Introdução à história das idéias sobre o trabalho: um resumo

Suzana Albornoz

A experiência do esforço para prover à sobrevivência e enfrentar os desafios, cotidianos ou extraordinários, tem acompanhado a humanidade desde seu aparecimento, de modo que nas mais diversas culturas teceram-se modos de sentir e de pensar a respeito. Assim, também na história ocidental, na encru ilhada de culturas que conviveram em torno do !editerr"neo e do Atl"ntico, do século de ouro da #récia até o começo do nosso século $$% da chamada era crist&, o conceito de trabalho vem apresentando um movimento complexo que merece nossa atenç&o e meditaç&o. Etimologia: tripalium A etimolo'ia da palavra trabalho (á nos fa meditar. A tese predominante é de que a palavra trabalho descende do latim tripalium, que indica um instrumento de ferro com três pontas, ori'inariamente utili ado na lavoura para separar o cereal, que teve sua utili aç&o deca)da, sendo usado como instrumento de tortura. Ambos usos do tripalium parecem assombrar a palavra trabalho, enquanto lembra o instrumento da labuta, mas a ele a're'a a conotaç&o terr)vel do abuso e da violência. *m nossa l)n'ua portu'uesa, notamos facilmente que a palavra trabalho carre'a consi'o mais de uma noç&o. A primeira conotaç&o que lhe está li'ada é a de esforço, causa de fadi'a, talve sofrimento. !as lo'o adiante, percebe-se a si'nificaç&o de obra, produto do esforço, que expressa o su(eito que trabalha. *m al'uns contextos históricos, foi acentuada a si'nificaç&o positiva, de obra. !as em 'eral continua sendo a primeira acepç&o, ne'ativa, que predomina. *m muitas l)n'uas modernas - por ex. Arbeit e Werk, em alem&o, e

A história de .. foi dada pelos deuses a tarefa de criar os homens e todos os animais. *pimeteu encarre'ou-se da reali aç&o da obra. quando che'ou a ve do homem. de um lado. e de conquista. 5omo casti'o a . . Ambas as conotaç.rometeu. (á no relato da ori'em.rometeu foi 0es)odo. como a caracter)stica que o torna superior aos outros animais e o fa rivali ar com os deuses. e assim. Através desse mito percebemos o trabalho visto como força criadora.rometeu encarre'ou-se de supervisioná-la. onde todos os dias uma á'uia dilacerava o seu f)'ado. é o mito de . *m seu trabalho de distribuiç&o de caracter)sticas. a . / primeiro autor a narrar o mito de . reali aç&o e força. na tradiç&o b)blica.rometeu e *pimeteu. Religião: o mito da queda 3o lado da outra 'rande corrente que forma o que chamamos cultura ocidental. 9inalmente. sa'acidade. roubou o fo'o dos deuses e o deu aos homens.es predominantes do trabalho . Mitologia: Prometeu -ma das histórias mais expressivas. que a cada ve se re'enerava. *sse casti'o deveria durar 78. %sto asse'urou a superioridade dos homens sobre os outros animais. que dele sentem ci+me e por isso o penali am. no universo da mitolo'ia 're'a. por isso recorreu a seu irm&o . enquanto . pena e esforço.rometeu e *pimeteu é si'nificativa e tra -nos uma contribuiç&o forte para tomarmos consciência da car'a simbólica associada ao trabalho em nossa tradiç&o e cultura.or .travail e oeuvre.rometeu seria libertado de seu supl)cio por 0éracles :0ércules. no livro do #ênesis. 6eus ordenou que fosse acorrentado no cume do monte 5áucaso. que formou do barro. *ste. em francês . 4odavia. de outro .de sofrimento. .rometeu. como conseq<ência do pecado ori'inal. ent&o. da criaç&o do mundo e do homem. para resolver o impasse.nota-se facilmente a distinç&o entre estes dois conte+dos que em portu'uês convivem na mesma palavra. uma explicaç&o do trabalho como pena.ficam bem claro em certas histórias clássicas que tentam explicar os fatos primordiais da humanidade. a força. o fo'o até ent&o era exclusivo dos deuses. etc. uma carapaça protetora para um terceiro.rometeu. rapide . *pimeteu 'astara todos os recursos nos outros animais e n&o soube que fa er. *pimeteu atribuiu a cada animal os mais variados dons2 a cora'em. como a força própria do homem. 'arras a outro..888 anos. seu irm&o. 3eu asas a um. encontra-se. 1e'undo este autor clássico considerado o pai da arte da 0istória.

