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“ILHAS CRIOULAS”: O SIGNIFICADO PLURAL DA MESTIÇAGEM CULTURAL NA ÁFRICA ATLÂNTICA

Roquinaldo Ferreira
Departamento de História - Universidade da Virginia

Resumo
O objetivo deste artigo é analisar a interação cultural na África Atlântica, principalmente em Angola. O caso angolano é comparado com outras regiões da África, tais como a Senegâmbia, Costa do Ouro, Benin e Baía de Biafra. Tanto quanto Angola, estas regiões foram afetadas pelo tráfico de escravos, integrando de forma diferenciada as redes de comércio Atlânticas. Em Angola, a mestiçagem cultural alcançou níveis mais intensos do que no restante da África Atlântica, em virtude da maior intensidade e duração do tráfico, assim como do processo de “interiorização” de interesses luso-africanos na região do hinterland de Luanda, na primeira metade do século XIX.

Palavras-Chave
Mestiçagem Cultural • Crioulidade • Escravidão Atlântica

Abstract
This article deals with the cultural interaction between Africans and Europeans in Atlantic Africa – primarily Angola. A comparison is drawn between the cultural interaction in Angola and similar processes in Senegambia, Gold Cost and the Bights of Benin and Biafra. Likewise the Angolan case, these regions were affected by the transatlantic slave trade. In Angola, however, the cultural mixing reached levels more intense than in other regions in Atlantic Africa, due to the intensity and the duration of the slave trade, as well the encroachment of Afro-Portuguese interests in the hinterland of Luanda in the first half of the seventeenth century.

Keywords
Cultural mixing • Creolization • Atlantic Slaving

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Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º - 2006), 17-41

Introdução
Este artigo analisa a formação da cultura crioula de Angola nos séculos XVII e XVIII. O título faz referência direta ao ensaio clássico do historiador angolano Mário António de Oliveira sobre os efeitos da presença portuguesa em Angola – principalmente em Luanda e presídios interioranos. Fundada em 1576, Luanda, teria sido um centro difusor de uma cultura crioula, que mesclava elementos da cultura européia e africana. A cidade foi um “centro de irradiação da influência cultural que acabou delimitando a realidade e geografia que herdaria um nome de linhagem reinante nativa, ele próprio aportuguesado, num testemunho deste contacto: Angola, de Ngola”. Segundo Oliveira, o “amálgama bio-social que os portugueses realizaram nos trópicos” pressupunha africanos inevitavelmente adotando traços culturais europeus – uma espécie de processo civilizatórios cuja hegemonia residiria no lado português. Assim, na visão tipicamente lusotropicalista deste historiador angolano, a cultura portuguesa teria uma inerente plasticidade – já existente antes mesmo da chegada ao solo africano – que teria criado as condições para a síntese cultural e social definida como crioulidade.1 Na tentativa de demonstrar que a fluidez sóciocultural angolana talvez não tenha sido tão singular como pressuposto por Oliveira, este artigo propõe uma análise comparada de processos de interação cultural em diferentes regiões africanas. Para tanto, a primeira seção do texto faz uma “genealogia” do termo criolo/crioulidade, traçando a pluralidade de significados e problemático usos do termo na literatura. Na segunda seção, faz-se uma análise comparada de processos de crioulização na África Atlântica. Em geral, como demonstrado por Kristin Mann e Robin Law, tais processos estavam umbilicalmente relacionados com o crescimento do comércio atlântico de escravos.2 Assim, com variações que dependiam da intensidade do comércio e estratégias políticas específicas dos africanos, amálgamas culturais foram também característicos em várias regiões da África Atlântica – desde a Senegâmbia até Angola. Por

OLIVEIRA, Mário Antonio de. “Luanda: ‘Ilha’ Crioula”. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1968.
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LAW, Robin & Mann, Kristin. “West Africa in the Atlantic Community: The Case of the Slave Coast”. William and Mary Quarterly, vol. 56, no. 2, 1999.

5 De outro lado. 3 . n. apesar das nuances. Richard. “O Milagre da Crioulização: Retrospectiva”. o texto se debruça sobre as peculiaridades do caso angolano.). MORGAN. PRICE. Flávio dos Santos & CARVALHO. 5 MINTZ. The Negro Family in the United States. antropólogos como Sidney Mintz e Richard Price argumentam que o impacto do tráfico de escravos transformou em tabula rasa o legado cultural dos africanos escravizados nas Américas. 1966.4 Assim. Migration. intelectuais como John Thornton. 298. vol. 2000. ecoando os argumentos de Herskovits. (Re) Definindo Crioulidade/Crioulos A definição de crioulo/crioulidade está longe de ser consensual. n. 25. Alison. pp. Sidney & PRICE. 1997. African-American Religion: Interpretive Essays in History and Culture. Paul. Challenges and Opportunities”. Creolization in the Americas. In: KLOOSTER. Arlington: University of Texas. Neste debate. Para analisar o impacto de tal fenômeno na geopolítica das relações comerciais entre Luanda e os reinos Mbundu do interior. “The Birth of African-American Culture”. 2.2006). Salvador. 123-145. Timothy & RABOTEAU. as posições dos antropólogos Franklin Frazier e Melville Herskovits servem de diretrizes. 2006. GOMES. In: FULOP. American Destinations and New World Developments”. 26. “Trans-Atlantic Transformations: The Origins and Identity of Africans in the Americas”. o conceito é dúbio porque faz referência tanto aos filhos de europeus nascidos nas Américas quanto ao escravos aqui nascidos. The Atlantic World: Essays on Slavery.3. Alfred (eds. “África e Brasil entre Margens: Aventuras e Desventuras do Africano Rufino José Maria. Gwendolyn Hall. Richard. Wim e Padula. The Birth of African-American Culture: an Anthropological Perspective. 2003. Richard. “Atlantic History: Definitions. 1. 18. Paul Lovejoy. Assim. Philip. Estudos Afro-Asiáticos. n. João José dos. Marcus de. Boston: 1992.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . c. GAMES. 2004. New York & London: Routledge. o texto reconstrói a trajetória de um “crioulo” – o negociante Francisco Roque dos Santos. Sidney & PRICE. 741-758. The American Historical Review. 1997. p.). and Imagination. “The Cultural Implications of the Atlantic Slave Trade: African Regional Origins. Chicago. p. 4 FRAZIER. Para Alison Games e Paul Lovejoy. 142. Ver também BUISSERET. seguindo uma linha que se assemelha ao ponto de vista de Frazier. Slavery and Abolition. Edward Franklin. 383-419. MINTZ. Ver também REIS. onde a intensidade do tráfico de escravos causou uma inigualável integração com o atlântico mas a crioulidade era definida e plasmada primordialmente pela cultura africana.3 As ambigüidades afloram também da controvérsia que cerca o debate antropológico sobre crioulidade nas Américas. vol. Colin LOVEJOY. 1822-1853”. a cultura aqui construída foi eminentemente nova. New Jersey: 2005. Albert. David & Reinhardt (eds. 17-41 19 último. Estudos Afro-Asiáticos. pp. pp.

Ver LYNN. Cassandra. [era] freqüentemente designada de crioula”. and Religion in the AfricanPortuguese World. p. THORNTON. Journal of African History. sendo preciso historicizar as transformações das culturas africanas tomando a África como ponto de partida. Ibrahim Sundiata argumenta que os crioulos teriam apropriado elementos da cultura ocidental devido ao trabalho de missionários. 2006. “Commerce. New York: Ecco. o termo crioulo parece ter surgido na costa ocidental da África. HALL. PYBUS. há controvérsias. BROWN. para quem o debate (ou impasse) entre crioulização e retenção cultural africana se exauriu. Mas mesmo na África. Murder at Montpelier: Igbo Africans in Virginia. 17-41 Palmer. 6 SCHAMA. James. Chapel Hill: University of North Carolina Press. 1400-1800. 1996. pp. 1441-1770. a cultura crioula de Fernando Pó era também resultado do amálgama de traços culturais africanos. “Methodology through the Ethnic Lens: The Study of Atlantic Africa”. CHAMBERS. 2006. referia primordialmente as comunidades que surgiram no bojo do esforço inglês para banir o tráfico de escravo. West Indians in West Africa. 2003. SWEET. the slaves. Colin. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World. Recreating Africa: Culture. 2006.20 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . and the American Revolution. HOCHSCHILD. Slavery and African Ethnicities in the Americas: Restoring the Links. 2003. “esta população de negros cristão e ocidentalizados.10 PALMER. Cambridge: Cambridge University Press. Contudo. é preciso frisar. Moral Capital: Foundations of British Abolitionism. Nemata. Sources and Methods in African History: Spoken. pp. Simon. Rough Crossings: Britain.8 Segundo Blyden. Kristin. 1995. 1808-1880: the African Diaspora in Reverse. 2006. Em Fernando Pó.7 Nesta. Christopher Leslie. 1998. 2001. 89. In: Toyin Falola & JENNINGS. pp. mais especificamente em Serra Leoa. John. p. 2005. n. London: University of North Carolina Press.9 Na essência. From Slaving to Neoslavery: The Bight of Biafra and Fernando Po in the Era of Abolition.2006). 1-19. Ibrahim. Ver SUNDIATA. James Sweet e Douglas Chambers. segundo Martin Lynn. Rochester: University of Rochester Press. Martin. Epic Journeys of Freedom: Runaway Slaves of the American Revolution and their Global Quest for Liberty. 257-278. Journal of World History. 2.6 A visão aqui adotada é inspirada pela reflexão de Mann. Rochester: University of Rochester Press. Kinship. vol. Slavery and Abolition. 9 BLYDEN. Madison: University of Wisconsin Press. Bury the Chains: Prophets and Rebels in the Fight to Free an Empire’s Slaves. Douglas. 1984. 10 8 . 25. Christianity and the Origins of Creoles of Fernando Po”. NY: Beacon Press. Written. o afro-catolicismo Bakongo) cumpriram papel fundamental na sociabilidade e cultura africana nas Américas. “Shifting Paradigms in the Study of the African Diaspora and of Atlantic History and Culture”. 6. Naquele contexto. “From Africa to the Americas: Ethnicity in the Early Black Communities of the America”. Boston: Houghton Mifflin Company. a idéia de uma assimilação de valores europeus já era entendida como pressuposto fundamental na dinâmica crioula. 65. 7 MANN. a colônia criada pela Inglaterra para acolher escravos africanos retornados das colônias britânicas. argumentam que matrizes culturais africanas (no caso de Thornton. Jackson: University Press of Mississippi. Gwendolyn. Adam. Christian (eds. Unearthed. 2000. Paul. 2005. no século XIX.). 1827-1930. Williamsburg: the University of North Carolina Press. por exemplo. 223-236. LOVEJOY.

