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Módulo 1 – O levantamento das provas objetivas no local de crime

Apresentação do Módulo

Para que o policial responsável possa fazer um bom relatório de local de crime, é fundamental
que ele saiba quais são os tipos de provas levantadas e como elas podem colaborar para o
conjunto de informações preliminares da investigação. Assim, o conhecimento do processo de
levantamento das provas objetivas é necessário para que o investigador possa dialogar com o
perito criminal sobre os achados na cena do crime, visando conjugar tais achados com as
informações levantadas na etapa de investigação de provas subjetivas. Ademais, a urgência da
investigação criminal faz com que o fluxo de informações entre os responsáveis pelo
levantamento das provas objetivas e subjetivas também ocorra de maneira célere. Não se pode
admitir um local de crime onde um perito não conversa com um investigador e vice-versa!
Para o sucesso da investigação, é necessário que todos aqueles que trabalham na cena do
crime integrem os seus trabalhos para que, a partir dessa união, novas diretrizes e ações
possam ser tomadas. Por exemplo, uma informação repassada pela perícia no local do crime
pode, imediatamente, determinar novas diligências dos investigadores. De outro giro, uma
informação subjetiva colhida pelos investigadores pode ensejar novas análises no campo
pericial. Observe que não se trata de invasão de competências, uma vez que quem repassa a
informação é sempre o responsável pelo seu levantamento. Assim, atinge-se, no próprio local
do crime, um conjunto probatório muito maior do que se o trabalho tivesse sido desenvolvido
separadamente.
Neste módulo você irá estudar como se dá o trabalho do perito criminal no local de crime e
como as informações colhidas por esse profissional podem colaborar com as investigações
preliminares e, consequentemente, ajudá-lo a fazer um bom relatório de local de crime.
Obviamente o objetivo não é fazer com que o relatório se torne uma cópia do laudo pericial;
entretanto, para que as informações repassadas pela perícia sejam bem aproveitadas, é
fundamental que você tenha uma noção básica dos conceitos e elementos do exame de local.
Boa leitura!
Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:


Compreender os conceitos e a importância do isolamento do local de crime para a
preservação dos vestígios;
Relacionar os principais tipos de vestígios analisados pelos peritos criminais nos locais
de crime;
Identificar os elementos objetivos relacionados ao cadáver;
Compreender como o perito criminal utiliza o conjunto de provas objetivas para
determinar a dinâmica do fato criminoso;
Conjugar as informações repassadas pelo perito criminal para aplicá-las à investigação
policial;
Analisar um caso real sobre a dinâmica do crime com base nas provas objetivas.

Estrutura do Módulo

O conteúdo deste módulo está dividido nos seguintes módulos:


Aula 1 – Provas
Aula 2 – Isolamento e preservação de local de crime
Aula 3 – Vestígios em local de crime
Aula 4 – Elementos do cadáver
Aula 5 – Dinâmica do crime baseada nas provas objetivas
Aula 1 – Provas

1.1. Provas objetivas


O inquérito policial é o procedimento administrativo que registra a parte escrita da
investigação criminal, a qual consiste no conjunto de diligências e providências realizadas
com o objetivo de apurar a autoria e materialidade do fato típico, demonstrando-as através de
provas. Nesse contexto, dois são os tipos de provas às quais a autoridade policial irá recorrer
para a realização do seu trabalho, a saber: a prova subjetiva e a prova objetiva. A
determinação, coleta e análise de cada prova é feita por especialistas específicos, conforme
demonstrado no diagrama abaixo:

Figura 1 – Conjugação de provas no inquérito policial.

1.2. Prova objetiva


A prova objetiva é todo e qualquer elemento físico coletado na cena do crime, no corpo da
vítima e/ou do agressor e no local relacionado ao crime, que seja possível de ser demonstrado,
coletado e/ou analisado. É constituída por todos os objetos vivos ou inanimados, sólidos,
líquidos ou gasosos relacionados com o fato.
Nesse contexto, a prova objetiva é uma criteriosa testemunha da ação criminosa, e expõe a
realidade do fato com rigor científico fundamentado e estável, já que revela a alteração no
mundo material como resultado da conduta humana que a produziu. Cabe ao perito criminal o
levantamento da prova objetiva, ou seja, a detecção e perpetuação dela, sendo que qualquer
falha decorrente desse processo invalida e destrói a prova objetiva.
O artigo 6° e seus incisos no Código de Processo Penal (Brasil, Código de Processo Penal
Brasileiro, 1941) permitem ao policial investigador, sob a coordenação da autoridade policial,
uma liberdade na procura da verdade real, principalmente se observarmos o inciso III, onde se
diz que “todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias...”.
Para que tal busca seja possível no local de crime, faz-se necessária a manutenção das
condições desse lugar para que as provas sejam coletadas e perpetuadas. Nesse contexto, o
isolamento e preservação da cena do crime se tornam imprescindíveis.

Saiba mais

O Código de Processo Penal1 possui um título específico que trata da prova, o qual se inicia
no artigo 155 e estende-se até o artigo 250.

Aula 2 – Isolamento e preservação de local de crime

A investigação policial começa, na grande maioria das vezes, no local de crime. Sob essa
ótica, a busca de provas objetivas e subjetivas depende da qualidade do trabalho logo após a
chegada ao local. Ao chegar à cena do crime, o perito inicia a sua análise antes mesmo de
adentrar no local, examinando a qualidade e o método de isolamento para verificar se está
adequado. Um bom isolamento de local terá como consequência a correta preservação da
prova objetiva.
Pensando na importância da preservação da prova, o legislador dedicou a ela o artigo 169 do
Código de Processo Penal Brasileiro (Brasil, Código de Processo Penal Brasileiro, 1941), que
dá o respaldo necessário para o isolamento e preservação da cena do crime:
Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a
autoridade providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas
até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias,
desenhos ou esquemas elucidativos.
Parágrafo único – Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do estado das coisas
e discutirão, no relatório, as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos.