/pera sobre um ob(eto material ? causa material ? para lhe imprimir uma forma ? causa formal -. começaria a produ ir-se uma invers&o de valores sobre a vida contemplativa e a vida ativa.ara o pensamento anti'o. o artes&o é a causa motriz. nem é livre o trabalhador@ livre é apenas a aç&o que n&o 'era nenhum produto e n&o está determinada pela finalidade de produ ir al'o espec)fico. o trabalho artesanal.es técnicas.haver desobedecido à ordem do 5riador. . 3urante a %dade !édia. na finalidade a que se diri'e a atividade. sua causa final. um dos =três 'randes> da *scola de Atenas. A causa real da fabricaç&o n&o está na vontade ou na força do artes&o. em toda produç&o criadora. . correspondendo aos valores que o mantiveram menos honrado do que a contemplaç&o. A essência do produto cadeira n&o depende do artes&o nem do seu modo de trabalhar ou dos processos de fabricaç&o.es e. portanto. iloso!ia: Aristóteles /s preconceitos anti'os encontraram express&o também na vo dos filósofos. no produto feito. isso inte'rado ao ressur'imento da cultura anti'a.or exemplo. mas fora dele. a finalidade dá sentido e comanda o con(unto da atividade produtiva. A essência de um ob(eto é a perfeita adaptaç&o de todas as suas partes ao uso que se quer.ara a maneira 're'a de ver. um dos maiores pensadores da #récia. A finalidade de possibilitar assento e descanso é o essencial. a nova percepç&o do universo pelas descobertas cient)ficas. após a ampliaç&o das fronteiras 'eo'ráficas pelas nave'aç. Aos tempos modernos. de um lado. habilidades ou inovaç. o de servir de assento. teórica ou m)stica. n&o é uma atividade livre. no tempo do Benascimento. *ssa forma constitui ao mesmo tempo o fim de toda a operaç&o criadora ? lo'o. em que o trabalho . de n&o provar dos frutos da =árvore do conhecimento> ? metáfora bastante próxima da ima'em do =fo'o dos deuses> do mito 're'o -. por exemplo. que vai dar na obra acabada. tanto o artes&o quanto os utens)lios s&o meios instrumentais. que mantém sua influência até a atualidade. . a essência de uma cadeira é a sua adaptaç&o ao uso a ela determinado. na teoria 'eral da atividade criadora que aparece em Aristóteles. concomitantemente. e para isso. no mito ad"mico o homem é condenado a labutar com esforço e sofrimento. à necessidade que se dese(a atender com aquele ob(eto. 1e'undo a vis&o aristotélica. ou se(a. assim como a mulher recebe a puniç&o de dar à lu com dor. tomou um sentido humanista. A invers&o moderna. a vis&o filosófica com matri aristotélica predominaria na compreens&o intelectual do trabalho. para o descanso de al'uém.