44. sendo ao mesmo tempo parte dos “três mundos que se integraram no litoral Atlântico”. “Atlantic Aporias: Africa and Gilroy’s Black Atlantic”. 13 Rompe-se. 127-137. Lorand. com o binarismo característico de Paul Gilroy. eram os agentes reais e efetivos na consecução da diáspora comercial européia na Sengâmbia”. vol. The South Atlantic Quarterly. pp. BENNETT. homens e mulheres que partilhavam a cultura Afro-européia. independente das suas raças. 1.11 Ira Berlin argumenta que “crioulos atlânticos tinham em parte ou integralmente características culturais da África. 33. 43. “o interessante desta proposta é que ela questiona o cenário assimilacionista que pressupõe que africano e crioulo são dois estágios consecutivos de um processo de mudança de geração. tendo caráter transracial e transcultural. Cambridge: Harvard University Press. Journal of African History.2006). “The English Professors of Brazil. 1993. Comparative Studies in Society and History. o trabalho de Gilroy tem como foco o Atlântico Norte e ignora a participação dos africanos na formação do Atlântico negro. p. 2. Itinerario. eram cosmopolitas no sentido pleno da palavra”. vol. 1999. fluentes com suas novas linguagens. Como sublinhado por Matory. Paul. no 1. . 12 BERLIN. LIII. mulatos e negociadores culturais africanos – eram na realidade culturalmente Afro-europeus. Ver GILROY. William and Mary Quarterly. There is a Black Atlantic”. 1999. vol. Madison: University of Wisconsin Press. Na essência. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness. p. 2000. 17-41 21 Mais recentemente. Revista Afro-Ásia. 501. 254. irreversível e unidirecional”. Economic Change in Precolonial Africa: Senegambia in the Era of the Slave Trade. Ver também Deborah Gray White. Bennett. Charles. MANNING. “’Yes. Ao analisar a interação cultural entre europeus e africanos na Senegâmbia. e íntimos com suas culturas e finanças. assim. African Studies Review. Neste caso. XXIII. “O Processo de Crioulização no Recôncavo Bahiano (1750-1800)”. A crítica ao ponto de vista de Gilroy pode ser encontrada nos seguintes trabalhos MATORY. mas não pertenciam a nenhum destes lugares. 1999. Como é afirmado por Luis Nicolau Parés. cit. vol. Herman. pp. cuja perspectiva. Ver CURTIN. On the Diasporic Roots of the Yorubá Nation”.12 “Familiarizados com o comércio atlântico. Piot e Manning. “From Creole to African: Atlantic Creoles and the Origins of African: American Society in Mainland North America”.13 Embora centra- 11 PARÉS. 2001. 100:1. embora “crioulizante”. aparentemente não dicotômica e supostamente transracial. n. é paradoxicalmente centrada exclusivamente no papel de brancos e negros no Atlântico negro – sem atinar para o papel crucial de intermediários culturais. “The Subject in the Plot: National Boundaries and the ‘History’ of the Black Atlantic”. Luis Nicolau. é preciso assinalar. 2. Curtin afirma que “todos os três grupos – residentes europeus. 1975. escravocratas ou trabalhadores do tráfico. Winter. 41. Philip. LAW & MANN. “Africa and the African Diaspora: New Directions of Study”. Patrick. Europa e Américas”. no. p. 2005. 310.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . pressupõe maleabilidade identitária e capacidade de transição entre universos culturais díspares. o conceito tem sido usado para analisar as transformações culturais e identitárias de indivíduos envolvidos com o comércio atlântico – na condição de escravos. 92. 2003. 494. op. PIOT. 95-100. pp. Ira. parte dos argumentos de Berlin já haviam sido avançados por Philip Curtin..

CHRISTOPHER. The Two Princes of Calabar: An Eighteenth Century Atlantic Odyssey. THORNTON. 1730-1807. Trade and Identity in Benguela. op. and Subversives: Blacks in Colonial Latin America. no início do século XVII. Cambridge: Cambridge University Press. 17801850”. Tese de doutorado inédita. fossem capazes de recuperar a liberdade e retornar para a terra natal depois de anos de exílio e trabalho escravo no Caribe e Estados Unidos. Emma Christopher considera os marinheiros africanos dos navios negreiros ilustração fiel dos crioulos atlânticos. p. Jane & ROBINSON. mobilização de soldados e constante migração expandiu a cultura crioula para o interior [do sul de Angola]”. em estudo sobre o tráfico de escravos britânico. Cambridge: Cambridge University Press.. 2004. seria moldada primordialmente a partir da cultura africana – não a partir da cultura européia – e teria permitido a africanos escravizados naquela região (crioulos atlânticos) mais fácil integração ao ambiente colonial nas Américas. Barry.18 No Brasil. no prelo. 43. 17-41 da na primeira geração de africanos trazidos como escravos para a América do Norte. 310. Emma. Randy. 15 16 HEYWOOD. a análise de Berlin tem inspirado ou se assemelha a conceitos empregados em estudos sobre o tráfico de escravos e outras regiões do Atlântico – África. “Central Africa in the Era of the Slave Trade”. Albuquerque: University of New Mexico Press. Slave Ships Sailors and their Captive Cargoes. 2006. 18 17 .16 No caso de Benguela.15 Em Angola. p. Slaves. Central Africans. Cambridge: Cambridge University Press. John. 14 CANDIDO. York University. SPARKS.2006). em 1734. Assim.22 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . págs. Atlantic Creoles and the Making of Anglo-Dutch Americas. cit. Mariana Candido argumenta que “o envolvimento de indivíduos com o comércio. Linda & THORNTON. Mann e Law afirmam que “o aparato conceitual desenvolvido por Berlin – uma cultura cosmopolita que ligava portos em várias partes do Atlântico – é aplicável para um período posterior [séculos XVIII e XIX]”. 57. In: LANDERS.14 Seria esta cultura. que teria permitido que dois africanos Efke (Little Ephraim Robin John e Ancona Robin Robin John) ilegalmente levados da Baía de Biafra por um navio negreiro. Brasil e Caribe. demonstrado claramente LAW & MANN. p. segundo Randy Sparks. “Enslaving Frontiers: Slavery. John. 83-111. 2006. 2006. 285. No caso da África. a análise de Alida Metcalf e Stuart Schwartz se vale de aparato conceitural semelhante. embora não diretamente inspirada pelo trabalho de Berlin. Mariana. p.17 O conceito de crioulo atlântico tem também inspirado análises do tráfico de escravos e regiões das Américas. Subjects.

