Quim. Nova, Vol. 30, No. 3, 695-706, 2007 INTERFERENTES ENDÓCRINOS NO AMBIENTE Gislaine Ghiselli e Wilson F.

Jardim* Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas, CP 6154, 13081-970 Campinas - SP, Brasil Recebido em 6/4/06; aceito em 3/7/06; publicado na web em 7/2/07

ENDOCRINE DISRUPTORS IN THE ENVIRONMENT. Although the hypothesis that environmental chemicals may exhibit endocrine disrupting effects is not new, the issue has been a growing level of concern due to reports of increased incidences of endocrine-related disease in humans, including declining male fertility, and more significantly, to adverse physiological effects observed in wildlife where cause and effect relationships are more evident. The list of endocrine disrupting chemicals (EDCs) includes a range of anthropogenic compounds, phytoestrogens, naturally occurring sex steroids and synthetic estrogens. Within the aquatic environment, the presence of EDCs has concerned many scientists and water quality regulators. Discharge of effluents from treatment facilities is likely to be a significant source of input of contaminants to many systems, and the potential for concentration of hydrophilic compounds and transformation products within sludges has implications for their disposal. Then, understanding the processes and the fate of EDCs on the environment, as well as the mechanisms of endocrine disruption, may facilitate controlling or limiting exposure of both humans and the environment to these compounds. Keywords: endocrine disruptors; physicochemical properties; sources.

INTRODUÇÃO Os modelos de desenvolvimento adotados pelo homem para a agricultura, a pecuária, a indústria e os centros urbanos não têm levado em conta, há muito tempo, o meio ambiente. Como resultado, diversos problemas ambientais surgem a cada momento, muitos deles praticamente irreversíveis e de extrema relevância. Como exemplo, pode-se citar as conseqüências ambientais da expansão do uso de produtos químicos orgânicos sintéticos, com ênfase naquelas substâncias cuja toxicidade chega a afetar a saúde humana, especialmente no que diz respeito ao câncer e aos defeitos congênitos, assim como o bem-estar de organismos inferiores1,2. Ainda que grandes quantidades de produtos químicos sintéticos tivessem sido lançadas no meio ambiente desde 1940, a geração nascida entre 1950 e 1960 foi a primeira a sofrer os efeitos desta exposição, no desenvolvimento intra-uterino, principalmente devido ao estoque disponível destas substâncias no tecido adiposo materno. Como os representantes mais velhos desta geração ainda não haviam adquirido a sua maturidade plena até o final dos anos 70, apenas recentemente foi possível avaliar o impacto, em longo prazo, desta exposição na saúde humana3. Embora já existissem, desde o início do século XX, hipóteses prevendo alterações no funcionamento do sistema endócrino de algumas espécies animais expostas a determinadas substâncias químicas tóxicas, apenas recentemente esta importante questão tem recebido atenção por parte da comunidade científica, principalmente devido ao número crescente de publicações que relatam o aumento da incidência de disfunções no sistema endócrino de seres humanos (incluindo a infertilidade masculina) e, mais significativamente, efeitos fisiológicos adversos observados em espécies animais para as quais a relação causa/efeito é mais evidente. De fato, as evidências observadas em estudos envolvendo moluscos, crustáceos, peixes, répteis, pássaros e alguns mamíferos têm sugerido que possíveis alterações de saúde humana envolvendo o sistema reprodutivo, tais como o câncer de mama e de testículo, podem estar relacionadas à exposição a tais substâncias3-8.
*e-mail: wfjardim@iqm.unicamp.br

Uma grande parte da evidência dos possíveis efeitos destas substâncias em seres humanos foi obtida a partir da experiência envolvendo mulheres grávidas que tomaram o estrogênio sintético dietilestilbestrol (DES), prescrito para evitar o aborto espontâneo e promover o crescimento do feto, no período entre 1948 a 1971. Muitas das filhas dessas mulheres são hoje estéreis e, uma minoria, tem desenvolvido um tipo raro de câncer vaginal. Os homens adultos mostram maior incidência de anormalidades em seus órgãos sexuais, apresentam contagem média de espermatozóides diminuída e podem sofrer um risco maior de desenvolver câncer de testículos2,3,6,9. Esta nova ameaça à saúde de espécies animais, incluindo os seres humanos, tem despertado interesse público neste tema, principalmente após a publicação do livro Our Stolen Future (Nosso Futuro Roubado), de Theo Colburn e seus associados, em 19962-4. Devido à complexidade deste tema, muitas vezes as constatações científicas encontradas na literatura, relatadas quase que exclusivamente em inglês, são polemicamente discutidas entre os pesquisadores, os ambientalistas e as autoridades. Deste modo, este presente artigo tem como principal objetivo divulgar, em âmbito nacional, a problemática atual envolvendo a presença dos interferentes endócrinos no meio ambiente, fornecendo ao leitor, tanto da academia como dos órgãos legisladores e de controle ambiental, informações sobre os mecanismos de ação destas substâncias nos organismos vivos, incluindo uma listagem contendo diversas substâncias classificadas como interferentes endócrinos, suas propriedades físico-químicas mais relevantes, bem como suas principais fontes. DEFINIÇÕES Muitas definições3-6,9-17 têm sido propostas para um interferente endócrino. Entretanto, em todas elas existe um ponto em comum: trata-se de uma substância química que pode interferir no funcionamento natural do sistema endócrino de espécies animais, incluindo os seres humanos. Tal substância pode ser de origem antrópica, também denominada xenoestrogênio, ou de origem natural, como por ex., os fitoestrogênios. Alguns pesquisadores definem um interferente endócrino com base nos seus efeitos, ou seja, trata-se de uma substância química