1
Veja no link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm
É necessário entender que o isolamento e a preservação da cena do crime não são um
processo único. Há uma sutil diferença entre isolamento e preservação.
Isolamento é o ato de impedir o acesso de QUALQUER pessoa à cena do crime, a não ser
daquela responsável pela coleta e análise dos vestígios. É importante ressaltar que o único
profissional que PRECISA adentrar no local do crime é o perito criminal, pois é o único que
sabe interpretar os tênues vestígios deixados na cena do crime. Como exemplo, pode-se citar
o formato de uma mancha de sangue como um vestígio complexo, que demanda
conhecimentos específicos, trazendo diversas informações sobre a dinâmica do fato,
entretanto sendo extremamente efêmero e de fácil destruição.
Nesse contexto, a preservação é consequência do isolamento. O objetivo da preservação do
local é manter os vestígios intactos até o momento em que eles serão coletados e perpetuados
pelos peritos criminais, evitando alterações dessas marcas. Tais alterações poderiam interferir
e/ou destruir vestígios tais como impressões papilares, posições de estojos ou projéteis,
localização de objetos, assim como as já citadas manchas de sangue, peças de um quebra-
cabeça que não pode ser montado se forem destruídas. Segundo as palavras de Tocchetto &
Espíndula (2005), “o isolamento da cena do crime deve ser realizado de forma efetiva para
que o menor número de pessoas tenha acesso ao local, evitando-se que evidências sejam
modificadas de suas posições e até destruídas antes mesmo de seu reconhecimento”. Outros
autores, tais como Kehdy (1959) e Dorea, Stumvoll & Quintela (2010) também fazem
referência à importância da preservação do local de crime para o sucesso da investigação
policial.

2.1. Isolamento de local de crime – definição


O isolamento do local de crime é o ato de impedir a entrada de pessoas não autorizadas na
área onde serão realizados os exames. Esse isolamento deve garantir a preservação dos
vestígios da ação delituosa. A rigor, um exemplo de local bem isolado pode ser visto na
Figura 2.
Figura 2 – Isolamento adequado de local de crime.

Infelizmente, por diversos motivos e conforme apontado na pesquisa apresentada por Silvino
Jr (2010), o isolamento dos locais de crime no Brasil é, na grande maioria das vezes,
inadequado. Não é raro encontrar locais como mostrado na Figura 3, a seguir.

Figura 3 – Isolamento inadequado de local de crime.

Ainda segundo a pesquisa, o isolamento deficiente se deve, em grande parte, ao despreparo


dos policiais e da sociedade em relação à importância da preservação do local de crime.

2.1.1. Por que isolar de local de crime?


Além da necessidade óbvia da preservação dos vestígios, o isolamento cumpre outras funções
necessárias ao trabalho pericial, quais sejam:
Garantir a segurança física do perito;
Controlar o acesso às informações obtidas no trabalho pericial;
Preservar a integridade da imagem da(s) vítima(s);
Permitir o bom andamento dos trabalhos periciais.
Estude, a seguir, cada uma delas.
1. Garantir a segurança física do perito
Muitas vezes o perito pode correr risco de vida ao realizar o trabalho pericial em um local mal
isolado. Citam-se como exemplo levantamentos de locais de acidentes de trânsito em rodovias
movimentadas, mormente em condições de baixa visibilidade produzidas por chuva, neblina
e/ou baixa luminosidade, por se tratar de horário noturno.
Outra situação é aquela em que o local se situa em área de alta criminalidade, tais como
favelas dominadas pelas quadrilhas de tráfico de drogas. A indispensabilidade do exame de
corpo de delito justifica que um aparato de segurança seja estabelecido pelas forças policiais
de maneira a permitir que o perito possa desempenhar o seu trabalho.
Observa-se, ainda, a importância do isolamento em locais próximos a encostas ou grandes
leitos de água, uma vez que a queda nessas condições pode ser fatal.
2. Controlar o acesso às informações obtidas no trabalho pericial
Em um primeiro momento, somente os policiais relacionados à investigação policial devem
ter acesso às informações obtidas nos levantamentos periciais. Somente a autoridade policial
titular da investigação pode determinar quais informações devem ser transmitidas aos
familiares da vítima ou à mídia. Novamente demonstra-se a necessidade do isolamento, dessa
vez para permitir que as informações obtidas não sejam captadas por pessoas indevidas nas
proximidades do local.
3. Preservar a integridade da imagem da(s) vítima(s)
Durante os levantamentos periciais, principalmente em locais de crimes contra a vida, faz-se
necessário despir o cadáver na busca de vestígios relacionados à ação delituosa. Quando a
vítima está na via pública ou em locais de fácil acesso, o isolamento inadequado expõe a
integridade da imagem da vítima, pois tanto os curiosos quanto a mídia terão total visibilidade
do cadáver nu. Para evitar esse problema, deve-se recorrer ao isolamento adequado,
impedindo a fácil visualização do corpo.
4. Permitir o bom andamento dos trabalhos periciais
Para realizar um bom trabalho, o perito deve ter tranquilidade para raciocinar e fazer as
coletas e fotografias necessárias ao laudo pericial. Em um local tumultuado, com grande
aglomeração de pessoas, ação de repórteres, invasão da área de isolamento ou existência de
risco ao perito, a tranquilidade necessária simplesmente não existe.
Uma vez que o local se encontra bem isolado, ações externas que possam importunar o perito
são coibidas antes que possam alcançar a área destinada aos exames, facilitando o trabalho.