e Rebecca Protten tinha nascido escrava na ilha caribenha de Antígua. Cambridge: Cambridge University Press. Como será visto mais adiante. o que distingue Angola é a escala e intensidade deste processo – muito maior do que em outras regiões africanas –. 2005. onde ganhou a liberdade e se transformou numa das líderes dos missionários moravianos. ELTIS. David. foi vendida na Ilha de São Thomas. David. p. Go-Betweens and the Colonization of Brazil: 1500-1600. David.2006). Olivier (ed. Paris: 1996. 20 Christian Protten nascera naquela região. a formação de “ilhas crioulas” foi uma característica presente em várias regiões expostas aos contatos comerciais com os europeus. 2001. “African and European Relations in the Last Century of the Transatlantic Slave Trade”. no 1. Nathan. David & RICHARDSON. William and Mary Quarterly. Austin: University of Texas. Rebecca’s Revival: Creating Black Christianity in the Atlantic World. David. Seqüestrada aos seis anos. a fluidez da dinâmica sóciocultural angolana não parece ter sido essencialmente inovadora. London and New York: Routledge. In: GRUZINSKI. vol.). Mondes Nouveau: L’experience Americaine. quase sempre ocasionava desvantagem comercial para as populações nativas. 21 ELTIS. p. Frank & SOKOLOFF. 19 . 1780s1880s. SCHWARTZ. então uma das poucas colônias dinamarquesas no Caribe. Nesta seção. Jon. ELTIS. In: PÉTRÉ-GRENOUILLEAU. “The Transatlantic Slave Trade: A Reassessment based on the Second Edition of the Transatlantic Slave Trade Dataset”. Mamelucos. p. Na verdade. na costa do Ouro. Ver SENSBACH. Texto inédito.a quem acompanharia na empreitada na Costa do Ouro. viveu por trinta anos. ELTIS. 2005. “Brazilian Ethnogenesis: Mestiços. LEWIS. and Pardos”. David.20 Crioulidades Ao contrário do que é pressuposto por Oliveira. 17-41 23 que embora a hegemonia cultural de mestiços/mamelucos (ou go-betweens/ atlantic creoles) estivesse longe de ser européia. Alida. “The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade: A Reassessment”. 2004. 20. Cambridge: Cambridge University Press. Costa do Ouro. Stuart.). faz-se uma análise de cada uma destas regiões (Senegâmbia. Golfo de Benin e Baía de Biafra). professores na escola para criaças mulatas no forte dinamarquês Christonborg. Serge & WACHTEL. Na Europa. “Prices of African Slaves newly arrived in the Americas. From Slave Trade to Empire: Europe and the Colonization of Black Africa. No contexto do tráfico. tais regiões foram origem e/ou ponto de embarque de aproximadamente cinqüenta por cento dos africanos compulsoriamente trazidos para as Américas. assim como o processo de “reafricanização” dos crioulos.21 METCALF. Jon Sensbach qualifica como crioulos atlânticos o casal de missionários moravianos Christian e Rebecca Protten. filho de mãe Akan e pai dinamarquês. Kenneth (eds. In: ELTIS. e casou com Christian Potten .19 No caso das relações entre Caribe e África. 24. 1763-1865: New Evidence on LongRun Trends and Regional Differentials”.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . Le Nouveau Monde. 187. Slavery and the Development of the Americas. 2004. LVIII. viuvou.

96. mas sim como uma diáspora coordenada cujo raio de ação se estendia de Cabo Verde até o Rio Gâmbia”. op. as relações comerciais eram marcadas pela ativa presença dos afro-europeus. 2003. 1400-1900. 25 BROOKS. Dinamarca e Suécia) construíram um número considerável de fortes para o trato de escravos. Eurafricans in Western Africa: Commerce. 3. 1993. p.26 Na costa do Ouro.23 Em análise recente. onde várias nações européias (Holanda. os afro-portugueses não mais operavam individualmente. op. n. 2. p. 26 RODNEY. 22 . eram forças dominantes no comércio atlântico. David. estes “usavam todos os meios à sua disposição para impedir que seus rivais europeus os superassem no papel de intermediários” do comércio costeiro. p. 2000. a análise de Ivana Elbl demonstra que a formação de comunidades crioulas derivou da fraqueza portuguesa no comércio com os africanos. 1993. 84. “Cross-Cultural Trade and Diplomacy: Portuguese Relations with West Africa. The Rise of African Slavery in the Americas. Ver também SEARING.. West African Slavery and Atlantic Commerce: the Senegal River Valley. “por volta de 1630. 1441-1521”. MARK. p. James. vol. um viajante francês situou em quinze mil o número de afro-europeus na Senegâmbia. New York and London: Monthly Review Press. Sixteenth-Nineteenth Centuries.. p. Portsmouth: Heinemann.24 Segundo George Brooks. 27. Walter Hawnthorne afirma que.27 Nesta região. seria apenas no final do século XVII que o tráfico de escravos se tornaria mais importante do que o comércio de ouro. Portuguese” Style and Luso-African Identity: Pre-Colonial Senegambia. Cambridge: Cambridge University Press. Athens: Ohio University Press. os lançados. a primeira região significativamente afetada pelo comércio atlântico português. Walter. 2003. 24 HAWTHORNE.24 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . cit. Bloomington: Indiana University Press. Gender. “na Senegâmbia.25 No final do século XVIII. 2002. ELBL.22 Segundo Philip Curtin. Ver também HORTA. refletida diretamente na arquitetura. numa estimativa certamente exagerada. 27 ELTIS. Ver também THORNTON. Planting Rice and Harvesting Slaves: Transformations along the Guinea-Bissau Coast. “Evidence for a Luso-African Identity in ‘Portuguese’ Accounts on “Guinea of Cape Verde’ (sixteenth-seventeenth centuries)”. 23 CURTIN. cit. XXX. elementos lingüísticos e religiosos.2006). Walter. 1700-1860. Ivana. José da Silva. Journal of World History. 59. Inglaterra. 200. 1970. George. Social Status. Cambridge: Cambridge University Press. History in Africa. and Religious Observance from the Sixteenth Century to the Eighteenth Century. Peter. 2000. que definiam sua identidade usando como marcas de distinção uma cultura altamente mesclada. 17-41 Na Senegâmbia. A History of the Upper Guinea Coast: 1545-1800.

32 Nos vários fortes europeus. In: MORGAN. The History of African Cities South of the Sahara: from the Origins to Colonization.35 Muitas vezes. p. Rebecca. o número de entrepostos subiria para mais de cem. 36 SENSBACH. Harvey. 34 DECORSE. African Archaeological Review. 173. o número de fortes chegava a 31. 222. 141. Christopher R. op. 149. 33 32 SENSBACH. In: CONNAH. Christopher. “The Danes on the Gold Coast: Culture Change and the European Presence”.2006). London: 1998. “Between the Castle and the Golden Stool: Transformations in Fante Society in the Eighteenth Century”. uma escola para euro-africanos foi criada em 1694. 164. “os mulatos eram reconhecidos como um segmento distinto da população [de Elmina] já no século XVI”. Oxford: Oxford University Press. 29 DECORSE. op. p. 1992. p. op. 31 SHUMWAY. Christopher. NORTHRUP. Philip e Hawkins. Segundo Christopher DeCorse. 2004..33 Em Elmina (sob controle holandês). existiam até escolas especialmente para afro-europeus.). Emory University.34 No forte dinamarquês. Black Experience and the Empire. 10. Sean (eds. An archaeology of Elmina: Africans and Europeans on the Gold Coast. AD 1400-1900”. por exemplo. DeCorse calcula o número de fortes europeus em sessenta. 1550-1800”. Transformations in Africa: Essays in Africa’s Later Past. “West Africans and the Atlantic. Africans and Europeans in West Africa: Elminians and Dutchmen on the Gold Coast during the Eighteenth Century. só filhos e filhas mulatas de uniões entre europeus e africanas eram aceitos.36 28 FEINBERG. p. na década de 1730. como no caso de Christian Protten. p.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . No caso do forte inglês. 35 . 1993. Sobre o forte dinamarquês. African Archaeological Review. estes fortes precederam o período do pico do tráfico de escravos e foram criados no contexto da exploração de ouro naquela região. David. Washington: Smithsonian Press. 11. 2001. cit. 50. 17-41 25 Segundo Feinberg.29 Como assinalado por Catherine Coquery-Vidrovitch. Catherine. 2004. uma das dimensões da dinâmica crioula pode ter sido a associação direta entre crioulidade e mulatos. Christopher. Tese de Doutorado Inédita. 41. cit. ver também DECORSE. Philadelphia: 1989. o número de alunos chegava a 400. p. Princeton: Markus Wiener Publishers.28 No entanto. Continuity and Change”.30 Como recentemente analisado por Rebecca Shumway. Continuity and Change on the Gold Coast. Graham. incluindo os estabelecimentos secundários. cit. 1400-1900. “The Europeans in West Africa: Culture Contact. jovens afro-europeus eram enviados para a Europa para melhor aprender (ou aperfeiçoar) línguas européias. em 1740.31 Aqui. p. 30 COQUERY-VIDROVITCH. “Culture Contact. DECORSE. 2005. p. DECORSE. numa análise que também inclui o século XIX. 159.