Divulgação

dados. uma vez que há poucos grupos de pesquisadores brasileiros trabalhando com esta temática. tais como a tiroxina. níveis de sais.9. Podem ser encontradas as seguintes denominações: “perturbadores endócrinos”18. Segundo o Comitê Científico de Toxicidade. como a tireóide.5. a proporção e a maneira pela qual os alimentos são transformados em energia. As paratireóides constituem quatro pequenas glândulas localizadas no pescoço.696 Ghiselli e Jardim Quim. como em populações ou subpopulações de organismos. dentre outras. que é responsável pela produção de hormônios que regulam as atividades de outras glândulas endócrinas. De fato. uma nova definição surgiu para esta classe de substâncias. Já a tireóide está localizada em volta da traquéia. as gônadas e as glândulas supra-renais. e a calcitonina que canaliza o cálcio no sangue para ser armazenado nos ossos21. pelo crescimento e desenvolvimento. o crescimento e o desenvolvimento de um determinado organismo. “estrogênios ambientais”2. os estrogênios e progestagênios. Regula o metabolismo. A hipófise ou pituitária é a principal glândula do sistema endócrino. e diz que “an endocrine disrupter is an exogenous substance that causes adverse health effects in an intact organism. Estrogênios são esteróides hormonais que regulam e sustentam o desenvolvimento sexual feminino e suas funções reprodutivas. deformi- dades dos órgãos reprodutivos. através do seu comitê consultivo responsável pela avaliação e diagnóstico de interferentes endócrinos (“Endocrine Disrupter Screening and Testing Advisory Committee – EDSTAC”4. Outras definições continuam sendo propostas por várias organizações como o Programa Internacional de Segurança Química (“International Programme on Chemical Safety-IPCS”16). Já os androgênios são esteróides hormonais responsáveis pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias masculinas3.22. or its progeny. sendo dividida em dois lóbulos.21. a testosterona e a adrenalina3-5. coordenam o funcionamento do organismo como um todo. propôs uma definição mais detalhada que considerava também a ampla diversidade de mecanismos envolvidos nas disfunções do sistema endócrino. embora sejam ainda necessárias novas pesquisas para. e pela distribuição e reserva de água e sais no corpo.9.16. O EDSTAC13 descreve um interferente endócrino como sendo uma substância ou mistura química exógena que altera uma ou mais funções do sistema endócrino. a agência de proteção ambiental dos Estados Unidos (“U.21.4.S. . mesmo presente em concentração extremamente baixa. Algumas funções que controlam são: atividades de órgãos completos. causando efeitos adversos tanto sobre um organismo e sua descendência. como o hormônio estimulador do folículo (FSH) e o hormônio luteizante (LH). “desreguladores endócrinos”9. prejudicando os sistemas reprodutivos (por ex.28.4.28.27. Ecotoxicidade e Ambiente – CCTEA9. produzindo também um hormônio responsável pelo crescimento. suas características sexuais. “disruptivos ou disruptores endócrinos”19. atrás da tireóide. Os interferentes endócrinos podem exibir tanto um comportamento estrogênico como androgênico. tais substâncias são mundialmente denominadas “endocrine disruptors” (EDs) ou ainda “endocrine disrupting compounds or chemicals” (EDCs)3-6. Secreta os hormônios tiroxina e triiodotironina. disfunção da tireóide e alterações relacionadas com o sistema neurológico3-5. etc3. a queda da taxa de espermatozóides. O SISTEMA ENDÓCRINO O sistema endócrino (Figura 1) é constituído por um conjunto de glândulas localizadas em diferentes áreas do corpo. sua reprodução. Um interferente endócrino em potencial trata-se de “a substance that possesses properties that might be expected to lead to endocrine disruption in an intact organism”3. decidiu-se adotar o termo “interferentes endócrinos” para se referir às tais substâncias. Muitas substâncias químicas têm demonstrado potencial para serem classificadas como interferentes endócrinos. evidências de peso e princípios de precaução3-5. comprovar tais suspeitas. o funcionamento natural do sistema endócrino de espécies animais. Uma definição mais precisa para um interferente endócrino foi primeiramente proposta em 1996. mas trata-se de versões redigidas das definições acima mencionadas3. Nova que. no Reino Unido.13. É dividida em duas partes: a adeno-hipófise (anterior). localizada na base do crânio.27.12. O sistema endócrino Hormônios são substâncias químicas (mensageiros) produzidas e secretadas pelas glândulas endócrinas e que.22-26. É responsável também pela produção de calor corporal e energia muscular.27. perturbar. bem como a sua estrutura. Figura 1. “interferentes endócrinos”20. ou seja. e pelos hormônios por elas sintetizados. interromper. pela Comunidade Científica Européia. responsável pela produção do hormônio que controla a retenção e excreção da água pelos rins4. Secretam o hormônio responsável pelo equilíbrio metabólico de cálcio e fósforo no organismo. de mama e de próstata.23.9-17. e a neuro-hipófise (posterior)..28. Por este motivo. já que as mesmas interferem ou alteram. embaixo do cérebro. várias substâncias químicas suspeitas de causar alteração no sistema endócrino (listadas por algumas organizações como a USEPA) estão relacionadas com uma série de problemas de saúde humana e animal. tendo como base estudos científicos.4. de alguma forma. reduzindo a produção de espermatóides) e causando outros efeitos adversos. que controlam o crescimento e a taxa metabólica. o uso e armazenamento de energia. Tal definição é comumente referida como definição de “Weybridge”12. Em maio de 1997.13).21. consequent to changes in endocrine function”3. durante a Conferência de Weybridge.4. Environmental Protection Agency – USEPA”). A tradução para a língua portuguesa tem gerado algumas denominações diferentes. Embora a tradução exata para a palavra “disrupt” seja desfazer.5. é capaz de interferir no funcionamento natural do sistema endócrino causando câncer. Influi direta ou indiretamente na produção e liberação de outros hormônios e está sob controle do sistema nervoso central. há associações envolvendo a presença destas substâncias no organismo humano e o surgimento de algumas doenças como câncer de testículo. Por isso. de fato. lançadas na corrente sangüínea. açúcares e líquidos no sangue.

O córtex é o responsável pela produção de hormônios corticóides como a aldosterona. São divididas em duas camadas distintas: medula (parte interna) e córtex (parte externa).27. ela certamente inibirá a ação bioló- . pela corrente sangüínea. Esta mudança de atividade é trans- mitida por vários caminhos. que mantém o equilíbrio de água e sais nos rins (íons K+ e Na+). estará impedindo a interação entre um hormônio natural e seu respectivo receptor. c) efeito antagonista A alteração no sistema endócrino ocorre quando o interferente endócrino interage com os receptores hormonais. o que determina a ação dos genes. imitando a ação de um determinado hormônio. induzem a síntese e a atividade de hormônios de tecidos específicos presentes nas glândulas internas. b) efeito agonista. estes receptores hormonais também podem se ligar a outras substâncias químicas. a grande maioria dos distúrbios endócrinos observados e explicados até o momento é atribuída ao funcionamento das gônadas. essencial para o desenvolvimento do embrião (placenta e glândulas mamárias)4.28. e pelo transporte dos glóbulos brancos (leucócitos). especialmente nos músculos.4. Ela é responsável pelo desenvolvimento do orgão reprodutor masculino. através do reconhecimento dos germes e outros invasores do corpo21. além de aumentar a síntese de proteínas. que aceleram o metabolismo e atuam no armazenamento dos açúcares. No. que estimula o desenvolvimento do endométrio e influencia a libido) e a progesterona. Também produzem os hormônios sexuais. desde a gestação. após o seu amadurecimento. produzido no organismo. ricos em enzimas. regulam a ovulação e a menstruação. Isso explica o porquê de determinados interferentes endócrinos presentes no organismo. Outros competem com a diidrotestosterona (hormônio sexual masculino produzido naturalmente pelo organismo) pelos receptores de androgênio. o caminho que leva a sua produção é conseqüentemente desativado. ela estará agindo como um bloqueador. Dois processos distintos podem ser desencadeados (Figuras 2b e 2c). ou seja.28. que passam do canal pancreático para o intestino delgado e atuam na digestão dos alimentos. ainda. garantem a manutenção da gravidez e são os responsáveis pelo desenvolvimento dos caracteres femininos.28. Um receptor hormonal possui elevada sensibilidade e afinidade por um hormônio específico. quando a concentração de um determinado hormônio no organismo é elevada. que são ativados ou desativados de acordo com os níveis de hormônios encontrados no organismo. responsável por colher os dejetos da atividade celular.27. Como glândula endócrina produz hormônios que fluem diretamente para a corrente sangüínea.9. MECANISMOS DE AÇÃO DOS INTERFERENTES ENDÓCRINOS A ação de um determinado hormônio inicia-se através da sua ligação a um receptor específico. 3 Interferentes endócrinos no ambiente 697 O timo é a glândula associada ao sistema linfático.21. o hipotálamo secreta hormônios que controlam a liberação de outros hormônios pela glândula pituitária. Também prepara o corpo para a ação em uma situação de perigo ou estresse. A medula é responsável por secretar. até tecidos-alvo. Outros efeitos que podem ocorrer no sistema endócrino são alterações na síntese e na remoção dos hormônios de seus respectivos receptores e. interações com sistemas multi-hormonais. Por exemplo. Este processo é denominado de efeito antagonista3. Estes diferentes processos fisiológicos (em cascata e independentes) são controlados por mecanismos complexos como os de “feedback”. provocando conseqüentemente uma resposta3. O equilíbrio entre estes dois hormônios é que controla o nível de glicose no sangue21. o hormônio luteizante (LH). Substâncias que produzem efeitos de feminização são conhecidas como estrogênicas. O complexo resultante liga-se a regiões específicas do DNA presente no núcleo da célula. Muitos interferentes endócrinos competem com o estradiol (hormônio sexual feminino produzido naturalmente pelo organismo) pelos receptores de estrogênio. As supra-renais ou adrenais são as glândulas localizadas acima dos rins. Os testículos são os responsáveis pela produção de espermatozóides e androgênios. modificando a sua resposta natural. produzindo uma resposta natural (Figura 2a). serem capazes de gerar um efeito. e também auxilia a produção de hormônios sexuais21. Embora muitos destes caminhos possam ser influenciados por estimulações externas ao organismo. se uma substância é considerada antiandrogênica como a flutamida. 30. Disfunções endócrinas: a) resposta natural. dependendo do tipo de homônio. os hormônios sexuais masculinos. concentrações extremamente baixas de um determinado hormônio geram um efeito. O pâncreas atua tanto como uma glândula exócrina quanto endócrina.9. Ajuda a “treinar” os glóbulos brancos na luta contra as infecções.27.24. e contribuir com as funções anabólicas4. Os hormônios produzidos nestas glândulas são transportados. Os espermatozóides são produzidos durante toda a vida e. os hormônios adrenalina e noradrenalina.4.28. iniciando uma mudança na atividade celular nos seus receptores.21. Os ovários são responsáveis por produzir e expelir o óvulo.Vol. pela distribuição de nutrientes (principalmente gorduras). Após complexos processos bioquímicos em cadeia. principal androgênio. Entretanto. hormônio luteizante (LH) e pela testosterona. Este processo é denominado de efeito agonista (Figura 2b). Certas substâncias químicas podem também se ligar ao receptor hormonal e. ou seja.28. A substância química pode se ligar ao receptor hormonal e produzir uma resposta. Como se pode perceber. influenciando no crescimento dos orgãos reprodutivos. Como glândula exócrina produz vários sucos digestivos.4 (Figura 2c). atuando então como um mimetizador. A formação dos espermatozóides é controlada pelo hormônio estimulador do folículo (FSH). enquanto que as que produzem efeitos de masculinização são conhecidas como androgênicas. Estas glicoproteínas (também denominadas glandotrofinas) por sua vez. os processos aqui envolvidos são complexos e por este motivo ainda não foram completamente elucidados3. morrem e são reabsorvidos pelo organismo. conseqüentemente. os estrogênios (como o estradiol. proteínas e gorduras. responsáveis pelas características sexuais secundárias e pelo desenvolvimento e funcionamento dos órgãos sexuais2-5. O pâncreas é pontilhado por pequenos aglomerados de células (ilhotas de Langerhans) que secretam dois tipos de hormônios: a insulina e o glucagon. estas substâncias exercem efeitos de feminização ou masculinização sobre o sistema endócrino.27. quando não são liberados. Por isso. os glucocorticóides. O ciclo menstrual é controlado por quatro hormônios: o hormônio estimulador do folículo (FSH).24. através da membrana plasmática.27. Se a substância química se ligar ao receptor mas nenhuma resposta for produzida. Figura 2. mesmo em baixíssimas concentrações. Portanto. na corrente sangüínea. mimetizar ou bloquear a ação do próprio hormônio2-4. no interior de uma célula. Portanto.

