um relato: 100 101 102 Boff. do código de Lei judaico. somos místicos num certo nível. metafísicos.17. por volta de 1730. e o manteve durante anos.

uma realidade engendrada em total inocência.  103 | 117 | Ética da reciprocidade. (. fidedignos.) Toda a vida é “A Montanha Auxiliadora”. sem lugar para a invenção ou para o capricho.. porque os relatos que chegaram até nós e aos quais me propus dar forma adequada não são. esclarece Buber: “Devo denominá-la [uma realidade] lendária. bebendo ou fazendo amor com sua mulher – porque a centelha divina estava em toda parte. Um devoto judeu podia experimentar Deus nas menores ações de sua vida diária – enquanto ele estava comendo. em recordações a apontamentos.” Ibid. uma dor de cabeça. Remontam a pessoas entusiasmadas que. p.103 Ele acreditava que existiam centelhas divinas em tudo: Isso significava que todo o mundo estava repleto da presença de Deus.indd 117 16/3/2010 09:39:06 . mas daquilo que sobre elas atuava. discorrendo sobre o hassidismo.. p. Citado por Buber. São Paulo:  Perspectiva.89. quando celebrada como a própria Vida de Deus.19.104 Lex Hixon. relatando-as. A history of God. acrescenta: Uma fórmula matemática. como tais. Então a montanha vizinha saltou para junto da outra. uma cerimônia religiosa – cada uma dessas coisas nos permite alcançar a parceria com Deus quando vivenciada extaticamente. a morte de um ente querido. É por esta razão que devo chamá-las de realidade: a realidade da experiência de almas ferventes. apertou-se firmemente contra ela e o Baal Schem continuou seu caminho. Histórias do Rabi. p. (.. Sobre os líderes do movimento hassídico.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Certa vez. como crônicas. 104 Karen Armstrong. seu êxtase foi tão profundo que não percebeu estar parado à beira de um abismo abrupto e calmamente levantou o pé para seguir adiante.. É que essas almas não informavam de si mesmas. a brincadeira de uma criança.) mas que a alma entusiástica sentiu como algo manifestamente acontecido. os chamados “tzadikim”.. 1995. preservaram aquilo que seu entusiasmo percebeu ou acreditou ter percebido. portanto.334.

a nosso ver. na esfera da relação com o Tu. sua presença a cada instante.indd 118 16/3/2010 09:39:06 . não o encontrava. Na verdade. podemos dar sentido ao Deus apenas. 1992. ao recostar numa árvore. não há uma procura por ele.134. no recolhimento íntimo da fé. na prece pronunciada por um pensamento profundo e introspectivo. p. Buber nos oferece mais um convite a refletir. p.105 Essa é. Expressão extraída do livro de Hixon: “O mestre hassídico desaparece na  Vida de Deus transformando a existência cotidiana comum na dança sagrada do êxtase. segundo a fórmula hassídica. Deus apenas é sentir no coração uma abertura ao sagrado. quando ele se dirige em êxtase místico a Deus. contemplando a natureza.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO apenas Vida Divina. ou seja. ó Beleza tão antiga e tão nova. após uma descoberta fundamental: “Tarde Vos amei. São Paulo: Cultrix. Somente pôde realizar o seu sonho quando percebeu a presença integral de Deus. experimentando “Deus apenas”.. e sentir sua presença respondente. Não nos dirigimos ao Tu como se procurássemos alguma coisa.” Ibid. a forma de aceitar uma relação com o sagrado com simplicidade. percebendo Deus apenas. entranhado em nosso próprio ser. Não é demais repetir um pensamento de Agostinho muito conhecido. ele se faz presente aqui e agora. Santo Agostinho nos legou um testemunho de quem procurou anos a fio por Deus. como na oração feita na intimidade do quarto. tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de 105 106 O retorno à origem. não há uma procura de Deus. Tanto num rito litúrgico especial.135-6. Deus não está em um “lá”. Nesse ponto.106 O sagrado integrado ao cotidiano é um Deus apenas. a atualidade de Deus. como ele costuma dizer. Enquanto o procurava. | 118 | Ética da reciprocidade. ao insinuar que. onde nos preparamos como se fôssemos a um baile de gala. e cada momento ou situação pode ser usado para despertar a sociedade ou união com Deus.

p. e assim.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa mim e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme. lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Aquele que se dispõe a achar. uma presença compartilhada com cada pessoa. a edificação de uma moral alienada do ser-próprio. p. Se procura algo. não teríamos aí um sentido pertinente para a máxima proferida por Jesus: “O que acha a sua alma. Quem sabe. é porque se descobre que não há nada onde não se possa encontrá-lo. identificamos a expressão da experiência extática. ao nos darmos conta de que a perda da alma é sinônimo de encontro: no estabelecimento da relação com o divino perde-se o Deus-objeto a ser encontrado (Deus que não é sentido como plena presença). perdê-la-á: e o que perder a sua alma por mim. do sair de si. e encontra-se a um só tempo a si e a Deus-presença.indd 119 16/3/2010 09:39:07 . procura por algo.92-3. Desviar do caminho pode ser admitido como um regramento dos desejos. X. na lógica dialogal. O procurar significa que se perde de vista que o Tu já se faz presente. pelo medo da morte. perde de vista o objeto de sua busca. 107 108 Confissões.190.”108 Pois. “Quão insensato e sem esperança seria aquele que se afastasse de seu próprio caminho a fim de procurar Deus. 27. por medo de viver. ao se ocupar com a tarefa de encontrar o que tanto persegue. achá-la-á” (Mt 10.39). 1987 (Os pensadores). Na máxima cristã em análise. o deixar de lado a expressão do si-mesmo a partir da tentativa de enquadramento da personalidade em moldes exteriores: por ouvir dizer. por querer impor a si uma crença esvaziada de sentido. | 119 | Ética da reciprocidade. é porque não encontra ressonância plena do sagrado enquanto presença. o Tu eterno não se revela a não ser para quem o reconhece como presença. não o encontraria. mesmo que houvesse conquistado toda sabedoria da solidão e todo o poder de concentração. Eu e Tu. Estáveis comigo e eu não estava convosco!”107 Se não faz muito sentido uma procura por Deus. São Paulo: Nova Cultural.

É um ir-ao-encontro-de que 109 Ibid. não devemos confundila com o sentido “de graça”.93. que lhe estava presente desde o começo. Podemos cultivar hábitos “religiosos” e ri­ tua­ lísticos que não se mostrem configuradores do encontro. de uma atualidade da vida santificada do mundo. numa meditação. Essa relação requer a disponibilidade para o encontro. igualmente. O sentido do Tu que não pode ser saciado. Para Leonardo Boff.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Parece-nos que para Buber. retomando os termos de Buber já citados páginas atrás. reconhecer e acolher a sua presença são formas de se dispor ao encontro. | 120 | Ética da reciprocidade. uma escolha que diz respeito à totalidade da pessoa: a pessoa se dispõe ao encontro. p. vai ao encontro do sagrado. bastou somente que esta presença se lhe tornasse totalmente atual. Afinal. e o encontra a cada passo do caminho. percebê-lo integrando todos os momentos da existência. Cultivar o sagrado no coração.109 A simplicidade do encontro com o sagrado como Tu se afina com o aspecto de gratuidade que. Dessa afirmação. não é através de uma procura que ele é encontrado. O sentido do Tu para o ser humano é um achado sem que se tivesse procurado.indd 120 16/3/2010 09:39:07 . na projeção de um desejo ou ideal que se processa numa fé íntima e silenciosa. Essa graça. “procurar” e “achar” mudam de sentido quando estão remetidos à dimensão relacional do ser humano com o sagrado. o Tu se encontra comigo por graça. assim como podemos simplesmente evocar o Tu como presença no rito. espiritual. uma descoberta daquilo que é primordial.. corporal. Uma escolha afetiva. a graça implica liberdade e gratuidade. pensamos: a disponibilidade para o sagrado envolve uma escolha. até que ele tenha encontrado o Tu infinito. lança-se no encontro. Nós podemos estar disponíveis ou não para o encontro. originário. compõe o encontro.

ter partes suas levadas para o laboratório. fotografada. permuta incessante de terra e ar. mas num diálogo de amor gratuito. como essência aromática. onde Graça significa a natureza humana “penetrada pelo amor de Deus. O caráter originariamente simples do encontro não é uma questão para Buber reservada exclusivamente à experiência religiosa... respiração das folhas. | 121 | Ética da reciprocidade. submetida ao rigor da lei científica. como matéria-prima. No estudo acerca do cristianismo. qual a sua função.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa descobre de imediato ressonância recíproca. aqui. como remédio. A árvore pode ser recortada em conceitos. de sorte que podemos dizer: a divinização do homem humaniza Deus. de mútua interpenetração divinizante. do ser humano na experiência do amor mútuo. e mesmo 110 A nossa ressurreição na morte. em infinitos conceitos apropriados pelos diversos saberes. classificada. Boff descreve a “Graça” como referente à situação do homem inteiro inserido no amor de Deus e estabelecendo uma comunhão com Deus. não mais num frente a frente com Deus. A árvore pode ser medida e entrar para alguma estatística. como madeira. e a humanização de Deus diviniza o homem”. Essa simplicidade é muito precisamente expressa quando Buber relata a possibilidade de relação com uma árvore. sucção de raízes. que prescreve qual a sua inscrição no reino da natureza.indd 121 16/3/2010 09:39:07 . Ela pode ser disposta como um objeto: como objeto de estudo. p.110 O amor a Deus e de Deus constitui justamente o aspecto relacional recíproco em que a pessoa e Deus saem de si e se dispõem para o encontro. darmos a voz ao próprio Buber. Eu considero uma árvore.90. o reconhecimento da presença divina na existência. Vale.) Posso senti-la como movimento: filamento fluente de vasos unidos a um núcleo palpitante. como investimento econômico. (.

eu seja levado a entrar em relação com ela. espécie e exemplar. em todas estas perspectivas. aceitar a sua presença. p. simultaneamente. ao observar a árvore. tornando-a um número. mas através da nossa relação com ela. A árvore permanece. mantém sua natureza e sua composição. em que nós a vejamos de forma renovada. não simplesmente como uma coisa. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim. Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e de vida.111 A enunciação “Isso é uma árvore” não pode ser mais adequada a sua objetivação. tocá-la. Eu posso dominar tão radicalmente sua presença e sua forma que não reconheço mais nela senão a expressão de uma lei – de leis segundo as quais um contínuo conflito de forças é sempre solucionado ou de leis que regem a composição e a decomposição das substâncias. por vontade própria e por uma graça. senti-la. Esse desenho novo só pode ser composto pela nossa relação com ela. Não apenas representar a árvore. Não devo renunciar a nenhum dos modos de minha consideração. Eu posso volatilizá-la e eterniza-la. pode acontecer que. Ao contrário. uma mera relação numérica. Entretanto. imagem e movimento. | 122 | Ética da reciprocidade. ela não é mais um Isso. sem deixar de se enraizar como uma árvore. lei e número estão indissoluvelmente unidos nessa relação. Até que ela.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO o próprio desenvolvimento obscuro. tem seu espaço e seu tempo. De nada devo abstrair-me para vê-la. Existe mais uma possibilidade de se dispor diante de uma árvore. mas.7-8.indd 122 16/3/2010 09:39:08 . mostre-nos outras faces. e ser tocado por ela. não há nenhum conhecimento do qual devo me esquecer. o meu objeto. 111 Eu e Tu.

) Não é a alma da árvore ou sua dríade [ninfa dos bosques] que se apresenta a mim. ela não é apenas uma imagem representada. ou melhor. o outro singular. p.. Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: relação é reciprocidade. é ela mesma. Ela é um outro. não queremos contar. percebemos que ela não nos pertence. não é uma reprodução passiva de nossos sentidos. Ela se apresenta “em pessoa” diante de mim e tem algo a ver comigo. já partimos para o encontro armados de explicações e justificativas para tudo o que não queremos fazer.113 E nós. não queremos partilhar. Armados com a 112 113 Ibid.112 No momento em que nos lançamos na relação com a árvore. tenho algo a ver com ela. seu mecanismo. | 123 | Ética da reciprocidade. ainda que nos sintamos a ela ligados. (. aquele ser que se apresenta a nós naquele momento único. Ibid. uma guerra. A árvore não é uma impressão. tudo está incluído numa totalidade.. uma agonística? Na maioria das vezes.. e eu. mas.. como vamos ao encontro? Munidos de quê vamos para o encontro? Nosso encontro é um encontro ou um confronto. sua “conversação” com os elementos do mundo e com as estrelas. uma disputa. p. um jogo de minha representação ou um valor emotivo.9. se bem que de modo diferente. aquela árvore. Não é qualquer um. sua forma.indd 123 16/3/2010 09:39:08 . não é somente um expoente de nossa subjetividade. de um encontro único. não é apenas o meio através do qual a nossa subjetividade se faz perceber a si própria.8. sua cor e suas substâncias químicas.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Tudo o que pertence à arvore.

Bem. Ele dita o que é “neurótico”. “a demanda”. É preciso que o outro seja predeterminado por uma série de demandas. estarmos face a face uns com os outros. “desejo”. atravessado pela exaltação subjetiva. não bastaria. mas que a nada responde quanto àquela simplicidade fundamental. psicanalíticos. mesmo na ausência? Pois parece que não. tal qual o controle de qualidade de um produto. pensamos em mais essa. quando se sente a presença. a presença mútua? Ou mesmo a saudade. Tratamo-nos como um assunto de ordem material. Nesse discurso. prática e literalmente econômica. para começar. valha a pena.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO nossa “subjetividade”. e. presos a uma auto imagem que não permite que o outro se revele porque não nos revelamos diante dele. que a tudo tenta justificar. psiquiátricos. “as necessidades” são as normas diretivas. Nem paramos para perceber que esses são termos hauridos da economia. sentir. Dois sujeitos se desejam. desejar. Queremos que o valor da relação seja posto em questão antes mesmo da relação. entramos no encontro repletos de uma apropriação não problematizada do discurso psi: um amálgama de conceitos psicológicos. No entanto. devemos admitir que nunca estamos intei| 124 | Ética da reciprocidade. “realização”. Não basta que um se coloque diante do outro. “inconsciente”. não nos colocamos por inteiro. Ficamos encalacrados em nosso modo “pós-moderno” de viver. portanto. “o investimento”. sobreposta à própria relação. Queremos determinar as condições para que uma relação “aconteça”. “obsessivo”. “patológico”. “satisfação”. Para que o evento da relação encontre o seu fim. eles se desejam? Ou desejam a si através do outro? O que eles querem? Haverá alguma possibilidade para o desejo que não o “amor” a si? Quem pode saber fora da própria relação? Por que não deixar que a própria relação indique acerca de nós próprios? Por que isso se tornou quase da ordem da absoluta idealização? Entre mil explicações válidas. “liberdade”.indd 124 16/3/2010 09:39:09 . Somos um manancial de possibilidades de ser. apresente contentamento.

e assim. ficar ligado. 114 Acrescente o ligar a TV. eficaz. assim. sob pena de sentimento de fracasso. ocupar o tempo com marcar território sobre o campo do outro. a todo momento. ameaça tomar de assalto a consciência. todo tempo. Recorremos às tarefas. que têm de ser cumpridas. qual seja. apenas. também. o | 125 | Ética da reciprocidade. ficar sozinho. seja com quem estiver. uma identidade descomprometida com a forma de ser mais própria. os computadores. ineficácia. pela adoção de um novo imperativo categórico: há sempre mais que fazer. consigamos manobrar para que ele preencha o vazio da existência que.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa ros. Pouco importa se essas tarefas são realmente significantes. dá pano para o estabelecimento de relações de conveniência. simplesmente com alguém. vivenciando a relação. estar com todos. conectado. à iminência do risco. pois estamos sempre por nos constituir. no ritmo atual. útil. em família.indd 125 16/3/2010 09:39:09 . e. Parece-nos que o existencialismo acredita que o ato de ser remete à angústia. ao mesmo tempo114. e fazê-la perder o controle da angústia. com um grupo de amigos. nem dar um tempo para se relacionar no sentido de efetivamente se permitir estar com alguém. sentir-se ativo. a web. não permanecer em silêncio para a escuta do si-mesmo. Esse ocupar-se freneticamente permite um esvaziamento de si próprio. Socorre-nos o Professor Zuben. ficar para trás. Pretendemos retirar a sua autonomia: ele só tem “validade” enquanto corresponder às nossas necessidades mais imediatas.. competente? Qual o vazio de sentido que precisa ser preenchido a qualquer preço? Podemos. Mas. não nos colocamos por inteiro tanto por uma questão ontológica como por um motivo que vem de pronto em nossa mente. há muito com o que se  ­ cupar. quem sabe.. ao desejo. levar o celular. o importante é se ocupar e preencher todo o tempo. e para seguir a vida sem rumo de simesmo. à possibilidade de negação da consciência. Por que essa necessidade desesperada de fazer alguma coisa.

ao mesmo tempo. Não precisamos necessariamente nos encontrar primeiro. do consumo desenfreado.indd 126 16/3/2010 09:39:09 . não precisamos neces­ sariamente enunciar “tenho que me encontrar primeiro”. a dimensão da intersubjetividade. vão discutir as questões que envolvem o outro com terceiros. O outro vem ao nosso encontro e nós ao dele. ele renova o nosso olhar porque ele não é reduzido a uma simples tela de projeções do nosso passado. antes de tomarem uma decisão. Inúmeras pessoas. O outro devolve o nosso olhar para nós. sob a inspiração de Buber. diríamos. embora ofuscada e fugaz. de suas limitações trágicas. O desejo subverte todo o projeto de encontrar uma identidade definitiva. não precisamos tomar como via exclusiva bater na porta de alguém que elegemos portador de um suposto saber para autorizar a nossa existência. Encontramo-nos em devir junto ao outro. aturdido pelo gigantesco volume de conhecimentos acumulados.142. convida-nos a isso. para nos importar com a questão do sentido da existência. Nunca nos encontramos por inteiro porque não somos uma pessoa acabada. Cumplicidade e diálogo. Não há o que procurar. nem o outro. | 126 | Ética da reciprocidade... [o homem] não vê senão uma conspiração em eliminar a sua vontade de silêncio para poder encontrar-se consigo mesmo.115 Perdendo de vista a constituição mais pessoal de uma sub­ jetividade. perdemos também o foco do outro. nem depois. ainda que a relação com ele suscite mui115 Martin Buber. Engolfado no mundo da eficácia produtiva.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Ele se pergunta se ainda resta fôlego para que interroguemos acerca de nós mesmos. da luta pela sobrevivência (. dos interesses imediatos. p.). tomando decisões sem nenhuma participação do outro. Para encontrar alguém. O pensamento calculante do homem contemporâneo não permite brechas que lhe propiciem uma visão.