/s homens definem-se pelo que fa em. e o tema tenha começado a tomar import"ncia na modernidade entre reformadores e humanistas. oposta à de !arx quanto à relaç&o entre economia e reli'i&o.passou a ser visto como express&o da força do homem. através do trabalho. em sua relaç&o com as mudanças havidas nas realidades do mundo que acompanham os pro'ressos tecnoló'icos. quando novas situaç.es materiais que determinam sua atividade produtiva. Ao processo de trabalho participam o homem e a nature a@ nele o homem inicia.es materiais entre si e a nature a@ e pelo trabalho se altera a relaç&o do homem com a nature a. econCmicas e sociais mudam a relaç&o com a tradiç&o. na cr)tica da alienaç&o do trabalho industrial na economia capitalista. !arx n&o só fe a análise exaustiva das relaç. o trabalho estava subentendido nas especulaç. / trabalho é o esforço do homem para regular seu metabolismo com a natureza e assim. 3e outro. no entanto. na qual a moral do trabalho se constrói sobre a convicç&o de que a dedicaç&o profissional é mandamento divino e di'nifica o homem. permanece válida e definitiva enquanto den+ncia da exploraç&o e da alienaç&o do trabalho no capitalismo dos séculos do desenvolvimento industrial.es dos primeiros socialistas. o homem se transforma a si mesmo. Ao século $%$.es pol)ticas.es de 0e'el sobre a dialética do senhor e do servo. controla e re'ula as relaç. o trabalho só se afirmaria como ob(eto da filosofia na época industrial. tomou um si'nificado reli'ioso. . mas em muitos textos deixa transparecer uma teoria antropoló'ica do trabalho. A análise cr)tica do trabalho no mundo industrial evoluiu. bem como foi muito presente e importante nas ima'inaç. trabalho morto. tornando-se o centro das análises de Darl !arx. com acréscimo de conceitos novos . As "i#n"ias so"iais: as humanidades modernas *mbora na anti'uidade se encontrassem pensamentos sobre a atividade criadora. em !arx o trabalho é o fator que fa a mediaç&o entre o homem e a nature a. dando assim uma nova iluminaç&o à moral crist&.como trabalho concreto e abstrato.es de trabalho na sociedade capitalista. trabalho vivo. 1obre a relaç&o entre a ética protestante e a ideolo'ia do trabalho no capitalismo é também muito relevante a interpretaç&o de !ax Eeber. 5omo para 0e'el. e a nature a dos indiv)duos depende das condiç. situando-se no "ma'o da Beforma protestante.

com suas reflex. à intempérie. como. 0erbert !arcuse. portanto.A reflex&o cr)tica sobre as realidades do trabalho continuou a desenvolver-se no século $$ entre disc)pulos e interlocutores do marxismo.es.. !oiesis é a obra da m&o humana e dos instrumentos que a imitam. Kuando muitos anos após a morte do escultor al'uém encontrar no fundo de um esconderi(o a estátua que ele fe . A condiç&o humana do labor é a vida. o trabalho na terra. %. dos hormCnios. ArendtF repensa a distinç&o 're'a das três atividades fundamentais2 labor. / exemplo é o do escultor@ por seu resultado concreto. por exemplo. ocupar um lu'ar superior a qualquer plano da vida ativa. com fim de manutenç&o e reproduç&o da vida. para repensar a condiç&o do homem moderno. de nobre a. como a de 0annah Arendt que. perec)vel. portanto.or outro lado. que complementou a análise do trabalho alienado com a do caráter alienante da produç&o e do consumo no capitalismo tardio. e recebeu também contribuiç. . e em FGHF assumiu a nacionalidade norte-americana. J dado também o exemplo do =trabalho de parto> na mulher. . e por isso.es que v&o além do marxismo. fabricaç&o. / produto desse esforço é vida e. às forças incontroláveis. em sua relaç&o com a vida do esp)rito e ante as novas realidades do mundo contempor"neo. o trabalho propriamente dito que corresponde à palavra 're'a poiesis si'nifica fa er. remete o leitor à cultura clássica. 1e a vida contemplativa parece. trabalho e ação. Bessalta a passividade dessa forma de atividade humana submissa aos ritmos da nature a. / modelo é o do camponês sobre o arado. / labor é a atividade que corresponde ao processo bioló'ico do corpo do homem pela sobrevivência. durante o tempo do na ismo precisou exilar-se.es sobre a vita activa face à vita contemplativa. às estaç. n&o é um trabalho livre. para além da vida do seu produtor. foi uma das mais destacadas cientistas pol)ticas e filósofas do século $$. esse al'uém saberá da existência de um homem naquele lu'ar e naquele F 0annah Arendt :FG8L-FGMH. A autora desenvolve uma reflex&o muito particular e inspirada sobre as cate'orias da vita activa – labor. criaç&o de um produto por técnica ou arte. As "ategorias do labor$ do trabalho%poiesis& e da ação%práxis& segundo 'annah Arendt *m A condição humana:FGHI. também esta apresenta vários n)veis de liberdade e. da musculatura autCnoma. embora dele dependa a vida de quem trabalha. e corresponde ao artificialismo da existência humana. 4endo nascido na Alemanha em fam)lia de ori'em (udia. poiesis e práxis . o fazer do artista adquire a qualidade da permanência e se torna presença no mundo. para a referida tradiç&o 're'a.

