Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose (A rosa de ninguém), de Paul Celan

Juliana P. Perez
“[... ] não conheço quase nenhum outro poeta russo da sua geração que, como ele, estivesse no tempo, pensasse com o tempo e a partir dele, pensasse-o até o fim, em cada um de seus momentos, em seus objetos e acontecimentos, nas palavras que se dirigiam ao objeto e ao acontecimento e que os deveriam substituir, de forma aberta e hermética a um só tempo.”1

As palavras de Paul Celan (1920-1970) sobre Ossip Mandelstam2 podem descrever sua própria obra: afinal, quem representaria melhor as tensões da literatura de língua alemã do século XX e a tentativa de pensar seu tempo “até o fim” mediante a poesia? O seu tempo: cerca de 50 mil pessoas de sua cidade natal, Czernowitz, são deportadas pelo regime nazista; seus pais morrem em um campo de concentração; Celan sobrevive a dois anos de trabalhos forçados em Tabaresti (1942-1944). Emigra para Bucareste; dali, vai a pé a Viena, onde lança A areia das urnas (1948); trabalha como tradutor, consegue transferir-se a Paris. Ensina alemão na École Normale Supérieure, recebe prêmios importantes de literatura alemã no mesmo período em que sofre acusações de plágio. Relaciona-

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“[...] ich weiß kaum einen anderen russichen Dichter seiner Generation, der wie er in der Zeit war, mit und aus dieser Zeit dachte, sie zu Ende dachte, in jedem ihrer Augenblicke, in ihren Gegenständen und Geschehnissen, in den Worten, die zu Gegenstand und Geschehnis traten und für sie stehen sollten, offen und hermetisch zugleich.” CELAN, Paul. Briefe an Gleb Struve. In: HaMacheR, Werner; MenninghaUs, Winfried (Org.). Paul Celan, p. 111. Dada à dificuldade de acesso aos textos citados, optou-se por apresentar aqui os textos de Paul Celan em versão integral, no original, acompanhados de tradução. Buscaramse as traduções já publicadas – nesse caso, citar-se-á o sobrenome do tradutor, seguido do ano da tradução e do número de página. Quando não as havia, foram feitas por mim traduções literais [J. P. P.]. Os textos críticos serão citados apenas em tradução (agradeço ao professor

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ESCRITOS II

George B. Sperber, do Departamento de Letras Modernas da USP, pela revisão e correção das traduções.)
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Ossip Mandelstam (1891-1938), poeta russo de origem judaica, perseguido pelo regime stalinista e deportado para um campo de trabalhos forçados próximo a Vladivostok, onde falece.
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Cf. Referências bibliográficas. Há uma detalhada pesquisa de doutorado sobre o livro Die Niemandsrose, da qual nasce este artigo, realizada por mim com apoio financeiro da Fapesp, no Brasil, e do programa Capes/DAAD, na Alemanha, sob orientação dos professores George Bernard Sperber, da Universidade de São Paulo, e Axel Gellhaus, um dos editores da BCA, da RWTH-Aachen. Cf. PEREZ, Juliana P. Offene Gedichte: eine Studie über Paul Celans Die Niemandsrose.
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CELAN, Paul. Cristal. GADAMER, Hans-Georg. Quem sou eu, quem és tu?

se com grandes filósofos e escritores, publica traduções do russo, francês, inglês, italiano, português e hebraico. Investiga incessantemente novas formas de anti-semitismo na Europa e observa a revolução de 1968 com grande reserva. Em abril de 1970, comete suicídio. São estes os “objetos e acontecimentos” que a poesia de Celan pensa “até o fim”, “em cada um de seus momentos”. Não é de espantar que uma pesquisa bibliográfica sobre seus escritos, realizada em bibliotecas alemãs e em páginas da internet, possa ultrapassar 100 páginas de títulos e que sua obra seja uma das poucas a contar com duas edições críticas completas, as chamadas Bonner Ausgabe (BCA) e Tübinger Ausgabe (TCA). No entanto, no Brasil, ainda são raros os estudos sobre o escritor: além do livro de Modesto Carone (1979), surgiram por aqui apenas artigos sobre o tema;3 as traduções mais completas continuam sendo as de João Barrento, publicadas em Portugal; entre nós, há uma antologia, traduzida por Cláudia Cavalcanti;4 e traduções esparsas de diversos autores. Novos tradutores, como Adalberto Müller e Maurício Mendonça Cardozo, ainda trabalham em uma tradução integral de um dos livros de Celan. Da bibliografia crítica, o único livro traduzido no Brasil é Quem sou eu, quem és tu, de Hans-Georg Gadamer,5 que não deve ser recebido sem questionamentos, posto que pesquisas atuais – feitas com base nas edições críticas, na correspondência de Celan e em outros documentos, só acessíveis a pesquisadores no Arquivo Alemão de Literatura (Deutsches Literaturarchiv), em Marbach – já fundamentaram boas críticas ao ensaio de Gadamer.

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7 Celan. talvez influenciada pelos estudos de Hugo Friedrich sobre a Estrutura da lírica moderna. 257 .Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose Tampouco é de espantar a falta de material sobre Celan no Brasil: ele é considerado um dos escritores de língua alemã de mais difícil interpretação. Entretanto.2. Michael. 11 12 FRIEDRICH.2). Paul Celan começa a escrever os 53 poemas do livro Die Niemandsrose. BCA 6.11 escrito em 1956. aberta. p. 21. leituras.8 e termina sua composição em março de 1963. não há definições do termo. Mas a dedicatória vai além da discussão com seus contemporâneos: ela aponta para uma ampla reflexão sobre o caráter ético da poesia: em seus textos. considerou seus textos herméticos. Sprachgitter (BCA 5. significa uma atitude de radical afirmação do humano.2. 8 9 Celan. a pesquisa documental e a reconstrução da gênese dos poemas – por meio de dados publicados na edição crítica e de outras fontes (traduções. tampouco há trabalhos aprofundados sobre a questão. as notas do mesmo serão abreviadas como BCA 6. Estrutura da lírica moderna. muitas vezes.1 ou BCA 6. oposto lógico do hermetismo. PEREZ. A rosa de ninguém. ao desconhecimento do ambiente discursivo a que os textos de Celan se referem.1/5. 24-43. Paulo. Hugo. Times Literary Suplement. mas a forma como Paul Celan usava o substantivo “das Menschliche”.2). um mês após a publicação de Sprachgitter (Grades da língua). 14. Paul Celans Wolfsbohne. p.12 A oposição entre hermetismo e abertura é um dos pontos nevrálgicos tocados pela reconstrução 6 Cf. uma vez que procuram reconstruir o gesto discursivo que deu origem aos textos. A letra e a voz: pesquisa documental e discursividade em literatura. Paul.10 Assim ele enxerga a própria poesia: clara.1/BCA 6. Em sua obra. Matraga. O termo “humano” não segue aqui uma tradição filosófica específica. Nesse sentido. marginália) – oferecem uma contribuição fundamental à crítica. 10 HAMBURGER. a abertura. Juliana P. Paul.9 Quando o livro é lançado. Celan dedica-o a seu tradutor inglês com a seguinte provocação: “Ganz und gar nicht hermetisch”. 9. v.. dependendo do volume citado. n. Die Niemandsrose (BCA 6.6 a impressão de hermetismo por parte do leitor comum deve-se. 16/05/1997. Dado o grande número de citações deste livro.7 em março de 1959. como foi possível mostrar em outra ocasião. cartas. “de forma alguma hermética”. A dedicatória é um dos indícios da polêmica do escritor com a crítica literária dos anos 1960 – que. SOETHE.

tão forte quanto seu oposto. Der Meridian [O meridiano] – também chamado “Büchner-Rede” – é sem dúvida o mais importante texto em prosa de Celan. mas um ethos de abertura. e outro. que emergem aqui e ali. “offenstehend” (o que está aberto). 14 Cf.14 No segundo ciclo. marginal. aparecem não só em poemas. em tradução de João Barrento. o ponto de partida das interpretações a seguir é o contraste entre o caráter evidentemente negativo e polêmico de seus textos e imagens positivas. pelo prêmio Georg Büchner (1960). Paul. de diálogos verdadeiros. Os quatro ciclos de poemas que compõem Die Niemandsrose são escritos no âmbito de tais reflexões. p. 45. a abertura identifica-se com a decisão de exaltar. a afirmação acontece através da recusa de qualquer discurso que faça o humano desaparecer em uma abstração. por outro. Palavras como “Offenes” (o aberto). o que é frágil. “sich auftun” (abrir-se). Para destruir a lógica de uma ideologia e abrir a linguagem à presença humana. Nos poemas do primeiro ciclo. 3). um discurso de agradecimento pelo prêmio de literatura da cidade de Bremen (1958). uma “contrapalavra”. um discurso na Associação de Escritores Hebraicos e anotações para um ensaio sobre “a escuridão do poético” [Von der Dunkelheit des Dichterischen]. genética dos textos e do ambiente discursivo em que Celan escrevia.13 Assim. ein Gegenwort. Der Meridian (a ser citado como TCA). um ensaio sobre a poesia de Mandelstam. CELAN. TCA. Na última parte do livro. mas em seus textos em prosa e em sua correspondência com autores. CELAN. p. Paul. o caráter afirmativo dos textos mostra-se como uma atitude de atenção e homenagem. sobre a possibilidade da poesia. se por um lado se caracterizam por extrema negatividade. com uma expressão de Paul Celan. “zeitoffen” (aberto ao tempo). Gespräch im Gebirg [Diálogo na montanha]. O principal nexo entre os ciclos não são imagens ou motivos recorrentes. Há um ensaio sobre a pintura de Edgar Jené. “Freies” (o livre). no terceiro. Cf. deformado e efêmero. respostas a duas questões feitas pela Librarie Flinker. é necessária. e. “Offenheit” (abertura). “offene Gedichte” (poemas abertos). de palavras abertas. o ímpeto de abertura atinge seu ápice: ele coincide com um amor que assume riscos para defender a existência humana do aniquilamento. um élan positivo.ESCRITOS II 13 São poucos os textos em prosa escritos por Paul Celan. Este último. através da poesia. amigos e editores. 258 . revelam. Gesammelte Werke in fünf Bänden (Bd. Há também uma breve narração. 3.

