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Dedico essa obra a Carme Luz Becker Taborda. Luz, simplesmente Luz...

LEIA EM VOLUME MÁXIMO

LIVRO DOS DIAS
O DIÁRIO DE CLARISSE

Este é o livro das flores Este é o livro do destino Este é o livro de nossos dias Este é o dia de nossos amores Renato Russo

PRIMEIRA ESTAÇÃO
O inverno havia chegado com seu frio gélido, congelando a alma, enrijecendo o sorriso. Clarisse não estava bem pela manhã, não tomou seu café e correu para o colégio. Ela não sabe por que se sente assim, chora sem motivos, não tem vontade de fazer nada, sente-se sozinha. Uma solidão que faz parte de sua alma e mesmo que as pessoas conversem, demonstrem carinho ou preocupação, ainda assim está só. Enquanto caminha apressada em direção à escola pensa, <Por Deus nunca me vi tão só... Estes dias são tão desleais. Mas eu não me entrego sem lutar, ainda tenho um coração não aprendi a me render> Levanta o rosto e apressa mais ainda o passo, o vento sopra seus cabelos e leva para longe os pensamentos que querem detê-la. Aos 17 anos, magra, 1,70 de altura, com belos cabelos lisos e castanhos, seu sorriso é triste. Enquanto passa pela praça do bairro, ouve, vê e sente tudo a sua volta. Tudo numa mesma sintonia, crianças brincam e suas mães e babás discutem sobre o preço do leite ou sobre a novela das oito. Uma turminha mais velha se reúne para conversar sobre tantas coisas que os adultos não entenderiam e nem tem o porquê entender.

Mesmo sentindo o sol tocar sua pele, o vento acariciar seus cabelos, e a vida lhe chamar, ainda assim, Clarisse não responde e escuro se tornam seus dias. Seu irmão, que poderia ser seu amigo, cresceu. E não liga mais para sua proteção, hoje ele faz de conta que nunca precisou dela para dormir à noite ou para se livrar de alguma borboleta voraz que o ameaçava. E o pai? Muito ocupado para os problemas de Clarisse. A mãe, nem sempre resolve, para ela tudo sempre foi assim e assim sempre será. É uma fase passageira que dura o suficiente para pôr fim ao prazer da vida. Johnny, aquele carinha legal é o centro das atenções, não a enxerga. Inacessível Clarisse. A Marina ainda é sua confidente, única amiga que tem e, mesmo assim, são tão diferentes. No colégio, o sinal bate e todos saem naquele alvoroço. Não entendo porque todos têm que agir como uma manada de animais em disparada. Realmente não

entendo porque temos que estar aqui. Reclama Clarisse à Marina.

-

Como

você

está

amarga

hoje,

Clarisse! Não dormi bem essa noite. Justificase. Sonhou com o João Roberto, ou melhor, o Johnny? Pior que não, foi com o professor de História, me dizendo que na verdade os espanhóis são os verdadeiros descobridores desse país. Ele adora ser contra a história que todos aceitam. iguais. Hoje à tarde vou estudar na casa do Maurício, você quer ir? Temos prova amanhã na primeira aula. No Maurício? Sei lá, esse menino é chegado num… Não seja boba, ele sabe o que quer e não representa nenhuma ameaça, se você não quiser. Até que nisso somos

-

O que eu menos quero são mais problemas para meus poucos anos de vida.

-

Você fala como se fosse uma sofredora com alguma doença

grave. Já pensou em procurar um psiquiatra? Já! Mas tenho dó dele.

No caminho para casa encontram Johnny. Clarisse fica roxa. Marina o chama para conversar, a amiga fica furiosa e fecha a cara. Ele pareceu muito interessado no papo de Marina e isso deixou Clarisse com sentimento de revolta e desapreço, afinal sua amiga era tão bonita que não seria difícil para Johnny se apaixonar, aí sim não faltaria mais nada para sua pobre vida. Após deixar Marina em casa, os dois seguem calados por duas quadras. Você fala tanto assim? Ironizou Johnny. Sou adepta do pensamento que diz “Só abra a boca se tiver certeza que

suas palavras valem mais que o seu silêncio”. Manero, heim? Na verdade sou tímida, desculpe pela falta de tato. Não se preocupe com isso, você parece ser muito de séria, uma

característica

pessoas

inteligentes. E, às vezes, confesso que tenho até medo de falar contigo. ... Você curte arranque? Pergunta ele, puxando assunto. É legal, mas você não tem idade para fazer tudo que faz. Com o tempo a gente aprende. Agora você está sendo ridículo. E você, sincera.

Ela sorriu e ficou feliz pela atenção que ele dispensara. Percebeu que ele a percebia. Despediram-se e Clarisse não acreditava no

que acabara de acontecer, feliz foi ao seu diário relatar o que acabara de acontecer. ... Clarisse completará 18 anos e sua mãe preparou uma festa maravilhosa, não poupou nenhum centavo para realizar o que chamaria “a festa do ano”. Os amigos da alta sociedade não poderiam perder. Proibiu que o marido marcasse qualquer compromisso na data da festa e foi com a filha escolher um vestido de gala. Clarisse queria optar por um jeans descolado, mas a mãe insistiu num branco com detalhes em prata. Vou parecer vinte anos mais velha com esse tipo! Nada disso mocinha, será uma festa social e não quero que me

envergonhe frente aos convidados com esses trapos que você insiste em chamar de roupa. Tá bem, mãe afinal a festa é sua. Não seja injusta com a sua mãe, faço isso para que seja feliz. Seria mais feliz se usasse jeans!

-

E o que as pessoas diriam? Você será a estrela da festa.

-

Ah! Elas diriam: - Que belo jeans, foi Calvin Klein ou Levis que o

desenhou? Minha filha, quando tinha a sua idade, eu gostava de festas e de muita sofisticação, embora meu pai não pudesse realizar esse gosto, hoje posso te dar esse presente. Você não quer aceitá-lo? É isso? Não mãe, não estou sendo mal agradecida, mas… deixe pra lá, você tem razão, afinal sou eu quem vai brilhar nesta noite. Pode ser esse branco, mas quero uma parte transparente, o.k.? Os sonhos de um nem sempre são os sonhos do outro. A vida de um, certamente, não é a vida do outro, mesmo que sejam gêmeos. Nisso, Deus pensou numa coisa boa: a diversidade. A sociedade caminha pelos mesmos passos do passado fazendo sempre

o mesmo trajeto, às vezes aparece um filho rebelde que guia a sociedade para outro rumo. A mãe de Clarisse tem boa intenção, porém não pensa por ela mesma, se importa com a sociedade e seus valores. Basta situar a qual modelo de sociedade ela admira, porque mesmo a alta sociedade é composta de várias partículas sociais que vivem harmoniosamente em conjunto. Há os drogados, os insanos, os infelizes, os mesquinhos, os heróis, os patriotas e assim vai, mas num panorama maior, tudo parece se encaixar perfeitamente num mosaico multicolorido que encanta aos olhos de quem a vê de fora. Marina também foi escolher um belo vestido. Ela não perdia uma oportunidade de aparecer, embora não fosse escandalosa, se vestia sempre com muito requinte. A sensualidade lhe habitava o corpo desde a cor da pele ao formato dos lábios, um tipo de mulher que até sem produção alguma exala exuberância e sensualismo. Não era bela, mas harmoniosa. Um verdadeiro “concorde”. Ao sair da loja, encontrou Johnny que não perdeu a oportunidade. Olá. Posso te ajudar? Perguntou ele.

-

Que

bom

preciso,

de

outra

mãozinha. E empurrou o maior número de sacolas possível para ele. Quanta coisa! O que você carrega aqui? Apenas algumas roupas que estou precisando... E a festa da Clarisse. Você vai, não é? Claro, quando eu falto a alguma festa nesta cidade? Falou com um sorriso irônico no rosto. Fiquei sabendo que teu pai comprou um charango para você. Como ele é? Perguntou Marina interessada. Manero, um Opala metálico azul, original, podemos sair hoje à noite com ele. O que acha? Perguntou ele. Hoje? Impossível! Tenho um milhão de coisas pra resolver, sem contar que você não tem idade para dirigir.

-

Quem disse isso? Desde quando isso é problema aqui na capital? Ainda mais com meu pai sendo político.

-

que

você

tinha

que

tomar

cuidado, um escândalo não seria nada benéfico para a carreira dele. Falou ela com maturidade. Bem, que tal amanhã? Sexta feira? Nem pensar! Tenho um chá beneficente que prometi ir com minha mãe, senão ela corta minha mesada e não a perco por nada. Mas… sábado, o que acha? Combinado. Passo as oito na sua casa. Johnny deixou Marina em casa e saiu sorrindo, satisfeito por ter marcado o encontro, seus colegas nem iriam acreditar nesta conquista. Marina por sua vez tencionava levar Clarisse junto.

Clarisse esteve muito ocupada na semana de seu aniversário e nem foi ao colégio, mal teve tempo de trocar duas palavras com Marina que não conseguiu convidá-la para sair no sábado à noite, quando finalmente encontrou o irmão de Clarisse e ele lhe contou que ela havia viajado com a sua mãe por causa dos arranjos da festa e só voltaria no domingo. No sábado então, Marina esperou por Johnny e foram a um bar. O ambiente era calmo e sofisticado, somente as pessoas de posses que freqüentavam o lugar. Johnny, apesar da pouca idade, sabia se comportar como um adulto. O pai era um político importante da cidade e a mãe o acompanhava em todos os compromissos, deixando-o muito sozinho. Assim sempre fez o que quis e bem entendeu. Marina, por sua vez, adorava badalação, sua família não tinha tão boa posição financeira, mas viviam de aparências, o pai morou muitos anos em Londres e a mãe, uma mulher fútil. Antes da meia noite, Johnny havia conquistado aquele avião que estava prestes a levantar vôo. Marina bebera como nunca havia bebido. Já dizia palavras vazias e ria muito. Foram à casa de Maurício que morava sozinho e nesse dia havia combinado com

Johnny de ceder o apartamento para que se concluísse, com êxito, seu plano. O nervosismo estava presente, mas não poderia deixar transparecer, pois ele já havia transado antes com mulheres mais velhas e mais experientes, que fizeram questão de conduzi-lo pelos caminhos do sexo, instruindo-o da melhor maneira. Desta vez, a diferença era que ele que iria conduzir, e sua reputação estava em jogo. Carinhosamente ele a beija e no calor desse beijo despem-se e rolam pelo tapete da sala. Cada centímetro percorrido por seus dedos, o leva a uma viagem incrível. Ao seu ouvido, os gemidos de prazer de Marina se tornam uma canção preciosa. Ele quer sentir cada momento como se fosse o último e por esse instante esquece a timidez e deixa que os seus instintos o guiem. O tato, o olor, o som, a visão maravilhosa. Aquele corpo perfeito e macio, todo perfumado, parece um sonho. ... Na manhã seguinte, a vida volta ao normal, agora com um brilho diferente. Johnny se vê completamente apaixonado por Marina. Não poderia estar mais feliz. Ela, por sua vez, pensava em Clarisse e pressentia que enfrentaria algum problema por isso.

Na escola, Marina evita encontrar-se com Clarisse, porém no intervalo encontra Johnny que não faz questão nenhuma de esconder seus sentimentos, por sorte Clarisse passa por eles e não percebe nada. Mais tarde, Clarisse ouve uma colega comentar do namoro entre Marina e Johnny, então fica sabendo o que houve entre os dois. Irritada ela vai procurar a amiga para pedir explicações. Você não podia fazer isso comigo! Grita Clara. Calma, Clarisse, eu ia te contar! Como pôde ser tão falsa, eu não merecia isso! Você sabia que ele me interessava, porque não me disse antes? Fiquei fazendo papel de palhaça, confidenciando coisas a você para que me golpeasse pelas costas! Não foi bem assim que aconteceu… Como não? Sou, além de tudo, burra agora?

-

Fique mais calma, não quero te ver assim…

-

Você era a única pessoa em quem eu confiava, a única família que eu tinha, um alicerce… e agora tudo desmoronou! Clarisse saiu correndo pela rua sem

observar os carros que vinham, por sorte não sofreu um acidente. Claaaraaa!!!! Grita Marina, que não a conteve, pois logo sumiu em meio às pessoas que passavam por ali. Desesperada Clarisse entra em uma igreja soluçando de tanto chorar. Toda aquela mágoa que guardava em seu peito, transbordava agora com tanta intensidade, tanto lamento que mal podia conter os soluços. Muitos foram os questionamentos que se fazia enquanto tentava entender o que acontecia. Como poderia ser tão cega e não ver que sua melhor amiga gostava de seu príncipe? Porque se sentia assim? Essa tristeza é só por ele ou por tudo? Pensava enquanto as lágrimas desciam pelo rosto, o que lembrava uma santa. Horas depois

lembrou que seus familiares deveriam estar preocupados, já passava da hora de estar em casa como de costume. Foi para casa com os olhos inchados. Quando chegou em casa não conversou com ninguém e subiu direto para seu quarto onde dormiu durante toda à tarde. A mãe preocupada foi conversar com a filha que resistiu muito a abrir o coração. O que acontece minha filha? Você está me deixando assustada. Dizia a mãe preocupada.. É o Johnny, mãe. Falou por fim. Brigou com o namorado? Que namorado? Aspirante a

paquera! Minha filha, na sua idade isso é bem comum… Sempre pra senhora tudo é bem comum, pra você também foi assim? Tudo o que idealizou e sonhou não deram certo? Sempre sonhou em vão? Sentiu-se sozinha no mundo, abandonada por todos? Eu não te abandonei, estou aqui…

-

Preciso ficar sozinha, sei que isso vai passar. Me deixe pensar um pouco.

-

Se quiser, estou aqui para te ouvir, já que não sou capaz de entendê-la.

-

Me deixe sozinha, por favor.

Os antidepressivos e calmantes não faziam mais efeito, Clarisse olhava para eles e sentia nojo de tanta química impotente diante de si. O espelho denunciava toda sua tristeza, os olhos vermelhos e cansados de tanto chorar e nada mudava, a vida continuava. O carteiro continuava entregando as cartas sempre no mesmo horário, sua mãe sempre ia ao salão exatamente às nove horas, todos os dias. Tudo estava normal e continuaria normal com Clarisse ou sem Clarisse. Mirando seu próprio olhar desfalecido no espelho ela diz a si mesma: Não queria te ver assim – Quero a tua força como era antes! E de nada vale fugir e não sentir mais nada...

Percebeu que suas palavras de nada valiam para aquele corpo inerte e incapaz de acreditar. Clarisse trancada no banheiro fazia

marcas no seu corpo com seu pequeno canivete, deitada no canto seus tornozelos sangram e a dor é menor do que parece quando ela se corta ela se esquece que a dor que sente é tão infame diante do vazio que a envolve. O chão manchado de vermelho lembra as rosas, a paixão que nunca viveu a alegria que nunca teve. O irmão insiste em bater na porta e o som das batidas soa longe, Clarisse não quer voltar, não quer viver... Clarisse sabe que a loucura esta presente Clara! Grita o irmão desesperado tentado levanta-la do chão. O que você está fazendo? Mãe! Pelo amor de Deus venha aqui, me ajuda... Clarisse! O que aconteceu, minha filha fala comigo! Chame um médico rápido! Mãe... Estou bem... Fala com a voz fraca. Nada existe para mim, não tente você não sabe e não

entende...

Ela sente a essência estranha do que é morrer, mas esse vazio ela conhece muito bem. De volta do hospital, abatida, Clarisse não tem mais ilusões de ser feliz. Seus ossos doem e seu coração sangra... As lágrimas banham seu rosto e uma sensação de não estar ali e sim muito longe. Seu corpo formiga. A mente confusa, nada tem mais sentido... Clarisse ficou de molho durante alguns dias devido à imposição do pai teve que freqüentar um psiquiatra e devagar tudo começou a voltar ao normal. Saiu para passear na rua como era de costume, durante o passeio pensava na vida. “Não sei o porquê me abalar tanto assim, minha vida já é uma merda há muito tempo e agora a diferença é que o cara que eu gostava, ou ainda gosto, porque essas coisas de amor não somem assim num tapa, não gosta de mim. Isso eu já podia prever, se não fosse a Marina poderia ser outra, afinal a escolhida, não seria eu mesma”. ... João Roberto, o nosso Johnny, era o maioral e todas as garotas do bairro se interessavam por ele, principalmente quando ele pegava o violão. Ele olharia pra uma

menina tímida e carrancuda como Clarisse? Era muita pretensão de sua parte almejar um tipo daqueles, Marina sim era mais o tipo dele: bonita e desinibida. Também nisso pensava Clarisse enquanto se olhava no espelho do banheiro. Observou os contornos do seu rosto, a cor amarelada de sua pela e viu no fundo de seus olhos uma tristeza sem fim. Seus cabelos, apesar de sedosos, estavam sem vida e seus lábios, sem cor. Tirou a roupa olhou para seu corpo, não era feia. O que havia de errado, afinal? Resolveu tomar um pouquinho de sol, já que os comprimidos não estavam resolvendo. Encontrou Maurício que a chamou para conversar. Ela compartilhou um pouco do que sentia e ele não teve dúvida em lhe oferecer uma “viagem”. Clara recusou, não era chegada nesse tipo de droga, mas aceitou um copo de vinho e foram para seu apartamento. O local era bem decorado, com vários lustres, bem aconchegante. As cortinas vermelhas e o piso bege em contraste com as poltronas de madeira e paredes pintadas com nuances de pasteis. Maurício morava sozinho, desde os 16 anos. Seus pais moravam fora do país e não tinha irmãos. Que coincidência, nesta mesma sala, provavelmente eles se

abraçaram e se beijaram e sabe lá o que mais fizeram. Disse Clarisse. Não pense nisso agora, fica se magoando a toa, tente aceitar que você perdeu, mas só desta vez, porque irá ganhar muitas outras. Sai pra lá com esse papo de jacaré, quem não te conhece que te

compre! O que é isso Clara? Eu estou te dando o maior apoio e não estou interessado em me aproveitar do seu momento frágil… Ninguém se interessa… E só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção. Você é uma garota muito bonita e tenho certeza que muitas pessoas gostariam de estar com você, mas o que dificulta é essa distância que você mantém das pessoas, por que

você é tão sozinha? Com tanto dinheiro poderia comprar amigos. Tem coisas que não se compram, se comprassem meus pais já teriam feito. Tem certeza que você gosta desse tal? Pior que sim, achei que depois dessa, eu desistiria, mas ele vive em meus pensamentos. Bem que

poderia ser você, que está aqui ao meu lado, bem pertinho. A essa altura o vinho já fazia o seu efeito, se deixando levar pelas palavras acertadas de Maurício, ela o beijou, sonhando que beijava Johnny. Maurício preferiu não interromper a cena, mas sabia que isso ia pesar depois, ele conhecia as mulheres e sabia que Clarisse se arrependeria amargamente em ceder aos seus carinhos quando estivesse sóbria novamente, em contra tempo, se recusasse ela se sentiria pior ainda, uma vez que achava que não era uma mulher atrativa aos olhos masculinos, o que não era verdade, bem sabia Maurício.

