ALBERT O.

HIRSCHMAN
a
moralidade
e as ciências
sociais
ual é o papel de considerações e cui-
dados morais na ciência econômica?
Mais genericamente, em que pe está “a
questão da moralidade nas ciências so-
ciais"? Para comentar estes problemas —
o segundo foi assunto de um seminário
recente, de que participei — começarei
dando razões pelas quais esta espécie de
tópico dificilmente ocorre ao cientista so-
cial. Em seguida, veremos que hoje a
preocupação com valores morais é cres-
cente, até mesmo nesta fortaleza positi-
vista que é a ciência econômica. E, con-
cluindo, indicarei conciliações possíveis
entre a "objetividade científica" tradicio-
nal dos economistas e a dimensão moral,
que também é sua.
Antes de mais nada, é preciso reconhe-
cer que a ciência social tomou corpo, em
larga medida, ao emancipar-se dos ensi-
namentos da moral tradicional. No início
mesmo da Idade Moderna, Maquiavel
anunciava que trataria de instituições po-
líticas tais como elas existiam realmente, e
não como "repúblicas e monarquias ima-
ginárias", governadas segundo preceitos
religiosos ou morais, transmitidos de ge-
ração em geração por pessoas bem inten-
cionadas. A ciência política moderna deve
muito a uma idéia — chocante — do pró-
prio Maquiavel, segundo a qual as noções
correntes de moralidade individual po-
dem não ser adequadas como regras de
conduta para os Estados. Mais generica-
mente, a riqueza das percepções desse
Autor fez notar que a ênfase tradicional
no "dever ser'', no modo pelo qual prín-
cipes e estadistas deveriam se comportar,
dificultava um pouco a compreensão mais
plena do que "é", compreensão possível
desde que se atente minuciosa e friamen-
te para o exercício do poder de Estado em
sua realidade. Mais adiante, a necessidade
de separar ciência política e moral seria
abertamente afirmada também por Mon-
tesquieu, outro dos grandes fundadores
da ciência social:
E inútil criticar a política dizendo que
as suas práticas estão em conflito com a
moral e a razão. Esta espécie de discurso
provoca o assentimento geral, e não muda
ninguém (1).
Pouco depois, a passagem do "dever
ser" ao que "é" seria efetuada igualmen-
te pelo pensamento econômico. Na medi-
da em que o funcionamento real do co-
mércio e dos mercados passava a ser exa-
minado em detalhe, a partir do século
DEZEMBRO DE 1981

A MORALIDADE E AS CIÊNCIAS SOCIAIS

XVII, os comentadores de assuntos eco-
nômicos chegavam a descobertas tão cho-
cantes e instrutivas quanto as de Maquia-
vel.
Não me refiro apenas ao paradoxo fa-
moso de Mandeville, segundo o qual os
vícios privados produziam benefícios pú-
blicos, pela via do estímulo ao comércio
de luxo. Bastante antes disso, em meados
do século XVII, vários pensadores france-
ses, profundamente religiosos, dentre os
quais o mais eminente foi Pascal, com-
preenderam que na verdade era possível
uma sociedade ordenada e durável que
não se fundasse no amor ou na "caridade".
Haviam descoberto que existe outro
princípio capaz de assegurar o curso do
mundo social: o interesse egoísta. Esta
eventualidade, em que o amor parece
prescindível, vinha-lhes como uma sur-
presa incômoda e um enigma perturbador:
uma sociedade cujo vínculo fosse outro,
que não o amor, seria claramente pe-
caminosa — como entender então que ela
funcionasse, e mais, que ela fosse tão in-
tricada e admiravelmente construída, a
ponto de parecer obra da Divina Provi-
dência?
Um século depois, estes cuidados se-
riam substituídos pela franca celebração:
Adam Smith não demonstra inquietação
religiosa alguma quando faz o elogio da
mão invisível, a qual, a bem da ordem so-
cial e do progresso econômico, promove o
interesse egoísta. Entretanto, a idéia de
que a moralidade possa oferecer um modo
diferente de ordenação da economia e da
sociedade não desaparecera inteiramente,
razão pela qual Smith a ridiculariza numa
das formulações mais sugestivas de sua
doutrina: "O nosso jantar vem à mesa não
por causa da boa vontade do açougueiro,
do padeiro ou do fabricante de cerveja,
mas por causa do interesse que é o deles"
(2). É grande a excitação de Smith neste
passo, em que dá como dispensáveis a
exortação e o discurso moral, e isto graças
à descoberta de um mecanismo social que,
uma vez desencadeado, exigiria muito
menos da natureza humana, sendo por isso
mesmo infinitamente mais seguro.
Também aqui, e ainda uma vez, a recusa
da normatividade tradicional criou um
espaço em que o conhecimento científico
se pôde expandir..

