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As várias e complexas condições sob as quais a razão e a moral aparecem são as sinuosidades e curvas da fronteira entre a natureza e a supranatureza

. Essa a razão por que, se quiser você pode sempre ignorar a supranatureza e tratar os fenômenos como sendo puramente naturais; do mesmo modo que alguém estudando num mapa os limites de Comwall e Devonshire pode sempre dizer: "o que chamamos de saliência em Devonshire é sempre uma reentrância em Comwall." E num certo sentido não podemos refutá-lo. O que chamamos de saliência em Devonshire é sempre uma reentrância em Comwall. O que chamamos de pensamento racional no indivíduo sempre envolve uma condição do cérebro, no final de contas uma relação de átomos. Mas Devonshire é não obstante algo mais do que "onde termina Comwall", e a razão é algo mais do que bioquímica cerebral. Volto-me agora para outro possível receio. Para algumas pessoas, a grande dificuldade sobre qualquer argumento a favor do sobrenatural está simplesmente no fato de haver uma real necessidade do mesmo. Se uma coisa estupenda existe, não deveria ser ela tão evidente quanto o sol nos céus? Não é intolerável e até mesmo incrível que o conhecimento do mais básico de todos os Fatos seja apenas acessível através de raciocínios sutis, para os quais a maioria dos homens não tem tempo nem capacidade? Simpatizo muito com este ponto de vista, mas devemos notar duas coisas. Quando você observa um jardim de um andar superior fica evidente (uma vez que pense no assunto) que está olhando por uma janela. Mas se for o jardim a razão do seu interesse, você pode observá-lo durante longo tempo sem pensar na janela. Quando está lendo um livro é óbvio (quando atenta nisso) que está usando seus olhos; mas a não ser que eles comecem a doer ou que o livro verse sobre óptica, você pode ler a noite inteira sem pensar uma só vez em olhos. Quando falamos, é evidente que fazemos uso da linguagem e da gramática, e ao tentarmos nos expressar numa língua estrangeira isso se torna ainda mais aparente. Mas quando falamos nossa própria língua nem sequer notamos isso. Quando você grita do alto da escada: "Desço num minuto", não tem consciência de que fez uma concordância gramatical, com o verbo e o sujeito no singular. Contase a história de um índio que, tendo aprendido várias outras línguas, foi solicitado a preparar uma gramática do idioma usado pela sua tribo. Depois de pensar um pouco, ele respondeu que o mesmo não continha gramática. As regras gramaticais que usara a vida inteira nunca foram notadas por ele. Num sentido ele as conhecia muito bem, mas em outro não tinha conhecimento delas. Todos esses exemplos mostram que aquilo que sob certo aspecto é apresentado como o mais evidente e primário dos fatos, o único através do qual você tem acesso a todos os demais, pode ser na verdade o mais facilmente esquecido, não por ser assim tão remoto ou incompreensível, mas por estar tão próximo e manifesto. Foi