mas não interdita a oportunidade de um rasgo na subjetividade. dá passagem para sentir a presença um do outro e descobrir quem és Tu. Um ser que não é mais nosso de todo. não se encaixa completamente nos nossos projetos (a dimensão do desejo voltada para o futuro). todo o peso da vida que vivemos se coloca. É perder-se para que o sentido do eu e do outro tome o seu lugar na existência. nem permanece enclausurado no outro. por mais tênue que seja. ele igualmente é. tão específica quanto nós podemos ser para ela. Buber distende o seu arco para a compreensão mais extensa do amor. a comunicação. quer dizer. Ele. que dê guarnição para a descoberta daquela específica pessoa. Ela aponta o sentimento de infinito no seio do finito. o palpitar. também.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa tas projeções inconscientes (projetar o eu no outro) advindas de nossa história. o silêncio. dois sentimentos serão por nós observados de perto. simplesmente. Deixar que o encontro revele algo desconhecido reflete em uma recriação de nosso próprio ser. o gesto. nosso eu parece aderir ao outro de tal maneira que é como se entrássemos dentro de um labirin| 127 | Ética da reciprocidade. presente. Os fantasmas do passado e as expectativas do futuro estão presentes. um ser que é a própria vida jorrando através de todos os eventos. Essa presença de um ao outro confere ao encontro o caráter originariamente simples do encontro. É risco. o olhar. A simplicidade do encontro torna-o atual. o toque. CONSIDERaÇÕES SOBRE O SENTIMENTO Na exaltação amorosa. sem querer esgotar o gigantesco repertório de possibilidades de expressão do cosmo sentimental: o chamado sentimento de dependência e o sentimento do estado de criatura. Deles.indd 127 16/3/2010 09:39:10 . Essa é a dimensão mística de nosso cotidiano. Um lugar que não está marcado. É doçura e conflito. da falta e da fragilidade em meio ao desejo de transcendência. apenas pressentido. Pelo primeiro sentimento.

como também do desejo de união e vínculo tão profundos e intensos que o eu parece ter uma morte anunciada: ele não se importa mais tanto consigo próprio. donde a sensação. Nossa meditação não se atém à experiência religiosa. sublimar a falta originária do ser humano. difusa ou eminente de “dependência”. Pois bem.indd 128 16/3/2010 09:39:10 . em termos psicológicos. no âmbito da experiência religiosa. Ela envolve a angulosa questão se o amor implica algum tipo de morte ou dissolução do eu. perdemo-nos “completamente” nele. por vezes não menos do que fonte da felicidade e. sem que elas sejam diluídas em seu mistério. Ela pode ser estendida para direções da existência a perder de vista. da infelicidade. A alma gêmea é um mito vivo. donde sairá renascido. Nos dois. somos atacados por um sentimento concomitante de deflação do eu e endeusamento do outro. consequentemente. segundo o sentido de uma experiência de religação do indivíduo a um fundamento que para ele tem sentido de valor superlativo. ao mito da busca do Paraíso perdido: o desejo de preencher a carência. Podemos chegar ao ponto de culminar na máxima não sou nada. Buber vai remexer em certas formas de experimentar o sentimento. diluir. Quando não adquire tintas tão dramáticas. Podemos começar? | 128 | Ética da reciprocidade. que para alguns remonta ao distante Platão. Remonta. ampliando o campo das possibilidades vivenciais da religião para além dela. Eis quando começa uma discussão no terreno da “religião”. em que “nós dois somos um”. ao menos. Mas não se trata tão-somente de preencher demandas do sujeito. Expliquemo-nos: ele pode se ver submetido a um tamanho arrebatamento que pode aceitar o sacrifício de uma imagem e de um modo de ser que idealizou e com o qual se identificou para submeter-se a uma transformação profunda. no relato das metades cortadas por Zeus que passam a procurar seu elo perdido.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO to sem retorno. ou. você é tudo. o outro é posto como um deus. tais sentimentos sugerem a imagem da “alma gêmea”. Pelo segundo.

116 | 129 | Ética da reciprocidade. que demonstra ou suscita compaixão etc. o sagrado suscita um sentimento predominante.63. ele se refere a Schleiermacher e a Rudolf Otto. a qual nos brinda Otto: “Infeliz! Mal me posso restabelecer! / Quando algo de absolutamente inesperado nos surpreende / Quando os nossos olhares se apercebem de algo enorme. humilha a razão. “extraordinário”. ao mesmo tempo em que irradia uma Majestade. grandeza. / O nosso espírito fica momentaneamente em suspenso: / Não temos nada a que compara isto. na esfera relacional.. o poder incomensurável do majestas116. O sagra do.indd 129 16/3/2010 09:39:10 . “amoroso”. “fascinante”. imediatamente nos ocorre a atribuição de uma ênfase toda especial à vivência. Buber apresenta o seu entendimento acerca do sentimento na experiência religiosa. equivale “a absoluta superioridade do poder”. por extensão. p. Para Rudolf Otto. tais como “angústia”. escapa a todos as tentativas de conceituação. o estranhamente diferente) que não se compara com nada que se inscreva na imanência117. Ele procura nos fazer ver que. ao sentimento. dramaticidade e intensidade. e. como estudamos. p. o mirum (é o absolutamente inesperado.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Quando pensamos a experiência religiosa. “inebriante”. 117 Não resistimos deixar de degustar essa citação de Goethe acerca do “enorme”  (que se confunde facilmente com o mirum). em que aparecem adjetivos carregados de emoção. não cabe se admitir a preponderância deste ou daquele sentimento.” Ibid.29. “tremendo”. Como exemplo da experiência religiosa baseada num determinada concepção de sentimento. Tu és tudo”. “terror”. “misericordioso”. ao longo do amplo campo de experiências que se inserem entre as polaridades do tremendo e do fascinante: o espanto ou estupor que deixa a todos boquiabertos. “desmedido”. toda uma série de formas de vivenciar o sagrado são desenvolvidas. “extático”. A partir daí. o sentimento do “estado de criatura”: “não sou nada. Observamos descrições do sagrado bastante frequentes. o mistério tremendo que aterroriza. “majestoso”.

Desde logo. p.118 É um sentimento de conexão e sintonia entre nós e o infinito. Speeches to its Cultured Despisers. Schleiermacher comenta que a religião repousa toda a sua vida na natureza – na infinita natureza da totalidade. Ao contrário. Há uma correlação íntima entre nós. sinônimo de universo. tal sentimento acentua a liberdade humana em face de qualquer servilismo de ordem religiosa. seres finitos. 1999.161.indd 130 16/3/2010 09:39:11 . liberdade essa que constitui a fonte da eterna juventude e jovialidade”. a um só tempo na singularidade de cada ente e na multiplicidade de tudo que compõe o universo. Cambridge University Press. o infinito é experimentado 118 119 Os grandes pensadores do cristianismo. “a liberdade interior do homem justo. Numa de suas várias definições de religião.23. designado como o “totalmente outro”. O sentimento de dependência inclui a liberdade. muito citado por diversos autores que examinam seu pensamento. observa Hans Küng. Cada intuição é única. A religião se define essencialmente pelo sentimento e pela intuição do infinito-universo.. O  n Religion. p. O dito mais forte do filósofo. não se pode dividir a intuição e o sentimento do infinito em dois mundos distintos.119 Essa sensibilidade está diretamente estruturada a partir da articulação indissociável entre intuição e sentimento. Tudo isso confere à imagem do sagrado um estranhamento arrebatador..LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO atração irresistível e incoercível. estima que a “religião é a sensibilidade e o sabor do infinito”. e o que vale para cada ente singular da natureza também é pertinente ao ser humano. | 130 | Ética da reciprocidade. Para Schleiermacher. 1996. e o universo infinito. Friedrich Schleiermacher (1768-1834) define religião a partir do sentimento de dependência. convém sublinhar que tal sentimento não quer dizer uma impotência do ser humano frente ao divino. e o sentimento pelo infinito referido ao campo da metafísica. Lisboa: Presença. o da intuição enquanto percepção empírica.

essa ligação intensa e “pré-reflexiva”121 com o todo. Otto é um “distinguido discípulo” de SchleierS macher. baseada no encontro pessoal com a verdade. daí.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa por cada pessoa de forma absolutamente única.120 O sentimento de dependência nos dá a consciência plena de nossa finitude diante do universo. Discurso aos seus cultos desprezadores. p. Não por isso. O filósofo transmite com precisão um dos significados da experiência religiosa em seu caráter de singularidade: o universo se apresenta de forma particular para cada pessoa nas suas intuições e. o infinito. “O abor­ dagem de Schleiermacher acerca da verdade religiosa é vivencial. p. na sua introdução à obra. 120 | 131 | Ética da reciprocidade. Podemos estabelecer algumas aproximações entre o pensamento de Schleiermacher e o de Rudolf Otto acerca do fenômeno religioso. o que é mais natural do que ser permeado por uma profunda reverência face ao eterno e ao invisível? E. Uma história de Deus. a obra estabelece a sua questão temática predominante em torno da primazia da experiência pré-reflexiva. 121 Segundo o tradutor e editor Richard Crouter. e retornando a visão para nós  egundo Karen Armstrong. e a dimensão de nossa medida frente a tal imensidão infinita.indd 131 16/3/2010 09:39:11 .352. faz-nos perceber que quando o mundo do espírito se revela majestosamente em si mesmo para nós. na forma de uma intuição imediata e no sentimento. de tal modo que a intensidade dos sentimentos suscitados determina o grau da religiosidade em cada indivíduo. uma vez intuído o universo.  a partir leitura da versão inglesa. orientados por tal magnificente apreensão e por tal excelência de leis. traduzimos o título por Sobre religião. define-se a forma própria de religião pessoal. em nada nivelado à experiência de outra pessoa. que. quando nós temos auscultado sua ação. incomensurável e para além dos esforços de racionalização moral e metafísica.” Em obra citada. O sentimento de dependência.XXXII. Otto deixa de manter uma discussão com o pensamento de Schleiermacher acerca da experiência religiosa.

observe como. a não ser que comprometamos a essência da experiência religiosa e entremos na esfera do pensamento absIbid.. sempre permanece algo único. o que pode ser mais apropriado para os mortais do que uma pura humildade?122 Há. um sentimento básico de humildade reverente. a religião deseja intuir e divinizar isso detalhadamente. uma imediata percepção. numa quieta submissão. desejo devotado de auscultar suas manifestações e ações próprias. no sentimento de dependência. o sentimento compõe o fundamento originário. o universo é intuído e captado pelo sentimento.” Ibid. p. Segundo Schleiermacher. em comparação com o universo. “Religião em essência não é nem reflexão [ou seja. mas intuição e sentimento.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mesmos. 124 “E o que quer que seja..” Ibid. metafísica]. de “passiva inocência”123.23. de “amorosa modéstia”. como tivemos oportunidade de observar. nada mais do que isso.22. incluindo o ser humano. nossa auto imagem desaparece em meio à [nossa] infinita pequenez. portanto. O ser humano adquire contornos limitados quando descobre o sagrado e devolve o olhar para si mesmo. encarando-nos a partir de tal perspectiva. moral]. p. Em Schleiermacher.. nem ação [ou  seja. que possa ser expresso ou  mantido no eterno fermento das formas individuais e dos seres. Para Otto e Schleiermacher. p. a intuição do infinito é um campo próprio. Tal estado do ser humano perante o infinito poderia nos suscitar uma lembrança viva do “estado de criatura” vislumbrado por Otto como reação básica do ser humano perante o sagrado. em tal amplitude que se chegue a ser possuído e preenchido pela imediata influência do universo numa inocente passividade. autônomo. de “quieta submissão”124. Outro ponto em comum entre os dois pensadores da religião é a apresentação de uma imagem do homem religioso que o considera basicamente inserido no campo da vivência. 122 123 | 132 | Ética da reciprocidade.indd 132 16/3/2010 09:39:12 . Ela é o desejo de intuir o universo.45.

Da mesma forma que a leitura de Rudolf Otto põe a metafísica em questão. vejamos. como a condição de todo o ser e de toda causa do vir a ser. e palavras em lugar de efetivos pensamentos? Por que a metafísica não foi mais do que um jogo vazio com fórmulas que sempre reapareciam mudadas. mas a religião nos remete à infinita natureza do universo.126 Apontadas algumas analogias com o pensamento de Otto. A consciência 125 126 Loc. Metafísica e moral encaram a totalidade do universo somente do ponto de vista humano como o centro de todas as relações. certas diferenças que se fazem notar para com a forma de Otto abordar o sagrado. o homem igualmente permanece finito. a especulação nos deu decepções ao invés de um sistema. por tanto tempo. Schleiermacher acredita que o campo da religião não se funda num antropocentrismo.indd 133 16/3/2010 09:39:12 . sua impressão em nós e suas manifestações. p. | 133 | Ética da reciprocidade. Ibid. agora. ao individual e ao múltiplo. [enquanto] religião quer vislumbrar o infinito.125 Nela. a segunda preleção dos Discursos estabelece uma crítica severa à metafísica: Por que.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa trato e da moral. compondo uma totalidade. porque o sentimento do infinito não a anima. e para o qual nada poderia algum dia corresponder? Porque ela perdeu a religião.. e porque o desejo por ele e a reverência a ele não levam os seus refinados e aéreos pensamentos a assumir uma consistência mais rigorosa para preservá-los contra a poderosa força da religião. cit.24. que delineiam a maneira própria de Schleiermacher entender o infinito.

mas toda a sua essência em si mesma. a plenitude do enlaçamento nupcial. Igualmente. mas exatamente em todas essas formas”!127 Há um contínuo entre o universo. em humilde reverência. sou sua alma. cit. sente-se em doce quietude. Neste momento. Se. não como uma sombra. o delicado beijo de uma moça inocente. o que o filósofo se refere num texto carregado de imagens: o primeiro aroma com o qual o orvalho gentilmente acaricia as flores que despertam para um novo dia. ao voltar para si mesma o olhar. ainda que isso possa ser fugaz. porém de uma intensidade incomensurável: Eu o enlaço. inatividade. lembrando o “estado de criatura”.32. ela se sente conectada ao sagrado. para Schleiermacher.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO da finitude humana pelo homem religioso não o impede de sentir-se profunda e intimamente ligado ao divino. ele é meu corpo. a natureza e a dimensão humana: minha alma corre em direção ao infinito. p. neste momento.indd 134 16/3/2010 09:39:12 . barganhas rituais. não deve ser associado a nada do tipo 127 128 Ibid. por outro lado.128 Segunda observação: a passiva inocência. por um lado. a humildade religiosa que suscita o sentimento de dependência não devem ser confundidas com impotência. e. identificado com o infinito. numa amplitude mística. fuga do mundo. e os seus nervos movimentam-se em sintonia com a minha própria sensibilidade e meu pressentimento. dessa forma eu sinto todos os seus poderes e sua infinita vida como minha própria existência.. Eu me ponho no seio do mundo do infinito. “nada como tal. a pessoa contempla o infinito. de tal forma que ela sente a dimensão do universo em si mesma. eu penetro nos seus músculos e nos seus membros como ele sendo os meus próprios. Loc. | 134 | Ética da reciprocidade.

mas sim “o sentido e o gosto do infinito”. mas na religião se torna mitologia vazia. e permitindo suscitar um estranhamento – “Quem dera eu se pudesse expressar [o sentimento religioso] ou. e. impregnar e mover no íntimo e na totalidade do ser. trata-se aqui de uma crítica às práticas sacrificiais. Segundo Crouter. tampouco. A religião não é nem uma práxis. com o infinito. Pois serenidade e reflexão se perdem quando alguém se permite ser tomado pela ação do poder e da perturbação inerentes aos sentimentos de religião.” Se em Schleiermacher trabalhamos com a noção de religião fundada no sentimento e na intuição. a religião é afirmada enfaticamente como um campo próprio da existência). Hans Küng sintetiza com precisão a orientação do pensamento de Schleiermacher por nós estudada: Pode. Para o filósofo essas são formas equivocadas de religião. um sentimento dirigido a uma realidade fora do indivíduo que se lança na experiência religiosa. um deixar-se tocar. a natureza) e ao indivíduo.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa “Eu devo primeiro dominar a mim mesmo e os sentimentos de devoção antes de eles se expressarem”. p. transcendente sim. | 135 | Ética da reciprocidade. portanto. que não se submete ao reino da razão e da moral (ainda que não exclua essas dimensões. pelo infinito. tomar.32. mas também imanente ao mundo (o universo. não é uma arte nem uma ciência. Esta relação vital com o eterno. nem uma especulação. não podemos admitir em Schleiermacher um “totalmente outro”.indd 135 16/3/2010 09:39:13 . demonstra a existência no indivíduo de 129 Ibid. Ele é incisivo nesse ponto: uma divindade aquém do mundo e fora do mundo pode ser bom e necessário na metafísica.. ao quietismo místico. presente em tudo aquilo que é finito. meras “superstições. indicá-lo sem ter que profaná-lo!”129 –. religião é uma experiência do todo – do singular e do múltiplo. dizer-se que a religião é uma religião do coração. ao menos. Em Scheleirmacher.