alles dies wollte. o espaço é infinito.. ouvir. o du: / Wohin gings. du gräbst. und [. as palavras desde então. 16 WORT VON ZUR-TIeFe-GeHeN. so hörten sie. du brauchst nicht zu fliegen. Para alguns críticos. Paul Celan escreve o primeiro texto do novo livro. da’s nirgendhin ging? / O du gräbst und ich grab. Ivete Centeno. es kam auch ein Sturm. em 15 de março. 17 Cf.// Sabes.. uma vez que louvar. p. tu cavas. cria “Bei Wein und Verlorenheit” [“Com vinho e abandono”] e./ não imaginavam qualquer espécie de linguagem. alles dies wußte. e [. / Sie gruben. p./weißt du.]” [“A rosa de ninguém.// Weißt du. Abertura do tempo Começa a leitura: “Die Niemandsrose. // Sie gruben und hörten nichts mehr./ vieram os mares todos. não Deus – trata-se de uma criação humana.1. o niemand.. / não se tornavam mais sábios. // O einer./ vertieft uns die Tiefe” (BCA. 6. em julho. p./ que. erfanden kein Lied. tu cava e eu cavo.//Cavavam e não ouviam mais nada. was sich in dein Aug schrieb. sabia tudo isto. o primei- 15 “ES WAR ERDe IN IHNeN.” [Trad. und / sie gruben.1./ sabes. / erdachten sich keinerlei Sprache./ e aquilo que ali canta diz: eles cavam./ Eu cavo. histórica e ética que perpassa todo o livro: para Celan. Mas.15 A sugestão de uma curiosa “gênese” aparece no primeiro verso do livro e é um gesto que se repetirá ao longo dos ciclos: o homem fala. o keiner. die Worte seither. À memória de Ossip Mandelstamm./Wir sind es noch immer. // Sie gruben und gruben. Havia terra neles. veio também uma tempestade./ Nós o somos ainda. oh nenhum../ Os anos. tu não precisas voar. 51-53 259 .. a condição da possibilidade da poesia após Auschwitz consiste em uma atitude de radical abertura à presença humana. ihre Nacht. oh tu:/ para onde íamos que não fomos para lado nenhum?/ Oh. p.// Veio um silêncio.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose O primeiro ciclo. o poema refere-se aos anos que Celan passou em Tabaresti. como evidencia o estudo da gênese dos poemas. segundo ouviam. queria tudo isto. As mudanças mais significativas dizem respeito aos títulos.. // Es kam eine Stille. / Ich grabe. /es kamen die Meere alle. que Celan risca sem substituir. a sua noite. Havia terra neles. 14)./ que. p. Modesto Carone./ Die Jahre. e o verme cava também. 13). imaginar parecem sufocados pela ação repetitiva de cavar. para Celan um dado biográfico é o necessário ponto de partida para uma ampla reflexão sobre a história. / der. Dem Andenken Ossip Mandelstamms.]”]. so hörten sie. não inventavam nenhuma canção. o que se escreveu em teu olho/ aprofunda-nos a profundeza./ e no dedo acorda-nos o anel” [Trad. / der. segundo ouviam.17 Os manuscritos desses textos não são numerosos e contêm poucas alterações. E não louvavam a Deus. und es gräbt auch der Wurm. I. objeto deste estudo./weißt du. assim passava/ o seu dia. Abertura tanto mais clara quanto mais exatamente se observa sua gênese textual. BCA 6. der Raum ist unendlich./das wir gelesen haben. 99]. oh ninguém. und ich grab mich dir zu. tornar-se. Und sie lobten nicht Gott. e/ cavavam. 73]. Es war Erde in ihnen. / und am Finger erwacht uns der Ring” (BCA 6./ sabes. anuncia a unidade entre reflexão poetológica./ sie wurden nicht weise.// Oh um./Cavavam. / und das Singende dort sagt: Sie graben.// Cavavam e cavavam. “Es war Erde in ihnen”. “Es war Erde in ihnen” trazia o título “Eingeflochten” (“Entrelaçado”).2. “A PALAVRA De IRÀ-PROFUNDezA/ que nós lemos. so ging / ihr Tag dahin. “Das Wort vom Zur-Tiefe-Gehn”16 [“A palavra de ir-à-profundeza”]. cavo-me para chegar a ti. inventar. em 5 de março de 1959.

Cito (e grifo) somente a primeira estrofe do poema. o barco do tempo afunda – “dein Schiff. vogelstimmig. “zur Tiefe gehn”.// Nun. die Phalanx – dort: die Schwalben!/Wir schlossen sie zusammen. Ihr Männer. sei besungen. Mut. die langen [./das. Paul Celan]. “Deine Wimper. wir versuchen es: Herum das Steuer!/Es knirscht. celebremos/ este grande. (Hg). taub und dicht. J. p./in Wassernächte. poeta do expressionismo alemão. o gesto (amoroso) de aprender ganha a dimensão da resistência – “wir sind es noch immer” [“nós ainda o somos”]. reißts herum!/Die Erde schwimmt. ihr Linkischen – los.20 Em 18 de fevereiro de 1959. mas é preciso resistir e seguir um novo rumo./Hinabgesenkt der schwere Wald der Reusen. 19 Cf.” (Mandelstam. de Georg Heym. die da dämmert”. noch wenn uns dein Frost durchfährt: /Der Himmel zehn war uns die Erde wert. P. esposa de Celan. Das Gedicht im Geheimnis der Begegnung. p. Lethe. P. versteht:/er hört dein Schiff.].//Das Schicksaljoch. traduzir Mandelstam para o alemão não tem significado menor do que a minha própria poesia. ele traduz textos de diversos escritores para sua esposa aprender alemão. p. das zur Tiefe geht”. dieses Dämmerjahr. não há mais liberdade.19 No entanto. Cavalcanti. De maio de 1958 a maio de 1959. Celan também traduz textos de Ossip Mandelstam. Zeit. 38. Este. ein Herz hat. 107]. Ossip. der das Volk führt. mas de um gesto: o poema deve ser uma “Leçon d’allemand”./ Deiner Augen dunkele Wasser. as longas [./Wer./Das Joch der Macht und die Verfinsterungen. DIe DA DÄMMeRT. du Sonneund-Gericht.]” [“Tuas pestanas. hört damit./die Last. Celan traduz “Die Freiheit./A água escura de teus olhos. 38). aufs neue!/Wir pflügen Meere. é a experiência de ver o Citado em IVANOVIC. em que ocorre a expressão mencionada. p. este ano crepuscular. possui um fundo biográfico conhecido: desde o início de seu casamento. Zeit. 68.22 Quinze dias após a tradução./In Finsternisse trittst du. O ponto em comum entre eu e tu não é somente a leitura. 21 MANDELSTAM. Und nichts erglimmt. lasst uns preisen.. p. die uns zu Boden schlägt. Gedichte. kampfbereit.]”]. unterwegs./Das Netz. Die Elemente./Lançado ao fundo o bosque denso de nassas/ às noites líquidas./Laß mich zur Tiefe gehen./Die Sonne – unsichtbar./ Deixa-me ali mergulhar. 60. “A liberdade. dedicado a Gisèle Lestrange. como nenhuma fora. LehMann. das zur Tiefe geht./Entraste em 260 . o primeiro título mostra que não se trata apenas de uma referência literária../dies große.18 em que ocorre a expressão “ir ao fundo”. “DIe FReIHeIT. alle:/lebendig./Dort. Christine.21 escrito em 1918 como um juízo agudo sobre a revolução: vê-se o fim do mundo. Ossip. ele representa a possibilidade de aprender uma nova língua. um dos poemas foi “Deine Wimpern. und – ihr sehts:/Die Sonne – unsichtbar../Deixa-me ir ao fundo” [Trad. Kommentar zu Paul Celans Die Niemandsrose.. que entardece./ Laß mich tauchen darein. weinend trägt. as longas. wie noch keine war. [Übertragen v. ihr Brüder. sobre o qual ele teria dito: “Das Übersetzen Mandelstams ins Deutsche hat für mich keine geringere Bedeutung als mein eigenes Dichten” [“Para mim. surge “Das Wort vom Zur-Tiefe-Gehn”. die langen.” (“Tuas pestanas. Die Erde schwimmt. brechen Meere um. J. die Dämmerung: dicht. Zeit. Segundo informação da mesma./Und denken. 20 ro manuscrito de “Das Wort vom Zur-Tiefe-Gehn” chama-se “La leçon d’allemand”. Relacionado ao poema de Mandelstam./du Volk.ESCRITOS II 18 Georg Heym (1887-1912). Gedichte.” Trad.