... Tudo pronto para a festa de aniversário de Clarisse, sua mãe não esqueceu nenhum detalhe. A casa fora decorada por um grande nome do meio. Logo na entrada um tapete vermelho, duas pessoas recepcionavam os convidados. Os lustres da casa foram trocados e havia mais iluminação nas peças decorativas e estátuas das três salas de estar. A escada que dava acesso ao quarto de Clarisse foi completamente decorada e iluminada por holofotes que fizeram brilhar seu sorriso enquanto descia para festa. Os convidados pararam para vê-la descer. Uma música de fundo a fez sentir-se envergonhada. Não via outro jeito a não ser descer logo e cumprimentar os que estavam a sua espera. Apesar de não está muito contente, mas mantém um sorriso frio no rosto, Maurício desce ao seu lado. Logo depois chegaram Marina e Johnny, Maurício olhou para Clarisse com receio que ela ficasse ainda mais magoada. Tudo bem, Maurício eu disse a ela que viesse afinal é uma bobagem, se ele gosta dela, o que posso fazer?

-

Você que manda tá bem.

Depois chegou Eduardo que estudava na mesma escola que Clarisse era mais chegada de Maurício, trouxe a namorada, Mônica aparentemente bem mais velha que ele. Ela usava um vestido estilo hippie e uma maquiagem exagerada. Clarisse pensava como um cara tão boçal e infantil poderia estar namorando uma mulher daquelas. A vida nos prepara cada uma mesmo. Para todo mundo existia um par, menos para ela. A festa rolava solta e corria tudo bem. Johnny foi conversar com Clarisse, no jardim em frente da piscina. Olá. Parabéns por essa festa

maravilhosa. Disse ele tentando puxar assunto. Parabenize minha mãe, ela que planejou tudo. Como você está? Indo… Eu queria pedir desculpas pelo aconteceu, Marina me contou tudo e sinto muito…

-

Não

precisa

dizer

nada,

não

agüento mais essa mesma história de coitada. Eu gosto de você! Só isso! Não é grave, vai sarar! Confesso que durante algum tempo me senti atraído por você, talvez se tivéssemos chance de nos conhecer melhor antes de tudo, mas isso aconteceu com a Marina, eu… não sei o que dizer. Então não diga nada, eu me

apaixono todo dia, sempre pela pessoa errada. Ele sorriu e disse: - Eu gosto de você também. É isso, vou pra festa. Amigos? Que idiotice! Amigos.

Seu coração estava esmagado, pois sentiu que poderia ter havido uma história, mas por algum desígnio dos céus, não houve. O melhor é beber um vinho. Subiu para o seu quarto com uma garrafa, logo depois chegou Maurício, estava muito alegre e lhe propôs

que dançassem. Eles curtiram muito a noite, mas ainda era pouco para Clarisse. Ela sentou na cama e passou a observar os móveis de seu quarto. Objetos que sabiam de tudo que se passava seu guarda roupas cheio de etiquetas famosas e fotos do seu cantor preferido em todas as poses, inclusive autografados. Seu pai havia conseguido em uma de suas viagens a Londres. Maurício a puxou pela mão. Abraçou sua cintura carinhosamente, procurou seus lábios. Brincou com seu sorriso tímido. Feche os olhos e imagine que está voando pela noite, subindo para o céu, em direção ao espaço... Bem alto... Mais alto. Cuidado desvie das estrelas, vamos dar uma volta por trás da lua. Você é livre para sentir o que quiser. Dizia Maurício enquanto dançava Clarisse. Olha! Maurício um cometa! Ufa! Esse passou perto... Você é um cara legal. Diz Clarisse. Você que é uma mulher fascinante. de rosto colado com

Os lábios de Maurício tocaram de leve aquela boca macia e carente de atenção e carinho. No seu mundo interior ela pensava por que seu coração não poderia se apaixonar por ele... Abraçado à Clarisse, Maurício olha pela janela e observa Johnny, sozinho com um copo na mão, olhando em direção à janela. Com a mão Maurício puxa a cortina com força, fechando-a. Deixando João Roberto fora dessa história. Agora era só ele e Clarisse. Eles também tinham contas a acertar. ...

Passaram-se os dias e novamente a tristeza escorria pelos poros da pele de Clarisse como fosse suor e, mesmo com toda a motivação de Maurício, ainda assim não dava mostra que poderia melhorar. Foi quando experimentou um baseado, e não sentiu nada, protestou que era uma propaganda enganosa. Que esse fuminho de nada adiantava e foi para sua garrafa de vinho. Parece cocaína, mas é só tristeza. A vontade de viver esvaia-se pelos poros e o olhar parava no infinito.... Johnny... Vida... Morte... Clarisse não compreende porque se

sente assim, não é mais ninguém, se perde num abismo aberto pelo meu próprio espírito, se pudesse gritar meu grito acordaria a vizinhança inteira. A noite envolve a cidade e assim Clarisse adormece e sonha, sonha com os lindos jardins. ... Na zona leste da cidade uma outra realidade acontecia, João de Santo Cristo cansado de tentar ser “correto” fica indignado com a hipocrisia do governo e resolve mostrar seu poder. Chama todos seus subordinados e os orienta a invadir a casa de um certo político que não havia cumprido com o prometido, e mostrassem para sua família que, apesar de tudo, ele era piedoso, <Não matem, só assustem! Depois me tragam ele.>. Como vai, senhor deputado? Precisamos conversar, não teremos negócios se a minha família estiver envolvida nisso. O que? Agora é você que impõe as regras? Vamos conversar…

-

Não é assim que eu costumo trabalhar. Você disse que eu teria cem mil na mão assim que a entrega fosse feita, e daí?

-

Me dê um prazo de uma semana… O combinado foi em seguida da entrega. Não tem papo, eu tenho palavra e além do mais você tem esse valor na poupança de seu filho ou muito mais que isso. Sua vida pra mim não vale nada, você faz mais mal à sociedade que meu bando todo, cortem a orelha!

-

Não!!! Esperem! O senhor deputado tem um carro importado muito legal, não é mesmo?

-

Sim, é seu. Por favor, me soltem. O carro é seu.

-

Tem vinte e quatro horas para transferir esse carro para um nome

que vou te passar se não irá perder mais que uma orelha. João, conhecido como “o Santo Cristo”, no submundo do crime comandava o tráfico de drogas da cidade, mas tomava o cuidado de tratar somente com quem tinha dinheiro, nada de pobre e viciado louco por um pouco de pó, que não sabem quanto vale o dinheiro, porque o pó pensa por eles. Chegam Onofre e Expedito, mais conhecidos como Lampião e Mata Rato. Eles têm um bom negócio: seqüestro. Embora “o Santo Cristo” não fosse adepto do seqüestro não descartou também essa hipótese, porque precisava pagar os fornecedores e isso poderia lhe custar a vida, então que seja a vida do outro. Tudo já estava planejado, aconteceria na manhã seguinte, quando a filha da vítima sair da escola. Ela está sempre sozinha. Se houver alguma falha, não sou eu que vou sofrer. Por isso pensem bem antes de começar e se

começar temos que ir até o fim. Falou “o Santo Cristo”.

-

Está tudo certo não tem como dar errado. A família não tem

segurança.

Clarisse sai da escola e nesse dia não encontra Maurício que tem outras coisas para fazer. Vai caminhando pela rua e pensando como dará fim a sua pouca vida, já que encher a cara todo fim de semana não é mais o suficiente. Pensou em uns comprimidos ou talvez asfixia por inalação de gás, sem dor. Assim que atravessou a rua uma caminhonete pára na frente dela e do veículo saem dois rapazes aparentemente querendo uma informação, ela espera para saber o que vão perguntar e nisso a prendem e a jogam dentro da caminhonete e saem sem que ninguém os veja. Por um instante o desabar sobre sua cabeça, nunca experimentara antes seu coração, a essa altura duzentos batimentos. mundo pareceu e um temor que tomou conta de já na marca dos

A garota ficou quieta enquanto os rapazes envolviam seu rosto em um pano, limpo e com cheiro agradável. Rodaram por uns trinta minutos, eles nada falavam, faziam sinais, ela podia perceber que se

movimentavam e soltavam alguns ruídos pela boca que não dava para compreender. O carro parou, os dois desceram e outros entraram e permaneceram calados. A viagem durou mais uns trinta minutos até que chegaram ao cativeiro. Clarisse desceu e percebeu que o lugar estava escuro, entrou pela casa sendo orientada pelos seqüestradores, foi abandonada em um quarto. Sentou-se no chão e começou a chorar. A maior dúvida era sobre o que fariam a ela. Nunca imaginou que isso aconteceria. Como seus pais receberiam a notícia? Como reagiriam? Ela não conseguia imaginar que sentimentos teriam com o seu desaparecimento, a mãe morreria com um escândalo desses, ela sempre critica o povo brasileiro pela falta de educação, pelo banditismo, e não pára para pensar que somente cinco por cento da população tem acesso ao conforto que ela tem hoje. O pai nunca tirou umas férias, trabalha de manhã à noite, é formado em Direito e Administração e há dez anos tem uma empresa de importação. Fala inglês, espanhol, francês e alemão. É imprescindível ao seu trabalho. Ele sempre deixou a educação dos dois filhos por parte da esposa. Agora, terá que perder tudo o que conseguiu para tirar a filha das mãos dos seqüestradores. Ele sempre diz que é bom ter

um pouco de dinheiro guardado, para uma emergência. Agora era uma emergência.

Horas depois… Januário de Assis recebe um telefonema estranho, uma voz masculina sussurra do outro lado da linha, ele desliga sem dar muita importância, pergunta à secretária quem havia ligado, ela responde que é da parte de sua filha Clarisse. Ele fica intrigado. Momentos depois o telefone toca novamente, Januário atende. Fala, Janú! Quem está falando? Vou ser bem breve, sua filha está comigo e para ela ficar bem preciso que vá pra casa agora, falô! Agora! Januário nem teve tempo de perguntar mais alguma coisa e a linha caiu. Filha? Bem? O que será que está acontecendo? Ligou imediatamente para casa e a esposa não sabia de Clara, informou que saiu pela manhã para o colégio e não havia chegado ainda. Ele perguntou se ela foi de carro e a mãe disse que não. Ela sempre ia a pé. Ele orienta a esposa a ligar para os amigos de Clara para

saber se ela está com eles, diz para não receber ninguém em casa e aguardar que ele já está indo. Assustado pega suas coisas e ruma para casa a fim de descobrir o que aconteceu com Clarisse. Assim que chega a casa ele percebe na caixa de correspondência, uma carta. Apanha a carta e a abre desesperadamente, achando que pode ser alguma coisa a respeito da ligação e estava certo. Leu um mosaico de palavras coladas que orientavam a não informar nada à polícia e que o valor do resgate era acessível a ele. Passaram a noite apreensivos e de olho no telefone, mas o que tocou foi o telefone celular. No visor do aparelho um número de outro celular. Senhor Januário, o valor do resgate pela sua filha será uma liberação para uma carga que vem do Cairo, amanhã à noite. O navio já está rodeando a costa Brasileira e

atracará amanhã no porto e tem que ser atendido por sua companhia. Sei

que pode fazer isso sem levantar suspeita. Mas minha filha, como ela está? Por enquanto bem, não temos

intenção de maltratar ninguém, caso o senhor cumpra com o combinado. Tem a minha palavra. (Risos)! E seu eu não conseguir fazer essa liberação? (Risos) Sua filha responderá por sua incompetência. Desligou. Eles querem que o pai de Clarisse libere um carregamento cheio de drogas. Assim que esse navio estiver de volta ao Oriente sua filha será liberada. Januário fica apreensivo, não será nada fácil liberar um navio sem a interferência de outras pessoas, como fará? Tem menos de vinte e quatro horas para pensar. Clarisse está cansada de chorar e fica quieta com muito medo, embora em nenhum momento ela fosse mal tratada pelos seqüestradores, não havia retirado o pano que

envolvia sua cabeça e por estar com as mãos e os pés amarrados, se encolheu mais ainda no canto, onde a largaram. Horas depois uma mulher entrou no quarto e retirou o capuz do seu rosto, ela estava com uma máscara e nada falou, apenas deixou uma jarra de água próxima à Clarisse e saiu. O quarto estava todo bagunçado, havia coisas velhas entocadas pelos cantos e um grande roupeiro em frente à única janela, a cortina era escura o que deixava pouca luminosidade no ambiente. À sua direita, uns acolchoados pelo chão que lembravam uma cama, logo compreendeu que dormiria ali. Passou o dia todo neste quarto, mais tarde se aproximou dos cobertores que estavam no chão e deitou toda encolhida, porém pouco conseguiu dormir. Logo pela manhã a mulher voltou e desta vez disse algumas palavras, a chamou de princesa e disse que se continuasse boa moça tudo ficaria bem. Deixou um pão com margarina e um copo de café frio e saiu. A barriga de Clarisse roncava de fome. Pegou com dificuldade o pão e tomou o café com muita satisfação. Pensou que realmente quando as pessoas passam fome são capazes de comer qualquer coisa. Na casa de Clarisse todos estavam nervosos com a situação e sua mãe precisou

de cuidados médicos, Maurício não saia de perto dela, estava aflito por notícias de Clarisse. O pai de Clarisse disse que todos estavam proibidos de entrar em contato com a polícia e isso deixava o clima ainda mais tenso. Marina que nada sabia, ficou intrigada com o sumiço da amiga e resolveu visitá-la, foi recebida pela empregada que lhe disse que Clara fizera uma viagem de urgência à Europa e não sabia quando iria voltar, mesmo achando estranha aquela desculpa foi para casa sem desconfiar de nada. Quando se encontrou com Johnny, contou o que soubera e este também achou estranho que ela não tivesse falado nada a ninguém. Do outro lado da cidade, Santo Cristo dá ordens aos seus comparsas e fala com Lampião: Como foi a operação? Até agora está tudo em cima, assim que a mercadoria estiver em nossas mãos soltaremos a menina.

Respondeu Lampião. É gostosa? Nem percebi.

-

Estava nervoso, não é? Pra não perceber. Retrucou Santo Cristo desconfiado.

-

Normal, ela é normal nem dá pra dizer que é rica.

-

Não é mesmo, o pai dela que me interessa. Se tudo correr bem na semana que vem ninguém me

segura. País hipócrita esse. É uma questão de educação, ou melhor, de falta de educação. Clarisse está mais calma, pensa como será o desfecho desse seqüestro e ainda teme o que pode acontecer. Ela não tenta fugir, acha que isso é pior, por outro lado pensa na sua vida e nas desilusões que tivera e, ao contrário do que acontece, não se arrependeu das atitudes que teve e ainda sente vontade de morrer. Sua vida não tem sentido, um vazio invade sua alma. Pensa em Johnny, será que ele se importava com seu desaparecimento? Ela não entendia porque sentia tanta paixão por uma pessoa que nem a olhava, que nem teve algum contato, entre seus devaneios ouviu pessoas chegando e seu coração bateu forte.

Um homem de estatura mediana com uma touca de motoqueiro entra no quarto e tira algumas fotos de Clara que se defende dos flashes, ele se irrita e dá um tapa na cara dela e manda que fique quieta. Depois ele volta e fica todo o tempo ao lado da moça. Tenta conversar, mas ela não dá atenção e leva mais alguns bofetes. Ele começa a assediá-la e tenta violentá-la. Clarisse grita. Ele amarra sua boca com um pedaço de pano sujo e a joga de um lado para o outro. Toda amarrada ela não tem como ficar em pé e cai batendo várias vezes à cabeça. O homem fala besteiras e a agarra novamente tentando tirar a sua roupa, nesse momento entra outro homem no quarto e joga o agressor para longe dela. Bate nele com tanta força, que ela sente dó. Pára com isso imbecil! Grita o homem. Qual é a tua, cara? É só uma vagabunda… Assim que ouviu isso o homem se aproxima do outro e dá um soco que o faz cair desfalecido ao lado de Clarisse que está em completo desespero.

-

Isso é pra você aprender a respeitar as pessoas.

A mulher entrou e começou a brigar com o defensor da menina, ele não liga para seus gritos e joga água no rosto do homem caído que desperta ainda meio tonto. O que aconteceu? O que te deu? Cara, de me bater assim? Você é um imbecil, quando eu estou no comando às coisas devem sair do meu jeito. Se você é doente vá se curar. Não tem vergonha de se aproveitar indefesa”? Do que você está falando? de uma “mocinha

Enlouqueceu? Reclama indignado. Se falar mais uma palavra, eu te mato! Homens como você não fazem falta. Não tem necessidade de molestar a menina. E suma daqui, antes que…

A mulher continuou a falar e o protetor de Clarisse também a mandou embora. Ficaram no quarto apenas o refém e seu guardião. - Desculpe pelo meu amigo, moça. Clarisse se sentiu segura, pois aquele homem que a defendeu livrando do ataque insano do outro. As palavras dele se repetiam na mente dela e isso de alguma forma a deixava fascinada. Passou a observá-lo, tinha a pele negra e seus olhos eram castanhos claros, puxando para a cor de mel. Seu corpo era forte e bem desenhado. As roupas que vestia eram de boa marca o que denunciava que não era um pobre. E sim uma pessoa com um bom gosto. Ela percebeu que no antebraço havia uma tatuagem, um escorpião. E aí mocinha, está confortável? É lógico que isso nem chega perto de seu quarto. Logo você vai poder voltar pra casa, se seu pai cooperar, é claro. Você falou com ele? Pergunta ela num impulso. Falei e fique tranqüila ele falou que ele vai cooperar.

-

Obrigada pelo que fez… disse ela, baixinho.

-

Não foi nada, não gosto dessas atitudes, sou bandido, não sou doente. Há pessoas que merecem ser tratadas assim outras não. Pelo que fiquei sabendo você se

comportou muito bem, não gritou, não tentou fugir, não dá trabalho nenhum. Só quero sair daqui.