arx está na estrita tradição de Ma-
quiavel, Montesquieu e Smith
quando, em sua tentativa de interpretar e
sobretudo de modificar a ordem política e
social reinante, ele recusa o apelo ao argu-
Um tema
conhecido:
tensões entre
a cabeça e o
coração
mento moral. É esta precisamente a sua
diferença com os "socialistas utópicos",
que na crítica à sociedade capitalista, bem
como nos remédios que propõem, recor-
rem à exortação. Para Marx, apesar da vi-
bração moralista sempre presente em sua
obra, o maior título de glória estaria na
criação do "socialismo científico". E, para
ser verdadeiramente científico, parecia-lhe
claro que era necessário evitar o argumento
moral. A ciência verdadeira não prega, ela
prova e prevê: assim, Marx prova a
existência da exploração através da teoria
do valor-trabalho, e prevê o eventual fim
do capitalismo através da lei da queda da
taxa de lucro. Na realidade, Marx
operou uma estranha mescla de pro-
posições científicas "frias" e indignação
moral "ardente". Talvez tenha sido (e
ainda seja) este amálgama singular, com
todas as suas tensões internas irresolvidas,
o responsável pelo extraordinário chama-
mento que emana de sua obra — nesta
era com vício de ciência e sequiosa de va-
lores morais.
As tensões entre a cabeça, que é
"fria", e o coração, que é "cálido", for-
mam um tema conhecido da cultura oci-
dental, especialmente desde o Romantis-
mo. Entretanto, mais que essa tensão, estou
me referindo a uma incompatibilidade
existencial: de um lado, reflexão moral e
moralidade: de outro, as atividades ana-
lírico-cíentíficas. Esta incompatibilidade
é, puta e simplesmente, um fato. O nosso
desempenho analítico torna-se automati-
camente suspeito caso esteja a serviço de
uma convicção moral; e, inversamente, a
convicção moral não é dependente de ar-
gumentação analítica, a qual pode inclu-
sive enfraquecê-la, como aliás, pesadas as
coisas, a crença religiosa terá sido mais so-
lapada que fortificada pelas provas da
existência de Deus, com as argúcias que as
acompanham. A melhor expressão do as-
sunto encontra-se num epigrama conciso
e doloroso de Hölderlin, o grande poeta
alemão. Os versos datam de mais ou me-
nos 1800, e trazem o título de "Bom
Conselho":
Se tens entendimento e coração,
mostra um só dos dois.
Pois, se os mostras de uma vez só, a
ambos difamam (3).
A exclusão mútua de reflexão moral e
entendimento analítico pode ser uma
simples contingência, refletindo as cir-
cunstâncias históricas particulares em que
ocorreu o progresso das diversas ciências
no Ocidente. Essas circunstâncias natural-
NOVOS ESTUDOS N.º 1