2.2. Quem deve isolar o local de crime?


O Código de Processo Penal (Brasil, Código de Processo Penal Brasileiro, 1941) determina,
no artigo 6º, inciso I, que:
Art. 6º. Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade
policial deverá:
I – dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e
conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; (Redação dada pela Lei
nº 8.862, de 28.3.1994).
Analisando rapidamente o texto da lei, percebe-se que a função de isolamento do local de
crime seria de responsabilidade da autoridade policial, tão logo ela tiver conhecimento da
infração. Entretanto, percebe-se que, na maioria dos casos, em todos os estados brasileiros, o
primeiro agente público a chegar a um local de crime é o policial militar. Geralmente são
esses profissionais os responsáveis pelas primeiras providências de isolamento. Admitindo-se
que tais militares são agentes da autoridade policial, ao isolar o local estão representando essa
autoridade que ainda não foi cientificada da ocorrência do ilícito.
De maneira semelhante, outras instituições do segmento de segurança pública, tais como a
Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e, por analogia, as Guardas Municipais, também
devem atuar para garantir a correta preservação dos vestígios, alcançada pelo eficiente
isolamento do local de crime.
Continuando na análise, o artigo 144, §5º, da Constituição Federal (Brasil, Constituição da
República Federativa do Brasil, 1988) determina que:
Art. 144. (...)
§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem
pública; [...] (grifo nosso).
Analisando a atribuição constitucional das polícias militares, percebe-se que a atuação de tais
forças é primordial em locais de crime, principalmente naqueles com maior concentração de
pessoas, uma vez que é imperioso zelar pela ordem pública, garantindo-se o bom andamento
do trabalho pericial, dos trabalhos de investigação e, consequentemente, da persecução da
justiça e da verdade.
Assim, demonstra-se, por duas vias distintas, que as polícias militares são também
responsáveis pelo isolamento e preservação do local de crime.
Para que você possa entender como é o trabalho do perito no local do crime, serão
apresentados os elementos estudados por esses profissionais. Esse conhecimento é importante
para que você compreenda os fatores que levaram os peritos às conclusões emanadas.

Aula 3 – Vestígios em local de crime

Todo elemento coletado no local de crime, mesmo que não haja a certeza da sua relação com
o fato, é um VESTÍGIO. Se o vestígio comprovadamente tem correlação com o fato ocorrido
e fornece elementos para determinação da dinâmica do fato, é então chamado de INDÍCIO.
Este pode demonstrar movimentações e paradas, posições e alterações ocorridas durante e
depois da ocorrência do crime. Toda informação relevante para a investigação policial, seja
ela objetiva ou subjetiva, é uma EVIDÊNCIA. Para que você possa compreender a
conjugação dos vestígios determinada pelo perito criminal, é fundamental possuir
conhecimentos básicos de quais são os elementos analisados, apresentados a seguir.

3.1. Tipos de vestígios


Dentre os tipos de vestígios, é possível destacar:
1. manchas de origem fisiológica;
2. manchas de origem não fisiológica;
3. armas, munições e demais elementos balísticos;
4. outros vestígios em local de crime.
Estude, detalhadamente, cada um deles.
3.1.1. Manchas de origem fisiológica
São constituídas de substâncias emanadas do corpo humano. Entre as principais, têm-se as
manchas de sangue, esperma, urina, fezes e vômito, com destaque para as duas primeiras, uma
vez que ambas podem oferecer valiosos elementos para a elucidação de um fato delituoso. A
seguir serão apresentadas cada uma dessas substâncias.
 Manchas de sangue
As manchas sanguíneas se apresentam com muita frequência nos locais de crime contra a
vida. O estudo delas é de suma importância e visa, sobretudo, determinar a princípio se
realmente se trata de sangue humano, qual é o grupo sanguíneo, fator RH e efetuar
comparações do perfil genético (DNA) – exames efetuados no laboratório criminal,
obviamente depois de adequada coleta procedida pelo perito, quando do levantamento do
local.
Cabe, entretanto, no próprio local, exame de aspecto morfológico da mancha, isto é, da forma
como ela se apresenta aderida a uma determinada superfície, a qual pode fornecer detalhes
importantes para se estabelecer a possível dinâmica do evento.
Sob esse aspecto, as manchas de sangue podem se apresentar dos seguintes modos:

Gotejamento: O sangue cai impulsionado somente pela força da


gravidade, e os salpicos se irradiam quase regularmente pela queda
perpendicular das gotas, cujo aspecto varia em razão da distância
entre o foco que a desprende e a superfície em que vai se depositar.

Projeção ou espargimento: O sangue cai impulsionado pela força da


gravidade conjugada com uma segunda força que gera uma impulsão.
Os salpicos se apresentam sob forma alongada e não se dispõem
regularmente. Sob esse aspecto, a presença dessas formas pode nos
indicar:
Manchas produzidas por sangue caindo quando a região
ferida está em movimento (mão, braço, antebraço). Apresentam-se ligeiramente
alongadas e esse alongamento é tanto mais pronunciado quanto mais rápido for o
movimento;
Manchas produzidas pela ação de um objeto, como a ação de um machado. O
sangue que se adere à lâmina é projetado em alguma superfície em decorrência dos
golpes aplicados;
Manchas produzidas por impacto de projéteis – tanto na entrada quanto na saída
deles –, apresentando aspecto salpicado, com grande dispersão.
Manchas produzidas pelo ferimento numa artéria, sofrendo impulso pela própria
pressão sanguínea. Apresentam-se muito alongadas, não se dispondo regularmente
e geralmente indicam o ponto inicial da agressão sofrida pela vítima.
Contato: As manchas, que se apresentam sob a forma de sangue
amassado, são produzidas pelo contato de uma parte do corpo
impregnada de sangue contra uma superfície qualquer.

Empoçamento: Decorre da perda abundante de sangue, geralmente


em consequência de ferimento ou de sangue surgido da boca,
narinas ou ouvidos. Acontece quando a vítima já está inerte, quase
sempre caída. É mais comum o encontro da poça junto ou próximo
ao cadáver.

Escorrimento: São manchas alongadas decorrentes da ação da


gravidade conjugada com um plano inclinado, por exemplo uma
parede ou piso.

Impregnação: Essas manchas são encontradas em meios


permeáveis, tais como nas vestes da vítima, do indiciado ou em
qualquer tecido existente no local (lençol, toalha). E ainda em
pisos de terra, areia, etc.

Limpeza: São produzidas em decorrência


da tentativa de remoção de uma mancha
de sangue previamente formada. Geralmente é possível perceber o
contorno da mancha original, formada pela coagulação do sangue nas bordas daquela mancha.

