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História, Política e Revolução em Eric Hobsbawm e François Furet Priscila Gomes Correa Pós-graduanda DH-FFLCH- USP

A ideologia política no decorrer do século XX conquistou um lugar de extraordinária importância na sociedade, estando presente nas grandes decisões dos governantes, nas transações socioeconômicas da sociedade civil e, sobretudo, invadindo o cotidiano do mais simples dos homens da mais periférica das regiões por meio da comunicação e propaganda de massa. Essa idéia perpassa as obras de Eric Hobsbawm e de François Furet, cuja consagração e influência atingiu, inclusive, o grande público no século que, em sua maior parte, coincide com o período de suas vidas. Partindo dessa preocupação inerente aos estudos dos dois historiadores, apresentam-se como frutíferas a interpretação historiográfica e a análise das trajetórias intelectuais de ambos. Para isso selecionamos as seguintes fontes: A Era das Revoluções (1962), Ecos da Marselhesa(1990), Era dos Extremos (1994) e Sobre História (1997) de Hobsbawm; A Revolução Francesa (1965), com Richet, Pensando a Revolução Francesa (1978), A Oficina da História (1982) e O Passado de uma Ilusão (1995) de Furet. Diante da peculiaridade de lidar com fontes (obras historiográficas) diferenciadas, nossa proposta temática e a natureza de tais fontes exigem algumas considerações mais detalhadas sobre a metodologia pertinente. Situarmos o problema da relação entre o intelectual e a política seria o primeiro passo para elaborarmos um método adequado para lidar com os documentos selecionados. O locus de nosso estudo é a questão da política no pensamento historiográfico, por conseguinte, cabe lembrar que o conceito de política está ligado ao de poder e, neste caso, o poder ideológico, que se exerce sobre as mentes pela produção e transmissão de idéias, de símbolos, de visões de mundo e de ensinamentos práticos mediante o uso da palavra1. Como sabemos, o historiador é um intelectual investido de uma certa autoridade e, conseqüentemente, a política está presente em seu discurso histórico, mas como destacou Norberto Bobbio, trata-se de uma política própria da cultura, e por se realizar no longo prazo não coincide com a política dos políticos2. Diante disso, a
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BOBBIO, N. Os Intelectuais e o Poder: Duvidas e Opções dos Homens de Cultura na Sociedade Idem Ibid. p 102

Contemporânea. São Paulo, UNESP, 1997. p15
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Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SPUNICAMP. Campinas, 6 a 10 de setembro de 2004. Cd-rom.

p 16 Cf. G. ANPUH/SPUNICAMP. como atores históricos. através da forma como aquele é expresso. o esclarecimento do sentido dos termos que usamos é um elemento importante. J. D. certas determinações exteriores7. pela crítica de interpretação. portanto. se sustenta na confluência entre historiografia e história intelectual ou das idéias. esta será possível mediante o que consideramos o foco temático e metodológico deste estudo. a obra de história é. 1981. 1998. conteúdos. Intelectual (História). “nos possibilitará considerar o modo pelo qual os jogadores exploraram as regras uns contra os outros e. Editora da Universidade de Brasília. Edusp. A.” p. por meio de um pensamento sistemático. JULIA. pode-se abordar os participantes do debate historiográfico/político. (org. .) Dicionário das Ciências Históricas. em função dos limites deste trabalho.6 Por outro lado. J. Assim. pois atuando no âmbito da historiografia buscamos. em especial a sua orientação semântica. 6 a 10 de setembro de 2004. Analise Política Moderna. Contudo. o exercício sistemático de comparação e confrontação8. Rio de Janeiro. História das idéias porque visa compreender como a produção intelectual (do historiador) traduz. no devido tempo. Deste ponto de vista. R. a história resgatada de seu debate5. Cd-rom. Na formulação desse autor o domínio dessas linguagens ou regras do jogo. R. Nosso estudo. julgada a partir de sua dupla condição de bibliografia e documento. Aqui. de Janeiro. ou seja. estaremos contemplando a evolução do pensamento histórico e a prática social dos historiadores. sobretudo. realizaremos 3 4 DAHL. Brasília. visto que atuando em uma diversidade de contextos “lingüísticos” (modos de discurso estáveis. os procedimentos apresentados acima não dão conta da erudição crítica. 31 5 6 7 Idem p 23 Idem p 54 CHARTIER. Campinas. Historiográfico porque versa sobre uma questão que diz respeito a configuração de seus domínios. (org.) Passados Recompostos: Campos e Canteiros da História. Linguagens do Ideário Político. as proposições empíricas são abordadas através da bibliografia.2 análise política também é um rico instrumento de trabalho. Esse tipo de análise permite um mapeamento da cultura política na qual atuam nossos dois autores. um jogo definido por uma estrutura de regras4). POCOCK. pois como destacou Robert Dahl. p 37 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. Imago Editora. Rio BOUTIER. São Paulo. como atuaram sobre as regras com o resultado de alterá-las. os nexos entre o discurso e o social. A. 2003. In BURGUIERE. pois. métodos e práticas. da decomposição do texto à sua recombinação como articulação da consciência do autor e como um ato de comunicação em um continuum discursivo que envolve outros autores. já que muitos desses termos não possuem uma definição aceita ordinariamente3. 1993 p 446-452 8 UFRJ.