mente deixaram marcas e cunharam ati-
tudes, marcas tão bem identificadas por
Hölderlin.
Contudo, a hostilidade em relação à
moral não é somente um resíduo dos tem-
pos em que nascia a ciência. No que diz
respeito às ciências sociais, em particular,
há razão para crer que a petulância anti-
moralista seja recorrente, isto devido à
própria natureza do que elas são e de seu
discurso. Tentarei me explicar.
Em ciência, é freqüente que as desco-
bertas fundamentais tenham a forma do
paradoxo. Isso é verdade para alguns dos
teoremas principais da física, tais como a
proposição de Copérnico, segundo a qual
é a Terra que se move em torno do Sol, e
não vice-versa. Mas é possível sustentar
também que, entre todas, as ciências so-
ciais sejam as mais dadas à produção de
paradoxos. A razão está no muito que to-
dos nós sabemos a respeito da sociedade,
ainda que nunca tenhamos freqüentado
um curso na matéria. Vivemos em socie-
dade; freqüentemente somos atores em
processos sociais, políticos e econômicos;
e pensamos — é claro que às vezes enga-
nadamente — saber grosso modo o que se
passa não só em nossa mente, como tam-
bém na dos outros. Em conseqüência, a
nossa compreensão intuitiva e de senso
comum dos "problemas" da ciência so-
cial, problemas como crime urbano, cor-
rupção nas altas esferas ou mesmo infla-
ção, é considerável. Estamos todos sempre
prontos a apresentar a nossa "solução"
ou panacéia. Assim, para que a ciência
nestes domínios ultrapasse o nosso conhe-
cimento — que existe — é preciso que ela
proponha algo de não-evidente, ou, de
preferência, algo que demonstre as ilu-
sões a que nos induz o senso comum (4).
Por isso, as descobertas importantes da
ciência social são contra-intuitivas, cho-
cantes, e relacionadas com conseqüências
inadvertidas e surpreendentes da ação hu-
mana.
Em boa medida, a necessidade de pro-
duzir choques e paradoxos é responsável
pela vocação imoralista da ciência social,
pois a compreensão que o senso comum
tem dos problemas sociais é fortemente
impregnada de moral (muito mais que no
caso dos problemas tratados pelas ciências
naturais). Assim, é quase lógico que o
cientista social goste de afirmar a raciona-
lidade oculta do que aparenta ser irracio-
nal, ou a coerência do que parece incoe-
rência. E mais, que defenda como senso
moral, útil, ou ao menos inocente, um
A petulância
anti-moralista
deriva da sua
natureza e do
seu discurso
comportamento social geralmente tido
como reprovável.
A economia abunda em exemplos des-
ta busca do moralmente chocante. Se-
guindo a inspiração já antiga de Mande-
ville, e de sua reabilitação do luxo, mui-
tos economistas fizeram fama celebrando
os efeitos positivos, para a eficácia econô-
mica, de atividades ilegais ou repulsivas,
tais como contrabando, mercado negro
ou mesmo corrupção governamental.
Em nossos dias, a predileção pelo cho-
que moral é ostensiva no imperialismo
dos economistas que se aventuram em
campo alheio. Atividades tais como cri-
me, casamento, procriação, burocracia,
voto e participação nos negócios públicos
vêm sendo submetidas a uma assim cha-
mada "abordagem econômica". O resul-
tado é que as personagens envolvidas, se-
jam elas criminosos, amantes, pais, buro-
cratas ou eleitores, previsivelmente pas-
sam o seu tempo "maximizando vanta-
gens", exatamente como fazem o consu-
midor e o produtor do manual de econo-
mia.
Durante muito tempo se acreditou que
as mencionadas personagens eram movi-
das ou batidas por paixões complexas, no-
bres ou ignóbeis, tais como, entre muitas
outras, a revolta contra a sociedade, o
amor, ânsia de imortalidade, devoção ao
interesse público, ou traição dele. Com-
parada a esta imagem tradicional das fi-
nalidades não-econômicas do homem, as
explicações ligadas ao imperialismo da
abordagem econômica, com a sua ênfase
na sordidez do cálculo de custo e lucro,
estavam fadadas a ser chocantes. E, ainda
uma vez, a força da análise efetivamente
deriva deste efeito de choque.
ecentemente, começando uma rese-
nha, meu colega Clifford Geertz es-
creveu um parágrafo notável, feito sob
medida para os escritos a que estou me re-
ferindo:
Este é um livro sobre "as diferen-
ças primárias entre macho e fêmea
na sexualidade humana'', em que os
seguintes assuntos não são discuti-
dos: culpa, embevecimento, perda,
auto-estima, morte, metáfora, justi-
ça, pureza, calculismo, covardia, es-
perança, juízo, ideologia, humor,
obrigação, desespero, confiança,
maldade, ritual, loucura, perdão,
sublimação, piedade, êxtase, obses-
são, discurso e sentimentalismo. Só
podia ser o que é: sociobiologia (5).
Muitos verão nesse trecho uma crítica
DEZEMBRO DE 1981