 Manchas de esperma
São geralmente encontradas em locais de crime de natureza sexual,
sendo pesquisadas com maior incidência nas roupas de cama, nas
vestes da vítima ou do suspeito, no ambiente vaginal, no reto, em
preservativos abandonados ou em outros pontos ou objetos, de
acordo com a tipicidade da área.
 Manchas de fezes
São encontradas geralmente nos locais onde ocorre morte por asfixia
ou em casos em que a vítima já entrou na fase gasosa da putrefação.
Também podem ser encontradas em locais de envenenamento. Não
oferecem muitos elementos pesquisáveis.
 Manchas de urina
A exemplo das manchas de fezes, são comumente verificadas nos locais de morte por asfixia
e em outros tipos de morte violenta.
 Manchas de vômito
São muito comuns e oferecem especial interesse nos casos de
envenenamento porque podem indicar a natureza do veneno
ingerido.

 Manchas de saliva
Podem oferecer algum interesse quando estiverem embebendo tampões que tenham sido
utilizados para sufocar a vítima. Também podem ser encontradas nos locais de morte por
asfixia.

3.1.2. Manchas de origem não fisiológica


Podemos ainda encontrar nos locais manchas de substâncias não emanadas do corpo humano,
as quais, se estiverem relacionadas com o fato, deverão ser descritas e recolhidas
posteriormente para os devidos exames de identificação das mesmas. Algumas delas são as
seguintes:
Tinta ou pintura: Incluem manchas de tintas de diversas espécies
(para paredes, para escrever, etc.). São comuns em acidentes de
trânsito e podem indicar a região de choque, cor de um veículo
envolvido que possa ter empreendido fuga, sentido do atrito decorrente da colisão, etc.
Ferrugem: Podem, em alguns casos, apresentar semelhança com
manchas de sangue, podendo também, se encontradas nas vestes do
agente ou vítima, indicar que a arma ou instrumento se achavam
oxidados, além de outras informações, a depender de cada caso.
Lama: Oferecem interesse porque podem indicar lugares por onde
um indivíduo tenha passado. Podem ser encontradas nos pés descalços, calçados, nas roupas e
no local do crime, sendo procedentes de terrenos, estradas, ruas sem calçamento, etc.
Pólvora: Podem ser encontradas no corpo da vítima (imediações do ferimento), nas vestes, nas
mãos do autor ou da vítima, em objetos, paredes, janelas, etc.
Pegadas: São produzidas por pés calçados ou descalços. A pegada
pode ser dinâmica (ocasionada pelos pés em movimento) ou estática
(causada pelos pés em repouso), sendo também possível encontrá-
las isoladas ou em conjunto. O aproveitamento delas pode ser feito
através da fotografia ou da modelagem.
Impressões de veículos: Frequentemente encontradas em crimes de
trânsito. Muitas vezes o criminoso emprega um veículo para fuga ou
transporte da vítima.

3.1.3. Armas, munições e demais elementos balísticos


Atualmente as armas de fogo são o meio mais empregado na prática de homicídio. Tal
característica implica uma grande ocorrência de vestígios provenientes do uso delas. Os
vestígios mais comuns relacionados à utilização delituosa de armas de fogo são:
Estojos: Comumente encontrados em locais de crime cuja arma
utilizada apresentava sistema de funcionamento semiautomático ou
automático de repetição. Também podem ser encontrados em locais
nos quais a arma, apesar de ser de funcionamento manual, ejeta os
estojos, ou ainda no caso de municiamento de revólveres e armas similares.
Projéteis: Podem ser encontrados sobre o piso do local, incrustados
em objetos ou mesmo no corpo da vítima. Quando localizados sob o
cadáver, podem indicar que a vítima foi alvejada quando já estava
estendida sobre o piso.
Buchas/separadores: São encontrados em locais onde foi utilizada arma de calibre nominal
(espingarda). Quando encontrada no corpo da vítima, pode indicar tiro efetuado à pequena
distância.
Mossas: São as marcas produzidas pelo impacto de projéteis contra
superfícies rígidas. Podem indicar a direção e sentido da trajetória
do projétil, bem como informar se houve algum impacto anterior.

Perfurações: São decorrentes da passagem completa de projéteis em


objetos e podem ser extremamente importantes na determinação de
uma trajetória.

3.1.4. Outros vestígios em local de crime


Além dos vestígios supracitados, podem ser encontrados diversos outros elementos no local
de crime que auxiliam na sua interpretação. O perito deve então anotar:
Sua posição em relação ao local;
Suas características e seus elementos de identificação;
Suas medidas, dimensões e, em alguns casos, peso;
A descrição das manchas que possam conter pelos e cabelos, peças de indumentária,
cinzas, poeiras, areias e terras, fibras, manuscritos, venenos e outros (demais objetos),
como você estudará a seguir.
Pelos e cabelos: Em muitos casos encontram-se pelos e cabelos nos locais de crimes. Quando
ocorre luta entre a vítima e o agente, é possível existir cabelos nas mãos da vítima e até
mesmo nas vestes. Outrossim, é provável o encontro de cabelos da vítima nas roupas do autor.
Conforme o tipo da arma ou instrumento utilizado, pode-se também constatar neles a presença
de cabelos .
Peças de indumentária: Observa-se em muitos locais a presença de peças de indumentária que
podem auxiliar na elucidação do fato, pelos vestígios que apresentam.
Cinzas: São resíduos da combustão de certos materiais (tais como papel, madeira, etc), mais
comuns de serem encontradas nos locais de incêndio. A finalidade do exame é determinar a
natureza do material queimado. Embora com raridade, também é possível encontrar cinzas
nos locais de crimes contra a vida, em que os cadáveres são carbonizados. Nesse caso, elas
são provenientes de roupas usadas pelas vítimas ou mesmo de cobertores ou similares
utilizados para transportar o corpo.
Poeira: A poeira pode ser encontrada sobre os objetos e nas roupas das vítimas ou do autor.
Pode oferecer algum resultado prático quando o crime tiver sido cometido em local interno e
o criminoso tiver acesso por escalada, sendo então possível constatar vestígios de poeira no
próprio local além, obviamente, das evidências da escalada.
Areia e terra: Em certos locais podem ser encontradas pequenas quantidades de areia ou terra,
cujas origens são diferentes das ali existentes ou nem mesmo podem ser comparadas, como no
caso dos locais internos, onde o piso quase sempre é revestido por algum material. Caso
sejam constatadas, deverão ser recolhidas para serem comparadas com material padrão ou
incriminado.
Fibras: São pequenas estruturas integrantes de tecidos animais e vegetais ou de certas
substâncias minerais que podem ser encontradas em alguns locais. Podem estar aderidas às
unhas ou vestes da vítima, portas, ou ainda presas em cercas de arames, janelas, etc.
Manuscritos: Nos locais de suicídio, muitas vezes são encontrados bilhetes manuscritos pelas
vítimas, que deverão ser recolhidos juntamente com padrões de grafismos dela, para exame
grafotécnico na seção competente.
Veneno: Por definição, veneno é toda substância medicamentosa que pode produzir a morte,
de acordo com a dosagem. Quando encontrado em locais, deverá ser cuidadosamente
embalado para posterior envio ao laboratório e realização dos devidos exames.
Demais objetos: Podem ainda ser abandonados no local do crime objetos utilizados durante a
ação delituosa, seja para consumar o crime propriamente dito ou para acessar o local. Nesse
rol são exemplos facas, machados, foices, porretes, pés de cabra, alavanca, chaves falsas,
chave de roda, chave de fenda, e quaisquer outros objetos. Nesses casos o perito deve ainda
citar se há correlação entre o instrumento e as características dos ferimentos verificados na
vítima.