A&o apresenta um produto concreto. 9. ou se(a. Arendt também analisa a marca da cultura (udaica e crist& na concepç&o ocidental da condiç&o humana. Aos primeiros tempos do cristianismo o trabalho continuou a ser visto como puniç&o. n&o possui a permanência da fabricaç&o. 0annah Arendt criticou a forma de !arx encarar o trabalho. devia ser alternado com a oraç&o e limitar-se à satisfaç&o das necessidades básicas da comunidade. das din"micas de adaptaç&o e de expans&o. II( enomenologia e éti"a do trabalho e do "uidado na re!le)ão de *u+tendi. que em 'eral se acham distribu)das entre homem e mulher. o econCmico antes do pol)tico. e é considerado um dos fundadores da antropolo'ia psicoló'ica. A mundanidade é a condiç&o humana do trabalho.N. Aos mosteiros medievais. o trabalho se apresentava como casti'o. onde se discutem os interesses. Aa tradiç&o (udaica.*m sua obra A "ulher – seus modos de ser. as paix. labuta penosa à qual o homem foi condenado. 3ebitário da fenomenolo'ia hermenêutica. com influência da fenomenolo'ia.es de !arx e Arendt. embora servindo à sa+de do corpo e da alma. a vo e a palavra do homem.es muito concretas que se referem ao conv)vio entre concidad&os. as quest.tempo. criador e livre.or sua ve . portanto. é a da valoraç&o relativa do trabalho e do ócio como ocasi&o de reali aç&o do homem. . o que reforçaria a tendência do mundo industrial à transformaç&o de toda atividade em labor e à diluiç&o do pol)tico no social. à resoluç&o dos conflitos e à conquista da harmonia.N.es. OuPtendi(QR defende a tese da existência de uma diferenciaç&o básica encontrável na atividade humana. meio de expiaç&o do pecado ori'inal. a ação ou práxis se exerce diretamente entre os homens sem a mediaç&o das coisas nem da matéria. que estariam em relaç&o com os 'êneros humanos. . autor holandês que viveu de FIIM a FGMS. A tens&o permanente em toda a reflex&o sobre o trabalho. /s ob(etos fruto da fabricaç&o ou poiesis criam o mundo humano. basicamente pelo fato de a análise marxista priori ar a produç&o em detrimento da aç&o. de parecer e de existir. sobretudo de certa conceituaç&o desenvolvida na obra #er e R 9rederiQ Nacobus Nohannes OuPtendi(Q. masculino e feminino. que ainda aparece na polari aç&o entre as interpretaç. J o "mbito da vida pol)tica. 5orresponde à condiç&o humana da pluralidade e reali a a liberdade. em cu(os entrelaçamentos se manteve a prima ia da teoria sobre a atividade e o menospre o do trabalho manual. J o dom)nio da vida ativa em que o instrumento é o discurso.