Ele riu e ficou quieto. Mais tarde ele foi embora e a mulher voltou e ficou a noite toda. Ela tenta puxar conversa, mas a mulher não lhe dá muito papo. Clara dorme. Santo Cristo vai para casa de Maria Lúcia, uma ex-prostituta que Santo havia retirado das ruas. Já estavam juntos há quase um ano. Ele lhe pusera em uma casa pequena, mas confortável, bem diferente da qual estava acostumada a viver. Desde que chegou do interior comeu o pão que o diabo amassou para sobreviver na cidade grande. No início seu sonho era ser atriz e ficar muito

famosa, porém a realidade lhe mostrou outra cara e por isso foi se prostituir para ganhar a vida. Nessas idas e vindas da vida encontrou com Santo em uma noite que ele mal podia caminhar de tão bêbado que estava ela o levou para sua casa e cuidou dele até que melhorasse, Santo ficou interessado nela pela sua beleza e pelo seu caráter de não tê-lo roubado como faria qualquer outra, no entanto não desconfiou que ela assim o fizesse dessa forma, estrategicamente para que ele assim pensasse. Santo Cristo se apaixonou por Maria Lúcia. Ela, por sua vez tinha personalidade forte e era determinada. Não estava apaixonada por Santo Cristo, apenas se interessava em seu dinheiro. Ele sendo um homem bonito e atraente não era difícil de conviver. Maria Lúcia havia enfrentado muitas situações difíceis em sua profissão, agora estava no paraíso. Ela ainda servia como secretária para sua segunda personalidade, a do mundo do crime, do tráfico de drogas. Vem cá minha safada! Disse ele assim que chegou. Nem vem que não quero conversa. Quero sair de casa, quero viver.

-

Você não tem o que quer? Não quero você em companhia daquela gente, você é minha e aqui é que deve ficar.

-

Não agüento mais, não é justo ficar aqui trancada!

-

Tá bem pode sair, mas antes vai ter que trepar comigo!!

Ela não era fiel a Santo, saindo uma vez por outra, com seus amigos. Apesar de Santo desconfiar nunca lhe cobrava nada sobre isso, mas se algum dia visse, a mataria, com certeza. Apesar de traficar drogas, Santo nunca fora um viciado, seu único vício era Maria Lúcia. Por ela fazia qualquer coisa, embora não deixasse isso transparecer. Experiente já havia percebido a adoração de João por ela e o usava, para ter uma vida mais confortável. Dinheiro, carros, jantares e tudo mais que ele poderia oferecer. Por outro lado ele passou a sentir um amor doentio por ela e essa “nobreza” , às vezes lhe saia caro demais. Santo Cristo era rico, mas tinha seus ideais e queria consertar o mundo. Como não

conseguiu resolveu fazer o mundo provar do próprio veneno e decidiu viver do comércio de drogas. Desde a infância, ele fora à frente do seu tempo. Sabia o que queira ser, mas a vida não lhe deu muita opção, então lutou com as armas que tinha. ... Clarisse estava cansada e não agüentava mais seu próprio cheiro. Eram quatro dias sem tomar banho, mal se alimentava e pra ir ao banheiro era o maior sacrifício, pois estava com as mãos amarradas. Quando a mulher entrava no cativeiro era possível usar o banheiro. Santo Cristo chegou para cuidar da moça que reclamou sobre a falta de banho. Então ele providenciou uma banheira, dessas antigas e bem pesada, pediu aos comparsas que levassem até o cativeiro. Ele próprio comprou umas roupas para Clara. Uma blusa branca com babados de renda, uma saia igualmente branca e rendada. Para ele esse estilo combinava com a ela. Num fogareiro, ele colocou duas panelas de água para esquentar e preparou, cuidadosamente o banho para ela. Ta aí moça, o seu banho. Pode tomar agora.

-

Aqui na sua frente? Perguntou ela surpresa.

-

Aqui, na minha frente. Respondeu ele com um olhar cínico.

Ele desamarrou as mãos dela e sentouse junto à porta, sempre com o revólver a mão, ficou observando-a. Um pouco tímida ela tirou a blusa e depois a calça. Muito devagar, de uma maneira normal, mas para Santo Cristo era muito sensual. Apenas de calcinha e sutiã entrou na banheira. A água estava numa temperatura agradável e seu corpo foi relaxando, ela se deixou envolver pelo prazer do banho e embaixo da água retirou o sutiã e a calcinha. Ficou ali por vinte minutos se esfregando e curtindo o banho tão desejado. Ela percebeu que ele a olhava com desejo e de repente resolveu fazer o seu jogo, deslizava os dedos pelos braços, depois pelo pescoço. Fechava os olhos e passava mão por seu corpo. Começou a sentir prazer com a cena e olhava para Santo Cristo com o olhar fixo e sem vergonha. Ela lia em seus olhos que vê-la banhar-se lhe dava prazer.

Ela levantou e pediu a toalha, Santo observou seu corpo nu, sua curvas tão bem desenhadas, a espuma escorrendo pela pele, ela não parecia estar tímida, estava à vontade. Ele entregou-lhe a toalha. Ela começou, devagar, a passar a toalha pelo corpo com movimentos sensuais, por um instante Santo imaginou que ela queria seduzi-lo. Manteve-se imóvel sem deixar transparecer o prazer que sentia ao vê-la ali sem roupas. Ela vestiu as peças de roupa que Santo havia comprado. Com o olhar sereno, ela se aproximou de Santo e ofereceu as mãos para que ele a amarrasse. Isso o deixou confuso. Ele a amarrou e decidiu passar a noite ali, olhando para aquele anjo a sua frente. Depois daquele banho seguido de alguma comida, Clara pegou pesado no sono, estava tranqüila, antes de adormecer ainda pensou nos últimos acontecimentos e percebeu que não tinha medo de Santo Cristo, alguma coisa nele lhe era confiável. As circunstâncias eram difíceis, mas sentia-se segura ao lado dele, talvez porque não permitia que ninguém se aproximasse dela. E isso era a melhor coisa que poderia querer naquela situação. Clarisse despertou com seu guardião a olhando. Bom dia, princesa! Disse ele.

-

Quando vou sair daqui? Em breve! Na verdade eu queria morrer

mesmo, só que sem sofrer. Disse ela num desabafo. Não me diga, uma pobre moça rica, com problemas familiares ou o namorado que te deu um fora? Os dois! É uma pena que nos conhecemos nessas circunstâncias, mas se

tivéssemos outra oportunidade eu lhe daria aulas de como viver e ser feliz. Você é feliz? Vivo bem. Então você não é feliz. Você vive bem, mas não é feliz. Não importa pra você o que eu sinto… Você não sabe se importa! Falou ela cortando sua fala.

-

Você tem razão. O importante nesse momento é que seu pai foi um bom negociador, só isso que importa!

-

Você não precisa disso pra viver, dá pra ver que você é bem de vida. O que te leva a seqüestrar as

pessoas? Essa é uma longa história que não tem nem cabimento te contar. E como dizia o poeta: Depois de vinte anos na escola não é difícil aprender todas as manhas do jogo sujo…

Algum tempo depois:

-

Qual é o seu problema? Por que quer morrer?

-

Não sei o porquê, acho que não tenho um motivo pra viver.

-

Você usa drogas? Não! Não sou a fim. Prefiro morrer de maneira rápida, não aos poucos.

-

Os ricos são assim mesmo, se tivessem que batalhar na vida como muitos fazem, esses problemas

desapareceriam. A minha mãe é a principal

responsável pelo meu sofrimento, ela sempre quer fazer as coisas por mim, essas coisas de grã-fino, você sabe? Nunca diga que a sua mãe é responsável pela suas atitudes,

você já é grande o suficiente para pensar sozinha. Você está na

verdade passando para sua mãe os seus próprios erros, como você não vê isso? Porque as pessoas culpam seus pais por tudo? Isso é absurdo. E sua mãe? Ela sempre foi

compreensiva com você? Santo Cristo parou o olhar e sua fisionomia ficou séria, parecia não gostar da pergunta, se manteve quieto.

-

E daí sua mãe te compreende ou não? Insistiu ela.

-

Minha mãe teve que morrer para eu estar aqui! Ele falou e ficou quieto.

Ela permaneceu calada, notou que tocara num assunto que não o agradava e não queria aborrecer seu protetor. Ela o observava não deixando escapar nenhum detalhe: a cor dos olhos, seus cabelos pareciam ser cacheados ou longos, não dava para saber por causa da touca de motoqueiro que usava, o seu corpo era bonito, parecia ter as pernas grossas, seu peito era musculoso. No momento que ele se virou para apanhar um copo de água na mesa próximo ao roupeiro, ela pode observar melhor a tatuagem no formato de um escorpião no antebraço, só que na parte inferior, diferente das maiorias das tatuagens que ficam a mostra. O celular tocou e Santo atendeu. Trocou algumas palavras e logo saiu, disse apenas: “- Até mais tarde, se comporte!”. Clarisse ficou por horas sozinha no seu cativeiro, pensava na família, nos seus amigos e se surpreendeu que não pensasse mais em Johnny e, quando o fez, sentiu que não o amava da mesma forma. Tudo que acontecia

neste momento na sua vida a fez perceber quanto eram pequenos seus problemas. Embora estivesse mais segura que nada aconteceria de ruim com ela, ainda assim, temia uma surpresa. E se seu pai não pagasse resgate? Tudo poderia mudar… Afastou da cabeça os pensamentos ruins. Deitou-se no que seria sua cama e adormeceu. Durante o sono, teve um sonho. Ela andava por uma estrada deserta, o céu estava avermelhado e o sol parecia uma enorme bola avermelhada, andou alguns metros e viu seu pai, correu em sua direção e o abraçou, ele lhe sorriu e perguntou como estava, ela respondeu que bem e nesse mesmo instante já estavam em sua casa, entrou pela porta e a casa estava vazia, sem móveis e sem ninguém. Ela sentiu a solidão novamente e começou a chorar, olhou pela janela da sala e viu Maurício andando de bicicleta, ele parecia feliz. Acordou já era noite e continuava sozinha. Seu estômago começou a reclamar. ...

Januário suava frio, passou o portão do porto, andava apressado, pensava no que diria ao Cipriano, caso lhe questionasse sobre a carga. Entrou na sala pequena onde havia

uma mesa cheia de papéis espalhados, pensou como é fácil se perder ali algum papel importante. Aguardou alguns minutos e logo um senhor gordo e carrancudo veio lhe atender, diferente de outras vezes, viera pessoalmente para solicitar a liberação da carga vinda da Oriente. Que belo dia faz hoje, Januário! Disse Cipriano tentando dar início a conversa. Um belo dia. Respondeu com um sorriso. Vamos ao que interessa, trouxe a papelada da importadora? Sim, está toda aqui. Pode conferir. Fez uma expressão de medo. Pois bem, só preciso da autorização da Saúde para a liberação da carga, poderia providenciá-la? Claro. Respondeu satisfeito

Januário, sentindo que passara no pior teste de sua vida.

A autorização para a liberação da carga já estava pronta. Santo tinha muitos políticos na mão e usava-os para esses fins. Enquanto saia do porto, o pai de Clarisse pensava que mais dois dias e estaria livre desse pesadelo. Pensava também em deixar esse comércio e inventar outra coisa. Quem sabe se passasse mais tempo ao lado da família. Agora que a filha se encontrava longe, percebeu o quanto estava longe dela, se deu conta que não a viu crescer e o mesmo acontecia com Júnior seu filho mais novo. Ao chegar a casa, soube que a esposa passara mal e estava sendo atendida pelo médico da família. Januário inventou uma história para justificar o estado da esposa e o médico lhe orientou a interná-la por alguns dias para que pudesse fazer alguns exames mais detalhados. Januário preferiu cuidar da esposa em casa para não pôr em risco a vida da filha. Uma semana se passara desde o dia em fora seqüestrada. Clarisse estava com fome e ninguém vinha em seu cativeiro, ela se levantou e sentiu uma tontura, tentou empurrar o roupeiro que estava em frente à janela para receber um pouco de sol, mas não conseguiu. Olhou pela fresta da janela e

percebeu que a casa ficava nos fundos de uma fábrica abandonada, cercada de muros altos, provavelmente era a casa dos caseiros da fábrica e por isso não importaria o quanto gritasse ninguém a ouviria. Testou a porta, estava bem trancada, sentou-se no chão e começou a chorar. Ficar ali sem fazer nada, sozinha, sem comer direito sentia que estava enlouquecendo. A cabeça estava fraca e a tristeza da solidão assolava seu coração amargurado. E se a policia o tivesse matado? Quem saberia que estaria ali? Talvez nunca a encontrassem, ou quando isso acontecesse estaria apenas em ossos. De repente, um desespero a invadiu e começou a gritar: Quero sair daqui! Pelo amor de Deus me tirem daqui! Depois de alguns minutos de choro compulsivo e enfraquecida desmaia no chão. Ao despertar estava nos braços de Santo que tentava colocá-la sobre o que lhe serviu de cama. Meio confusa, perguntou o que estava acontecendo. O que você fez? Parecia morta. Que pretende? Eu preciso de você viva,

senão não me tem valor nenhum! Disse Santo. Estou com muita dor na cabeça, preciso comer alguma coisa… Enquanto Santo lhe preparava um sanduíche, ela pensava nas palavras que saíram, não de sua boca, mas de seu coração. Ela tinha um valor, isto é, um valor comercial. Apenas isso. Ficou sentida e não entendia o porquê desse sentimento. Afinal, por que suas palavras lhe pareciam tão importantes? Clarisse comeu o sanduíche e tomou um copo de suco, parecia agora um bicho do mato, encolhida num canto com medo de tudo. Santo observou a situação em que ela se encontrava e teve pena do seu estado. Apesar de um coração duro, no seu íntimo havia piedade. Ele sabia que não era preciso fazê-la sofrer, estar trancada ali já era um sofrimento. Agora já estava no fim, mais algumas horas e ela seria libertada. Ele sentiu que sua força sumira. Aquela garota de dois dias atrás havia ido embora e o que estava ali era apenas as sobras dela.

Horas depois… Você Santo. O que lhe importa como estou? Quero sair daqui! Quero minha vida de volta! Você não queria se matar? Mudou de idéia? Disse ele provocando-a. Você é um imbecil! Gritou ela e começou a chorar. Você é uma idiota! Disse ele com desprezo. Por causa de pessoas como você é que a sociedade está doente. O que lhe importa? Dinheiro? Pois pra mim o que importa é a liberdade. Você é escravo da sua ambição. Disse ela em um ataque de fúria. Você não sabe o que está dizendo, sua louca! está melhor? Perguntou

-

Não me chame de louca, você é que está me deixando louca. Disse ela revoltada.

-

O que você sabe do mundo? Aquilo que te ensinaram na escola? Bem vinda à realidade, meu bem. Eu vou lhe dizer o que é a sociedade que você defende. Nossas crianças não têm escolas, pessoas morrem de fome todos os dias, morrem por falta de hospitais, morrem nas estradas. Preconceitos, trabalho escravo,

epidemias, o capitalismo sugando nossas almas. Na verdade somos zumbis e não nos damos conta disso. E os que trabalham

honestamente a vida inteira e no final, que direito tem? Enquanto isso as famílias como a sua dormem numa confortável cama e não tem idéia do que é passar fome. Pagam em uma calça o valor que uma

família não tem para gastar num mês em comida. Não tem nenhum peso na consciência. Na verdade, minha querida, são pessoas como você que deixam essa sociedade doente…

Ficaram em silêncio por minutos, então ele continuou. -

alguns

A droga e a depressão são os males do século, já leu sobre isso? Por quê? Por pura falta de amor. Se nos lares tivesse amor, essas coisas não nos ameaçariam. E te digo mais, sabe como esses males nos

chegam? Todos os dias, a todo o momento pela televisão que é

manipulada por uma minoria que sempre manda. A televisão lhe diz o que vestir, como viver, a quem amar, a quem odiar, em quem votar,

como educar seus filhos e tudo que precisa pra ser feliz. Que tal? Você não é feliz? Assista mais televisão. Quem sabe ela lhe diz como. Não temos A como televisão consertar não é o o

mundo.

problema, o ser humano que é! Se não tivesse tantos sentimentos… Cale a boca. Não estou com saco pra falar dessas coisas, só quero saber se você está melhor. Sim. Respondeu.

Santo andava de um lado para o outro do quarto e olhava o celular todo instante, parecia esperar alguma ligação. Enfim o aparelho tocou. Ele falou algumas palavras e em seguida ligou para alguém e pedindo que viesse buscá-lo. Clarisse sentiu que o seu sofrimento chegava ao fim. Troque de roupa. E jogando sobre ela as roupas que usava no dia em que foi seqüestrada. Ela trocou de

roupa e devolveu a que usou a Santo. Eu vou embora? Perguntou ela receosa. Não teve resposta. Santo a olhou e permaneceu calado, ele não queria empolgála, ainda poderia não ser desta vez. Pensou que falara demais e que ela poderia reconhecer sua voz em outra situação, se arrependeu. Poderia vê-la outras vezes, mas agora era impossível, pois seria reconhecido. Santo sentiu por Clarisse um carinho que o incomodava, teve sonhos acordados com a moça. Agora, olhando melhor, pensava como seria bom seu carinho, seu cabelo parecia muito macio, a pele era perfeita, a voz melodiosa. Ela possuía um brilho no olhar, apesar dos problemas pelos quais passava, os quais ele não sabia ao certo. Poderia ajudá-la, talvez se tornassem grandes amigos. Parou de pensar, percebera que viajava nos pensamentos e isto neste momento se tornava perigoso. Do outro lado da cidade os comparsas de Santo Cristo protegiam a carga que acabara de ser entregue. Na casa de Clarisse, seus pais esperavam ansiosos por uma

resposta, um contato. As horas passavam e nada acontecia. Dois homens entraram no quarto e colocaram um capuz na cabeça da moça e a levaram para um carro que ficou longe de onde ela estava. Durante o tempo em que andavam Clarisse pensava no que aconteceria, seria sua liberdade ou a sua morte? De qualquer forma seria libertada. Um súbito desespero tomou conta de seu ser, agora tudo passava pela sua cabeça, ainda porque seu protetor não a acompanhava. Depois de quase uma hora o carro parou e a transferiram para um outro carro, desta vez eles colocaram em seus olhos um adesivo e puseram uns óculos escuros, a jogaram no banco de trás de um carro de passeio. Para sua surpresa, Santo Cristo se encontrava dentro deste veículo. Assim que ouviu a voz dele, seu coração disparou. Agora se sentia mais segura e ficou um pouco mais tranqüila. Mais uma hora de viagem, Clarisse pensava que eles circulavam muito tempo para despistá-la, um seqüestrador não arriscaria dirigir por vias que dão acesso à saída da cidade, pois seria muito perigoso. Enfim, o veículo parou, o lugar parecia deserto, não se ouviam barulhos de pessoas ou de qualquer outro animal. De repente um bem-te-vi cantou perto de onde estavam. Ela

desceu do carro, foi levada para trás do veículo. Santo Cristo abraça-a por trás, com força. Sentiu as batidas do coração dela. Desceu as mãos, contornando a cintura e segurou firme seus quadris. Depois subiu as mãos até bem próximo dos seios. Aproximou a boca perto do ouvido dela e disse: Você está livre! Confesso que a contra gosto… Eu gostaria de poder vê-la novamente, mas sinto que não será possível. Se quiser me ver novamente, utilize a forma convencional: a campainha. Ele sorriu e desamarrou as mãos dela, mas antes de soltá-la, retirou a touca e encostou a boca no pescoço dela, subindo devagar, roçando seu pescoço procurou sua boca, beijando-a. Um beijo ardente que foi retribuído por ela de forma surpreendente. Ela retribuiu o abraço se entregando a magia do momento. Ele voltou a colocar a touca, retirou os óculos que Clara usava e disse para ela seguir em frente e depois que ouvisse o barulho do carro sumir retirasse os adesivos e

seguisse sem olhar para trás. Ela confirmou com um sinal positivo. Assim que não ouviu mais o ronco do motor do carro ela, com cuidado, retirou o adesivo que cerravam seus olhos. Viu tudo embaçado. Saiu pela estrada de chão em direção a uma clareira que havia a sua frente. Aos poucos, recobrou a visão e passou a andar mais rápido. Enquanto caminhava, pensava no beijo que recebera de Santo e sentia-se feliz por isso e pela liberdade. Experimentava agora um sentimento desconhecido e inevitável. O entardecer estava agradável, o sol se punha devagar tingindo o céu de vermelho, ela observava tudo ao seu redor e, ao contrário do que normalmente acontece, não estava com tanta pressa em chegar em casa. O perigo já passara e a liberdade tinha um outro sentido. Ela queria curti-la um pouco mais.