povo. ó irmãos./O sol – invisível. ANDRÉ.//O jugo do destino. que vai ao fundo. Celan talvez se oponha a Heidegger. A terra nada. o crepúsculo: denso. Cristine.24 O diálogo com Mandelstam continua: antes de escrever “Es war Erde in ihnen”. A comparação entre as versões do poema confirma a imagem da resistência. Paul Celan traduz outros cinco poemas. Robert. melodiosos. Ó homens. E nada consegue brilhar. a escolha definitiva de “Worte” [“palavras”] afirma a possibilidade de continuar um diálogo. na resposta a Mandelstam. IVANOVIC.] 22 Cf. P. todos:/vivos. p. LeMKe. ó tempo. portanto. tu sol-e-justiça. (Hg. Celan escreve “wortlos” [“sem palavras”]. A reflexão sobre as palavras identifica-se com a reflexão sobre a história: a palavra “de-ir-àprofundeza” [“das Wort vom Zur-Tiefe-Gehn”] pretende compreender os vestígios que o tempo deixou na terra. 261 ./E pensamos.. Axel. pronta para a luta. com ele ouve. mas sim observar os acontecimentos sempre mais profundamente (v. Por isso. coragem. ó desajeitados – vamos. A. entende:/ouve teu navio. In: GELLHAUS. Konstellation ohne Sterne. tem um coração. 23 Cf.25 um deles citado pelo poeta russo no ensaio “A palavra e a cultura”. GELLHAUS. uma resposta pessoal de Celan ao poeta russo: a decadência de um tempo revolucionário não é tão importante quanto a necessidade de aprofundar a consciência da história. a caminho. ó tempo./aquele que conduz o povo e o carrega chorando./o peso que nos esmaga ao chão. Gespräche Von Text zu Text. Em um dos rascunhos. apesar ou a partir dos acontecimentos. as andorinhas!/nós as reunimos -e – vide: /o sol – invisível.) Lesarten: Beiträge zum Werk Paul Celans. de 1921: Poesia é um arado que rasga o tempo de forma que suas camadas profundas. mesmo quando teu gelo nos atravessa:/dez céus a terra nos valia. Lethes./O jugo do poder e os eclipses. IVANOVIC. die Worte seither” [“os anos. Axel. Das Datum des Gedichts. tu./Quem. 24 Cf. A concepção do tempo e da história em Celan é uma das questões abertas na pesquisa sobre o autor. P. nós reviramos os mares. Das Gedicht im Geheimnis der Begegnung./tu. não é necessário “voar” [“du brauchst nicht zu fliegen”]./A rede. sua trevas. 234-235.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose tempo afundar e de não sucumbir – “die Jahre. Cristine. Os elementos. LohR. as palavras desde então”]. Das Gedicht im Geheimnis der Begegnung. a falange – ali. //Ali. é possível dizer que. 80-81. tentemos: Viremos o leme!/Ele range. virem-no!/A terra nada. seja cantado. O primeiro poema escrito para o novo livro apresenta.” [Trad. 7-8). mais uma vez!/Nós aramos mares. J. 25 Cf. Andreas. cujos escritos lê a partir da metade dos anos 1950 e com o qual entra em intensa polêmica na época da redação de Die Niemandsrose. 235.23 Mesmo assim. denso e surdo. // Agora. p. p. 177-196.

o que transforma o texto em um prólogo.27 Na versão de Paul Celan. und die Zeit ist gepflügt. / Die Zeit – gepflügt.26 Ibid. p. die Rose. wo die Menschheit sich nicht mit dem heutigen Tag begnügt. ao ser colhida. Über den Gesprächspartner. Assim. Strahlenloses. Ao falar da própria obra. O ensaio é uma reflexão de Mandelstam sobre história. as palavras não 262 . P. em que ela anela as camadas profundas do tempo e.28 Em sua tradução.” MANDELSTAM. carrega a terra dos acontecimentos e é o instrumento (o arado). wo sie sich sehnt nach den Tiefenschichten der Zeit und wie ein Pflüger nach dem Neuland der Zeiten dürstet. daß ihre Tiefenschichten. ihre Schwarzerde zutage tritt. Celan coloca “Es war Erde in ihnen” na abertura do livro.ESCRITOS II 26 “Poesie ist ein Pflug. 41. / A rosa foi Terra e o tempo foi arado”]. o sem brilho.. die da dämmert” e “Ihr Schwestern: Schwere und Zart” [“Irmãs: peso e ternura”] – na tradução para o alemão de Ralph Dutlis: “Dunklem Wasser gleich – tieftrübe Luft hier zu atmen. como um lavrador. a rosa – ora tornou-se terra [. / Die Rose war Erdreich. die nun zu Erde ward. Doch es gibt Epochen. 84. Gedichte.]”].]. trink Trübes. Contra seu hábito de publicar os poemas na ordem cronológica de redação./ O tempo – arado. há épocas em que a humanidade não se contenta com o dia de hoje. tem sede por uma nova terra dos tempos [Trad. o tempo que se busca compreender. 85 MANDELSTAM. no anúncio de uma certa visão da poesia. Porém. der die Zeit in der Weise aufreißt. ele cita os versos finais dos poemas “Die Freiheit. Ossip. p. por meio do qual as camadas mais profundas do tempo podem ser vistas.. escrita em 11 de janeiro de 1959. Celan enfatiza dois aspectos da poesia: ela é a rosa que. cultura e poesia.” [“Eu bebo o ar como água.” [“Como águas escuras – respirar aqui o ar turvo e sombrio. P. J. Ossip. a imagem da criação diz respeito aos próprios poemas: eles trazem “terra”.. p. bebo o turvo.. 27 28 terra escura vem à tona. os mesmos versos têm outra forma: “Ich trinke die Luft wie Wasser.

. J. “Vós irmãs.] Mir bleibt nur eine Sorge – die einzige und goldne:/ das Joch der Zeit – was tu ich. O trabalho da poesia é um movimento rumo ao outro (“ich grab mich dir zu”.] A mim resta só uma preocupação – a única e dourada:/ o jugo do tempo – o que fazer para romper tal jugo?// Eu bebo o ar como água. mas sua condição é a abertura à presença humana. A Gegenwort. “cavo-me rumo a ti”). O “eu” só aparece quando tem condições de compreender o tempo e o que ainda “canta” na poesia.. criar canções ou inventar novas línguas... que só existe a partir de uma experiência compartilhada do tempo. “eu” e “tu” estão juntos por se descobrirem testemunhas de uma época. 29 “Ihr Schwestern Schwer und Zart.] 263 . pois designaria uma arte que não pode mais ser aceita como verdadeira. Strahlenloses. fica à margem do conhecimento (“dort”./Die Zeit – gepflügt. ternas rosas – / entrançadas em dupla coroa. P.. “das Singende”. portanto../Still drehn sich mit den Wassern die schweren zarten Rosen / zum Doppelkranz geflochten die Rosen Schwer und Zart!” [grifo meu] (Ibid. die Rose. o sem brilho. 41). a pergunta acerba do verso 16 pode se referir à literatura em geral – ou ao menos à própria poesia –. “Eingeflochten” [“Entrelaçado”]. “lá”). ser sábias. mas cavar a terra da história. com Mandelstam e com uma história marcada por discursos e fatos que ameaçam a existência humana e exigem uma tomada de posição. com um notável posicionamento em relação à poesia: a ela se atribui a possibilidade de conhecer a história. P./ O tempo – arado. die nun zu Erde ward.. Die Niemandsrose inicia. ich seh euch – seh dasselbe. que só existe no presente.. bebo o turvo. as rosas peso e ternura. trink Trübes. a rosa. Mais um dado confirma o poema como uma reflexão poetológica e histórica. pois questiona o sentido de palavras que não chegaram a lugar algum – “nirgendhin”. Nesse sentido. peso e ternura. e de um “nós”.” [Trad.. a poesia de Celan está entrelaçada. entrançada. A preocupação de ambos os poetas é o jugo do tempo. [. ora tornou-se terra. [. eu vos vejo – vejo o mesmo. “Ihr Schwestern Schwer und Zart“.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose têm como objetivo louvar a Deus./Quietas voltamse com as águas as pesadas. p. daß ich dies Joch zerschlag?// Ich trink die Luft wie Wasser. também possui um caráter auto-reflexivo e talvez explique o primeiro título de “Es war Erde in ihnen”.29 citado por Mandelstam em seu ensaio. ouvir o além. por fim. a “contrapalavra” serve à afirmação de um “eu”.

