A clínica daseinsanalitica será agora explicitada por meio da apresentação de alguns diálogos entre analista e analisandos.

A partir das análises fenomenológicas destes discursos psicoterapêuticos, tentaremos mostrar como se articulam possibilidades de romper com o aprisionamento em comportamentos sedimentados, nas estruturas estagnadas no círculo hermenêutico. Isto consiste em assumir uma atitude antinatural frente àquilo que se apresenta no discurso, ou seja, frente ao pressuposto de que toda e qualquer teoria acerca da existência humana deve ser suspensa, e, assim, promover uma aproximação do fenómeno.

Para a realização de nossa tarefa, teremos primeiramente que nos deslocar das teorias psicológicas tradicionais acerca do desenvolvimento, da personalidade, da aprendizagem da criança, e, em seguida, que nos reconduzirmos ao fenómeno da experiência infantil tal como ela originariamente se mostra antes de toda e qualquer construção de u m modelo teórico-explicativo. É esse modo de reconduzir-se ao fenómeno que se costuma denominar fenomenológico. Para exercitar uma outra visada sobre a experiência em questão, traremos alguns esclarecimentos sobre o modo como os filósofos da existência, por meio de uma postura fenomenológica, discutem e descrevem o ser da criança. Os três mais debatidos filósofos da existência: Kierkegaard, Heidegger e Sartre partem da noção de que a existência acontece desde o início pelo seu caráter de indeterminação e negatividade, daí o fato da liberdade, da angústia e do desespero constitutivos do existir. E, já ao nascer, a indeterminação traz em si essas outras condições. Logo, a criança constitui-se desde seu nascimento como espírito (Kierkegaard), ser-aí (Heidegger) e para-si (Sartre), ou seja, ela se vê desde o princípio marcada por uma abertura, por uma indeterminação e por uma negatividade que estarão presentes em toda a sua existência. É no decorrer de sua vida que a criança tomará para si o seu modo de ser, sem perder jamais sua incompletude e sempre colocando em jogo as determinações de seu mundo. A partir da filosofia da existência buscamos acompanhar o que acontece frente à indeterminação e negatividade da existência. Já que nada a princípio determina o homem, como ele se constitui e se determina? Tratar-se-ia ele, então, de uma tabula rasa? Para desenvolver essas questões, teremos que trazer à baila a discussão acerca do caráter de imanência da existência, da co-originalidade homem/mundo, desse ter de ser em abertura, em que o existente torna-se responsável por constituir-se no mundo, enfim desse ser que no final das contas é imponderavelmente responsável pela sua existência. Para desenvolver essa
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3.1. Considerações acerca da criança e a clínica psicológica infantil Apresentar a clínica psicológica em uma perspectiva existencial consiste em uma tarefa desafiadora, na medida em que muitos estudiosos da Psicologia consideram a relação da filosofia com a Psicologia algo improvável. Por esse motivo, consideramos que muito mais do que convencer os nossos leitores da viabilidade desta relação, queremos junto a eles problematizá-la. Porém, como não estabeleceremos apenas u m diálogo entre a filosofia da existência e a Psicologia, mas também traremos à discussão a clínica psicológica e a infância, consideramos que, primeiramente, teremos muito mais elementos a serem clarificados, para depois pensarmos na viabilidade da clínica psicológica existencial na primeira etapa da vida. A tarefa a ser executada, então, dependerá de nossa capacidade de seguirmos u m percurso até podermos dispor dos elementos necessários para a problematização da proposta e consequente discussão de sua viabilidade. Importante aqui é ver como os filósofos da existência, mais especificamente, Heidegger, interpretam temas tais como o ser-aí, a indeterminação, a liberdade e a responsabilidade. E, ainda, de que modo eles dialogam polemicamente com as classificações diagnosticas muito próprias da ciência na modernidade.
