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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – CFOAB, serviço público dotado de personalidade jurídica e regulamentado pela Lei nº 8.906/94, inscrito no CNPJ sob o nº 33.205.451/0001-14, por seu Presidente, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, vem, à presença de Vossa Excelência, por intermédio de seu advogado infra-assinado, com instrumento procuratório específico incluso e endereço para intimações na SAUS Qd. 05, Lote 01, Bloco M, Brasília-DF, com base no art. 103, inciso VII e art. 102, inciso I, alínea “a” da Constituição Federal e no art. 2º, inciso VII da Lei nº 9.868/99, propor

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE COM PEDIDO CAUTELAR

contra a) ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PIAUÍ – ALEPI, com endereço para comunicações na Av. Mal. Castelo Branco, 201, Cabral, Teresinha/PI, órgão responsável pela rejeição do veto realizado pelo Exmo. Sr. Governador de Estado ao art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184, de 30 de maio de 2012, , pelos seguintes fundamentos:

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1 - DO DISPOSITIVO LEGAL IMPUGNADO: Com efeito, a conhecida ‘Lei dos Cartórios’ --- Lei Complementar nº 184/2012, do Estado do Piauí ---, resulta de projeto de lei encaminhado pelo Poder Judiciário objetivando alteração na Lei Estadual nº 3.716/1979. Referida Lei Complementar criou novas serventias notariais de registro, correspondente às 7ª, 8ª e 9ª Ofícios de Registro de Imóveis; 1º Ofício de registro de protesto e títulos; 4º, 5º e 6º Ofícios de registro civil de pessoas naturais e de interdição e tutela; 1º, 2º e 3º Ofícios de registro de títulos e documentos e civil das pessoas jurídicas. A mesma lei estabeleceu obrigações aos futuros ocupantes das atuais e futuras serventias (arts. 2º e 5º), bem como regra de transição concernente ao exercício das funções dos atuais oficiais de registro até a instalação das novas serventias cartorárias (art. 3º). Porém, seu art. 4º condicionou a inclusão das serventias existentes e vagas ao regime do concurso público apenas e tão somente após o trânsito em julgado de ações judiciais. Embora tenha recebido parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa do Estado do Piauí, na oportunidade o Deputado Estadual Cícero Magalhães apresentou substitutivo que estabelecia em seu art. 4º, anexo, o seguinte:
“(...) A abertura de concurso para a delegação de Ofício, que esteja submetido à apreciação do Pode Judiciário, dependerá do trânsito em julgado da correspondente ação. (...)”

Aprovado o substitutivo por unanimidade na CCJ o processo foi remetido à Comissão de Administração Pública e Política Social, tendo sido mantido tal substitutivo.

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A OAB/PI, entendendo que a proposta de Sua Excelência em condicionar o certame à inexistência de discussão judicial sobre a vacância da serventia revelava-se inconstitucional, remeteu o Ofício nº 101/2012-GP, de 20 de março de 2012. Levado a deliberação em 19 de abril de 2012 entenderam os membros da Comissão de Administração Pública e Política Social da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí, à unanimidade, em ignorar as advertências sobre a inconstitucionalidade do substitutivo e mantiveram a redação acima mencionada. Isso motivou o encaminhamento de ofício por parte da OAB/PI (Ofício nº 150/2012, de 18 de maio de 2012) ao Chefe do Executivo estadual requerendo fosse vetado o art. 4º do Projeto de Lei Complementar nº 10/2011, ante sua patente inconstitucionalidade. Acatando o pleito da OAB/PI Sua Excelência o Governador do Estado vetou o dispositivo, sendo publicado no Diário Oficial n. 101, de 30 de 2012 o texto da agora Lei Complementar n. 184/2012 (razões do veto em anexo). Ocorre, entretanto, que o Plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí rejeitou o veto, fazendo ingressar no ordenamento jurídico o malsinado art. 4º. Destarte, a norma impugnada ofende a literalidade dos artigos 5º, ‘caput’, 37, II, e 236, § 3º, da Carta da República, especialmente por condicionar a inclusão das serventias existentes e vagas ao regime do concurso público apenas e tão somente após o trânsito em julgado de ações judiciais. Eis a razão pela qual o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, como legitimado universal para a propositura de ação direta de inconstitucionalidade e, portanto, defensor da cidadania e da Constituição, no exercício de sua competência legal (Art. 44, inciso I da Lei nº 8.906/94), comparece ao guardião da Carta Magna, para impugnar a integralidade do referido art. 4º, da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, do Piauí, como se justificará