a qual só obtém pela dominaç&o. a existência concreta mostra uma oposiç&o fundamental da din"mica dos 'êneros humanos. mas na =coexistência> e no =respeito>2 é submissa. que seu trabalho imp. 7 Acaba de ser publicada uma traduç&o brasileira desta obra pela 5oleç&o 9epraxis. e uma din"mica de expans&o a'ressiva se li'a aos (o'os de meninos. o obstáculo. na -niversidade 9ederal de .de quereres.or sua ve .e uma aç&o de forma intencional. o trabalho é. . claramente representado e independente da aç&o.tempo por !artin 0eide''er. / cuidado como tal n&o está orientado para um fim@ fixa-se sobre o ob(eto do cuidado. suscitá-los. A existência se torna submissa. que o coloca diante do modo de ser que se apresenta como o do cuidado. mas inevitável. no =dever>. Ao cuidado ? que se li'a à palavra latina cura -. tende a descobrir esses valores . o livro A mulher. suscitado pelo en'a(amento da pessoa que tem preocupaç&o e cuida. / mundo dado é compreendido como um sistema de meios em vista de um fim. fora de si. *m sentido literal. o material adequado. 9orma uma existência em que se sucedem tens&o e repouso. nos convida para um caminho de reflex&o sobre o fenCmeno do trabalho. poderes e deveres.e. A&o consiste no =poder>. obediente e doce. ao conhecimento emp)rico-racional ? mas também à solid&o. a oposiç&o dos sexos manifesta-se na diferença de dois atos que distin'uimos provisoriamente como trabalho e cuidado. diferença essa que se mostra desde a inf"ncia e aparece nos (o'os das crianças. exprime-se uma consciência penetrada da presença concreta dos valores2 a existência sob o modo do nós e da coexistência com o outro. pois destrói a relaç&o intersub(etiva entendida como simpatia ou amor. um fa er. Aos adultos. coordenada por Avelino da Bosa /liveira. *ste ob(eto está no coraç&o das atividades do cuidado.. pois. com a qual tive ocasi&o de colaborar. em que a consciência se fixa sobre um ob(etivo.a conservá-los. o instrumento. mesmo se nada produ :se. -ma ló'ica interna requer que o trabalho redu a a existência à ob(etividade. obediente.e-se à do trabalho. atenta. no =querer>. se limita a quebrar. * assim. à positividade. quando uma din"mica de adaptaç&o se expressa nos brinquedos mais comuns entre as meninas. . / trabalho sup. acrescentá-los. / mundo do cuidado é o dos valores reais e poss)veis.elotas ? B1@ traduç&o de 4eófilo #alv&o e revis&o de /smar 1chaefer. e em que esta mesma sucess&o constitui uma existência sólida . o trabalho tende sempre a produ ir uma transformaç&o. e o trabalho é diri'ido para um resultado final. / cuidado é uma maneira de ficar perto das coisas. /s valores tornam-se relativos diante do que o trabalhador denomina utilidade2 se'undo o qual distin'ue o insi'nificante. ou o meio desfavorável. por exemplo. 1e'undo o autor. de cora'em e de êxito. a estrutura do cuidado op. / mundo do trabalho é um mundo de obstáculos. desinteressada.

o cuidado encontra o mundo como valor e fonte de valor e. o viril aparece na ética associando o dever. ficariam ocultos. a nature a do cuidado está na ori'em de um mundo e de uma ética muito diferente. portanto. antes de tudo. / trabalho está na ori'em de certa ética e de certa sensibilidade. submetendo-se a elas. o cuidado só é pleno se tomar o ser humano como ob(eto ? em particular. sob o modo de nós. A&o existe somente permanência no interior das coisas. a criança. a sociedade se constitui se'undo as normas éticas do comando e da obediência. aquele que cuida e aquele que se cuida2 apelo do coraç&o ao coraç&o. visa sempre a um mundo de valor. coexistência com o outro. 1eu ob(eto é..es de comandar e obedecer s&o como que exemplares e marcam a história humana que. A existência feminina. o esforço. / mundo do cuidado é o do valor. em +ltima inst"ncia. de sacrif)cio. 