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questão, retornaremos a breves esclarecimentos sobre a noção de intencionalidade tal como introduzida e amplamente estudada por Husserl e a seus desdobramentos em Heidegger com a noção de ser-aí. Por f i m , trataremos do modo como acontecem faticamente os processos de atribuição de identidades e como tal procedimento acaba por resultar em primeiro lugar em uma tentativa de escapar do caráter de negatividade e indeterminação. Nesses processos, o homem tende, a f i m de sair de sua condição originária, a buscar uma identidade e a desconsiderar ao mesmo tempo o clamor por sua liberdade, escapulindo para o interior da identidade que o outro lhe atribui. Esses processos identitários acabam por alicerçar as categorizações e os diagnósticos tão frequentes na atualidade. Esses, por sua vez, muitas vezes aliviam a angústia frente à indeterminação e retiram do homem a responsabilidade pelos seus atos e escolhas. Por f i m , além do mundo passar a justificá-los, também o tutelam. Essa discussão em Heidegger (1988) vai dirigir-se ao modo como ele interpreta a Hda com os utensílios. Como esta se dá por meio das determinações dos objetos, também tendemos a nos compreender do mesmo modo que compreendemos aquilo que manuseamos, logo também como se nos constituíssemos por meio de determinações e sentidos previamente dados. Após esclarecermos as questões acerca da constituição da existência, trataremos de trazer a discussão sobre a viabilidade de uma clínica psicológica existencial com crianças. Sabemos que Heidegger apenas refere-se à clínica psicológica nos Seminários de Zollikon o que a princípio se mostra insuficiente para afirmarmos tratar-se de uma clínica daseinsanalitica. Mas, por outro lado, como já discutido anteriormente, sabemos também que articular a fenomenologia- hermenêutica com a clínica psi cológica remonta a uma iniciativa datada dos meados do século X X a partir da tentativa de Ludwig Binswanger e Medard Boss. E que esses, mesmo tendo sido pouco estudados, principalmen te aqui no Brasil, jamais foram esquecidos. A questão que s e 92

impõe consiste em perguntar sobre o risco iminente de traduzir o pensamento filosófico em termos de mais uma disciplina. E, como tal, acabar por reduzir as reflexões filosóficas a u m produto palpável, intercambiável e técnico. Mas se não é isso, o que queremos e como fazer para que não aconteçam essas reduções? Devemos manter-nos, com muito esforço, no campo de questionamentos da clínica psicológica e não no das certezas. Assim, mantermo-nos em u m espaço em que não importa o numérico, os resultados, as informações e as teorias. Importa o deixar-se corresponder ao essencial em uma clínica infantil. Por fim, nos desprenderemos de todo esforço para apresentar os fundamentos da filosofia da existência, em meio a uma clínica infantil com u m maior detalhamento das considerações heideggerianas, tentando não recair em uma disciplina ou em uma nova técnica que nos digam como devemos proceder para obter resultados efetivos e eficazes. Para tanto, iniciaremos apresentando aquilo que caracteriza uma filosofia da existência, que consiste em não partir de pressupostos sobre a constituição do homem, seja esse uma criança, u m adulto ou qualquer homem cm qualquer outra etapa de sua vida. Todos esses pressupostos partem da ideia de que a constituição do homem já está aprioristicamente dada, seja pela constituição biológica, psíquica ou pelos condicionamentos ambientais. Nestas três posições, o homem, já ao nascer, apresenta-se passivo frente a estas determinações. As filosofias existenciais defendem o caráter de indeterminação da existência, a partir do que essa existência se constitui. I. ogo, é no existir, a partir da articulação homem/mundo, que a existência acontece. Este modo de articular a existência humaI I , 1 é expressa na máxima de Sartre (1997) de que "a existência |iii'cede a essência"; afirmativa essa que, apesar de ser criticada |>oi i leidegger (1947/1987), não deixa de tornar clara a situação liiii ia! de indeterminação da existência. As considerações de Kierkegaard sobre a existência, embo1.1 pautadas por observações atentas e ricas em detalhes, deram93