Axel.” [Trad.31 em agosto de 1959. Lucile. Lenz representa a oposição ao idealismo alemão. por sua vez. 31 GELLHAUS. Celan-Jahrbuch. Band 123. 209219 . Abertura humana “Mit allen Gedanken” [“Com todos os pensamentos”]. em que uma presença humana se oferece como Ao final de A morte de Danton. anti-idealista e antiesteticista. Aparentemente 264 . P. compreendida como um falar verdadeiro e amoroso. traduz diversos autores. nos meses seguintes. Büchner. da peça A morte de Danton. Entretanto. p. 1995. de Paul Celan. Ao perceber que o mecanismo ideológico da Revolução extermina os que a defenderam. de um fragmento de G. uma das figuras importantes da Revolução Francesa. 32 Cf. 304). n. formulado positivamente. Axel.36 escrito em 14 de agosto de 1960. der sich untersteht hypothetisch – spekulativerweise Auschwitz aus der Nachtigallen.ESCRITOS II 30 “Kein Gedicht nach Auschwitz (Adorno): was wird hier als Vorstellung von ´Gedicht’ unterstellt? Der Dünkel dessen. destacam-se as de Lenz. Entre as personagens citadas por Celan. ZdPh. 87. 113-138.”32 Em março de 1960. Lucile grita: “Viva o Rei!”. Juliana P. Axel. “Nenhum poema após Auschwitz (Adorno): o que está subentendido aqui como imagem do ´poema’? A presunção daquele que se abriga – hipotética e especulativamente – para observar e a narrar Auschwitz da perspectiva de um rouxinol ou de um tordo. em que Celan se refere a Adorno e elabora um programa poético “anticlássico. GELLHAUS. em Sils-Maria. ele escreve o ensaio Die Dichtung Ossip Mandelstams (A poesia de Ossip Mandelstam). 35 34 Tal posição não é preparada apenas pelo diálogo com Mandelstam: cinco dias antes da redação do poema. p. ele redige os primeiros esboços de Der Meridian.oder SingdrosselPerspektive zu betrachten oder zu berichten” (GELLHAUS. 2004. zum Storchen. Fremde Nähe: Celan als Übersetzer. 51-92. Lucile observa atônita a morte de seu amado. II. Das Gespräch im Gebirg: Paul Celans impliziter Dialog mit Adorno über die Möglichkeit von Dichtung nach Auschwitz. critica o modo de pensar racionalista. À À�������������������������������� margem do abismo: uma interpretação poetológica de Zürich. Celan deveria encontrar Adorno. Em Der Meridian. O encontro não acontece. J. entendida negativamente. surge a narração Diálogo na montanha. (Hg). 6. Para Celan. pertence ao grupo dos poucos. em 22 de julho de 1959. Todos esses textos participam da gênese de Die Niemandsrose e revelam os principais aspectos da reflexão de Celan entre 1959 e 1960: ele compreende a escuridão da poesia como um abismo. Cf. Die Polarisierung von Poesie und Kunst bei Paul Celan. e Lucile Demoulins. n.]. delineia-se cada vez mais claramente a direção da poesia de Celan: entre abril e junho. Enthusiasmos und Kalkül. Pandemonium Germanicum. na Suíça. e a poesia (Dichtung).30 O próximo poema do livro será escrito em maio de 1960. Axel. quase um ano após os primeiros. Camille Demoulins. mas a tensa relação com Adorno também determina a decisão de não escrever a partir de uma perspectiva panorâmica. P. mas significativos textos. p. 8. p. 2004. representa um olhar amoroso. 33 PEREZ. Número especial. Paul Celan evoca personagens de diferentes textos do dramaturgo Georg Büchner para construir uma oposição entre a arte (Kunst). GELLHAUS. 426. um programa de ‘radical individuação’.33 constrói a oposição entre arte e poesia (Kunst x Dichtung) através da figura de Lenz34 e afirma a abertura amorosa e rebelde de Lucile35 como comportamento humano par excellence e ideal ético da poesia. p.

/ wars nicht / so gut wie ein Name?” (BCA 6. “Com todos os pensamentos fui eu / para fora do mundo: ali estavas tu. Em Der Meridian. hell / standen ihr Seele und Seele entgegen. p. das sich nicht mehr vor den ‘Eckstehern und Paradegäulen der Geschichte’ bückt./ tu. 23). a favor do Ancién Regime. em 9 de agosto.37 o que dados biográficos também confirmam. 45s.. // Wer / sagt.. As outras – bem.] keiner Monarchie und keinem zu konservierenden Gestern gehuldigt.// Quem / diz que tudo nos morreu. alles hob an.. e adquire Daniel. still / stieg ein Hauch in den Äther. Celan lê Les grands courants de la mystique juive.] 36 “MIT ALLeN GeDANKeN ging ich / hinaus aus der Welt: da warst du. p. [. caro Dr. 3).39 Todavia. tu.. nem a um ontem que se quer conservar. “Viva o Rei!”/ E que palavra.. alcancei algumas pessoas. Paul Celan evoca a figura de Lucile como símbolo de resistência à ideologia e representação da própria poesia. portanto. [. 265 . Nos textos críticos sobre o poema. p. devido à experiência de abertura recíproca.] de prestar homenagem a uma qualquer monarquia. pouco antes de escrever “Mit allen Gedanken”. perguntam. / da uns das Aug brach? / Alles erwachte. Celan também o define como um poema de amor./ Gehuldigt wird hier der für die Gegenwart des Menschlichen zeugenden Majestät des Absurden. eu não posso mais considerá-lo um acaso. es ist das Wort.. a palavra que já não se curva diante dos “cavalos de parada nem dos pilares da História”.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose possibilidade de resistência. e –/ tu nos recebeste. minha silenciosa. Es ist ein Schritt. // Leicht / tat sich dein Schoß auf. pronto para o bote. klar. por exemplo.” [Trad. ter viajado a Viena. Reforça esta idéia o fato de Celan. eu e tu resistem a uma destruição em curso. mas o modus de afirmação da presença humana. perceptível – e. und .. João Barrento. em 18 de julho de 1960. para buscar apoio contra as constantes acusações de plágio que ele relaciona à continuidade da perseguição aos judeus:41 Eu também apontei. / und was sich wölkte. // Groß kam eine Sonne geschwommen. / du meine Leise. de Martin Buber.38 Gisèle Lestrange afirma que o poema foi dedicado a ela.// Grande vinha um sol a nadar. que procuram conselho. é uma palavra que faz romper o “arame”. com isso. das Wort. Pöggeler. depois de todas as que foram ditas da tribuna (que é o cadafalso!). Paul Celan não aceita o extermínio como ação de um poder metafísico.] Isto não é um acaso. o senhor sabe. [. nos meus poemas./ du empfingst uns. minha aberta. É um passo. 1996./ quando fechamos os olhos de vez ?/ Tudo despertava.] Aber hier wird [.. é um acto de liberdade.” (TCA. mística e amor não são meramente o “tema” do poema. daß uns alles erstarb. de Gerschom Scholem. es ist ein Akt der Freiheit. wars nicht. e não há nenhuma proteção contra isso./ É uma contrapalavra. / wars nicht Gestalt und von uns her. tudo começava..1. das den ‘Draht’ zerreißt.40 ao contrário: testemunhar a Shoah de uma perspectiva não-panorâmica significa enfrentar o mal da história como resultado de uma vontade humana e decidir-se livremente contra ele. Aqui há algo à espreita. du meine Offene.. aquelas que desejam perceber. ela se condena ao mesmo fim de Camille. Veja-se. são ressaltados o caráter erótico da acolhida e a influência da mística judaica. depois de tantas e tão claras experiências./ A homenagem é aqui a algo que testemunha a presença do humano – à majestade do absurdo. a passagem: “Es lebe der König!”/ Nach ������������������������� allen auf der Tribüne (es ist das Blutgerüst) gesprochenen Worten – welch ein Wort!/ Es ist das Gegenwort. a algo percebido. / gebieterisch schwiegen sie ihr / ihre Bann vor.] Mas aqui não se trata [. pois.