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abaixo, pleiteando a declaração de sua inconstitucionalidade e consequente afastamento do sistema jurídico. Feitas essas considerações, passa-se a demonstrar a inconstitucionalidade do dispositivo legal contestado. 2 – FUNDAMENTOS JURÍDICOS: 2.1 – INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL – PROJETO DE LEI DE INICIATIVA DO PODER JUDICIÁRIO – APRESENTAÇÃO DE SUBSTITUTIVO NO ÂMBITO DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA: Como dito, o Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí encaminhou à Assembléia Legislativa proposta de alteração da Lei Estadual nº 3.716/1979 ‘criando novos cartórios no município de Teresina, modificando as circunscrições territoriais dos cartórios do mesmo município e dando outras providências’. A instauração do Projeto de Lei Complementar nº 10, de agosto de 2011, atendeu a iniciativa do Tribunal de Justiça, mas distribuído o feito na Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa o Deputado Estadual Cícero Magalhães, embora tenha apresentado parecer favorável, formulou substitutivo que trazia em seu art. 4º o seguinte:
“(...) A abertura de concurso para a delegação de Ofício, que esteja submetido à apreciação do Poder Judiciário, dependerá do trânsito em julgado da correspondente ação. (...)”

Referido substitutivo foi aprovado na CCJ e remetido à Comissão de Administração Pública e Política Social que, desconsiderando por completo ponderações defendidas pela OAB/PI sobre a inconstitucionalidade do dispositivo, aprovou o substitutivo e o encaminhou ao Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Piauí.

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Após trâmites legais o Projeto de Lei foi aprovado e submetido à sanção do Governador do Estado, o qual acatou proposição da OAB/PI e vetou referido art. 4º. No entanto, em Sessão Plenária o Legislativo Estadual rejeitou o veto e fez ingressar no ordenamento jurídico o malsinado art. 4º, cuja inconstitucionalidade formal é patente em razão da ausência de competência da Assembléia Legislativa para legislar sobre o ingresso e remoção nos serviços notariais. Com efeito, a Constituição Federal atribui à União a competência para legislar sobre registros públicos, ex vi do seu art. 22, XXV1, tendo já exercido sua competência conforme se deduz da leitura da Lei Federal nº 8.935/94, que disciplina o artigo 2362, CF. Mencionada lei federal limita a competência dos Estados apenas para a fixação das circunscrições territoriais dos serviços notariais e de registro público. Aliás, é este o teor da Lei Complementar Estadual nº 184/12, exceto pelo seu artigo 4º, que versa sobre o ingresso no serviço de notas ou de registro. Convém ressaltar que para que os Estados tenham competência para legislar sobre o ingresso ou a remoção no serviço notarial ou de registros públicos é necessária lei complementar federal que os autorize. É esta a lição que nos ensina o e. Ministro Gilmar Mendes, senão vejamos:
“O parágrafo único do art. 22 prevê a possibilidade de lei complementar federal vir a autorizar que os Estadosmembros legislem sobre questões específicas de matérias
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Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (...) XXV - registros públicos; 2 Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público. § 1º - Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e criminal dos notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário. § 2º - Lei federal estabelecerá normas gerais para fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos serviços notariais e de registro. § 3º - O ingresso na atividade notarial e de registro depende de concurso público de provas e títulos, não se permitindo que qualquer serventia fique vaga, sem abertura de concurso de provimento ou de remoção, por mais de seis meses.

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relacionadas no artigo. Trata-se de mera faculdade aberta ao legislador complementar federal. Se for utilizada, a lei complementar não poderá transferir a regulação integral de toda uma matéria da competência privativa da União, já que a delegação haverá de referir-se a questões específicas.” 3.