Afora as inegáveis divergências ideológicas e até mesmo teórico-metodológicas. *** Com trajetórias intelectuais marcadas pelo posicionamento político. Eminente estudioso da história mundial e de movimentos populares. Cd-rom. Cabe destacar. . Companhia das Letras. Deste modo. Brecht e Marx. as trajetórias de Hobsbawm e Furet apresentam algumas semelhanças como. duas perspectivas diferentes sobre os mesmos temas. já demonstrando seu interesse por uma ampla e variada gama de temas e objetos de estudo. um alentado e seminal estudo sobre a crise do século XVII e. quando. Eric Hobsbawm. iniciou seus estudos em Cambridge na década de trinta. que ajudou a fundar. foi aclamado como o maître à penser da historiografia da Revolução francesa. uma verdadeira hegemonia. ANPUH/SPUNICAMP. publicou em dois números consecutivos da revista Past and Present. 6 a 10 de setembro de 2004. Hobsbawm acabou iniciando sua produção historiográfica na década de cinqüenta. por exemplo. 2002 p 27-73 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. que naturalmente se tornou a principal das paixões do jovem estudante dedicado à leitura de Karl Kraus. Hobsbawm explica sua permanência no Partido até hoje em função desse primeiro contato com o sonho da Revolução de Outubro. seus dois primeiros livros. ao contrário. Eric Hobsbawm se tornou um dos principais representantes daquela que se conhece como a historiografia marxista britânica. seu trabalho não motivou a formação de escola. tornou-se o principal representante de um grupo de historiadores liberais (geralmente anticomunistas) que se dedicaram à realização de uma verdadeira revisão da historiografia revolucionária francesa. François Furet. nas últimas duas décadas. seu romântico engajamento pela causa da revolução mundial9. Tempos Interessantes: Uma Vida no Século XX. na década de oitenta. Rebeldes Primitivos e História Social do Jazz. muitas vezes. desenvolvendo estudos históricos em paralelo com reflexões sobre a sociedade contemporânea. esses dois historiadores se posicionaram em campos opostos. Hobsbawm (comunista) e Furet (anticomunista). nascido em 1917.3 primordialmente um levantamento das trajetórias intelectuais de ambos os historiadores assinalando a presença da política e do debate ideológico. em 1954. Em conseqüência de seu envolvimento no movimento antifascista durante a guerra. fornecendo-nos. E. mas arrebanhou um amplo consenso. em 1959. viveu os infortúnios do entreguerras e a utopia do antifascismo. não obstante sua inegável influência. Campinas. filiando-se ao Partido comunista em 1936. o ingresso em carreiras acadêmicas. engajaram-se na compreensão de seu ‘presente’. tendo sua interpretação conquistado. Tratavase de uma era engolfada pela política. São Paulo. a participação de Hobsbawm no grupo de 9 HOBSBAWM.