(Hg. p. eu penso diante de qual mudez ti- Carta de 5 de julho de 1960 a Otto Pöggeler. n. eu sei. Wort und Name bei Paul Celan. com quem Celan mantinha relações de amizade. JaMMe./ imperiosas. P. 41 No final dos anos 50. PÖGGELER. Barbara. P. 89. C. Rauchspur und Sefira: über die Grundlagen von Paul Celans Kabbala-Rezeption. Ainda há muito mundo em mim. Embora evidentemente negada pelos fatos.// Leve. os intervalos são mais longos. SchUlze. mas que Celan teria inventado a história da morte para vir a público como uma vítima judia. Mas são apenas instantes. Pöggeler. O restante da carta. viúva do poeta Yvan Goll. na medida que sou procurado onde estou sozinho. Ele envia uma carta para encorajar Nelly Sachs. 49. a lembrança ali nem sempre consegue atravessar. depois de tantas anotações. afirma haver instantes em que é possível “entrever” ou “ver além” (“Hindurch-” oder “Hinaussehen”) das experiências de perseguição. que é contra. Embora. p. 38 GELLHAUS. P. há algo que nenhuma infâmia pode tirar de mim: são os amigos e é. O caráter anti-semita atribuído por Celan à campanha de difamação deve-se às afirmações de Goll de que seus pais não teriam sido assassinados no campo de concentração. P. claras. J. 5. WIEDEMANN. Leuchttürme: von Hölderlin zu Celan. J. p. Às vezes. Marginalien : Paul Celan als Leser.. Axel. confirmações e [. Celan-Jahrbuch. P. 37 Cf. Totengedächtnis und dialogische Polarität in der Lyrik Paul Celans. 40 39 Disseram-me que essas seriam. O. abriu-se teu colo.ESCRITOS II claras// colocavam-se contra ele alma e alma./ e o que se anuviou não era. Otto. pedindo o apoio público de amigos e escritores. WiedeMann. diretor do Arquivo de Hegel da Universidade de Bochum por 266 .193-246. 25. silenciavam-lhe o seu curso.42 [Trad. 221. que sofre uma forte crise psíquica. 42 O “percebido” e “perceptível” são indícios de novas formas de anti-semitismo./ não era tão bom quanto um nome?” [Trad.43 e escreve mais uma vez a Pöggeler: Veja.].] há instantes em que eu o vejo e o compreendo. não era figura e. afirma publicamente que o primeiro livro de Paul Celan foi um plágio de poemas de Yvan Goll. n. p. P. que é contra o que assassina. In: PÖggeleR. dividindo também alguns críticos da época. Meu calar: meu – e isto não é de forma alguma um oxímoro redutível a mera figura de linguagem – meu calar eloqüente: uma palavra muda. J.] schUlze. meu calar. A correspondência de 9 de agosto – dia de seu retorno de Viena – revela a esfera de reflexões e a tentativa de resistência que anima Celan na semana em que “Mit allen Gedanken” é escrito.. B. D. Wort und Bild. e deveu ao caso parte dos problemas psíquicos que o afligiram ao longo dos anos. Claire Goll. Sprache und Literatur. a partir de nós. Barbara. à qual a palavra “Welt” (“mundo”) está associada. Paul Celan ocupou-se incansavelmente com sua defesa. na verdade. 843. Cf. caro Sr. silencioso/ subia um sopro ao éter. MeinecKe. BÖschenstein. no entanto. Dr. a acusação causou polêmica em jornais e revistas de literatura. devesse ser suficiente pensar nesse através. (Hg.) Paul Celan: die Goll-Affäre. nesse através e para além.) Der glühende Leertext. Paul Celan: die Goll-Affäre. cujo crescimento Celan observa tanto na Alemanha quanto em outros países..

caro Sr.. mein Schweigen. está clareando novamente – a rede.] Nesse contexto. WIEDEMANN. p. [. afasta-se – não é verdade.” (Ibid. p. Nelly! [. Questiona-se “quem” (v. porém.45 Por isso. “Há tantos corações e mãos amigas ao nosso redor. fragen. Barbara. João Barrento. Glauben Sie mir. sprungbereit. Pöggeler. Nelly.] es gibt Augenblicke. Assim. Pöggeler. Nelly. 55.. dies seien im Grunde die Bestätigungen und [. “Auch in meinen Gedichten habe ich auf Wahrgenommenes und somit Wahrnehmbares hingewiesen – ein paar Menschen habe ich damit erreicht. wo ich allein bin. Pöggeler: eu me desejo este podercalar – eu o desejo a mim. das gegen das Mörderische steht. nach soviel Aufgeschriebenem. o abandono do “mundo” e o encontro com o tu. Mein Schweigen: mein – und das ist keineswegs irgendein als bloße Redefigur abzutuendes Oxymoron – beredtes Schweigen: ein stummes Wort. P. 105]. entre amigos?” [Trad. lieber Herr Dr. lieber Herr Dr. Deus sabe. Rat suchen. mas um caminho catastrófico. Obgleich es mir ja. “olhos. daß Du im Freien bist. Hier liegt etwas auf der Lauer. das dunkle. O encontro ganha uma dimensão cósmica: através do silêncio “alma e alma” [“Seele und Seele”] alteram a trajetória de um sol que se tornou uma luz ameaçadora. ich weiß. 503s) 43 “Es sind so viele freundliche Herzen und Hände um uns. an dieses Hindurch und Hinaus. Du siehst. como se essa fosse a metáfora de um fim que não aconteceu. conosco. não significam morte ou fuga da realidade. J. die Intervalle sind länger. A pergunta do poema parece antecipar “Tübingen. solche. a cegueira é dita.) Paul Celan: Nelly Sachs: Briefwechsel. wo ich das sehe und einsehe. ich kann das. welcher Stummheit diejenigen gegenübergestanden haben müssen.. pois implicam a decisão de não aceitar a morte sugerida pela expressão “das Aug brechen” [“fechar os olhos de vez”]. a escura. a presença da amada. não por orgulho. no claro. und es gibt keinen Schutz dagegen. ainda é possível enxergar o cosmos e ver que ele não realiza um movimento harmônico.] Sim. es gibt etwas. sua abertura e seu silêncio possibilitam um despertar (“alles erwachte. você vê que está ao ar livre. J. a experiência de amizade e o amor representam para Celan a possibilidade de reencontrar-se no panorama cultural judaico e de impedir sua destruição. P.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose veram que ficar aqueles que souberam matar com tantas palavras. Jänner”. convertidos à cegueira” [Trad. no poema. Em “Mit allen Gedanken”. die wahrnehmen wollen. ou olhos “persuadidos” à cegueira.. alle hob an”) e uma renovada tensão de luta. das dagegen steht. Nelly! [. Es ist noch zuviel Welt in mir. p. mit uns. nicht mehr für Zufall halten.]. soweit ich da aufgesucht werde..] Das ist kein Zufall. Du siehst es jetzt. // Es ist mir gesagt worden.. unter Freunden?“. die Erinnerung findet da nicht immer hindurch.. 44 “Sehen Sie. die so wortreich zu töten wußten.] Ja. P. Pöggeler: ich wünsche mir dieses Schweigen-können – ich wünsche 267 . Die anderen – nun. nach so vielen und so deutlichen Erfahrungen. Ich denke zuweilen.. 1996. P. im Hellen. Creia em mim. 5) anunciou tal morte. mas um movimento de resistência. você vê agora. ist fortgezogen – nicht wahr. doch genügen müßte. a leitura de autores judeus. an dieses Hindurch zu denken. es ist wieder hell – das Netz. Dr. lieber Herr Dr. Aber es sind eben nur Augenblicke. mas que foi desejado e propagado. (Hg.44 [Trad. das keine Infamie mir nehmen kann: das sind die Freunde und das ist.46 no qual se fala de uma cegueira causada por persuasão: “Zur Blindheit über-redeten Augen”. Sie wissen es ja.. O silêncio representa uma contrapalavra mais de 30 anos.

286.]“. Christine. p. colocando a si mesmo como o outro pólo.1. de Martin Buber: Mundo e palavra: no amor do poeta eles se encontram.” (GELLHAUS.” [. eis a situação lírica: o poeta elevou um pólo de seus pares contrários ao Absoluto e o interpela. P. n. 28. 48 “Welt und Wort: in der Liebe des Dichters kommen sie zueinander. P. J. O poema também debate com um trecho que Celan destaca de Daniel.[Gedicht] nicht [augenfällige oder geheime] Spiegelung des Kosmos.ESCRITOS II es mir weiß Gott nicht aus Stolz. 7-32.”48 [Trad. 2001-2002. A polaridade imediata da alma. 48). n... p.] Toda poesia é diálogo: porque toda poesia é configuração de uma polaridade. antropocêntrico mesmo?)” [Trad. [. Axel. Das Gedicht im Geheimnis der Begegnung.” [grifos do autor] (WIEDEMANN. Der unvermittelten Polarität der Seele. “mundo e palavra” permanecem pólos opostos enquanto o mundo procurar abafar a presença humana. J.]. Lydia. BCA. Aufrechte Worte: Paul ����������������� Celan-Margarete Susman: eine Cor-respondenz. Por isso. das ist die lyrische Situation: der Dichter hat aus einem seiner Gegensatzpaare den einen Pol zum Absoluten erhoben und spricht ihn an. p.]. sondern Gegenkosmos. 46 47 45 em defesa do humano47 e se revela como força ética a impor outro rumo à destruição. IVANOVIC. Koelle.. 49 TCA. sich selbst dem anderen Pol gleichsetzend. no amor do poeta seu amor se dissolve [. Paul Celan als Leser. Das Sublunare als ‘Gegen’Supralunare (also doch anthropozentrisch?). Cf. O sublunar como ‘contra’supralunar (então.. p.] Alle Dichtung ist Gespräch: weil alle Dichtung Gestaltung einer Polarität ist. Paul Celan: die Goll-Affäre. in der Liebe des Dichters geht ihre Liebe auf. Barbara. mas um contracosmos. 111.. seu diálogo intima o absoluto. Celan-Jahrbuch.[poema] não [evidente ou oculto] espelhamento do cosmos.. seu “amor” obriga-o a resistir contra o aniquilamento. p.i . 8. P. 505).49 268 . como diz outra anotação: “-i. p. Marginalien. a linguagem silenciosa constitui um “contracosmo”. P. 81. Para Celan.6.