Na ausência da lei complementar federal autorizadora, com todo respeito, os Estados não poderão legislar sobre a matéria, sob pena de incorrerem em vício formal de constitucionalidade. No caso, além do Projeto de Lei Complementar ser alvo de substitutivo de Parlamentar Estadual o art. 4º ofende frontalmente o art. 236 da Constituição, bem como o art. 50 da Lei nº 8.935/94, os quais não estabelecem qualquer limite à realização do concurso público para provimento da vaga definitiva. A rigor, todas as serventias judiciais devem ser objeto de concurso público, eis que se trata do meio de seleção objetiva, historicamente construído com o fim de evitar relações pessoais no âmbito da administração pública4. O artigo 4º encontra-se eivado de vício formal de constitucionalidade, por ter sido aprovado por órgão que não tinha competência para tal. Pede-se, portanto, o reconhecimento da inconstitucionalidade formal e o imediato expurgo do mencionado dispositivo do ordenamento jurídico. 2.2 – INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL – OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA ISONOMIA, DO CONCURSO PÚBLICO E DA IMPESSOALIDADE: De outro lado, referido art. 4º também incide em vício material de inconstitucionalidade. É que os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do poder
MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocência Mártires; BRANCO, Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 4ª. Ed. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 818.
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ROSANVALLON, Pierre. La legitimidad democrática. Imparcialidad, reflexividad y proximidad. Paidós Ibérica. 1ª edição, Madrid: 2010

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público, mediante o ingresso através de aprovação em concurso público de provas e título, na forma do art. 236, § 3º, da Carta da República. O artigo 37, II5, CF, também estabelece que os cargos públicos devem ser providos através de concurso público, e não há dúvidas de que os ocupantes dessas serventias são servidores públicos em sentido amplo, como já decidiu esse Eg. Tribunal:
EMENTA: Aposentadoria dos titulares das serventias de notas e registros. Aplicação a eles da aposentadoria compulsória prevista no artigo 40, II, da Constituição Federal. - Há pouco, o Plenário desta Corte, por maioria de votos, ao julgar o RE 178.236, relator o Sr. Ministro Octavio Gallotti, decidiu que os titulares das serventias de notas e registros estão sujeitos à aposentadoria compulsória prevista no artigo 40, II, da Constituição Federal. Entendeu a maioria deste Tribunal, em síntese, que o sentido do artigo 236 da Carta Magna foi o de tolher, sem mesmo reverter, a oficialização dos cartórios de notas e registros, em contraste com a estatização estabelecida para as serventias do foro judicial pelo art. 31 do ADCT; ademais, pelas características desses serviços (inclusive pelo pagamento por emolumentos que são taxas) e pelas exigências feitas pelo artigo 236 da Carta Magna (assim, o concurso público de provas e títulos para provimento e o concurso de remoção), os titulares dessas serventias são servidores públicos em sentido amplo, aplicando-se-lhes o preceito constitucional relativo à aposentadoria compulsória determinada pelo citado artigo 40, II, da Constituição Federal. - Dessa decisão não diverge o acórdão recorrido. Recurso extraordinário conhecido pela letra "c" do inciso III do artigo 102 da Constituição, mas não provido. (RE 189736, Relator(a): Min. MOREIRA ALVES, Primeira Turma, julgado em 26/03/1996, DJ 27-09-1996 PP-36168
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Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) (...) II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)

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EMENT VOL-01843-06 PP-01141)

Trata-se de normas constitucionais primordiais para o bom funcionamento do aparelho estatal como um todo, e também para a consolidação e o engrandecimento do Estado de Direito. A partir da matriz constitucional apresentada percebese que o art. 4º, ora impugnado, afronta diretamente a Constituição, na medida em que inverte a regra segundo a qual todo cargo será provido por meio de concurso público. Os serviços notariais e de registro foram regulamentados pela Lei Federal nº 8.935, de 18 de novembro de 1994, a qual estabeleceu regras não só para a atividade notarial, como também regras para a seleção de notários e regra de transição referente às serventias existentes antes de 1988 e já ocupadas. É o que dispõem os artigos 49 e 506, mas a Lei Complementar do Estado do Piauí nº 184/2012 --- que altera a Lei 3.716/79 e a organização judiciária --- ofende o regime constitucional/legal vigente, apesar da tentativa de melhorar os serviços cartorários. Veja-se uma vez mais a redação do já mencionado art. 4º: “(...) A abertura de concurso para a delegação de oficio, que esteja submetido à apreciação do Poder Judiciário, dependerá do trânsito em julgado da correspondente ação. (...)” O dispositivo impugnado tenciona flexibilizar comando constitucional, traduzindo a resistência dos atuais ocupantes das serventias judiciais já vagas, seja pela aposentadoria compulsória, seja pelo falecimento do titular, à realização de concurso público para provimento destas. Não há dúvidas, no entanto, que o regime geral vigente no Brasil a partir de 1988 e regulamentado em 1994 prevê a retomada
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Art. 49. Quando da primeira vacância da titularidade de serviço notarial ou de registro, será procedida a desacumulação, nos termos do art. 26. Art. 50. Em caso de vacância, os serviços notariais e de registro estatizados passarão automaticamente ao regime desta lei.