bastava apenas que ele convivesse 1 D I U humanos. e como tal é i n tencional. nem mesmo essas duas reações são biologicamente determinadas. O método fenomenológico do ser da criança e a investigação Ao apresentar a infância e a experiência infantil em uma perspectiva fenomenológico-existencial. assim como é por meio dessas concepções que vamos discutir a clínica psicológica infantil. a teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget. Retomaremos aqui dois aspectos fundamentais desenvolvidos na fenomenologia husserliana para o desenrolar das filosofias da existência. Essa muitas vezes é confundida com a perspectiva fenomenológico-existencial. elaborar sistematicamente o acontecimento da vida. tal posição é totalmente equivocada.se por meio de u m gesto fenomenológico. assim denominadas por retomarem o aspecto fático da existência humana. Para Piaget. estremecer é ato. o seu estado de sonolência e a sucção do leite materno. tardio. para que o andar e o falar. São eles: a noção de intencionalidade e a atitude antinatural. nos idos de 1799. Este menino. Outros perguntam como podemos explicar o choro do recém-nascido. Na perspectiva fenomenológico-existencial. dois são os elementos que se retêm no plano biológico. a título de exemplificação. se não for pela determinação biológica. Os racioMiilislas 3. não considerando as teorias e os sistemas que tentavam. Kierkegaard procurou acompanhar as experiências e descrevê-las a partir do modo como ele as apreendia. ou seja. Os estudiosos da psicologia do desenvolvimento infantil se dividem. E é a partir dessas duas concepções que tanto Heidegger quanto Sartre vão proceder as suas ontologias. 1806) que viveu durante aproximadamente oito anos em u m meio selvagem. Porém. em Aveyron. já que iiinbas detinham-se nos indícios que comprovavam as suas teorias. Todavia. dizendo que é o mundo que constitui a criança: em sua situação de folha em branco ou de tabula rasa. além i l c se prolongarem. Os empiristas diziam que o menino não se tornou humano por não ter recebido estímulos do ambiente humano. à história de Victor de Aveyron ( ITARD. Dizia que o caráter universal das experiências humanas poderia ser encontrado em suas expressões singulares (1959/1966).ilincnte. Muitas são as dúvidas acerca de se poder afirmar a liberdade em uma etapa da vida na qual o homem não pode ser responsabilizado pelas suas escolhas e determinações. na própria existência. já em sua época. São eles o estremecer frente à falta de apoio e o estremecer frente ao som. foi encontrado. muito frequentemente surgem questões acerca da possibilidade de se pensar a criança como u m existir que traz em sua constituição o caráter de indeterminação. recorreremos.1. foi Husserl quem trouxe a resposta para o problema de saber como poderíamos alcançar o fenómeno em sua mobilidade estrutural. Falso engodo: as discussões. Ainda há aqueles que apontam para o estado de inocência. Há os que defendem a posição de que o determinante do desenvolvimento da criança é biológico. tais como. outros tecem convincentes argumentos em defesa dos determinantes sociais e outros assumem u m posicionamento de conciliação entre estes dois fatores determinantes.1. cooriginário. França. mantiveram-se nas mesmas posições. se aflorassem. Victor. pelo fato de não ter convivido em ambiente humano. foi motivo de longas e intensas discussões no meio científico. por exemplo. Os investigadores dos fatores de determinação lio humano acreditavam que encontrariam nele as respostas para as intermináveis discussões. única e exclusivamente os condicionamentos do mundo. supõe-se neste caso que a criança pode ser constituída segundo 94 afirmavam que o caráter do humano estava presente (iprioristicamente em Victor. que existiam potenI l. As evidências eram de que ele andava 95 . no qual sua convivência se dava apenas entre os animais. com doze anos de idade. A f i m de tecer alguns esclarecimentos acerca do existir na primeira etapa de vida.