A MORALIDADE E AS CIÊNCIAS SOCIAIS

severa, e no entanto os partidários do li-
vro resenhado podem, perfeitamente,
sentir que seu autor merece aplauso justa-
mente por ter ido além dos "fenômenos
superficiais", enumerados por Geertz, e
por ter alcançado o mecanismo funda-
mental que põe a nu a própria essência do
que acaso seja o assunto do livro. Do mes-
mo modo, os adeptos da "abordagem
econômica" no estudo do comportamento
humano provavelmente se orgulham da
frugalidade de sua teoria, e é fato que o
seu êxito eventual se deve a insolência
reducionista de seu ataque.
Não obstante, como não reconhecer
que, para o economista, esta maneira de
granjear fama entrou na fase dos rendi-
mentos decrescentes? Em primeiro lugar,
o paradigma segundo o qual o interesse
egoísta puro e sem mescla conduz a uma
ordem aceitável, e talvez mesmo à melhor
possível, está na praça há muito tempo,
Isto faz com que a redescoberta do papel
da moralidade se torne um desafio inte-
lectual. Hoje, afirmar este papel tem um
efeito de surpresa e paradoxo quase tão
grande quanto, outrora, o do adeus de
Smith à boa vontade. Em segundo lugar,
é mais importante, está cada vez mais cla-
ro que sem um mínimo desta boa vontade
o desempenho da economia em várias
áreas importantes pode resultar fraco.
O ressurgimento e a reabilitação dos
bons sentimentos começaram na microe-
conomia. Uma das condições para o fun-
cionamento de mercados competitivos é a
informação ''perfeita" a respeito dos
bens e serviços comprados e vendidos. To-
dos naturalmente sabemos que em geral
esta condição está longe de ser satisfeita.
Entretanto, a informação imperfeita po-
deria não ser excessivamente prejudicial
ao sistema de mercado, caso a imperfeição
tivesse limites, e fosse amplamente parti-
lhada pelos cidadãos, sejam estes compra-
dores ou vendedores. Se entretanto, como
e freqüente, o conhecimento dos compra-
dores a respeito de certa mercadoria for
muito inferior ao dos fornecedores ou
vendedores, o que acontece? Neste caso,
está armado o palco para a exploração dos
compradores pelos vendedores, a não ser
que os últimos sejam impedidos, de al-
gum modo, de explorar a sua superiorida-
de. O governo pode ser, e tem sido, o en-
carregado desta correção, com êxito variá-
vel: todos sabemos hoje que nem sempre
o governo triunfa onde o mercado deixa a
desejar. Criterioso seria se os vendedores
se submetessem voluntariamente a uma
A predileção
pelo choque
moral, hoje, é
ostensiva no
imperialismo
da economia
disciplina que os impeça de explorar a su-
perioridade de seu conhecimento. Por
exemplo, os cirurgiões poderiam assumir,
como condição de exercício de sua profis-
são, o compromisso de nunca prescrever
intervenções desnecessárias. São os casos
apontados há algum tempo por Kennethe
Arrow, em que a adoção de um código de
ética profissional pode remediar uma for-
ma específica de inconveniente da dinâ-
mica de mercado. Voltamos assim à boa
vontade: de modo um tanto instituciona-
lizado, ela aqui é invocada como um ele-
mento essencial ao funcionamento de
uma economia de mercado em que os
vendedores têm mais informação do que
os compradores.
Assim, nas situações em que o sistema
de mercado e do interesse egoísta, deixado
a si mesmo, dá resultados indesejáveis, o
comportamento ético é necessário. Isto
naturalmente não quer dizer que um tal
comportamento se concretizará por si só.
Talvez ele tenha de fazê-lo, se a necessi-
dade é especialmente imperiosa, como no
caso de cirurgiões e cirurgias. É fato que
nos precavemos mais ao comprar um carro
de segunda mão do que ao consultar um
médico a respeito da conveniência de
uma intervenção. Os economistas recen-
temente identificaram um certo número
de áreas, do mercado de trastes aos serviços
de creche e ao aconselhamento psico-
terapêutico, em que o desempenho do
mercado poderia melhorar muito através
de uma injeção de "boa vontade", por
exemplo, na forma modesta de cooperação
e troca de informações entre fornecedores
e clientes.
estas situações de mercado contra-
producentes, a necessidade de com-
portamentos éticos e de normas, a fim de
suplementar e por vezes suplantar o inte-
resse egoísta, aparece com urgência e cla-
reza. Entretanto, nalguma medida, ela
existe sempre: a empresa e a eficácia eco-
nômicas dependem da existência de con-
fiança entre as partes contratantes, quan-
do menos por causa do elemento de tem-
po implicado na maioria das transações.
Esta confiança tem de ser autônoma, isto
é, não pode estar vinculada estreitamente
ao interesse egoísta. Para citar uma colo-
cação recente e radical desta questão: "Os
valores pessoais elementares de honesti-
dade, veracidade, confiança, moderação e
senso do dever são, todos eles, ingredien-
tes necessários a uma sociedade contratual
eficiente ( também agradável)..." (6).
Somados estes valores, resulta que o volu-
NOVOS ESTUDOS N.º 1