filiando-se ao Partido comunista em 1947. Hobsbawm e Furet. a história vista de baixo. filho da elite republicana francesa. Jean-Maurice de. Dobb.4 historiadores marxistas vinculados ao Partido comunista. hoje quase um clássico. esses historiadores tomaram lugar nos 10 KAYE. já em 1944 se envolveu com as forças da Resistência. quando. ainda historiadores desconhecidos do grande público. no 120. Thompson) 11 ORY. 1992 p 153 12 1989. Paris. ANPUH/SPUNICAMP. capaz de satisfazer seus interesses por coerência e alimentar suas esperanças. . 6 a 10 de setembro de 2004. A partir de então. Les Intellectuels en France: de l’Affaire Dreyfus a nos Jours. Colin. chegando em 1968 a colaborar com o poder gaullista. Neste momento de instabilidade.11 Acometido pela tuberculose. Universidad de Zaragoza. C. Los Historiadores Marxistas Británicos. Na década de sessenta. La Révolution Couronne François Furet IN L'Histoire. P & SIRINELLI. Como aconteceu com diversos intelectuais comunistas. seus temas de estudo começaram a se encontrar. Iniciou seus estudos históricos com o respaldo de Ernest Labrousse. ao assessorar o ministro Edgar Faure. J-P. em 1956. A Era das Revoluções 1789-1848 (1962). (os historiadores considerados mais destacados da tendência são M. Furet encontrou na militância o sentimento de participação na vida do mundo. Structures et Relations Sociales a Paris au Milieu du XVIIIe Siècle. Armand MONTREMY. Desenvolvendo diversos estudos sobre a França contemporânea. fazendo sua iniciação na história pelo marxismo12. Furet pertenceu a uma grande leva de jovens intelectuais que buscaram no Partido a possibilidade de ação concreta e eficaz. R. ele se decidiu pela História. enfim. Furet acabou se centrando no estudo da Revolução francesa. p75 13 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. 1989. Campinas. A questão era a revolução: Hobsbawm com o seu. E. e em seguida (1961) publicou seu primeiro livro com Adeline Daumard. enquanto sua atividade política se orientava para o centro-direita. publicaram seus primeiros livros de grande repercussão. e Furet com o controvertido A Revolução francesa (com Denis Richet. Hilton. Hobsbawm e E. capaz de abarcar a diversidade de seus interesses. François Furet (1927-1997). Introdução. Hill. a evolução do capitalismo e a luta de classes10. “um domínio sem limites e indefinível”13. 1965). Cd-rom. em seu conjunto. mars Idem ibid. pois trabalhavam problemáticas comuns como a busca de superação do determinismo econômico base-superestrutura. entre 1946 e 1956. uma tradição teórica. Sem o mesmo envolvimento por uma causa que caracterizou a militância de Hobsbawm. o discurso de Khrushov e a invasão soviética da Hungria provocaram o divórcio definitivo de Furet com o comunismo. H. já que alguns especialistas consideram que este grupo (posteriormente desligado do Partido) representou.

