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Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________

O MESTIÇO QUE É NEGRO. CULTURA E RESISTÊNCIA EM TENDA DOS MILAGRES

Antônio Carlos Monteiro Teixeira Sobrinho (PG – UNEB)

Introdução Há uma tendência, entre os meios acadêmicos e políticos nos quais se discute a questão racial atualmente no Brasil, a abandonar a noção de mestiço em prol de uma categorização bipolar entre brancos e negros, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos. Supõe-se, de forma geral nesses estudos, o mestiço como algo que coaduna uma perspectiva ideológica racista de combate à população negra através do branqueamento de seus pares e do sistemático apagamento de suas características ancestrais africanas, sejam físicas ou culturais. Por conta disso, discutir mestiçagem é, antes de tudo, entrar em um campo problemático, polêmico, repleto de reviravoltas, afirmações e negações; paixões e identidades. Um campo no qual cada palavra pode ter – e tem – mais de um sentido, às vezes plenamente antagônicos, a contar primeiro pela própria palavra em si, mestiçagem, e, principalmente, por quem a usa. Deste modo, é importante que se frise, desde cedo, que não é intenção deste trabalho retomar as concepções raciais freyrianas. Não há, aqui, defesa alguma da mestiçagem como um porto seguro em que fora possível, algum dia em tempos idos, pacificar as realidades raciais em nosso país. Entretanto, não cairemos no reverso da moeda de obliterá-la. Entendemo-la como uma importante realidade histórica – em que lhe pesem todas as violências e todos os abusos que lhe deram suporte durante os séculos de formação – com sérias implicações políticas e identitárias, assim como desdobramentos os mais diversos. É, pois, objeto de nossa análise, no âmbito restrito deste trabalho, um destes desdobramentos, a saber: os usos da noção de mestiçagem por Jorge Amado em Tenda

Assim. nos é permitido afirmar que a identidade possui um caráter de resistência e luta diante de um contexto que lhe é desfavorável. e de interação com o seu entorno complexo e heterogêneo – a sociedade de forma ampla e global na qual ele se inscreve. o personagem Pedro Archanjo.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. neste trabalho. buscando evidenciar que em sua mestiçagem não há branqueamento posto que sua identidade é. negra. em seu sentido histórico. Sua base é muito mais da ordem do cultural. de resistência ideológica. geralmente de contestação do status quo. a mestiçagem como um processo histórico que. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . dos processos de socialização a priori do indivíduo. a identidade mantém um diálogo íntímo com a sociedade e. para o bem ou para o mal – se é que podemos ser tão maniqueístas assim – faz parte da realidade brasileira e da qual não podemos fingir sua inexistência e a identidade como um constructo cultural e político de afirmação de uma resistência. Compreendendo. Assim. a cor da pele é distintivo mais loquaz. Entendemos que a identidade se dá por critérios outros que não os raciais. Pouco importa a origem do sangue que corre entre as veias. de contestação. se formou através de um intenso processo de miscigenação. embora nem Por atitude política entenda-se um processo de auto-afirmação social. mas não necessariamente partidária 1 . mas o olhar de quem o comete. pois. analisamos. dentro de um determinado grupo mais ou menos homogêneo e restrito no qual ele é criado. quando afirmada em oposição aos conflitos subjacentes à própria dinâmica social. 9. Nesta mesma linha. se africano. traz em seu bojo uma atitude política 1. O que se coloca em jogo quando a discussão gira em torno de questões raciais não é o genótipo de quem sofre o preconceito. do romance amadiano Tenda dos Milagres. acima de tudo.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ dos Milagres (1969) e as relações identitárias que deles decorrem a partir de duas vertentes: a cultura e a resistência. 2 A mestiçagem de Pedro Archanjo. se é verdade que o brasileiro. se vistos isoladamente. europeu ou mestiço.