moléculas que estão sorvidas apresentam menor mobilidade e. a solubilidade em água é definida pela lei de Henry. impedindo assim a ação dos hormônios naturais. estão diretamente relacionados com suas propriedades físico-químicas. Em suma. Bioacumulação é um termo geral que descreve a tomada de um contaminante químico. conseqüentemente. Em muitos casos. podendo ser usado para estimar a partição de uma A toxicologia é o estudo dos efeitos nocivos de substâncias sobre os seres vivos. excedendo em algumas ocasiões a um milhão. Também é considerado um excelente parâmetro para inferir o fator de bioconcentração de uma determinada substância química2.698 Ghiselli e Jardim Quim. maior será a hidrofobicidade e maior será a afinidade da substância pela matéria orgânica4. ou seja. Solubilidade em água A solubilidade em água (γsat) é definida como sendo a concentração máxima de uma substância dissolvida em água pura. acabam se acumulando nos tecidos adiposos. por ex. O peso molecular também tem relação com a hidrofobicidade de uma substância. inativando os receptores de androgênios presentes nos tecidos-alvo. Todavia. o metabolismo e a excreção dos hormônios. alterando as concentrações dos hormônios naturais2-5. observando-se como a saúde dos mesmos pode ser afetada2. etc. uma ampla faixa de substâncias apresenta valores mensuráveis de Kow. dieta. sedimentos suspensos ou de fundo.31. do ambiente.30.24. ou ainda através da ingestão de material particulado adsorvido nos sedimentos ou presente em suspensão nas águas. apresentarão concentrações ainda maiores destas substâncias no organismo2.30. Coeficiente de adsorção A sorção de substâncias químicas (contaminantes) está diretamente relacionada com o transporte e a mobilidade das mesmas no meio ambiente. Hidrofobicidade O grau de hidrofobicidade de uma substância é representado pelo coeficiente de partição octanol/água (Kow). dos sais dissolvidos ou ainda da existência de substâncias húmicas ou materiais suspensos.). O coeficiente de partição octanol/água. As substâncias de interesse incluem tanto os produtos químicos sintéticos quanto aqueles naturalmente presentes no ambiente. essencialmente. Na toxicologia. Para substâncias gasosas ou que apresentam elevada volatilidade. em geral. O coeficiente de adsorção (Koc) é bastante útil para descrever a adsorção de uma determinada substância química no material em suspensão (matéria orgânica) presente nas águas superficiais. Substâncias químicas sorvidas não reagem com foto-oxidantes indiretos como os radicais hidroxilas. ou afetando a síntese. tanto no organismo como no meio ambiente. tais substâncias não são metabolizadas pelo peixe. ou seja: Kow = Coctanol / Cágua substância em fases orgânicas apolares (outros solventes ou biota)2. o transporte. quanto maior o valor de Kow. a solubilidade de um gás em um líquido é proporcional à pressão parcial deste gás. conseqüentemente.9. Por exemplo. que descreve uma relação linear entre a atividade de uma espécie volátil na fase aquosa e sua atividade na fase gasosa. É expressa pela razão da concentração da substância química nas duas fases avaliadas30. através da fotólise direta. os peixes assimilam algumas substâncias químicas procedentes de sua alimentação. muitas vezes gerados nos ambientes aquáticos30. por conseqüência.31. desencadeando deste modo reações químicas semelhantes no corpo. ocasionando menor degradação das mesmas no ambiente. pela injeção ou pela administração oral da substância de interesse em animais. por uma questão de conveniência. Portanto.31. como o estrogênio ou a testosterona. Deste modo. Toxicidade onde: Coctanol é a concentração da substância em n-octanol e Cágua é a concentração da substância em água. . quando em contato com o líquido29-31. É o caso..31. Nas águas superficiais. inibe a ação biológica dos estrogênios ligando-se e. a sua hidrofobicidade é relativamente elevada30. como o tamoxifeno. Moléculas com alto peso molecular tendem a apresentar menor solubilidade em água. acabam não ficando disponíveis para participar de processos de transferência de fases. pode-se dizer que tal substância apresenta elevada hidrofobicidade e elevada lipofilicidade. na maioria das vezes. PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS MAIS RELEVANTES O destino e o comportamento dos interferentes endócrinos.29. a partir de qualquer fonte no ambiente onde tais substâncias estão presentes. Já uma substância anti-estrogênica. via dérmica. das substâncias organocloradas30.31. os efeitos são determinados. Portanto. ligando-se e.31. suas propriedades físico-químicas necessariamente devem ser usadas como ferramentas durante os estudos. seja ela abiótica como água. conseqüentemente. A ausência de grupos polares nas moléculas de uma substância altera a polaridade da mesma diminuindo. Este parâmetro aumenta com o aumento da hidrofobicidade de uma substância. inativando os receptores de estrogênios presentes nos tecidos-alvo3-5. muito grande. os valores experimentais são também úteis para se determinar o grau de hidrofobicidade (Kow) de uma determinada substância2-4. de uma seqüência de etapas de bioacumulação que ocorrem ao longo da cadeia alimentar. Coeficiente de partição Partição é a distribuição de uma substância química entre duas fases. a solubilidade é fortemente dependente da temperatura. a uma dada temperatura. nos quais sua concentração aumenta com o tempo. dado sua magnitude ser. Ou seja. por uma ou todas as rotas possíveis (respiração. Geralmente. Biomagnificação O fenômeno da biomagnificação resulta. Portanto. ou biótica como plantas e animais.31. conseqüentemente. Também serve como modelo para simular os tecidos adiposos (gorduras) encontrados em espécies animais. bloqueando os receptores nas células que recebem os hormônios.31.32. Nova gica dos androgênios. sua solubilidade em água. para que se possa compreender os efeitos destas substâncias no meio ambiente. A polaridade de uma substância química também está inversamente relacionada com sua hidrofobicidade.30. do pH. os interferentes endócrinos podem interferir no funcionamento do sistema endócrino pelo menos de três formas possíveis: imitando a ação de um hormônio produzido naturalmente pelo organismo.30. é geralmente utilizado em sua forma logarítmica decimal (log Kow). Aves predadoras que se alimentam destes peixes. que estão em equilíbrio ou estado estacionário. isto é. O n-octanol é empregado uma vez que apresenta tanto características hidrofóbicas como hidrofílicas. Também estão menos biodisponíveis e mais protegidas da luz ultravioleta.