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das serventias no caso de vacância, devendo todas --- absolutamente todas ---, serem providas mediante concurso público, sendo defesa a transmissão perpétua da titularidade. Os motivos, neste caso, não interessam: o fato é que há necessidade de realização de concurso para todas as serventias notariais existentes, sejam novas, sejam antigas (neste caso, vacantes sem titularidade ou ocupadas por substitutos). Em outras palavras, o texto impugnado ofende a Constituição Federal --- art. 37, II, e 236, § 3º --- porque afasta a possibilidade de concurso a partir do mero ajuizamento de uma ação judicial. Isto é, basta haver ação judicial em curso questionando a vaga, ainda que desprovida de providência de caráter liminar/cautelar, que, pelo texto ora impugnado, há necessidade de se aguardar o trânsito em julgado. ‘Data venia’, o comando questionado está em total descompasso com precedentes desse e. Supremo Tribunal Federal sobre a exigência de concurso público sem qualquer tipo de condicionamento, vejamos:
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. IMPUGNAÇÃO DO DISPOSTO NOS ARTIGOS 19, 20 E 21 DA LEI N. 14.083 DO ESTADO DE SANTA CATARINA. REGRAS GERAIS CONCERNENTES AOS CONCURSOS PÚBLICOS PARA INGRESSO E REMOÇÃO NA ATIVIDADE NOTARIAL E DE REGISTRO. VIOLAÇÃO DO DISPOSTO NO ARTIGO 37, INCISO II, E NO ARTIGO 236, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. 1. Os preceitos da Lei n. 14.083 de Santa Catarina violam o disposto no artigo 236 da Constituição de 1988, que estabelece que o ingresso nas atividades notarial e de registro será efetuado por meio de concurso público de provas e títulos. 2. O artigo 21 da Lei n. 14.083 permitiria que os substitutos das serventias extrajudiciais nomeados até 21 de novembro de 1994 fossem elevados à condição de titular, sem aprovação em concurso.
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3. Esta Corte tem entendido que atos normativos concernentes ao provimento de cargos mediante a elevação de substitutos à titularidade dos cartórios, sem a devida aprovação em concurso público afrontam a Constituição do Brasil. Precedentes --- artigo 37, inciso II, e artigo 236, § 3º, da Constituição do Brasil. 4. Os artigos 20 e 21 da Lei n. 14.083 violam o texto da Constituição de 1.988. Ato normativo estadual não pode subverter o procedimento de acesso aos cargos notariais, que, nos termos do disposto na Constituição do Brasil, darse-á por meio de concurso público. 5. A inconstitucionalidade dos artigos 20 e 21 impõe a procedência do pedido no tocante ao artigo 19. 6. O provimento de cargos públicos mediante concursos visa a materializar princípios constitucionais aos quais está sujeita a Administração, qual o da legalidade, da moralidade, da impessoalidade. 7. Pedido julgado procedente para declarar inconstitucionais os artigos 19, 20 e 21 da Lei n. 14.083 do Estado de Santa Catarina. (ADI 3978, Rel. Min. Eros Grau, DATA DE PUBLICAÇÃO DJE 11/12/2009 - ATA Nº 40/2009. DJE nº 232, divulgado em 10/12/2009)