Construiu uma ideologia em torno do mestiço como aquele que integraria as raças no país.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Não é exagero afirmar que a obra de Jorge Amado chegou a ser rejeitada por duas razões contrárias: de um lado. Ao chegar a esta afirmação. Em outras palavras. seja na pele clara ou na cor da cultura. em Jorge Amado. 9. a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos. 3) vai ao ponto quando escreve Nos anos setenta. Nesse sentido. tanto do ponto de vista político quanto cultural. p. O mito da democracia racial “acolheu” a todos sob si. é igualmente verdade que este fato. setores envolvidos com questões raciais apontaram a valorização da mestiçagem no universo de Jorge Amado como mistura impura. do outro lado. O que poderia propor uma continuidade dos processos de produção de não-existência social do negro. [.] De um lado e do outro. o mito da pureza étnica gera segregações. defina a si mesmo como mestiço. a idéia de uma plena e já instaurada democracia racial no Brasil apresentou-se politicamente como uma estratégia de apagamento do negro. pulsante da ausência de racismo.. aparentemente contraditória. emblemático que Pedro Archanjo. não conseguiu amainar a mentalidade racista sobre a qual a estrutura do estado brasileiro se ergueu. prova material. No Brasil. Entretanto. personagem central de Tenda dos Milagres. arianos e quase-brancos não toleravam a elevação do negro e do mestiço à categoria mítica de herói incondicional (vendo na exaltação da mestiçagem a apologia de raças até então ocupantes de espaços exclusivamente periféricos). deixando-se levar apenas pela noção de branqueamento que lhe seria invariavelmente subjacente. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . o mestiço que se destaca no interior deste mito não contempla a porção negra em que nele há. cumpre o papel oposto e lhe representa. . é importante que se situe de forma exata o que esta noção de ser mestiço significa na obra em análise e. neste trabalho já que muitos dos que criticam a obra amadiana por conta de sua visão racial não percebem o contexto a partir do qual a mestiçagem aparece em seus textos.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ sempre pacífica. esta obra [de Jorge Amado] conheceu verdadeiro massacre. os feitores da pureza africana desconfiavam da construção romanesca de uma civilização negro-mestiça (vendo na mestiçagem o embranquecimento). mas tão somente uma aproximação forçada ao máximo do padrão europeu. Seixas (2006. ou como apagamento da pureza racial negra. no entanto. Acaso mestiço no dizer sobre si. por si.. Archanjo é identitariamente negro. por extensão.

Desta forma. responsabilidade.. arcabouço simbólico de uma . Porque mestiçagem. 9. como disse. Se tomarmos. através destas duas palavras proferidas por Archanjo a sua relação com o candomblé. p. Mestiçagem não implica fim do racismo. p. da crueldade. mas negro. em conjunto com a citação de Risério. . Mas constatar essas coisas não é o mesmo que fazer de conta que a mestiçagem não existe. meu ilustre professor. (AMADO. tenho do negro e do branco. Compromisso. não é sinônimo de congraçamento ou de harmonia. Nasci no candomblé. o que possibilita que esta aparente contradição não o seja é o fato de Archanjo compreender-se mestiço. E melhor prova disso é o Brasil. como fica evidente na fala do próprio Archanjo. Tenho um compromisso.. estou me referindo a um processo biológico e ao reconhecimento social e cultural da existência e dos produtos deste mesmo processo [. temos que não há contrasenso imanente algum entre a mestiçagem. se tomado como um exemplo da realidade histórico-racial de formação do povo brasileiro. 65-6) nos ajuda a lançar luz sobre a questão ao posicionar-se sobre a temática da mestiçagem. a literatura amadiana não o faz com o propósito de desreferenciar a sua ancestralidade negra ou. antagonismos. Risério (2007a. cresci com os orixás e ainda moço assumi um alto posto no terreiro. em atitude resistente de luta. da violência. sou branco e negro ao mesmo tempo. de negar a existência de preconceitos raciais na sociedade brasileira. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . para quem “é necessário lembrar que o que une os negros transnacionalmente é a experiência do racismo e da opressão”. conflitos. dentro de uma sociedade que oprime sua identidade e os referentes simbólicos que a constituem. confrontos. [.] País onde há momentos em que o apartheid se sobrepõe brutalmente ao padê. muito menos. contradições.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Ao enfocar o mestiço. 1971.]. uma responsabilidade. por si própria.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. e uma identidade negra que funde no sujeito uma consciência dos processos de opressão aos quais é submetido cotidianamente. Mestiçagem não significa abolição de diferenças. Sabe o que significa Ojuobá? Sou os olhos de Xangô. aqui.. Percebemos. 107) como referência.Sou um mestiço. 316). p.. Quando falo de mestiçagem.. Pinho (2004.