International Journal of African Studies. “Female Slave-Owners on the Gold Coast”. “por volta de 1750. houve também um processo de crioulização localizada. “Sou Brasileiro: História dos Tabom Afro-Brasileiros em Acra. n. the Closing of the Atlantic Slave Trade. Stephan. Alcione. onde o tráfico de escravos foi relativamente tardio. Richard. Gana”. 1984. 17. cit. 36. In: PALMIÉ. 2001. Ethnohistory. Segundo Rebecca Shumway. Ebenezer. 33. Stephan (ed. “The Gold Coast. pp. tornando-se significante apenas na primeira metade do século XVIII. GETZ. 17-41 De qualquer forma. 2005. vol. “Mechanisms of Slave Acquisition and Exchange in late eighteenth century Anomabu: Reconsidering a Cross-Section of the Atlantic Slave Trade”. Cahiers d’études Africaines. 35-67.). “um pequeno e inusitado grupo de habitantes da cidade de Elmina tinha emergido com especial proeminência nos assuntos políticos e dinâmica social da cidade”. “Creole Society and the Revival of Traditional Culture in Cape Coast during the Colonial Period”. 1. 31. p. 4. 1882-1945”. Knoxville: University of Tennessee Press. African Economic History. ver AMOS. vol.40 Mesmo na baía de Biafra. Larry. JONES. Trevor.2006). Para o retorno de ex-escravos. Revista Afro-Ásia. 1995.. Slave Cultures and the Cultures of Slavery.26 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . 39 YARAK. Alcione & AYESU. a maioria dos cargos militares e muitos intérpretes e postos comerciais [nos fortes ingleses da costa do Ouro] eram ocupados por mulatos”. p. 1989. AMOS. ver RATHBONE. In: PALMIÉ. 79. 44. ao contrário da costa do Ouro. Adam. n.39 Nesta altura. Trevor Getz constatou que “foi em virtude das ações de John Currantee e Amonu Kuma [dois afro-europeus] que os traficantes de Anomabu tiveram uma posição privilegiada no tráfico de escravos”.38 No século XIX. o número de afro-europeus foi estimado em seis mil indivíduos e a comunidade crioula assumiria caráter transracial com o ainda pouco estudado retorno de ex-escravos do Brasil e Caribe. Knoxville: University of Tennessee Press. os europeus não foram nunca SHUMWAY. Para o caso do Togo. p. 40 . Lá. The Case of the Olympio Family. Slave Cultures and the Cultures of Slavery. 51. 1995. a presença dos afro-europeus foi vital para o funcionamento das comunidades costeiras da costa do Ouro – principalmente nos fortes europeus e áreas adjacentes. 162. “West African Coastal Slavery in the Nineteenth Century: The Case of the Afro-European Slaveowners of Elmina”. and Africans of the Diaspora”. 2003. 38 37 GOCKING. que envolveu primordialmente as elites locais. op.37 Analisando as relações entre holandeses e africanos. “Afro-Brazilians in Togo. Roger.

Além do conhecido comércio do altamente apreciado tabaco brasileiro. “From Slaves to Palm Oil: Afro-European Commercial Relations in the Bight of Biafra. op. and Atlantic History: The Institutional Foundations of the Old Calabar Slave Trade”.. LINCOLN. p. ver NORTHRUP. David.41 Ao lado do controle absoluto das relações comerciais. op. David. David. op. contudo. Olivier. In: PÉTRÉ-GRENOUILLEAU. 1999.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º .. In: CARRETA. p. cit. 42 SPARKS. cit. David. freqüentemente depois de encorajados pelos negociantes europeus (. Lexington: University Press of Kentucky.42 Assim como na costa do Ouro. 1700-1891”. 43 SPARKS.) a aquisição deste conhecimento lhes dava uma confessada superioridade sobre seus compatriotas”. Rochester: Boydell Press. 51-52. no 2. tem-se o que foi talvez o único caso em que as relações entre europeus e africanos não foi de imediato caracterizada por hibridismo cultural.. From Slave Trade to Empire: Europe and the Colonization of Black Africa. op. Maritime Empires: British Imperial Maritime Trade in the Nineteenth Century. Paul. 2004. Mann e Law sugeriram que a incorporação de negros portugueses (crioulos) nas cortes dos soberanos de Allada e Whydha talvez seja evidência que a hibridez cultural estivesse em vigor já no final do século XVII. Vincent e Gould. cit. “Letters of the Old Calabar Slave Trade.44 Naquele região. Margarette & NIGEL Rigby (eds. 43. “em alguns casos os negociantes africanos enviavam seus filhos para Inglaterra para se educarem. 104. Pawnship. cit. 44 Recentemente.. 41 . Para a costa dos escravos. pp. “Trust. op. apesar da decadência da influência portuguesa e da crescente hegemonia comercial e militar de holandeses e ingleses. vol. London and New York: Routledge. “negociantes ingleses e a elite de Old Calabar se comunicava em inglês ou numa língua de comércio baseada na língua inglesa e que contava com estrutura gramatical africana”. negociantes baianos faziam valer seus interesses comerciais nas intensas relações diretas entre baía e o Benin. p.. Paul & RICHARDSON. 45. LOVEJOY & RICHARDSON. “Background to Annexation: Anglo-Africa Credit Relations in the Bight of Biafra. LOVEJOY. p. op. 1760-1789”. The American Historical Review. 1780s-1880s. 1741-1841”.. Neste caso.. David. Journal of African History. LOVEJOY E RICHARDSON. 17-41 27 capazes de instalar fortes e quase nunca saíam dos seus navios. 315. LOVEJOY. as elites locais se inspiravam em valores europeus para buscar distinção e consolidar ainda mais o poder político derivado do comércio atlântico. Paul e RICHARDSON. 2004. Ver LAW & MANN.). 45. Paul e RICHARDSON. cit. In: KILLINGRAY. cit.43 Na baía de Benim.. Genius in Bondage: Literature of the Early Black Atlantic. 342. Robin Law e Stuart Schwartz demonstram que a proeminência LOVEJOY.2006). 1690-1840”. como demonstrado pelo trabalho de Sparks. 343. Philip (eds. p. “This Horrid Hole: Royal Authority. Commerce and Credit at Bonny. LOVEJOY. RICHARDSON. 2001. 2004.).

ns. seus fortes eram localizados em Whydah. Robin. 28. In: HENIGE. In: POSTMA.2006). 3. Madison: the University of Wisconsin Press. pp. Kenneth. pp. 1991. 1990. Robin. 96120.28 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . LAW. Itinerario. Oxford: Perseus Press. 4. 2002. Califórnia: Getty Research Institute for the History of Art and the Humanities. LEIDEN: Brill. Kenneth. Pierre. SCHWARTZ. não tinham a capacidade bélica dos fortes costeiros da costa do Ouro. 51-64. pp. mesmo depois da tomada de Whydah (cidade costeira até então dominada pelo reino de Hueda). Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos dos Séculos XVII a XIX. Law. Bahia: Corrupio. n 2.47 Mesmo aqui. o quadro mudaria radicalmente com a chegada de ex-escravos que se definiam como brasileiros e de Para o uso de tabaco. Jean Dell Rae. 17-41 baiana resultava também de extenso contrabando de ouro brasileiro. Republic of Benin”. p. The Slave Coast of West Africa. Johannes & ENTHOVEN. Tobacco Growers. KELLY. 160. Ouidah: the Social History of a West Africa Slaving Port. Traders. vol. 1991. no. “’Here is no Resisting the Country’: The Realities of Power in Afro-European Relations on the West African ‘Slave Coast’”.). 1994..45 No entanto. op. LAW. 2003. “The Dutch Republic and Brazil as Commercial Partners on the West African Coast during the Eighteenth Century”. 1997. World Archaeology. KELLY. pelo reino do Dahomey (em 1727). The slave coast of West Africa. “Using Historically informed Archaeology: Seventeenth and Eighteenth Century Hueda/European Interaction on the Coast of Benin”. Riches from Atlantic Commerce: Dutch Transatlantic Trade and Shipping. Victor (eds. vol. vol. Sob vigilância direta de potentados nomeados pelo rei do Dahomey. 351-369. ver VERGER. o comércio continuou altamente concentrado nas mãos do rei. Merchants and Artisans of Salvador and the Reconcavo. University of Texas. Journal of Archaeological Method and Theory. 1997. T. Robin. and the Use of Space in Seventeenth and Eighteenth Century Hueda Kingdom. Johannes. “Bahian Society in the MidColonial Period: The Sugar Planters. 1550-1750 : The Impact of the Atlantic Slave Trade on an African Society. 1680-1725”. 149. Robin. Robert. “The Archaeology of African-European Interaction: Investigating the Social Roles Trade. In: LYONS. pág. “The Gold Trade of Whydah in the Seventeenth and Eighteenth Centuries”. 2002. The Archaeology of Colonialism. 1978. 46 45 .46 Embora os europeus tenham obtido permissão para se estabelecerem em território africano. Kenneth. Ohio: Ohio University Press. 1585-1817. p. 1550-1750: the impact of the Atlantic Slave Trade on an African Society. págs. West African Economic and Social History. pp. “Indigenous Responses to Colonial Encounters on the West African Coast: Hueda and Dahomey from the Seventeenth through Nineteenth Century”. Stuart e POSTMA. Robin. David & MCCASKIE. p. Claire & PAPADOPOULOS. HARMS. 218. Oxford: Clarendon Press. cit. Tese de doutorado inédita. John. KELLY. 47 LAW. The Diligent: A Voyage through the Worlds of the Slave Trade. Oxford: Clarendon Press. ver FLORY. XVIII. C. contudo. 105-118. 171-199. 3/4. 205. 2004. Christopher. LAW. Para o uso de ouro brasileiro. 1988. não na costa.