Aula 4 – Elementos do cadáver

Além dos vestígios encontrados no local de crime, nos locais de morte violenta diversas
informações também são extraídas do(s) cadáver(es). Tais informações podem ser decisivas,
ajudando o perito a estabelecer a dinâmica do crime. A seguir você conhecerá os elementos
pesquisados com maior frequência no cadáver.

4.1. Localização e posição


A localização do cadáver pode fornecer diversas informações acerca do fato criminoso, seja a
incapacidade de defesa ou tentativa de fuga da vítima, até a ocultação do cadáver. Cabe ao
perito criminal interpretar o contexto da localização do cadáver para entender como ela se
encaixa na dinâmica. Já a posição do corpo pode indicar alteração na cena do crime, posição
anterior da vítima, transporte do cadáver, reação de defesa da vítima e diversas outras
informações que devem ser analisadas no trabalho policial.

4.2. Vestes
As vestes da vítima trazem importantes informações para a investigação policial. A
incompatibilidade com as condições climáticas, ambientais e sociais podem indicar transporte
do corpo, intenções da vítima, tentativas de ocultação de crime, etc. O perito deve fazer a
análise pormenorizada das vestes usadas pela vítima, principalmente quando forem de
cadáveres de desconhecidos. Nesse caso, devem ser mencionados quaisquer descrição ou
desenhos existentes nelas, inclusive etiquetas do fabricante.

4.3. Buscas
As buscas no corpo e nas vestes são de extrema importância e devem ser feitas pelos peritos
no local do crime, uma vez que podem trazer informações que poderão alterar a dinâmica do
fato ou os trabalhos periciais no local. Durante as buscas podem ser encontradas armas,
drogas, pertences da vítima ou de outras pessoas, documentos, dinheiro, joias, etc.

4.4. Estudo dos ferimentos


O estudo dos ferimentos visa identificar o número e localização das lesões produzidas, os
instrumentos utilizados e a sequência de agressão à vítima. Assim teremos:

4.4.1. Tipo dos ferimentos e caracterização de instrumentos


Antes de iniciar esse assunto, é necessário se definir o que sejam objeto e instrumento, para
evitar que o perito extrapole sua competência técnica.
Objeto é a “coisa”, o utensílio em geral, na sua forma natural ou principal, como a faca, que é
uma peça destinada ao corte, e, portanto, um objeto cortante por sua própria natureza.
Instrumento ou meio, refere-se à maneira ou à forma de utilização da coisa. Assim, a faca,
objeto essencialmente cortante, pode constituir-se em instrumento cortante (quando usada
para o corte), pérfuro-cortante (quando pressionada com sua extremidade), contundente
(quando o agressor, apoiando a lâmina, percute o cabo contra o alvo) e corto-contundente
(quando utilizada por pressão com o lado contrário ao do corte).
Dessa forma, os ferimentos estarão relacionados ao instrumento e não ao objeto, como se
segue:
Instrumento contundente  Ferida contusa
Os instrumentos contundentes agem predominantemente por pressão, determinando lesões
superficiais ou profundas, tais como escoriações, hematomas, equimoses, fraturas, luxações e
verdadeiras avulsões chamadas feridas contusas, que mostram solução de continuidade da
pele, com bordos esmagados, superfície irregular e presença de pontas de tecidos mais ou
menos íntegros.
Exemplo: porrete, pedra, cassetete.
Instrumento cortante  Ferida incisa
Os instrumentos cortantes agem pelo deslizamento de gumes (cortes) mais ou menos afiados e
determinam lesão maior em superfície que profundidade, com bordos regulares, sem sinais de
esmagamento.
Exemplo: faca, bisturi, canivete.
Instrumento perfurante  Ferida punctória
Os instrumentos perfurantes apenas afastam as fibras dos tecidos, sem determinarem cortes ou
contusões. Atuam por pressão, ocasionando pouco dano à superfície, porém com grande
acometimento em profundidade.
Exemplo: agulha, furador de gelo, prego.
Instrumento pérfuro-contundente  Ferida pérfuro-contusa
Os instrumentos pérfuro-contundentes atuam por pressão e determinam perfuração associada
à contusão. Superficialmente, aparenta contusão, com bordos esmagados, porém mostram
continuidade para o interior dos tecidos.
Exemplo: projétil de arma de fogo, chave de fenda, vergalhões de metal.
Instrumento corto-contundente  Ferida corto-contusa
Os instrumentos corto-contundentes atuam por gumes não afiados, e o que mais influi na
produção da lesão é o peso do instrumento ou a força viva do que o maneja. Produzem
avulsão dos tecidos e concomitante esmagamento, acometendo todos os planos atingidos, não
permanecendo pontas de tecidos mais ou menos íntegros.
Exemplo: facão, machado, foice, enxada.
Instrumento pérfuro-cortante  Ferida pérfuro-incisa
Os instrumentos pérfuro-cortantes agem através de pressão, e, atuando por uma ponta ou
gume, promovem perfuração associada a corte. Superficialmente, aparenta lesão incisa, mas
mostra continuidade para o interior, a exemplo das lesões perfurantes.
Exemplo: punhal, faca, canivete.
4.4.2. A importância dos ferimentos na determinação da dinâmica do fato
O tipo, localização e características dos ferimentos determinam grande parte da dinâmica do
fato. Podem indicar situações de tocaia à vítima, ação opressora, combate, reação de defesa da
vítima, ataque pelas costas, etc.
As características das feridas produzidas pelo emprego de arma de fogo merecem atenção
especial, uma vez que podem indicar a distância do disparo. Assim, de acordo com a distância
que medeia entre a arma e o alvo, os tiros podem ser classificados da seguinte forma:
à distância;
à curta distância;
encostados.
Nos tiros à distância atua apenas o projétil, que, ao percutir o alvo, representado pela pele, é
envolvido por ela. Só depois de forçada pelo movimento de propulsão do projétil a pele cede
e, esgotada a elasticidade, se rompe. Quando se trata de tiros perpendiculares, o orifício de
entrada produzido é quase sempre de bordas invertidas e circulares, pois a forma desse
orifício variará consoante a maneira como o projétil atinge o alvo.
Nos tiros à curta distância a “boca” do cano da arma encontra-se próxima ao alvo, sendo que,
além do projétil, fuligem e grãos de pólvora incombusta e semicombusta também atingem o
alvo, produzindo um orifício de entrada que pode estar encoberto de fuligem e/ou com o
entorno salpicado de pontos negros.