'raças ao cuidado. o humano. encarnados na reali aç&o de um ob(etivo. mesmo se n&o permanece (unto das coisas. em torno das noç.adaptando-se a elas. J pela noç&o do dever que o mundo masculino se constitui em sua estrutura ética. e é tanto mais autêntico quanto mais o encontro for ele mesmo. Kuando se encontra a virilidade expressa em uma existência humana :que pode ser i'ualmente a existência concreta de uma mulher. inserindo-se nelas.es de comando e obediência. 1eu ato está penetrado da ética e da sensibilidade em 'eral consideradas femininas. de potência e impotência. é uma conduta normativa pela qual a existência se dá uma estrutura moral. / cuidado autêntico coloca necessariamente em presença. de abandono. / ato feminino. 3e outro lado. 4rabalhar n&o é somente um modo particular de a'ir. apresenta uma caracter)stica viril. de outro modo. como coisa incompleta em relaç&o a suas próprias possibilidades. 1ó pode efetivar-se no encontro. 3ebruça-se sobre as coisas que reclamam seus cuidados. As aç. Aa verdade. que nada tem a ver com sentimentalismo. Aquele que cuida n&o se limita a estar perto das coisas. à reali aç&o do ser humano. que permite conhecer o valor real e poss)vel dos ob(etos2 o cuidado experimenta este conhecimento como participaç&o. o que se pensa como humano. 3e acordo com a din"mica masculina. mas din"mica de adaptaç&o. a vontade. esperando e prevendo2 tem fé e confiança de que o cuidado e a coexistência far&o sur'ir valores que. a obediência. portanto. Aascido da din"mica da adaptaç&o e alimentado por ela. . cu(o valor aumenta pelo cuidado. dá testemunho de uma exi'ência moral feita de amor desinteressado. a cora'em. por isso. recurso real à liberdade e.

nem que se(a por um instante :ex. encontra um ponto de questionamento interessante no manifesto de . porém. . foi invertida entre os modernos. OuPtendi(Q reconhece que n&o há como ne'ar que o próprio trabalho. 3e modo muito próprio. quando ao poder de automaç&o da produç&o industrial se (untou o alto desenvolvimento tecnoló'ico das comunicaç. J claro. assim como o de outras atividades associadas ao cuidado. se ele n&o fosse contextuali ado numa sociedade =pós-industrial> ? chame-se de =sociedade de conhecimento> ou de =sociedade de comunicaç&o> ou de =sociedade de espetáculo> ? com todas as caracter)sticas do nosso tempo.Assim. outra nuance precisa ser destacada. A =balança dos valores> do ócio e do trabalho que. !uitas ve es se imp. se'undo os interesses do sistema de produç&o. cu(o sentido só com dificuldade é reconstru)do. conhecendo o laço que une o cuidado e o amor desinteressado. * observando o outro lado da quest&o. de acordo com as tradiç.es da filosofia e do humanismo. pode-se di er que o trabalho se situa 'eralmente na ética do dever e da obediência. e conhecendo o ob(eto do cuidado. III( /o0as 1ossibilidades de tem1o li0re e lazer A&o se obteria uma vis&o completa da problemática do trabalho nos nossos dias. em conclus&o. 4al pode ser o destino da enfermeira.e à mulher certa forma de trabalho que se enfeita com o nome de cuidado.aul Tafar'ue U $ direito % preguiça. por exemplo. quando se impCs como ética 'eral predominante na sociedade moderna. J incontestável que o cuidado e a solicitude est&o presentes nestas atividades. como o da educadora na escola maternal. insti'ando à luta pela diminuiç&o da (ornada de trabalho. na ética do amor e do sacrif)cio. Tafar'ue chamou a atenç&o para o fato de haver a ideolo'ia do trabalho conquistado a classe operária. muitas ve es a situaç&o social se or'ani a de tal modo que a) se encontra apenas um trabalho fati'ante e descont)nuo. .or mais lon'e que o trabalho fixe seu ob(etivo. o autor fa a cr)tica da ideolo'ia do trabalho predominante na sociedade bur'uesa mesmo entre os trabalhadores. também tra consi'o al'uns elementos de cuidado. pois se percebe também a existência de um pseudo cuidado. (amais pode atin'i-lo sem estar atento ao dado imediato. no qual. a atividade dentro da din"mica masculina da expans&o a'ressiva. e o cuidado..es.2 o cuidado do trabalhador com os utens)lios. tal como era na anti'uidade.