).49 Angola: Africanização dos Mulatos Invertendo o ponto de vista luso-tropicalista de Oliveira.). Elisée. Silke. por exemplo. Edna.. Heywood afirma que. LAW. London: 2003. . José & LOVEJOY. 94. In: CURTO. cumprindo papel fundamental na reinvenção da religiosidade afro-brasileira. 2005. and Culture in the Kingdom of Dahomey.50 Assim.. 51 HEYWOOD. “Afro-Brazilian Communities of the Bight of the Bight of Benin in the Nineteenth Century”. Toyin & Childs. pp. op. In: FALOLA. Black Atlantic Religion: Tradition. pp. Paul (eds.. David (eds. “Yoruba Liberated Slaves who returned to West Africa”. “The Evolution of the Brazilian Community in Ouidah”.. pp. 92. “por volta da metade do século XVII uma cultura crioula tinha emergido na Angola portuguesa e em Benguela (.48 No século XIX.2006).). New York: 2004..51 De fato. Robin. 23-41. Lorand. 340-365. 2005. Princeton: Princeton University Press. seria plasticidade da cultura Mbunda – não da cultura portuguesa. Lagos seria uma espécie de meca das comunidades crioulas. Ver também BAY. The Yoruba Diaspora in the Atlantic World. escravo do padre católico João Rodrigues da Rocha. Politics. Slavery and Abolition. Paul e TROTMAN. declarou que “um vizinho o tinha levado para ver um ritual no qual um bode 48 SOUMONNI. 1998. Francisco Félix de Souza: Mercador de Escravos. Alberto da Costa e. Matt (eds. por exemplo. como apregoado no argumento lusotropicalista de Mário António de Oliveira – que teria levado “ao nascimento de uma cultura afrolusitana” (onde “elementos africanos eram dominantes em muitas áreas”). “Afro-Brazilians of the Western Slave Coast in the Nineteenth Century”. 50 HEYWOOD. In: LOVEJOY. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. STRICKRODT. Trans-Atlantic Dimensions of Ethnicity in the African Diaspora. 2001. MATORY. cit. op. op. Transnationalism and Matriarchy in the Afro-Brazilian Candomble. 2004. pp. Bloomington: Indiana University Press. vários exemplos demonstram a preponderância da cultura Mbunda mesmo em áreas sob controle da administração de Luanda. 213-245. 181-193. cit. pp. pp.) e foi o resultado da africanização da cultura e colonizadores portugueses. cit.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . Enslaving Connections: Changing Cultures of Africa and Brazil during the Era of Slavery. além da superioridade demográfica africana. o que demonstra que crioulidade foi um processo que afetou não apenas as sociedades africanas”. Em 1698. Gregório Pascoal. Robin. Wives of the Leopard: Gender. várias décadas depois do tráfico de escravos. 17-41 29 negociantes brasileiros – como o Chachá. SILVA. Charlottesville and London: University of Virginia Press. LAW. 49 MATORY.

pertencia a Manoel Simões Colaço – na altura. “fez alguns cerimônias com as suas mãos e disse que ele sabia que a doença que estava afligindo a esposa de Inácio se chamava Casuto. 56 Carta do Bispo de Málaca em 1788. p. fls. livro 266. Segundo Inácio. 44-45. Quando a esposa de Inácio adoeceu. Acusada de pacto com o demônio. 39-39v. uma mulher livre que tinha nascido em Luanda.56 É esta dinâmica – na qual 52 Denúncia de Gregório Pascoal em 30 de setembro de 1698. que não funcionou. op. cx. 35-35v. 54 Denúncia de Francisco Pedro em 4 de agosto de 1698. fls. Gregório acrescentou que a cerimônia tinha sido dirigida por curandeiros Mbundus. fls. Inquisição de Lisboa. livro 266. Arquivo Nacional da Torre da Tombo (ANTT). livro 266. Ver também SWEET. Francisco Pedro. Angola.30 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . cit. o principal seria um escravo que pertencia a mais alta autoridade militar de Luanda. e os dois eram nativos de Luanda”. livro 266. um dos mais ricos e politicamente proeminente negociantes de Luanda em fins do século XVII.52 Catarina Borges. Inquisição de Lisboa. Inácio consultou um curandeiro Mbundu. Reconhecendo ter participado da cerimônia ao saborear a carne do bode. Inquisição de Lisboa. ANTT.2006). XX.54 Mesmo escravos que pertenciam aos jesuítas de Luanda seguiam tradições religiosas africanas. ANTT. o escravo que recomendou o tratamento. Este. . 53 Denúncia de Catarina Borges em 5 de agosto de 1698. consultou um adivinho – escravo de um padre de Benguela – depois que alguns de seus pertences desapareceram da sua casa. por sua vez. foi denunciada a inquisição após se banhar em água quente e ervas para evitar que o espírito de uma neta recém-falecida a atormentasse e a fizesse cair doente. doc. Borges alegou que apenas repetia o que “tinha visto seus ancestrais fazerem”. para o que ele recomendou um tratamento”. que também pertencia aos jesuítas. Inquisição de Lisboa. por outro lado.. um escravos vivendo em Luanda. Seus pais tinham também sido escravos dos jesuítas. 55 Denúncia de João Inácio em 30 de agosto de 1698. Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Destes. 17-41 tinha sido morto em honra de uma pessoa que tinha morrido”. a prevalência da cultura africana se refletia tanto na população mulata quanto branca: “os muitos mulatos e os poucos brancos que há são já nos costumes tão negros como os mesmos negros”. Inácio era “casado com Izabel Inácio.55 Na verdade.53 Também em 1698. como demonstrado pelo caso do escravo barbeiro José Inácio. 28. em 1698. 73. ANTT. 48-49. fls.

O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. 17-41 31 a cultura africana francamente sobrepujava as parcas tentativas portuguesas de criar uma hegemonia cultural – que levou Luiz Felipe de Alencastro a afirmar que Angola teria sido um exato contraponto em relação ao Brasil.2006). p.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º .). Women in Iberian Expansion Overseas. NY: University of Toronto Press.. cit. pp. cit. o número de homens casados com africanas (95) foi muito maior do que o número de homens europeus casados com mulheres européias (13). op. ver SCHWARTZ. Como conseqüência. em Luanda. 2006. Pretos e Pardos between the Cross and the Sword. 60 HEYWOOD. op. Londres: 1975. “Men without Wives: Sexual Arrangements in the Early Portuguese Expansion in West Africa”. Charles. a população mestiça/mulata angolana resultou do desequilíbrio demográfico da imigração majoritariamente masculina de portugueses nos séculos XVII e XVIII. MATTOS. entre os casais batizando crianças entre 1722 e 1736. 351-352.58 Visão diferente é esposada por Heywood. os mulatos teriam falhado na assimilação de traços culturais europeus e não teriam se tornado significativos enquanto grupo social. Para a questão da imigração portuguesa para a África. Desire and Discipline: Sex and Sexuality in the Postmodern West. 94. pelo menos 10% das 800 crianças batizadas ALENCASTRO. 59 58 57 . Lá.57 Tese semelhante é esposada por James Sweet ao refutar o argumento de John Thornton sobre a difusão do catolicismo centro-africano para as Américas.os africanos seguiam preceitos culturais e religiosos africanos. Luiz Felipe de. ver ELBL. que argumenta que “apesar do pequeno tamanho da população nascida em Portugal e Brasil e sua descendência fosse bem menor que no Brasil e em Cabo Verde. Segundo Sweet. Baseada principalmente na análise de ALENCASTRO. Jacqueline e EISENBICHLER.. European Review of Latin American and Caribbean Studies. cit. p. 43-55. pp. In: MURRAY. os homens europeus mantinham relações maritais formais ou informais com mulheres africanas – um padrão claramente refletido nos registros de batismo da paróquia dos Remédios. Ver também BOXER. 1415-1815: Some Facts. 80:80.60 Na falta de mulheres européias. Hebe. “Mary and Misoginy. Fancies and Personalities”. HEYWOOD.59 Do ponto de vista estatístico. 95. op. Por exemplo. não haveria porque argumentar por um processo de crioulização na África. [em Angola] a mistura cultural e biológica foi significativa”.. Para o caso brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras. Racial Categories in Seventeenth Century Brazil. p. se mesmo em Luanda – sede do poder português em Angola . cit. 2000. 10. Konrad (eds. SWEET. 1996. Ivana. op. Mattos chega a conclusões semelhantes.