Nos tiros encostados a “boca” do cano da arma se apoia no


alvo, e, além do projétil, atuam os gases resultantes da deflagração da pólvora, os quais
rompem e dilaceram os tecidos, produzindo lesões externas. Forma-se em torno do orifício
um halo grosseiro, queimado e negro, lesão denominada “Câmara de Mina de Hofmann”,
“Explosão de Mina de Hofmann” ou “Boca de Mina”. O orifício de entrada é irregular,
amplo, às vezes estrelado, de bordas invertidas, e a pele que cobre a região é deslocada e
despregada pela ação dos gases. O diâmetro deste orifício pode ser igual ou maior que o do
projétil.

4.4.3. Elementos de contorno


Margeando o orifício de entrada, existem certos elementos de contorno cujo conhecimento é
de grande utilidade para o perito. Tais elementos têm diversas denominações – algumas
explicadas de várias formas quanto à sua gênese. Assim, temos:
a) Orlas de contusão e enxugo: São produzidas nos alvos
vivos pela passagem do projétil, que, ao atravessar o
corpo, provoca o arrancamento da epiderme, contundindo-
o, e nele limpa, ou seja, se enxuga de seus detritos. Por
esse mecanismo explica-se o aparecimento desta orla, que
margeia como um anel o orifício de entrada, no tiro
perpendicular, tendo forma de meia lua, no tiro inclinado. Nos alvos inanimados,
tal orla se denomina apenas de enxugo.
b) Zona de tatuagem: Ocasionada pelos grânulos da pólvora
combusta ou incombusta que se incrustam em torno do
orifício de entrada, mais ou menos profundamente na
região atingida. Quando se trata de alvo vivo, esses
grânulos na derme se encravam, podendo inclusive
produzir na região um dano deformante. As vestes, muitas
vezes, podem reter os grânulos de pólvora, impedindo que
se incrustem no corpo.
c) Zona de esfumaçamento: É produzida pela fuligem
desprendida da combustão da pólvora e se deposita no
alvo, em torno do orifício de entrada, podendo ser removida com facilidade. Se a
região for coberta pelas vestes, é natural que elas retenham o depósito de fuligem.
d) Zona de chamuscamento ou queimadura: É produzida
pelos gases superaquecidos e inflamados que se
desprendem e atingem o alvo, produzindo queimadura da
pele e da região, de pelos e das vestes.

Terminado o estudo dos elementos de contorno, mostraremos a correlação existente entre o


surgimento deles e as distâncias dos disparos.
Nos tiros à distância, encontraremos somente as orlas de contusão e enxugo;
Nos tiros à curta distância, além das orlas de contusão e enxugo, poderemos
encontrar as zonas de tatuagem e esfumaçamento, que naturalmente poderão
mascarar as primeiras e dificultar sua visualização. Em tiros muito próximos,
observa-se também a zona de chamuscamento;
Nos tiros encostados, podem-se verificar zonas de chamuscamento e
esfumaçamento, orlas de contusão e enxugo que podem não ser notadas quando
ocorre o fenômeno de “Câmara de Mina de Hoffman”. Dependendo da pressão
exercida contra o alvo, é possível também observar o “Sinal de Werthgarthner”,
que é a queimadura produzida pelo aquecimento do cano da arma.
Aula 5 – Dinâmica do crime baseada nas provas objetivas

A análise das informações estudadas anteriormente (vestígios e elementos do cadáver)


permite ao perito, na grande maioria das vezes, determinar a dinâmica do crime. Para isso, o
perito irá conjugar os elementos levantados durante o trabalho pericial e se perguntar como
eles encaixam entre si. Depois de um trabalho de análise e conjugação dos vestígios, o qual
pode ser feito inclusive no local, o perito determina a mecânica do evento que culminou com
o ato ilícito. Muitas vezes, elementos quase imperceptíveis serão decisivos na formação da
dinâmica, contribuindo para, mesmo sem informações de terceiros, se chegar a uma
reprodução da sequência de ações.
Quando a dinâmica geral não puder ser determinada com base nos vestígios – seja pela falta
de elementos, seja por um isolamento inadequado –, muitas vezes atos específicos podem ser
determinados, por exemplo, o forçamento de um obstáculo em um crime de furto ou uma
execução sem chances de defesa da vítima em um caso de homicídio. Cabe ao perito
determinar essa dinâmica com base nas provas objetivas, uma vez que ele é o especialista na
leitura e interpretação dos vestígios.
Como exemplo de um trabalho de determinação da dinâmica de um crime, você analisará a
seguir um caso real, relacionando os vestígios encontrados e a determinação da dinâmica
baseada nos vestígios. Visando demonstrar a importância da prova objetiva, não serão
utilizados os elementos subjetivos levantados durante a investigação.