me de boa vontade e moralidade requeri-
do para o funcionamento do mercado não
é nada pequeno!
Isto quanto à microeconomia. Entre-
tanto, a reabilitação da moral enquanto
ingrediente necessário a uma economia
que funcione deu os seus maiores passos,
ainda que inconfessados, na área macro,
em conseqüência da inflação e das preo-
cupações que a acompanham.
A despeito do barulho de certos deba-
tes técnicos (pressão da demanda vs. pres-
são dos custos, monetaristas vs. keynesia-
nos e pós-keynesianos), existe amplo acor-
do para reconhecer — porque a evidência
é tão grande — que a compreensão bem
como o controle da inflação contemporâ-
nea requerem uma sondagem profunda
do subsolo social e político da economia.
Suponhamos por exemplo que seja correto
dizer que os gastos públicos crescentes
são responsáveis pela inflação; neste caso,
a questão é de saber por que o Estado mo-
derno é crescentemente pressionado a
oferecer um conjunto cada vez mais am-
plo de serviços públicos a grupos de pres-
são com capacidade de luta recém-forma-
da? Analogamente, se é verdade que a
autocontenção de salários e preços pode-
ria ajudar no controle da inflação, por
que será ela tão difícil de obter? Em res-
posta a questões desse tipo, um sociólogo
inglês escreveu que "o conflito entre os
grupos e as camadas sociais tem se torna-
do mais intenso e, nalguma medida, mais
equilibrado, sendo que estes dois aspectos
interagem no sentido de um reforço recí-
proco" (7). Eis aqui a expressão clara de
uma concepção muito generalizada, se-
gundo a qual a inflação reflete uma dis-
posição crescente para as vias de fato
(bloody mindedness, para falar com os in-
gleses) da parte dos vários grupos sociais
que até agora haviam sido considerados
em nossos manuais como sendo "coope-
rativos" na geração e na distribuição do
produto social. O que esta espécie de aná-
lise sociológica da inflação portanto pede,
ou advoga, é "um novo contrato social",
o qual permitiria uma inibição e redução
do ânimo bélico geral (8).
A observação cabível a esta altura já te-
rá ocorrido ao leitor: a disposição para as
vias de fato, cuja limitação seria impor-
tante, é o oposto justamente da boa von-
tade, cujo estímulo, portanto, seria capi-
tal. Resulta, assim, que para vencer os
grandes problemas atuais da macroecono-
mia precisaríamos gerar e difundir boa
vontade entre os vários grupos sociais!
A reabilitação
da moral como
ingrediente
necessário está
na área macro
Noutras palavras, está na hora de os eco-
nomistas abandonarem a postura amoral,
ostentada, ao menos em A Riqueza das
Nações, pelo ilustre fundador de nossa
ciência: em sua pureza, o interesse egoísta
de cada um dos membros individuais da
sociedade é um móvel claramente inade-
quado à solução dos problemas da micro
tanto quanto da macroeconomia.
Isto posto, será que chegamos a alguma
parte? Aprendemos a não desmerecer a
boa vontade e os valores morais em geral.
Compreendemos também as razões de
Malthus, que embora endossando a regra
de Smith, segundo a qual todos têm de
ser livres para agir conforme o seu interes-
se próprio, acrescentava sistematicamente
uma restrição: "isto enquanto concorda-
rem com as leis da justiça" (9).
Contudo, este acréscimo de uma reser-
va moralizante não muda grande coisa.
Uma vez concedida a importância de pen-
samento e valores morais para a econo-
mia, falta ainda o principal: como ma-
pear o novo terreno, descobrir as perspec-
tivas que a nossa concentração exclusiva
no interesse egoísta havia ocultado? A
questão pode ser, e foi, atacada de frente.
O oposto do interesse egoísta é o interesse,
pelos outros, ou também a ação em bene-
fício alheio. Assim, para compensar o
descaso prévio pelos valores morais e im-
pulsos generosos, os economistas agora se
lançam ao estudo do altruísmo. Com efei-
to, vários livros sobre este tópico foram
publicados nos últimos anos (10). São ins-
trutivos e úteis, mas talvez sofram da
pressa com que buscam recuperar o tem-
po perdido.
m minha opinião, o prejuízo causado
pela "abordagem econômica", ba-
seada no modelo tradicional do interesse
egoísta, não se esgota no desconhecimen-
to de comportamentos altruístas. Ele atin-
ge amplas áreas da análise tradicional, e é
devido a um modelo do comportamento
humano que é simplista em sua generali-
dade.
O que é necessário é que os economis-
tas incorporem à sua análise, sempre que
for pertinente, elementos básicos tais co-
mo o desejo de poder ou sacrifício, o te-
mor ao tédio, o prazer do engajamento
bem como do imprevisto, a busca de sen-
tido ou de comunidade, e assim por dian-
te. E claro que esta não é uma lacuna que
se possa preencher de uma vez por todas,
através de um projeto que trate da injeção
de valores morais na ciência econômica.
Tentativas desta espécie dariam resulta-
DEZEMBRO DE 1981