termos estes mais genéricos. acidentalmente.32. enquanto que outros requerem uma dose muito mais elevada para reagirem. poluentes emergentes. geralmente através dos cursos d’água. alquilfenóis. substâncias tóxicas persistentes (STP). Trata-se de rotas resultando em deposições parciais dos poluentes antes destes atingirem os corpos d’água3. ainda. ou ainda através da ingestão de água potável contaminada. os toxicologistas criaram as relações dose-resposta. 30. as bifenilas policloradas.32. os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. existem basicamente duas classes de substâncias que podem alterar o funcionamento do sistema endócrino: os hormônios naturais que incluem estrogênio.Vol. a toxicidade é uma resposta biológica adversa induzida pela presença de uma ou mais substâncias químicas e/ou de seus metabólitos. em agonista ou antagonista. O transporte de um determinado poluente oriundo de uma fonte não pontual de uma área urbana também parece ser diferente daquele proveniente de uma zona rural. realizado com base nas relações dose-resposta. uma vez que o tipo e a natureza da resposta biológica e o potencial para induzir tal resposta variam de acordo com os organismos e as substâncias químicas. e as substâncias sintéticas que incluem os hormônios sintéticos (hormônios idênticos aos naturais. Os indivíduos diferem significativamente quanto à sua susceptibilidade a uma dada substância química – alguns respondem à substância mesmo em doses muito baixas. na área urbana a maioria dos poluentes depositados na superfície do solo (impermeável) acaba sendo escoada para os corpos d’água (lixiviação). A dose da substância administrada nos testes de toxicidade é normalmente expressa em massa por unidade de peso corporal do animal testado2. No. é referenciada como um efeito biológico adverso em potencial. Trata-se da toxicidade crônica. Por esta razão. Trata-se de descargas diretas para os corpos d’água3.29. ligando-se ao seu receptor. presentes no corpo humano e nos animais. bem como os xenoestrogênios. são coletados mais facilmente determinando-se sua toxicidade aguda. Como exemplo.33-48. Embora a toxicidade aguda de uma substância seja de grande interesse quando ocorre. Entretanto. fabricados pelo homem e utilizados como contraceptivos orais e/ou aditivos na alimentação animal). Deve-se enfatizar que. poluentes orgânicos persistentes (POP). enchentes.6. tanto de água como de esgoto3.38. substâncias contidas em algumas plantas. sua distribuição no meio ambiente. nas emissões radioativas. Por outro lado. classificados como crônicos2. durante o trânsito. as fontes não pontuais são definidas como fontes que não apresentam um ponto de entrada no meio ambiente bem caracterizado. Ainda que recentemente alguns estudos toxicológicos tenham sido desenvolvidos a partir de testes envolvendo certas bactérias. por ex. compostos de organoestanho. Existem algumas razões para isso: boa parte da área urbana é coberta com materiais impermeáveis.4. o julgamento sobre os efeitos biológicos adversos tem de ser. Em síntese. como as dioxinas e furanos2-4. Estas são as substâncias anti-estrogênicas ou anti-androgênicas3. e ainda subprodutos de processos industriais. Os interferentes endócrinos ainda podem ser classificados. De modo geral. tais fontes podem ser classificadas em dois grandes grupos: pontuais e não pontuais (ou difusas). na toxicologia ambiental a maior preocupação se dá mediante exposições. Na maioria das vezes o efeito “resposta” buscado nos testes com animais para construir as curvas dose-resposta é a morte2. Várias substâncias químicas classificadas por diversas organizações mundiais como interferentes endócrinos (ou interferentes endócrinos potenciais) são listadas na Tabela 1. na área urbana a poluição pode se dar também pelo acúmulo de lixos. segundo sua ação biológica. Para os seres humanos a mais importante fonte de contaminação dos interferentes endócrinos é a alimentação. As fontes pontuais apresentam um ponto de entrada no meio ambiente bem caracterizado. ou seja. a simples presença ou acumulação de uma ou mais substâncias químicas em um determinado organismo não corresponde necessariamente a um efeito biológico adverso. dentre outras. portanto. pode-se citar as descargas de efluentes industriais e esgotos domésticos. obrigatoriamente.29. SUBSTÂNCIAS CLASSIFICADAS COMO INTERFERENTES ENDÓCRINOS Muitos dos interferentes endócrinos estão também classificados em uma série de grupos de compostos orgânicos potencialmente tóxicos. dificultando a remoção3. atividades de mineração. uma substância exibe um comportamento agonista quando mimetiza um determinado hormônio (são as substâncias estrogênicas ou androgênicas). o processo de erosão é menos favorecido e as partículas do solo acabam sendo transportadas preferencialmente para as águas superficiais.29. Somente uma resposta biológica induzida pela presença de uma ou mais substâncias químicas e/ou de seus metabólitos. progesterona e testosterona.4. câncer ou defeitos congênitos decorrentes destas exposições contínuas são também de longa duração e. enquanto que na área rural as deposições podem ser incorporadas ao solo.6. A União Européia também elaborou um relatório contendo uma vasta lista de subs- .10. A questão central é que fontes não pontuais são mais difíceis de serem controladas uma vez que o ponto de entrada dos poluentes no ambiente depende do tipo da fonte. Todavia.10. Portanto. e os fitoestrogênios. dentre outros2.24. da sua localização e. PRINCIPAIS FONTES DOS INTERFERENTES ENDÓCRINOS Tanto os interferentes endócrinos como outras classes de poluentes ambientais apresentam uma variedade de fontes2-4.9. pois várias destas substâncias não são totalmente destruídas ou degradadas durante o processo empregado nas estações de tratamento. que é o início rápido de sintomas (incluindo a morte no limite extremo) que se seguem à absorção de uma dose da substância. da combinação de uma série de processos envolvendo a concentração do poluente. sorvidas ou infiltradas. como na área urbana há pouca exposição do solo ao meio ambiente. ao invés de simplesmente ser baseado na magnitude da acumulação31. Quando determinada substância bloqueia um hormônio. diz-se que ela exibe um comportamento antagonista. a doses individuais relativamente baixas de uma determinada substância tóxica presente no meio ambiente. e que apresentam uma atividade semelhante aos esteróides hormonais quando ingeridas por um determinado organismo. a maior parte da informação relativa à toxicidade das substâncias químicas é obtida a partir de experimentos efetuados mediante a administração de doses aos animais.23. derramamentos acidentais.31. em longo prazo.32. suas propriedades físico-químicas e as condições ambientais3. 3 Interferentes endócrinos no ambiente 699 Dados toxicológicos relacionados à nocividade de uma substância para um organismo. substâncias produzidas para utilização nas indústrias. como um pesticida organoclorado ou um metal pesado. como nas sementes de soja. Conforme já mencionado. tais como micropoluentes orgânicos.18. sobretudo provenientes das práticas agrícolas. na agricultura e para os bens de consumo.6.48-50. uma exposição acentuada à mesma. Estão incluídos nesta categoria os pesticidas e aditivos plásticos. uma vez que muitas destas substâncias são utilizadas durante a produção de alimentos industrializados e/ou no processo de embalagem dos mesmos. Bons exemplos destas fontes são as deposições atmosféricas e os escoamentos superficiais.. quaisquer efeitos como.5. enquanto que na área rural a poluição advém basicamente da erosão do solo.

4-octilfenol. os compostos orgânicos contendo oxigênio e os compostos de organoestanho. Lista de substâncias classificadas como interferentes endócrinos por várias organizações SUBSTÂNCIAS Esteróides Etinilestradiol 17β-Estradiol Estrona Mestranol Dietilestilbestrol Alquilfenóis Nonilfenol Nonilfenol Etoxilado Octilfenol Octilfenol Etoxilado Compostos Poliaromáticos Bifenilas Policloradas Retardantes de Chama Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (PAH) Compostos com Oxigênio Ftalatos Bisfenol A Pesticidas Atrazina Simazina Diclorvos Endossulfan Trifluralina Demeton-S-metil Dimetoato Linuron Permetrina Lindano Clordano Dieldrin Hexaclorobenzeno Pentaclorofenol Outros Dioxinas e Furanos Tributilestanho UKEA USEPA OSPAR in vivo in vitro x x x x x x x x x x x x x JEA WWF x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x UKEA: Agência Ambiental do Reino Unido. Porém. Os estrogênios apresentam em sua estrutura um grupo fenólico e em alguns casos um grupo hidroxila alifático. Nova tâncias suspeitas de interferir no sistema endócrino. na parte externa denominada córtex. corticóides. colesterol e derivados. os pesticidas. tais como os hormônios e seus precursores.27.21. estradiol. podem ser divididos em três principais classes: esteróides hormonais.700 Ghiselli e Jardim Quim. com base em seus estudos. estrogênios e progestagênios. como os androgênios. 4-cloro-3-metilfenol. resorcinol.2’bis(4-(2. metilmercúrio51). 4nitrotolueno. os surfactantes. USEPA: Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. principal hormônio sexual masculino. orto-fenilfenol. e fitoesteróides2-4. JEA: Agência Ambiental do Japão.4. Os androgênios são esteróides que contêm em sua estrutura dezenove átomos de carbono (C19). etinilestradiol e 2. enquanto que nos Tabela 1. Alguns metais. De acordo com suas funções. a maioria das substâncias classificadas como interferentes endócrinos são pesticidas. estrona.23.21. também apresentaram atividade semelhante no sistema endócrino. difenil éter tetrabromado. os compostos poliaromáticos. herbicidas e fungicidas (relatados coletivamente como pesticidas). que tem como principal função regular o metabolismo dos íons potássio e sódio nos rins3. Os corticóides são produzidos nas glândulas supra-renais. tanto de seres humanos como de diferentes espécies animais. Esteróides Sexuais Esteróides compreendem um grupo de substâncias.53. Até o momento. distribuídos de forma cíclica e cuja substância mais característica é a testosterona.52. Foram identificadas 118 substâncias.27.3-epoxipropoxi)fenil)propano3. 2. neste artigo é focado um grupo específico de substâncias classificadas como interferentes endócrinos: os esteróides e fitoesteróides.32. freqüentemente determinado em materiais biológicos como sangue e urina.4-diclorofenol. como cádmio e mercúrio. WWF: Organização não Governamental .. OSPAR: Comissão de Paris e Oslo. cujos principais representantes são os glucocorticóides e a aldosterona. especialmente nas suas formas orgânicas (por ex. São elas: dissulfeto de carbono. sendo 12 destas designadas prioritárias para a condução de estudos mais detalhados.