Agora. p. estaremos empobrecendo o manancial de possibilidades de experimentá130 131 Os grandes pensadores do cristianismo. Eis como Buber não aceita a ideia da predominância deste ou daquele sentimento como fundamentos da relação com o Tu Eterno.130 Pois bem. em primeiro lugar. a qualidade de criatura.indd 136 16/3/2010 09:39:13 . Se quisermos fundamentar o sagrado em um sentimento específico. se desconhece o caráter da relação perfeita. acentuando-o de um modo exclusivo. a quieta submissão. não parece interessado em questionar a finitude humana quando esta se volta para o divino e enxerga a si própria.. Não é porque ele discorde da importância do sentimento na experiência religiosa. como elemento essencial na relação com Deus. em termos mais recentes.160. é hora de promovermos a reentrada de Buber no cenário que estamos examinando: o sentimento na experiência religiosa. p. o sentimento de criatura. um sentimento chamado “sentimento de dependência” ou. Buber.94. (.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO uma predisposição religiosa original. negativamente. segundo um aspecto relacional e dialogal.. a que ele chama Deus. Pretende-se ver. à espera de despertar. muito menos nos parece que ele desdenha do “sentimento de dependência” e do “estado de criatura”. a individualidade de cada um e o universo.131 Por que Buber rejeita as concepções que procuram fundar a religião em um determinado sentimento? Tentaremos responder. a partir de agora.) No consciente religioso tocam-se os dois extremos. a partir da perspectiva do todo: a humilde reverência. a nossa resposta vem em termos afirmativos. mais claramente. Eu e Tu. | 136 | Ética da reciprocidade. Por mais correto que seja fazer realçar e definir este elemento. aqui.

um objeto: ele se realiza. e se desenvolve nela e através dela. O amor não está ligado ao Eu de tal modo que o Tu fosse considerado um conteúdo. Quando intencionamos o outro como um Isso. onde Buber fala do “sentimento” e do “amor”. entre o Eu e o Tu. Buber parece querer nos fazer entender que os sentimentos são constituídos em cada relação. “os sentimentos nós os possuímos. submetidos ao crivo experimental da ciência e do pensamento conceitual. que nos foi trazida de forma inusitada por Buber. Ao contrário.16-7. mas não o constituem: aliás estes sentimentos que o acompanham podem ser de várias qualidades. os sentimentos podem ser previstos. calculados. o amor acontece”. medidos. | 137 | Ética da reciprocidade. no modo genuinamente relacional. mas a realidade.. nós os possuímos.132 Não “temos” amor como “temos” sentimentos. Quando predomina uma constituição fixa de sentimento na relação. mais exatamente. Os sentimentos acompanham o fato metafísico e metapsíquico do amor. descobrimos que se trata do modo Eu – Isso. estabelecendo um confronto entre as duas concepções. Os sentimentos.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa lo.indd 137 16/3/2010 09:39:13 . É a relação que determina fundamentalmente os sentimentos. mas o homem habita em seu amor. O sentimento de Jesus para com o possesso é diferente do sentimento para com o discípulo-amado. p. Os sentimentos residem no homem. Isto não é simples metáfora. É preciso encarar uma discussão ainda mais arrojada para a concepção dos sentimentos. Um dos trechos em que encontramos maior dificuldade de compreensão e interpretação é o que se segue. mas o amor é um. e de constituir uma relação pessoal com ele. “Possuímos” senti132 Ibid. o amor acontece. é o modo de relação que estabelece a modalidade do sentimento. pois. cada sentimento é uma descoberta que nasce na relação.

Jung. “Possuímos” sentimentos na medida de nossa constituição psicológica. a constituição da morada. o homem habita no amor. o ethos não se restringe ao campo dos sentimentos. Isso significa que o reconhecimento do ethos constitui um modo de ser que se faz revelar entre mim e o outro. com suas interpretações próprias: Schopenhauer. irrompe na consciência. Ou seja. Ao mesmo tempo. Nós possuímos uma constituição de sentimentos e de pulsões.. Tal 133 134 Ética deriva do grego ethos: a noção de casa. sobretudo quando invade. na parceria. recalcando-os. Mas é um sentimento que acompanha aquela pessoa que aponta a visada do outro para uma ética relacional. quanto ao modo de relação Eu e Tu. da ética133.indd 138 16/3/2010 09:39:14 . | 138 | Ética da reciprocidade. acreditamos que o amor envolve o sentimento. povoa o ­ imaginário. e sim um espaço de convivência.. na reciprocidade entre os envolvidos na relação134. o amor acontece. analisamos o âmbito Eu e Tu. morada. tentando controlá-los. Essa constituição por vezes se manifesta fora do controle racional. tentando fazê-los desaparecer. suportando-os. abrigo. Nietzsche. Parece que nos vemos lançados no mundo dos sentimentos assumindo-os.” Nesse momento. “. do solo em comum. Possui. portanto. de um espaço que não é. Kierkegaard. uma especificidade. Importa considerar que o es paço de convívio pode ser alvo de sistemática problematização. expressando-os. como podemos ­ identificar em vários autores. ele se radica no diálogo. negando-os. cabe a proposição da noção de amor para designar a especificidade de uma forma originária do encontro.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mentos não necessariamente como uma atitude racional de controle e vigia frente à torrente de sentimentos que nos atravessam a cada segundo. enfim. Por isso. como nos indica a leitura dos autores citados no parágrafo anterior. Nesse momento. Freud. antes de mais nada. físico. subverte valores convencionados. Cá entre nós. a “posse” dos sentimentos concerne ao que nos é legado pela nossa natureza psíquica. segundo um modo dialogado.

ou seja. igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer. porém sem ser submissa. encontro e delusão. ou seja. Aceitar o outro no contexto relacional tem a ver com dialogação. que se expressa. Nada melhor do que as próprias palavras de Buber: Amor é responsabilidade de um Eu para com um Tu: nisto consiste a igualdade daqueles que amam. paridade. aceitação acolhedora. que dizem respeito à reciprocidade e à paridade. gangorra. p. Se assim for. Se Eu e Tu inclui relação. e assim marca a diferença na identidade.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa modo de ser é uma ética. estamos dispensados do pensamento dicotômico. pelo contrário. daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado.17. trata-se de simples submissão. | 139 | Ética da reciprocidade. do mais feliz e seguro. interesse mútuo. do certo ou errado. uma aceitação do outro participativa. cuidado. assim como conflito. uma mútua ação. Nela. negligente e dissimulada. que se expõe.135 O amor se revela entre o eu e o outro.indd 139 16/3/2010 09:39:14 . que nada tem a ver com nivelamento das diferenças. estão implícitas as noções fundamentais para a constituição do modo Eu e Tu. 135 Eu e Tu. Aceitar o outro não significa cruzar os braços e acatar todo o tipo de ação. igualdade que vai do menor ao maior. diálogo. até aquele crucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens. Buber vai explicitar esse amor como responsabilidade. e sim com a aceitação do si-mesmo de cada um. cujo sentido trata da relação com um Tu. Todos esses modos compõem o sentido de responsabilidade. aceitação integrada num sentido amplo de responsabilidade mútua. Essa proposição forte marca o que significa Eu e Tu. a uma condição de igualdade.

histórico. cit. livre. Essa individuação já nos torna uma pessoa singular. O amor é uma força cósmica. formado pela história de vida. a nossa condição de pessoa se encontra com outra condição de pessoa.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO “bem” ou “mal”. pelas expectativas de toda ordem. por aquilo que gosta e detesta. na constituição psíquica. Não devemos deixar de considerar que. em meio aos diversos condicionamentos. “verdadeiro” ou “falso”. uns após outros. o outro. únicos. primeiramente. pois não esqueçamos que a outra parte da relação. no corpo e na sua relação com o meio ambiente. | 140 | Ética da reciprocidade. sábios e tolos. cultural. pelas definições de “certo” e “er136 Loc. isto é. Inserimo-nos numa relação com toda uma série de predisposições a partir da constituição da personalidade elaborada num meio familiar. belos e feios. pelas vivências. risco e navegação. Inserimo-nos numa relação com toda uma bagagem de condicionamentos dados na cultura. pelos hábitos. bons e maus. da mesma forma que nós. examinemos. ele os encontra cada um face a face. tornam-se Tu. de que forma damos sentido para a existência: tornar-se pessoa é emergir para a vida inundado de sentido. tornam-se para ele atuais. o que nos configura como sujeitos. Cada um de nós introduz na relação o seu mundo. aparece para a relação igualmente repleto de maneiras e manias próprias.136 Como podemos esboçar uma compreensão acerca do que Buber pronuncia? Bem. Do sujeito para a pessoa é uma questão de como nos lançamos no existir.indd 140 16/3/2010 09:39:15 . os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas. a forma com que nos apresentamos perante uma relação. Aquele que habita e contempla no amor. seres desprendidos. característico dos juízos morais. social.

quer dizer. por aquilo que valoriza. retaliamos ou permanecemos no ressentimento. ainda que cada um de nós entre na relação projetado profundamente no “seu jeito de ser”. sem anulá-los. qual seja. a comunhão. uma história singular se desenvolva em cada relação. e a condição mística. que permite a expressão da multiplicidade das modalidades do 137 Eu e Tu. se não conseguimos reconhecer no outro nada ou muito pouco da sua plena condição de pessoa. “eu o culpo. visto que existe também o ódio?”137 Na forma Eu e Tu. Buber reconhece que o amor se defronta com o ódio. o sair de si. Nenhum sentimento é anulado pela totalidade. em vez de uma abertura ao modo relacional Eu e Tu.” Assim. o amor constitui uma amplitude que ultrapassa as especificidades da condição e dos condicionamentos de cada um. Não entramos em uma interação mediada pela palavra no modo do diálogo. eu me culpo. mas os seres envolvidos habitam no amor. instaura-se a predominância do modo Eu – Isso. | 141 | Ética da reciprocidade. pelo que acredita.. durante esse momento. Por outro lado. ou seja. tentamos controlar o seu desejo. e. Aqui. no estabelecimento de uma dialogação integradora. tal processo já dá abertura para a possibilidade de que uma relação única. p. entretanto podes fazer a escolha de um exemplo. dirigindo-se a si mesmo. mas de uma forma reativa.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa rado”.18. Desse modo. Tentamos aceitá-lo somente na medida da idealização que construímos. se o tratamos e desejamos apenas como um objeto.. observamos a alternância do Eu e Tu e do Eu – Isso.indd 141 16/3/2010 09:39:15 . se os condicionamentos psicossociais se fazem impor de tal forma que. a condição extática de uma relação. interdita-se. de tal forma que engloba os sentimentos numa totalidade interativa. No jogo de Eu e Tu e Eu – Isso. nós reagimos ao outro. os sentimentos se condicionam não tanto pela relação. indaga: “Falas do amor como se fosse a única relação entre humanos.

relacionar-se.indd 142 16/3/2010 09:39:15 . não se pode odiar senão uma parte do ser. mas não isolado em si. Com respeito ao ódio.. Para projetar-se na dimensão Eu e Tu. ou que nos esquivemos dela. p. e mesmo impor a si e aos outros a subjetividade solipsista. Quando consideramos a pessoa. uma vez que a nossa atitude é dupla. mas se insere numa fronteira que de alguma forma evoca a relação.”138 A análise da dinâmica Eu e Tu / Eu – Isso enquanto constituinte de nossa existência nos levou a imaginar que desejamos a relação dialogal e. | 142 | Ética da reciprocidade. como se diz. e. ao mesmo tempo. O amor se manifesta em um processo relacional que implica a expressão de si mesmo. Buber faz um perspicaz comentário: “Porém aquele que experimenta imediatamente o ódio está mais próximo da relação do que aquele que não sente nem amor e nem ódio. e traz à luz uma velada sedução que todos sentimos por sustentar um distanciamento. trocar. e sim. como um ser de relações. pode sinalizar alguma forma de não aceitação do outro. desejamos nos manter à parte. Buber esclarece que o mundo se revela duplo para nós.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO sentimento que se apresentam. aprender a conviver com a diferença e com a liberdade do outro. uma comunicação em que os parceiros não querem fundamentalmente tomar posse um do outro. ainda que essa não se anuncie abertamente.18 e 19. O “estou fora”. 138 139 Ibid.. para Buber. e sim. Ibid.89. “só deve ser quebrado o encanto da separação”139. ao mesmo tempo. Quanto ao ódio. interagir. p. Ele não marca uma separação nítida entre uma forma e outra. sem perder de vista o sentido da responsabilidade mútua. O ódio é uma das demarcações da fronteira da esfera do modo Eu – Isso com o âmbito do Eu e Tu. entendemos o indivíduo em sua singularidade afirmativa. uma “autenticidade” desligada da dimensão de pessoa. ou seja. que anseia resguardar. por assim dizer.

Tu te sentistes. tu te sentiste inteiramente dependente como nunca em alguma outra foste capaz de te sentir – e também inteiramente livre como nunca e em nenhum lugar: criatura e criador. Pois. já anunciado por Kierkegaard. a inclina na direção do Tu. A pessoa se perde na ida para o outro. (. O permitir-se ser tocado acena para um lapso no controle de si próprio. da situação. referência a Schleirmacher. que a faz sentir o significado e o sabor do infinito. Tu te sentiste inteiramente dependente. sentido profundo de liberdade. “O eu é formado de finito e de infinito.95. nela. e. quer isto dizer: tu te sentiste ligado. mas ambos sem reservas e juntos. que não é só cognitivo. sem dúvida. tão guardado a sete chaves. encontrada. pelo sentimento vivo no enlace. ao mesmo tempo.indd 143 16/3/2010 09:39:16 .. por sua vez. ou seja. numa identificação atrativa que produz na alma um sentimento de irresistível desejo que. Perdemos de vista o eu. do fascinante e do tremendo apresentado pelo outro. do medo e da atração que inspira o outro. Sim. é sentido mesmo. o significado é dado fundamentalmente pelo enlace. desfilam a vulnerabilidade e a ousadia de amar. “criatura” (referência a Otto): a percepção de si diante da perspectiva do mistério do outro. não era mais um destes sentimentos limitados pelo outro. do finito com o infinito.) O eu é liberdade. Encontrou um novo sentido. ao mesmo tempo. então. O ser humano se vê lançado ao encontro do Eu com o Outro. vinculado.140 Estamos “entregues”. | 143 | Ética da reciprocidade.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Essa liberdade pode causar o sentimento de estranhamento. p. na relação pura.. ela se acha perdida. ao permitirmo-nos ser tocados. e é nesse ponto que se acha.. intimamente ligado. é sentido pelo sentimento. O que possuías. entregues ao correr da relação. nas sete fortalezas. Mas a liber140 Ibid.

que rompe com o “totalmente estranho” entre a pessoa e o outro. os limites. vol. a essa dimensão que nunca se conforma com o que “é”. É bem possível que o limite do nosso eu comece na interação com o outro.indd 144 16/3/2010 09:39:16 . os sentimentos se expressam de forma mais inteira: é o face a face.107). São Paulo: Abril Cultural. que jamais poderemos abolir a nossa imaginação. na medida em que o nosso eu não se constitui por si mesmo e sozinho. o sentido e a relação entre o ser humano e o outro. ainda. não podemos fazer o que bem nos aprouver. ela nos remete ao infinito. “sem querer” ou por uma ação dele reconhecida por nós. Não somos onipotentes. reciprocidade) não se reduz a este ou aquele sentimento. Devemos ter em conta. formas. Ao contrário. sem violar o selo do mistério de um e de outro. sobre o desejo. a exposição de uma ética dialógica de amor (que envolve diálogo.”141 Às considerações de Kierkegaard sobre o eu. XXXI). ele nos aponta para uma transcendência. Aliás. sobre as nossas fantasias. estendemos nossas letras para abarcar o enlace do Eu com o Tu. Na esfera do Eu e Tu. Ao mesmo tempo. Passeamos entre o possível e o necessário. Mas. cria ilusões. não é um limite fechado. os sentimentos se expressam a partir da atitude que tomamos uns para com os outros. O outro dá um limite. de imediato. Estaremos sempre nos deparando com a intercessão da “realidade” sobre os nossos sonhos. Enfim. A “realidade” não diz respeito somente a uma avaliação de nossa situação frente a uma atribuição de “concretude” que damos a essa palavra que enchemos de sentido. e responde.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO dade é a dialética das duas categorias do possível e do necessário. É no cruzamento da necessidade com o sentido do infinito que se constela a liberdade. ao mais íntimo do desejo. mundos. | 144 | Ética da reciprocidade. 1979 (Os pensadores. comunicação. 141 O  desespero humano. p. Livro III – Personificações do Desespero.

tocar o outro.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Não gostaríamos de continuar o nosso caminho sem passar por mais uma provocação que nos suscitou a leitura e o estudo de Martin Buber. “Para podermos sair de nós mesmos em direção ao outro. não se reduz ao duo “altruísmo” versus “egoísmo”. cit. nem aos juízos morais do tipo “o bem” versus “o mal”.. o diálogo entre os seres humanos. Cumplicidade e diálogo. da apropriação.142 O dialógico. 142 143 | 145 | Ética da reciprocidade. por extensão. por outro lado. (.”144 Mas. algo que nunca se completa. tão essenZuben. o sujeito que se mantém unicamente consigo mesmo não realiza o encontro. 144 Loc. Buber não se intimida em revelar a sua opinião: “Eu não sei de ninguém. p.) é preci­ so estar em si mesmo. ao seu aspecto faltante. em tempo algum.158. E por que transcendente? Porque o amor dialógico vai se dar em um ir-em-direção-ao-outro. p. transcendente. Do diálogo e do dialógico. é preciso. da sujeição.55. alcançar o outro. permanecendo no modo do narcisismo (em sentido leigo). O professor nos traz uma referência em que Buber observa que não se deve nivelar a dialogicidade ao amor. da objetivação. partirmos de nosso próprio interior. que tivesse conseguido amar todos os homens que encontrou.” 143 Essa frase nos soa como uma admissão da não onipotência do amor no que se refere ao seu contexto existente. nem ao par de opostos “amor” e “ódio”. nem é comprometido com a perfeição. Com relação ao amor. com a condição humana na sua mais extrema borda. que chama atenção para a forma mais precisa do sentido dialógico da existência e a inserção do amor nesse sentido. permanecer junto ao outro. sem dúvida. e. e. ao mesmo tempo. pois é um ato e uma decisão que envolve a nossa totalidade. Esse sair de si ao mesmo tempo integra o ser a ele próprio. ou seja. “Mas por que meios poderia um homem transformar-se. Ela nos chegou através do Professor Zuben.indd 145 16/3/2010 09:39:17 . sim. Martin Buber..