No mesmo sentido:
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTS. 33 E 34 DO ADCT DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. SERVIÇOS NOTARIAIS E DE REGISTRO. DIREITO À ESTATIZAÇÃO. TITULARIDADE ASSEGURADA AOS ATUAIS SUBSTITUTOS, DESDE QUE CONTEM CINCO ANOS DE EXERCÍCIO NESSA CONDIÇÃO E NA MESMA SERVENTIA, NA DATA DA PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. VULNERAÇÃO DO DISPOSTO NO ART. 236, "CAPUT", § 3º DA CF, E NO ART. 32 DO ADCT-CF/88. 1. Ofende o preceito do § 3º do art. 236 da Constituição Federal o disposto no art. 33 da Constituição do Estado do Espírito Santo, que assegura aos substitutos o direito de ascender à titularidade dos serviços notariais e de registro, independentemente de concurso público de provas e títulos, desde que contem cinco anos de exercício nessa condição e na mesma serventia, na data da promulgação da Carta Federal. 2. Art. 34 da Constituição do

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Estado do Espírito Santo. Estatização dos Cartórios de Notas e Registro Civil. Faculdade conferida aos atuais titulares. Contrariedade ao art. 236, "caput" da Carta Federal que prescreve serem os serviços notariais e de registro exercidos em caráter privado. Ação Direta de Inconstitucionalidade julgada procedente. (ADI 417, Relator(a): Min. MAURÍCIO CORRÊA, Tribunal Pleno, julgado em 05/03/1998, DJ 08-05-1998 PP-00001 EMENT VOL-01909-01 PP-00001)

Ora, o que se verifica é que o art. 4º da Lei Complementar nº 184/2012, do Estado do Piauí, cria um óbice inadequado à concretização do art. 236, § 3º, da Constituição Federal, padecendo de flagrante inconstitucionalidade por criar um requisito inexistente na regra constitucional, bem como na sua regulamentação. A questão já tinha sido pacificada com a Resolução nº 80/2009, expedida pelo Conselho Nacional de Justiça - CNJ, a qual declara a vacância dos serviços notariais ocupados em desacordo com as normas constitucionais pertinentes à matéria, senão vejamos:
“(...) Art. 8º Não estão sujeitas aos efeitos desta resolução: a) as unidades do serviço de notas e de registro cuja declaração de vacância, desconstituição de delegação, inserção ou manutenção em concurso público esteja sub judice junto ao C. Supremo Tribunal Federal na data da publicação desta Resolução em sessão plenária pública, enquanto persistir essa situação; b) as unidades do serviço de notas e de registro cuja declaração de vacância, desconstituição de delegação, inserção ou manutenção em concurso público seja objeto, na data da publicação desta Resolução em sessão plenária pública, de decisão definitiva em sentido diverso na esfera judicial, de decisão definitiva em sentido diverso junto ao CNJ ou de procedimento administrativo em curso perante este Conselho, desde que já notificado o responsável atual da respectiva unidade. (grifos nossos)

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A Resolução do CNJ, em respeito à segurança jurídica e ao devido processo legal, estabelece que os cartórios que possuem ação tramitando no Supremo Tribunal Federal, e também aqueles com decisões definitivas garantindo a sua ocupação, não serão declarados vagos enquanto não houver provimento jurisdicional que solucione o conflito. O mesmo CNJ, recentemente, proferiu decisão na qual determina a realização de concurso até mesmo para as serventias que estão sub judice, esclarecendo-se, no edital, tal condição. Neste sentido, a seguinte ementa:
PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADMINISTRATIVO E PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS. CONCURSO PÚBLICO PARA A OUTORGA DE DELEGAÇÕES DE NOTAS E DE REGISTRO. SERVENTIA VAGAS NÃO OFERTADAS EM EDITAL. INCLUSÃO, REPUBLICAÇÃO E REABERTURA DO PRAZO DE INSCRIÇÃO. RESERVA DE VAGAS ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. RESOLUÇÃO CNJ No 81/2009. APLICABILIDADE DA LEI ESTADUAL MAIS BENÉFICA. 1. Pretensão de inclusão de todas as serventias vagas no concurso público de provas e títulos para a outorga de delegações de notas e de registro do Estado de Minas Gerais, regido pelo edital no 2/2011, e reserva de 10% das vagas em favor das pessoas com deficiência. 2. Revela-se inquestionável a necessidade de republicar o edital, com a inclusão de todas as serventias vagas, à exceção das submetidas a diligência na Corregedoria Nacional de Justiça. Com a finalidade de assegurar a observância dos princípios constitucionais pertinentes aos concursos públicos, sobretudo os da finalidade, da impessoalidade e da isonomia, faz-se indispensável a reabertura do prazo de inscrições. 3. As serventias sub judice devem ser incluídas no certame com expressa advertência de que eventual escolha destas serventias será por conta e risco do(a) candidato(a) aprovado(a), sem direito a reclamação posterior caso o resultado da ação judicial correspondente frustre sua escolha e afete seu exercício na delegação. 4. Devem reservar-se 10% das vagas ofertadas em favor das pessoas com deficiência, nos termos da Lei Estadual no 11.867/95, de Minas Gerais, mais benéfica do que dispõe a Resolução CNJ no 81/2009. Procedência dos pedidos.