SEGUNDA ESTAÇÃO
No rádio toca uma canção:

“Mudaram as estações e nada mudou Mas eu sei que alguma coisa aconteceu Esta tudo assim tão diferente”
Renato Russo

Afinal as flores abriram e o clima estava mais ameno, o canto dos pássaros anunciava que a primavera chegou. Voltando à realidade, Clarisse se tocou que não veria mais o tal “guardião”. Isso a deixava triste e ao mesmo tempo aliviada, afinal não esqueceria tão cedo o sofrimento que passara. De qualquer forma, aquele encontro mudou sua vida de maneira que lhe deu força para repensá-la e, quem sabe, desistisse de morrer. Assim que Januário viu pela janela um táxi parar em frente a sua casa, reconheceu logo o perfil de sua filha. Neste momento seu coração batia acelerado e aliviado pelo fim do pesadelo. Clarisse foi recebida com festa e algumas pessoas que passavam pela rua estranharam o comportamento da família, sempre tão reservada. A menina estava abatida, cansada e com fome. A mãe não

segurou a emoção de vê-la novamente e chorava sem parar. Seu irmão demonstrou enorme felicidade. Ela não queria nada daquilo, somente ir para o seu quarto, seu refúgio. E, claro, um bom banho de espuma para aliviar as tensões. Na banheira ela saboreava o carinho da água morna em sua pele e brincava com as espumas, sorria e sentia-se feliz. De repente lembrou-se das palavras de Santo Cristo: <Enquanto isso as famílias como a sua dormem numa confortável cama e não tem idéia do que é passar fome. Pagam em uma calça o valor que uma família não tem para gastar num mês em comida. Não tem nenhum peso na consciência. Na verdade minha querida são pessoas como você que deixam essa sociedade doente… >. O sorriso foi sumindo de seu rosto. Ficou observando a pia de mármore que custara caro, para muitos é o valor de uma casa ou um barraco. Observou os vitrais de mosaico que nem tinha idéia de quanto custaram a seu pai. Numa coisa o seqüestrador tinha razão: essas coisas eram banais se pensarmos na realidade de nosso país. Mas, como consertar o mundo? É tarde demais pra se fazer isso e com certeza não será feito sozinho. O seqüestrador também era maléfico para a sociedade, ninguém tem o direito de prender alguém e exigir por isso um

valor. Como também ninguém tem o direito de ganhar o dinheiro que não lhe pertence, como fazem a maioria dos políticos. Se um pobre rouba uma calça numa loja, vai para a cadeia por causa de pouco valor, por outro lado um político famoso compra um apartamento no exterior no valor de um condomínio inteiro com dinheiro de muitas pessoas que precisam dele para comer. Ainda por cima quando é preso tem um tratamento de primeira classe com direito a psiquiatra e tudo… <Isso tudo me dá nojo!> Pensava ela saindo do banho. Marina veio visitá-la, estava desconfiada de seu sumiço. Clarisse não lhe deu detalhes, estava muito cansada para lhe contar tudo que lhe aconteceu e prometeu falar-lhe no dia seguinte. A noite foi repleta de pesadelos e com o sono agitado, de madrugada ela levantou, não suportando mais ficar na cama. O olhar de Santo não lhe saía da mente, sentia vontade de ficar pensando nele como se o conhecesse há muito tempo. Lembrava do beijo que recebera, sentiu que ele a desejava e isso a deixava muito feliz. É como se precisasse disso para se sentir amada, mesmo em condições adversas como essa. Clarisse pegou seu diário e pôs-se a escrever:

A aurora surge no horizonte, tranqüilamente. Preguiçoso, o sol nasce. Seus olhos miram ao longe um vazio. Que sinto? Porque me sinto assim? Porque vivo? Qual o meu objetivo? Todas essas dúvidas e muitas outras salpicavam em sua mente. Para ela, a figura do seu guardião lhe mostrava uma pessoa segura e com uma razão de viver e de fazer justiça com as próprias mãos. Foi ter com o pai para saber qual o valor do resgate. Ele, muito esperto, desconversou e nada disse sobre o valor, afinal sua vida não tem preço. Clarisse se perdia com facilidade em seus pensamentos. Uma mulher ou ainda uma menina? Essa fase de transição a impedia de viver. Que problema teria? A vida estava ali andando, em alguns momentos voando, já não era uma criança e não se sentia uma mulher, embora desconhecesse a força interior que possuía... Aos poucos, a vida voltava ao normal e tinha que voltar à escola. Preparou um bom discurso para as eventuais perguntas. A essa altura todos desconfiavam que algo tinha acontecido, uns diziam que ela descobrira que tinha AIDS, outros diziam que ela tentou se matar e muitas outras coisas. Tudo normal no primeiro dia, sempre com a cara amarrada não deu muita chance para perguntas. Na saída Maurício veio ao seu encontro dizendo

que ligou várias vezes para sua casa e ela nem lhe retornou a ligação. Ela disse que estava cansada. Combinaram de sair no final de semana. Em outra época esse convite a faria feliz por despertar o interesse de um menino, mesmo se tratando de Maurício. Mas, desta vez, porém não sentiu tanta empolgação. Mesmo assim aceitou o convite. No sábado foram a um bar, onde encontraram toda a turma da escola, inclusive Johnny e para surpresa de Clarisse, não estava mais namorando Marina. Era a primeira vez que o encontrava depois de sua saída do cativeiro. Percebeu que seu sentimento por ele também havia mudado. Por um instante sentiu que não era mais a mesma Clarisse de duas semanas atrás. Johnny a olhou de forma diferente e foi falar com ela. Que bom te ver aqui! Disse ele com sorriso sedutor. Às vezes é bom sair um pouquinho. Fiquei sabendo do carro. Teu pai é mais louco que você. Filho de peixe, peixinho é.

-

É meu pai já corria desde quando tinha quatorze anos e ele me incentiva muito. Quer conhecer o meu opala?

-

Assim, de repente? Ri ela. Assim, de repente, eu gostaria de sair daqui e ficar com você.

Clarisse fica tímida com a investida de Johnny, e muda de assunto para não ter que dizer não a ele. Você vai ao arranque amanhã? Pergunta ela meio gaguejando. Vou. E você? Vou também. Quer uma bebida? Quero um vinho, ou melhor, uma cerveja. Vamos sentar ali fora? Está mais fresco e tem menos barulho. Clarisse aceitou seu convite. Ficaram conversando animadamente e tudo parecia

um sonho, ela estar ali ao lado dele, como se fossem grandes amigos. Tentava descobrir porque seus sentimentos mudaram, sentia prazer em estar ali, mas foi muito diferente do que imaginava. De repente, ele não era tudo aquilo que pensava ser. Ele era apenas um motivo para suas angustias. Ele fazia parte de um amor platônico e só assim tinha algum valor. Não tinha a mesma graça de antes, não tinha mais a mesma magia. Marina chegou mais tarde e juntou-se à mesa de Clarisse, Johnny trocou duas palavras e saiu, Maurício passou perto de Johnny, que lhe cochichou alguma coisa no ouvido, depois ele se juntou à Clarisse e Marina. No final da noite os três foram para o apartamento de Maurício, que ofereceu a elas vinho e fumo. Clarisse não quis experimentar e se contentou em encher a cara de vinho. Um brinde à vida! Disse Clarisse. Um brinde ao amor. Disse Maurício. É bom estarmos aqui reunidos, um brinde à amizade! Finalizou Marina. Lembro-me garotinha e do tempo que era

nos

encontrávamos

atrás da churrasqueira da casa do

Vidal, fazíamos reuniões, pactos... Riu Clarisse. Alguns minutos de silencio. Maurício não morava aqui ainda. Bons tempos eram aqueles.

Desabafa Clarisse. Meus pais ainda viviam juntos e brigavam Marina. E hoje ainda brigam? Perguntou Maurício. Hoje eu moro com a minha mãe e meu pai, às vezes, vem nos visitar. Nada como eu, que moro na rua e não tenho ninguém pra me juntos também. Diz

preocupar, nem pra lembrar... Que é isso Maurício, tem a nós... Consola Clarisse. E você, Clarisse?

-

Eu moro com meus pais. Tenho uma família perfeita, por isso que eu bebo. Ri.

O telefone tocou... Maurício atendeu... Tá! ... Não sei... O que você quer que eu faça? ... Deixa pra lá... Amanhã? ... Pode ser... Tá... Tá... Desligou. Maurício fez um ar de mistério e as meninas nem ousaram perguntar quem lhe falava ao telefone, era melhor nem saber. O certo era que seu humor mudou depois do telefonema, alguma coisa lhe incomodara e elas preferiram ir embora. No outro lado da cidade, Johnny desligava o celular e olhava para a lua que brilhava sozinha no céu negro da capital. Sentia o prazer de ter o clima mais original do país. Em poucas cidades a noite era tão seca e agradável, nenhum sinal de chuva. Há dias a natureza fazia chover ao redor como se, por vontade própria, excluísse a cidade toda, nem uma gota de água para irrigar o chão e dar suavidade ao ar que respirava água apenas de uma lágrima que corria pelo rosto de

Johnny... Às vezes ele chorava sem motivo, ou talvez tivesse muitos motivos para chorar, mas não os conhecia. A infância foi cheia de atenção e carinho, agora na adolescência não sabia se era um adulto que brincava de adolescente ou um adolescente que brincava de adulto. Quem vai entender essa vida? Quantas vezes já nos sentimos assim, sozinhos no mundo em meio à uma multidão? É certo que Johnny e Clarisse tinham um sentimento em comum: a solidão. Essa solidão que assola nosso interior e nos leva a agir como dementes e nos lançando aos meios artificiais de sentir felicidade. A manhã de domingo parecia um dia a mais no mundo do nada, uma tremenda dor de cabeça abalava o estado de humor de Clarisse, que nem desceu para o café, tomando um copo de leite no quarto e voltando a deitar. A mãe foi lá para tomar satisfações sobre a bebedeira do dia anterior: O que está acontecendo com você, minha filha? Disse a mãe em tom severo. Nada. É um típico comportamento normal para uma adolescente que quer chamar a atenção. Já

consegui.

Respondeu

ela

provocando uma discussão. Você não tem mais idade para se comportar como uma criança. Não quero mais que beba. Depois de tudo que passamos é melhor não se expor. Por quê? Aonde da vou não não vai se

ninguém

“society”,

preocupe com seu nome. Não é desse tipo de exposição que eu estou falando. Temo que esses seqüestradores voltem a te pegar… Pois eu não tenho medo disso! Você não sabe o que está falando! A senhora nunca se importou antes com isso! Por que agora fica me enchendo o saco? Como não me importo? Pra mim a família sempre foi a principal razão de viver. Não seja injusta!

-

Tá bem, mamãe não serei injusta, mas não seja injusta também e me deixe descansar, não temos o que falar. Não somos acostumadas a isso.

A mãe sai revoltada do quarto da filha, magoada com as afrontas ditas. Sempre procurou ser boa mãe e não deixando faltar nada para seus filhos. Na certa esse comportamento haveria de mudar com o amadurecimento. Os jovens de hoje em dia são tão rebeldes, não compreendem o amor de seus pais, o esforço para mantê-los a salvo do perigo, das drogas, da incompreensão. Pensando assim, a mãe esqueceu logo o assunto. Clarisse vê a chuva banhar os vitrais de seu quarto e um imenso vazio lhe toma o coração. Não compreendia o porquê de tanta solidão, de tanta tristeza... Pensava em seu “guardião”. O que estaria fazendo numa manhã tão triste e cinza. Uma canção toca no rádio:

Veja o sol dessa manhã tão cinza:

A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos. Então me abraça forte e me diz mais uma vez Que já estamos distantes de tudo: Temos nosso próprio tempo.

O telefone toca. Do outro lado da linha Johnny a convida para sair. Clarisse aceita, mas no fundo não esta com vontade de ir ao encontro. Volta a contemplar aquela manhã que refletia seu interior...

Clarisse passeava com Marina no final da tarde, quando esta lhe contou sua decepção com Johnny, na verdade ele só se interessava por sua beleza e, além disso, ele se interessa por homens também, isso que a deixou muito triste. Os meninos só se importam com a beleza, já estão todos enlatados pela mídia, ter uma namorada bonita já é o suficiente, sem contar o sexo, que para eles é mais importante que qualquer coisa. Desabafava Marina com a amiga. Eu também penso assim! Na

verdade, quando me vi apaixonada pelo Johnny e o imaginava uma outra pessoa, agora que me contou sobre vocês estou certa que ele não vale tantas lágrimas derramadas. E o Maurício? Como estão vocês dois? É só amizade, não gosto dele da forma que deveria gostar e, além

disso, tem o fato de que ele sempre tem essas malditas drogas. Isso me deixa com medo. Ora, Clarisse, não seja boba! Um fuminho uma vez ou outra não faz mal a ninguém. Teu pai fuma, não fuma? Fuma. Mas é cigarro normal. Normal? Quando se trata de fumo todos são prejudiciais, a diferença que o cigarro que você diz normal não te leva a uma viagem como o outro, mas é usado com o mesmo fim: Fugir de uma realidade, como a ansiedade, por exemplo. Pode ser, mas não sou interessada nisso.

Clarisse lhe contou em detalhes como foi seu seqüestro. Precisava dividir com alguém esses momentos e, afinal, Marina ainda era sua melhor amiga.

-

Meu Deus! Que horrível! Disse Marina, abalada com o que ouviu.

-

Não sei se foi tão horrível assim, afinal nada fizeram comigo, porque o cara não deixou.

-

Como era esse tal? Negro e forte. Não consegui

entender o porquê dessa atitude, ele parecia não fazer parte daquele mundo, era seguro, sedutor,

inteligente. Parecia preocupado com as questões sociais, sei lá, não consigo enquadrá-lo como marginal. Suas atitudes não eram primárias, tinha um bom vocabulário e pareceu ter sido bem educado, embora sua mãe tivesse morrido quando

nasceu. Nossa! Se não te conhecesse tão bem diria que você se apaixonou por ele. Não diria paixão, mas eu o admirei.

-

E o Johnny? O que vai fazer com ele?

-

Não sei ainda.

Dias depois… Maria Lúcia fugiu de casa e sumiu na noite e João de Santo Cristo ficou louco de raiva. Logo num dia tão especial que iria comemorar mais um plano santo que dava certo. Nessa situação, a festa não teria mais o mesmo gosto. Lampião procurou animá-lo, mas não conseguiu. Trataram de negócios.

-

Ligue para o Pablo preciso negociar com ele.

-

O Pablo está na Bolívia, volta semana que vem.

-

Então chame o Grilo, ele também serve.

-

O Grilo? Ele tirou férias. Como? Desde quando? Porque ele está trancado?

-

Ontem, ele estava passando na zona leste e dedaram ele.

-

Isso é ruim, ele pode me prejudicar. Foi por causa da mercadoria

branca? Sim. É melhor mandar ele viajar… sem passagem de volta. Quero que você veja isso pra mim, peça para o Dr. Afonso Maria tirar ele de lá e depois faça o serviço. Espero que não seja tarde demais. Tem certeza que é preciso? Não é vosso costume essa providência… Ele não vale nada. Já vai tarde.

Santo Cristo, agora como João, vai para casa, desiludido com o desaparecimento de Maria Lúcia. Entrou pelos fundos, não queria ser visto por seus familiares. Foi até a biblioteca, sentou-se à escrivaninha, tirou da gaveta uma pequena garrafa de uísque de seu pai e sorveu-a lentamente. A estante era repleta de livros e objetos de decoração, na

parede próximo à porta de entrada haviam, pendurados, alguns diplomas. João se perdia em pensamentos, procurava uma razão para àqueles livros todos estarem ali, em um lugar que não eram manuseados, sobrevivendo ao tempo. Perguntava-se: “Pra que tanto saber sem nenhuma utilidade”. Aos poucos sentiu um amolecimento no corpo e o entorpecimento da mente em razão do uísque que bebera. Agora dava gargalhada e conversava sozinho: Meritíssimo, com base na Lei número tal, eu vos provo que meu cliente é inocente de todos os crimes que cometeu. Estamos amparados pela Lei e por isso não somos culpados e sim a Lei...

