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TEMPO COMUM. VIGÉSIMA NONA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

51. MUITO LHE SERÁ PEDIDO


– Responsabilidade pelas graças recebidas.

– Responsabilidade no trabalho. Prestígio profissional.

– Responsabilidade no apostolado.

I. DEPOIS DE JESUS ter falado sobre a necessidade de se estar vigilante,


Pedro perguntou-lhe se se referia a eles, aos mais íntimos, ou a todos1. E o
Senhor voltou a insistir em que o momento em que Deus nos chamará para
prestarmos contas da herança que recebemos é imprevisível: pode acontecer
na segunda vigília ou na terceira..., a qualquer hora.

Por outro lado, respondendo a Pedro, esclarece que o seu ensinamento se


dirige a todos, e que Deus pedirá contas a cada um conforme as suas
circunstâncias pessoais e as graças que recebeu. Todos temos que cumprir
uma missão aqui na terra, e dela teremos que responder no fim da nossa vida.
Seremos julgados conforme os frutos, abundantes ou escassos, que tenhamos
produzido. O Apóstolo São Paulo recordará aos cristãos dos primeiros tempos:
É necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para
que cada um receba o que é devido pelas boas ou más obras que tenha feito
enquanto esteve revestido do seu corpo2.

O Senhor termina as suas palavras com esta consideração: A todo aquele a


quem muito foi dado, muito lhe será exigido, e àquele a quem muito foi
confiado, muito lhe será pedido. Quanto nos foi confiado? Quantas graças,
destinadas a outros, quis o Senhor que passassem pelas nossas mãos?
Quantos dependem da minha correspondência pessoal às graças que recebo?
Esta passagem do Evangelho que lemos na Missa é um forte apelo à
responsabilidade, pois todos recebemos muito. “Cada homem, cada mulher –
escreve um literato – é como um soldado que Deus destaca para velar por uma
parte da fortaleza do Universo. Uns estão nas muralhas e outros no interior do
castelo, mas todos devem ser fiéis ao seu posto de sentinela e não abandoná-
lo nunca; caso contrário, o castelo ficará exposto aos assaltos do inferno”.

O homem e a mulher responsáveis não se deixam anular por um falso


sentimento de incapacidade pessoal. Sabem que Deus é Deus e que eles, pelo
contrário, são um monte de fraquezas; mas isso não os retrai da sua missão na
terra que, com a ajuda da graça, se converte numa bênção de Deus: na
fecundidade da família, que se prolonga muito além daquilo que os pais podem
divisar com o seu olhar; na paternidade ou maternidade espiritual, que se
cumpre de uma maneira toda particular naqueles que receberam de Deus uma
chamada para uma entrega total, e que tem uma imensa transcendência para
toda a Igreja e para a humanidade..., no cumprimento dos afazeres diários –
para todos –, através dos quais se realiza plenamente a vocação cristã.
“És, entre os teus, alma de apóstolo, a pedra caída no lago. – Provoca, com
o teu exemplo e com a tua palavra, um primeiro círculo...; e este, outro... e
outro, e outro... Cada vez mais largo.

“Compreendes agora a grandeza da tua missão?”3

II. A RESPONSABILIDADE – capacidade de dar uma resposta a Deus – é


sinal da dignidade humana: só uma pessoa livre pode ser responsável,
escolhendo em cada momento, entre as várias possibilidades, aquela que é
mais consentânea com o querer divino e, portanto, com a sua própria
perfeição4.

A responsabilidade de uma pessoa que vive no meio do mundo gira em boa


parte em torno do seu trabalho profissional, através do qual dá glória a Deus,
serve a sociedade, consegue os meios necessários para o sustento da família
e realiza o seu apostolado pessoal.

Durante o seu curto pontificado, João Paulo I contou numa ocasião um


episódio ocorrido com um professor de muito prestígio da Universidade de
Bolonha. Certa vez, o professor foi chamado pelo ministro da Educação que,
depois de conversar com ele, convidou-o a permanecer mais um dia em Roma.
O professor respondeu: “Não posso, amanhã tenho que dar uma aula na
Universidade e os alunos esperam-me”. O ministro disse-lhe: “Eu o dispenso”.
E o professor: “O senhor pode dispensar-me, mas eu não me dispenso” 5. Era
sem dúvida um homem responsável. Era daqueles, comentava o Pontífice, que
podiam dizer: “Para ensinar latim a João, não basta conhecer o latim; é
necessário também conhecer e amar João”. E também: “A lição vale o que
valer a preparação”. Certamente, era um homem que amava muito o seu
trabalho. Quantas vezes teremos de dizer: “Eu não me dispenso”..., ainda que
as circunstâncias nos dispensem!