nº132. e uma Revolução da Igualdade. nos anos seguintes. São Paulo. antes de Hobsbawm. entre uma Revolução da Liberdade. HOBSBAWM. A.1995. Hobsbawm a tratou como uma revolução social de massa e de caráter ecumênico16. E A Era das Revoluções: Europa 1789-1848.” E mais adiante: “Um magnifico exemplar de história total. Contudo. havia explorado. São Paulo. A Soboul.. Hobsbawm ofereceu uma abordagem articulada e profunda do capitalismo e das revoluções. com o rigor e a competência de especialista e de maneira tão conjunta e sistemática. Tal qual George Lefebvre e Albert Soboul. a participação popular aflorou apenas como uma “derrapagem”. História Socialista da Revolução Francesa (1901-04). Paz e Terra. Como argumenta esse autor “que outro historiador. Editora Perspectiva. na opinião de Alice Gerard. guerras e política. e em tempos de união da esquerda e do socialismo de oposição. 15 J. M. uma interpretação marxista. 6 a 10 de setembro de 2004. esse livro causou violentas reações. acirrando o debate entre jacobino-marxistas e revisionistas.5 acalorados debates historiográficos sobre a natureza das revoluções. a de 1789. isto é. A Revolução Francesa (1922-27). livro em dois volumes ilustrados. nº47. estes que seriam temas permanentes de suas reflexões históricas14. A Revolução Francesa: Mitos e Interpretações. interpretaram a Revolução. e antes deles Jean Jaures e Albert Mathiez15. enfatizando suas conseqüências políticas.” p 213. com uma interpretação que. Obteria sua maior fama ao publicar o 14 Cf. A Revolução Francesa (1930). mar 1997.. artigos em revistas como Le Débat e L’Histoire. historiador francês há muito esquecido. 1977 p 72 GERARD. G. ligado não aos Annales (que reivindicam para si a história total). 16 17 18 Cf. Nesse contexto. inclusive sobre as relações entre revolução e totalitarismo. na França dos anos setenta. s/d. FLORENZANO. a de 1792. . Em A Era das Revoluções. Lefebvre. M. de autoria de um marxista inglês. os dois temas? Ninguém. podemos dizer. Foi justamente contra essa visão que Furet e Denis Richet se voltaram em A Revolução francesa. Revista de História. p 96 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. não dogmática. p 122 FLORENZANO. Os Sans Culottes Parisienses (1958) e A Revolução Francesa (1962). mas a Georges Lefebvre (1874-1959). Cd-rom. isto é. que sem destoar da tradição francesa de interpretação da Revolução francesa. seus grupos dirigentes e (contra) o Estado”18. Campinas. antes. ANPUH/SPUNICAMP. tratava-se de um conflito “entre (da) a sociedade (civil). Para esses autores a Revolução francesa foi política. subscrevendo o seu característico jacobinismo. Jaures. Rio de Janeiro. pelos nouveaux historiens. a relacionou com a Revolução Industrial. “inteligentemente dá um toque moderno ao clássico tema do dualismo revolucionário”17. para não dizer desprezado. François Furet: Historiador da Revolução Francesa. Novos Estudos. certamente. A Mathiez. Os Pés-de-Barro do Revisionismo. Furet continuou publicando.

Isso tudo forneceu fundamento para que Furet reafirmasse sua teoria da Revolução francesa como revolução política e cultural. 1996. Tratavase de uma defesa da interpretação jacobino-marxista da Revolução francesa. considerando-a distorcida. foi o problema do comunismo soviético que marcou profundamente o pensamento de ambos os autores. mas em diferentes interpretações. Todavia. esse livro conseguiu ampla repercussão. encabeçado por Furet. como uma combinação de ideologia. moda e poder publicitário da mídia moderna. portanto. começamos a perceber o papel central que esses dois historiadores estavam representando na história e historiografia do século XX. o que despertou uma veemente reação de Eric Hobsbawm. mais do que imprescindíveis para a compreensão da Revolução francesa. Cd-rom. considerado o grande texto da vertente revisionista de interpretação da Revolução francesa. estas novas abordagens não estariam se baseando em novas pesquisas. eles se mostraram críticos da contemporaneidade. Furet retomou a polêmica (estabelecida em 1971 com seu artigo O Catecismo Revolucionário) com os historiadores comunistas da Revolução francesa. ANPUH/SPUNICAMP. que solapava a interpretação marxista da Revolução. Campinas. podemos considerar como o primeiro grande embate. uma manifestação de repúdio à historiografia dita revisionista. o qual publicou um pequeno. Essa historiografia. mas consistente livro (Ecos da Marselhesa: Dois Séculos Revêem a Revolução Francesa – 1990) de réplica a esse vicejante revisionismo. Por ocasião do bicentenário da Revolução francesa. São Paulo. . aquela que abordou a Revolução como revolução burguesa. presa ao relato das origens. reproduz o discurso dos atores (a idéia de ruptura revolucionária). Nesse livro. detectou vários problemas de abordagem nessa tendência (jacobinomarxista): baseada em opiniões.na era do capitalismo e em seu interior”19. Hobsbawm nos apresentava. então. Para tanto.6 livro Pensando a Revolução Francesa (1978). estaria calcada numa identificação. Ecos da Marselhesa: Dois Séculos Revêem a Revolução Francesa. 6 a 10 de setembro de 2004. que buscaram direta ou indiretamente em uma Europa revolucionária os precedentes para as conjunturas históricas que vivenciavam. no campo da memória e da polêmica social. p 127 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. embora indireto. Nesse que. Cia das Letras. 19 HOBSBAWM. A principal hipótese de Hobsbawm era a seguinte: “o revisionismo da história da Revolução francesa é simplesmente um aspecto de um revisionismo muito maior sobre o processo do desenvolvimento ocidental – e mais tarde global . Caracterizando-se pela rejeição da memória da Revolução francesa. E. e considera a Revolução como anunciação.