Pegou a pasta de baixo da mesa, abrindo-a devagar. Tirou dela a roupa branca que Clarisse usou no cativeiro. Segurou-a firme e levou até o nariz, cheirando-a com prazer. De repente, a imagem de Clarisse se desenhou em sua mente. Tão assustada e indefesa e ainda o desafiava. Que personalidade. Uma linda menina vestida de mulher! A sala toda começava a rodar quando viu entrar pela porta uma figura feminina que lhe chamou a atenção, ela era pálida, trazia um leve sorriso no rosto… “- Clara…”

murmurou ele, extasiado pela sua presença, quando se deu conta que quem estava a sua frente era sua tia, irmã de seu pai. Deu um pulo da cadeira e fechou a cara. Está bêbado. Disse ela. Não. Estou sonhando acordado. Há dias não pára em casa. Estamos preocupados com esses sumiços. Estará aqui para o jantar de bodas do papai? Claro, não perderia um encontro familiar por nada nesse mundo. Respondeu ele rindo ironicamente. Só não esqueça que seu avô não está em boas condições de saúde. Portanto não invente de trazer esses seus amigos esquisitos e,

principalmente, aquela moça. Você sabe quem é. Tá bem, titia, não esquecerei. Agora se me dá licença vou para o meu quarto, terei um dia árduo amanhã.

-

Bons sonhos.

Deitado em sua cama, João curte a lembrança de Clarisse para esquecer Maria Lúcia, recordando o beijo, a respiração ofegante da moça. Com certeza havia agradado. Ela parecia ser uma garota legal e com problemas. <Espero que um dia nossas vidas possam se encontrar...> Logo pela manhã João ligou para Mônica convidando-a para o jantar de bodas de seu avô. Afinal, o velho era amarrado naquela garota que cuidou dele quando se encontrava enfermo. Ela fazia bico como enfermeira, mas estava no último ano de medicina e criara um vínculo forte com a família por conta do avô. Mônica era espiritualista e fascinada por coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Fazia natação, teatro e artesanato e ainda tinha tempo para trabalhar nos finais de semana. Agora ela estava namorando sério e por isso deveria levar seu namorado, o qual João ainda não conhecia. João resolveu não ir trabalhar e passou dia todo dormindo. À tarde seu tio lhe procurou para tratar de assuntos referentes a uma instituição de caridade, pertencente a um grupo de políticos e empresários, do qual João fazia parte.

-

Vai passar o dia todo aí? O que aconteceu? Um grande político não pára em momento nenhum, seu pai não lhe ensinou isso?

-

Não me incomode! Não quero falar de política agora. Respondeu João, colocando o travesseiro em cima da cabeça.

-

Isso

não

importa,

precisamos

conversar sobre a ASPeC1. Você precisa assinar alguns papéis. Não podemos protelar mais. Tem muita coisa em jogo... Isso pode esperar, não me interessa essa sujeira. Não é bem assim, preciso que assine alguns papéis e prometo que nunca mais te incomodo com essa gente. O que é isso? Agora você resolve sair fora assim? Assim na
1

Sigla fictícia da Instituição de Caridade.

vida como na política temos que saber jogar dos dois lados. Eu gosto de jogar, mas não jogo sujo com quem não tem como se defender. João, qual é o teu problema? O meu problema é que desde minha infância fui criado numa ideologia falsa e inexistente. Quando me propus a organizar uma associação, pensei mesmo naquelas pessoas que precisam de ajuda. Eu tive um ideal e, quando percebi, estava no meio de lobos querendo devorar essas pessoas que mais necessitam de nós. Enojei. Acho melhor voltar depois… Sabe qual é o meu problema? Pergunta João jogando o travesseiro contra o tio. – é você. E sabe do que mais? – Eu não quero ser político.

Nunca quis. Meu sonho é ser bandido, mas bandido de verdade.

No final da tarde, Maria Lúcia lhe telefonou. Marcaram de se encontrar na casa dela. Maria Lúcia não tinha medo de João e já estava saturada de viver confinada em um lugar porque ele tinha medo que ela o denunciasse, pois sabia muita coisa sobre seus dois mundos. Onde você andou? Perguntou ele irritado. Por aí, João. Não me chame de João aqui. É teu nome. Respondeu ela num tom desafiador. Não brinque comigo! Não estou brincando. Estou cheia dessa vida confinada, quero sair, ser uma pessoa normal. Você não tem esse direito. Cale essa boca! Interrompeu irado. Você é que não tem esse direito de

sair sem me avisar ou quer voltar para o lixo de onde eu te tirei? Você não precisa falar assim

comigo, você está com medo! Quem tem medo é você! Do que? Que você me bata? Você sabe que está errado. Você não me ama mais, Lúcia? Não sei o que eu sinto por você, é melhor a gente dar um tempo. Eu sei que não tenho sido legal com você, ainda é Me cedo dê para mais nos uma

separarmos.

chance. Pediu ele submisso. Não João. Não quero lhe fazer sofrer, não é justo! Vou para casa de minha madrinha no Rio de Janeiro, um dia a gente se vê. Não! Você não pode ir! Não vai me deixar aqui depois de tudo que eu fiz por você.

-

Vai cobrar? E o que eu fiz por você? Não conta? Cai na real, João, você não manda em mim, você não me tem. Aceite isso.

Depois de alguns minutos de reflexão, sentindo um amargo na garganta João lhe respondeu. Tá legal. Vai e nunca mais apareça na minha frente. Nem conte comigo!

Saiu da casa com raiva e deu um chute na porta do carro, amassando-a sem piedade. Com as mãos sobre o capô, ele tinha vontade de gritar, mas se conteve e saiu cantando pneus pela rua do condomínio. Nessa noite, Santo Cristo se reuniu com seus amigos do beco e beberam muito, resolveram que iam assaltar, influenciado pelos demais Santo aceitou o desafio e se largou noite adentro com revolveres de verdade, parando carros em ruas com pouco movimento e assaltando os condutores. Fizeram muita algazarra, roubaram um carro e saíram pela cidade fazendo rachas pelas ruas até que um dos seus colegas bateu o carro. Eles saíram para ajudar e nisso chegou à

polícia levando todos para a cadeia. Muitos dos que estavam com Santo tinham passagem pela polícia e, por isso, sua situação era delicada, ele tinha ficha limpa apesar do tráfico de drogas e de muitos outros delitos que cometia. Como era um homem rico, tinha as costas quentes e sempre fazia as coisas sem deixar marcas nem pistas. Desta vez estava encrencado. Ligou para seu advogado, que foi até a delegacia no mesmo momento para soltá-lo e conseguiu, porém os demais ficaram presos até o outro dia e um de seus amigos foi parar no hospital. Em casa, ele pediu a seu advogado, Dr. Afonso Maria que resolvesse a situação dos outros. Mais tarde, o Dr. Afonso chega na casa de João para dar detalhes do caso que fora resolver. Não foi fácil, Onofre tem mais de seis passagens pela cadeia,

consegui pagando fiança e claro contando com a colaboração do Delegado Tobias. Os outros foram mais fáceis, porém o Cristóvão abriu a boca. Trancaram-no numa sala e

bateram até ele falar sobre você e seu grupo. Droga! Gritou João. Ele não podia abrir o bico... Eles o machucaram muito, e como nunca teve passagem pela polícia foi fácil apavorá-lo. Esses merdas! Está bem, pode ir agora. Eu vejo o que faço. Outra coisa, o Felimon me procurou ontem e me contou que tem um novo nome na cidade e que já se instalou, pediu somente para que você soubesse disso. Disse o

Doutor. Já sei. Procure saber quem ele é, o que faz e porque escolheu a capital para morar.

Do outro lado da cidade, Clarisse se diverte com seus amigos. Johnny tenta uma aproximação, mas não é bem recebido pela garota, que defende sua amiga Marina.

-

João Roberto, não me leva a mal, mas não dá. Vamos ser apenas amigos, é melhor assim.

-

Não entendo cara, não era você que era louca por mim? É a sua grande chance.

-

Não acredito que estou ouvindo isso. Alguma coisa mudou, tudo muda nesta vida e não tenho mais nenhum interesse por você, João Roberto.

-

Depois não diga que eu não te dei oportunidade.

Johnny havia se interessado por Clarisse, na verdade ele não queria ter nenhuma derrota amorosa, e isso o deixou furioso. Foi procurar o Maurício e saíram para fazer rachas pela cidade. Olha Maurício o chão bem diante de nosso nariz. Alucina Johnny,

fazendo manobras de alto risco com

seu opala. Maurício, que já havia fumado um monte e cheirado

também, se diverte. Que louco cara. Você é mesmo bom. Pararam num lugar deserto, de onde podiam observar a cidade, viram as luzes de natal. Johnny pensava <Meu Deus, mas que cidade linda!>Disse Johnny: Eu gosto de ficar com você. Eu adoro você também. Respondeu Maurício com um olhar sincero. ... Semanas depois... Chegou o dia da festa de cinqüenta anos de casados dos avós de João. Tudo transcorre normalmente, e como é de se esperar, a festa é uma mera formalidade e torna-se chata ao ponto que João, Mônica com seu namorado Eduardo e mais alguns amigos resolvem ir passear pela cidade a procura de um lugar legal pra ficar. Por Zé Chinelão... Há! Há!

sugestão de Eduardo todos foram para um bar no centro da cidade. Neste bar alguns amigos de Eduardo o esperavam. O bar estava lotado, a música era agitada e a casa estava animada. João gostou do clima e ficou observando as pessoas, conversava com Mônica animadamente, quando viu na mesa ao lado uma moça que gelou seu coração. Ela estava com um vestido preto simples e os cabelos soltos, jamais esqueceria aquele perfil, reconhecendo logo que se tratava de Clarisse. Ficou estático, não prestou atenção na história que Mônica contava de sua ida à Malásia. Eduardo levantou e foi ao encontro daquele grupo de pessoas, no qual Clarisse se encontrava, cumprimentou a todos. Foi quando João perguntou à Monica se conhecia aquela moça que dançava sozinha. Mônica lhe disse que se tratava de uma amiga de Eduardo que estudava no mesmo cursinho que ele. Contou inclusive que fora ao seu aniversário de 18 anos no mês passado e do “rolo” que deu sobre a tríade: Johnny x Marina x Clarisse. Ele resolveu se aproximar e fazer parte da turma. Era como se fosse um sonho, Clarisse logo ali na sua frente, mal podia esperar para ser apresentado a ela. Temia que ela reconhecesse a sua voz, mas no meio de tanto barulho seria praticamente

impossível. Chegou o momento que Eduardo os apresentou: Essa é a Clarisse, minha colega de cursinho. João. Muito prazer. Respondeu ele, olhando no fundo dos olhos dela. Clara não deixou de perceber que ele a olhara de forma diferente e por um momento seu olhar lhe pareceu familiar. Conversaram muito, dançaram e trocaram telefones. Ela foi para casa contente por ter conhecido alguém tão parecido com ela em pensamento, parecia que o conhecia há tempos. Dois dias depois, resolveram se encontrar, Clarisse o esperou numa lanchonete, depois foram ao cinema e no final da tarde passearam pelo parque. Ao anoitecer, os globos de luz acendiam em volta do lago e o reflexo na água, deixava a paisagem ainda mais bela e romântica. Uma linda cena de cinema, a conversa estava agradável e ele utilizava muita gentileza. Clarisse pensava de onde surgira assim uma pessoa que lhe fazia tanto bem, que parecia conhecê-la há muito tempo. Como fosse mágica que ele pudesse existir. Marcaram outro encontro para o final de semana e ela

não pensou em mais nada a não ser naquele homem galante que a olhava com carinho e compreensão. João só tinha tempo para pensar em Clarisse, seus olhos, seu sorriso, sua força... Como se fosse um sonho que pudesse tocá-la novamente, sentir sua pele macia, seu perfume, seu coração. Recordava-se dos dias que a manteve presa, estava tão assustada e indefesa, porém podia perceber em seus olhos uma força interior que o fascinou desde o primeiro instante. Seria ela a sua outra metade? Sabe aquelas coincidências que acontecem na vida do tipo: estou apaixonada pelo meu meio irmão que eu não conhecia? Isso acontece na vida real e na ficção também, afinal o que seria de nossa vida se não existisse a ficção? Precisamos fantasiar o que na verdade é a própria realidade, pois qualquer situação é uma possibilidade e pode existir, pode ser real. O que acontece com Clarisse é real, ela está apaixonada e ele a corresponde. Acreditamos nisso, mas por quanto tempo? A noite está fresca como na maior parte do ano, as estrelas brilham de maneira diferente, Clarisse deitada na cama observa João que tira os sapatos. Ele a olha com

ternura enquanto uma energia parece percorrer seu corpo. Seus lábios tocam a pele macia, escorregam pelo ventre, sentem o gosto do desejo. Nunca desejara alguém com tanto carinho, era como se seus conceitos mudassem e de repente sentisse conservadora. Porém isso não importa, o que interessa é que a sensação de possuir aquela mulher, o fazia delirar e se entregar aos seus carinhos. Podia sentir o pulsar do coração, o sangue correr pelas veias, a respiração ofegante, o suor escorrendo entre ambos, misturados em um só. O sono invade suas mentes e é hora de descansar, mas antes João a observa concentrada em seus sonhos e pensa: “Será que você vai saber o quanto eu penso em você com o meu coração? Quem está agora do teu lado? João ou Santo Cristo? Quem para sempre estará?” E assim, absorto em pensamentos, adormece.

TERCEIRA ESTAÇÃO
Enfim, o verão havia chegado e com ele o perfume das flores, o calor do sol, o canto dos pássaros. Clarisse deslizava com sua bicicleta pelas ruas de seu bairro. O céu está bem mais azul do que de costume. Ali quase não existem nuvens, principalmente nessa época do ano, quando o ar se torna mais rarefeito. Podia sentir o aroma do ar, respirando profundamente. A liberdade que há muito não sentia – “Gosto quando estou feliz. Estou em outra estação” - pensava Clarisse enquanto sentia a brisa. Encontrou Maurício, que a fez parar. Olá, Clarisse! Aonde vai voando desse jeito? Não estou voando, estou até lenta demais. Não é desse tipo de vôo que estou falando. É nítido um brilho no seu olhar. Me conta! O que acontece na sua vida que não tem mais tempo pra mim?

-

Nada de especial. Eu ainda tenho tempo pra você, seu bobo!

-

E quem é o tal musculoso que eu vi contigo outro dia?

-

O João. Um rolo. Fico feliz por você, mas se ele saltar fora não esqueça de mim, tá?

Os dois riram e seguiram conversando. Renatinho passa apressado com um violão na mão, tentando dedilhar uma melodia. Aonde Clarisse. Vou levar o violão do Johnny. Ele vai dar uma palhinha2 para meninas que estão na praça central. Porque não vai lá? Ele vai gostar. Talvez... Faz tempo que ele está lá? vai Renatinho? Pergunta

Pergunta Maurício admirado.

Gíria utilizada para dizer que ele tocará música com o violão.

2

-

Mais ou menos, ele está bem alegre. Tchau!

Há dias que Johnny não saía de casa, algum segredo guardava em seu coração. Durante a noite saía com seu carro, alucinado pela cidade, falava pouco e quando pronunciava algumas palavras, as confidenciava a Maurício. Na praça, Johnny toca algumas canções acompanhadas pelo coral dos ouvintes. Bem pessoal, essa vai para as meninas que estão aqui. Fazendo um gesto com a mão direcionando-a para o peito na altura do coração. As meninas suspiram... Quem inventou o amor? Me explica por favor. .... Enquanto a vida vai e vem Você procura achar alguém Que um dia possa lhe dizer - Quero ficar só com você. Renato Russo

Clarisse acompanha de longe a cantoria de Johnny, logo ele percebe sua presença e a olha fixamente nos olhos. Sem perder o ritmo da canção a acompanha com os olhos enquanto Clarisse caminha pela rua. O vento sopra seus cabelos. Como uma pintura, o sorriso tímido dela se desenha na mente de Johnny, quem descobriria seus mistérios? Seus encantos? A voz de Johnny vai sumindo até ela se encontrar completamente só com seus pensamentos: Eu sei – é tudo sem sentido. Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim. Nem percebeu que Maurício ficara lá apreciando o raro espetáculo.

Em casa: Mamãe. Hoje vou trazer uma

pessoa aqui para jantar. Anunciou Clarisse. Bem que eu desconfiei que existisse uma razão para essa mudança em

você minha filha. Qual é o nome do eleito? João. Ele é advogado. Que bom. Bem que você poderia ter nos avisado com, pelo menos, dois dias de antecedência, para que eu pudesse preparar algo melhor.

Assim em cima da hora... vou fazer o máximo para impressioná-lo. Deixa disso, mãe, ele é uma pessoa bem simples. Simples? Como assim “simples”? Pergunta preocupada a mãe. Ele não liga para luxo, embora seja rico. Qual o sobrenome dele, Clara? Da Silva. Minha filha, como assim, ”da Silva?”. Ahh, mãe. Riu Clara.

João está ansioso pelo encontro com a família de Clarisse e apreensivo. Imagina como será o encontro com o pai de dela. Depois do ocorrido, sentiu uma certa angustia pelo sofrimento que fez passar a família. Mas, ela valia qualquer esforço. Pensava em abandonar o tráfico, construir uma família e morar em um lugar calmo e tranqüilo, onde pudesse ver seus filhos crescerem... Boa noite, senhor. Vou anunciar a sua chegada. Disse o mordomo ao recebê-lo.

Clara desce as escadas e se atira aos seus braços e logo é repreendida pela mãe. Minha filha, esses não são modos de receber seu namorado. Não se preocupe com isso mamãe. Prazer. Sou João.