como antioxidantes (proteção contra as radiações UV). Dentre estas áreas.23. são rapidamente absorvidos pelo organismo e. naturais e sintéticos. ou seja. A Tabela 2 fornece algumas propriedades físico-químicas. bem como na área urbana. O LD50. como o estrume de gado.Vol.8 a 4. dependendo do estágio da gravidez4. provenientes de uma estação de tratamento. Um destes estudos. a quantidade de estrogênio excretada por uma mulher grávida pode ser até mil vezes maior que a de uma mulher em atividade normal (da ordem de 2 a 20 µg estrona/dia.52. 30.3 a 5 µg estradiol/dia). fenilpropionato de nandrolona (Durabolin®) e ésteres da testosterona. Como são os principais responsáveis pelo crescimento e pela reprodução de espécies animais. prevenindo-os da metabolização rápida quando no organismo. que possuem atividade estrogênica e que atuam como constituintes das membranas celulares. as duas principais fontes de esteróides sexuais. sendo esta a principal via de biossíntese de estrogênios em homens e mulheres após a menopausa.32.21. através da contaminação do solo e da água pelos dejetos animais. Já os progestagênios são empregados nos tratamentos voltados para as causas de infertilidade e descontrole do ciclo menstrual. mostrou que na água de 10 riachos avaliados. como anabolizantes3. estão localizadas nas áreas rurais destinadas à agropecuária. então. metabolizados no fígado3. Para obter esses efeitos os ésteres da testosterona são preferidos à sua forma livre. Shore et al. Diferentemente dos hormônios sexuais. estriol. A testosterona pode ser aromatizada a estradiol.4.21.0 ng/L. caso da 19-nortestosterona21. são excretados principalmente pela urina. através de descargas de esgotos domésticos nas águas superficiais4. A aplicação terapêutica mais evidente que os androgênios possuem é a de suprir a deficiência da função endócrina dos testículos e aumentar a síntese protéica do organismo. Estes fitoquímicos não nutricionais somam mais de 12. incluindo os seres humanos. Foram feitas muitas alterações na molécula da testosterona para diminuir seus efeitos androgênicos e manter ou aumentar os efeitos anabolizantes. seus derivados sintéticos são bastante empregados como contraceptivos (hormônios inibidores do processo de ovulação). dependendo da idade. 3 Interferentes endócrinos no ambiente 701 progestagênios este grupo fenólico é substituído por um grupo cetona. do estado de saúde. Assim.2 ng/L para testosterona e 0. vários estudos foram realizados com o objetivo de determinar as concentrações dos hormônios sexuais em diversas matrizes ambientais. a remoção do grupamento metila em C19 aumenta o efeito anabólico e diminui a ação androgênica. mesterolona. No. Em geral. ao passo que os estrogênios são também administrados no controle dos sintomas que envolvem a menopausa. Estrogênios. Os esteróides sintéticos são basicamente obtidos a partir de reações de alquilação (principalmente grupos metila e etila) ou esterificação dos hormônios naturais. na forma biologicamente inativa.32. fluoximesterona. Apenas como curiosidade. garantindo assim o efeito desejado. como conjugados solúveis em água (principalmente glucoronídios ou sulfatos) e em menor proporção pelas fezes (na forma livre). Os compostos estradiol. equivale a 1737 mg/kg55.6-7.27. fungicidas.52.000 substâncias químicas naturais presentes nos alimentos de origem vegetal. Sob condições ambientais estes conjugados são rapidamente hidrolisados. identificando suas possíveis fontes. progesterona e etinilestradiol são classificados como sendo potencialmente cancerígenos27. e 0. Apenas para o etinilestradiol foi encontrado um valor que estimasse sua toxicidade aguda. da dieta ou gravidez.27. Na Figura 3 são ilustradas as fórmulas estruturais dos principais esteróides mencionados. podendo ser aplicados por via intramuscular. Por exemplo. norgestrel e noretisterona (progestagênicos). apresentando variações com relação à solubilidade em água. três estavam localizadas em regiões que empregavam como fertilizante. Ainda existem os esteróides anabólicos ou anabolizantes sintéticos que nada mais são que substâncias químicas relacionadas estruturalmente com a testosterona.21. 40% deles apresentavam concentração de testosterona acima de 1. via oral em camundongos. taxa de excreção e catabolismo biológico. levando aos hormônios livres e seus metabólitos3. metiltestosterona. Amostras de esgoto doméstico (bruto e tratado). Figura 3. os fitoestrogênios são substâncias não . androgênios e progestagênios. 3 a 65 µg estriol/dia. distúrbios fisiológicos e no tratamento do câncer de próstata e de mama. tanto naturais quanto sintéticos. Posteriormente.54 foram um dos primeiros pesquisadores que investigaram a influência e a concentração dos esteróides sexuais como poluentes ambientais. Estruturas químicas dos principais esteróides sexuais e fitoesteróides Fitoestrogênios Os fitoestrogênios são substâncias químicas naturais contidas nas plantas.4. etilestrenol. ocorrência e utilização dos esteróides aqui abordados.0 ng/L para estrogênios no esgoto tratado. e algumas vezes como herbicidas. como hormônios de crescimento.4. Os esteróides sintéticos mais utilizados são o etinilestradiol e mestranol (estrogênios). altas quantidades de adubo animal (frango) enquanto que apenas uma havia recebido esgoto doméstico. também apresentaram elevados teores de hormônios naturais: 19-273 ng/L para testosterona e 49-73 ng/L para estrogênios no esgoto bruto e 1. Vários organismos excretam diferentes quantidades de esteróides sexuais (hormônios). realizado nos EUA.