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(Processo de controle administrativo nº 000277.2012.2.00.0000, Rel. Conselheiro Wellington Cabral Saraiva)

De fato, o confronto entre os textos da Resolução nº 80/2009, do CNJ, e o da ementa do Processo de Controle Administrativo nº 0002-77.2012.2.00.0000, acima transcrita, demonstra que o artigo 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/12 vai de encontro à norma constitucional destacada. Isso porque estabelece a condição de ausência de qualquer ação judicial para que sejam abertas vagas para ingresso no serviço notarial e de registros públicos. A condição estabelecida pelo art. 4º, ora impugnado, não viola apenas o art. 236, § 3º, da Carta Maior, posto que a má qualidade na prestação de serviços cartoriais afeta toda a sociedade do Estado do Piauí, mitigando, inclusive, o princípio do acesso à jurisdição (art. 5º, XXXV). Como se sabe, referido postulado de acesso à justiça --tido como um ponto comum de onde irradiam feixes de princípios e direitos fundamentais --- não se resume ao mero acesso do Judiciário, mas a um verdadeiro conjunto de valores fundamentais para o desenvolvimento de um indivíduo integrado à sociedade. Kazuo Watanabe7 bem explica a questão ao defender que ‘... não se trata apenas de possibilitar o acesso à justiça enquanto instituição estatal, e sim de viabilizar o acesso à ordem jurídica justa.’, donde se observa que a condição prevista no art. 4º impede a realização de concursos públicos para ingresso nos serviços notariais devido ao simples ajuizamento de ação judicial, o que, na prática, revela-se um óbice à melhoria na prestação desses serviços. É dizer, a não realização de concursos públicos e provimento das vagas impede o cidadão de exercer seus direitos, de obter suas documentações e de exercer a sua cidadania.

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WATANABE, Kazuo. Acesso à justiça no direito processual brasileiro. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel e WATANABE, Kazuo. Participação e processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 128.