Proceder a uma investigação fenomenológica da experiência infantil consiste em ir ao fenómeno da intencionalidade em sua imanência. na medida em que os enunciados se dão. primeiramente. lugares ou fases de desenvolvimento de suas vidas. esclarecer de que modo se dá este ente em seu primeiro momento de vida. alimentar-se. Para pensarmos a consciência. questionar o paralelismo das estruturas dos enunciados e da realidade. u m sempre estar dirigida a. Precisamos. Em uma postura natural. E m Ser e tempo. vamos considerar a tese husserliana de que a consciência não pode ser tomada a partir de uma concepção substancializada que como tal se encontra espacial e temporalmente determinada. não importa se a verdade é correta ou imprópria. estes estão na própria enunciação. Em uma interpretação fenomenológico-existencial. Não podemos. que consiste em u m exercício constante para alcançar o fenómeno. já é intencional. abrindo inclusive a possibilidade de 97 . a ênfase acontece na intencionalidade. nesse sentido. deixando para trás todas as pressuposições sobre o mesmo. sem a qual o som não se dá. elas podem ser encontradas em qualquer experiência de m u n d o do ser-aí. Isto não diz respeito apenas à caracterização do seraí europeu desenvolvido. para então podermos pensar o homem em sua cooriginalidade com o mundo. deslocamo-nos de qualquer tentativa de posicionar o homem a partir de determinações biológicas ou sociais. suspendemos todos os posicionamentos ontológicos. Só assim é possível deixar que o sentido do fenómeno se dê no próprio campo de mostração do fenómeno. partimos neste caso da noção de que desde o início a criança. Heidegger afirma que a verdade não é originariamente adequação. tal como essa se dá nessa etapa da vida humana. ser-aí. assumimos uma postura fenomenológica. Partimos da concepção de que o som expressado pelo recém-nasci96 do no ato de nascer. não faria nenhum sentido falar de uma teoria do nascimento. é u m ente que tem o caráter de u m ente indeterminado.. assim como ao ser-aí dos povos primitivos. irritar-se etc. seja empirista ou racionalista. assim. e é a partir deste caráter que o ser-aí conquista o poder-ser que ele é. em todas as épocas.meio curvado e não tinha aprendido os fonemas humanos na pesquisa por nós empreendida. É necessária a co-presença. Todo e qualquer ato é intencional. Quando algo aparece. Em Ser e tempo. pautado no pensamento de Heidegger. C o m isto. Isso consiste em suspender toda e qualquer pressuposição teórica seja da Psicologia ou da Biologia acerca do comportamento infantil. Por mais que Heidegger (1929/2008) afirme que as estruturas existenciais se mostram mais claramente no homem primitivo ou no aborígine. pois não há como pensar o nascimento com vistas a u m ente dotado de caráter de poder-ser. Heidegger (1988) já afirma que as estruturas existenciais não são estruturas ônticas. e. assumindo uma atitude fenomenológica. lançado para fora de si. Por sua vez. u m caráter de intencionalidade. uma atitude antinatural. Ao tomarmos a existência como se constituindo pela indeterminação. Assumimos. mas também ao ser-aí infantil. ou seja. E a intencionalidade constitutiva do existir se dá em todos os atos: dormir. ele sempre aparece em u m horizonte em que a coisa é. Conferimos.. ocorre na cooriginalidade h o m e m . portanto. para nos aproximarmos. então. O ato de nascer já implica essa cooriginalidade. as estruturas históricas existenciais estão presentes em seu caráter de aí em todos os homens.m u n d o . espaço onde a existência acontece. jogado. da própria existência. a base do ser-aí humano é o seu caráter essencialmente histórico. em u m posicionamento acerca da criança. por conta da simplicidade da vida desses homens. Por outro lado. apreender o sentido da existência nos primeiros anos de vida. ^g0^ Pensar no caráter infantil do ser-aí das crianças requer. a morte é pensada onticamente como uma espécie de término e o nascimento como início. como ato. O que Heidegger coloca é que. com isto. acordar. exposto. e é nesta e apenas assim que se emite o som ao nascer. à consciência uma certa imanência. então.