foi uma preocupação comum a ambos. O caso do Furet foi o mais amplamente discutido.7 O debate. Hobsbawm encontrou na Revolução francesa o laboratório perfeito para o historiador. enquanto para Furet o global se referia ao tratamento mais amplo e exaustivo do objeto. Companhia das Letras. que tiveram pela primeira vez seus atos registrados por uma vasta e laboriosa burocracia20. acabaram convergindo para uma consideração das relações entre passado e presente. Nesse aspecto a história seria. com o intuito de exemplificar. 1998 p220 Cf. “inseparável da inteligência do mundo atual. levou a um rancor que encaminhou 20 21 22 Cf. como destacou Furet. lidavam com suas próprias paixões. E. Lisboa. São Paulo. enfim. ANPUH/SPUNICAMP. todavia. Daí Furet se considerar apto a interpretar uma história de ilusões que ele experimentou de dentro. conferindo-lhe as suas questões e a sua razão de ser”22. depois de longas carreiras acadêmicas dedicadas ao fazer historiográfico. 1989 p 21 Idem Ibid p 37 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. Gradiva. sobre as utopias em relação aos fatos concretos e a importância do fazer histórico diante da falência do racionalismo totalizador. A explicação global dos fenômenos históricos. Nesta constatação. Movendo-se entre o marxismo e a herança dos Annales esses dois historiadores. . Sobre Historia. reunindo suas conferências e artigos em um livro intitulado Sobre História. HOBSBAWM. FURET. os quais apontaram freqüentemente suas experiências pessoais para ilustrar suas obras. O historiador é visto como um sujeito que deve admitir o engajamento e suas implicações no seu trabalho. como destacamos. e Hobsbawm declarar que evitou durante anos tratar do século XX com receio de não tomar as distâncias necessárias. quando. passou a compor as interpretações de Hobsbawm e Furet. Hobsbawm o fez em 1997. viu na Revolução francesa o locus da chamada “história historicista”. sendo que mesmo as obras devotadas aos movimentos populares tinham sua dimensão social absorvida pela dimensão política do evento21. incluindo a prática stalinista. Suas abordagens. bem como justificar suas posturas teóricas. também por um conhecimento de causa. Cd-rom. Campinas. Furet centrou suas principais indagações em torno da possibilidade de renovação historiográfica. prognóstico do problema da paixão revolucionária. com a diferença de que para Hobsbawm ela estava vinculada a uma generalização teórica (sendo a melhor a “concepção materialista da história”). discutiram seu ofício e as possibilidades e limites do conhecimento histórico. A Oficina da História. mais amplo. como destacamos acima. F A Oficina da História. pois se tratava de um acontecimento cujos principais protagonistas pertenciam às camadas populares. Furet. pelo contrário. Em 1982 Furet já publicava um livro sobre o fazer histórico. Preocupado com a nascente história dos movimentos populares. 6 a 10 de setembro de 2004. pois sua adesão ao Partido comunista em 1947.