O jantar transcorreu bem e João foi bem recebido pela família de Clarisse, depois foram até a sala, onde conversaram muito e beberam licor. O pai de Clara tinha uma coleção de licores e muitos eram raros. João

conhecia a todos, pois era um profundo apreciador dessa bebida. Diga-me, João, sobre o caso dos agentes penitenciários. demonstrou O Dr. muita

Bartolomeu

diplomacia. Afinal, o governo não pode deixar de garantir a qualidade do serviço à população. É um caso complicado. O que acontece é que um governo faz uma coisa e outro, faz outra. Esse caso está quase encerrado vamos

sancionar, o projeto de lei e tudo vai voltar ao normal, como sempre foi. (João enrola, pois na verdade, não é advogado. Apenas uma história que inventou a Clarisse). Na verdade os assassinos estão livres e nós não estamos. Bem agora vamos deixar de

conversa de gente grande, o que

você

acha

de

sairmos

para

passear? Há essa hora, Clara? Admira-se João. Minha filha, já é tarde e amanhã ainda é um dia de trabalho para todos nós. Argumenta o pai. Bem, é tarde mesmo. Eu já vou. Levantou-se João. Fica mais dois minutinhos. Pede Clara. Saíram e ficaram namorando na varanda da casa, a lua está cheia e brilhava no céu. O ar quente e seco dava à noite um clima de verão. Permaneceram por dez minutos abraçados sentindo um ao outro, a respiração de ambos sincronizada. Clara sentia-se feliz e João mudava seus conceitos. O despertador toca e Clarisse não quer acordar, o despertador insiste e ela levanta, toma um banho demorado e desce para um café. Sentia-se bem como há muito não se sentia. Os pais perceberam um brilho diferente no olhar, porém nada comentaram. Clarisse segue para a escola, pensando em

João e como sua vida havia mudado em questão de dias. Ao chegar na escola percebeu uma movimentação diferente de todos os dias, as pessoas se aglomeravam na entrada e pareciam preocupadas. O que teria acontecido? Apressou o passou e procurou por Marina e não a encontrou, passou por um grupo de amigos e perguntou por que todos estavam tão agitados daquela forma. Não soube o que aconteceu com Johnny? Houve um acidente ontem à noite. Disse o garoto da sexta serie. Como? Ele esta bem? Não sabemos, mas parece que o estado explosão. é grave, houve uma

Clarisse ficou triste com a notícia, mal podia acreditar que aquele garoto que ontem cantava uma canção, agora estivesse hospitalizado e sabe-se lá se vai sair dessa. Tinha se envolvido tanto com João que nem lembrava mais do sentimento que tinha por Johnny.

Na segunda aula o diretor entrou na sala e avisou que o aluno João Roberto não resistiu aos ferimentos e não está mais entre nós. É uma pena. Ele só tinha dezesseis. Que isso sirva de aviso pra vocês! Clarisse sentiu um ar gelado subir pela espinha, suas mão ficaram trêmulas e suadas. Não podia acreditar que Johnny tinha morrido. A morte sempre teve presente na sua vida, mas agora tinha um sabor diferente. Por que foi assim? Por que foi ele? Na saída da aula, Clarisse achou estranho e ao mesmo tempo bonito todo mundo cantando baixinho: Strawberry Fields Forever, Strawberry Fields Forever Clarisse ficou emocionada. Ao sair da escola encontrou Renatinho e foi conversando com ele para casa. Ele sempre andava com Johnny e disse que nos últimos dias ele parecia estranho e falava pouco, como se tivesse arquitetando algum plano. Tenho certeza que ele se matou e te digo mais, foi por causa de uma desilusão amorosa. João Roberto

adorava Janis Joplin, Led Zepellin, ele era muito louco. Ele era bom demais pra morrer assim, com certeza o fez porque quis. Clarisse foi ao enterro, encontrou Marina. Não disseram nenhuma palavra, apenas ficaram ali abraçadas. Olhando e pensado como a vida é breve para alguns. Maurício chorava compulsivamente, eles eram muito ligados. Clarisse abraçou Maurício e enxugou suas lágrimas. A vida é assim, o melhor no momento é aceitar. Não fica assim, Maurício. Disse Clarisse Só que ele foi cedo demais e eu continuo aqui… É tão estranho. Os bons sempre morrem jovens. Disse Marina Vai com os anjos. Vai em paz… era assim todo dia de tarde. Lembro-me de todas as tardes que passamos

juntos, não é sempre, mas eu sei que você está bem agora. Meu amigo. Chora Maurício. A vida como sempre apresenta seus atos e eu, Clarisse, parei para pensar na vida e na morte. Os dias não têm mais o mesmo sentido. Aquela tristeza sumiu do meu coração e no seu lugar entrou um sentimento autônomo, que me manda, que me rege. Eu já passei por momentos em que as palavras não entram na mente, ouvi uma música que dizia: “quando a tristeza é sempre o ponto de partida, quando tudo é solidão. É preciso acreditar num novo dia”. Isso está claro para mim agora, mas não estava antes. Quem entende essa vida? Clarisse havia mudado, e essa mudança era para melhor, agora no lugar de antidepressivos e vinho, uma energia exalava de seus poros e tudo isso devido a um sentimento inesperado por João, o seu João. … Passaram os dias e a dor da perda foi aos poucos sendo substituída pela nova situação vivida por Clarisse. Estava cada dia mais apaixonado e mais feliz. Numa dessas tardes enquanto passeavam pelas ruas da

cidade, viram uma passeata com alguns estudantes que passaram no vestibular. Ficaram ali apreciando a bagunça deles, até que João foi atingido por uma mistura de trigo, ovo e água com um odor nada agradável que acabou sujando sua camisa. Como ele estava com uma camiseta por baixo resolveu tirá-la. Clarisse resolveu leva-la para lavar. Guardoua na bolsa. Riram muito do acontecimento, sentaram num banco da praça e ali permaneceram namorando por várias horas. Enquanto ela curtia o sol João levanta um dos braços para apanhar um ramo da árvore e brincar com ela, nesse movimento, Clara percebe a tatuagem no seu antebraço e dá um pulo do seu colo, assustada. Imediatamente reconhece a voz e o olhar do seqüestrador ali do seu lado. Treme, fica atônita, paralisada com a descoberta. João pergunta o que a perturba e ela inventa uma desculpa, diz que está com uma dor horrível na cabeça e quer ir para casa. Ela fica pensativa com a situação e não sabe o que fazer. Durante alguns dias evita o encontro com João, que começa a desconfiar que acontecesse algo e resolve ir a casa dela. Ela o recebe, depois saem para passear e durante o passeio Clarisse lhe fala: Nunca imaginei que você pudesse aparecer na minha vida!

-

Eu nunca imaginei que podia existir uma garota tão formidável como você.

-

Eu

estou

dizendo

que

nunca

imaginei que pudéssemos nos ver novamente de maneira normal

“tocando a campainha”. João entende que ela já sabe quem ele é e muda o semblante. Seqüestrador. Murmura ela. Sim. Confirma. Porque você se aproximou de mim? O que quer? Brincar comigo? Não! Juro que dia foi em por que acaso. nos

Naquele

encontramos no bar, foi por pura coincidência, coincidência. Não sei, estou confusa. Não quero que fique assustada, não vou te seqüestrar. uma maravilhosa

-

Não sei por que não tenho medo de você, ao contrário, me sinto segura.

-

Eu realmente gostei de você desde o primeiro dia em que a vi. Pena numa situação delicada, mas

quando te vi naquele bar resolvi correr o risco de vê-la novamente. Por que me seqüestrou? É uma longa história que outra hora te conto. Não foi por dinheiro, não é? Não. Mas isso lhe conto outra hora, agora preciso saber se ainda somos namorados. É uma situação o diferente, meu eu

namorando

próprio

seqüestrador, só em novela isso ocorre. Eu amo você.

O certo e o errado, o bem e o mal, o céu e o inferno... Seguir ou desistir? Sempre caímos em uma emboscada da

vida que nos pune por tudo que temos medo de aceitar. Viver um grande amor ou desistir de ser feliz, de amar... Clarisse não sabe o que fazer depois que Santo lhe contou parte de sua vida, não será fácil tomar uma decisão. Assim, perdida em devaneios e dúvidas, ela adormece e sonha com um lindo campo onde a brisa toca seu rosto e o nascer do sol aquece seu coração triste. A sensação de bem estar devolvia-lhe a vontade de viver. Enquanto caminhava pelo campo viu muitas pessoas que se aproximavam de onde estava. Essas pessoas não falavam nada e pareciam ignorá-la. De repente veio uma sensação de frio e um medo invadiu sua alma, Clarisse sai correndo pelo campo e segue em direção a uma casa onde tem um casal de velhinhos. Ela entra assustada e pede ajuda, a senhora vem em sua direção e lhe dá a mão, o velho resmunga qualquer coisa, quando a moça volta a olhar para a senhora o rosto da anciã transforma-se em um anjo barroco que a olha e tenta engolila. Acorda assustada. Você está com uma cara horrível hoje, Clarisse. O que aconteceu?

Pergunta

Marina

enquanto

caminham em direção à escola. Estou mal, não sei o que fazer. Sabe quando estamos perdidas e não há para onde correr? Quer conversar depois da aula? Não vai dar, vou ter que resolver alguns assuntos. Conhece aquela história de um jovem que sempre fazia o mesmo trajeto para cortar lenha? Não, me conta. Diz a amiga

empolgada. Ele sempre fazia o mesmo caminho para cortar lenha e um dia quando passava próximo a uma

encruzilhada viu um senhor bem velho sentado à beira do caminho. Aproximou e cumprimentou o velho. Este se apresentou como um anjo e disse que se um dia o jovem entrasse naquela estrada sua vida

mudaria profundamente. Por isso ele não passava nem perto da tal estrada com medo que sua vida mudasse. Porém um dia ele teve que correr atrás de um bezerro e sem perceber estava caminhando pela estrada que mudaria sua vida, a principio ficou com medo, mas o bezerro era muito importante para sua família, então continuou.

Acabou se perdendo e quando tentava voltar com o bezerro viu uma casa, a chaminé exalava

fumaça e tinha um cheirinho bom de comida no ar, o que despertou sua fome. Resolveu chegar mais perto e viu uma linda moça sentada numa pedra. Depois se apaixonaram e viveram felizes para sempre. Bonita história, mas o que quer dizer? Pergunta a moça sem

entender.

-

Quer dizer três coisas: a primeira é a resistência, o velho falou que a vida ia mudar, caso entrasse não pior. A

naquela

estrada, para

necessariamente

segunda é a liberdade, esta em você decidir mudar ou não. E a outra é que tem um tempo certo pra tudo. Mais tarde, ao se encontrar com João: Clarisse seja o que você for me dizer, mas antes quero te dizer apenas uma coisa: tudo pode

mudar. Disse João. Com quem eu falo? É João ou o seqüestrador? Com quem te ama. Por favor, amor me acredite. Não há palavras pra explicar o que eu sinto. Mesmo que tenhamos planejado um caminho diferente. Tenho mais do que eu

preciso. bastante. -

Estar

contigo

é

o

Bem que eu imaginei que não poderia ser verdade, na minha vida sempre acontece alguma coisa para que eu não seja feliz, sempre amo a pessoa errada, por quê? Você pode me explicar?

-

Isso acontece porque você não ouve o seu coração...

-

Acho que é ao contrário, é só porque eu o ouço. Responde ela.

-

Quando queremos alguma coisa e a aceitamos; queremos vivemos. alguma coisa Quando e não

aceitamos; morremos. Porque mentir é fácil demais. Mentir é fácil demais. Ficaram em silêncio por um momento, até que João lhe disse:

-

Meu pai sempre fez tudo certo, porém quando ele conheceu minha mãe, ele não fez a coisa certa. Então ele me disse uma vez: “quando encontrar alguém que

julgue amar (e você vai saber quando a ver) ame-a! Você não sabe por quanto tempo a terá ao

seu lado”. E por muito tempo eu duvidei que esse alguém pudesse existir até quando lhe vi naquele quarto, tão indefesa, tão linda, tão minha. Amei seus olhos e a força que vi neles. Você não tem medo e sim, sede de viver. Não sei explicar, porque não tem explicação... E agora eu sei por que vivo: por você.

-

Às vezes me sinto tão pequena diante das suas palavras, ao invés de me sentir grande. Sinto-me sem

ter pra onde ir. Quem é o inimigo? Quem é você? Apenas alguém que não se

conforma com a sociedade tribal em que vivemos alguém indefeso e manipulado pela TV, alguém que não fará nenhuma falta se um dia desaparecer. Ouço meu coração e ele me diz que se eu quero, eu posso. Então eu quero... Você.

A vida de Clarisse mudou, não existia mais aquela monotonia, estava vivendo um grande romance. Passava a maior parte do tempo junto de João. Viajavam juntos. Clarisse sentia-se feliz com seu João e João sentia-se feliz com sua Clarisse. Ele pensou seriamente deixar o tráfico e viver uma vida normal ao lado de sua menina e ter alguns filhos e poder curti-los. Dessa forma as coisas no tráfico foram tomando outro rumo e com a pouca participação de Santo Cristo outros traficantes começaram a abusar do poder, surgindo uma verdadeira guerra contra Santo.

... Amar alguém ainda que contra os conceitos sociais é maravilhoso. A maturidade surge de repente e nos pega de assalto e num certo momento você se pergunta: como eu cheguei aqui? O destino me trouxe ou fui eu quem plantou isso? Para João tudo era tão novo quanto para Clarisse. Quando pequeno só pensava em ser bandido, apesar do amor de seu pai e de sua avó que o criou, porém aquela família não era a sua. Tinha a certeza que se sua mãe tivesse sobrevivido quando nasceu sua vida seria melhor, não sabe bem porque, talvez alguma coisa na infância o fez pensar assim. Sempre foi de ouvir mais que falar e nunca expor seus sentimentos, isso deixava à mostra suas fraquezas. Ainda menino, já tinha o gosto de representar duas personalidades, enquanto brincava consigo mesmo, desenvolvia diálogos distintos, um que representava seu eu interior e outro o seu eu projetado. Uma das personalidades era fria e cruel, apesar de justa para seus conceitos. A outra era normal, como a definia, sem grandes qualidades e era o que utilizava com seus familiares, enquanto a outra somente ele a conhecia, até que um dia resolveu viver de forma verdadeira essa outra face. Conheceu alguns meninos meliantes que lhe ensinaram

o caminho da maldade e da diversão ao mesmo tempo. Assaltos a supermercados eram comuns. Pichar muros não oferecia mais nenhum risco... Quanto às drogas, essas não o seduziram porque sua personalidade do mal era inteligente a ponto de usar as pessoas, não de se destruir como elas. ... A família de Clarisse percebeu sua mudança repentina e passaram a se preocupar com seus sumiços, praticamente abandonara a escola e mal tinha tempo para conversar com a família. Clarisse. Precisamos conversar,

filha. Fala sua mãe. Mãe. Hoje vou conhecer a família de João, vamos para o Rio e

voltaremos amanhã. Mas isso não está certo, faz poucos meses de namoro e não fica bem essa correria de um lado para o outro. Você não pára em casa, não temos conversado…

-

E quando foi que conversamos? Eu que não entendo. Quando vivia enfurnada no quarto não estava bem, agora que eu tenho um motivo pra viver também não está bem. O que está bem pra vocês?

-

Minha filha, não seja tão injusta, estou preocupada. Acontece tanta coisa ruim no mundo, e a família desse rapaz mexe com muitos processos perigosos.

-

Não se preocupe! A especialidade dele é me seqüestrar e a isso eu não me oponho.

-

Não fale bobagens, ainda mais depois de tudo que você passou na mão daquele bandido.

Clarisse ri e imagina o que aconteceria se sua mãe soubesse quem é João. Dá um beijo no rosto dela e sai correndo. João já a espera no portão.

Horas mais tarde com João. Minha mãe esta com um os pouco nossos

preocupada

sumiços. Acho melhor pararmos mais por aqui depois dessa viagem. Olha que eu tenho uma proposta melhor. Que tal morarmos juntos? O que? Tá louco? Louco de amor por você. Não consigo mais ficar nem um minuto longe do seu sorriso. Podemos comprar alguns móveis, uma

geladeira e um fogão. Ah! Não podemos esquecer da televisão. Senão como poderemos ser felizes sem ela? E ri. Eu topo. Quando? No mês que vem? Na semana que vem. Que tal? Meus pais vão enlouquecer.

-

Depois de um tempo podemos fazer uma grande festa de casamento, numa bela igreja e dividir com todos a nossa felicidade. Diz João.

-

Não quero me casar, muito menos com festa, não tenho religião. Meu Deus está em mim e sou tão imperfeita quanto a ele.

-

Eu

também

não

sou

afim

de

casamento em igreja. Pra mim o nosso amor é tão verdadeiro e intenso que nenhuma lei dos

homens ou de Deus poderia ser maior que ele. Podemos reunir os amigos e fazer uma feijoada? Grande idéia!

João andou ocupado providenciando as coisas para a mudança. A família de Clarisse não aprovou a união repentina dos dois, mas nada faria eles mudarem de idéia.

A mudança grande chegou. Mais do que simplesmente mudar de lugar, mas sim mudar de vida. Agora Clarisse terá seu próprio lar com certeza terá seus próprios problemas e sua própria família. Ela pensa: Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo, acho que seja fácil acostumar-se com meu jeito, agora que teremos nossa casa. O apartamento é pequeno, mas bem confortável. Não poderia divulgar seu endereço por questão da segurança de Clarisse. Acabara de pintar as paredes. Amarelo suave como o sorriso de Clarisse com detalhes em azul. Mais uma semana e o lar estaria pronto para a mudança. O casal nem imaginava que essa felicidade jamais aconteceria. Mas nem tudo corre tão bem assim no alto escalão do tráfico: um novo personagem aparece para dominar o tráfego. Jeremias é o nome dele. Como João mal aparecia para ver seu negócio. Jeremias começou a agir, primeiro tentando convencer aos comparsas de João a passarem para seu lado. Encontrou resistência, porque o pessoal era fiel a Santo Cristo e também porque Santo era poderoso e muito influente, apesar de bandido, era justo. Com uma justiça criada por ele mesmo que agradava aos seus.

Jeremias começou a dar mostras de seu poder e torturou alguns dos homens de Santo Cristo e mandando vasculhar a sua vida, pois ele queria acabar com Santo Cristo. Começou com Maria Lúcia, sem que ela soubesse de seus planos a envolveu. Diante da situação, João resolveu fazer uma viagem com Clarisse para dar um tempo a seus comparsas e comandando-os pelo telefone. Foram para o nordeste de carro parando em cada cidade histórica, tirando fotos, filmando tudo, como se estivessem em lua de mel. Os pais de Clarisse apesar de preocupados com a mudança que teve a menina, não interferiram nas suas atitudes, pelo menos estava feliz e isso é o que importava para o bem familiar. Fernado de Noronha, um paraíso natural. A brisa morna da terra dissipava-se para o mar, o murmúrio das ondas embalava à tarde de segunda feira. A praia estava deserta, o céu estava encoberto de nuvens cinza. A linha que dividia a terra era a mesma que dividia os pensamentos de João, estava preocupado com sua situação, sabia que ia sofrer as conseqüências como um cão, teria que voltar, mais cedo ou mais tarde.

-

Adoro ver o mar. Disse Clarisse encantada com a brisa marítima que acariciava seus cabelos.

-

Também absorto.

gosto.

Respondeu

ele

-

Ele (o mar) grita com a gente, diz: Eu sou forte, eu sou poderoso, ninguém pode comigo.