uma vez que este não se encontra atrás de nós: "vale dizer que aquilo que primeiramente nos parece ser o que fomos primeiro é. p. contudo. Para Heidegger. para ele. orientação significa em geral estar direcionado para. O ato de assustar-se da criança evidencia que esta já está articulada com o espaço. Assim. característica das teorias do desenvolvimento em geral. em uma visada natural. em seu caráter de positividade." (2008. Basta u m leve ruído para que o ato de estremecer da criança apareça. Heidegger assinala o equívoco característico deste modo de pensar. então. Portanto. estar direcionado para fora de . o mais tardio" (2008. calor. Diferentemente de uma teoria que acredita que algo já sempre se dá no nascimento. Para Heidegger. O estado de sonolência no qual se encontra tal ser-aí primevo não significa que ainda não exista uma relação. prescindindo de qualquer teoria sobre o nascimento. Esse estado de sonolência em que o recém-nascido se encontra é descrito pelas teorias do desenvolvimento como egocentrismo e acabam por concluir que esse ser-aí estaria encerrado em si mesmo. então.. no espaço. bem como o primeiro choro já é u m choque bem determinado.. Essa interpretação já diz respeito à intencionalidade que. dirigido para . sono têm u m caráter negativo totalmente peculiar. com a noção de jogado. A experiência originária do ser-aí com a finitude diz respeito ao horizonte de realização do ser-aí. A intencionalidade fala sobre a exposição: tudo que acontece projeta o ser-aí imediatamente para além do acontecimento. o estado de sono e de sonolência. ele apenas indica que esse comportar-se em relação a ainda não tem uma finalidade determinada. Heidegger também não considera o nascimento o outro pólo extremo do ser-aí. dentre outras. Como. segundo ele. 99 .l31). Pode até parecer. C o m isto.nos comportarmos em relação a este algo. É por isso que qualquer coisa que aconteça nesse espaço a desperta. Ele refere-se ao choro e a agitação como dirigidos para evidenciando que é algo que se dá no mundo. estas teorias falam de u m sujeito imerso em si. sem qualquer finalidade e. mas que isto não significa de modo algum isolamento. Estas teorias postulam que primeiro nasce u m corpo biológico e depois vem o psiquismo. pelo traço da intencionaliliade. pensar no caráter biológico. já que não há nada antes da existência. em meio ao conhecimento.. denotando o caráter intencional de seu ato. uma teoria do nascimento pressupõe algo que nasce para depois existir. "Ao contrário. de acordo com aquilo que foi biologicamente determinado. A o mesmo tempo. o ser-aí já é dotado de intencionalidade. O filósofo ressalta a diferença entre finalidade e orientação e afirma que ausência de finalidade não significa desorientação. C o m isto. encapsulado. é o lugar onde se articula ser-aí.. podemos pensar a criança ao abandonar toda e qualquer teoria do desenvolvimento? Vamos acompanhar Heidegger em suas considerações e tentar viabilizar interpretações outras da vida infantil. totalmente isolado do mundo. Heidegger (2008) chama a atenção para o modo intencional de mostração do ser-aí de uma criança no primeiro momento de sua existência terrena. não se insere aí a mesma problemática da morte. dizer-se 98 orientado não significa estar voltado para uma finalidade. Heidegger defende que o nascimento é tardio. que o bebé em seu estado de sonolência constitui-se como u m eu autocentrado.. primeiramente é preciso ser no mundo.. acrescenta que o nascimento é abrupto. com o m o vimento agitado no mundo. Todo esse primeiro momento regula-se por choque e susto o que denota que a ação encontra-se tomada por uma dinâmica para fora. a "reação" da criança tem efetivamente o caráter de choque. A o nascer.l31). A o contrário. A aversão. como a teoria do grito primai. Esse filósofo não se preocupa com o nascimento. a alimentação.. o calor. nesta perspectiva. chamando a atenção para o fato de que inicialmente o ser-aí do recém nascido é marcado pela quietude. Logo que a criança nasce nos deparamos com o choro.. p. Ressaltamos que retroceder ao nascimento não é inverter o ser-para-a-morte. a defesa e essa necessidade autocentrada de quietude. para depois.