85 406.000 5.000 13. As isoflavonas são encontradas em uma variedade de plantas.3.36 201.1 mL * LD50: dose letal para 50% das espécies estudadas (ratos ou camundongos). As isoflavonas possuem uma estrutura difenólica que se assemelha aos estrogênios sintéticos como o dietilestilbestrol (DES).70 412. flavanonas.3.10 113 880 > 4000 39 46 18 118 1240 60 46 7.22 291.600 8. à família dos flavonóides e das ligninas2-4.9 43. Isto significa que.24 354.000 1375 250 146 1300 0.35 206.000 320 180 45 75.8-TCDD 2.000 0.90 490 5.43 312.5 88.86 4. legumes e vegetais e são especialmente abundantes na soja e seus derivados.000 220 43.62 3.11 330.250 12.91 380.67 3.000 3.80 2.69-6.50 4.420 13. basicamente.41 314.0013 0. Embora a concentração destas substâncias no corpo humano possa ser até 100 vezes maior que os valores encontrados para os estrogênios .45 4.37 288.39 296.91 380.750 3.35 222.570 log Pow 3.21-5. Ambos os tipos de fitoestrogênios têm apresentado uma atividade estrogênica da ordem de 10-2 a 10-3 quando comparada ao 17βestradiol3. sementes.20 2.35 345.000 6.21.76 6.32 5. enquanto que as ligninas são produzidas a partir do catabolismo biológico de grãos inteiros. apresentando altas concentrações nas sementes do linho.1 mL 4.1-6.34 vários 959.86 5.3-dibenzilbutano2-4.34 3.49 318.430 12.44 268.08 3.4 3.30 Solubilidade µg/L H2O (25 ºC) 12.3 6.53.000 14.98 228.95 373.91 290.960 483 5.000 1000 250 175 1300 0. sendo que suas concentrações variam de acordo com a planta em questão53.11 233. Já as ligninas possuem uma estrutura derivada do 2. por via oral.4 24 90 27 140 220-260 7. Nova Tabela 2.22 252.53.69 LD50 (mg/kg)* Macho Fêmea 1737 1737 8.022 3.p’-DDD Aldrin Dieldrin Endrin Lindano Endossulfan Heptacloro Metoxicloro Linuron Diuron Vinclozolina Malation Carbaril Tributilestanho Pentaclorofenol PCB Decabromodifeniléter 2. isoflavonas e chalconas3.13 2. Propriedades físico-químicas e toxicidade aguda dos interferentes endócrinos abordados Substância Estrona Estriol Estradiol Etinilestradiol Progesterona Testosterona Norgestrel Dietilestilbestrol Androsterona β-Sitosterol Estigmasterol Genisteina p.000 400.43 414.29 278.26 6. As principais classes de flavonóides são: flavonas.65 249.000 42.40 3.42 120.03 320.17-7. Estes compostos fenólicos pertencem.01 3. antocianidinas.50-8.000 82.20 5.34 290.76 5. se um fitoestrogênio se ligar no organismo a um receptor de estrogênio.17 321.10 286.05 364.53.p’-DDE p.7.2 100 5000 1500 437 10. As estruturas da genisteina (isoflavona) e enterolactona (lignina) são mostradas na Figura 3.702 Ghiselli e Jardim Quim.000 0.33 128.600 31.97 305.68 3.24 220.21.62 4.16 202.04 266.4. Durante o metabolismo secundário das plantas vários ácidos hidroxibenzóico e hidroxicinâmico são formados.400 145. flavonóis.40-5.99 3.8-TCDF Bisfenol A Dibutilftalato Dietilftalato 4-Nonilfenol Octilfenóis Naftaleno Fluoranteno Antraceno Benzo[a]pireno CAS Number 53-16-7 50-27-1 50-28-2 57-63-6 57-83-0 58-22-0 797-63-7 56-53-1 53-41-8 83-46-5 83-48-7 446-72-0 50-29-3 72-55-9 72-54-8 309-00-2 60-57-1 72-20-8 58-89-9 115-29-7 76-44-8 72-43-5 330-55-2 330-54-1 50471-44-8 121-75-5 63-25-2 56573-85-4 87-86-5 1336-36-3 1163-19-5 1746-01-6 51207-31-9 80-05-7 84-74-2 84-66-2 104-40-5 27193-28-8 91-20-3 206-44-0 120-12-7 50-32-8 Fórmula Molecular C18H22O2 C18H24O3 C18H24O2 C20H24O2 C21H30O2 C19H28O2 C21H28O2 C18H20O2 C19H30O2 C29H50O C29H48O C15H10O5 C14H9Cl5 C14H8Cl4 C14H10Cl4 C12H8Cl6 C12H8Cl6O C12H8Cl6O C6H6Cl6 C9H6Cl6O3S C10H5Cl7 C16H15Cl3O2 C9H10Cl2N2O2 C9H10Cl2N2O C12H9Cl2NO3 C10H19O6PS2 C12H11NO2 C12H28Sn C6HCl5O C12H10-nCln C12Br10O C12H4Cl4O2 C12H4Cl4O C15H16O2 C16H22O4 C12H14O4 C15H24O C14H22O C10H8 C16H10 C14H10 C20H12 Massa Molecular (g/mol) 270.p’-DDT p.32-5.26 178. Podese encontrar várias classes de flavonóides.13 > 8000 5. irá produzir uma resposta cerca de 100 a 1000 vezes menor que a de um estrogênio endógeno.48-5.47 288.20 3. de acordo com o nível de oxidação e o modelo de substituição da cadeia heterocíclica.045 5000 1500 437 10.70 270. esteroidais que apresentam uma estrutura do tipo 2-fenilnaftaleno. incluindo as frutas.7.40 > 8000 5.07 3.23-3.68-5. Vários cientistas têm focado suas pesquisas nas isoflavonas e nas ligninas.22 3.39 272.000-10. fibras e algumas frutas e vegetais.13 18.

podendo ser facilmente bioacumulados. Esta segunda classificação é fundamental para o conhecimento da toxicidade aguda de um determinado pesticida2. dentre outros. mas apresenta uma concentração pouco expressiva. como milho. clorpirifos. Os pesticidas compreendem um grupo de substâncias produzidas com o objetivo de eliminar um organismo indesejável ou controlá-lo de alguma maneira.22.57. clordano. diazinon. a inclusão destas substâncias na dieta humana tem conferido mais um efeito benéfico à saúde que deletério.64. As bifenilas constituem um grupo de produtos químicos sintéticos caracterizados pela presença de anéis aromáticos halogenados. bem como o metoxicloro). bem como produzir efeitos androgênicos em peixes fêmeas. Em vista de sua toxicidade e a de seus contaminantes (furanos). O β-sitosterol é usado como um moderador lipídico em medicamentos. Substâncias químicas sintéticas Esta classe de substância suspeita de causar alteração no sistema endócrino é composta pelas substâncias de origem antrópica como os xenoestrogênios (também denominados estrogênios ambientais) e aquelas comumente utilizadas como matéria-prima ou fabricadas durante os processos industriais. Um marcador bastante usado é a vitelogenina (VTG). Dentre as substâncias. podendo também ser detectado.. Todos os pesticidas têm a propriedade comum de bloquear um processo metabólico vital dos organismos para os quais são tóxicos. são bastante impactantes à saúde humana e animal. Entretanto. evidências científicas têm mostrado que os fitoestrogênios podem apresentar alguns benefícios à saúde quando relacionados a doenças cardiovasculares. paration. elas são facilmente metabolizadas e excretadas pela urina e pela bílis. fungicida como preservante de madeira e no tratamento de sementes. dieldrin. os diclorodifeniletanos e seus derivados (DDT e metabólitos DDE e DDD. é regulada por estrogênios e transportada através do sangue para os ovários. 30. nos efluentes provenientes de industrias de óleo. uma micotoxina produzida por um fungo presente nos alimentos embolorados. ou γ-HCH. Posteriormente.5. Por outro lado. diuron e seus metabólitos) e. e animais com altos teores de gorduras2-4. Muitos deles também são persistentes no meio ambiente devido. assim como uma variedade de outros compostos não organoclorados como os bifenóis. Embora a produção destes compostos tenha sido banida em 1980. fungicidas. dentre outros2. 3 Interferentes endócrinos no ambiente 703 endógenos. ainda. os fungicidas como a vinclozolina (usada em frutas e vegetais e cujos metabólitos apresentam atividades anti-androgênicas). principalmente no consumo de peixes e derivados. O pentaclorofenol também é utilizado como pesticida com múltiplos usos: herbicida como desfolhante pré-colheita.. como larvas de bálanos2-5.44-46. os pesticidas podem ser classificados de acordo com sua função. lubrificantes. hidrofobicidade e lipofilicidade. Tais compostos são encontrados nos ambientes aquáticos principalmente adsorvidos nos sedimentos e/ou materiais particulados.40.61. como os pesticidas2-5.61. por ex.Vol. O interesse ambiental envolvendo tal substância está na sua elevada toxicidade. produzindo um efeito agonista similar aos esteróides sexuais exógenos58. Vários pesticidas. etc.48-51. tais como o desenvolvimento dos órgãos reprodutivos masculinos59. recipientes para conserva de lagostas. e o β-sitosterol. devido à elevada bioestabilidade. Outras duas importantes substâncias naturais que exibem atividade estrogênica são a zearalenona. e linuron. As bifenilas policloradas (PCB) foram introduzidas no meio ambiente em 1929 e produzidas por vários países a partir de diversos processos industriais. baixa solubilidade em água e elevada lipofilicidade. principalmente. . sua concentração no plasma pode se tornar elevada após a exposição de um determinado organismo a substâncias que apresentam atividade estrogênica4. Em organismos de machos a vitelogenina também está presente. Ensaios in vitro mais recentes também mostraram que muitos fitoestrogênios se ligam aos receptores de estrogênios. as bifenilas policloradas presentes no ambiente. os pesticidas organometálicos. estão comprovadamente relacionados com alterações no sistema endócrino. fungicida (preservante de madeira). isodrin. Portanto. observadas em estudos envolvendo ensaios in vitro e in vivo. bem como muitos de seus metabólitos. os herbicidas (à base de triazinas. alquilfenóis. Os produtos químicos sintéticos e os estrogênios ambientais incluem uma série de organoalogenados persistentes como os inseticidas DDT e seu metabólito DDE. bem como os seus metabólitos como as PCB hidroxiladas. suas aplicações incluem o uso em capacitores dielétricos. como por ex. fluidos de transferência de calor e plastificantes. Algumas ovelhas. osteoporose e sintomas da menopausa2-4. Uma vez que a exposição ambiental às isoflavonas tem sido negligenciada pelos pesquisadores. com o objetivo de evitar incrustações e prevenir o acúmulo de organismos marinhos viscosos.53. uma vez que é considerada como sendo uma das maiores fontes de geração de dioxinas para o ambiente.48-50. em elevadas concentrações. bem como estabilisante de plásticos à base de PVC. No. estudos envolvendo ensaios in vivo com ratos e camundongos fêmeas ovariectomizadas comprovaram tal potencial estrogênico57.22. estudos realizados com animais provenientes de regiões agrícolas (monocultura) demonstraram que alguns fitoestrogênios apresentaram atividade estrogênica com efeitos deletérios à saúde animal. e seu potencial para bioacumulação e biomagnificação. e também de acordo com o seu poder tóxico. Devido à grande diversidade de produtos existentes (somente no Brasil são cerca de 300 princípios ativos em 2 mil formulações comerciais diferentes). endossulfan. particularmente no que se refere ao crescimento e desenvolvimento de um determinado organismo.60-64.21. toxafeno. biocida e inseticida. mas apenas 130 deles são encontrados em produtos comerciais. formonoetina e biochanina A desenvolveram sintomas de infertilidade56. poucos dados científicos são encontrados na literatura4. algicidas. cascos de navios. sendo o lindano. por exemplo. e como moluscicida no controle de lesmas. Vários testes e biomarcadores têm sido desenvolvidos para detectar a atividade estrogênica de uma determinada substância. redes de pesca. legumes e na madeira. É o caso do β-sitosterol. compostos organometálicos. ftalatos. capaz de induzir a produção de vitelogenina em peixes machos. uma proteína presente no plasma sangüíneo e que desempenha importante papel no sistema reprodutivo de vertebrados ovíparos fêmeas.48-50. endrin.18. a sua estabilidade química. após terem sido alimentadas por longo período com um tipo especial de pasto que continha as isoflavonas genisteina. herbicidas. a principal fonte de exposição humana às bifenilas policloradas está nos alimentos. Afinal. destacamse os inseticidas organoclorados como os ciclodienos (aldrin. algodão e cevada. os inseticidas à base de organofosforados e carbamatos (diclorvos. Também fazem parte desta classe as substâncias usadas nas atividades agrícolas. câncer. hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. podendo exibir efeitos agonista e antagonista no sistema endócrino. após a queima da madeira tratada com pentaclorofenol2.22. empregado como moluscicida. sobretudo de espécies animais provenientes de ambientes aquáticos.. sintetizada no fígado. carbaril e carbofurano). como atrazina e simazina. dieldrin. Tal substância. Teoricamente esta classe compreende 209 compostos individuais (congêneres). Portanto. heptacloro e mirex). toxafeno. o mais importante deles).22. bifenilas. e os hexaclorocicloexanos (isômeros do hexaclorobenzeno – HCH.22. inseticidas. na forma de glucoronídios e sulfatos conjugados. interferindo em seu processo reprodutivo. telodrin. fluidos hidráulicos. inseticida no controle de cupins. como o tributilestanho (TBT). e ainda usado pela Marinha como agente “antimofo” (algicida) nas tintas aplicadas em embarcadouros. polpa e papel4. encontrado em óleos vegetais.