o Todo. Estávamos acostumados a um sentido de mística em que os seus participantes se dissolvem um no outro. A mística é um encontro. “casamento”. queremos um querer junto. queremos o infinito. Mística significa união. permitimo-nos perder um no outro. Um tipo muito especial de encontro. que recebe mil denominações: paixão. “quem sou eu?”. | 146 | Ética da reciprocidade. nem você. de indivíduo em pessoa. ilimitado. compartilhado. Deus. o outro vem ao meu encontro e me abraça. familiaridade. e assim nos levamos. “Onde estou eu?”. envolve cumplicidade. do que vem ao encontro. os eus já se foram. entrelaçamento.. viraram categorias do passado. que aponta a nossa própria transcendência. Ninguém em particular mais importa. Sentimo-nos como se fôssemos um novo ser. p. amor. eu penetro nele e o deixo me invadir. Na mística. “para onde fui?”. nem ao outro.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO cialmente. infinito.55-6. anunciando aquilo vem. como se estivéssemos gerando um novo ser. algo que não me pertence. Eu me torno outro. queremos um ser que nos unifica. é da alçada do devir. senão pelas experiências austeras e ternas do diálogo. que nos liga. do que é trocado. fusão. Nessa perda. são perguntas inócuas. que lhe ensinam o conteúdo ilimitado do limite?”145 O ENCONTRO Da pESSOa COM O TU ENVOLVE a MÍSTICa Queremos aprender um pouquinho sobre a mística. intimidade. um só espírito. deixo-me levar. 145 Ibid. nem eu. um só corpo.indd 146 16/3/2010 09:39:17 . o Tao. ou antes. você ou eu. ainda que o presente seja tão fugaz. e formam um só. deixamo-nos arrastar como numa correnteza. O sentimento do eu é trocado pelo da dissolução da individualidade no seio do que acolhe uma transcendência de nós mesmos. nós nos achamos.

todo toque no instrumento.indd 147 16/3/2010 09:39:17 . não é um produto de seu espírito?147 Por que não trata Buber da subjetividade como fundamento da criação artística? Ele pretende ressaltar a interação artista-obra. 147 Eu e Tu. todo riscar o papel. todo escorregar dos deLeonardo Boff. todo apertar o disparador da máquina fotográfica. “Mestre Eckhart: A mística da disponibilidade e da liberta ção”. lá no âmago. 3a ed. mas uma aparição que se apresenta a ele. igualmente. Toda pincelada. Não apenas ele desliza para a forma. ela anseia tornar-se uma obra por meio dele.146 Da mística em seu sentido familiar para um mergulho da mística na estética. Atentos à leitura de Leonardo Boff. In Eckhart. artista e obra elevados ao mesmo plano. ao mesmo tempo. exigindo dele um poder eficaz. aprendemos que a mística é uma expe­ riência imediata de Deus. Há um confronto artista-obra. O livro da divina consolação e outros textos seletos. p. o indivíduo quer ser um com o Todo. A obra se oferta. mas. entrega um risco. eu-mundo. Mestre. onde nos demoramos não apenas diante da contemplação da obra.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Na mística diretamente remetida ao infinito. Quer como que entrar dentro dele.16. mas. penetrar no grande amplexo (abraço) do cosmo. ou simplesmente do Uno. Não temos cerimônia em desenrolar o fio do pensamento sobre a mística em várias instâncias. uma forma se defronta com ele. Petrópolis: Vozes. sem perderem suas marcas distintivas. 1994.” Por que Buber faz questão de afirmar a convicção de que a obra não é “do artista”. Ela responde ao sofrer e à exasperação da experiência da disjunção (Deus-criação. 146 | 147 | Ética da reciprocidade. todo o embate com a matéria. pretende destacar tanto o fundo como a figura. Chegamos à obra de arte. p. uno-múltiplo). todo ajuste das lentes. mas da relação com a obra. tocá-lo e sentir toda a sacralidade em seu transbordamento. Não cabe apenas ao ser humano a criação estética.11. “Ela não é um produto de seu espírito.

Nem o ato criador escapa de se molhar. pois não pode ser produzido senão pelo ser em sua totalidade.148 Eu arremesso um laço e me embaraço numa autêntica relação com ela. via mística cristã.150 Por isso mesmo. essa ideia de uma unidade que não dispensa a multiplicidade. Ibid. Quem se entrega à obra sob o prisma do Tu. Produzir ao largo da relação é não só apropriar-se artificialmente. não supera as percepções anteriores. cogita Boff. ela eclode como termo de um processo extremamente “oneroso”.. como aniquilar o próprio sentido da arte. Sublinhemos as palavras que dão cor a uma autêntica relação: a obra atua sobre mim.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO dos ao longo da obra. deverá ser ultrapassado. “assim exige a exclusividade do face a face”. O Eu e o Outro se mantêm como instâncias que dão fundamento à própria união. pelo contrário. escapa ao mergulho no Tu. a nosso ver. Enquanto “aquele que contempla [a obra] com receptividade. É uma mística que aceita uma união em que seus partícipes não perdem a identidade. mantinha-se preso à determinada perspectiva. [assim] como a árvore ou o homem. Não Local citado. que revolve a existência. se a unidade é fruto de uma busca radical. p. “não deve ocultar nada de si. 150 “Mestre Eckhart: A mística da disponibilidade e da libertação”. não as anula. assim como eu atuo sobre ela.149 Buber faz chegar a nós uma noção de mística que. ela pode amiú­ de tornar-se presente em pessoa”. p. afirmam a mística justamente na diferença. pois a obra não tolera. enriquece-nos para quantas e quantas possibilidades de apresentar a mística. ela se desestrutura ou me desestrutura”. entrando no mundo do Isso. Então.indd 148 16/3/2010 09:39:18 . tudo que ainda há pouco compunha um somatório de partes. isto é.12. se eu não a servir corretamente. que eu descanse. Leonardo Boff reafirma. 148 149 | 148 | Ética da reciprocidade.16. As partes não poderão penetrar na obra. É ela que domina. tudo isso envolve risco.

mas do falso instinto da autoafirmação que impele o homem a fugir do mundo incerto. o é também para a relação mais elevada. sem perder-se por completo. jamais o pos151 152 Boff. por outro lado. o Eu sendo indispensável a cada relação. e se transformarem mutuamente. em direção ao ter das coisas. muito menos. eles não desaparecem no anelo. embora Deus nos envolva e habite em nós. a qual só pode acontecer entre Eu e Tu. não se trata da renúncia do Eu. Loc.90-1.152 Dispor-se à relação face a face com um sentido de alteridade como Tu não quer dizer. | 149 | Ética da reciprocidade. mas apresentando o problema complexo de como atravessar o abismo da diferença. Não se trata de algo como a renúncia do Eu. Mas.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa se mantêm estáticos. sem se mobilizarem. menos um Tu. são levados à questão-cerne da identidade como unidade múltipla: a mística responde ao problema da separação não com uma solução conciliadora imediata. Eles não se dissolvem como gotas em um suposto oceano consolador da religião. Martin Buber nos convida a conhecê-la. ao revés. no desejo ardente de vínculo. e. admite que alguém se deixe perder nela. Buber acentua que. nem por um lado. como o misticismo supõe geralmente. apossar-se do outro com um ávido desejo compulsivo de controle da existência e da natureza (pois a presença do outro em sua possibilidade plena não se deixa possuir). Reentrando no terreno da experiência religiosa. afetarem-se. “como chegar à unidade do múltiplo com o uno.indd 149 16/3/2010 09:39:18 . passageiro e confuso e perigoso da relação. p. inconsistente. deixe de ser humano para aderir irrefletidamente a algo que tudo “é”. cit. do homem com Deus? Eis a questão essencial da mística”151 que leva em conta a alteridade. Eu e Tu.

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suímos em nós.153 Tocamos aqui no cerne do modo relacional da experiência religiosa. É como se disséssemos (usaremos uma divindade conhecida para tornar mais fácil a nossa comunicação): “Eu não sou igual a Deus”, mesmo nas concepções em que se admite que a centelha divina habita no humano, e, ao mesmo tempo, “Deus não é totalmente outro em relação a mim”. Diante do mistério da identidade e da alteridade entre o sagrado e os seres, Leonardo Boff elabora a seguinte consideração:
Tudo não é Deus. (...) Deus e mundo são diferentes. Um não é o outro. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Encontram-se sempre mutuamente implicados. Se são diferentes é para poderem se comunicar e estarem unidos pela comunhão e mútua presença.154

Para Buber, eis a atualidade: eu participo da relação e me insiro numa interação sem a avidez de querer a posse do outro, pois não se trata de apropriação, e sim, de coparticipação. Onde não há participação, não há atualidade. Onde há apropriação, da mesma forma, não há atualidade. Entre o Eu e o Tu não há fim, avidez ou antecipação. O que isso significa no campo do sagrado? Isso significa dizer: não há uma posse mútua. Posse mútua implica duas crenças básicas: o sujeito deseja ter “Deus” como um fim para realização dos seus desejos, e “Deus”, por sua vez, tem o crente como um bom “servo”, caso ele se mostre digno de comprometer-se e seguir tais e tais mandamentos, prescrições, apenas reproduzindo um sentido estabelecido de antemão, sem que ele se sinta envolvido com ele, ou seja, sem que o sentido se projete para o interior de sua existência.
I  bid., p.121. Buber ainda comenta: “Infeliz o possesso que crê possuir Deus!” 154 Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, p.235.
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Projetando-se na existência, o sentido não se torna um forasteiro, alheio à existência. Quando isso acontece, desmancha-se a relação interativa para cair numa relação por obrigação, por hábito, por tentativa desesperada de salvação do sofrimento e da angústia, por culpa, enfim, para inúmeros fins que não a própria ligação mística. Foi o caso do senhor Paul Jung, no parecer de seu filho, Carl Gustav Jung. Este observa que seu pai começara brilhantemente uma carreira de pastor. Quando estudante, mergulhou entusiasticamente no estudo de línguas orientais, fez sua tese sobre uma versão árabe do Cântico dos Cânticos. Mas após o arroubo de sua juventude, a sua libido como que se apagou em uma existência sem muito sentido. Estava sempre voltado para fora, esquecendose por completo de seu mundo interior. A vida interior fora esvaziada de energia e significado, enquanto a vida conjugal o decepcionara. “Consequentemente, estava quase sempre de mau humor e sofria de irritação crônica. (...) Como é fácil compreender, sua fé entrou em crise, por causa dessas dificuldades.” Jung não tinha afinidade intelectual com seu pai, mas admirava a sua dedicação, bondade e ternura. Não se conformava com a forma, digamos, burocrática com que o pai administrava a sua religiosidade: achava que ele repetia impessoalmente os dogmas sem questionar ou senti-los de fato interiormente.
Meu pai tomara por regra de conduta os mandamentos da Bíblia, acreditando em Deus como a Bíblia exige e como seus pais o haviam ensinado. (...) Foi nesse momento [na juventude de Jung] que comecei a sentir dúvidas profundas em relação a tudo que meu pai dizia. Quando ouvia seus sermões, pensava em minha própria experiência. Suas palavras eram insípidas e vazias, tal como as de uma história contada por alguém que nela não crê ou que só a conhece por ouvir dizer. Queria ajudá-lo, mas, não sabia como.
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Uma espécie de pudor impedia que lhe contasse minha própria experiência ou me imiscuísse em suas preocupações pessoais.155

Jung se recorda que gostava quando um tio o convidava para almoçar. Lá ele se encontrava com familiares e pessoas da comunidade, que promoviam um ambiente de discussão e estudos de teologia e religião, que muito excitavam o jovem Jung. Ele tentava compartilhar esse ambiente com o seu pai, mas sempre se deparava com uma grande impaciência, na época para Jung incompreensível, e com uma recusa ansiosa.
Só alguns anos mais tarde compreendi que o meu pobre pai evitava pensar, pois sentia dúvidas profundas e dilacerantes. Fugia de si mesmo, insistindo na necessidade de uma fé cega que esperava atingir mediante um esforço desesperado e uma contração de todo o seu ser. E isto o fechava ao influxo da graça.156

O modo relacional da experiência do sagrado não se justifica, em primeiro lugar, por um sentido de salvação da alma, de purgação do pecado, de passaporte para o céu, de garantia de um comportamento moral (ordenador do “caos” das paixões e desejos). Ele é um encontro: o seu significado sempre estará em aberto. Se coloco antecipadamente uma finalidade, denoto uma intenção que se põe fora da relação, não permitindo que a relação revele-me a sua própria “finalidade”. A antecipação do que pode se suceder na relação corresponde ao cálculo: na antecipação, quero saber de pronto as minhas possibilidades, as do outro, as
M  emória, sonhos, reflexões. 14a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p.48-50. 156 Ibid., p.74.
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do “relacionamento”. A fé se contrapõe ao cálculo, pois, como observa Kierkegaard, ela remete ao absurdo, ou seja, a todos os possíveis a um só tempo, isto é, tudo pode acontecer.157 Buber gosta de afirmar que a relação com um Tu é imediata. Nesse âmbito, todos os meios são abolidos; então, o encontro pode acontecer. Isso significa dizer que dispensamos a vontade de controlar avidamente o Tu, e que podemos abrir mão da voracidade de decifrar o sagrado em fórmulas e conceitos acabados, de domesticá-lo em rituais e preces na tentativa de conter o fluxo torrencial do destino, de impor a todos e a nós valores morais sem experimentar a afirmação da existência pulsando em nossa própria vida, ou, ainda, requer abrir mão de nos convencer a adotar as prescrições dos “mestres” indicadores do caminho, sem a mínima ideia do que significa caminhar com os próprios pés com o sagrado, quer dizer, refutar entorpecer a consciência e colocarse sob a sua tutela de uma doutrina prescritiva. A autoridade em religião quer dizer alguém, ou uma instituição, ou, ainda, o seu representante, em quem depositamos lealdade e confiança na palavra, na doutrina, na interpretação dos símbolos, na condução dos ritos. Essa entrega na fé deve ser resoluta, mas não deve subtrair a responsabilidade de se deixar disponível para o encontro com o Tu. É uma atitude que envolve a decisão, intransferível, em que pesa a autoridade da nossa decisão para a conversão ao processo dialógico. Buber aponta essa decisão nos seguintes termos:
Não temos aqui de modo algum em mente que o homem deva, sozinho e desaconselhado, buscar a resposta no seu próprio seio... Mas a orientação não deve substituir a decisão; nenhuma substituição é aceita. Aquele que tem um mestre pode entregar-“se” a ele, pode entregar-lhe sua pes157

Temor e tremor. | 153 |

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soa física, mas não sua responsabilidade. Para esta, ele precisa empreender o caminho ele mesmo... 158

A mística não se restringe à experiência religiosa. Um de seus braços alcança a dinâmica relacional inter-humana. Nela, aparecem novamente algumas questões de frente, tais como: de que modo fica o eu diante da relação com o outro? A mística, do ponto de vista inspirado por Buber não é simples fusão, em que dois se dissolvem em um. A mística é encontro. Então, se nessa mística não se trata da renúncia do eu, como é possível uma mística que não admita qualquer tipo de dissolução do eu em um sentido de identidade que vincula o Eu ao Tu? Comecemos a nossa abordagem escavando de certa forma como visamos o outro. Ela não é uma regra, mas pode ser bem mais frequente do que gostaríamos de admitir. Na procura do outro, não raro, queremos que ele seja como nós. Projetamos o nosso eu sobre ele. Seu desejo desaparece no meio da bruma de nossa subjetividade. Por vezes, em desespero, chame-se isso de “carência” ou “neurose”, queremos descarregar nossa subjetividade sobre o outro, agimos como náufragos, entretidos em um mar de divagações auto referidas. Pouco resta para o outro do que se encaixar em algum esquema. Ele pode receber mil nomes, até Deus, mas permanece amarrado a uma categoria do existir previamente estabelecida pelo nosso mundo próprio. E lá permanece até que seja chamado por um projeto diferente. Esse projeto é, ao mesmo tempo, um ideal e uma ação. Quando conseguimos nos dispor à relação num movimento mais efetivo, po­ demos descobrir a existência do outro, e enunciar “Ele existe na medida em que eu existo”, uma medida recíproca: “Eu existo na medida em que ele existe e me relaciono com ele”. O “Eu existo” está cheio de desejos, quase puro desejar. O ser
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A questão que se coloca ao Indivíduo. Em Do diálogo e do dialógico, p.10.  | 154 |

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humano entra em uma relação sem querer perder nenhum pedaço. O modo “Eu sou assim...” se antepõe à abertura para a existência. Isso não faz desaparecer a condição humana de existente. Como fato psicológico, ele é presa constante de uma subjetividade arraigada desde vastas paisagens em remotas memórias. Como existente, no entanto, ele não está condenado a ficar sitiado dentro de si mesmo. Assim lemos a pronunciação de Buber. Atentos àquele resto de ser humano que fica fora dos livros e artigos, não é encontrado, porque ainda não foi escrito. Não foi escrito porque existe concretamente, para fora de toda tentativa de dizer antecipadamente o que ele é.
A relação com o Tu é imediata. Entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, e nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade. Entre Eu e o Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação; e a própria aspiração se transforma no momento em que passa do sonho à realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro.159