posto que Ojuobá. manteve-se no Brasil no adepto ao candomblé. sem usá-lo em prol de sua comuidade. perceber e saber. “os princípios e valores religiosos perpassam a vida do africano 2 de tal modo que ele vive em estado de constante tensão dialética entre o mundo imanente e o transcendente”. por isso. plasmando os contornos da identidade do negro no Brasil. “Não é para isso que tu é Ojuobá”. pode-se inferir que a mesma relação que o africano tem em relação à sua prática religiosa.o candomblé é uma fonte permanente de gestação de valores e de promoção sócio-cultural que se sobrepõe à dimensão cultural-religiosa strictu sensu. a sua base. os olhos do rei Xangô. 14) é elucidativo nesta questão. defensor de sua casa e de seu 2 Sendo o candomblé uma recriação do modo de ser no e compreender o mundo tipicamente africano de base jeje-nagô. p. 163) a um Archanjo em submissão respeitosa à sua autoridade e sabedoria incontestes. como já o escreveu Luz (2003. Braga (1992. ter o conhecimento de algo e guardá-lo em um relicário só para si. diz a Iyalorixá Majé Bassã (AMADO. Ver e se calar. o fato de Mestre Pedro ser filho de Exu (AMADO. Como Ojuobá. 98) e também o de ser Ojuobá da casa de Xangô. como visto em sua fala supracitada.. não obstante declarar-se mestiço. 3 Mundo material . particularizam e imprimem sua marca no patrimônio cultural do país. posto que negra é a sua cultura. de seu povo.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ ancestralidade africana recriada na Bahia. 9.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Pedro Archanjo entende a si mesmo a partir do candomblé. p. 1971. Neste sentido..] o candomblé não representa tão somente um complexo sistema de crenças alimentador do comportamento religioso de seus membros. Archanjo sabese antes negro. [. E. Escolhido pelo rei de Oyó para ser os seus olhos no aiyê 3 e. Este saber-se negro antes de qualquer outra denominação reflete-se na responsabilidade da qual Pedro Archanjo se vê revestido. na essência. é papel de Archanjo ser o primeiro a ver. 1971. é o mesmo que não o ter. Ele constitui. p. No entanto. 92). põem em evidência que. uma comunidade detentora de uma diversificada herança cultural africana que pela sua dinâmica interna é geradora permanente de valores éticos e comportamentais que enriquecem. base de formação de uma identidade negra no Brasil. p. o local do qual ele veio e a partir do qual se reconhece e afirma. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . diferentemente de outras formações religiosas. pois.

recebeu justa homenagem” (LEITE. já conversamos a respeito. o maior dos assassinos da escolta de Pedrito Gordo é o primeiro a avançar contra os poucos presentes no Axé 6. resistência do outro. é sintomático que o confronto final entre Pedrito Gordo. p. Ojuobá não foge ao seu destino e se faz presente em todas as instâncias de luta por uma resistência física e cultural negra. 9. mas é um agente de resistência desta mesma cultura. encontrou pela frente Pedro Archanjo. decide-se. Ameaças de um lado. Exu. É nesse sentido a sua afirmação . Ojuobá. de volta do horizonte penetrou na sala. Contam que. com o delegado Pedrito. p. delegado auxiliar que entre os anos de 1920 a 1926 promoveu uma intensa perseguição aos candomblés soteropolitanos. assim como para uma identidade negra. 21). Pedro Archanjo não é apenas portador de uma cultura. 2008. e a população negromestiça se dê em um terreiro de candomblé.Estamos numa luta. heroi do povo negromestiço soteropolitano. 5 Pai – de – santo real e de extrema importância na vida de Jorge Amado.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ povo. Zé Alma Grande. 317). Pedro Archanjo. O senhor sabe disso. em uma adaptação do termo Ilê Axé. então. nossa fisionomia. sem muito pensar. ir a um candomblé era o maior perigo. quando à chegada do delegado auxiliar e seus capangas. o caçador. 6 Usado aqui como sinônimo para terreiro. negros e mulatos. diminuiu.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Exu! Foi tudo muito rápido. . sendo o primeiro a lhe dar um título. O toque dos atabaques conduzia a dança de Oxóssi. terror dos negros da cidade. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . Ojuobá disse: Laroyê. Esta relação entre cultura e resistência fica melhor explicitada ao analisarmos a cena em que Pedrito Gordo 4 é expulso do terreiro de Procópio 5 ao qual tinha ido com a intenção de destruí-lo. Ainda há pouco tempo. (AMADO. possuímos. o cidadão arriscava a liberdade e até a vida. nossos bens. nessa hora exata. Veja com que violência querem destruir tudo que nós. ogã. ou o próprio Exu 4 Referência a Pedro Gordilho. no romance Tenda dos Milagres. O delegado auxiliar. Quando Zé Alma Grande deu mais um passo em direção a Oxóssi. presente em todos os raios de ação em que este povo busque justiça. Mas. cruel e dura. 1971. pela violência. “O citado babalorixá destacou-se na resistência contra a perseguição aos terreiros de Candomblé da Bahia e. sabe quantos morreram? Sabe por acaso por que essa violência diminuiu? Não acabou. Por indispensável à sobrevivência de padrões culturais africanos em solo brasileiro.