{-} Diese Person partizipiert [-] als [ {ein} als] [als] Nomen [ . dem zeitoffenen. p. – Com o poema. [zu erkennen] [wahrnehmbar] nicht [ablesbar] als [{ein} als] Pronomen.) gibt. 305. 189. um respiro (“Hauch”).52 [Trad. como diz a carta a Pöggeler. 51 52 BCA. um contracosmos de palavras que se abrem ao humano e o defendem. p. P. que pode ser relacionada à última estrofe. P. 113.]”. um lugar aberto.” (TCA. J. 85. ist das Erlebnis des Widerstandes der schon erschlossenen Sphären. como o de Lucile. ela está dentro do tempo. TCA. [ilegível] como [{um} como] Pronome. A palavra ����������������������������������������� “���������������������������������������� Gegenwart������������������������������� ”������������������������������ pode ser traduzida como atualidade ou “presença” – em geral. P. [dem] zeitdurchlässigen. n. O poema abre a linguagem à memória do efêmero.] 50 Alguns dias após escrever o poema. liase “still griff eine Hand in den Äther”. – Mit dem Gedicht. “Die Gegenwart des Gedichts ist – und das <hat> nichts mit biographischen Daten zu <tun>.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose “Mit allen Gedanken” formula a possibilidade de criar uma revolução. [ a reconhecer]. o poema é escrita de vida –. “silenciosa. o tu oferece ao eu a possibilidade de reconhecer a si mesmo como “figura” (“Gestalt”) e nome (“Name”).” [Trad.. Na última estrofe.50 Mais uma vez. Celan anota uma frase de Max Scheler que reforça esta interpretação:“Was uns das Dasein (Erlebnis des Das. só se trata da amada porque seu olhar.]. Zeit kann hier hinzutreten [. 785) . {-} Esta pessoa participa – como {um} [como] [como] Nome – [ e isto pode ficar sem ser dito porque talvez não possa ser dito – }. P. Em mais uma anotação.“O que nos dá o ser-aí (a experiência do ser-aí). em seus textos. J. o poema aberto ao tempo. Comparadas à versão anterior. n.und das kann unausgesprochen weil vielleicht unaussprechbar <bleiben> -}. [dem] porösen Gedicht steht sie in die Zeit hinein. Celan escreve: A atualidade do poema é – e isso não [tem] nada [a ver] com dados biográficos. é a experiência da resistência de esferas já abertas. 269 . das Gedicht ist Lebensschrift – die Gegenwart des Gedichts ist die Gegenwart einer Person.51 aqui está em jogo o que é mais frágil. Celan compreende os dois sentidos da palavra alemã. uma mão pegava o éter”. identifica-se com uma poesia contra quem “soube matar com tantas palavras”. que se torna o espaço de um respiro livre e calmo. a atualidade do poema é a atualidade de uma pessoa. p. [ perceptível]. poroso. O tempo pode vir a se juntar aqui.2. a atividade e a presença do eu são aqui quase reduzidas ao seu sopro: antes.. 6. permeável ao tempo.

por fim. die / Niemandsrose.” (BCA 6. Psalm. n.53 Em vista das circunstâncias da época. o über / dem Dorn. minha vazia./Em direção/ a ti. Revue des sciences humaines 97. somos. No manuscrito. oh. Revue des sciences humaines 97.. existencialista.// Um Nada/ fomos.6. J. . Jänner. BCA 6. J-M. 27. Cf. / niemand bespricht unsern Staub.57 mas como um denso e quase sarcástico debate poetológico que./ a corola vermelha/da purpúrea palavra que cantamos/ sobre. 31). no poema resta somente um vestígio e a memória de um nome mortal. “PSALM. acima dela: “Offne”. Ein Bekenntnis zur Ungebundenheit. Paul Celan‚ Tübingen.// Dir zulieb wollen / wir blühn./Por amor de ti queremos/ florir.2. Analyse critique de l’histoire de la compréhension. J. este quase revolucionário gesto de abertura talvez defina toda a sua poetologia.-M. minha silenciosa. “vazia”. 177-182. as renovadas tentativas de defesa de Celan contra Claire Goll e a idéia do título do livro56 permitem interpretá-lo não somente como um poema auto-reflexivo. Spuren 24 (2001). O eu está em outro lugar. tu. p. Gedichte von Paul Celan. werden / wir bleiben.. depois. 56 55 O que adquire forma no poema não faz mais parte do texto. em que a gênese se refere à escrita. “SALMO// Ninguém nos moldará de novo em terra e barro. / der Krone rot / vom Purpurwort. A rosa de ninguém? O terceiro poema escrito por Celan após o prêmio Büchner é “Psalm”54 [“Salmo”]. histórica./ o estame ermo-de-céu. Ninguém. nota 9. BollacK. 223. João Barrento. p. // Mit / dem Griffel seelenhell. das wir sangen. und –“ [“tu. /// Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm. In: SpeieR. de 5 de janeiro de 1961. aparece ali apenas como nome e pergunta. Celan não somente constatava que o anti-semitismo voltava a crescer. florescendo:/ a rosa do Nada. 1961: “ ‘Chymisch’. polissêmica e poetológica. o criador é o poeta e os poemas são as rosas que abrem a terra do tempo. n. O poema foi lido sob o ponto de vista da reflexão teológica. e escreve. J. /dem Staubfaden himmelswüst. 16. WinKleR. 103]. e –”].2. Erinnerung an schwimmende Hölderlinstürme. risca a palavra “Leere”.1. Se ali fala o criador. sind wir. blühend: / die Nichts-. W. / Dir / entgegen. continuaremos/ a ser. 183-212. WÖgeRbaUeR. Axel. Hans-Michael (Hg. p. 83-93. p. a/ rosa de Ninguém. 85. revela um élan surpreendemente positivo. “aberta”.). WinKleR. / über.ESCRITOS II 53 54 BCA. conforme a interpretação dada a “wir” [“nós”] e “Niemand” [“ninguém”]. / Gelobt seiest du.// Louvado sejas. 1. p. Niemand. III. ali o poeta. Paul me fait remarquer qu’il est plus près encore du secret des choses que le précèdent: Tübingen Jänner 1961 – Ce que lui permet de prévoir comme titre du recueil: Die Niemands Rose” (GELLHAUS. 223. aqui falam suas criaturas. Ao invés. du meine Leere. sobre/ o espinho. Esquisse d’une compréhension. // Ein Nichts / waren wir. mas também que a ameaça de extermínio dirigia-se a Conforme nota de Gisèle Celan-Lestrange de 31.” [Trad. “Psalm” retoma o primeiro poema do livro. há mais uma mudança significativa: Celan escreve “du meine Leise. p. /Niemand. dix neuvième poème du nouveau recueil.55 A proximidade particular entre “Psalm” e as reflexões de Der Meridian./ ninguém animará pela palavra o nosso pó. p./Ninguém.// Com/ o estilete claro-de-alma. 57 BollacK. aqui os poemas – o que não significa que a referência à Shoah é negligenciada. 270 . p.

poeta e ensaísta alemão. das kann es nicht geben! Aber es gibt wohl. o poema não endereçado a ninguém. das Gedicht an niemanden gerichtet.] [grifo meu]. das vielleicht eine dieser zerrissenen Stunden sammelt: das absolute Gedicht. diesen unerhörten Anspruch. médico. João Barrento. diese unabweisbare Frage [nach ihrem Woher und Wohin].” Benn. que talvez reúna uma dessas horas rasgadas: o poema absoluto. 263. 494-532. P. TCA. aquela irrefutável pergunta. es gibt. é mais que certo que não existe. Ao utilizar sarcasticamente a denominação quase imposta pelo debate literário dos anos 50 e 60. Gesammelte Werke in vier Bänden. o poema de palavras que você monta fascinantemente. das gibt es gewiss nicht. 60 [Trad. de Gottfried Benn58 e se opõe à sua concepção de poesia: “De tudo isso vem o poema. mit dem anspruchslosesten Gedicht. G. com cada verdadeiro poema. Celan cita o texto “Problemas da lírica”. das Gedicht aus Worten. Bd. Em diversos rascunhos de Der Meridian. o poema sem esperança. Celan coloca-se contra o desaparecimento do autor como pessoa. não pode existir. como seu debate com outros textos poetológicos do mesmo período parece confirmar. 59 “Aus all diesem kommt das Gedicht. das Gedicht ohne Glauben. mit jedem wirklichen Gedicht.”59 [Trad. p. o poeta assume a figura que um certo discurso procura lhe atribuir: “Niemand”. tal coisa!// Mas existe. J. com o mais modesto dos poemas. 58 Gottfried Benn (1886-1956). P. o poema sem fé. são os pontos que marcam a distância de Celan em relação a Benn: O poema absoluto – não. 58] 271 . die Sie faszinierend montieren. isso sim.“ Cf. Como protesto contra a tentativa de aniquilamento da presença humana. aquela inaudita exigência. 10 entre outras.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose qualquer pessoa. das Gedicht ohne Hoffnung. sem esperança. p. “Ninguém”. 60 “Das absolute Gedicht – nein. p. e nota p. 1. A atribuição do status de “ninguém” ao leitor e a defesa da poesia encerrada em si mesma.