Ver LARA. doc. Como afirmado por Jill Dias. que.64 Mas havia uma diferença fundamental. 1984. no Brasil. como evidenciado por Pedro Ferreira. eram vistos com desconfiança e o termo carregava sentido pejorativo. que foi de tangas e dizem que cativo”. mais ou menos adaptados à cultura européia”. “Fragmentos Setecentistas: Escravidão. tinham significativa proeminência nas atividades Livro de Batismo da Paróquia dos Remédios.. Arquivo do Bispado de Luanda (ABL). 71. pp. hierarquia religiosa e aparato militar e judicial. cx. op. 36. SCHWARTZ. Silvia. 64 CANDIDO. cit. Angola. nascidos localmente. 66 Vários capitães mores eram mulatos. 22. cx. Tese de Livre Docência. 1720-1736.). contudo. dos trinta e um oficiais das tropas regulares de Luanda. o percentual populacional de mulatos em Salvador e Rio de Janeiro girava entre 10 e 30. cit. s/d. Ver Relação dos Oficiais do Regimento de Infantaria de Luanda em 22 de 62 61 . p.. p. 2004: 65 SCHWARTZ. Jill. “Uma Questão de Identidade: Respostas Intelectuais às Transformações Económicas no Seio da Elite Crioula da Angola Portuguesa entre 1870 e 1930”. 2006: 285. portanto.2006). em fins do século XVIII.32 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . Angola. Hal. Sua influência se fazia sentir em vários níveis da administração local. mas que havia sido nomeado capitão mor das terras do dembo Kitexi. AHU. 13. Angola. nº1. sendo vários provavelmente mulatos. Em 1781. contudo. (tanto brancos como mestiços) aos africanos destribalizados. Segundo Schwartz. tais números eram ainda maiores. p. 104. Ver Schwartz. mulatos eram fundamentais para os parcos níveis de influência exercidos pela “metrópole”. In: RESTALL. Albuquerque: University of New Mexico Press. Revista Internacional de Estudos Africanos. que giraria em torno de trinta por cento da população total do nordeste brasileiros nos século XV e XVI. o início da colonização portuguesa levou a um quase imediato aumento da população mestiça. “Tapanhuns. op. cit. LARA. op. doc. a estigmatização social de indivíduos de origem mestiça (mamelucos e mulatos) teve relação direta com o aumento da população branca. que a mestiçagem cultural não era corolário da mestiçagem demográfica. mas uma comparação com o Brasil – o “paraíso dos mulatos” – revela percentuais não muito discrepantes. Ver Relação das fazendas e banzos distribuídos pelos capitães mores de Angola pelos governador. Unicamp. doc.65 Em Angola. pp. 17-41 naqueles anos eram mestiças. 1. No Brasil.61 Não surpreende. No final do século XVIII.. Estes número podem parecer insignificantes. Ofício do Governador de Angola em março de 1773. História de Angola. Em Luanda. 2005. variando entre 18 e 26%. and Curibocas: Common Cause and Confrontation between Blacks and Natives in Colonial Brazil”. 34. 2004. Beyond Black and Red: African-Native Relations in Colonial Latin America. “mulato. dezesseis tinham nascido na cidade.66 Da mesma forma. desde os descendentes de europeus. 18-19. p. Negros da Terra. cit. Cultura e Poder na América Portuguesa”. mulato era “uma categoria sóciocultural que engloba. 61-94. op. 35. AHU. 57. 16. vol. Stuart & LANGFUR. Ver também CORRÊA. uma vasta gama de elementos heterogéneos..63 Assim como no Brasil. onde os níveis de imigração portuguesa eram baixos. AHU. Matthew (ed.62 É evidente. o percentual de mulatos na população de Benguela girasse em torno de 12%. convenientemente. 63 DIAS.

fl. 1. Oficio do Governador de Benguela em 2 de janeiro 1799. doc. doc. 442. Angola. “Portuguese vs kimbundu: Language Use in the Colony of Angola (1575-c. 71. quarenta porcento foram listados como mulatos num censo oficial de fins do século XVIII. 88v. por exemplo. os bandos emitidos pela administração local tinham que ser divulgados na língua africana.-14. Assim. 2. 13v. demonstrando a continuidade do domínio do Kimbundo. a dinâmica não era muito diferente. Ver Ofício do Gvernador de Benguela em 12 de agosto de 1796. Trinta por cento dos soldados eram mulatos. Apesar de várias tentativas para reforçar o ensino e uso do português. entre trinta e cinco e quarenta e cinco porcento das tropas eram formadas por mulatos em 1797. IHGB. e sabe-la mulatos e pretos. pp. que lhe transmitem o seu idioma. Carlos.. Angola. Angola. 64. AHU. Ofício do Governador de Angola em março de 1773. AHNA. Ver também CORRÊA. a força motriz era claramente africana. cód. 68 Bando em 9 de janeiro de 1765. sem prendas. Em Benguela. 441.co de 1784. o ouvidor geral de Angola declarou que “entre as coisas que me parecem abuso nesta cidade e conquista é o idioma geral da língua ambunda. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). op. 65-66. 36. 15-15v. 22. 267-281. devendo ser a portuguesa. 4. 69 Ofício do Desembargador Ouvidor Geral de Angola em 20 de mar. Ver também VANSINA. Jan. costume e sentimentos. AHNA. só necessária no sertão”.. p. lata 29. Mesmo em regiões interioranas como Mpundo Ndongo. mulatos ocupavam uma posição de liderança nas forças armadas “coloniais”. fls. doc. 17-41 33 econômicas e controlavam boa parte do comércio com o interior. AHNA. Ver Notícias do Presídio de Pungo Andongo em 1797. doc. pasta 2. fls. 46. Em 1765. que de ordinário nem a entendem [. Ver AHU. doc. 34.o governador de Angola declarou que era “muito indecente que as famílias nobres e brancas conservem nas suas casas e na criação dos seus filhos uma total ignorância da referida língua [portuguesa]. Dos moradores mais ricos de Benguela. doc. fls. Angola. 1972. cód.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . 47. Os Capitães Mores em Angola no Século XVIII.. Lá. pasta. cx.1845). IHGB. AHU. AHU. Mededelingen der Zittingen.] As mulheres são educadas pelas negras. fls.69 maio de 1781. para haverem substituída com a lingua ambunda.67 Do ponto de vista da cultura.68 Duas décadas mais tarde.-69. pasta 14. Ver Notícias de Benguela em 1797. Bulletin des Seances. cx. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola. lata 32. nem religião. AHU. AHU. onde três dos sete oficiais escolhidos para promoção eram mulatos em 1796. 49. cx.2006). e assim ficam muitas sem falarem nem entenderem o português”. 1799 e 1801. Arquivo Histórico Nacional de Angola (AHNA). 67 Notícias de Benguela e seus distritos em 1797. 88. . cx. para contragosto português. cód. privandoos na sua educação do aproveitamento que podião conduzir-lhes a lição dos bons livros. 171v.-172. Ver também COUTO. por exemplo. 89. 57. 68. 68v. cx. 442. 2001. vol. doc. a maior parte da administração – e com efeito a maior parte da população – adotava a língua Kimbundo no cotidiano. lata 32. Angola. cit. 442. pp.

AHU. 26. cód. Nireu. se a existência de uma comunidade crioula não é o que fazia de Angola um caso específico. 159-167. 71 70 Oficio do Governador de Angola em 3 de fevereiro de 1773. História da Companhia na Assistência de Portugal.34 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . 75 HEYWOOD. alunas tinham que se contentar com duas mestras que lhes ensinavam a ler e prendas domésticas. 92-93. Rio de Janeiro: 2004. a aula de geometria seria restabelecida. contudo. doc. Angola. mas sua expulsão das colônias portuguesas desarticulou o ensino oficial. que são os de menos número”. no contexto das reformas “modernizadoras” do governador Inocêncio de Souza Coutinho. as regiões que mais tarde formariam a Angola dos dias atuais tinha sido exposta a cultura que emanava de Luanda e Benguela”. fls. The Making of an Enterprise: the Society of Jesus in Portugal. cx. negros e alguns brancos. Para a primeira escola jesuítica em Luanda. O Rio de Janeiro Setecentista: A Vida e a Construção da Cidade da Invasão até chegada da Corte. cód.71 Somente em 1766. cód. cx. “por volta de 1820.. 48. p. no início do século XVII. ver Registro de Provisão Régia em 1 de abril de 1784.73 Refletindo a demografia da cidade. op. a pergunta então é se existe algo singular em relação a dinâmica sócio-cultural angolana. its Empire. ver CAVALCANTI. 73 Biblioteca Municipal de Luanda (BML). AHU. que a administração luandense estabeleceria duas escolas “para todos os meninos pobres e ricos irem aprender”. sendo também evidente em regiões africanas subordinadas aos portugueses e algumas regiões africanas vizinhas e independentes”. as aulas particulares de inglês e francês eram freqüentadas por apenas três alunos – todos com “pouco progresso”. Além do já destacado peso da cultura africana na dinâmica crioula. cx. 50. pp. andarão até cem rapazes. 24. nas palavras do governador de Angola – e as aulas de geometria tinham apenas sete alunos. AHU. Angola. doc. os negros e mulatos eram a maioria nas duas escolas: “em cada uma das escolas. 13-13v. 28-vol. Angola. 72 Ofício do Governador de Angola em 20 de julho de 1764. Ver também HEYWOOD & THORNTON.74 Assim. F. ver RODRIGUES. cit. A resposta é sim. BML. 567-568. 26. doc. fls. I. and beyond 1540-1750. fls. Para nomeação do professor de latim. cit. fuscos. 11. “a interpenetração de elementos culturais africanos e europeus não estava limitada as áreas principais como Luanda e Benguela. Segundo Heywood. Impedidas de freqüentar as duas escolas. 105.72 Seria apenas em 1770. 57. op. Para o caso brasileiro. Porto: 1937.2006).75 Ofício de Inocêncio de Souza Coutinho em 16 de abril de 1766. 74 . BML. págs. 17-41 Na contramão do domínio da cultura africana. Ver também ALDEN. 44v-45.70 Os jesuítas cumpriam papel fundamental no ensino dos jovens em Luanda. Dauril. Ver Registro de Bando em 29 de janeiro de 1785. o hibridismo cultural angolano não estava restrito apenas a costa. 64. Stanford: 1996. Assim. a maior parte deles mulatos.