Campinas. A História em Migalhas: Dos Annales à Nova História. São Paulo: Ensaio. mas Hobsbawm não se deixou encantar. Campinas: Ed. A crise das expectativas de futuro que se baseavam em uma concepção da história. e escreveu um livro sobre o século XX em sua ‘totalidade’. Quanto a Eric Hobsbawm. atingiu. tanto em vendas quanto em acolhimento da crítica. Cia das Letras. e seu livro Era dos Extremos: 1914-1989 (1994) não foi publicado nesse país até 1999. 6 a 10 de setembro de 2004. . da HOBSBAWM. 2002 p 367 Idem p 11 Idem p 338-339 HOBSBAWM. Eric. 1995 Unicamp. pois além de inseri-lo na história do século XX. Consideramos Era dos Extremos um livro chave para compreendermos a trajetória de seu autor. esse livro ilumina o conjunto de sua obra. O autor considera que Era dos Extremos foi seu livro de maior êxito. a própria ciência histórica. cit. não foi alvo de apreciações negativas nem da direita nem da esquerda política.23 Um itinerário polêmico somado à atuação paralela como jornalista rendeu a Furet. ANPUH/SPUNICAMP. F. a fama de arrivista. à medida que a história do mundo é ilustrada pelas experiências de um indivíduo: Eric Hobsbawm25. que desembocou numa espécie de pós-modernidade. apesar de seu marxismo declarado. Op. 214 24 25 26 27 p 15 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. seu objetivo foi “compreender e explicar porque as coisas deram no que deram e como elas se relacionam entre si”27. pois diversos editores o consideraram uma polêmica política contra os historiadores liberais anticomunistas24. E. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. Cd-rom. depois de publicar sua trilogia sobre o que se poderia chamar de o longo século XIX – 1789-1914 (A Era das Revoluções: 17891848 (1962). Na França. nas últimas décadas. 1992 p. destacando que não existiam mais combates no século XX que não fossem duvidosos. Furet através de sua experiência traumática nas fileiras comunistas acabou se encantando pelas saídas propostas pelo liberalismo moderno. entre os historiadores identificados com a esquerda política. A Era do Capital:1848-1875 (1974) e A Era dos Impérios: 1875-1914 (1987)). adquiriu um enorme prestígio em diversos países e.Nesse livro.8 suas críticas mais ferrenhas aos comunistas. destacando (curiosamente) que a venda de exemplares da primeira edição no Brasil foi maior do que em qualquer outro país26. nesse século de guerras e intolerância. seu nome recebeu poucas referências durante a década de noventa. em contrapartida. São Paulo. Dividiu a história do século em três momentos: 23 DOSSE. obviamente.

o que para ele não elimina a possibilidade de outros tipos de socialismo30. em 1955. nessa sociedade na qual as discussões políticas se transformaram inevitavelmente em debates ideológicos. por exemplo. ainda mais porque a Revolução russa foi a salvadora do capitalismo liberal. na contramão das expectativas. Campinas. F. • O Desmoronamento. em que apresenta o grosso de sua tese. pelo Partido 28 29 30 31 Idem p558 Idem p 89 Idem p 482 FURET. O Passado de uma Ilusão: Ensaios sobre a Idéia Comunista no Século XX. naquele momento. na qual o capitalismo. . São doze capítulos que discutem a idéia/ilusão comunista em cada um de seus contextos históricos (Europa) durante o século XX. em seu livro publicado no ano seguinte. o fanatismo da intelligentsia era fruto de complexos sistemas ideológicos sustentados. que “não há como apagar a era soviética da história da Rússia ou do mundo”. Hobsbawm observa que ao final do século XX. Se em 1978 Furet criticava o comunismo via historiografia revolucionária. trata-se de uma tentativa de interpretação sobre um universo (comunista) que desfez-se a si mesmo. São Cf.29Uma das conclusões de Hobsbawm diz respeito ao fracasso do socialismo soviético. a crise econômica mundial e o fim do ‘socialismo real’. essa possibilidade. Esta idéia fecha o longo ensaio sobre a idéia comunista escrito por Furet.31. também aventa. que fora inundado pela política. pois a “União Soviética deixou o palco da história antes de ter esgotado a paciência de seus partidários fora de suas fronteiras”. A Era de Ouro. e não fechou o repertório da democracia. “um grande número de cidadãos se retirava da política deixando as questões de Estado à “classe política”28. na contracorrente dos ‘novos’ discursos. “não subsiste nem uma idéia”32. destaca. denunciava o culto da história e a mitologia da esquerda. Raymond Aron. as fundações sobre as quais se ergueu um século de guerras e revoluções. Cd-rom. até a ausência de qualquer sistema ou estrutura internacional. 6 a 10 de setembro de 2004. Assim. Furet. Hobsbawm.9 • • A Era das Catástrofes. conhece seu melhor momento. Ironia que o século da história e da ideologia política termine com a tentativa coletiva de apagar essa memória. em 1995 ele esbanja críticas diretamente ao comunismo em sua inserção na história revolucionária. Entretanto. ou melhor. insatisfeito. Siciliano. ANPUH/SPUNICAMP. O Passado de uma Ilusão (1995). 1995 p 586 32 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. e o socialismo parece se solidificar através dos planos qüinqüenais. Idem p 9 Paulo.