O sentido de responsabilidade levará o cristão a lavrar um prestígio


profissional sólido se ainda está estudando ou formando-se no seu ofício, a
conservá-lo se se encontra em pleno exercício da profissão, e a cumprir e
exceder-se nessas tarefas. Isto é válido também para a mãe de família, para o
catedrático, para o escriturário, etc.

“Quando a tua vontade fraquejar diante do trabalho habitual, lembra-te uma


vez mais daquela consideração: «O estudo, o trabalho, é parte essencial do
meu caminho. O descrédito profissional – consequência da preguiça – anularia
ou tornaria impossíveis as minhas tarefas de cristão. Necessito – assim Deus o
quer – do ascendente do prestígio profissional, para atrair e ajudar os outros».

“Não duvides: se abandonas o teu trabalho, afastas-te – e afastas outros –


dos planos divinos!”6

III. A TODO AQUELE a quem muito foi dado... Pensemos nas inúmeras
graças que recebemos ao longo da nossa vida – longa ou curta –, naquelas
que conhecemos palpavelmente e nessa infinidade de dons que nos são
desconhecidos. Pensemos nos bens que teríamos de repartir a mãos cheias:
alegria, cordialidade, ajudas pequenas, mas constantes... Meditemos hoje se a
nossa vida é uma verdadeira resposta ao que Deus espera de nós.

Na parábola que lemos na passagem do Evangelho de hoje, o Senhor fala


de um servo irresponsável que tinha como justificativa para a sua má
administração uma ideia errada: O meu senhor tarda em vir. O Senhor já
chegou e está todos os dias entre nós. É para Ele que dirigimos diariamente o
nosso olhar, a fim de nos comportarmos como filhos diante do Pai, como um
amigo diante do Amigo. E quando um dia, no fim da vida, tivermos que prestar
contas de como administramos os bens que nos foram confiados, o nosso
coração se encherá de alegria ao ver essa fila interminável de pessoas que,
com a graça e o nosso empenho, se aproximaram do Senhor.
Compreenderemos que as nossas acções foram como “a pedra caída no lago”,
pois tiveram uma imensa ressonância à nossa volta. Tudo isso graças à
fidelidade diária aos nossos deveres – talvez não muito brilhantes
externamente –, à oração e ao apostolado simples, mas firme e constante, com
os amigos, com os parentes, com aqueles que passaram perto da nossa vida.

O próprio Jesus anunciou aos seus discípulos: Em verdade, em verdade vos


digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará
outras ainda maiores, porque eu vou para o Pai7. Santo Agostinho comenta
assim estas palavras do Senhor: “Aquele que crê em mim não será maior do
que Eu; mas Eu farei então coisas maiores que as que faço agora; farei mais
através daquele que crê em mim do que faço agora por mim mesmo” 8. Quantas
maravilhas não leva o Senhor a cabo através da nossa pequenez, quando nós
o deixamos agir!

As obras ainda maiores a que o Senhor alude “consistem essencialmente


em dar aos homens a vida divina, a força do Espírito Santo e, portanto, a sua
adopção como filhos de Deus [...]. Com efeito, Jesus diz: porque eu vou para o
Pai. A partida de Jesus não interrompe a sua actividade salvadora: assegura o
seu crescimento e expansão; não significa que o Senhor se separa dos seus
eleitos, mas que está presente neles, de um modo real, ainda que invisível. A
unidade com Ele – ressuscitado – é o que os torna capazes de realizar obras
ainda maiores, de reunir os homens com o Pai e entre si [...]. De nós depende
que Jesus volte a passar pela terra para cumprir a sua obra: Ele actua através
de nós, se o deixamos agir.

“Para vir pela primeira vez à terra, Deus pediu o consentimento de Maria,
criatura como nós. Maria acreditou: deu o seu consentimento total aos planos
do Pai. E qual foi o fruto da sua fé? Pelo seu “sim”, o Verbo se fez carne n’Ela
(Jo 1, 14) e tornou-se possível a salvação da humanidade”9. Pedimos também
a Nossa Senhora que nos ajude a cumprir tudo aquilo que o seu Filho nos
encomendou: um apostolado eficaz no ambiente em que nos encontramos.
(1) Lc 12, 39-48; (2) 2 Cor 5, 10; (3) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 831; (4)
São Tomás de Aquino, Comentário à Epístola aos Romanos, II, 3; (5) cfr. João Paulo I,
Angelus, 17.09.78; (6) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 781; (7) Jo 14, 12; (8)
Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de São João, 72, 1; (9) Chiara Lubich, Palabra que
se hace vida, págs. 82-83.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)