5.5. Análise de caso real


Elementos do local
O imóvel alvo dos exames era composto por diversas moradias agrupadas com acessos
independentes. Entre elas, aquela de número 261 apresentava-se dividida em dois pavimentos,
sendo o inferior independente do superior, cujo acesso se dava por intermédio de um portão
de chapa metálica dobrada, localizado na lateral direita da face anterior do lote.
Internamente, o imóvel superior apresentava-se dividido em três cômodos – alinhados
longitudinalmente em relação à lateral do lote – e um banheiro, sendo que o acesso se dava
por intermédio do corredor subsequente ao portão retrocitado, finalizado no cômodo central
que era utilizado como sala de estar. O cômodo que compartilhava a parede posterior da sala
era utilizado como quarto e nele estava o banheiro, comum a toda a casa. A parede anterior da
sala era também a parede posterior da cozinha, cujo piso se localizava em nível ligeiramente
superior àquela. Para vencer tal desnível, o vão de acesso à cozinha contava com uma escada
de alvenaria com quatro degraus.
Os exames se concentraram na referida cozinha, cuja porta de acesso se localizava na parede
posterior e próxima à parede lateral esquerda. Apresentava como características construtivas
piso de cimento liso e pigmentado na cor amarela, paredes de alvenaria de tijolos e teto de
telhas de fibrocimento (amianto), sustentadas por vigas de madeira. A iluminação artificial era
provida por intermédio de uma lâmpada incandescente apensa ao teto pelos próprios fios de
alimentação. A iluminação e ventilação naturais eram providas por uma grande janela de
metal conjugada com lâminas de vidro canelado, localizada na parede anterior.
Como mobiliário, o ambiente contava com uma mesa de armação de metal tubular com tampo
de pedra, localizada junto à parede anterior; quatro cadeiras de armação de metal tubular com
assento acolchoado, dispostas próximas à mesa; um armário alto e balcão de cozinha, ambos
de madeira laqueada na cor branca, juntos à parede lateral esquerda; um fogão e uma máquina
de lavar roupas juntos à parede lateral direita; e uma geladeira próxima à porta de acesso e à
parede posterior. Havia também uma pia de resina instalada na parede posterior.
Elementos do cadáver
Localização e posição: O corpo estava estendido sobre o piso da cozinha do imóvel
referenciado, com a linha longitudinal do corpo disposta obliquamente em relação à parede
posterior. A cabeça estava direcionada para a porta de acesso à cozinha e os pés estavam
direcionados para a quina formada entre a parede anterior e a parede lateral direita.
Jazia em decúbito dorsal, com a cabeça apoiada no piso pela região occipito-parietal direita. O
membro superior direito estava fletido, com o antebraço apoiado no abdômen, e o esquerdo
estava estendido, ligeiramente afastado do tronco. Os membros inferiores estavam ambos
estendidos e afastados.
Das vestes: O cadáver trajava, por ocasião dos exames, tão somente uma bermuda de cores
preta, branca e cinza de “tactel” e uma cueca anatômica branca de algodão. Calçava um par de
chinelos de material sintético de cores preta e vermelha.
Das buscas: Nas buscas efetuadas no corpo e vestes do cadáver nada foi encontrado.
Dos ferimentos: Nos exames de hábito externo do cadáver foram constatadas 05 (cinco)
feridas pérfuro-contusas, apresentando bordas regulares e invertidas, com orlas de escoriação
e enxugo, características daquelas produzidas pela ENTRADA de projéteis propelidos por
arma de fogo. As feridas estavam localizadas da seguinte maneira:
01 (uma) na região infra-hióidea à esquerda;
02 (duas) na região mastoidiana direita;
01 (uma) na região zigomática direita;
01 (uma) na região bucinadora direita.
Também foram observadas duas pequenas escoriações lineares e paralelas, localizadas no
antebraço direito, bem como uma terceira escoriação em formato circular e circundada por
zona de queimadura, próxima às escoriações.
Vestígios constatados
Foram constatados os seguintes vestígios:
a) Manchas de sangue produzidas por:
Contato na pele da vítima, decorrentes dos ferimentos observados, com consequente
escorrimento e empoçamento sob a parte superior do corpo da vítima;
Projeções no piso e na base do balcão, características de terem sido produzidas quando
da expulsão do sangue em de decorrência dos tiros efetuados contra a vítima já
estendida no piso;
b) Também foram percebidos CHAMUSCAMENTO, ESFUMAÇAMENTO E
TATUAGEM no antebraço da vítima, em sincronismo com as escoriações paralelas
constatadas. Tais efeitos secundários, associados às escoriações constatadas naquelas
regiões, indicam que a vítima teria esboçado reação de defesa, elevando o antebraço e
colocando-o contra a arma apresentada pelo autor. A presença das equimoses paralelas
indica que tal movimento foi brusco e concorrente com a elevação da arma pelo agressor.
As equimoses paralelas foram, portanto, produzidas pela massa de mira da arma utilizada
e o tiro ocorreu no momento do impacto entre o antebraço da vítima e a arma do autor,
justificando os vestígios constatados. Feitas tais considerações, é possível determinar que
o tiro que produziu tais efeitos também foi aquele responsável pelo ferimento de entrada
na região infra-hióidea;
c) Foram observadas ZONAS DE CHAMUSCAMENTO E ESFUMAÇAMENTO no
entorno das lesões localizadas na região mastoidiana. Uma das zonas apresentava menor
dimensão. Tais achados indicam tiro efetuado à curta distância;
d) Também foi encontrado esfumaçamento entre os dedos polegar e indicador da mão direita.
Tal esfumaçamento teria sido produzido durante o segundo tiro efetuado, uma vez que a
vítima, ainda imbuída do ímpeto de defesa, aproximou a mão da cabeça para se proteger
da agressão. Tal esfumaçamento explica a diferença nas zonas de esfumaçamento
constatadas no entorno dos dois ferimentos localizados na região mastoidiana;
e) Foi observada ZONA DE TATUAGEM no entorno do ferimento localizado na região
bucinadora da vítima, indicando tiro efetuado à curta distância, porém não tão próximo
quanto aqueles que produziram os ferimentos na região mastoidiana;
f) O ferimento de entrada na região zigomática apresentava-se com ausência de efeitos
secundários e com formato ovalado. Tais características indicam que o tiro foi efetuado à
distância e com menor inclinação em relação à horizontal, indicando que o autor já teria se
afastado mais em relação ao tiro que produziu o ferimento na região bucinadora;
g) Foi constatada uma mossa no piso à direita do corpo. Também foi observada a projeção de
material do piso na frente da tampa do forno do fogão ali existente. Sobre o referido fogão
foi encontrado um núcleo de chumbo. Tais achados indicam que o tiro que os produziu foi
o derradeiro, com o autor já mais afastado da vítima, o que ocasionou o erro e o
consequente impacto do projétil no piso;
h) Sob o cadáver foi encontrada uma blindagem de projétil, que foi separada do núcleo
quando do impacto contra o piso.
Dinâmica do crime
A coleção de vestígios levantados no presente trabalho técnico-pericial permite que os peritos
criminais estabeleçam como hipótese mais provável a seguinte dinâmica:
O início da agressão à vítima teria ocorrido no interior da cozinha do imóvel periciado. A
vítima estaria de frente para a porta quando o agressor entrou no cômodo e, surpreendida pelo
seu algoz, girou o tronco para a direita e ofereceu o antebraço direito na tentativa de se
proteger do ataque. O autor simultaneamente elevou a arma, ocorrendo então o impacto dela
contra o antebraço de Thiago, momento no qual foi efetuado o primeiro tiro, cujo projétil
atingiu a região infra-hióidea à esquerda e os elementos secundários atingiram o antebraço
direito da vítima. Ferido, Thiago ainda tentou se defender girando o tronco para a esquerda e
aproximando a sua mão direita junto à cabeça. Nesse momento o agressor efetuou o segundo
tiro, cujo projétil atingiu a região mastoidiana e o esfumaçamento se aderiu na mão da vítima
e no entorno do ferimento. Ato contínuo, outro tiro foi efetuado contra a mesma região, que
dessa vez não estava mais guarnecida pela mão da vítima.
Gravemente ferida, a vítima tombou sobre o piso, ocasião em que o agressor, aproveitando-se
da vulnerabilidade de Thiago, efetuou mais um tiro ainda próximo, que atingiu a região
bucinadora. Em seguida, o autor iniciou a fuga, não sem antes efetuar um tiro que atingiu a
região zigomática e outro que atingiu o piso, ocorrendo então a separação entre a blindagem e
o núcleo de chumbo do projétil, sendo que a primeira ficou sobre o corpo e o segundo se
imobilizou sobre a tampa do fogão.
O exemplo demonstrado anteriormente mostra como é possível reconstituir todos os passos
que culminaram com a ação agressiva baseando-se exclusivamente nos vestígios deixados.
Tais informações devem ser repassadas ao responsável pela elaboração do relatório para que
ele possa, de maneira simplificada, relatar a mecânica do crime.
Muitas vezes a dinâmica só é determinada dias depois do fato, através da análise do resultado
de exames complementares ou da simples reflexão, por parte do perito, sobre os elementos
constatados. Assim, é necessária a compreensão de que nem sempre será possível, no calor do
local, determinar a sequência de ações.
Saiba mais