viva. a experiência do escritor.61 feitas entre 1959 e 1960 na Universidade de Frankfurt. Essays. correspondendo a uma nova condição. segundo a autora. Mas.62 [Trad. Rede. Werke. de sua indefinível condição. ele 272 . teimosamente e com a ênfase da convicção. por fim. Bachmann discorre sobre “Problemas de poesia contemporânea”. em sua fantasia de louco. Vermischte Schriften. trata do “eu que escreve” (“Das schreibende Ich”): Como se uma noite de carnaval fosse organizada para o eu. dieses Ich. in seinen Narrenkleidern. esse eu. ridicularizados pelos sujeitos indeterminados [Es. sich verwandeln und preisgeben kann. todos os dias. que ameaça desaparecer em um certo uso da língua e que. J. 217-237. apesar de sua grandeza indefinível. sobrevive – esta seria. Man] das instâncias anônimas que não escutam nosso eu. É o milagre do eu. o eu não é produzido continuamente pela poesia. enquanto nós. transformar-se e se revelar. Ingeborg. Ao mesmo debate pertencem as palestras de Ingeborg Bachmann. 62 “Als wäre eine Fastnacht für das Ich veranstaltet. também se coloca contra Benn. cita a poesia de Nelly Sachs e Paul Celan como exemplos e. esse ninguém e alguém. em que ele pode reconhecer e enganar.] Um eu que aparece em “fantasia de louco”. como também afirma o final de sua colocação: Tais são os últimos comunicados oprimentes do eu na poesia dos quais temos notícia. dizemos “eu”.” BachMann. que ele. como se lá não falasse ninguém. P. dieses Niemand und Jemand. com uma parada em uma nova palavra? Porque não há um último comunicado. uma das principais escritoras de língua alemã do período pós-guerra. como se não fosse ninguém.ESCRITOS II 61 Ingeborg Bachmann (1926-1973). mesmo assim. P. in der es bekennen und täuschen. onde quer que fale.

Aber wird von der Dichtung nicht.63 [Trad. P. von denen wir wissen. faça ouvir a voz humana. escrito por Celan em 1958. sem credibilidade e mutilado – este eu sem garantia! E mesmo se ninguém crê nele. 63 A palestra de Bachmann pode ser compreendida como um diálogo com o discurso de Bremen. Ambos os poetas procuram definir seu lugar na literatura após Auschwitz. heute wie eh und je – als Platzhalter der menschlichen Stimme. como na refe- “Das sind die letzten bedrückenden Verlautbarungen des Ich in der Dichtung. e com Sprachgitter.. assim como se expressa. e já não. (Hg. p. seja o que for. es muß sich glauben. 65 “Woyzeck”. central para a reflexão de Bachmann. In: BÖschenstein. apesar de tudo. trotz seiner unbestimmbaren Größe. seiner unbestimmbaren Lage immer wieder das Ich hervorgebracht werden. was es auch sei. B. sich löst aus dem uniformen Chor. ou em dúvida. H. seja quem for. 273 . ambos procuram encontrar um caminho no interior de uma linguagem que se tornou duvidável por ser violentamente ideológica e ideologicamente violenta. einer neuen Lage entsprechend. daß es. die unsere Ich überhören. belächelt von den “Es” und “Man”.” (Ibid. 116-130. wer es auch sei. und wenn es sich selbst nicht glaubt. mas se distancia da imagem do “Ich in seinen Narrenkleidern” [“O eu em sua fantasia de louco”]. Bachmanns und Celans Sprechen über Dichtung zwischen 1958 und 1961. personagem da peça de mesmo nome de Georg Büchner.Weigel. ele deve crer em si. apresentada por um charlatão.]. de 1959. neste outro tempo muito diverso. P. Poetologien nach Auschwitz. porém esta é idéia que Celan questiona em Der Meridian. man muß ihn glauben. sowie es zu Wort kommt. Sua posição muda mais tarde. p. Und es wird seinen Triumph haben. J. e mesmo se ele mesmo não crê em si. lebt. S. da assembléia dos que calam. Mas Bachmann entende um “eu sem garantia” como vantagem da poesia e crê que.64 Paul Celan aceita a identificação do escritor como “Niemand”. es kann nicht sterben – ob es geschlagen ist oder im Zweifel.) Ingeborg Bachmann und Paul Celan: poetische Korrespondenzen. separa-se do coro uniforme. E terá seu triunfo. Ele identifica o “Ich in Narrenkleidern” com a arte. deve-se crer nele. von den anonymen Instanzen.. sowie es einsetzt. mit einem Halt an einem neuen Wort? Denn es gibt keine letzte Verlautbarung. aus der schweigenden Versammlung. während wir jeden Tag hartnäckig und mit dem Brustton der Überzeugung “Ich” sagen. Es ist das Wunder des Ich. quando cita Woyzeck:65 A mesma arte volta a entrar em cena. ohne Glaubwürdigkeit und verstümmelt – dieses Ich ohne Gewähr! Und wenn keiner ihm glaubt. wo immer es spricht. assim como aparece. hoje como em todos os tempos – como guardião do lugar da voz humana. GEHLE.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose não pode morrer – mesmo se destruído. als redete da Niemand. 237) 64 Cf.

Sehn Sie jetzt die Kunst: geht aufrecht. “efervescente” e “radiosa”. von einem Marktschreier präsentiert. Em Der Meridian. . veste casaco e calças. sondern neben der Kreatur und dem “Nix”.”(TCA. e. 1996. p. coloca-se contra o aniquilamento do humano. o “nada” (“Nix”) é valorizado como verdade da criatura em contraposição à arte. Leia-se o poema “Psalm” nesse amplo cenário: ele se opõe à posição de Benn. mesmo se ridicularizado e manipulado por “instâncias anônimas”. J. Portanto. que fala como um “eu” e molda a terra do tempo (“Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm. nicht mehr. hat ein Säbel” [“Olhe a criatura. auch in dieser ganz anderen Zeit.]. 176. no contexto das reflexões de Celan próximas à escrita de “Psalm”. aber es ist dieselbe. [Trad.die Kunst erscheint diesmal in Affengestalt. paradoxalmente. “Psalm” consiste no diálogo entre a criação – os poemas – e o criador – o poeta. wie sie Gott gemacht: nix. wie während jener Unterhaltung. mas antes do lado da criatura e do “Nada” que essa criatura “traz consigo” – desta vez a arte surge em figura de macaco. p. hat Rock und Hosen. tem um sabre. “brausende” und “leuchtende” Schöpfung beziehbar. mas se trata da mesma arte. nada de nada. wieder auf den Plan. relacionável com a criação “ardente”. an “Rock und Hosen” haben wir sie sogleich wiedererkannt. que reconhecemos imediatamente “pelo casaco e pelas calças”. 67 TCA. por fim. 2). à afirmação radical da presença humana e à possibilidade de sua destruição.66 A arte deve der superada por uma “individuação radical” da língua (“radikale Individuation”).]”).. das diese Kreatur “anhat”. P. p. João Barrento. Olhe agora a arte: ela vai erguida. 42].”67 [Trad. rida conversa. como Deus a fez: nada. auf die “glühende”. gar nix. questiona a utopia de Bachmann de que um eu possa continuar a viver e a escrever de maneira triunfante. A seca repetição do 274 .. “nada” e “ninguém” referem-se. Celan ainda anota mais uma frase de Woyzeck: “Sehen Sie die Kreatur.ESCRITOS II 66 “Dieselbe Kunst tritt. [. [Ninguém nos molda de novo em terra e barro. P.

prazer de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras. Lust/Niemandes Schlaf zu sein unter soviel/ Lidern” [“Rosa.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose pronome no terceiro verso seria uma reflexão sobre o nome imposto ao poeta tanto pelo debate literário quanto pela possibilidade concreta de extermínio: é um verso feito de um pro-nome. “Krone” [corola]. algo diverso do eu pretende substituí-lo.69 Embora descrita em seus elementos positivos concretos – “Griffel” [estilete]. p. Porém. Celan substitui o título “Stationen/ Nouveaux Poèmes/ Mars 1959” por “Jedermannsrose” (“a rosa de qualquer um”) e se decide por “Die Niemandsrose”. p. “queremos florescer”. “Dorn” [espinho] –. Aquele que desejam designar como “ninguém” (“Niemand”) é interpelado e louvado. M. 34. RILKE.68 relacionando-o. “Staubfaden” [estame]. A “Niemandsrose” – a “rosa de ninguém” – é o poema daquele que não se entende como ninguém. “Dir entgegen” (“Na tua direção ou de encontro a ti”) – não somente na direção de “Niemand”. Os poemas falam de si mesmos como “rosa de nada” (“Nichts-rose”).”]. mas que busca defender e afirmar a própria presença contra um uso ideológico da linguagem e contra a possibilidade real de ser aniquilado. a rosa de Celan quer se saber como vigília. “wollen wir blühn” – nós. BCA 6. ao epitáfio de Rilke: “Rose. 275 . a rosa do poema não tem pétalas: ao inverso de Rilke. dessa forma. a partir da consciência de sua desproporção em relação à tarefa de “florescer” ao encontro do tu. 38. 68 69 Cf. R. os poemas. Por isso. “por amor a ti”.2. 173. oh reiner Widerspruch. Para afirmar esta figura (“Dir zulieb”. ó pura contradição. “a favor de ti”). 9-10. Poemas. mas contra o “Niemand” como substituto de um nome verdadeiro.