Ana Paula & SANTOS. 1980. Paris. Jan. tomo XVIII. Joseph. 549-574. Lisboa: IICT.). 111-131. número 6. 1980. Journal of African History. 76 Num caso particularmente revelador. Revista Portuguesa de História. cód. 16. pp. juillet-août 2005. vol. Annales.78 Seja em Luanda ou em regiões interioranas. THORNTON. em 1672. 201-216. 2002. Revista de História Económica e Social. Catarina Madeira (eds. 13. 322. 78 TAVARES. pp. “Nzinga of Matamba in a New Perspectiva”. Journal of African History. Ver também MILLER. ver HEINTZE. vol. pp. o arranjo político e institucional que emergiu na região esteve longe de ser inteiramente controlado pelo governo de Luanda – onde supostamente estava concentrada a administração encarregada de representar os interesses portugueses na região. Histoire Sciences Sociales. “Ngonga a Mwiza: um Sobado Angolano sob domínio Português no século XVII”. a viabilidade de Luanda enquanto enclave europeu dependia de complexas relações diplomáticas. ver SANTOS. Assim. Journal of African History. “Legitimacy and Political Power: Queen Njinga.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . How Societies are Born: Governance in West Central Africa before 1600. 164v. o aparato jurídico dependia do chamado juízo VANSINA. No cerne. “Entre deux droits.2006). Africae Monumenta: a Apropriação da Escrita pelos Africanos. 77 Para o século XVII. Joseph. MILLER.1800)”. John. 1972. fls.79 Ademais. muitos soberanos africanos reconheciam a importância da língua portuguesa. HEINTZE. les Lumières en Angola (1750-v. 57-78. 2004. 221-233. vol. “LusoAfrican Feudalism in Angola? The Vassal Treaties of the 16th to the 18th Century”. Revista Internacional de Estudos Africanos. incluindo a língua portuguesa. 17-41 35 Na verdade. 32. pp. 8-9. em lugar de um rígido controle “colonial”. elementos centrais do aparato jurídico “colonial” derivaram de instituições africanas.77 Neste contexto. no 4. no 2. “The Imbangala and the Chronology of Early Central African History”. pp. a dinâmica social.76 Mesmo depois da vitória portuguesa sobre o reino do Ndongo. os africanos se apropriaram de vários elementos da cultura européia. política e cultural era caracterizado por extrema fluidez. 1988. a capacidade de ler e escrever em português foi aparentemente fator determinante na acolhida que um súdito africano ofereceu a um escravo fugido de Luanda. “The Angolan Vassal Tributes of the 17th Century”. no 1. 79 . Para a segunda metade do século XVIII. Catarina Madeira dos. 4:817-848. quando não por direta subjugação portuguesa perante os africanos. Ver Carta do Governador de Angola em 28 de outubro de 1805. 1624-1663”. Beatrix. HEINTZE. Beatrix. militares e comerciais com reinos Mbundu do hinterland de Luanda. 25-40. enviando seus súditos para Luanda para serem educados na língua e contratando escribas que os ajudavam na freqüente correspondência com a administração colonial em Luanda e nos presídios. usada em grande escala na correspondência entre autoridades africanas e portuguesas. Charlottesville: University of Virginia Press. desde fins do século XVI. AHNA. Beatrix. pp.

doc. I-12. com o estabelecimentos de instâncias que tinham como objetivo identificar casos de escravização ilegal. o mecanismo foi inteiramente reformado. provavelmente nascido no Brasil – tentaria mudar os contornos do comércio interno entre Luanda e os reinos Mbundu do hinterland da cidade. Na missiva. Como juízes principais. e com efeito chegou a cidade de Luanda no principio do mês No final do século XVII. tal poder cabia aos governadores de Angola. branco. o mecanismo foi modificado e os capitães mores temporariamente impedidos de julgar causas que envolviam liberdade ou escravidão. geralmente após consultas com capitães mores e outras partes envolvidas.80 Em última instância. 80 . cx. tanto capitães mores como governadores (que muitas vezes manipulavam as decisões judiciais em proveito próprio) se valiam de leis locais e portuguesas. Numa carta enviada a Lisboa em 1752. cód. 545. os casos assumiam proporções épicas. AHU. e que o persuadisse a que quisesse ser vassalo de vossa majestade”. 31. 105v. que era entre as terras do rei Ginga e o estado do soba Cassanje. AHU. os capitães mores tinham autoridade para julgar litígios comerciais e de natureza variada envolvendo africanos que viviam nos limites territoriais sob controle nominal português. Dizia que uma missão lhe fora delegada pelo governador de Angola Rodrigo Cesar de Menezes: “fazer descobrimento das terras onde residia o potentado Holo. em virtude do crescente número de ações. Provisão Régia em 10 de julho de 1752.-106v. Santos narrou episódios que tinham acontecido treze anos antes. suas ações são glorificadas.36 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . fls. doc. 81 Carta do Governador de Angola em 12 de fevereiro de 1738. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ). muitos dos africanos escravizados no interior se valiam do juízo de mucanos para questionar a condição de cativos. 75. Ver Carta Régia em 15 de março de 1698. afirmando ter levado “muitos escravos seus a custa de sua fazenda. 17-41 de Mukano.81 Francisco Roque Santos Seria neste ambiente de extrema fluidez que Francisco Roque Santos – um ex-mestre de navios negreiros. Em meados do século XVIII. Neste mecanismo. Por exemplo.2006). 30. em primeira instância. Angola. e foi onde habitava o Holo. já que para muitas pessoas era a última chance de se livrar do embarque como escravo para o Brasil. onde as apelações eram julgadas pelos governadores. 3. Em Luanda.

-207. a Massangano”. pois vêm a particulares. AHU.82 A narrativa de Santos merece vários reparos. Contudo. e ainda moradores. as ações do negociante – propondo o comércio direto entre o Holo e Luanda – contribuíram diretamente para um ataque de forças do reino da Matamba contra o presídio de Mbaka. vendo a falta de cabeças(escravos) que há por esta causa. cx. Santos foi nomeado comandante do “troço de quatro companhias de infantaria e mais guerra preta na expedição que se fez contra a rainha Ginga”. fls.546. Angola. se resolvem a ir com as fazendas. AHU. 83 82 . Angola.2006). 70. Segundo o ouvidor geral de Angola. Este não fez segredo da sua opinião. A regra parece ter sido cumprida por algum tempo. que vinham por embaixadores ao governador daquele reino. No auge da crise. Ver Carta Régia para o Governador Geral de Angola em 20 de fevereiro de 1732. AHU. Isto porque o negociante era branco e a ida de de brancos aos sertões tinha repetidamente sido proibida desde meados do século XVII. Regimento do Governador de Angola em 1666. Mais tarde.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . AHU. além de elevar o preço de escravos em trinta porcento em Massangano. suas tentativas de contactar o Holo teriam desde o início provocado forte desagrado tanto no jaga de Kasanje quanto no soberano da Matamba. cód. 55. 68-68v. fls. 544. 66. os oficiais da câmara de Luanda diziam que. no século XVIII. cód. 84 Petição de Francisco Roque Souto em 1748. cód. 9-9v. Primeiro. Atento as linhas sinuosas que separavam brancos e mulatos. AHU. AHU. o número de homens de mar era tão grande que se “poderia com eles formar-se uma dilatada e populosa cidade”. com três filhos do dito potentado [Holo]. cód. Ver Carta Régia em 10 de julho de 1738. 25. mas caiu em desuso porque a concorrência entre os negociantes de Luanda os fazia enviar escravos aos sertões angolanos para atravessar remessas de escravos para Luanda. Ver Carta dos Oficiais do Senado da Câmara de Luanda em 7 de maio de 1732. fls. 206v. cx. doc. “os homens de mar em fora. 36. 546. que as repartem.84 No interior. trazendo outro negro que os acompanhavam para renderem vassalagem”. as autoridades também baniram a ida dos últimos aos sertões. até mesmo negociantes brancos de “mar-em-fora” (em geral vindos do Brasil) se aventuravam pelo interior. 17-41 37 de agosto de 1739. é verdade que o negociante fora recebido com ansiedade ao chegar em Luanda com vários embaixadores do reino do Holo. 26. 25. que foi comunicada por escrito Consulta do Conselho Ultramarino em 22 de julho de 1751. Angola.83 Pior. doc. ao invocar o nome do governador de Angola. Num ato altamente simbólico. cx. Luanda organizou uma expedição militar punitiva de larga escala – a maior operação de guerra capitaneada no hinterland de Luanda. Na reação. AHU. Ver Carta do Ouvidor Geral de Angola Manoel Gomes de Avelar em 20 de fevereiro de 1731. doc. tentava dar caráter oficial a uma empreitada que parecia não ter amparo na regras que regiam o comércio entre Luanda e o interior.