A reconstrução de locais de crime é tema de diversas séries televisivas, inclusive daquelas


baseadas em fatos reais. Você pode procurar na internet ou nos canais de televisão as
seguintes séries:
CSI – Crime Scene Investigation: http://www.cbs.com/shows/csi/
Cold Case Files – Casos arquivados: http://www.aetv.com/cold_case_files/
NCIS – Naval Criminal Investigation Service: http://www.cbs.com/shows/ncis/
Medical Detectives: http://www.forensicfiles.com/
Dra. G – Médica Forense: http://health.discovery.com/tv/dr-g-medical-examiner/
Finalizando...
Neste módulo, você estudou que:
O inquérito policial é o procedimento administrativo que registra a parte escrita da
investigação criminal, a qual consiste no conjunto de diligências e providências
realizadas com o objetivo de apurar a autoria e materialidade do fato típico,
demonstrando-as através de provas;
A investigação policial começa, na grande maioria das vezes, no local de crime;
Ao chegar à cena do crime, o perito inicia a sua análise antes mesmo de adentrar no
local, examinando a qualidade e método de isolamento para verificar se está adequado;
Há uma sutil diferença entre isolamento e preservação. O isolamento é o ato de impedir
o acesso de qualquer pessoa à cena do crime, a não ser daquela responsável pela coleta e
análise dos vestígios. A preservação é consequência do isolamento;
Todo elemento coletado no local de crime, mesmo que não haja a certeza da sua relação
com o fato, é um VESTÍGIO. Se o vestígio comprovadamente tem correlação com o
fato ocorrido e fornece elementos para determinação da dinâmica do fato, é então
chamado de INDÍCIO. Toda informação relevante para a investigação policial, seja ela
objetiva ou subjetiva, é uma EVIDÊNCIA;
Além dos vestígios encontrados no local de crime, nos locais de morte violenta diversas
informações também são extraídas do(s) cadáver(es). Tais informações podem ser
decisivas, ajudando o perito a estabelecer a dinâmica do crime;
Depois de um trabalho de análise e conjugação dos vestígios, que pode ser feito
inclusive no local, o perito determina a mecânica do evento que culminou com o ato
ilícito.