ao sentenciar publicamente o seu algoz. 308-11) em que um dos acompanhantes de Pedrito. teria “dado santo” na casa de Procópio. viabilizada pela resistência heróica do candomblé. 40) [. Ela simboliza a vitória do povo negromestiço contra a violência institucional racista. em favor do povo oprimido dos candomblés. A voz se abriu imperativa no anátema terrível.. p. Pedrito Gordo. 9. com novo vigor. sem sombra de dúvidas. da guerra santa. Temos dois pontos a marcar na cena descrita acima.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. na objurgatória fatal! . 30).. com as palavras mágicas com forte poder de transformação [. homem de toda confiança. Outras informações pessoais já contam que o próprio delegado teria “dado santo”. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . e até atentado contra o próprio delegado. por si só. virou Ogun e partiu para o delegado. o tema da perseguição policial aos candomblés da Bahia e nele realiza um feito surpreendente de catarse literária: o escritor vinga o insulto do opressor e através de seus personagens [Archanjo em destaque] promove um ato de justiça com força sobrenatural. 7 A cena transcrita acima em dois recortes é. p.. O primeiro diz respeito ao sortilégio de ofó (SANTANA. 2009. gritando por socorro. em direção ao automóvel veloz que o levaria para longe daquele inferno de orixás desatados em milagres. (AMADO. De nada serviu. 1971. em pânico. 7 .] Quando Zé Alma Grande. Fragmento de um oriki ao orixá Ogun (SANTANA.. que aborda o ‘reinado’ de Pedrito no seu romance Tenda dos Milagres. descreve uma cena (pp. 309 – 11). o que teria levado ao já mencionado pedido de demissão. Pedrito necessitou do orgulho inteiro para erguer a bengala na última tentativa de se impor. Ele. p. dan pelu oniban! [. 40) ele representa uma sutileza fundamental na tessitura do contexto em que se dá a vitória da cultura negromestiça sobre Pedrito Gordo. 2009. ou na casa de Procópio ou de uma mãe-de-santo de nome ignorado”. p. Os pedaços do junco estalaram nos dedos do encantado – cabeças de serpentes dirigidas contra o comandante da cruzada bendita. cão de fila.]. já é prova da força Lühning (1995-1996.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ conforme a opinião de muitos. através do qual Archanjo faz com que Zé Alma Grande vire no santo. representada pelo delegado auxiliar Pedrito Gordo. na ocasião da batida. com atuação decisiva de Archanjo.] é em Tenda dos milagres que Jorge Amado retoma.. 197) em sua pesquisa sobre Pedro Gordilho escreve: “Jorge Amado. No dizer de Santana (2009.. extremamente rica para o contexto estudado. assassino às ordens.Ogun kapê dan meji. p. Não coube a Pedrito Gordo outro recurso senão correr vergonhosamente.

então. repleto de “orixás desatados em milagres”. em seguida. dançavam vitoriosos ao som dos atabaques àquela noite. 1971. p. como lhe negar. garantir o comando do País ao segmento branco. portanto escrita. de Archanjo.. a representação deste “milagre” que o delegado auxiliar tanto ansiava por ver e. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . ao anular a superioridade numérica do negro e ao alienar seus descendentes mestiços graças à ideologia de branqueamento. de um lado. A resistência e. uma identidade negra apenas pelo fato dele se dizer mestiço? André (2008. perseguindo e expulsando do Axé de Procópio. 9.. este milagre é. Na mesma linha. suspenderia suas ações contra o candomblé (AMADO. por algo exterior à cultura que resiste como. voltando-se contra as injustiças cometidas por Pedrito Gordo e a ele declarando guerra. desatados em abundância de milagres. p. por sua atuação fundamental. em si. pela resistência desta mesma cultura. Ogun é. 306). até mesmo porque concordamos com ambos. a vitória não ocorrem.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. no dia que o visse. mas por aquilo que há de mais seu. a produção científica. Sem dúvida. por consequência. Munanga (2008. a própria resistência de Ogun e de todos os outros orixás que.]”. em frente ampla. lhes negar verdade naquilo que dizem. por exemplo. em si. ato contínuo. Não é o caso aqui de citarmos os estudiosos acima para. e. O segundo ponto a ser sublinhado nesta mesma passagem é a incorporação de Ogun. evitando a sua “haitinização”. p. 75) coloca A elite “pensante” do País tinha clara consciência de que o processo de miscigenação. atravessando tempos e mares ou enfrentando ameaças constantes de extermínio. Pela cultura a partir da qual Pedro Archanjo se define como sujeito de si e. 127-8) aponta que “a ideologia do branqueamento é um acontecimento que exigiu do negro uma negação de suas raízes africanas [. por outro. . ia evitar os prováveis conflitos raciais conhecidos em outros países.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ de um saber que. resistiu incólume em sua capacidade de encantamento oral. por aquilo que a pode identificar: o poder da palavra expressa pela própria voz de quem o faz. orixá guerreiro. nesta situação. O narrado aí remonta à fala do próprio Pedrito Gordo quando disse nunca ter visto milagre de orixá e que.