44. lubrificantes e fragrâncias. Este composto ocorre no ambiente como resultado do processo de lixiviação dos produtos finais manufaturados a partir deste.5 a 4 dias quando em água. tais como combustíveis derivados do petróleo (gasolina e óleo diesel) ou ainda a partir do carvão. Estudos com animais mostraram que a TCDD apresenta um efeito deletério nas funções reprodutivas. seu transporte no ambiente aquático constitui a maior rota de distribuição para os demais compartimentos ambientais. bem como os lodos provenientes das estações de tratamento de esgoto (ETE)2-4. Em geral. pela indústria têxtil e em outros materiais empregados para prevenir incêndios.62.704 Ghiselli e Jardim Quim. Porém. alguns estudos envolvendo ensaios in vitro mostram que o bisfenol A possui um potencial de 4 a 6 ordens de magnitude menor que o 17βestradiol e. como selante dentário. como agentes emulsificantes nas formulações de tintas látex e pesticidas.3. Estima-se que 600 mil t de retardantes de chama são produzidas mundialmente.63. processos de incineração de resíduos (inclusive lixos urbanos). principalmente aqueles contendo o grupo vinil como o cloreto de polivinila (PVC) e outras resinas como acetato de polivinila e poliuretano. durante os processos de biodegradação como os empregados nas ETE. Estas substâncias são bastante persistentes. Além das PBB (dos 209 possíveis congêneres apenas 45 destes foram sintetizados). geram subprodutos tóxicos e persistentes que. dentre outras.22. como os provenientes de áreas hospitalares e municipais2-4. dentre outras. causando alterações no sistema endócrino. como aditivos plásticos na produção de resinas fenólicas. princi- .22. estudos ecotoxicológicos têm mostrado que alguns produtos da degradação destes. a cada ano. podendo estar presente nos vários compartimentos: ar. principal representante deste grupo. altas concentrações destas substâncias poderão estar presentes na sua dieta. podem ser tóxicos para os mamíferos2. em um processo conhecido como biomagnificação. como os incêndios florestais e as emissões vulcânicas. sendo 60 mil correspondente aos compostos clorados e 150 mil aos compostos bromados. após serem introduzidos no meio ambiente. sendo a quantidade de cloro presente no lixo mais que suficiente para formação das mesmas. Os alquilfenóis compreendem os surfactantes não iônicos empregados principalmente na forma de etoxilados e que são sintetizados através da adição de óxido de etileno ao nonilfenol.46. derramamento acidental de petróleo. solo.48. sedimento e biota. Por serem lipofílicos tendem a se acumular nos tecidos adiposos das espécies envolvidas em uma determinada cadeia alimentar. suas principais fontes no meio ambiente são os efluentes industriais. Bisfenol é um nome genérico dado a um grupo de difenilalcanos comumente empregados na produção de plásticos. no combate a incêndios. Estas substâncias são empregadas mundialmente em vastas quantidades. como agente floculante. Outras aplicações incluem seu uso como estabilizante na produção de plásticos (inclusive embalagens de alimentos). a toxicidade aguda destes compostos é relativamente baixa. Entretanto.22.22. o hexabromociclododecano (HBCD) e o tetrabromobisfenol A (TBBPA) também são comumente utilizados como agentes retardantes de chama. Dioxinas e furanos também são persistentes no meio ambiente e podem ser bioacumuladas nos organismos. e as indústrias de polpa e papel que ainda empregam processos de branqueamento da polpa de celulose à base de cloro2-4. sobretudo dos plastificantes utilizados na fabricação de plásticos de uso comum.44. adesivos. como os monoésteres. 4-nonilfenol e 4-octilfenol são os compostos de maior importância ambiental devido à escala em que são produzidos no ambiente.48. eles ainda continuam sendo empregados como componentes de detergentes industriais. são acumulados nos organismos aquáticos uma vez que são mais lipofílicos que os compostos que os originaram2-4. Embora nos últimos anos o uso destes compostos na formulação de detergentes de uso doméstico tenha sido diminuído em alguns países da Europa. Tais ftalados são encontrados não apenas na água lixiviada como também nos lodos provenientes dos esgotos. O bisfenol A. bem como um tempo de meia-vida de 2.22. e têm sido utilizados há mais de 40 anos. Já as fontes antrópicas incluem os efluentes industriais e esgotos domésticos. produzindo ambos os efeitos anti-estrogênico e antiandrogênico.49. outras substâncias como os difeniléteres polibromados (PBDE). no sedimento e em algumas espécies aquáticas. Os diésteres derivados do ácido ftálico são empregados basicamente como plastificantes. Uma vez presente no meio ambiente. Outras fontes incluem a reciclagem de metais e a produção de solventes comuns. Também mostraram produzir uma resposta estrogênica em estudos envolvendo ensaios in vitro3. como revestimento interno nas latas de alumínio usadas em bebidas.4) permite assumir que tal substância está preponderantemente adsorvida na matéria orgânica. resinas epóxi e resinas de poliésterestireno insaturadas. sob condições alcalinas. com velocidades bastante diferenciadas.45. Ftalatos podem ser introduzidos no ambiente através da lixiviação. nas indústrias têxteis. lipofílicas e apresentam elevado potencial para bioacumulação. além dos processos naturais de combustão.5. que pode apresentar atividade anti-androgênica. a partir de processos de biodegradação dos alquilfenóis etoxilados. papelão. é uma substância amplamente utilizada durante os processos industriais como monômero na produção de polímeros. bem como na fabricação de tintas. policarbonatos. Dentre os alquilfenóis. Estas substâncias não são produzidas comercialmente e sim geradas como subprodutos de vários processos industriais e de combustão. Com relação à sua atividade estrogênica. o bisfenol A pode vir a ser degradado biologicamente. madeira. A tetraclorodibenzo-p-dioxina (TCDD) é a substância mais biologicamente ativa e mais tóxica das presentes neste grupo de contaminantes ambientais. Como os seres humanos são muitas vezes o topo desta cadeia alimentar. ainda. etc. apresentando um tempo de meia-vida variando entre 1 a 180 dias em solos. onde a temperatura é muito menor (250-500 °C) que a da própria chama. Nova As bifenilas polibromadas (PBB) são empregadas como aditivos nas formulações de materiais usados como agentes retardantes de chama. sendo esta última a principal responsável pela presença destes contaminantes no meio ambiente.49. uma vez que são substâncias comprovadamente cancerígenas2-4. As dioxinas e furanos são denominações genéricas para dois grupos similares de substâncias químicas aromáticas e policloradas: as dibenzo-p-dioxinas (PCDD) e os dibenzofuranos (PCDF). água. o valor do seu coeficiente de partição octanol-água (log Kow 3. Embora apresente solubilidade em água moderadamente elevada. como agentes dispersantes na produção de polpa e papel. Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (PAH) compreendem um grupo de mais de 100 substâncias químicas formadas principalmente durante a combustão incompleta da matéria orgânica. Chamas provenientes de incêndios florestais também emitem para o ambiente vários congêneres da família das dioxinas.22. produção de asfalto e de alumínio e queima de combustíveis fósseis. inclusive peixes. Traços de íons metálicos contidos no resíduo provavelmente catalisam o processo de combustão. como antioxidante.45. A maioria destes etoxilados. os esgotos domésticos. As fontes naturais ocorrem como conseqüência de processos de síntese por bactérias. e ainda como fungicidas e agentes retardantes de chama. São formados a partir de fontes naturais ou antrópicas. Dioxinas e furanos são formadas na zona de pós-combustão dos incineradores. Tais agentes são usados em plásticos. Sem dúvida. plantas e fungos. como espermicida em aplicações contraceptivas. na água superficial. circuitos eletrônicos. Pelo fato do bisfenol A ser bastante empregado nos processos industriais e também por participar das formulações de produtos de uso doméstico. a principal fonte destas substâncias é a incineração de resíduos (lixo).