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E mais, o óbice criado por referido art. 4º desnatura o meio de seleção objetivo e historicamente construído com o fim de evitar relações pessoais no âmbito da administração pública, violando a um só tempo o princípio da isonomia --- art. 5º, ‘caput’ --- como, igualmente, o postulado da impessoalidade (art. 37, ‘caput’). Pela redação do § 3º do art. 236, da Carta Maios, os serviços notariais não podem ficar vagos por mais de 06 (seis) meses mas, em contrapartida, o art. 4º, ora impugnado, proíbe na prática a abertura de concursos para ingresso nos serviços notariais caso haja ação judicial em curso. Ou seja, a lei estadual dá a entender que o mero ajuizamento de uma ação judicial é capaz de sustar o ingresso nos serviços notariais e de registro público, não podendo a serventia vaga e questionada integrar a realização de concurso público. É patente, pois, a inconstitucionalidade do art. 4º da lei ora impugnada, eis que cria óbice inadequado à concretização do inciso II, do art. 37, e do § 3º do art. 236, da Carta da República. Diante do exposto, torna-se imperiosa a declaração de inconstitucionalidade do art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, por inequívoca violação aos artigos 5º, ‘caput’, e art. 37, ‘caput’ inciso II, e 236, § 3º, da Constituição Federal. 3 - DO PEDIDO CAUTELAR: A suspensão liminar da eficácia de leis em sede de controle de constitucionalidade tem sido deferida por essa Corte Constitucional quando se mostre conveniente a providência em face da plausibilidade do direito invocado ou quando presente o periculum in mora. Ambos mostram-se existentes no caso concreto, vejamos: A plausibilidade do direito invocado restou amplamente demonstrada, visto que o art. 4º, ora impugnado, é formal e materialmente inconstitucional por ofender os artigos 5º,
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‘caput’, 22, XXV, e 37, ‘caput’ e inciso II, e § 3º do art. 236, da Constituição Federal. Outrossim, é evidente a existência do fumus boni juris, que, in casu, é translúcido e pode ser observado e provado por meio de toda a argumentação e fundamentação acima expostas. O tema versado na presente ação, sob outro aspecto, é por demais relevante já que se está diante de matéria que envolve a própria ossatura institucional do Estado do Piauí no que tange ao preenchimento das serventias vagas e na melhoria dos serviços à população. Mostra-se patente, ademais, a conveniência de que ante a manifesta inconstitucionalidade do dispositivo impugnado, e independentemente da existência ou não do periculum in mora (que também existe), suspenda o Supremo Tribunal Federal liminarmente a eficácia do art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, ante o grau de importância da matéria em debate. O requisito do periculum in mora, por outro lado, resta presente, visto que os prejuízos à cidadania com a não realização de concursos públicos e preenchimento das serventias vagas já se alongam e tornar-se-ão maiores com a delonga na análise do pleito cautelar. A urgência qualificada, pois, diante de tal quadro fático, enseja a imediata apreciação e concessão da medica cautelar ‘ad referendum’ do Plenário. Assim, a concessão de medida cautelar determinando a suspensão da eficácia do ato impugnado é vital à minimização dos prejuízos suportados pela população diante da vacância das serventias vagas existentes. Ora, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, ao editar a Resolução nº 80/2009, identificou que:
‘... durante as inspeções realizadas pela Corregedoria Nacional de Justiça junto aos serviços extrajudiciais (e cujos

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relatórios já aprovados pelo plenário estão publicados no sítio do CNJ na internet) foram verificadas graves falhas nos serviços notariais e de registro, a exemplo de livros em péssimo estado de conservação e inservíveis, grande número de atos praticados de forma incorreta, inexistência de definição das competências territoriais até mesmo em relação aos cartórios imobiliários, descontrole quanto ao recolhimento das custas, falta de fiscalização sobre o regime de trabalho dos empregados contratados pelos responsáveis, livros notariais com folhas intermediárias em branco, escrituras faltando assinaturas, firma reconhecidas sem os necessários cuidados com os cartões de assinatura (tanto na colheita do material gráfico, como no armazenamento dos cartões), títulos pendentes de protesto muito tempo após o decurso do tríduo legal para o pagamento, inexistência de normas mínimas de serviço editadas pelos Tribunais de Justiça, desconhecimento de regras legais sobre registros públicos e das regras do Código Civil de 2002 sobre as pessoas jurídicas, cartórios de registro civil que enfrentam falta de crédito até para a aquisição do papel necessário para a emissão de certidões de nascimento e de óbito, tudo a demonstrar a necessidade urgente de regulamentação dos trabalhos, de maneira uniforme. (...)”

Especialmente no Estado do Piauí, a situação mostrouse mais grave, conforme Relatório final das serventias extrajudiciais divulgado pela Corregedoria Nacional de Justiça no final do ano de 2012, isto é:
“(...) É afrontosa não somente à dignidade dos registros públicos, como é atentatória às instituições notariais e de registro, e à própria cidadania, na medida em que afeta a fé pública registral, que é indispensável à segurança dos negócios jurídicos e à estabilidade fundiária requerida pelas relações jurídicas de direito real. (...)”

A imprensa, há muito tempo, já repercute a carência de pessoal, de materiais, a centralização dos cartórios na região central de Teresina, a precariedade do atendimento, os valores das custas e, principalmente, a delegação graciosa de ofício.