bem antes do momento em que os governantes resolveram investir em programas de imigração européia. A pessoa tem que fingir que é branca. é desmascarada. que se daria através de um uso ideológico do fato consumado da mestiçagem. Se esta relação entre mestiçagem e branqueamento é assim tão imanente. posto que a ideia de branqueamento pelo viés da miscigenação é anterior à própria concepção da mestiçagem como ideologia das elites 9 e. não cessaram de ocorrer conflitos raciais no Brasil – coloca como fato consumado a relação entre miscigenação e branqueamento. quem faz o passing é muitas vezes obrigado a desaparecer da vida de sua família. portanto. não obstante isso. 9. o branqueamento. de sua gente negromestiça. ato contínuo. de Maria da Consolação André. p. sobre uma instância da mestiçagem. pode ser usado contra nossa argumentação o fato de estarmos tratando de uma obra de ficção.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. o que tentamos evidenciar ao longo de todo este texto – e também agora – é que a mestiçagem não traz. Retorna ao outro lado da linha de cor. Entretanto. A se afastar das pessoas e do lugar onde nasceu”. necessariamente.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ houve um projeto de branqueamento da população brasileira. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . segunda citação. 2007b. por tudo quanto já dito neste texto. 108) 9 “Essa é uma parte da história. ou seja. p. (RISÉRIO. no fundo. na qual a realidade pode ser manipulável. 2007. pensado pelas elites representadas em instituições oficiais do estado. filhoafilhado de Pedro Archanjo que. Se descobrirem um ponto preto em sua genealogia. Caímos. de Pedro e Lídio. As raízes dessa concepção ideológica remontam. enquanto 8 “O passing as white é um fenômeno unicamente norte-americano. dada a sua ascensão social. Entretanto. é possível mostrar que o ideário do branqueamento já estava socialmente bastante consolidado na formação social do país. embotando as reminiscências dos tempos da tenda dos milagres. 157) . como se embarcando na não-existência promovida pelo passing as white 8 estadunidense. Kabengele Munanga. novamente. no mesmo problema da concepção supracitada de Maria da Consolação André. além de supor uma certa ingenuidade da elite branca do país ao imaginar a supressão de conflitos através da mestiçagem – afinal não há como dar outro nome senão ingenuidade. seria forçoso ao extremo aplicá-lo a Pedro Archanjo. Por isso. em seu âmago a noção vexatória de produção de não-existências. a um discurso religioso medieval” (HOFBAUER. é perfeitamente detectável em Tadeu Canhoto. A primeira citação. como explicar Pedro Archanjo? Evidentemente. No entanto. paulatinamente vai reelaborando sua história e. E o faz às escondidas.