Os interferentes endócrinos apresentam uma variedade de rotas de exposição no meio ambiente. P.. Nimrod. J. Giesy.. Ringer. como Alemanha.gov/s+t/SNT/noframe/co117..55 dos interferentes endócrinos abordados neste artigo são fornecidas na Tabela 2.. para se avaliar os riscos da exposição de organismos aquáticos a tais substâncias deve-se compreender também os mecanismos de degradação que as envolvem.64. 30. 2. A. S. 6.. além do monitoramento das suas concentrações no meio ambiente.. Colborn.22. muito próximas das encontradas no organismo. 01/02060-3 e 03/11757-3 (ambos Auxílio à Pesquisa).55. conforme ilustrado na Figura 4 para o benzo[a]pireno. Fórmulas estruturais de algumas substâncias químicas sintéticas A persistência dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos no ambiente varia de acordo com a massa molar.. Para isso.22. como já observado em estudos envolvendo ensaios biológicos in vitro e in vivo2-4... IWA Publishing. Mccann. Chem. Water 21 2002. Mayes. como naftaleno e antraceno. acumulando-se nos vários compartimentos. Figura 4. D.. Holanda. visando não apenas a determinação analítica dos mesmos nos mais variados compartimentos ambientais e a identificação de suas principais fontes..50. 2002. dependendo basicamente das suas propriedades físico-químicas inerentes. incluindo várias espécies animais. observados em ensaios in vitro. Th. J. R. R.. 20. October.22. J. T. Water 21 2004. Substâncias químicas suspeitas de causar alteração no sistema endócrino estão potencialmente associadas a várias doenças. Entretanto. LeBlanc. T. mesmo após terem deixado de ser produzidos industrialmente há várias décadas. 75.. Toxicol . No. acessada em Janeiro 2002. E.65 e a toxicidade aguda (LD50)49. 2003... a maioria deles apresenta elevada lipofilicidade podendo ser facilmente bioacumulados no meio ambiente. M. 3 Interferentes endócrinos no ambiente 705 palmente provenientes de emissões veiculares2-4.. B. disfunção da tireóide e alterações relacionadas com o sistema neurológico. Touart.27. http://biology.. Suíça e Espanha. Environ. Miller. L.. Patino. R.. . S. Mihaich. Stahl. Purdy.. J. 117. não se deve ignorar a presença dos mesmos no meio ambiente. Lintelmann. L. Apresentam uma estrutura contendo dois ou mais anéis aromáticos fundidos. 6 e 7. G. Bantle. van der Kraak.. L.64. embora este último forneça dados ecotoxicológicos mais relevantes quando se trata da identificação de interferentes endócrinos em potencial. pois.. REFERÊNCIAS 1. AGRADECIMENTOS Esse projeto tem o apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Gray.. apresentam ordens de magnitude menores quando comparados aos hormônios endógenos como o estradiol. C. das condições ambientais como temperatura. Uma das principais razões para que haja uma preocupação sobre este tema está nos possíveis efeitos dos interferentes endócrinos na saúde humana e no meio ambiente. somente nos últimos 10 anos é que pesquisas nesta área começaram a ser intensificadas. Lester. As propriedades físico-químicas mais relevantes2-4. Kramer. R. A Figura 4 ilustra as estruturas das principais substâncias químicas sintéticas mencionadas. 1998. Nova 1992. 7. CONCLUSÃO Embora alguns estudos científicos já terem relatado. R. androgênica.. de mama e de próstata. a ocorrência no meio ambiente de algumas substâncias classificadas como interferentes endócrinos.. 45. dentre outros fatores. Tillitt. como também buscando desenvolver procedimentos analíticos que permitissem avaliar os mecanismos de ação destas substâncias no sistema endócrino de animais. Para muitas substâncias químicas sintéticas como os pesticidas. J. embora pareçam ser menos potentes que os hormônios endógenos. Entretanto. Lewis Publishers CRC Press LLC: USA. Baird. A. e também nos EUA. radiação UV e conteúdo microbiológico. Thomas. Denslow. 3. Kennedy. Mccann. M.. P. IWA Publishing.. Zacharewski. Os que apresentam baixa massa molar. como o câncer de testículo. das condições externas em que são utilizados.. R. no material particulado rico em matéria orgânica.. E. principalmente biota.Vol. Endocrine Disrupters in Wastewater and Sludge Treatment Processes. 15.Chem. Pure Appl. à queda da taxa de espermatozóides. N. Pelo fato de apresentarem estruturas similares aos esteróides sexuais podem também interferir no funcionamento natural do sistema endócrino. R.50. incluindo os seres humanos.. Química Ambiental.. IWA Publishing. 2003. W. 1st ed. Wenzel.E..49. Hutchinson. sendo posteriormente detectados nas águas. Guiney. H. 631. 2a ed.. principalmente em países europeus. V. April.. Hormônios sexuais naturais e sintéticos são potentes interferentes endócrinos e podem ser encontrados nos ambientes aquáticos em concentrações fisiológicas. G. Katayama.. são degradados mais facilmente. nos sedimentos. J. N. G. Quim. Birkett. N. Campbell. 17..usgs. através dos processos 02/01829-4 (Doutorado). ou seja. apresentando um tempo de meia-vida que varia entre 9 a 43 h. muitos deles (especialmente os POP) são persistentes no ambiente.. L. A. Dickerson. B. 5.htm. Peterson. conforme relatado por alguns pesquisadores. Porém.. Folmar. Ankley. Fry. Bechara. ligando-se aos receptores hormonais e produzindo um efeito antagonista. anti-estrogênica e/ou antiandrogênica). P. deve-se recorrer aos ensaios biológicos do tipo in vitro e/ou in vivo. Shore. 4. deformidades dos órgãos reprodutivos.. cap. Bookman: Porto Alegre.... há mais de 20 anos. 68. Mcmaster. Kurihara.. os efeitos produzidos a partir das atividades dos mesmos no sistema endócrino (estrogênica.

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