Quantas coisas são colocadas entre mim e Tu. São complexos psicológicos, expectativas, condicionamentos sociais, valores, moral. Eles não são meros entulhos descartáveis. Fazem parte do pacote que nos constitui. Como pode ser possível conceber que se retire o mundo de um e o mundo de outro? Como é possível se conceber uma relação pura, um “daqui para a frente”, radical? Todo um liame de experiências acumuladas espelhadas no campo comum compõe uma relação. Mas existe para o ser humano uma dimensão de transcendência. Ainda com tudo isso, nossos fardos que carregamos das experiências do passado, nossa “per159

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sonalidade” cristalizada, nossa afirmação do “eu sou assim”, temos a possibilidade de transcendência, de girar ao contrário, de inverter e subverter a norma que estabelecemos para nós. Isso não quer dizer saltar para fora de nossa subjetividade. Isso quer dizer que é possível uma passagem do sujeito para a pessoa. A noção de pessoa acredita que o ser humano não está definido de forma absoluta e fechado ao devir por sua constituição, seja ela psicológica, biológica, ou social, como quer, por vezes, o reino dos conceitos quando assume o modo dogmático de pensar. Na história de vida de uma pessoa se insere a repetição, como também se apresenta a possibilidade da irrupção do inusitado. Ao ser humano coloca-se a experiência da fissura consigo próprio, da negação de seu modo habitual de ser, e a irrupção do que ele não está esperando, provavelmente não se preparou para isso, pois de alguma forma escapa ao controle e ao hábito, ao seu “dogmatismo” para se justificar. Para muitos, isso remete a uma angústia, pois os referenciais estão se tornando pálidos. Convidamos à palavra o saudoso mestre Gerd Bornheim:
O importante a observar em experiências como a da náusea ou da angústia é precisamente esta perda de sentido do real, que faz com que o próprio homem sofra como que uma diminuição, destruindo a tese geral da existência dogmática. O sentido de familiaridade é substituído pela experiência da separação, da ruptura.160

Aparece para a pessoa a possibilidade de ruptura com a representação construída de si próprio. Essa ruptura pode levar a um ceticismo que descambe para um isolamento e um ensimesmar-se. Mas ela pode, por outro lado, abrir a percepção para uma renovada imagem de si, assim como, por extensão, a possibilidade
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Introdução ao filosofar. 9a ed. São Paulo: Globo, 1998, p.91 | 156 |

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de uma renovação no olhar dirigido ao outro, se a pessoa se dispuser a aceitar a ruptura como um arejamento em seu próprio ser. No modo Eu – Isso estamos fadados à repetição, aos esquemas sociais, aos modos de ser estratificados e cristalizados ao longo do tempo. Ao abrir-se a janela da experiência do Eu e Tu, ocorre uma experiência de disrupção. Esse modo abre a chance de uma renovação na imagem do outro e de si próprio. Os modos Isso e Tu se interpenetram e se confrontam. Não somos seres simples do estilo “isso ou aquilo”. Não se trata de mera dicotomia, de categorias metafísicas puras, mas, sim, de modos de ser que escalam o ser humano para a existência, a existência malograda, a existência como poesia, a existência que está aquém e além da palavra pronunciada. O modo de relação Eu e Tu é fugaz, é quase um lampejo, é tão rápido como um êxtase. Porém, ele não é uma fumaça que se perde em meio ao emaranhado das subjetividades adquiridas. Ele é o que permite a descoberta do outro para além de tudo o que foi demarcado para ele “ser”, por isso, nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema pode dar conta do Eu e Tu.
O homem não é uma coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando eu presente diante dele, que já é meu Tu, endereço-lhe a palavra-princípio [Eu e Tu]. Ele não é um simples Ele ou Ela limitado por outros Eles ou Elas, um ponto inscrito na rede do universo de espaço e tempo. Ele não é uma qualidade, um modo de ser, experienciável, descritível, um feixe flácido de qualidades definidas. Ele é Tu, sem limites, sem costuras, preenchendo todo o horizonte. Isto não significa que nada mais existe a não ser ele, mas que tudo o mais vive em sua luz.161

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. Eu e Tu, p.9. | 157 |

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Porque. deixá-lo vir. na roda dos dias. uma criação que é uma recriação. no estilo “daqui você não passa”. nem aquilo. o toque. ele | 158 | Ética da reciprocidade. Quem aguenta ficar sem controle. corresponda a nossa fantasia. o que já é uma empreitada digna de ralar os joelhos.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Nenhuma teoria psicológica pode esgotar as significações em torno da enunciação Eu e Tu. Queremos que o outro deseje o nosso desejo. psicológica. ela se inventa de novo. o silêncio não bastam. convidá-lo? Estamos falando de um convite em abertura. num frente a frente. E parece que esse “basta” é o mais difícil. ou até. a presença. sempre mais.indd 158 16/3/2010 09:39:22 . a voz. o olhar. estar com o outro. seja filosófica. e não seja aquilo que “é”. não daqueles convites com lugar marcado. A própria relação. Não se quer a transcendência de si. a postura das pessoas na relação pode dar a possibilidade da acomodação e da adaptação. a afirmativa dos modos. Não estamos condenados a ser o que “somos”. entre Eu e Tu não há fim algum. Quer-se a posse. Para isso. Percebemos no atendimento clínico. muitas vezes. nem mesmo a existencialista. dos conceitos fechados do que “eu sou” e do que “você é” ou “deve ser”. Não estamos condenados à li­ berdade. dos medos. uma grande ansiedade pela posse do controle. Queremos incorporar o outro ao nosso modo de ver. ao longo da seta do tempo. O outro deve ser observado. De um modo diverso. conversando com as pessoas. como. Quer-se mais. Enquanto não se encaixa o ser humano numa teoria. Tudo que ela tenta fazer é descrever o esboço de uma fenomenologia. deve ser estudado para que não possa surpreender. também. seja lambido pelo nosso imaginário. mantém-se uma inquietação insuportável. sociológica. a possibili­ dade da abertura para a criação de si com o outro. sem o controle remoto de mim e do outro? Quem aguenta se derreter perante o outro. “basta” que as pessoas estejam dispostas à descoberta mútua. avidez ou antecipação. Queremos que o outro seja aquilo que ele não é. de ser. Nem isso. Enquanto um não decifra o outro. nem a ser o que somos. Uma criação que não parte do nada.

colocado sob suspeita em tudo o que fala e imagina. do papel que cada um desempenha para a relação cara a cara. mas outros sonhos podem se constelar. Eu não quero contar com o outro. para a relação que esconde.indd 159 16/3/2010 09:39:22 . Ele se rebela. O outro pode surpreender.” Ironia de Nietzsche em A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras. mesmo que não queiramos aceitar o outro que ele é. Enquanto dentro de nosso canto.  e não faz distinção entre narizes curvos e retos. nas palavras de Buber. ele não denuncia a falta porque a preenchemos magicamente. mesmo que não queira se rebelar. não pelo respeito e amor por ele. Sonhos se desfazem como impérios de açúcar. entre quatro paredes. Por outro lado.243. Tudo que não se encaixe nos moldes conceituais é considerado de “uma outra ordem”. porque eles trabalham até os limites de um campo de conhecimento estritamente dentro da sua lógica para delimitar o ser humano.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa será vasculhado. mas a sua suspensão. pelo esfriamento. e tomar o seu lugar. Ele vem à vida no instante decisivo do encontro: aqui. ele tem toda a intensidade da falta. que oculta. cada um pode entrar na relação na base do “eu me basto”. mas também revela. parâmetros únicos de compreensão segundo uma lógica exclusiva. nada é mais democrático do que a lógica: ela não dá atenção à pessoa. p. assim como podemos surpreender. o outro é uma fantasia. A mística do encontro implica precisamente a suspensão dos conceitos. interrogado. O próprio desejo é passível de se transformar quando passa “do sonho para a realidade”. uma fantasia incompleta. Porque ele é rebelde à nossa fantasia. Colocar sob suspensão é aceitar a probabilidade de ranhuras. pelo 162 “Pois. Porque ele enche e esvazia o nosso sonho.162 Não advogamos a sua supressão. O que não dizer do enquadramento do outro numa representação psíquica? Enquanto ela não se formata. 2001. | 159 | Ética da reciprocidade. ficase com a sensação de estar suspenso no ar. desmascara. Significa não torná-los absolutos. §348. mas pela indiferença. O desejo se transforma ao longo da concretude da relação.

“o | 160 | Ética da reciprocidade. seja ele uma pessoa. Nesse momento. Estabelecer pontes entre mim e outro implica o reconhecimento das singularidades não fechadas. Esse fosso é a experiência do abismo. Percorrer a distância que separa a pessoa do outro é atravessar a ponte sobre um abismo. não se interessam de fato um pelo outro. na esfera do indivi­ dualismo. Dia a dia. não de um diálogo. Eventualmente. o que parece. senão na ordem da exterioridade. Um fala e outro fala. sente-se como se fosse aberto um fosso entre um e outro. Cria-se uma solidão a dois. Estão tão distantes que não percebem mais o rosto do outro. suportam-se. perante o qual nosso corpo e nossa consciência querem recuar ou mesmo recusar.. O abismo é o mistério que permeia nós e o outro. São duas histórias diante da perspectiva de abrir uma cumplicidade de emoções e desejos. trata-se de um solilóquio. Entre nós e o outro. duas sombras vivem. Há uma evocação para o sair de si mútuo.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO “desgaste”. mas não convivem. uma distância. inseguranças e “demandas”. permanece encastelado no seu jeito de ser. mais ele me traga. Duas personalidades entram em interação. Entre nós e outro existe uma diferença. mas abertas e dispostas ao diálogo. mas não falam um com o outro. de decidir o que é justo e de tomar as decisões. quando seu pensamento mora longe. ressurge a aparição da mística. No meio do caminho percebem que são diferentes. dois estranhos. a natureza etc. mas nenhum se escuta.indd 160 16/3/2010 09:39:23 . No fim. Em contrapartida. abre-se um abismo. cada um com o seu mundo. Quanto mais eu o nego. Um fala e o outro finge escutar. Nesse ponto. falam de si. eu não vejo a diferença. e cada um é quem se acha no lugar de decidir a última palavra. O familiar não tarda a revelar o que há de mais estranho. um abismo. No raio da mística do igual. um grupo social. Pedrinho Guareschi indica que cada um se posta como o centro de tudo. a cada passo que damos na interseção de nossas vidas. apoiam as suas “carências”. é o que fascina e é tremendo. e caio refém do abismo. Elas esperam abrir concomitantemente uma estrada em comum. por vezes até um totalmente outro.

Há uma dimensão da experiência humana em que ela se apresenta como uma experiência compartilhada.. a pessoa significa a abertura ao outro e ao mundo da relação. são a própria relação em seu processo de devir. Todas essas instâncias não são meios. ou ao menos.. Donde a pessoa apontar para o sentido de comunidade. quando há compreensão.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa outro não interessa. Represen tando a alteridade. E mais: sou eu que decido quando há dominação. SOBRE a NOÇÃO DE COMUNIDaDE A ideia de um vínculo do Tu com o mundo se realiza tanto na esfera da pessoa como da comunidade. Ângela. a cada lugar. (. a voz. eu o domino. Os ritos. o olhar. eu o exploro. está em segundo plano. penetrando nele. p. que separa.) Eu o explico. o que. os mi163 “Alteridade e relação: uma perspectiva crítica”. criando uma ponte imaginária que nunca será acabada de todo. A pessoa diz respeito ao caráter de uma radical singularidade: trata do que é vivenciado por cada um. talvez tenha a ver com a ideia de que o ser humano é atravessado pelo Nada. subordinado. não muito distante. 1998. Em Arruda. contradição. Depende de como são enviados. o toque podem unir ou separar. pois a existência é movimento. A sedução pelo distanciamento e pela exclusão mostra um posicionamento que não faz mais do que aumentar o abismo. No futuro. por cada relação. destruir ou criar. Descobrir a alteridade do outro é atravessar o abismo. a cada vez. Petrópolis: Vozes. quando há exploração”. contração e ligação. Ao mesmo tempo.163 A palavra.indd 161 16/3/2010 09:39:23 . | 161 | Ética da reciprocidade. forma-se um enorme campo para a desilusão. nos termos sartreanos.159-60. mas também que liga. Para se chegar ao outro é preciso atravessar o abismo. A pessoa caracteriza o ser humano como uma trama de relações. porque o ser humano não tem como escapar do mistério do ser.

de um grupo social. angústias. Elas esperam que quem chegar e encontrar a casa vazia entre e faça uma refeição enquanto aguarda a volta da família que lá mora. de constatar que sua vida não se reduz a ele. necessidades. que o outro coletivo. para muita gente. preces.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO tos. algumas bastante semelhantes às dele. ele tece um comentário: É preciso cuidado. suas imagens e formas de compreender e lidar com o mundo. O Dalai Lama descreve o ambiente de uma região do norte da Índia. em Spiti. solidarizar-se. o indivíduo tem a oportunidade de se ver e se sentir inserido num todo maior. bem ao estilo daquele espírito típico do final dos anos 1960: “Tudo o que você precisa é paz e amor”? O atual Dalai Lama mostra-se sobremodo lúcido a respeito da não idealização de comunidade a ponto de afastar o seu sentido da realidade humana. dúvidas. valores. os símbolos. para confraternizar. tal como ele. pelo modo de vida da aldeia. Ele participa de seus problemas. O sentido de comunidade apresentado pode parecer. Muitos problemas. O alto nível de cooperação que en| 162 | Ética da reciprocidade. Através da comunidade. ou seja. O indivíduo sai de si para o encontro com o Tu. entretanto. uma realização idealizada e fantasiosa. que a comunidade também apresenta. de seus anseios. Há um contínuo entre a existência individual e a existência coletiva. para não idealizarmos as velhas maneiras de viver. temores. contradições. fracassos e superações. A leitura de sua obra nos permitiu admitir que o sentido de comunidade não é dado pura e simplesmente pela tradição. o êxtase. inquietações do indivíduo são também os da sua comunidade.indd 162 16/3/2010 09:39:23 . pelo isolamento de uma cultura. desta feita sob a forma de comunidade. A seguir. Não seria mais uma união “histérica” entre os indivíduos. sonhos. comunicar-se com a comunidade. onde as pessoas não trancam as suas casas quando se ausentam delas. ideais. sentimentos. as situações que se apresentam no correr dos dias são experimentados em comunhão de pensamentos. da família.

o precisar da aprovação do outro. a integração das pessoas entre si e com o meio ambiente. o não ter coragem de tocar a vida sozinho.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa contramos em comunidades atrasadas pode estar baseado mais em necessidade do que em boa vontade. feridas. p. mas que não corresponde ao que reina de fato na condição humana? Sob o fundo dos valores que edificam a comunidade. Será esse ponto de vista uma abstração que apenas responde aos nossos mais altos ideais. sem dar as costas ao andamento do mundo contemporâneo. o medo da solidão. Essas pessoas talvez não sejam capazes de perceber ou imaginar que seja possível existir outra maneira de viver. solidão. como alto índice de violência. E o contentamento que observamos pode na verdade ter mais a ver com ignorância do que com outra coisa. isto é. que coloca a comunidade sob o alcance do Tu. com os seus anseios um tanto modestos. exclusão. não estaria a genuína esfera humana. o não saber se virar por si mesmo. não poderemos admitir possibilidade alguma para a esfera do Tu. a cooperação. desamparo.164 Dalai Lama nos convence de que enfrentamos um desafio: encontrar meios de desfrutar de um certo grau de harmonia e tranquilidade encontrados em algumas comunidades tradicionais. Em geral. | 163 | Ética da reciprocidade. a insegurança. a cooperação aí é vista como uma alternativa a maiores privações. o se encostar no outro. Rio de Janeiro: Sextante. com suas mazelas. marcado pelo vínculo das pessoas umas com as outras.24. o submeter-se ao outro? Essa é a provocação que nos surgiu por ocasião do exame da comunidade. consumo incontido e escapista de drogas. A noção de comunidade significa um espaço de convivência em comum. exploração em larga escala do ser humano. É preciso abrir 164 Uma ética para o novo milênio. 2000. problemas de toda ordem. Se ficarmos apenas na necessidade. que parecem aceitar a inclusão.indd 163 16/3/2010 09:39:24 .

em sua marca pessoal. simbolicamente (ou literalmente) abrem as janelas e as portas de suas casas.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO espaço. compartilhando-as. O que envolve a comunidade não é somente a ordem utilitária.indd 164 16/3/2010 09:39:24 . de compartilhar experiências. As pessoas não são mais exclusivamente estranhas umas às outras. Martin Buber define a noção de comunidade originada em dois fatores. sentir junto. Primeiro: todos estão em relação viva com um centro igualmente vivo. A comunidade é uma modalidade do viver humano que oferece um campo de relações em que as pessoas podem interagir de forma a promover a confraternização e a troca de sentimentos. ele se torna mais próximo. passar por algo junto. Se elas têm a perspectiva de se solidarizar é porque não se isolam no anonimato. Envolve sentimentos. Segundo: as pessoas se sentem ligadas em uma relação viva e recíproca. deixa em aberto a rivalidade. o disseme-disse. de exercitar o cuidado mútuo. Saem para fora. em sua fisionomia própria. Não devemos tomar um passo em falso e considerar qualquer tipo de interação da ordem da comunidade. mas como cada um. A convivência é conflitiva. festejos. para o frente a frente. apresentando uns para os outros suas experiências e impressões. por menor que seja. Não bastam seres humanos em convivência para reconhecermos o espírito de comunidade. O sentido de comunidade tem o seu fundamento. o querer saber “como vai a Dona Maria”? Fazer junto. a inveja. no fato de os seres envolvidos nela revelarem o Tu um ao ou- | 164 | Ética da reciprocidade. o seu centro ativo e vivo. Não como todos iguais. assim. e. nem na indiferença pelo que se passa com elas. Elas se permitem a convivência. mas também traz o outro para a frente. para reconhecer o fator de coesão que justifica a própria noção de comunidade. retirados de si pela uniformização. realização de projetos e lutas. a cooperação e a coparticipação. que atravessa as situações de vida.