tal como denominada por Husserl (2007). mas não determina para ela. A repulsa. mas nunca vai se tornar lobo. antes de qualquer coisa. portanto. ter de assumir de u m modo ou de outro a responsabilidade por sua existência. intencionalidade. u m modo de ser. Segundo Heidegger. que deverá ser repelido. para tanto. Estas características do comportamento dos animais não se articulam pela negatividade. aconteceu em meio aos animais.1. A perplexidade. Os fenómenos da intencionalidade já se revelam na primeira situação na qual se encontra u m ser-aí em sua entrega ao mundo inicialmente desvalida. a repulsa é u m mero esquivar-se de. ao esquivar-se já está presente uma determinada rejeição. defesa.. vai sen100 t i r menos frio. que entra em cena u m desconforto. tudo isto é u m sinal de que o recém-nascido não se encontra ensimesmado. vai acompanhar a familiaridade que se apresenta. para podermos então interpretar o estado da criança em sua essência. u m comportamento inerente ao deixar algo ser. rejeição. uma forma originária do deter-se em. A essência do choque só pode ser esclarecida em conexão com o fenómeno do susto e do medo. 101 .. a estrutura i n tencional dos fenómenos: repulsa. Uma criança criada seja pelos lobos. u m ser-aí que se mostra desde sempre como u m existente. Logo. 3. O choque significa que o encontrar-se em uma disposição de ânimo é perturbado. interpretada como uma espécie de eu embrionário.. vai caçar. ainda que não ativa. É na presença da familiaridade que o sentido se constitui. nada aprioristicamente pode ser considerado como constituindo o homem que não seja ele mesmo na esfera do existir. seus significados vão se constituir na presença da familiaridade que. É preciso esclarecer. É a isto que H e i tiogger (1988) chama de cuidado: o fato de o ser-aí sempre ter de N c r e. que torna o homem responsável por aquilo que fizer de si.o ato de assustar-se é uma sensibilidade à perturbação. diz lespeito ao caráter de indeterminação da existência. dado o seu caráter de ser-aí. contudo. com determinações dadas pela sua natureza biológica. Ela vai andar em quatro patas. A criança é. vai mamar nas tetas da loba. Sartre (1997) esclarece esse caráter constitutivo do homem em sua máxima "A existência precede a essência". Estas reações apontam para o caráter de abertura em que o ser-aí sempre se encontra. de seu caráter de indeterminação. Logo.2. Portanto. da responsabilidade por sua existência. que aponta para a liberdade como u m traço constitutivo da existência humana. no caso do menino Victor. completamente fechado em si que paulatinamente vai se abrindo para o mundo. já que a existência se constitui nesse espaço. a criança é intencionalidade. A indeterminação angústia e liberdade da existência: Após assumir uma postura antinatural. de ter de ser e de singularidade da existência. Ao pensar a criança como ser-aí. traremos à discussão por meio da fenomenologia-hermenêutica e da perspectiva existencial o caráter de indeterminação. que Husserl denominou intencionalidade. defesa. sempre em jogo na constituição do modo de ser do homem. a rejeição e a defesa precisam ser diferenciadas. o susto e o choque já são. já está presente uma contraposição. deslocamos-nos completamente da descrição ôntica comumente referida à criança com "rosa em botão". A criança. e isto porque carece do mundo compartilhado com os homens. não pode prescindir. Faz-se necessário. Na defesa se inicia o contramovimento propriamente dito. reparar em algo. já estão determinadas por princípio. de sua liberdade. é sempre voltada para fora. marcados por uma disposição de ânimo. repulsa. na perspectiva existencial. neste modo. Nossa posição é a de que o mundo é que torna possível. pelas preguiças ou pelas girafas. rejeição. Mas pelo seu caráter de negatividade. Já uma criança não vai agir desde u m princípio como homem. nesta situação. uma recusa a Ao nos esquivarmos de algo. preguiça ou girafa. o contrapor-se. primeiramente esclarecer que liberdade.