sinalizando o distanciamento entre os portugueses e Kasanje. Ao contrário do reino do Holo.38 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . Kasanje se firmaria com um contraponto – às vezes ameaçador – ao poder do governo de Luanda. “Central Africa in the Era of the Slave Trade”.88 No final daquele século. 33. 2004. que não sabia se ia por embaixador ou por fugir de algum delito que tinha cometido”. John.87 Nas palavras dos embaixadores. 13. Journal of African History. 31.86 Nos vinte dias em Luanda. Clarendon Press: 1976. cx. o qual tinham posto em cerco nos marcos das terras do dito rei de Casanje. AHU. fora “refundado” no contexto 86 Carta do Capitão Mor de Ambaca em 5 de julho de 1739. estes dois reinos haviam há muito se firmado na geopolítica da África Central. contudo. por exemplo. por outro lado.2006). Ver Consulta do Conselho Ultramarino em 4 de setembro de 1742.89. vol. 87 85 Santos os sustentaria com seus próprios recursos por vinte dias. Cópia da resposta ao Capitão Mor de Ambaca em 25 de agosto de 1739. o estabelecimento de laços diplomáticos permitiria “irem os brancos comerciar nas suas terras”. mandara os seus macotas atrás dele. cód. Charlottesville: University of Virginia Press. 88 MILLER. 549-574. Nas palavras do capitão mor. 1972. Jan. além de determinar que o rei da Matamba fosse informado “não ser ordem minha ir atravessar terras alheias”. 89 Em 1704. THORNTON. o governador de Angola determinou a prisão de Santos. pp. 50. Kings and Kinsmen: Early Mbundu States in Angola. “escreveu-me o dito rei que tendo noticias em como Francisco Roque ia caminhando para as terras do dito Holo. . feira que existia nos limites daquele reino. Jane & ROBINSON. Joseph. How Societies are Born: Governance in West Central Africa before 1600. no. doc. 2006. era uma jogada de mestre. VANSINA. 4. 31. doc. Subjects. “The Imbangala and the Chronology of Early Central African History”. 27. Joseph.85 Em Luanda. and Subversives: Blacks in Colonial Latin America. quebraria o monopólio que reinos de Kasanje e Matamba exerciam no comércio de escravos nos sertões. Barry. University of New Mexico. MILLER. AHU. AHU. Oxford. Na geopolítica daquela região da África central. Angola. Angola. sua fundação fora fruto da aliança entre portugueses e seus aliados Imbangalas – uma criação que estabeleceria as condições militares e institucionais para a sobrevivência da “colônia” de Angola no século XVII. In: LANDERS. os enviados do Holo acenaram com uma proposta que parecia tentadora para os negociantes da cidade. 27. 545. Se bem sucedida. cx. Lisboa determinou o retorno para Luanda dos funcionários “coloniais” que cumpriam funções oficiais na importante feira de Kasanje. AHU. Ver Carta Régia em 22 de agosto de 1704. Albuquerque. tentando se distanciar da iniciativa do negociante. Slaves.O reino da Matamba. Angola. doc. cx. lhe fizeram suspender a viagem. No caso de Kasanje. 17-41 ao capitão mor de Mbaka.

doc. cx. cx. 53. 1650-1800”. que por sua vez levariam a abertura do tráfico de escravos em Benguela. os dois reinos cumpriam papel fundamental no comércio interno de escravos. doc. FERREIRA. Angola. 31. Matamba causava direto prejuízo a Luanda ao também suprir cativos para o norte de Angola. Segundo os enviados do reino do Holo. Carta do Governador de Angola João Jacques Magalhães em 24 de setembro de 1739. 31. Angola. Todas as tentativas – uma delas trazendo sessenta escravos como oferenda para o governo de Luanda – foram abortadas por Matamba. O monopólio que os dois reinos exerciam no comércio com Luanda trazia prejuízo direto ao poder emergente do reino do Holo.90 Antes mesmo dos contatos intermediados por Santos. o que levou a um quadro de guerra endêmica com Matamba e Kasanje. a proposta dos enviados do Holo foi recebida com cautela.92 Em Lisboa.91 Em Luanda. AHU. a notícia foi vista com cautela ainda maior. 92 91 90 . Warfare and Territorial Control in Angola. sendo não só igual. Carta do Governador de Angola João Jacques Magalhães em 16 de agosto de 1739. 44. 17-41 39 das guerras entre rainha Njinga e o governo de Luanda. Enquanto Kasanje negociava primordialmente com Luanda. O reino aglutinava elementos cruciais da cultura Mbunda – mais até do que Kasanje. Boas relações com Kasanje e Matamba eram vitais para os interesses geopolíticos de Luanda. além do que a utilidade do comércio com dito Holo é em comprarem cabeças [escravos] por preços mais moderados. 2003.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . com prejuízo dos negócios de resgate [de escravos]. Roquinaldo. dando-lhe por seus escravos uma limitada parte do que os brancos por eles lhes pagavam”. Tese de Doutorado Inédita. com o procurador da coroa ponderando que “para abrirmos comércio com o soba Holo poderá produzir não só uma guerra sem civilidade mas também a desobediência do Ginga e Cassanje. o que será no princípio e depois as venderão pelo mesmo [preço] que se compra nas terras dos outros sobas. UCLA. “Transforming Atlantic Slaving: Trade. AHU. Como intermediários. já por três vezes o Holo tinha tentado estabelecer contato direto com o governo de Luanda. Destas dependiam não só boa parte dos suprimentos de escravos embarcados por Luanda mas também o quadro de relativa paz que permitia que o governo de Luanda se engajasse em operações militares no sul de Angola. “por quererem estes (reinos de Matamba e Kasanje) só contratar com ele (Holo).2006).

93 Mas quem seria Francisco Roque Santos? Primeiro. fl.96 Terminaria preso em Luanda. no posto de Capitão de Mar e Guerra ad honorem. 53. Depois. Luanda conseguiria estabelecer contatos comerciais e diplomáticos diretos com o Holo. prêmio precioso porque aquela região cumpria papel central no fornecimento de cativos para Benguela – então se afirmando como segundo porto mais importante do tráfico angolano. Teria fincado raízes em Luanda na década de 1720. 122v-123. seria nomeado capitão mor do presídio interiano de Kakonda. Dizia que tinha sido “provido pelo Conde de Sabugoza. 117.95 Quanto ao aventureiro. doc. cód. 187-188.97 94 Consulta do Conselho Ultramarino em 10 de dezembro de 1740. do que arriscá-lo pela contingência de maior conveniência”. AHU. oficialmente culpado de fazer negócio (escravizar africanos) durante a guerra contra Matamba. foi descrito como mestre de navios que faziam a rota do tráfico com Angola. Passou a fazer negócios na Kissama. apesar da custosa guerra com o reino da Matamba. cód. cx. Angola. 554. cx. AHU. AHU. Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado em 27 de abril de 1767. 151. a iniciativa de Santos redundou em fracasso. Já instalado na cidade.2006). doc. que exercitou doze anos”. 546. fl. viu-se compelido a seguir para o interior para fugir do quase monopólio que os grandes negociantes exerciam sobre as redes de comércio de escravos no hinterland de Luanda. Angola. Vice-Rei da . fls. AHU.40 Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . cód. vítima da animosidade dos negociantes de Luanda. 36. Carta do Governador de Angola João Jacques Magalhães em 24 de setembro de 1739. A razão seria a importância estratégica da cidade no vertiginoso aumento da demanda brasileira por mão de obra escrava. cód. contudo. com a anuência do soberano da Matamba.94 No final. que o culpavam pelo desastre comercial causado pela guerra contra a Matamba. Carta do Ouvidor Geral de Angola em 15 de outubro de 1749. Somente em 1765. mas. Provisão em 30 de outubro de1765. AHU. região “inexplorada” ao sul de Luanda e fora da órbita de influência do governo de Luanda. 17-41 mas antes maior utilidade em se conservar o que temos. teria iniciado sua carreira no Brasil. AHNA. 93 95 96 97 . na verdade. fls. Carta Régia em 19 de setembro de 1746. que causou crescimento no envio de escravos para o Brasil – a maior parte deles embarcados através de Luanda. 408. 288. onde “esteve concubinado tempos com uma mocamba do dito quissama”. 31. Santos permaneceria pelo menos três anos em Kakonda. 42.

o Kimbundu era a língua hegemônica.Roquinaldo Ferreira / Revista de História 155 (2º . soldados e negociantes que operavam em Angola tinham a base como origem. Na seqüência das guerras angolanas. . 17-41 41 Conclusão No caso angolano. também englobando o hinterland daquela cidade. Muitas vezes. a mestiçagem cultural tinha características ímpares. se interiorizaria para além de Luanda. Mesmo em Luanda. ao contrário das outras regiões africanas. em 1672 – tinham a fluidez como característica principal. Apesar do uso do português como uma das línguas francas do comércio e correspondência diplomática. Para tanto. tinham como objetivo abrir rotas de comércio alternativas e fora do controle direto dos tradicionais negociantes de Luanda. as relações comerciais de Angola eram mais intensas com o Brasil do que com Portugal. levou a consolidação da “colônia” de Angola como fornecedora preferencial de mão de obra cativa para o Brasil. era a cultura africana que dava o tom. na primeira metade do século XVII. Muitos dos administradores. as relações sociais e culturais nas regiões entre Luanda e Mpungo Ndongo – o presídio fundado na capital do reino do Ndongo. este processo de interiorização esteve intimamente relacionado com o ciclo de operações militares que. Na origem. como o caso de Francisco Roque dos Santos demonstra. Devido o tráfico de escravos. ocupação de cargos na administração colonial e alianças políticas com soberanos africanos.2006). Independia da cor da pele e. a despeito dos protestos oficiais. se valiam de estratégias como casamento.