53). 2005. ele pode devassar. Ele me põe a nu. Se ele não devassa. o contato com o Tu. que desviam o olhar para os lados. p. e estendemos suas considerações a respeito desse modo de relação numa maior amplitude. por uma cabeça sempre dispersa.76. cujo âmbito alcança a experiência religiosa? Resposta: o Tu “existencial”. na minha privacidade. ou melhor.. “nus feito minhocas”. Eu e Tu. 167 Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 165 | 165 | Ética da reciprocidade. “Afinal. Pois no contato com cada Tu. Existe sempre essa ameaça em vista. permitindonos pensar a comunidade. ou seja.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa tro. pela papelada. para além do espelho que reflita a imagem que idealizaram através dos agentes ideológicos hipnóticos em ação? O outro é visto como aquele que interfere na minha vida. Rostos que olham para baixo.165 Eles interagem expressando-se e reconhecendo-se como um Tu. 166 Ibid. A simples referência à atitude do tipo comunitário é uma daquelas que é digna do maior descrédito. na minha intimidade.73.167 Nessa afirmação sobre a comunidade.indd 165 16/3/2010 09:39:25 . um a mais na multidão de rostos encobertos? Rostos marcados pela pressa. no meu lazer. por assim dizer. que olham para si mesmos. que mal olham para si mesmos. diz Sartre através da boca de seu personagem Garcin. p. a que Tu te referes?” Poderia alguém nos perguntar quanto ao fundamento: é o Tu “religioso” ou o Tu no mais amplo sentido que constitui o fundamento da noção de comunidade. inspiramo-nos nas considerações de  Buber sobre o matrimônio (v. Como admitir a vivência com o Tu.”166 O sentimento de comunidade se realiza através de uma prática e de uma estima que recusa deixar ao outro apenas a condição de alienígena. e o Tu eterno se cruzam num tal emaranhado que Buber nos dá uma vaga pista: “A finalidade da relação é o seu próprio ser. na peça Entre Quatro Paredes. se a toda hora o outro é espreitado como um estranho. p. Estaremos uns perante os outros. toca-nos um sopro da vida eterna.

ou seja. uma fonte de prazer. a uma rede de comunicação cada vez mais sem controle. um falando do outro. Se não é impossível. ameaça suas ambições. é difícil para o homem contemporâneo encontrar um sentido de comunidade fora dos que acabamos de apontar. pela velocidade da técnica. da mídia. cheio de beatas e paladinos da moral. uma forma de resistência ao presente e ao futuro. Para o sujeito de uma grande metrópole. A comunidade aparece também representada como uma espécie de ilha em meio à multiplicidade de apelos às sensações e a estimulação de emoções que puxam pela adrenalina. e reproduzindo análises judicativas uns dos outros. um dos seus entretenimentos. quando muito. nada tem a ver com ele. A comunidade não interessa a um mundo em processo de globalização. a tradição é encarada como mofo. é um estranho. porém dispensável. que quer se enquadrar e se adaptar da melhor forma que puder às demandas do mercado. aceito como modo de vida “alternativo”. seu vizinho parece algo como um opositor íntimo: aquele ­ que devassa sua privacidade. regidos por uma moral sem sentido e completamente desvinculada da sua existência concreta. Nesse ambiente. negando-se sistematicamente a se verem tal como são. um templo perdido. simplesmente. metendo-se na vida alheia. ou.indd 166 16/3/2010 09:39:25 . que vive junto. querendo saber da vida alheia. compete com ele. mas não convive. onde os crentes se reúnem e ficam de picuinhas.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A vivência da comunidade pode estar em nossos dias se transformando cada vez mais numa nostalgia de um modo de vida aprazível. da ordem do que já foi ultrapassado pelo tempo. Enfim. a comunidade parece ser uma espécie de mundo em extinção. formam-se representações de comunidade do tipo: num rincão de mundo. restrito ao “lazer” dos fins de semana. um pacote turístico. | 166 | Ética da reciprocidade. em que ela aparece como não muito mais do que um dos seus espetáculos. pela explosão das imagens que rendem audiências incalculáveis e consumo. a um estilo de vida que pretende se globalizar. à margem da vida cotidiana e efetiva.

e dispensa reflexão. o filósofo se mostra atento à possibilidade de esses grupos perderem o sentido do que chamaríamos de “espírito comunitário”: Uma rápida sufocação do ímpeto comunitário ameaça as melhores dentre essas realizações de se degradarem em sociedades fechadas. Contudo. o próprio casal é incluído dentro da ideia de comunidade. 4a ed.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Uma das representações de “comunidade” ainda aceitáveis por inúmeras pessoas é uma determinada forma de conceber e desenvolver a instituição família. o casal. Tais eventos compõem uma espécie de bolha: tudo que não for do alcance do seu campo de investimento afetivo – filhos. de alguma maneira: fazem uma bela ceia de Natal e Ano-Novo. Emmanuel Mounier inclui na noção de comunidade os grupos de pessoas como os amigos em comum. | 167 | Ética da reciprocidade. alguns parentes e amigos seletos.. camaradas fiéis. para assegurar uma plena comunidade de pessoas resta aproximar-nos em pequenos grupos (família. Frente a uma sociedade massificada. Lisboa: Moraes. organizam divertidas festas e estimulantes eventos. o grupo de camaradas que se solidariza em algum momento geralmente por um objetivo em comum. as pessoas acreditam que se solidarizam.168 Mais uma vez. atenção e cuidado. compram presentes umas para as outras. Só se podem manter como elementos dum universo pessoal se cada uma delas se mantiver virtualmente aberta à universalidade das pessoas. mantém-se e não perde o contato com o correr dos anos. Nesse modelo.76. 1976. em que as pes­ soas são reduzidas a números de índices de audiência e dados mercadológicos. amigos. o objeto do desejo apaixonado – é excluído do interesse. p. o casal).indd 167 16/3/2010 09:39:25 . o pensamento nos põe no confronto da idealização da comunidade com a sua realização e a sua concretiza168 O personalismo.

uma noção. E isso envolve uma interação. como pode ser possível? Devemos admitir que é raro encontrar a abertura para o encontro em nossa vida cotidiana. e anunciar que na comunidade todos são possíveis de se conhecerem por inteiro. de uma vez por todas. aqui. sente-se responsável pelo outro e. “Autênticas” não implica uma transparência absoluta e ingênua. um diálogo não é um burburinho de personalidades.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO ção. raros são os genuínos encontros.112-3. São Paulo: Perspectiva. cada um. nas trocas de um ser com o outro. a sua arbitrariedade. A comunidade só tem um sentido efetivo quando é formada por relações autênticas entre as pessoas. como Buber tenta explicar. Como pessoa interessada no Tu. os seus desejos à revelia de com quem faz contato e em que contexto. A noção de comunidade não prescinde da noção de pessoa. a esboçar a interpretação de que a comunidade é mais do que uma ideia estanque. | 168 | Ética da reciprocidade. devemos nos contentar com uma compreensão que vise as atitudes que prezam a si e ao outro. simplesmente por se instalarem nela. Uma comunidade é uma dialogação entre pessoas. p. cada uma querendo afirmar a sua “questão”. nos relacionamentos amorosos que não são esbarrões. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. é alienação. como se pudéssemos tomar de assalto a ordem do ser e do vir a ser. fazendo a pergunta oportuna. assumir uma mútua responsabilidade. ela é. O Tu cofundamenta ao mesmo tempo a comunidade e a pessoa. Tornar-se pessoa nessa correlação com a comunidade significa mais do que estabelecer relações. de alguma forma.indd 168 16/3/2010 09:39:26 . sem colocá-los numa gangorra onde o espaço de um sufoque. Sobre comunidade. Uma comunidade não é um agregado de indivíduos. uma ética. na realidade. 1987. o do outro. Por autêntica. em dois tempos: é um projeto possível? Se é. aqueles encontros em que não se insira uma objetivação que. enfim.169 Começamos. na interação social. e um modo de ser no mundo. aceita 169 Buber. nas relações de amizades.

170 Devemos. e o homem solitário é pessoa pelo fato de estar ligado deste modo e poder ligar-se novamente. O ser humano confirma cada ser humano como um existente. exa­ tamente o antagônico daquela autodoação pessoal da au­ 170 Ibid. Buber verifica todo um aparato para retirar a corresponsabilidade.. mas que a cada momento se reconstrói novamente. Primeira: como vários autores. utilidade. nem pelo ser. p. somente assim o indivíduo se torna pessoa. que significa pessoa? A pessoa não existe fora disso. e sempre se oferece como pilar sobre o qual será construída uma ponte sobre si e sobre os seus parceiros momentâneos – ponte eterna que desaba a cada momento. Forma-se um elo de reciprocidade. vale dizer. objeto. nesse ponto. No processo do encontro.123. Isso é o oposto. nem pelos entes. um convida o outro para costurar o sentido da existência. ele só deve oferecer-se e nada mais..A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa a responsabilidade do outro pela sua própria pessoa. mesmo que engolfado na mais profunda solidão. Ser responsável não significa ser perfeito. ele se deixa confirmar pelos outros seres humanos como um existente. | 169 | Ética da reciprocidade. Igualmente. concluir nosso pensamento acerca da articulação entre a comunidade e a pessoa com algumas considerações. Eu – Tu. a cogestão e o cuidado mútuo. Esse aparato se forma em uma sociedade massificada. o sentido dialógico de relação. que proporciona tudo aquilo de que o homem necessita. Tudo será feito para ele.indd 169 16/3/2010 09:39:26 . e não como simples coisa. este não precisa mais responsabilizar-se nem por si próprio. Diz Buber quanto a tal estado de coisas: Há um enorme aparato que funciona de modo confiável.

humano demasiado humano. A máquina precisa desta roda. da culpa. impostos por autoridades que a comunidade acata ou se submete. sem responsabilidade. “realização”. a ideologia da evitação da dor. as mil maravilhas dos produtos de consumo. do Isso. desmorona-se por inteiro o sentido efetivo de comunidade no que diz respeito a uma perspectiva dialogal. encontrarmos a possibilidade da alternância 171 Ibid. “revelação” etc. pulsante e recíproco. no seio de uma proposta de “ação comunitária”. de modelos alheios à existência atualizada. desde carros a eletrodomésticos. o autoconceito. as formas descritas acima conduzem a não mais do que um desenvolvimento da “personalidade” a modo de um mero individualismo. o grupo se fecha à comunicação com outras comunidades. se a comunidade torna-se a posse de grupos que apenas se interessam pela prosperidade e segurança de seus membros. sem a perspectiva de levar em conta.. Ele se entrega.indd 170 16/3/2010 09:39:26 .. à maneira de uma roda na máquina. o exclusivo domínio da moral.125. sucesso. não devemos deixar de admitir que a comunidade não está preservada de perder de vista o seu sentido originário e o grupo inserir-se no mundo. e com as pessoas do próprio grupo em sua subjetividade e diferença. por outro lado. Terceira observação: o fato de. e. que propõem promover e elevar a autoestima. da lei e da ordem. assim como da morte e do luto. esta peça deve entregar-se. por um lado. | 170 | Ética da reciprocidade. várias forma de terapias da alma que prometem autonomia.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO têntica relação. Se a comunidade torna-se o campo em que tenhamos. Mantendo-se centrado unicamente em torno de si mesmo. então. o autoconhecimento. Segunda consideração: se por um lado. por outro lado. p.171 Faz parte desse aparato a apologia das sensações. os contextos interativos e as pessoas envolvidas como um todo vivo. com igual valor.

determinado do exterior. que se edifica pela relação.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa do modo de ser relacional com o modo de ser do Isso. que se tornou evidente no homem moderno. algumas pessoas acreditam que não é mais possível se resgatar algum tipo de ideal e de prática de comunidade. responde Buber: Afirma-se que o homem “religioso” é aquele que não necessita estar em relação com o mundo ou com os seres.123. Elas só conseguem enxergar uma única via: a salvação reside numa religião “interior”. engajar-se. sonhar. ou. exclusão.indd 171 16/3/2010 09:39:27 . Quarta observação: em um quadro contemporâneo de alta competitividade. a ausência de relação. | 171 | Ética da reciprocidade. e a massa de unidades humanas sem relação entre si. porque o estado de vida social. que transforma o sentido de comunidade numa “instituição pública” (onde se trabalha. Diante de tal atitude. é ultrapassado por uma força que só agiria do interior.173 172 173 Eu e Tu. devastação da natureza. do culto ao individualismo. se exerce influência. de nosso pensar. não nos deve convencer a anular a experiência comunitária de nossas vidas. p. ma­ nipulação dos desejos na direção do marketing. então. sob o conceito de social. onde se aperfeiçoa as funções de experimentação e utilização172). enfim. Ibid.50. p. duas coisas fundamentalmente diferentes: a comunidade. Confunde-se assim. isto é. resta-me o recolhimento pessoal e com “Deus”. ao menos.. Chama-nos a atenção que a experiência de comunidade fundada no Tu parece cada vez mais recolhida ao esquecimento. Se eu não posso interagir com o mundo de tal forma a participar de uma perspectiva de sentido que valha a pena lutar. se faz negócios.

com a lógica regida pelo duo de sentido impessoal-individual. Esse tipo de sujeito consegue desmascarar uma imagem de “público” que não atende senão a interesses de mercado.175 Voltemos a nossa atenção a um certo gênero de “homem religioso” que deseja prescindir da relação com o mundo referido por Buber. p. enquanto que o seu verdadeiro conhecimento poderia levar ao suicídio ou à regeneração. seu vestido. meu gênio. Ibid. que se considera autônomo.164. para ele.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO A massa de unidades humanas é regida pelo modo de ser impessoal. a propósitos de nivelar as particularidades num conjunto de signos manipulados ideologicamente. enquanto que o egótico ocupa-se com o seu “meu”: minha espécie.indd 172 16/3/2010 09:39:27 . espantosamente.. pelo encanto da separação do mundo. valores que são “públicos”. eficácia. Confrontando o seu modo de ser com o da pessoa. Pois. Em tal pessoa. seu apartamento. conhecer-se significa fundamentalmente sobretudo estabelecer uma manifestação efetiva de si e que seja capaz de iludi-lo cada vez mais profundamente: e pela contemplação e veneração desta manifestação procura uma aparência de conhecimento de seu próprio modo-de-ser. observa Buber: Ele se delicia com seu modo-de-ser específico que ele imagina ser o seu. Com igual perspicácia. Zuben traduz por “egótico”174. 175 Ibid. um aglomerado de atitudes.10. consumo. meu agir. produtividade. e que. minha raça. A pessoa contempla-se no seu si-mesmo. notas de Newton A.. ideias. seu aparelho tecnológico. vendem a imagem de que só pertencem ao indivíduo: seu carro. p. 174 | 172 | Ética da reciprocidade. nosso “homem de religião interior” rasga os véus de maya (ilusão) e consegue perceber como falaciosa a crença de que somente se afirmando O termo em alemão que ele traduz é eigenwesen. Tal indivíduo. von Zuben (tradutor). n.75. identificamos o esforço de romper. comportamentos. autêntico.

indd 173 16/3/2010 09:39:27 . num acolhimento que não signifique submissão nem aceitação passiva do outro. no face a face. esse sujeito confunde recolhimento com separação e exclusão. vale dizer. Mediante tal quadro de mundo. da troca. pouco importa se o chame de “interno” ou “transcendente”. Lendo Buber. o destino se apresenta. | 173 | Ética da reciprocidade. Nela. “interioriza-se”. não consegue conceber um sentido de transformação de si no mundo. nega o mundo porque não vê mais sentido no mundo. reconhecemos a possibilidade de uma espécie de parceria entre o sujeito e a coexistência-no-mundo. o mundo “acontece” fora de minha determinação. O religare convida a um encontro com o outro que não separe necessariamente o eu do mundo. integrando o mundo na esfera genuinamente religiosa. do reconhecer em­ paticamente os outros. Por exemplo. da com-vivência. como também pela minha atitude posso criar o mundo. Na exclusão. pelo interesse em engajar-se numa proposta que resgate o sentido da existência inclusivo. e sim um realizar-se e expressar-se conjuntamente com o outro. pelo convívio. e mesmo “autenticidade”. a parceria que respeita a singularidade. “autêntico”. a autenticidade desenvolvida nas relações que se estabelecem. O esforço de separação e negação do “estado de coisas” do mundo. o comunitário que se interessa e se articula com o singular e viceversa. entretanto. através do isolamento. excluindo-o da existência. o sujeito permanece tendo como horizonte um niilismo para com o mundo que projeta toda a sua esperança e ação num outro mundo. quer romper com um mundo onde se perverteram os sentidos mais dignos de “nosso” e de “meu”. A exclusão acalenta o desejo de simplesmente desligar-se do mundo. O recolhimento não deve ser confundido com a exclusão. alguém pode se sentir integrado no “mundo”. O indivíduo que se dedica a tal religião “interior”.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa por um modo de ser “meu”. o público como o espaço em comum da partilha. não tem em conta outros sentidos possíveis para “público”.

para assumir o conflito inerente ao encontro com o outro. eu saio da discussão negar-aderir ao mundo. com minha obra..109. não é aquele que não é submetido a nenhum ser. igualmente. Ele nos insere na temática através de perguntas que faz a si mesmo: Porém. p. A experiência humana como uma experiência total. uma vida atual”. p. p.”178 Vale. é possível que o seu acontecimento se solidarize com minha vida: com minha decisão. transformá-lo. uma visão inesperada? O intercâmbio consigo mesmo não pode transformar-se misteriosamente em um intercâmbio com o mistério? E mais.176 Então. uma observação.119. no mais silencioso isolamento. Martin Buber dá um realce à relação com o Tu eterno. às vezes. de tal forma que: “Se amamos o mundo atual que não quer deixar-se abolir. Ibid. inclui uma instância de recolhimento: uma espécie de exílio voluntário.indd 174 16/3/2010 09:39:28 . mas não negligencia a possibilidade de um recolhimento.177 Com isso..LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO aceitá-lo.110. 179 Ibid. Negar ou afirmar o destino e o mundo não dependem só de mim. a solidão não é ela também uma porta? Não se re­ vela. que envolve nossas possibilidades de expressão. uma vida que atua no mundo. o único digno de se encontrar com o Ser?179 Ibid. por outro lado. então nossas mãos encontrarão as mãos que suportam o mundo.. nesse ponto. A concepção que realça a relação dialógica (Eu e Tu) não rejeita o recolhimento e a introspecção. 178 Ibid. achamo-nos em disponibilidade. e passo a “transformar em vida minha atitude de alma diante do mundo. mas. 176 177 | 174 | Ética da reciprocidade. que pode ter vários significados e ser reconhecido em diversas fontes. se ousarmos enlaçá-lo com os braços de nosso espírito. realmente em todos os seus horrores.109.. com meu serviço. p.