al'umas interpretaç. uma ve que se acumulam os Cnus psicoló'icos e ainda se evidenciam novos tipos de sacrif)cios f)sicos também li'ados ao trabalho predominantemente intelectual ou imaterial. ou ser entre'ue ao dolce far niente. a pol)tica.es extempor"neas e parecem afins com as utopias. e est&o dadas como tarefas para o futuro. isto é. entendido como tempo livre do trabalho. esportivo ou art)stico e cultural. todavia. imp. do ócio criativo ou do la er cultural que trabalha no sentido do desenvolvimento humano. ou ser posto a serviço de atividades criativas. tem sido a inspiraç&o básica da monumental construç&o cr)tica do capitalismo. de !arx e do marxismo até a chamada teoria cr)tica li'ada à *scola de 9ranQfurt.em-se ho(e per'untas que a história do conceito de trabalho n&o responde. *sse sonho do mundo da liberdade.or outro lado. se n&o propriamente produtivas. a criatividade no "mbito do conv)vio e do la er. A vis&o que pode parecer utópica. ante os desafios do mundo do trabalho pós-industrial2 1erá o trabalho o +nico modo (usto e di'no de prover à sobrevivênciaV 1erá o modo principal de dar sentido à vidaV 1erá o +nico ou o melhor meio de al'uém se fa er reconhecer como cidad&o e como pessoa de bemV /u poderia ser mais valori ada a dedicaç&o à fam)lia e aos ami'os. como indicado na express&o =ócio criativo>@ finalmente. onde urdem sua teia as utopias entendidas em seu sentido positivo. os serviços voluntários. onde o trabalho vivo se liberta e o trabalhador pode tornar-se ao mesmo tempo camponês. mas que também. por outro lado. .es do momento repercutem como antecipaç. a arte pela arte. pois n&o parecem descrever a realidade efetiva e o que anunciam ainda n&o se tornou realidade em 'rande parte do mundo atual. a vida do esp)ritoV .Kuando a automaç&o toma formas nunca antes ima'inadas. . a participaç&o em atividades comunitárias. tal qual se pode encontrar na concepç&o de utopia concreta exposta na obra de *rnst Oloch. ao estudo. dedicar-se ao pensamento. pode ser dado à aç&o comunitária ou pol)tica. com a revoluç&o cibernética e as novas tecnolo'ias de comunicaç&o. situa-se. pol)tico e filósofo. A realidade. além disso. se n&o é inteiramente realidade ou apresenta-se como possibilidade restrita apenas a uma parte privile'iada da humanidade. ainda parece ne'ar esse an+ncio do novo tempo livre. da superaç&o da exploraç&o do trabalho.or isso. à arte. confortavelmente no plano da possibilidade. pode transformar-se em tempo de la er. também cabe inda'ar2 A era do trabalho estará no fimV Assim se pode pensar ao ver crescer cada ve mais o =tempo livre>. naquela fran(a onde se elabora o real poss)vel. da libertaç&o do excesso de esforço na produç&o. que pode ser utili ado para apenas repor as forças materiais para a volta ao trabalho. o esporte. o que (á é al'o mais.