A MORALIDADE E AS CIÊNCIAS SOCIAIS

dos decepcionantes, a que se poderia apli-
car a extensão de um dito francês, segun-
do o qual "bons sentimentos fazem má
literatura"
A incorporação efetiva do raciocínio
moral à análise econômica deve avançar
devagar, e caso por caso, pois o aspecto
moral relevante ou a dimensão humana
esquecida irão variar consideravelmente
conforme o tópico. Assim, a conjunção de
aptidões que esta empresa requer não é
fácil de se encontrar: primeiramente, fa-
miliaridade com o aparato técnico da eco-
nomia, e, em segundo lugar, abertura pa-
ra aquela exata dimensão moral que, ten-
do sido previamente negligenciada, mo-
difica os resultados tradicionais ao ser le-
vada em conta.
Um bom exemplo desta conjunção — e
também de sua dificuldade — encontra-
se na recente comunicação presidencial de
Robert Solow à American Economic Asso-
ciation, referente a mercados de trabalho
e desemprego. Explicando por que a com-
pensação no mercado de trabalho não se
efetua com fluência, o Autor sublinha o
fato de que os trabalhadores dão muita
atenção a "normas de comportamento
decente, cuja fonte não é inteiramente in-
dividualista": sirva de exemplo a relutân-
cia dos desempregados em solapar a situa-
ção dos que estão trabalhando. "Não se-
ria uma surpresa para os senhores", per-
gunta o conferencista, "se soubessem de
um professor com status igual ao seu, mas
ensinando em lugar menos vantajoso,
que houvesse escrito ao chefe de seu de-
partamento, oferecendo-se para dar os
seus mesmos cursos por um salário me-
nor?" (11). Aqui está uma importante
percepção de como certas normas sócio-
morais afetam profundamente o funcio-
namento de um mercado importantíssi-
mo: elas o tornam menos perfeito do
ponto de vista de sua compensação inter-
na, mas com certeza o fazem mais perfeito
de todos os outros pontos de vista con-
cebíveis!
olto agora às dificuldades que se an-
tepõem a uma tal observação. Note-
se que esta aparece no corpo de uma co-
municação presidencial. Existiria a ten-
dência, em nossa profissão, de primeiro
buscar as alturas, para só depois sair a
campo com opiniões — moderadamente
— heréticas e de moralista? A minha con-
vicção (ao menos no caso de Solow) é de
que não são a pusilanimidade ou o desejo
de subir que têm responsabilidade pela
firmação tardia da ênfase moral; antes
Está na hora
de os
economistas
abandonarem
a postura
amoral
trata-se daquela exclusão recíproca de co-
ração e cabeça, de argumento moral e en-
tendimento analítico, em que me demo-
rei no começo deste ensaio. Quem foi
treinado como cientista tem de lutar mui-
to consigo mesmo antes de admitir que
considerações morais, de solidariedade
humana, podem efetivamente interferir
com as forças hieráticas e impessoais da
oferta e da demanda.
É uma instância notável do que Veblen
batizou de "incapacidade adquirida me-
diante treino". Com efeito, ela é tão forte
que muitas vezes não confessamos a nós
mesmos a fonte moral de nossas des-
cobertas ou do próprio processo de pensa-
mento científico.
m conseqüência, vários de nós são
moralistas inconscientes em seu tra-
balho. Quero ilustrar este ponto com uma
história pessoal. Transcrevo o prefácio es-
pecial que escrevi — por razões que fica-
rão evidentes — para a edição alemã de
Exit, Voice and Loyalty:
"Como adiante se explica, a origem in-
telectual deste livro está numa observação
que fiz alguns anos atrás na Nigéria. En-
tretanto, bastante tempo depois de o es-
tudo estar publicado nos Estados Unidos,
pareceu-me que meu envolvimento com
seu tema poderia ter raízes mais profun-
das. Grande parte do livro centra-se no
prejuízo que a saída dos potencialmente
mais capazes de falar traz aos que ficaram
e viram diminuir as suas possibilidades de
resistir ao declínio. A situação não é sem
parentesco com o destino dos judeus que
ainda estavam na Alemanha depois de
1939. A maioria dos jovens e vigorosos —
como fora eu mesmo — haviam partido
nos primeiros anos do regime hitlerista,
deixando atrás uma comunidade grave-
mente enfraquecida. É claro que as chan-
ces de uma fala efetiva nas circunstâncias
da época eram zero, pouco importa quem
partisse ou quem ficasse. Não obstante, a
verdadeira fonte do livro possivelmente
tenha estado em sentimentos de culpa
cuidadosamente reprimidos, e que, em-
bora absurdos do ponto de vista de qual-
quer cálculo racional, são reais" (12).
Neste ponto, cabe mais outra reflexão:
foi provavelmente uma felicidade que eu
não tivesse consciência destas motivações
morais enquanto escrevia o livro; não fos-
se assim, a apresentação do argumento
talvez perdesse em generalidade, em
equilíbrio entre os méritos respectivos de
partir e de falar, e também em persuasão
científica. Assim, a minha incursão pela
NOVOS ESTUDOS N.º 1