Nesse sentido. Acreditamos que ambas.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ tanto André quanto Munanga estariam voltados para o objeto “verídico”. pode servir. 120) . sua identidade está preservada. p. a preservação e a denúncia. como chave para compreendê-los. assim como documentos históricos ou discursos políticos – ou até mais que estes – é representação. sim. mesmo que ficcional ou metafórica. desta vez sem branqueamentos ou opressões. este seria um artifício de deslocamento da discussão para um outro campo com o objetivo de questionar a própria possibilidade da literatura como um fator de entendimento da realidade social do país em todos os seus meandros e em todas as suas reentrâncias. porém. principalmente no tocante à questão da mestiçagem. Tenda dos Milagres. Sua cultura. seu povo.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR.. não obstante mestiço. é importante também guardarmos. tanto no oprimido quanto no opressor. como forma de construção de uma sociedade sem barreiras raciais de quaisquer espécies. Pedro Archanjo é a própria tradução do modo como pensamos esta questão. Há a necessidade sempre presente e indiscutível de se questionar toda a produção de discurso que se baseie no mito como uma realidade táctil. em especial. mas a democracia racial como um sonho e um projeto de futuro. p. seus valores. neste caso. contribuindo assim para a consciência da opressão racial ainda vigente. Entretanto.. 9. 184) diz que “não há consenso entre os especialistas sobre constituir a democracia racial como um valor a ser preservado ou uma mentira a ser denunciada”. Para Bacelar (2001. de uma sociedade e. a partir da literatura amadiana. segmentada. enfim. não o mito. Entretanto. Problematizar o racismo ainda é uma urgência nossa. como tal. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . Conclusão Hofbauer (2007. No nosso entender. Neste sentido. a realidade inconteste do cotidiano brasileiro. acreditamos possível contruibuirmos de algum modo para a discussão racial no Brasil. devem se constituir como fator do pensamento racial brasileiro. se assim não o fizermos estaremos concorrendo para uma sociedade sempre em conflito. A literatura. de um tempo. sua religião.

Andreas. n.ed. como um protótipo de um tempo futuro. ANDRÉ. Revista Afro-Ásia. 2007. . São Paulo: Editora Martins. p. 2008. premonição na busca de uma sociedade igualitária e sem conflitos. p. como já escrevera Jorge Amado (1971. Maria da Consolação. Candomblé: força e resistência. BACELAR. In: ANINI. um sonho de uma sociedade em que as identidades já não mais precisem de quem as defenda. por reconhecidas respeitosamente entre tantas e tantas outras que também seriam respeitosamente reconhecidas. 1971. 2001. O Ser negro: a construção da subjetividade em afrobrasileiros. A hierarquia das raças: negros e brancos em Salvador. mas. Jorge. afirmadora do negro como principal e preeminente personagem na construção do nosso processo civilizatório aparece como desejo. Tenda dos Milagres. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . p. 9. Brasília: LGE editora. 362) “há de nascer. Jeferson. principalmente. 15. crescer e se misturar”. Entendemos Pedro Archanjo de forma dupla: tanto como um homem ao seu tempo.Rio de Janeiro: Pallas. 13-17. Santa Maria: UFSM.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. vontade. Eles são a bússola de navegação social dos sobrados e ruas da velha cidade. afinal. Referências AMADO. 1992. agarrando-se em sua identidade como atitude política. Júlio. outra é a perspectiva de Jorge Amado: são os dominados (o povo negromestiço) que delineiam a correnteza da vida social da Bahia. portanto em necessidade constante de luta e resistência para manter as suas tradições. Branqueamento e democracia racial – sobre as entranhas do racismo no Brasil. 7. HOFBAUER. Maria Catarina Chitolina (org). A sua democracia racial. Por que “raça”? Breves reflexões sobre a “questão racial” no cinema e na antropologia. embora algo ainda distante. 151-188.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Embora sobre a premissa da miscigenação harmonizadora. BRAGA.

ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ LEITE. São Paulo: Ed. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Mestiçagem em questão. 2000. Ângela.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Kabengele.” Mito e realidade da perseguição ao candomblé baiano entre 1920 a 1942. n. 28. In: ______.2010 . “Acabe com esse santo. Em busca de ambos os dois. Salvador: Quarteto Editora. n. 2007b. 2006. Belo Horizonte: Autêntica. A utopia brasileira e os movimentos negros. Antonio.br/seara/antigo. Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira. Salvador: EDUFBA. São Paulo: Annablume. 2004. Revista USP. p. Gildeci de Oliveira. Seabra. p. Pedrito vem aí. Marco Aurélio. Jorge Amado e os ritos de baianidade: um estudo em Tenda dos milagres. Marcos Roberto. 91-122. 2008.. Salvador: Aramefá. RISÉRIO. Cid. p. 2008. Patrícia de Santana.jan.uneb. Antonio. 194-220. 2. São Paulo: Ed. 2009. Jorge Amado: ancestralidade à representação dos orixás. 1. 1995-1996. 9. 34..ed. 1.htm> Acesso em: 20. SANTANA. MUNANGA. Reinvenções da África na Bahia. Jorge Amado e o jeito de ser mestiço. p. v. 2007a. jan. 1-9. disponível em < http://www. PINHO. 39-68. 34. Seara Revista Virtual. LÜHNING. LUZ. In: ______. RISÉRIO. A utopia brasileira e os movimentos negros. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . SEIXAS.