Sartre. na qual o h o m e m tenta a qualquer preço posicionar-se como se ele fosse determinado por algo que transcende seu existir. Kierkegaard (2010) refere-se à posição psicológica da liberdade como sendo a posição em que o homem se apresenta frente à sua indeterminação e respectiva angústia. refere• . Assim. A tentativa de escapar da mobilização da angústia é d e n o m i nada por Kierkegaard de posição psicológica da não-liberdade. no caso a criança. Heidegger (2008) refere-se ao ser-aí do homem que. mas esta se torna inimaginável se ambos os elementos não se reunirem em u m terceiro. Kierkegaard. Tomar a existência como se constituindo pela indeterminação consiste em deslocar-se de qualquer tentativa de posicionar o homem. Para Heidegger (1988). não prescinde de seu caráter de indeterminação. aquilo que confere humanidade ao homem é a presença do espírito. a relado homem com a potência ambígua? Qual é a relação do espírito com ele mesmo e com sua condição? "A relação é a angústia. ao tratar da constituição do eu. No estado de inocência. no grego ou no romano. Continua o filósofo dinamarquês: O surgimento da angústia condensa o fulco de toda a questão.Os filósofos da existência marcam a indeterminação como o caráter mais próprio do existir. e isto na medida em que considera que o ser-aí humano não se altera seja na criança. em A do. em O conceito de angústia. a liberdade e a angústia são temas presentes em três grandes representantes da filosofia.( »u<i lai (2008. a partir de determinações biológicas ou sociais.33). dos possíveis e do necessário. Assim o espírito já está presente. O ser humano é uma síntese de corpo e alma. 102 I Logo. do finito e infinito. E é fato que os filósofos da existência apontam para a indeterminação como o caráter mais [>róprio do existir. Logo. portanto. o h o m e m . 2010.47). a criança. p. no aborígine. cada u m t e m de cuidar de sua existência. síntese do eterno e do temporal. nunca se tornaria homem. a liberdade e a responsabilidade na perspectiva existencial dizem respeito ao caráter de indeterminação da existência e ao fato de que qualquer que seja a etapa da vida. esclarece a situação de indeterminação do homem como marca da existência humana.47) A s filosofias da existência surgem em uma tentativa de se 111. pelas determinações originárias. A indeterminação." (KI líRKEGAARD. que consiste em tomar o ser-aí como aquele que sempre tem de ser. Kierkegaard (1842/2010). . Kierkegaard responde prontamente a pergunta que ele mesmo coloca: "Qual é. o ser-para-si que desde sempre é u m existeii te. no p r i m i t i vo. de sonho. afasta-se de qualquer posicionamento que pressupõe determinações aprioristicamente dadas e assume u m posicionamento existencial. mesmo que de inicio esse se encontre adormecido. o ser-aí. O terceiro é o espírito.i condição é o que muitas vezes mobiliza a criança e seus pais . em seu caráter de poder-ser. ele t e m de assumir a responsabilidade por sua existência. p. deixa claro o modo como todas as determinações e identificações do menino chefe surgem na sua existência por meio de suas diferentes experiências e como mesmo o ser menino ou menina não é algo naturalmente dado.i buscarem psicoterapia. Sartre (1997) diz que estamos fadados à liberdade. síntese do eterno e do temporal. que se interessam pela • IH» ni.Itero: 103 • .u das discussões epistemológicas. liberdade c responsabilidade por sua existência e a tentativa de fugir dess. finalmente e se alguma vez o fosse. dos possíveis e dos necessários. essa situação é cuidado. Aquilo que confere a humanidade ao homem é o espírito. Para Kierkegaard. 2010. (KIERKE- ( Í A A R D . em seu conto "A infância de u m chefe" (2005). ainda que em um estado de imediatidade. que se voltam para a existência. em qualquer instante de sua existência. p. o homem não é apenas um animal e. lio finito e infinito.