autobiografia aponta para uma conclusão
inesperada: um modo dos mais efetivos
de trazer os cuidados morais para dentro
do trabalho do cientista social seria talvez
de fazê-lo inconscientemente! É um con-
selho menos inútil do que pode parecer.
Pelas razões mencionadas, me parece
pouco prático e talvez contraproducente
estabelecer diretivas para que os cientistas
sociais incorporem a moral em seus proje-
tos científicos e estejam atentos para a
possível imoralidade dos "efeitos late-
rais" de sua investigação.
A moralidade não é como o índice de
poluição, que pode ser melhorado através
de pequenas modificações na concepção
de um projeto. Mais propriamente, o seu
lugar é no centro de nosso trabalho; e ela
só chega lá se os cientistas sociais estive-
rem moralmente vivos e inquietos — caso
em que produzirão trabalho com signifi-
cado moral, estejam ou não conscientes
disso.
E enfim, uma reflexão mais ambiciosa,
e provavelmente utópica. Uma vez per-
corridos a perspectiva histórica e os argu-
mentos conexos deste ensaio, uma vez
que tomamos consciência de nossa tradi-
ção intelectual, com sua fratura profunda
entre cabeça e coração, e com suas conse-
qüências nem sempre benéficas, o pri-
meiro passo de superação está dado. Mais
além, seria possível então visualizar uma
ciência social de uma espécie diferente da
que a maioria de nós vem praticando:
uma ciência sócio-moral, em que as consi-
derações de moralidade não são recalcadas
nem apartadas, mas sistematicamente as-
sociadas ao argumento analítico, sem que
a eventual falta de integração desperte
culpabilidade; em que as idas e vindas
entre a pregação e a prova sejam freqüen-
tes e fáceis; e nem que as considerações
morais não necessitem entrar pela via sub-
reptícia, nem expressar-se inconsciente-
mente, mas possam apresentar-se de mo-
do aberto e desarmante. Este seria, em
parte, meu sonho de uma "ciência social
para os nossos netos".
Uma espécie
diferente do
que praticamos:
uma ciência
sócio-moral
Notas do Autor
(1) Oeuvres Complètes, ed. Roger Caillois, Paris, Pléiade,
N.R.F., 1949, vol. I, p. 112.
(2) Wealth of Nations, New York, Modern Library Edition,
1937, p. 14.
(3) Hast du Verstand und ein Herz, sozeige nur eines von
beiden, /Beides verdammen sie Dir, zeigest Du beides zu-
gleich. — A distinção entre Verstand (entendimento) e
Herz (coração) reflete a reabilitação das paixões no séc.
XVIII, a qual fez do "coração" o representante dos senti-
mentos morais generosos, de paixões e impulsos benéficos,
que agora passavam a caracterizar o homem, enquanto que
a razão via-se rebaixada de posto; em tempos anteriores, o
contraste entre paixões e razão, ou entre paixões e interesses
— e não, como agora, entre cabeça e coração — tivera cono-
tações de valor muito diferentes. Tratei destas matérias em
Paixões e Interesses, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980.
(4) Cf. Gilles Gaston Granger, "L'explication dans les
sciences sociales". Social Science Information 10, 1971, p.
38
(5) The New York Review of Books, 241-1980, p. 3. O livro
resenhado é de Donald Symons, The Evolution of Human
Sexuality, New York, Oxford University Press, 1979.
(6) Fred Hirsch, "The Ideological Underlay of Inflation",
in Fred Hirsch e John H. Goldthorpe, eds., The Political
Economy of Inflation, Cambridge, Mass., Harvard Univer-
sity Press, 1978, p. 274.
(7) John H. Goldthorpe, "The Current Inflation: Toward a
Sociological account", in The Political Economy of Infla-
tion, p. l96.
(8) Outra solução é combater o fogo com o fogo, e aplicar o
que se poderia chamar "uma disposição para as vias de fato
em sentido contrário". A idéia, muito discutida recente-
mente, de punir os patrões que aumentem salários acima de
certo limite, punição efetivada através de taxação especial
sobre os aumentos, tem como finalidade confessa "endure-
cer a espinha" do patronato no enfrentamento com os sin-
dicatos militantes. Também as injunções monetaristas po-
dem ser vistas como proposta para contrapor à disposição bé-
lica dos vários grupos sociais outra disposição igual do Banco
Central (algo que em vários países chega a requerer regimes
fortes e sangrias reais). Para um exame mais extenso dos as-
pectos sociológicos da inflação, ver "The Social and Political
Matrix of Inflation", em meu livro a ser publicado em bre-
ve , Essays in Trespassing: Economics to Politics and Beyond,
Cambridge University Press, cap. 8.
(9) Principles of Political Economy, Londres, John Murray,
1820, pp. 3 e 518. Esta qualificação me foi indicada por Ale-
xander Field; veja-se o seu "Malthus and Macroeconomics'',
inédito, maio de 1980. Como aponta Field, as numerosas
exposições de princípio que A. Smith espalhou em The
Wealth of Nations só uma vez vêm acompanhadas de uma
frase restritiva análoga: "contanto que não viole as leis da
justiça". Cf. Modern Library Edition, p. 651.