Aderir somente ao mundo podemos entender como manter um “comércio” com as coisas180. De modo análogo. recusa do mundo. o sagrado. no seu linguajar. exploração. Com relação a quem abraça um sentido de transcendência na religiosidade. Buber. manipulação. Tal solidão é como uma “fortaleza da separação” que Buber considera a verdadeira decadência do espírito na espiritualidade. na religião um meio para ratificar a negação da existência. no entanto. | 175 | Ética da reciprocidade. negação da existência para projetá-la somente em outras esferas. admitindo a solidão como uma purificação que prepara aquele que está vinculado. remeter-se ao mundo e ao outro no modo da utilização.119-20. não só para a relação suprema mas sobretudo para o ato de relação. p. dominação.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa Buber reconhece um caráter catártico no recolhimento.. de Isso. configura o modo de reduzir o Tu a um molde de coisa. querer ansiosamente a “libertação” desse planeta de “expiações” e “pecados”.indd 175 16/3/2010 09:39:28 . afastar-se do mundo. com as pessoas. controle. posse. desinteressar-se de­ le. por exemplo. Aquele que cobiça apenas se apropriar de uma experiência da transcendência para salvar-se permanece preso aos seres. tecendo um amor que constrói uma ética da responsabilidade mútua. então ela é sempre necessária. Não busca gratificação nem ingratidão. acrescentamos. buscando neles apenas gratificação. Aquele que deseja realizar a experiência da transcendência no modo relacional permanece ligado não só ao que abrigar um valor sagrado. nota que “Só aquele que está vinculado com os seres está pronto para o 180 “Se a solidão significa afastar-se do comércio com as coisas de experiências e  utilização. nem se afastando dele.” Ibid. a natureza. Buber adverte. Permanece vinculado. Ele retoma a tese de que não é aderindo ao mundo. que experimentamos um sentido de alteridade. e. Entendemos o vínculo como um duplo vínculo: com o outro e com o mundo. que a solidão não deve ser confundida com ausência de relação. tendo. como ao mundo.

No pensamento de Buber. certamente Deus participa dessa composição de tramas que se entrecruzam no fundamento do Tu. com a natureza.”182 Através do árduo processo de conscientizar e encarar a possibilidade de se perder na indiferenciação de um modo de ser de “todo mundo”. do modo Eu – Isso. com a comunidade. penetramos no emaranhado do Tu com o Isso. através do esforço para romper as defesas suscitadas pelo temor de se expor ao face 181 182 Ibid.76.indd 176 16/3/2010 09:39:29 . | 176 | Ética da reciprocidade. Cada um vive no seio de um duplo Eu.120 Ibid. ser próprio no sentido de um ser de relações. Pessoa é tornarse um ser próprio. nenhum é inteiramente atual e nenhum totalmente carente de atualidade. e nenhum é puramente egótico. “Homem algum é puramente pessoa. Consideramos que esse ser único é desenvolvido num processo de interação com as pessoas. por vezes con­ fundimos o que é da ordem do individualismo e o que é da ordem da individuação e do diálogo. único. numa palavra.”181 A CONSTRUÇÃO Da pESSOa E O MODO DE SER “EGÓTICO” A concepção da experiência dialógica apresentada por Buber é uma afirmação de Deus e do mundo. Importa para essa dinâmica relacional a noção de pessoa. e. Na constituição de nosso tornar-se pessoa. da avidez. com as situações de vida concretas.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO encontro com Deus. acrescente-se a essa lista o sagrado. com desejos do outro. ingressamos no confronto do modo de ser da relação dialogada com o modo de ser da apropriação. por outro lado.. e para quem se projeta na perspectiva da fé. p. de si e do outro. do cálculo. da utilização. com pulsões e desejos. somente ele leva ao encontro da atualidade de Deus uma atualidade humana. p. que nivela as diferenças numa superposição de monólogos.. Pois. Dessa forma.

um eu-relacionado. um eu-com. uma existência subterrânea e velada e.indd 177 16/3/2010 09:39:29 . mais profundamente o Eu é atirado na inatualidade. Quanto mais o homem e a humanidade são dominados pelo egótico.. p. pensamentos. a comunidade. contentando-se em permanecer meditando. ilegítima – até o momento em que ela será chamada. de algum modo. Na medida em que o egótico se afasta dos outros. A pessoa toma consciência de si como participante do ser. um ser-com. o sagrado. como um ente. Nestas épocas. em última análise. orando. notamos um anúncio de uma bebida em que 183 184 Ibid. Não faz muito tempo. ele se distancia do Ser. a si mesmo. Ibid. um eu-pessoa.184 O egótico faz parte da mentalidade do “cada um na sua”. Isso para Buber é mais uma face do modo de ser “egótico”. pela expressão das emoções. “querendo o bem”. A pessoa diz: “Eu sou”. na humanidade. e. a pessoa leva. desconhece-se. “Conhece-te a ti mesmo” para a pessoa significa: conhece-te como ser. | 177 | Ética da reciprocidade.. o egótico diz: “Eu sou assim”. p.75 e 76. enfim. como um ser-com. a pessoa. o outro. para o egótico significa: conhece o teu modo de ser. e não-de-outro-modo.74-5. enfim. a um só tempo. ideias no convívio e no cuidado consigo e com o outro é que constituímos um eu. Nessa esfera. no homem.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa a face com as pessoas e consigo mesmo. O egótico toma consciência de si como um ente-que-é-assim. 183 Buber não acredita num recolhimento “religioso” que recuse o mundo e queira se des-ligar da teia de relações que marca a existência.

com seus filhos no quarto. Os sujeitos estavam em seus cômodos.” A responsabilidade por esse estado de coisas não pode ser atribuída a refrigerantes. mais procuravam. a violência nunca antes sequer imaginada. onde se tinha todo o tempo do mundo. em vez de os sujeitos estarem uns com os outros. o aprofundamento das desigualdades sociais. com o celular. no controle remoto. no final. Eis um dos ícones da família contemporânea. como explicar as montanhas de dinheiro consumidas pelas drogas. de dependência de psicotró­ picos. e deixar a conversa correr. com o computador. Todos têm mais o que fazer. para onde ela fosse. Cada um na sua. todo o mundo nas interfaces da rede mundial que ‘plugava’ o sujeito com o universo. com o seu fone de ouvido. cada um na sua. mais sós. aparelhos. sem a premissa da ‘falta de tempo’. que restava da ‘falta de tempo’. o índice de alcoolismo. deixando o parceiro esperando na cama. inclusive. de sintomas psíquicos de toda a ordem. sem pressa. O uso e o valor que se dá a essas parafernálias é o que acreditamos que diz sobre nosso modo moderno de viver. e assim. E se achavam sós. por exemplo. do se postar lado a lado. ficava-se na toca. A televisão trazia o mundo inteiro para dentro de casa.indd 178 16/3/2010 09:39:29 . Cabia o mundo todo na palma da mão. ficavam com a televisão. ficavam. porque consumia o produto.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO aparecia uma mãe. O pai era uma figura ausente. e a mãe. Quanto mais procuravam se livrar da solidão. Eram horas e horas diante de uma tela. ninguém junto. indefinidamente. sozinha. feliz. um reino onde. fazendo as suas coisas. a exclusão como paradigma moral (a nor| 178 | Ética da reciprocidade. Se todos parecem tão felizes. postar-se diante da televisão e consumir. de novo. conexões tecnológicas. mas não cabia mais o espaço da convivência. Se alguém contasse um dia um mito dos dias atuais. de depressão. talvez começasse por algo assim: “Era uma vez. O computador estava assumindo o lugar da televisão. novas excitações. O que mais importava era o produto. mais ligavam seus aparelhos. enquanto a vida corria lá fora.

do culto ao eu. foge. Não há opções. Do ser humano separado de seu corpo pela lógica do mundo do trabalho alienante e do dinheiro.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa ma do vence aquele que está preparado para o mercado de trabalho para ser o único vencedor). A cidadania. O consumo só se sustenta com mais consumo. do treco que ainda vão inventar logo. Talvez. não mais o espaço de partilhar emoções em cumplicidade. ou é excluído. | 179 | Ética da reciprocidade. quando todos finalmente poderem consumir. da artificialidade de seu viver através de um desejo que tem a compulsão como combustível. render mais. o que vem? Isso para nós diz muito. delira. esse automóvel. e felicidade. do ególatra. Você só será feliz se consumir essa geladeira. a devastação da natureza atingindo à beira do irreversível? Sim. explorar mais. esse celular. de celular. “Ah. aprender mais. que bom será o dia em que todos forem cidadãos. a morada do ser foi pulverizada pelas atrações do mercado. queiram vender telas imensas. como as de cinema. é preciso trabalhar mais. separado de seus pares. entrarem no mercado!” Assim. Só que um cinema fora do cinema. e agora sem lar.indd 179 16/3/2010 09:39:30 . malhar mais. É o círculo vicioso da filosofia do cada um na sua. produzir mais. logo. Então. porque sob toda a parafernália tecno-mercadológica é montado um discurso da promessa de prazer – e prazer imediato. é um zero econômico. Essa pulverização asfixia o próprio sentido do viver humano. Seu lar foi reduzido a uma tela de computador. separado da natureza. tomar mais. namorar mais. essa marca. Sem sentido. ele se torna ainda mais bem nutrido. divertir-se e gozar demais. por isso. Ou você entra na busca incessante de prazer. Da desumanização do ser humano. sem consciência de si e do outro. descarrega toda a tensão de não ser. o ser humano alucina. Fala da solidão do ser humano. E para além do prazer. depois do ruidoso som dos fogos de artifícios. aquele espírito da pólis grega foi reduzido ao estatuto de “consumidor”. O ethos. O desejo é reduzido a desejo de consumo.

Ele passa a idolatrar a máquina e a técnica. incompleto. de não ser perfeito. Qual o espaço para a angústia ontológica onde não se quer perder.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO O ser humano sem a relação autêntica cai no mais extremo desamparo. emoções. ou seja. Para escolher que caminho tomar. uma espécie de euforia na veia. apontam para o futuro. de não ser totalmente feliz. contraditório. a fim de formar novas compreensões. sonhos que vem do passado. A solidão se insufla em sua vida. para quem acredita.indd 180 16/3/2010 09:39:30 . para ganhar. mais ela o alcança. que um dia serão vistas como crenças. e se distrair com o que acredita ser seu fetiche de felicidade. a consciência tem que se perder. de dispensar a todos os outros e ficar “na minha”. nem ao menos o que é sentido. perdido do caminho de casa. para encontrar o ser que eu sou. Em cada opção desfaz-se a onipotência. tenho que perder crenças tão arraigadas. ter a posse de Deus). ambíguo. imagens. ou seja. é sair da condição de espectador para | 180 | Ética da reciprocidade. O ser humano suporta a sua solidão? A condição de estar diante de si mesmo. não se quer abrir mão de nada. rasgando o presente. Para se encontrar a si próprio é preciso perder a consciência. não transparente. então. é preciso perder a onipotência (deixar de lado a pretensão de já ser Deus. Está perdido. quem sabe. Buscando fugir do desamparo. de ser faltante. É o que se faz presente. Para se encontrar o outro é preciso perder a guarnição da autossuficiência. o broto de uma nova consciência. sensações. Para encontrar Deus. como enuncia Sartre. Cada escolha assumida remete à constatação de “não ser Deus”. não sente mais nada além da compulsão à diversão. São as perspectivas que se abrem diante de nós. Quanto mais ele foge. onde impera o reino do lucro e bem-estar pessoal (“se dar bem”)? Para se achar. em sua possibilidade de ser? A sua possibilidade de ser não é somente algo virtual. Não sabe mais o que faz sentido. de não ser inteiro. ele se refugia naquilo que lhe dá a ilusão de autossuficiência. É postar-se diante de escolhas. Aceitar a convivência consigo mesmo e com o outro é perceber tudo o que está em jogo. É toda uma torrente de desejos.

Nada mais queremos com o que está acontecendo. esse é o reino do conhecimento. às vezes até nos lesionamos. foge de sua mais própria condição. a atitude cara ao filósofo. pois estamos motivados para comerciar durante o espetáculo. nem subjetivamente. Imaginemos a partida de um esporte. 185 Na mente de Pitágoras. da impessoalidade mais extrema. Na contemporaneidade. daqueles bem emocionantes. | 181 | Ética da reciprocidade. Numa segunda atitude. arriscamos a ganhar ou perder numa única e simples jogada. suamos a camisa. onde. Convite à filosofia. ou na cabine de imprensa. vamos aos jogos. cuja cifra pode ser desvelada com auxílio da matemática. A origem da filosofia). 1. com isso. Na terceira hipótese.indd 181 16/3/2010 09:39:30 . São Paulo: Ática. célebre por uma filosofia que prima pela interpretação do universo como uma grande harmonia cósmica. e. como se diz.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa jogar o jogo. no que está em jogo. acordamos cedo e nos preparamos para enfrentar um duro dia de trabalho. Não estamos interessados no jogo. vender o máximo possível para obter o maior ganho possível. Numa primeira intenção. a atitude para fazer face à vida e a sua compreensão é a daquele que se envolve efetivamente com o jo- 185  eja Marilena Chauí. com a imparcialidade de quem tem a visão do todo e não se envolve passional. 13a ed. da sensação de controle. p. para jogar. O ser humano. gravar e deletar. Dissolve-se na instância da massificação. Segundo a nossa interpretação da existência. em que vamos a ela municiados por algumas motivações. ele busca avidamente se refugiar no mundo dos prazeres e do entretenimento. Tudo não passa de um fundo de cena para um objetivo que interessa: o de comerciar. não raro.25 V (Cap. podemos nos colocar na arquibancada. aí sim. para participar deles. o espectador crítico. 2004. tentando seguir alguns passos de Buber. e lá exercer a nobre função de avaliar os jogos e o desempenho dos jogadores. ao apertar botões e mais botões.

para alguns. Somos todos nós. elucubrações lógicas. 186 | 182 | Ética da reciprocidade. num mundo em que. enchemos o peito para dizer que “o inferno são os outros”. como um castelo de cartas. e acabamos dando voltas sobre o mesmo ponto. quando em nossa atitude de recusa da relação. no eu-separado. abandonadas. não é. numa só palavra.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO go. cálculos. desesperados. estratagemas. como da própria filosofia. sós. incluindo a dimensão do ser de relações. Permanecer como expectador. conferindo sentido a cada situação.186 Não só se envolve. O egocentrismo denuncia a dificuldade em sair de si. E mais: é o fazer-se existente à medida em que se vive e se convive. e. um pensador tresloucado. diferente. expressando um modo de ser que responda a questões de foro íntimo. Na filosofia dialógica essa postura é justamente o termo não só da existência.indd 182 16/3/2010 09:39:31 . O que é o jogo? É o correr da existência. Não tem estatística. simplesmente. Quando queremos resolver as coisas encerrados entre quatro paredes. achando-nos sem saída. A condição de expectador. no Gostaríamos de ressaltar que a posição contemporânea de modo algum inva lida a grandeza do pensamento da Escola Pitagórica. e experimentar a sua interioridade profunda. não há espaço para antecipações. O egocentrismo escora a sua centralidade na individualização187. é o melhor correlativo para a atitude a se conservar na vida. até mesmo. um ente patológico. alguém a quem faltaria alguma qualidade para ser legitimado como ser humano saudável. O egótico não é um ser especial. entrar dentro de si. É aquele que sai da condição de expectador para entrar no jogo. 187 Não confundir com individuação: processo de desenvolvimento em direção à  constituição da pessoa. perder-se e se achar nele. como joga o jogo. numa cultura em que as pessoas se veem cada vez mais isoladas. ou mesmo virar as costas para o fluxo da existência que corre nas veias do corpo e nas ruelas da vida trocando-o pelos catálogos dos métodos e conceitos é o mundo que o racionalismo tenta construir.