-

É ele é magnífico. Você não sente que ele diz alguma coisa? Pergunta ela.

-

Não. Tente escutar! Diz, fazendo sinal de silêncio para ouvir o mar.

-

Não ouço nada. Sempre que quiser uma resposta ouça o mar, ele sempre me diz alguma coisa. Insistiu ela.

-

E o que ele está dizendo agora? Que você não está aqui. Responde ela.

-

Vou

procurar

ouvi-lo

mais.

Respondeu em tom de brincadeira, João. Olha João! Cavalos marinhos! Como são lindos! Esse é um presente para você sempre se lembrar de mim, em qualquer lugar que eu esteja eu sempre te amarei. O telefone celular toca. João o atende, porém sua expressão facial muda completamente. Clarisse se preocupa e ele explica que quatro de seus melhores homens morreram por causa de um traficante de renome que apareceu por lá. Eles precisam voltar. Que venha o fogo então!

Se ele a conhecesse antes não teria sido assim. Se ela não tivesse passado por aquela rua não teria sido assim. Se ele fosse sempre bonzinho não teria sido assim. Se ela tivesse dado ouvidos a sua mãe não teria sido assim. Se… Se… Se… Afinal, se não foi assim, como seria? Que diferença faz a conjugação de um verbo em nossa língua? Eu

falo em português errado. Troco os pronomes. E as pessoas me entendem. E se tudo fosse diferente não seria igual à hoje. O que quero dizer é que se acreditássemos no futuro tudo seria diferente, mas nós simples mortais, pensamos no momento e vivemos de passado com medo de arriscar, mesmo porque o futuro não existe, quando ele chega já é presente. Clarisse e João, o poder do destino os uniu e o mesmo destino poderá separá-los, assim como acontece na nossa vida: hoje estamos aqui amanhã podemos não estar. Na era da informática poderia ser fácil apertar um botão e mudar de canal, ouvir uma outra estação, mas isso é ilusão porque aonde vamos nos levamos junto. Em qualquer estação ou em qualquer canal, lá estamos. Não nos livramos do que somos e isso, às vezes, nos remete a um calabouço psicológico ao qual já estamos acostumados, por isso não o percebemos. Mas, não existe um botão para apertarmos e tudo o que somos desaparecer. Passarmos a ser outro como nas novelas em que a mesma pessoa, vive personagens diferentes e não se confunde. Isso é incrível! Não, não existe um botão para apertarmos e de repente ver um final feliz,

porque na fantasia sempre tem um final feliz, sempre o bem vence o mal e sempre o bandido morre no final. Estou morto, mas ainda respiro. Num canal passa a guerra, mas esta lá na TV, não é minha realidade. Noutro canal é o último capítulo da novela das seis, não precisamos ver, o quebra cabeça se encaixou e os que não morreram, casaram no final. Fim de semana tem um programa legal num canal e um montão de bobagens em outro, há um canal interessante que só passa cultura, mas ninguém vê, porque vivemos no mundo dominado por uns poucos. Se não descobrirmos quem é o novo namorado da atriz principal da novela, não seremos felizes e a vida não será a mesma.

QUARTA ESTAÇÃO
O outono é, sem dúvida, a estação mais romântica do ano, o vento levando as folhas pelo chão como se levasse os sentimentos, fertilizando o amor. A vida sempre nos reserva surpresas, realmente não temos como saber o dia de amanhã, como acreditar no amanhã se ele não existe? Clarisse se perdia em pensamentos olhando para o horizonte enquanto o carro deslizava pela rodovia, planícies e mais planícies, tão uniformes, observaram alguns casebres lembrou-se da parábola que contara a amiga, essas pessoas não queriam mudar de vida, que noção tem elas do mundo maravilhoso que há dentro da cabecinha de cada criança que ali se criava. Esse mundo é muito desigual. O que faz o ser humano ser tão acomodado e receptível a aceitar a vida, não somos seres inacabados em busca de perfeição? Existe no homem uma insatisfação própria do ser e não é o que vemos se apreciarmos a sociedade como um panorama. A fome, a guerra, a violência... Tantos valores estão perdidos. Quando Santo Cristo volta ao comando do tráfico, as coisas estão bem mudadas, o tal de Jeremias tenta dominar sua região e ataca colégios de crianças, coisa que Santo Cristo

nunca havia permitido para sua gangue. Ele só passava droga para a classe alta a fim de destruí-la. Para os pobres e para as crianças ele não admitia que se vendessem drogas, não por ele. João estava em sua casa quando um homem bem vestido chegou para lhe falar, ele o recebeu na biblioteca e, para sua surpresa, o tal homem veio negociar entrega de drogas. João nunca havia divulgado sua verdadeira identidade para o mundo do tráfico e ficou cismado como aquele homem podia saber tanto a seu respeito.

-

Como vê Sr. João, temos o controle e não estamos brincando.

-

Quem são vocês? Como chegaram até mim?

-

Somos um grupo interessado no seu trabalho, e chegamos até você por seus melhores amigos, infelizmente já falecidos. Responde o homem em um tom sarcástico.

Santo Cristo trava os dente com ódio, concluindo que seus amigos foram torturados

de forma mais covarde possível para terem essas informações e continuou: Eu não aceito, saia da minha casa e não brinque comigo, não tenho medo de ninguém. Você perdeu a vida meu senhor. A propósito, sobre Maria Lúcia, era bom que fosse visitá-la, creio que ela está com saudades suas. O homem saiu sorrindo cinicamente e Santo Cristo sabia que a coisa ia pesar pra valer. Temeu por Clara que não sabia de muita coisa, por isso teriam que se separar por alguns dias. Resolveu ir ver Maria Lúcia. Não a encontrou e ninguém sabia informar o que aconteceu, apenas disseram que alguns homens saíram da casa em que ela estava e depois chegou uma ambulância que a levou. Santo Cristo decidiu entrar de vez naquela dança e brigar para valer, ligou para Clarisse e pediu para que ela confiasse nele e não o procurasse por alguns dias. Pediu também que rodasse os hospitais e descobrisse onde se encontrava Maria Lúcia, pelo seu verdadeiro nome Maria Madalena e que fizesse o que fosse possível por ela.

Depois foi para a casa de Pablo para elaborar mais uma vez seu plano santo e acabar com a raça do tal Jeremias. Santo se armou até os dentes e contratou seguranças para protegêlo e ficou a espera de uma oportunidade. Clarisse procurou fazer como João pediu, correu os hospitais atrás de Maria Lúcia e a encontrou no Hospital de Clinicas da cidade, obteve informação que ela passava bem, mas teria que ficar alguns dias internada no hospital. Clarisse a visitou na enfermaria, ela estava dormindo ainda muito sedada, providenciou para que ela passasse para um quarto pagando todas as despesas e no outro dia voltou a visitá-la. Olá, Maria Lúcia. Quem é você? Perguntou Lúcia. Sou Clarisse, vim a mando de João. Ele me pediu que cuidasse de você. Como ele está? Está vivo? Sim, claro. Tem algum motivo para que não estivesse? Não sei. Quem invadiu minha casa tem muita raiva do João. Quem invadiu sua casa?

-

Os comparsas de Jeremias, eles querem o João e por isso não me mataram, só me judiaram.

-

Você poderia me contar o que está acontecendo?

-

Claro, senta aí que a história é longa.

Clarisse sentou-se ao lado de Maria Lúcia que passou a contar toda sua trajetória com João. Disse que depois que se separou que conheceu Jeremias. Este se fez de interessado, a conquistou, depois veio a descobrir que ele queria era atingir João. Maria Lúcia brigou com ele que prometeu acabar com João e que ela iria ajudá-lo. Um mês depois ela se descobriu grávida e foi procurá-lo. Como negou ser sua informante ela fugiu por alguns dias, mas ele a encontrou. Não satisfeito voltou com três amigos e a surraram. Foi quando veio parar no hospital. Agora grávida, seu único desejo seria tirar o bebê. Clarisse ouvia a tudo com muita atenção e se admirava com a frieza com que ela falava. Tirar o bebê, como se fosse algo tão simples, tirar uma vida. Ela tentou convencê-la não fazer um aborto, tudo em vão:

-

Não faça isso, é uma vida que está dentro de você.

-

Vida? Quem se importa? Mais um pra sofrer neste mundo.

-

Quem sabe essa criança lhe dê razões pra se importar!

-

Você não sabe nada da vida, não é garota? De que mundo você veio? Já fiz cinco abortos e mais um não vai fazer diferença nenhuma.

-

Desculpe, pensei em ajudar. Você pode ajudar, avisando ao João sobre o plano de Jeremias. Ele tem quase todos os camaradas do seu lado, depois de que João, matou o vários da

homens

resto

cambada não quer se arriscar. Por isso ele não pode confiar em ninguém, somente no Pablo, por enquanto. Depois eu preciso sair daqui, eles virão atrás de mim. Quero fugir.

-

Tudo bem, mas primeiro vou falar com João e depois venho te buscar.

-

Não! Primeiro me ajuda a sair daqui, depois você fala com ele.

Sentindo o desespero em seu olhar, Clarisse resolve fazer da forma que Maria Lúcia lhe pede. Elas saem do hospital, tomam um táxi e seguem em direção a periferia, Maria Lúcia garante a Clarisse que não vão encontrá-la ali. Mas, antes de ir embora ela passa na farmácia e compra os remédios que Lúcia pede, dizendo que é por recomendação médica. A noite chega e nenhuma notícia de João, e ela não consegue mais disfarçar a ansiedade, anda de um lado ao outro de seu quarto, olha pela janela, observa algumas pessoas andando pela rua, que estariam pensando? Cada uma com seu destino e sua vida, em cada história... O telefone toca. É João. Ela certifica-se de que ninguém esta ouvindo sua ligação. Onde você está? É melhor não dizer, achou Maria Lúcia? Sim, a levei a um lugar seguro.

-

Como ela está? Bem... - murmurava ela com uma voz trêmula.

-

Eu preciso te ver Clara, mas tem que tomar cuidado para ninguém te seguir. Vá ao shopping Central as três e meia da tarde, suba até o terceiro piso de estacionamento, ande devagar, você vai me ver.

-

Eu amo você... Eu também te amo e seremos muito felizes depois que essa tempestade passar.

-

Um beijo...

Ela não conseguiu dormir bem durante a noite com tanta ansiedade e desespero diante da situação em que se encontrava, primeiro a solidão, depois o seqüestro e agora que tudo parecia bem, não sabia o que seria do dia seguinte. Entre temores e pesadelos o dia amanheceu. Chegou cedo ao Shopping, ainda faltavam alguns minutos. Visitou algumas lojas

e a cada instante parecia ver João entre as pessoas. Enfim o horário chegou, foi para o terceiro piso de estacionamento, assim que se distancia da porta de entrada, foi pega por um homem desconhecido que a jogou em um carro. Clara se desespera, imagina que caiu numa armadilha desse tal Jeremias, porém uma vez dentro do carro ela vê João. Que lhe sorri. Desculpe pela falta de delicadeza, mas foi necessário. Você está

correndo um grande risco ao meu lado. Precisamos conversar, pode ser em outro lugar? Sim, vamos sair daqui, coloque esses óculos escuros. Eu vou deitar no chão. Não é bom que alguém me veja. Já em outro local eles conversam sobre o que está acontecendo, Clarisse lhe passa sobre os planos de Jeremias e sobre o estado de Maria Lúcia. João sente muito que aconteceu com Lúcia e fica ainda mais revoltado.

-

Eu não devia tê-la deixada sozinha. Diz ele arrependido.

-

Não fale assim João. Ela sabe de muita coisa, eu devia imaginar que iriam atrás dela.

-

Agora já está tudo bem. E esse filho que ela espera do cretino? Se eu a conheço bem, ela vai se livrar dele de qualquer jeito. Clara, me prometa uma coisa.

-

Sim, João. Fique com ela o tempo que for necessário, não a deixe só. Por mim, por nós.

-

Sim João, eu ficarei.

Clarisse volta no dia seguinte à casa que deixou Maria Lúcia e a encontra desacordada e toda ensangüentada, no chão da sala. Com muita dificuldade a leva para o carro, depois ao hospital. Maria Lucia teve um aborto induzido por algum objeto pontiagudo que

provocou hemorragia, seu estado é grave. Disse o médico assim que acabou de socorrer Lúcia. Posso vê-la, doutor? Sim, mas por uns quinze minutos, depois ela deve descansar. No quarto, ela conversa com Maria Lúcia que está muito fraca. Clarisse me faça um favor. Sei que não vou estar aqui amanhã… Não diga bobagens. Você vai

melhorar. Vá até a minha casa, anote o endereço... Pegue uma chave que está dentro do pote escrito “pimenta” e abra uma escrivaninha que tem no meu quarto. Lá você vai encontrar uma Winchester 22 e alguns papéis numa pasta, creio que seja azul, não me lembro direito. Apanhe a arma e a guarde com você. É do João.

Quanto aos papéis, queime-os. Eles incriminam o João. Tome cuidado para que ninguém a veja. Eu farei isso e depois virei aqui pra ficar com você. Há dois dias os pais de Clarisse não a viam em casa e começaram a se preocupar. Assim que ela entrou em casa os pais a chamaram para uma conversa. Clara, como você está abatida, querida! Disse a mãe. Impressão sua mãe. Nada disso garotinha, o que você anda aprontando que não pára mais em casa? E os estudos? Há dias que não vai ao cursinho. Papai. Estou procurando trabalho e por isso ando correndo. Você não precisa trabalhar. Mas, eu quero conseguir alguma coisa pelo meu próprio esforço,

prometo que amanhã eu volto para o cursinho. Quero só ver.

A noite passa num instante e logo quando amanhece o dia, Clara sai para a casa de Maria Lúcia para executar o que ela havia lhe pedido. Na casa, ela encontra muitas fotos de João numa gaveta da estante que estava meio aberta, ela observa as fotos e percebe neles um casal feliz. Havia uma história ali. E agora, o que restou? Será que o destino o enviou para ela? Perguntas… Ela sobe a escada e vai até o quarto já com a chave na mão, abre a escrivaninha e retira a arma que está em uma pequena maleta e os papéis, desce até a cozinha e ali mesmo os queima sem querer saber do que falam, restando um último papel. A curiosidade lhe invade e ela o lê, descobre que seu pai liberou um carregamento e compreende o porquê foi seqüestrada, ela põe fogo no último papel e escuta uma sirene da polícia chegando, ela sai pelos fundos sem ser vista. Assim que chega novamente ao hospital, recebe a noticia que Maria Lúcia acabara de falecer. Ela procura por João, mas não tem a menor idéia de como encontrá-lo. Desconsolada volta para casa. Clara aguarda ansiosa por um contato de seu amor.

Preocupada se ele ainda estaria vivo. Lia todos os jornais a procura de notícias e nada. Duas semanas se passaram e nenhum contato, ela já sente a solidão bater a sua porta. O telefone toca. João? Alegra-se Clara. Clara, meu amor. Preciso te ver, estou morrendo de saudades. Claro, onde nos encontramos? No shopping, só que desta vez vou deixar o carro do lado de fora. Você já conhece o motorista, lembra dele? Como poderia esquecer alguém tão delicado. Responde ela em tom de ironia. Os dois se encontram e ela lhe conta sobre Maria Lúcia, João fica triste. Ele está magro e abatido. Conta a Clara seus dias contra Jeremias e avisa que terá um duelo entre eles. Clarisse fica nervosa com a revelação e chora.

-

E o que me prometeu? Os filhos, a tranqüilidade... Chora.

-

Calma, Clara. Assim que tudo isso acabar eu prometo que vamos nos mandar daqui.

-

Porque tem que ser assim? Agora eu quero que você se

mantenha forte. Fique bem junto de mim, preciso sentir você, me abraça. Agora ela estava envolvida pelos braços de seu santo protetor, sentindo seu calor, seus dedos deslizavam por seus cabelos e os lábios tocavam sua face com suavidade. Como poderia resistir àquele sentimento, nada a impediria de ser feliz e ela se entregou aos seus carinhos amando-o intensamente até caírem exaustos... Eles passam a noite juntos e ao amanhecer eles acordam com o barulho dos carros de policia que se aproximam, fogem correndo sem serem percebidos pelo policiais que já cercavam a casa. No meio do bosque, Clara não agüenta mais correr e se despede de João que não tem outra saída a não ser deixá-la ali.

-

Vá João, me deixe aqui. Vou só te atrasar. Lamenta Clara.

-

Não,

venha

comigo.

Vamos

conseguir! Melhor do que a força é a razão. Nos separamos agora para nos unir depois. Eu amo você.

Assim que ele toma o caminho do parque e some por entre as árvores, dois policiais chegam e a encontram no chão se refazendo do esforço. Você está bem? Pergunta um dos policiais. Sim, um homem me empurrou no chão e saiu por ali. Disse ela indicando o caminho contrário ao que João tinha seguido.

Os policiais saem em outra direção, facilitando assim a fuga de Santo Cristo.

Duas noites depois Clara senta–se em frente da TV para ver o jornal quando vê uma reportagem sobre uma festa num dos parques da cidade e neste vídeo ela reconhece o motorista que estava com João. Ele aparece ao fundo, como um mero espectador. Ela apanha winchester e saí. O parque estava repleto de pessoas. Algumas estavam com bandeirinhas na mão. Um sorveteiro passa assobiado. Fazia muito calor. Clarisse caminha por entre a multidão, observa cada expressão em cada rosto. Sentia que aquele ali não era seu lugar. Precisava fazer alguma coisa para evitar que João fosse preso ou coisa pior acontecesse. A multidão silencia. Há uma briga em andamento. Por um lado aparece Jeremias e do outro João, eles discutem. João de Santo Cristo. Enfim, você apareceu! Quem tá vivo sempre aparece, não é assim que se diz? É. Jeremias sorri com maldade vertendo pelos olhos.

-

Só vim aqui para dizer a essa gente quem é você. Alguém que mata criancinhas molesta mulheres...

João é interrompido com um tiro dado para cima, por Jeremias. Suas palavras não valem nada. Não sou eu que tenho um bonito nome e agora sou procurado pela polícia. Não me importo. Se quiser fique com tudo. Não quero mais brigar. Perdi muitas pessoas importantes por uma coisa que não vale nada. Santo Cristo dá as costas ao traficante mostrando que não se importa com ele, Jeremias levanta a arma e mira nas costas de Santo Cristo. Clara que percebe o movimento de Jeremias corre para proteger João, entrando na frente da mira de Jeremias. Acaba baleada. Clarisse coloca mão no peito e olha para o céu, não há nuvens. Ao retirar a mão do peito percebe o vermelho do sangue em seus dedos. Seus olhos se enchem de lágrimas e ela devagar vai sentando no chão se apoiando. Não sente dor, apenas um calor

subindo pelo corpo. Uma vontade de gritar, mas reprime esse grito, que ecoa dentro de si. Quando João se vira reconhece Clara caída no chão com a Winchester 22. Ele a socorre e em seus braços Clara ainda pronuncia algumas palavras: João... Te amo... João… Claraaa!!!! Grita João.