(10) Por exemplo, Kenneth Boulding, The Economy of Lo-
ve and Fear: a Preface to Grant Economics, Belmont, Calif.,
Wadsworth, 1973; Edmund S. Phelps, ed., Alturism, Mo-
rality and Economic Theory, New York, Russel Sage Foun-
dation, 1975; David Collard, Altruism and Economy: a
Study in Non-Selfish Economics, Oxford, Martin Robert-
son, 1978.
(11) Robert M. Solow, "On Theories of Unemployment",
American Economic Review 70, março de 1980, pp. 3 e 4.
(12) Prefácio à edição alemã, Albert O. Hirschman, Ab-
wanderung und Widerspruch, Tuebingen, J.C.B. Mohr,
1974, p. VII.


hovos Estudos Cebrap, 3áo Paulo,
v. 1, 1, p. 25-31, dez. 81

NOTAS
Este trabalho — dedicado pelo Autor à memória de Ar-
thur M. Okun — foi lido na cerimônia de entrega do The
Frank E. Seidman Distinguished Award in Political Eco-
nomy, com que o Autor foi agraciado em 1980. Será publi-
cado proximamente, em Albert O. Hirschman, Essays in
Trespassing: Economics to Politics and Beyond, Cambridge
University Press. Tradução de Roberto Schwarz. (N. da R.)

DEZEMBRO DE 1981