1991. Hobsbawm alegou que Furet dissociou as idéias de seus contextos e situações históricas específicas. contrapondo a tese de Furet à sua própria. Claude Lefort asseverava que “pensar a política. No entanto. como ilusão de democracia. A idéia de revolução foi reabilitada como uma cultura política inseparável da democracia. . a cada geração. Tal qual uma religião. em nosso tempo. Uma dependência mútua dessas duas ideologias.37 Furet. assim. Furet nos apresenta exemplos das duas possibilidades nas figuras de intelectuais como Pascal. Pensando o Político: Ensaios sobre Democracia. quando a ideologia (sistema de explicação do mundo) passou a nortear a ação dos homens. 1995. ANPUH/SPUNICAMP. cit. O Ópio dos Intelectuais. Furet construiu. exposta em seu livro sobre o século XX: “a verdadeira ilusão do comunismo (e do capitalismo dos anos trinta sobre a União Soviética dos planos qüinqüenais) era a convicção de que o capitalismo do entreguerras não podia mais ser salvo”. ao contrário. mormente.10 comunista. em 1996. Rio de FURET. p 134 Janeiro. Furet define o comunismo como “uma casa onde. ARON. na sua tentativa de superar a ilusão que seria constitutiva da história comunista. em uma resenha publicada pela revista Le Débat. Editora UNB. a antiga associação entre fascismo e comunismo. n° 89. E. Essa associação e a tese da ilusão comunista despertariam a mais inflexível crítica de Eric Hobsbawm ao trabalho de Furet.p13 35 36 37 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. mars-avril 1996. Souvarine e Lukács.33 Perto do final do século. em sua réplica. requer uma sensibilidade ao histórico que não anula. ao longo de todo o século. Op. a Hannah Arendt e Alain Besançon. o comunismo pôde sobreviver como ideologia de Estado. não se cessara de entrar e de sair. a saber. Claude. Cd-rom. Já no primeiro capítulo de O Passado de uma Ilusão trata da paixão revolucionária e do nascimento do século XX em 1914. R. uma teria motivado o surgimento da outra durante a primeira grande guerra. P 101 Idem p129 HOBSBAWM. Paz e Terra. Histoire et illusion/ Le Débat. Campinas. ao acaso das circunstâncias”36. F. Mathiez). 1980 p 15-58 LEFORT. que ele toma emprestada. torna mais necessário o abandono da ficção hegeliana ou marxista da história”34. e o “bolchevismo vitorioso lhe ofereceu o prestígio suplementar da paz e da fraternidade universal”35. declarou simplesmente que o renomado historiador britânico estaria indiferente aos 33 34 Cf. Cabe destacarmos a tese mais polêmica que Furet apresentou nesse livro. um inventário ideológico-político visando denunciar que. Duas interpretações que certamente nortearam as reflexões de Furet. Revolução e Liberdade. a partir do amálgama entre 1793 e 1917 (Aulard. a ideologia teria sobrevivido em seus militantes incondicionais. 6 a 10 de setembro de 2004. Brasília.

Cd-rom. por medo de fornecer ele mesmo a ilustração”38. Campinas. Esse único debate direto entre os dois historiadores de nosso estudo. n° 89. ANPUH/SPUNICAMP. . mostra a importância da questão política não só em seus trabalhos historiográficos. mars-avril 1996. 6 a 10 de setembro de 2004.11 desmentidos da história. como também em suas trajetórias pessoais. p 163 Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. F. 38 FURET. “recusando o objeto de meu livro. Sur l'illusion communiste/Le Débat.