João olha pra pessoas que estão ali, observa seus olhares de piedade. Muitos não entendem o porquê de tudo isso. Depois olha para Clara caída em seus braços, lembra de quando se conheceram e quando juraram amor eterno um ao outro. Esta é a terra-de-ninguém, eu sei que vou resistir. Eu quero a espada em minhas mãos. Santo Cristo apanha a Winchester. Jeremias, eu sou homem. Coisa que você não é eu não atiro pelas costas, não. Olha pra cá. Dá uma olhada neste sangue e venha sentir o teu perdão. Com a Winchester 22, Santo Cristo disparou cinco tiros no bandido. O povo

aplaudiu suas palavras. Alguns se emocionaram com a cena. João se ajoelha ao lado de Clarisse e lembrou-se de quando era uma criança e tudo que viverá até ali e chorou. A sirene dos carros de polícia anunciam o final da história. Os policiais afastam o povo. Sem resistência João se entregou. Enquanto aguardava no carro, ele olha para o corpo de Clarisse caído no chão. Com um pano branco, um policial a cobre. Januário e sua esposa não acreditavam no que via na TV, sua filha Clarisse que eles não conheciam.

OUTRAS ESTAÇÕES
Meses depois… O céu estava avermelhado, algumas aves voavam e pareciam fazer parte do cenário, assim como uma pintura. As ondas iam e vinham com força empurradas pela brisa marítima fazendo respingar gotículas de água com gosto de lágrima. João passeia pela praia. Está solto e responderá em liberdade pelo crime em legítima defesa da honra. Sobre o tráfico, nada ficou provado. Ele pensa nos seus sonhos, os que nunca teve, a não ser quando conheceu Clarisse, que lhe mostrou um sentimento admirável que nunca experimentara antes e que agora esta tão distante de seu coração. Sentindo um frio na alma que se confunde com o frio da água do mar ele ajoelha-se na beira da praia e olha para o céu, seus olhos brilham e deles vertem lágrimas que doem, uma dor intensa e então grita: Clarisse!

Chora com toda sua força, como nunca havia chorado em sua vida, agora, sem vida … Não aceitamos a vida, não aceitamos,

nunca aceitamos nada. Porque vivemos? Para que vivemos? O tempo passa e nosso livro vai se enchendo de palavras vazias e coisas inúteis, cada página não diz nada e no final: nada valeu ou poderia ser diferente. Quantas páginas terão? Existirá outra Clarisse? Existirá outro João? A história acabou? Não sabemos. “Por que você se foi. Antes fosse eu”. Grita João.

A figura daquele homem sentado na praia, com a cabeça encostada ao chão, chorando como uma criança, lembrava um quadro. Uma seqüência de quadros. Levanta, observa o mar e o escuta. Olha para a areia e vê um cavalo marinho trazido pelas ondas. Ele sente que Clarisse de algum lugar mandou uma resposta. Ele apanha o cavalo marinho e sai caminhando pela praia e sua figura vai sumindo ao longe, sem destino ou para onde o destino o levar… De tarde quero descansar, chegar até a praia Ver se o vento ainda está forte E vai ser bom subir nas pedras. Sei que faço isso para esquecer Eu deixo a onda me acertar E o vento vai levando tudo embora

Agora está tão longe Vê, a linha do horizonte me distrai: Dos nossos planos é que eu tenho mais saudade, Quando olhávamos juntos na mesma direção. Aonde está você agora Além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer Foi só o tempo que errou Vai ser difícil sem você Porque você está comigo o tempo todo. E quando vejo o mar Existe algo que diz: "-A vida continua e se entregar é uma bobagem." Já que você não está aqui, O que posso fazer é cuidar de mim. Quero ser feliz ao menos. Lembra que o plano era ficarmos bem? "-Ei, olha só o que achei: cavalosmarinhos." Sei que faço isso pra esquecer Eu deixo a onda me acertar E o vento vai levando tudo embora

DIÁRIO DE CLARISSE

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Quando estou sozinha me sinto diferente das outras pessoas,

parece que todos reparam em mim como se fosse algo que destacasse, como que brilhando “estou aqui”. Já passei por várias fases na vida. Não que eu seja tão velha ou muito vivida, mas pude perceber que fui várias pessoas diferentes em cada episódio. Quando tinha uns doze anos era tímida e me escondia de todos, na escola tinha vergonha de conversar com as pessoas e para disfarçar usava óculos sem grau o tempo todo, isso fazia com que me sentisse por de trás do foco das pessoas a minha volta. - Quer um pouco de vinho? Desculpe, que pergunta... É claro que não você

não faz parte do meu mundo, muito menos eu do seu e, ao mesmo tempo precisamos um do outro para existir. Isso não é interessante? Eu não viveria se não tivesse você, leitor. E você não seria feliz se não me tivesse. Sabe que não sou tão diferente de você assim. Tenho uma personalidade e como você,

também tenho dificuldades de lidar com essa personalidade. Sou muito exigente comigo mesma, aos

dezessete anos eu imaginava que o fim estava próximo… coincidência ou não, estava mesmo. E no fundo eu nem queria que fosse o fim. Sabe, quando você se sente só em meio a uma multidão? Com certeza já passou por isso. Eu acredito que todo mundo passa por momentos de solidão, mas comigo isso foi muito forte… cheguei a desejar a morte.

Alguns pensam que as pessoas são exageradas quando cometem

suicídio, ninguém imagina o que passa dentro de um coração suicida. Claro, ninguém quer ser um suicida, nem o próprio suicida. Bem, eu tive sorte escapei desse momento por um triz. Foi meu irmão que me salvou, mas fui eu mesma que consegui sair daquela depressão. Contei com a sorte é claro. Nasci em 1985. Nessa época o país já estava caminhando para o que é hoje: uma porcaria. Nasci no meio de uma década de liberdade de expressão e os jovens queriam algo mais, buscavam algo mais. Ainda estavam extasiados com os reflexos da década de setenta, meus pais viveram setenta, a juventude ouviam nos anos

eles

Caetano,

Roberto Carlos, Gilberto Gil… meu

pai era fã de Geraldo Vandré e lia muito, principalmente o que era proibido. Minha mãe... Sei lá… Ela nunca me falou como foi a sua juventude, talvez fosse fútil. Nós não conversávamos muito, sempre

fomos diferentes, acho que ela nunca se orgulhou de mim, mesmo porque não tinha do que se

orgulhar, não desenhava árvores e sol para ela, nem colhia flores para presenteá-la, se eu tivesse uma irmã… quem sabe não seria

diferente, mas não! Tive um irmão, quatro anos mais novo que eu. Sempre gostei de cuidar dele e percebi desde muito cedo que era muito diferente de mim. Até o tom de voz da minha mãe mudava quando falava com ele, além disso, até os oito anos ele gostava de dormir com ela e fazia um berreiro

quando meu pai encasquetava de não deixar. Eu nem me lembro se algum dia eu dormi com a minha mãe, talvez eu fosse muito pequena e por isso não me lembro. Eu escutava do meu quarto as palavras doces de consolo que minha mãe falava para meu irmão e, depois de muito conversa ele ia para cama. Não sentia ciúme, porém sabia que ele era mais bem tratado do que eu. Sei que não era mais amado do que eu, porque minha mãe dizia que nós éramos como fosse um de seus dedos, qualquer um que perdesse faria falta. E compreendia que ele precisava de mais mimo e eu já era mais madura para dormir sozinha. Era eu e o silêncio, ah!!!! E a

escuridão! A escuridão do meu quarto. Nunca tive medo de ficar no escuro, me acostumei, meu nome já

possuía

luz

o

suficiente

para

iluminar meus pensamentos: Clara. Assim que meus pais me

chamavam. Na adolescência tive poucas amigas, eu considero

colegas. Sabe a diferença dessas expressões, não é? Pois posso dizer que tive colegas, não me aproximei muito dessas crianças, que como eu estavam em constante mutação. Tanto de personalidade quanto de forma. Forma física. Mas, eu tinha um segredo que ninguém nunca soube. E vou lhe contar agora. Você deve estar pensando como uma garota como eu aprendeu sobre a vida se não tinha amiga e nem conversava com sua mãe, coisas básicas para ser um indivíduo. Como outro qualquer ”normal”. Meu pai tinha uma mini biblioteca, a qual era proibida o acesso, de tanto

ciúme ele tinha de seus livros. Nem sei quantos cinemas deixou de ir para comprá-los. Eu entrava a noite na sala proibida e lia alguma coisa. Às vezes eram interessantes, outras nem tanto, mas lia assim mesmo. Era um momento em que me sentia livre para ser eu mesma,

conversando com os livros que não me contestavam nem me punham a prova. Apenas me diziam o que tinham para me dizer. O que eu entendia era por minha conta, para eles (os livros) o que eu pensava era de minha responsabilidade, a qual eles não queriam ter a menor idéia. Assim que eu fechava um livro, passava a pensar no que me dissera, isso mesmo, me dissera, porque eu ouvia os livros. Só um momento, que vou encher minha taça de vinho. Voltando à sala

proibida. Muito do que eu sei adquiri lendo os livros de meu pai. Não sei se foi essa leitura precoce que me levou a ser tão só ou tão autosuficiente. (Risos) E você leu

alguma coisa quando adolescente? As maiorias dos adolescentes não gostam de ler, porque isso lhes parece uma obrigação, pobre dessa juventude… No tempo do meu pai parece que os adolescentes eram mais responsáveis, vi alguns livros dele do ginásio que continham textos difíceis e exercício e mais exercícios, todo completo com uma letra perfeita de quem gosta de tudo ordenado. É a cara dele. Todo esse empenho do meu pai que levou ele a ser um grande profissional. Ele estudou várias línguas. Conhece muito da legislação de vários

países, faz parte do seu dia a dia.

Considerando que a grande maioria do Brasil mal sabe falar a própria língua bem. Ele é realmente um grande homem. Sorte da minha mãe que pode ter uma vida tranqüila e se dedicar às atividades que toda mulher sonha: Salão de beleza e administração de empregada, ou melhor: secretária, assim é mais sofisticado. Sofisticação sempre foi o lema dela. Ela fez vários cursos de etiqueta e outras bobagens…

também não posso culpá-la, para a sua realidade isso é importante. Até para o seu mundo é. Como você pode perceber eu sou tão imperfeita e problemática como qualquer ser humano. E, além disso, tenho traços de várias pessoas porque fui criada de uma mente humana que

condensou em mim, muito do que ela própria queria expor para o

mundo.

Mesclando

outras

experiências, porém o que ela não contava que eu teria uma

personalidade tão forte. E que sairia de seu domínio. Num determinado momento não era mais os seus sentimentos que estavam moldando a personagem e sim eu mesma. Já criada, eu a levei escrever sobre mim e não ela mais que escrevia sobre mim. É complicado, mas foi assim que aconteceu e agora estou aqui, conversando com você… Mais um pouco de vinho? Já nem sei o que estou falando… (risos) o vinho me entorpece como fosse droga. Gosto da cor vermelha,

principalmente assim diante da luz da vela, se torna ainda mais

sedutora… Humm! O gosto é divino, não é à toa que Dionísio, o deus do vinho, era pura sacanagem.

Realmente o vinho nos leva a uma viagem, mas tem que ser assim como eu, que o saboreia, gole a gole, sorvendo seu néctar. permitindo que percorra E

minhas

veias em lugar do meu sangue… e aos poucos o corpo aquece e se torna em brasa. Os olhos brilham. A voz fica macia e sensual, e o riso brota como água em uma vertente. A vida passa a ser feliz e não estamos mais naquela realidade e sim dentro de nós mesmos. Somos nós mesmos e felizes. As

sensações são mais lentas e a mente fica livre de preconceitos e de complexos… passar dessa Opa!! fase Cuidado então se nos

deparamos com nossas tristezas, guardadas nas profundezas do ser. E ai o paraíso se transforma em abismo e você já sabe, em vez do

riso vem o choro, ou a briga. E daí para frente quanto mais se toma de vinho mais para o fundo de nós mesmos vamos. E mais um pouco não sabemos nem mais o que estamos fazendo. E não somos mais responsáveis por nada. São os dois lados da mesma moeda. É assim para todo mundo, até pra você. Eu não sou ligada em drogas, tomei algum tempo antidepressivos que nada resolviam a não ser em me deixar mais longe da minha realidade. Minha psicóloga tinha mais problemas que eu. Minha psiquiatra, no fundo, não se

importava se eu estaria bem ou não no dia seguinte. Certa vez eu cheguei no consultório e não falei nada, não abri a boca para nada. Não queria falar. Queira somente olhar nos olhos dela e me ver em

seus sentimentos. Coitada, ficou nervosa. simpática Eu sempre com ela. fui muito Então

permanecemos ali paradas uma olhando para a outra por quarenta minutos, ao final da consulta ela olhou para o relógio e disse < Ah! Sinto muito, já mas deu temos o que

encerrar

horário,

continuamos no próximo encontro.> Eu me levantei e sai normalmente. Não consegui me ver em seus sentimentos e nunca mais voltei lá. Ela também não me ligou para saber porque eu tinha desistido. Esses profissionais não podem nos ajudar se nós não queremos ser ajudados. Naquele momento eu não queria ser ajudada. Não daquela forma e passei a me entregar aos antidepressivos. Tomava sempre

além da dose recomendada pelo

médico. Assim minha vida passava e eu nem percebia. Mas, percebia, porém que os remédios não me tiravam da solidão, nem tão pouco me proporcionavam bem estar.

Tudo para mim era motivo para achar que o mundo não presta. Eram as guerras, o comercio, o capitalismo, a política, enfim tudo que estava a minha volta. Parei de assistir televisão porque ela me enojava. Aquelas cenas absurdas, retratando uma falsa realidade, um mundo fora do alcance de muitos. Sem contar o afastamento da

família. Parece uma pseudo-união, porque os familiares se reúnem para ver uma novela Domingo é dia de passear no parque, visitar os

amigos. Viver a vida. Não de ver TV. Eu sou nacionalista embora nosso cinema ainda esteja fora do alcance

de muitos. Também, em um país que a educação esta sendo a cada dia desvalorizada, o que podemos esperar? Eu sei que muito esta sendo investido em educação, mas precisa muito mais! Precisamos

desenvolver a capacidade do ser humano de pensar. Mas isso pode nos libertar quanto nos aprisionar. Eu li no jornal uma frase muito interessante do Gilberto Dimenstain “Quem acha cara a educação,

deveria experimentar o preço da ignorância”. Bem, mas isso é uma outra história, voltemos ao vinho. Só mais um pouquinho, meia taça. O que você acha da beleza? Para você a beleza é relativa? Não se põe na mesa? Eu não sou bonita, não como gostaria de ser. Poderia ter mais corpo, talvez um quadril maior. Quem sabe cabelos mais

volumosos. Isso para mim nunca tinha sido muito importante. Só que, quando entrou um “carinha” na história, confesso que me senti mal quando o cara preferiu minha amiga a mim. Ela era muito bonita e aí eu me senti feia. Isso vai de estado de espírito, um dia passeando pela praia eu vi muitas mulheres

desfilando pela areia como fossem musas ao lado de seus pares e pensei: < O que leva uma pessoa a ficar com outra? > Quando eu encontrei alguém por quem me apaixonei com tamanha intensidade, que não me preocupava mais com o meu corpo. Por quê? O que senti era mais que um gostar de alguém. Quando se gosta, analisa-se o estético, quando se ama, analisa-se o que não se pode ver com os olhos do corpo físico e, sim com os olhos

do coração: a alma. Sentia-me feliz só por existir. É algo muito louco. Da noite para o dia eu me transformei. Foi aí que percebi que não me conhecia. Até esse momento eu conhecia a Clarisse triste e sozinha. A incompreendida, a melancólica e frustrada. De repente vi abrir, bem diante de mim, o raiar de um maravilhoso dia. Que nem em sonho podia imaginar que existisse. Eu posso dizer que amei e o amo ainda. Nossa história será

eternizada nas páginas do livro dos dias. Não me arrependo de nada que fiz e faria tudo de novo. Morreria de novo por ele e, tenho certeza que o faria o mesmo por mim. Eu virei a estrela. Ele foi a razão de meu existir e no final roubei a cena. No final, eu fui o João de Santo Cristo e o João foi eu. Na verdade, todos

temos um pouco de João. Tomei vida própria e liderei a história. Só não pude evitar meu fim. Quando fui criada, não passaria de 18 anos. Isto estava certo. Tanto que não existe uma Clarisse mãe, avó ou visitando o irmão e a cunhada. As páginas depois de dezoito anos estão em branco e, em branco permanecerão. Tudo o que foi a Clarisse se acaba aos dezoito anos. Tenho certeza que um dia minha criadora se arrependerá de ter sido assim… mas como na vida real, as coisas acontecem e muitas vezes não tem volta. Eu sabia que ia morrer. Quando apanhei aquela

winchester, senti um frio na alma e a partir daquele momento fazia as coisas como se não tivesse outra opção. E não existia. Sabia que o fim estava próximo, mas não queria

acreditar nisso. Quando senti a bala perfurando meu corpo ainda achava que ia ficar tudo bem. Sentir rasgar a pele e, de repente, tudo ficou em silêncio, toda aquela multidão se calara. Como numa cena de filme. Nem senti cair ao chão, não sentia meu corpo. Não esqueço a

expressão no rosto de João quando me ergueu em seus braços. Ele olhou em meus olhos e pude me ver nos seus. Tive a certeza que ele me amava. Só consegui dizer: <Te amo.> O sentimento amor foi a essência que ficou de nós dois. Ele ficou preso no livro dos dias, no livro de Clarisse. Talvez um dia se liberte dele. Assim como você talvez um dia se liberte das lembranças que te prendem num andar abaixo. No momento é o que eu tenho pra contar. Espero que tenha sido de

alguma valia, porque é pra isso que criam personagens como eu, é para isso que compõe músicas e

escrevem livros, porque viver é “foda” e morrer é difícil. Quero viver a minha vida em paz e por isso te contei tudo isso.

Clarisse, 02/08/2003.