[“claro-d’alma”]. ou a poesia. Diversas versões do poema mostram que Celan imaginava a poesia como o lugar de memória do efêmero: ele escreve primeiro “der Krone rot/vom Königsgespräch” [“da coroa rubra/ da conversa real”]. A rosa de Celan é ferida pela destruição: os poemas não são mais canções. uma ponta aguda. não o cantam. um céu como abismo. muda para “wir gesprochen” [“nós dissemos”]. o que permite a continuidade da poesia –.2. Oscila até a última versão entre “gesprochen” (“dissemos”). suas palavras não tematizam a dor – mas estão sobre o espinho [“über/ dem Dorn”] e dele nascem. Christine. 98. 276 .ESCRITOS II 70 Cf. Se em “Psalm” a criação poética louva seu criador. Celan risca em outra versão a possibilidade “seelenschwarz”. mais do que apontar a ausência do divino. A poesia é escrita com uma “scharfe Spitze”. p. 71 BCA 6. Seus poemas não falam sobre o aniquilamento. p. orienta-se por um céu ermo ou caótico [“himmelswüst”]. “treva-d’alma”. escreve então “das wir gewechselt /über” [“que nós trocamos /sobre”]. corrige para “Königswort” [“palavra real”]. como se dirá em outro poema (“À la pointe acérée”). caracteriza-se por sua clarividência: o estilete – também em Mandelstam um motivo poetológico70 – é “seelenhell”. ou seja. Como Lucile. a grandeza e a efemeridade do homem. Das Gedicht im Geheimnis der Begegnung. Celan luta contra a dolorosa ausência do humano. antes de se decidir para “wir sangen” [“nós cantamos”]. nota 36).71 O estame – ou seja. A rosa. IVANOVIC. “sprachen” [“dizíamos”] e “tauschten” [“trocamos”]. 235. sua “coroa” [“Krone”] testemunha a “majestade do absurdo” (Cf.

à poesia e ao efêmero. Gesammelte Werke. M. Vive le roi/ das ist das Gegenwort. – Aber das sind. und das man in dieser nur dem Anschein nach so ‘lyrischen’ Zeit immer wieder Lügen zu strafen versucht. permitiume reconhecer mais uma vez. Es gibt einen tiefwurzelnden Haß auf die Poesie – wie es einen tiefwurzelnden Haß auf das Jüdische gibt: ‘neu bzw. 73 74 CELAN. unselbständiges Wesen. Há um ódio profundamente enraizado contra a poesia – como há um ódio profundamente enraizado ao que é judeu: só é ‘novo’. p. quando procuramos escrever poemas.und Ganovenweise gesungen zu Paris emprès Pontoise von Paul Celan aus Czernowitz bei Sadagora” [“Uma modinha de vigaristas e malandros. Die Niemandsrose revela ser não as grandes palavras de Danton. Abbreviaturen (Carta de Paul Celan a Franz Wurm. G. toda sua obra se configura contra o ódio ao judaico. Vielleicht wäre es gut.. “[O fato de] que a ‘modinha de vigaristas e malandros’ pôde provocar no senhor essa recordação de infância. 13). P. P. pessoal e – de modo vitalício! – individual” [“Partikuläre. 167. o senhor viu perfeitamente.”] (Trad. Celan fala do “particular. que as filo-variantes – sit venia verbo – grassam. dependente. J. Talvez fosse bom se. daß die ‘Philo-Varianten’ .sit venia verbo – grassieren. – Das. ich weiß es. Cada palavra representa um “Viva o rei!”: uma Gegenwort contra o extermínio e um gesto de radical abertura à presença humana. abreviaturas. p. Gegen die Pest: Eine Gauner und Ganovenweise von Paul Celan. que também permanece inscrito em toda poesia e que. In: WIEDEMANN. – Esta. minhas senhoras e meus senhores. para aquilo que é particular. É o único texto em que o poeta se dá a conhecer72 para cantar. B. aktuell ist nur. J. por um tempo. 72 SCHULZ. P.].) Paul Celan-Franz Wurm: Briefwechsel. a ‘tortice do nariz’ está. die ������� ‘������ Krummnasigkeit’ steht. das auch aller Poesie eingeschrieben bleibt. cantada em Paris próximo a Pontoise por Paul Celan de Czernowitz.Abertura à presença humana: um estudo sobre Die Niemandsrose IV. é a poesia = um ser invisível. In: SPEIER. 107. wenn eine Zeitlang von den Juden geschwiegen würde – und auch von der Lyrik. (Hg. de forma irônica. ou atual.”75 [“Viva o rei/ esta é a contrapalavra. wenn wir Gedichte zu schreiben versuchen. Persönliche und – lebenslänglich! – Individuelle”] que está inscrito em toda poesia. Gedichte von Paul Celan. Paul. meine Damen und Herren. p. O primeiro ciclo de Die Niemandsrose conclui-se com um poema já desde seu título curioso – “Eine Gauner.). Poema após poema. zu einer Person gehörendes Wesen. H. Sie haben es durchaus richtig gesehen. nesse tempo só aparentemente ‘lírico’ se procura punir como mentira. für jenes Partikuläre. próximo a Sadagora”]. (Hg. ließ mich ein weiteres Mal erkennen. pertencente a uma pessoa.74 Assim. ist die Dichtung = ein unsichtbares. se calasse sobre os judeus – e também sobre a lírica.” [Trad.). – Mas isso são.73 Ao comentar o poema. como nós somos devedores de todas as coisas e experiências de nossa primeira idade. mas a palavra rebelde e amante de Lucile. wie sehr wir alle den Dingen und Erlebnissen unserer frühesten Zeit verpflichtet bleiben.. 277 . o impossível retorno da poesia alemã à musicalidade. pessoal e – de modo vitalício! – individual. P.und Ganovenweise’ bei Ihnen diese Kindheitserinnerung auslösen konnte. E o que lá canta. “Daß die ‘Gauner. Persönliche und – lebenslänglich! – Individuelle. eu sei.

223. 77-85. Vermischte Schriften. Gespräche von Text zu Text. v. I. W. S. Barrento. (Hg. Poesia expressionista alemã. Ein Bekenntnis zur Ungebundenheit. (TCA).). Hans-Michael. 1991. 2-7. 278 .] München. Psalm : esquisse d’une compréhension. 1. Gesammelte Werke in fünf Bänden. Trad. Reichert. 14. Pandemonium Gemanicum. u. Wellershoff]. B.) Gedichte von Paul Celan. Bollack. p. B. 2006. ______.-M. Coyote. p. M. A poética do silêncio. G. São Paulo: Estação Liberdade.). Frankfurt: Insel. 49. 494-532.. In: Speier. n. Paul Celan: a expressão do indizível.]. Gellhaus. J. I.ESCRITOS II 75 TCA. [S.M. BÖschenstein. J. Referências bibliográficas Adorno. l. Frankfurt am Main: Suhrkamp. D. Paul Celan: a poesia depois de Auschwitz. Zürich: Pieper.1/BCA 6. Koschel. R. C. Leuchttürme: von Hölderlin zu Celan. Winkler. Stuttgart: Reclam. 1997. Gesammelte Werke in vier Bänden [Hrsg. 217-237. 2001. CARONE. São Paulo: Martins Fontes. 2000. Essays. J. ______. [S. 83-93. T. Bollack. Axel (Hg.. p. Lisboa: Cotovia 1996. CAVALCANTI. 2001. [19-]. Die Niemandsrose. André. 2002. Benn. [Hg. WÖgerbauer. H. B.2) _____. Londrina. CARDOZO.. p.a. Revue des sciences humaines 97. 1978. (Hg. Bd.. Werke. V. p. Milheiro. Mauricio Mendonça. Frankfurt am Main: Suhrkamp. BÖschenstein. Bachmann. 1977.). Wiesbaden: Limes 1959. n. p. 175-182. Paul. Celan. J. 3. W.) Frankfurt a. (Hg. Rede. Allemann. 1. Teoria estética. Arte poética: O meridiano e outros textos. 1983. C. ARON. l. p. Bd. 1999. Hamburg: Meiner. Perspectiva: São Paulo 1979. (BCA 6. Der Meridian. Schmull.]..: Suhrkamp. (Org.

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