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Em expediente endereçado à OAB/PI a Deputada Estadual Rejane Dias bem elucida a precariedade dos serviços, a saber:
“(...) Ora, Exmo. Sr. Presidente, em uma simples análise do conteúdo do art. 4º vê-se que o mesmo consegue, a um só tempo, ser contrário ao interesse público do Estado do Piauí e afrontar os princípios constitucionais da isonomia, legalidade e do concurso público. Entende-se que há contrariedade ao interesse público na medida em que o mesmo inviabiliza a realização de concurso público para tabelião em Teresina, sendo que quase a totalidade das serventias cartorárias da capital tem ações judiciais questionando a titularidade e/ou manutenção dos serviços cartorários. Assim, como o texto legal condiciona a abertura de concurso ao trânsito em julgado dessas ações, conclui-se que o esperado concurso público demorará significativos anos ou até mesmo décadas para se realizar. Além disso, é importante esclarecer que o texto da Lei não fala em obtenção de medida liminar no âmbito do Poder Judiciário, bastando a simples protocolização de petição inicial para que os atuais donos de cartórios permaneçam por longas décadas à frente dessas serventias que, diga-se de passagem, foram concedidas ainda na década de 70. (...)” (negrito não constante do original)

Esse o quadro, é indispensável a concessão de medida cautelar de modo a suspender a eficácia do dispositivo impugnado e, ato contínuo, admitir que as serventias declaradas vagas mas objeto de questionamento judicial sejam afetas à realização de concursos públicos, porquanto o óbice criado pelo art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/2012 impede sejam tais serventias objeto de participação em certames. Neste contexto fático, além de presente a conveniência da suspensão liminar da eficácia do ato normativo impugnado relevância qualificada e profilática -, atrelado à plausibilidade jurídica do direito invocado, faz-se presente o periculum in mora.

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Impõe-se, assim, a concessão de liminar ao final requerida ‘ad referendum’ do Plenário, na trilha da orientação desta Egrégia Corte8. 4 - DOS PEDIDOS: Pelo exposto, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil requer: a) a notificação da ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PIAUÍ, por intermédio de seu Presidente, para que, como órgão/autoridade responsável pela rejeição do veto realizado pelo Exmo. Sr. Governador de Estado ao art. 4º, da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, manifeste-se, querendo, no prazo de 5 (cinco) dias, sobre o pedido de concessão de medida cautelar, com base no art. 10 da Lei nº 9.868/99; b) a concessão de medida cautelar, com base no art. 10 da Lei nº 9.868/99, para suspender a eficácia do art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, que adveio ao ordenamento jurídico após a rejeição, pela Assembléia Legislativa do Estado do Piauí, ao veto então realizado pelo Exmo. Sr. Governador de Estado; c) a notificação da ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PIAUÍ, por intermédio de seu Presidente, para que, como órgão/autoridade responsável, manifeste-se, querendo, sobre o mérito da presente ação, no prazo de 30 (trinta) dias, nos termos do art. 6º, parágrafo único da Lei nº 9.868/99; d) a notificação do Exmo. Sr. Advogado-Geral da União para se manifestar sobre o mérito da presente ação, no prazo de
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“Ação Direta de Inconstitucionalidade.§1º do artigo 29 da Constituição do Esta do do Rio Grande do Norte. – relevância da fundamentação jurídica da argüição de inconstitucionalidade (ofensa à iniciativa exclusiva do Chefe do Poder Executivo quanto a projeto de lei sobre regime jurídico e aposentadoria de servidor público civil), bem como ocorrência do requisito de conveniência para a concessão da liminar. Pedido e liminar deferido para suspender, “ex nunc”, a eficácia do §1º do artigo 29 da Constituição do Rio Grande do Norte até a decisão final da presente ação. (STF – ADIMC – 1730/RN, rel. Min. Moreira Alves, J. em 18/06/98, unânime tribunal pleno, DJ de 18/09/98, pagina 002)

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quinze dias, nos termos do Art. 8º da Lei nº 9.868/99 e da exigência constitucional do Art. 103, § 3º; e) a notificação do Exmo. Sr. Procurador Geral da República para que emita o seu parecer, nos termos do art. 103, § 1º da Carta Política; f) a procedência do pedido, ao final, para que seja declarada a inconstitucionalidade do art. 4º da Lei Complementar Estadual nº 184/2012, do Piauí; Deixa-se de atribuir valor à causa, em face da impossibilidade de aferi-lo. Nesses termos, pede deferimento. Brasília/DF, 19 de abril de 2013.

Marcus Vinicius Furtado Coêlho Presidente do Conselho Federal da OAB

Oswaldo Pinheiro Ribeiro Júnior OAB/DF 16.275

Rafael Barbosa de Castilho OAB/DF 19.979

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