somente quando se reconhecer que o homem trabalhador é mais do que seu trabalho será poss)vel construir um novo conceito de criatividade humana que habilite a dar respostas para as novas situaç. que ho(e é visto. transformou-se em ind+stria. ainda mais. da falta de recursos para a sobrevivência di'na. percebe-se que o "mbito do la er. como assinalava Arendt em seus estudos sobre a evoluç&o da atividade produtiva na perspectiva da condiç&o humana. n&o só às crianças e aos enfermos. como centro e ra &o do sentido da vida e da coes&o social.es cr)ticas nos ensinam sobre esse outro lado da quest&o do valor do trabalho e da vita activa na modernidade. que talve lhes possam oferecer respostas recebidas de sua tradiç&o. Ao mesmo tempo. nas mais diversas situaç. conseq<entemente. A maioria dos homens e mulheres de ho(e. exi'indo-se novas formas de preparaç&o profissional. na qual o ócio ocupava a melhor parte.Aestes tempos de mudança do capitalismo tardio. exi'indo novas formas de cuidado. quando se transforma a pir"mide etária. no entanto. aumenta a expectativa de vida e amplia-se o acesso aos serviços de prevenç&o e de terapia. re(eitam e temem o hori onte de um mundo em que diminui a necessidade de trabalho. de um lado. os operários reclamam por trabalho. facilitado pela invenç&o tecnoló'ica. Aesta situaç&o complexa. e de outro. na sociedade 'lobali ada do capitalismo tardio.es provocam muito especialmente a filosofia prática e a reflex&o sobre a educaç&o. tanto para a cr)tica da ideolo'ia do trabalho como para a exploraç&o ima'inária das possibilidades abertas pelo novo tempo livre. as respostas da moral e do humanismo precisam ser repensadas em relaç&o com o la er. é preciso revisar o que as reflex. com os recursos da criatividade própria da experiência da humanidade. assim. sente-se a ameaça do desempre'o. quando se inverteu a valoraç&o tradicional anti'a e medieval. ainda pela maioria das pessoas. os contraditórios problemas tra idos pelas novas situaç. embora se vislumbre a possibilidade de superaç&o do esforço na produç&o industrial. a sombra da dependência e. mas aos idosos em maior n+mero. porque isso si'nifica diminuiç&o do empre'o e. Aestas novas circunst"ncias desafiadoras. de alienaç&o ideoló'ica e. fonte de trabalho. como é o caso dos serviços li'ados à educaç&o e à sa+de.es sociais. entretanto. em al'uns setores especiais dos serviços o trabalho n&o diminui. quando a alta automaç&o provocada pelas sofisticadas tecnolo'ias exi'e menos tempo e menos esforço f)sico para a produç&o necessária. 4al desencontro entre a condiç&o ob(etiva e o sonho mais anti'o apresenta-se como um desafio ao pensamento dos humanistas. mas dever&o inventar novas respostas.es desse tempo em que o fantasma do desempre'o assombra a (uventude. 3esse modo. 1em d+vida. .

aulo2 *d-nespW0ucitec. v. de existir.aulo. 9*. 1&o .-$ (5(5( A mulher seus modos de ser. R888. R88L. .aulo2 . R88F. 6e Masi$ 6( $ +cio criativo. Arendt$ '( A condição humana. n. R888. 1&o .F. 1&o . (adernos de !sicologia #ocial do )rabalho.a e 4erra.. 'uizinga$ 5( . R88HWR88L. FGGG. 4a!argue$ P( $ direito % preguiça. 3as Tetras. R8F8.F7.elotas2 5ol.Re!er#n"ias e indi"aç2es bibliogr3!i"as Albornoz$ S( $ &ue ' trabalho. *u+tendi. R8F8. Ritter$ 5( . IG-F8F. de aparecer. FGMG. romm$ E( $ conceito marxista do homem. 3armstadt2EO#. Albornoz$ S( =4empo livre e humani aç&o>. .etrópolis2 Xo es. 1&o . Bio de Naneiro2 6ahar. 1&o . R88I :FGIL. pp. 9eber$ M( A 'tica protestante e o. -1.omo ludens. FGMF.raxis W-9. *o!!$ 4( #aber cuidar.esp*rito/do capitalismo. Bio de Naneiro2 . 1&o . FGIF. . Mar"use$ '( A ideologia da sociedade industrial.erspectiva. *lo"h$ E( $ princ*pio esperança.-5BN.el. Bio de Naneiro2 6ahar. FGLG. R88I. Bio de Naneiro2 5ontrapontoW*d. 1extante2 Bio de Naneiro.aulo2 5ia. 7ernant$ 5(8P( "ito e pensamento entre os gregos..aulo WBio de Naneiro2 *dusp W9orense.aulo2 Orasiliense.istorisches W-rterbuch der !hilosophie.

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