o desespero. a amizade. da crise nas esperanças e na confiança. como se diz. no mundo da re­ lação. que aparece na tela e que é operado apenas por um teclado. o espaço de convivência que dá sustento ao ser de relações que é o ser humano. da oferta da felicidade mediante o cartão de crédito.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa eu me basto. mas sabe quanto custa o último lançamento que diverte e alucina em lugar da imaginação. É bom pingar aqui uma vírgula no pensamento para não deixar de considerar que entrar no jogo da vida. ou melhor. Quanto mais se tenta refugiar-se num mundo de sonhos de autossuficiência – sexual. quanto mais tentam fazê-lo. O outro permanece de | 183 | Ética da reciprocidade. Um objeto do desejo. ninguém sabia muito ou quase nada sobre o desejo. incluindo os tranquilizantes e antidepressivos. a angústia. transgressora. A atitude egocentrada dispensa o mundo porque visa somente e em primeiro lugar o seu mundo. Era uma força subversora. da angústia. Que desejo? Ninguém sabe mais aonde ir. individual. a paixão. sem levar em conta que a troca com o outro acaba renovando o si-mesmo. Agora. o surpreender-se consigo e com o outro. toma o lugar do mundo. do desejo. “psicológica” –. assim como o amor. apenas anunciar: a promessa de felicidade. O seu entra entre o sujeito e o mundo. E. Antes. Muitos entram de cara. por mais paradoxal que possa parecer. mais ele se molda como um objeto. a perspectiva de perder e se machucar. não salva ninguém da solidão. libertadora. do vazio. Diante do que é próprio à relação. em certo sentido. malogram diante daquilo que a indústria cultural não pode fornecer. nos produtos da cultura de massa. as pessoas estão recusando a sua mais própria condição para se refugiarem num mundo virtual. da falta. mais se arranca de si mesmo a entrada para o espaço fundamental do ethos. a emoção do encontro. buscando fugir da solidão. a solidariedade. no eu “faço do meu jeito”. ou seja.indd 183 16/3/2010 09:39:31 . tenta-se domesticá-lo sob inúmeras normas. Quanto mais o sujeito se retira da condição de pessoa.

a ética para compor uma reflexão sobre a subjetividade e alteridade no campo da psicologia. do uso. expressar a si próprio. Se tivéssemos a dádiva dos devidos cuidados. responsabilizamos o outro pelo nosso próprio calar-se. Vamos à sua descrição. nesse instante. para não dizer. Ele é como um quadro na parede. Na atitude egocentrada. Mim. ele só entra se for considerado da ordem da posse. No mais das vezes. o aprender a se cuidar pode alçar um parâmetro inclusivo: um gostar que admita e permita incluir a si e ao outro. A psicologia denuncia uma tendência não para todos e qualquer um. Surgem ideias do tipo: “Você precisa pensar primeiro em você”. Na atitude egocêntrica. O outro é um mero apêndice da história de cada um. em geral. para me sentir em relação eu preciso ter a sensação de que possuo e tenho um certo controle. Pela psicologia. PERSpECTIVa ÉTICa aCERCa Da pSICOLOGIa Da pESSOa Convidamos. Nas relações que estabelecemos. já falecido. o outro precisa ser inserido como objeto. o eixo | 184 | Ética da reciprocidade. O saudoso Beatle George Harrison. falar de si mesmo. é tão difícil a experiência do cuidado. importa exclusivamente a minha individualidade. pouco espaço encontramos para expressar o que se passa conosco. mas mal percebemos que somos nós mesmos quem muitas vezes cortam os elos de comunicação com o mundo.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO fora. fez uma composição em 1969 bastante pertinente para o nosso assunto: chamava-se I. O sujeito se encerra num mundo voltado para colocar todo o sentido de existência. Quem aprende o cuidado. De outro modo. Meu). Por isso. natureza morta. mas que atinge uma considerável parcela de pessoas. Me. cuida-se e se põe no lugar do outro. Mine (traduzimos por Eu. sabemos da importância de lidar consigo mesmo. não precisaríamos estar falando tanto sobre o cuidado como um dos pilares éticos para a entrada do terceiro milênio.indd 184 16/3/2010 09:39:31 . enfim. fonte de prazer.

ele pode procurar um profissional por iniciativa própria ou por indicação de alguém (amigos. e nega o clamor do ser. e nem esperar. digamos assim. Uma vez frustrado em seu projeto de ter no outro o certificado para o bem viver. embotamentos sexuais etc. ansiedade. por encontrar-se muito conflitado.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa central de sentido. um caminho certo e rápido para seguir – está ansioso.indd 185 16/3/2010 09:39:32 . onde abandona as mais autênticas emoções e desejos. o seu desligamento dos valores impostos pela família e pelo social. num trabalho sobre ética e psicologia. O desenvolvimento da personalidade implica em afastamento das convenções sociais. Nossa aluna conclui definindo o papel do psicólogo: “Consiste em levar o seu paciente ao exercício constante de mergulhar | 185 | Ética da reciprocidade. diz: O terapeuta deve ter sempre em mente que o seu cliente é que deverá ser o condutor de sua vida e autor de seu comportamento. A ajuda terapêutica deve se focar nisso. através do desenvolvimento de uma atitude reflexiva e crítica. pessoas de convívio próximo). O que lemos volta e meia na literatura psicológica. quer resolver logo.. depressão. não se sente capaz de escolher nada. tais como insônia. que. fobias. a sua autonomia. já quase se formando. Caberá ao primeiro convidar a pessoa a se conhecer. passa a construir muros de pedra. de um outro especial que ele elege como o lugar de sua felicidade/infelicidade.. o próprio paciente. na aprovação de si através do outro. filhos. angústia. Deve ser capaz de facilitar a individuação do sujeito. é expresso com precisão por uma aluna. a descobrir seus próprios valores – o eixo de valores – e a construir a sua autonomia. Muitas vezes. a partir daí. Nesse momento. e perdido. como que desistindo de afirmar a vida. em várias abordagens e conversas com colegas. não quer arriscar. vem buscar uma resposta pronta. Seguem-se uma série de sintomas.

assim como aos meus alunos pela oportunidade de pôr em debate questões centrais para a reflexão que articula a filosofia (ética) com a psicologia.188 Quando entra em cena o psicólogo. na política. ele está dentro de uma cultura egocentrada. na cultura. Uma cultura que produziu extremos.” Nós confirmamos cada palavra. não faz sentido somente para si mesmo. pela ordem. mais precisamente. A felicidade deve ser uma realização do ser humano. Para não confundir esse ego com a instância consciente do ser humano. (. debatemos com os alunos. Mas parece que o ser humano apronta um problema para si mesmo.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO para dentro de si. O Eu (a personalidade) é feito não pelo outro. lemos em muitos livros da área psi. e em de buscar os seus próprios desejos.. A “felicidade” está exatamente dentro dessa cultura do EU. Esse problema é que ele não se encerra em si mesmo. devemos pensar no social. Foi o que percebeu uma aluna do mesmo curso ao nos dar o seguinte depoimento: Atualmente vivemos numa sociedade onde há mais preocupação com o próprio EU do que com os outros. É o que nós mesmos dizemos em sala de aula. vivemos numa sociedade cada vez mais individualista e egoísta. ponto e vírgula dessa colocação. Pensa-se no próprio bem e não em um bem comum a todos. não se desenvolve apenas a partir de si mesmo. numa cultura eu-centrada. | 186 | Ética da reciprocidade. Ana Maria e Tássia. mas junto ao outro. Agradeço a sua contri buição neste estudo.. diríamos. mas deve ir além de uma realização subjetiva. que nortearão as suas escolhas. ter esperanças e gritar por dignidade. é o que nos ensina Buber.indd 186 16/3/2010 09:39:32 .) O parâmetro do que é felicidade para as pessoas em geral está exatamente dentro dessa cultura. De um 188 As alunas citadas são. Sua interioridade não pode ser constituída sem o mundo da relação.

o eu não é o objetivo último do trabalho terapêutico.16. Ele é um terapeuta que trabalha com o fundamento o Eu e Tu de Buber. Em nossa era moderna. Essa teia é tecida para além da prática psicoterápica. notamos o fermento de uma subjetividade individualista e isolacionista. Embora tal cura não seja sempre possível.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa lado. Na leitura de Richard Hycner encontramos uma aproximação com o nosso pensamento. uma massa de comportamentos uniforme e condicionada. a alienação dos outros. é essencial tentar se aproximar dela. Prefácio.indd 187 16/3/2010 09:39:32 . que toma cada vez mais inúmeros campos e práticas antes compartilhados coletivamente. | 187 | Ética da reciprocidade. Relação e cura em Gestalt-terapia.  Summus. da conversa face a face. 1997. uma alteridade sem rosto. Isso requer que o terapeuta vá além da cura técnica.189 Parece que a personalidade se desenvolve inserida no círculo de relações que tece ao longo de sua existência. Richard e Lynne Jacobs. Se isso é verdadeiro. A 189 Hycner. nós imaginamos como a tecelagem da teia de relações. a psicologia moderna tem feito muito pouco no sentido de voltar-se para essa dimensão do espírito humano. Ironicamente. p. De outro. São Paulo. o espaço da comunicação intersubjetiva. O que Hycner chama de “cura”. em direção à cura do “entre” – aquela dimensão invisível e ainda assim muito profunda da interconexão humana. tais como o espaço em comum da casa. ou seja. Muito do sofrimento humano poderia ser diminuído se houvesse uma maior preo­ cupação em se estabelecer um diálogo genuíno entre as pessoas. de nosso próprio self e da natureza é endêmica. o espaço do trabalho. Numa observação de inspiração buberiana. então compete aos terapeutas criarem uma atmosfera na qual a atitude dialógica seja semeada e floresça.

indd 188 16/3/2010 09:39:33 . em outras palavras. A “atitude dialógica” é a que envolve o Eu e Tu. psicopatologias e psicoterapias imaginam estas coisas como sendo uma formação psíquica do tipo de uma cápsula fechada e existente por si. sobretudo. apontada por Hycner. como se diz na psicologia. em um eterno diálogo a dois. ela não se limita à relação entre terapeuta e cliente. Em curtas palavras. Essa preocupação. de a terapia estimular a criação de condições para estabelecer um diálogo genuíno entre as pessoas.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO prática psicoterápica responde e questiona a existência viva e pujante. todas as psicologias. não vemos como a psicoterapia possa definir-se apenas entre as quatro paredes do consultório. e. os laços afetivos. A terapia convida o sujeito a experimentar a condição de pessoa. O conceito | 188 | Ética da reciprocidade. as prováveis dificuldades de estabelecer relações e se vincular. as escolhas. “sujeito”. A vida é a vida interior. deve ser extensiva para além do consultório. Ela trabalha a comunicação. Tal condição vem da vida. uma história de vida. apesar de todos os diversos nomes “aparelho psíquico”. a imaginação. como. também. Não vemos a psicoterapia restrita à pessoa trazer para o consultório seus conteúdos e encerrá-los num cofre. Essa ideia nos foi soprada pelo psiquiatra existencialista Medard Boss. O essencial para Boss é o fato de que. é a esfera da relação. o desejo. “personalidade”. sem a qual o ser humano pode se ver vitimado por uma antropologia que o reconhece dentro de um modelo tipo caixa fechada. “pessoa”. os projetos. define-se na vida e por meio da vida. Importa-nos a consciência do fundamento relacional do ser humano. A psicoterapia deve ser um espaço de contribuição para a expressão da subjetividade não só em seu aspecto de afloramento da singularidade. do âmbito relacional. de a terapia ter como telos (meta) propiciar uma atmosfera em que a atitude dialogal seja semeada e floresça. Terapia faz sentido uma vez que a pessoa se relaciona. a trama histórica e própria de uma existência.

com lugar bem demarcado. | 189 | Ética da reciprocidade. que são projetados por uma universalização sem surpresas. Por outro lado. não altera em nada o caráter fundamental do conceito da “psique”. assim como o sujeito. p. Segundo essa inserção em cápsula. a réplica. e será alvo de subjeção. 190 Angústia.indd 189 16/3/2010 09:39:33 . na forma concreta de uma cápsula. o ser humano se vê orbitando em torno de conceitos que já definem a que se destina o seu devir. em que se interpela o orador adversário e se supõe a sua resposta. de pronto. da linguagem. quer dizer. Nesse caso. quando nos lembra a imagem do ser humano autossuficiente: a autonomia do sujeito como valor maior de vida. Nesse ponto.190 Acreditamos que seja possível levar adiante essa colocação de Boss quando a pessoa se torna basicamente um sistema previamente definido por conceitos. seja escorando-se em premissas “simbólicas”.53. e sua interpretação é encerrada dentro desses moldes. dando-se.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa adicional de um “inconsciente”. seja partindo de observações “empíricas”. no sentido de uma repartição especial da “psique”. culpa e libertação. o outro. onde importa mais a função que as próprias pessoas e as suas interações concretas. São Paulo: Duas Cidades. Qualquer argumento que aponte numa direção aberta à discussão que atinja os próprios fundamentos da noção de psique sofrerá medidas contraceptivas. Por trás da “subjetividade” se encaixa um molde de universalização e inferências lógicas. onde o pensamento só pode correr nesses trilhos. 1975. da biologia ou da cultura. não são mais que referências para algum conceito instituído que passa a nortear todas as demais compreensões do fenômeno humano. sejam eles justificados sob jurisdição da ciência. a ideia de cápsula nos devolve ao tema da atitude ego-centrada. que evitem uma nova concepção. o psiquismo corre o risco de ser reduzido a um conjunto bem urdido de leis e fórmulas normativas. até então vigente.

descambando para um desejo cada vez mais irrefletido de autossuficiência que incorre no esquecimento do outro como constituinte da subjetividade. “como aparece para mim”. Na vida do dia a dia. o outro não passa de uma identidade para o eu. ele é objetivado. já no presente. foi se degradando o sentido filosófico de autonomia. a ele retornando: “o meu ponto de vista”. Sua condição de pessoa é rarefeita pela condição de objeto. É o ponto de vista tendo como referência para as múltiplas linhas de relação o próprio “eu”. Nela. encontramos um sujeito cada vez mais perdido em seus afazeres.indd 190 16/3/2010 09:39:34 . No eixo dos valores. Seu pensamento pode ser lido como um “recado” de que não devemos renunciar o esforço para desenvolver uma consciência própria. “o meu desejo”. A alteridade se transformou em um mero apêndice da subjetividade de cada um. O futuro é uma responsabilidade que acena ao ser humano. o modelo da ação. devemos admitir que as possibilidades para desenhar um croqui do destino de cada pessoa estão em aberto.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO Kant nos ajudou a entender que não devemos permanecer o resto da vida sob a tutela de uma “autoridade”. O outro é incorporado. “a minha consciência”. assim como as cores das pinturas que traçamos e contemplamos no passado são misturadas ao presen| 190 | Ética da reciprocidade. Então. desejam-se nas pessoas os objetos de um eu perdido dentro de si mesmo. que são estimadas ou temidas como o suposto lugar do saber. de um cerco fechado em torno de si mesmo. “a minha demanda”. como “eu me sinto”. Quem nos arranca da condição de cápsula. o ser humano encapsulado tem em sua partitura a melodia do “me deixe na minha”. mas ao Isso. afagos. não mais existe desejo por pessoas. razões e carências. Pouco a pouco. passou-se a adotar uma forma privilegiada de “ponto de vista”. acatando passivamente o discurso de alguém ou as normas sociais instituídas. dele partindo. não ao nós. Finalmente. girando sobre um eixo esvaziado de um sentido ético para a vida (relativo à constituição do espaço de convivência)? Se tratamos da existência.

que enlaça. A postura que tomamos na existência confunde-se com o sentido que damos às nossas experiências em sua totalidade. uma relação do destino com a ação | 191 | Ética da reciprocidade. A psicoterapia deve ser uma modalidade de encontro que vise os encontros. a cada momento. ao menos. que vincula. ou simplesmente volitiva. entre a abertura para o outro e o fechamento para esse outro. que afetam as nossas escolhas. admitimos. Inspirados por Buber. De que possibilidade de sentido para o trato com o ser humano falamos aqui? Do encontro com o outro. uma vez que somos atravessados pelas interações que se constituíram ao longo de nossa existência. Espiamos a aurora do Tu na condição de constituição da pessoa e na experiência da comunidade. cuja intencionalidade se volte para um trabalho que resguarde a linguagem e as imagens psíquicas do sujeito a partir da abertura à descoberta de si e do outro no entrelaçamento do Tu com o Isso. Sentido em aberto. se não define inteiramente a nossa biografia. ou seja. Vamos deixar a sugestão de que está sendo decidida para cada pessoa. redefine uma parcela considerável da nossa história. que cada um vai construindo (e desconstruindo) na medida em que percorre sua malha de encontros e desencontros. Não é uma decisão basicamente “mental”. entre as infindáveis possibilidades existenciais. e a face de si perante esse outro. O sentido do Tu é o de ­ uma vivência que religa.A condição humana e o sentido ético e psicolÓgico da pessoa te.indd 191 16/3/2010 09:39:34 . Os encontros nas suas incontáveis modulações oscilam entre o Tu e o Isso. mas de sentido é a ética relacional exposta por Martin Buber. a face desse outro. Uma proposição. não de resposta. É assim que podemos rever a nossa questão em termos do deslocamento da pergunta sobre quem nos arranca da condição egocentrada para a questão de como rompemos com essa condição. e sim existencial: envolve a destinação de nosso ser para a existência. A posição que tomamos na vida.

riscos. rasgos.LUÍZ JOSÉ VERÍSSIMO mediada pela abertura ao vínculo. surgiremos diante do outro dispostos à abertura para a comunicação e para o toque. Então. Traduzindo: em meio ao processo do vir a ser humano. E poderemos perceber um sentido profundo de subjetividade. podemos eleger como um projeto adotar o horizonte Eu e Tu como um sentido de vida fundamental. poderemos conceber um sentido fecundo para a Pessoa.indd 192 16/3/2010 09:39:34 . numa só palavra. com todos os seus encargos. Abriremos mão da onipotência da posse para a relação. alteridade e relação. | 192 | Ética da reciprocidade. esperanças. surpresas. delusões.

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: (21) 2493-9175 Ética da reciprocidade..Este livro foi impresso na ???????? para a Ediitora UAPÊ – Espaço Cultural Barra Ltda. Olegário Maciel. 511 – sala 303 – Barra da Tijuca CEP 22621-200 – Rio de Janeiro – Tel.indd 200 16/3/2010 09:39:38 . em ???????? de2010 Editora UAPÊ Espaço cultural Barra Av.

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