mas o que é o espírito? O espírito é o eu. de temporal e de eterno. em todas as etapas da existência humana. muitas vezes. caso não existisse a presença de outros homens? A Psicologia dispõe de diferentes teorias do desenvolvimento infantil que. Cabe perguntar: como isto é possível. diz o filósofo. o modo como Lucien vai traçando a sua existência. já que a moça vai ser muito fiel aos horários e ao c u m primento do estabelecido. Sartre (2005). marcadamente. Essa situação de fuga do tédio e da repetição vai estar presente. no seu texto A rotação dos cultivos (1843/2006). entregue ao caráter sensível da brincadeira. em uma palavra. A relevância e importância dada ao existir em detrimento de qualquer posicionamento apriorístico sobre a constituição do homem são. de liberdade e necessidade. o que estará em questão é o ser-aí humano. 105 . Dito de outra maneira: é o que na relação faz com que a relação se relacione consigo mesma. é aquela que. expUcitadas por Kierkegaard. assim. O filósofo traz. Mas o que é o eu? O eu é uma relação que se relaciona consigo mesmo. tanto que. de modo que quando esta se encontrar tomada pelo tédio. O marcante nesse trajeto é o fato de ele sempre ter de escolher frente aquilo que o mundo lhe apresentava. mostrando que a determinação prévia está constantemente ausente. E por mais que Heidegger (2008) afirme que as estruturas existenciais se mostram mais claramente no homem p r i m i t i v o ou no aborígine. A boa babá. na voz do pseudónimo esteta. O eu não é a relação. servem de base para a compreensão do modo de ser da criança. as estruturas históricas existenciais estão presentes em seu caráter de aí em todos os homens. Na mesma linha de pensamento de Kierkegaard. na intranqiiilidade que lhe é própria. ele recomenda do lugar do conselheiro esteta que aquele que procura uma babá nunca deve contratá-la pelas suas características éticas. em seu conto "A infância de u m chefe". possa distrair-se com as b r i n cadeiras da babá e. E m todos estes casos. O homem é uma síntese de infinitude e íinitude. elas podem ser encontradas em qualquer experiência de m u n d o do ser-aí. a que ele denominou como estádio estético. Aliás. mas o fato de que a relação se relaciona consigo mesma. em todas as épocas.o homem é espírito. deixa clara a sua defesa do caráter de indeterminação e liberdade presentes no percurso de vida do protagonista do conto. Devemos a esse filósofo a retomada do aspecto sensível da existência humana. referindo-se a tal experiência. E a base do ser-aí humano é seu caráter essencialmente histórico. é uma síntese. nesse sentido. nesse texto. e é a partir deste caráter que o ser-aí conquista o poderser que ele é. Lucien Fleurier. Agora vale ressaltar como acontece esse constituir-se. já que a criança ao nascer sempre se encontra articulada com o mundo. saiba distrair a criança. conduzindo-a a alimentar-se? O u ela não sobreviria. rapidamente se afaste do entediar-se próprio à repetição do existir. em Ser e tempo. lugares ou fases de desenvolvimento de suas vidas. (1988) já afirma que as estruturas existen104 ciais não são estruturas ónticas e que. do princípio ao fim. estádio também marcante da experiência infantil. segundo o filósofo dinamarquês. Essas teorias trabalham em sua grande maioria com critérios de normalidade e ajustamento. porém vai entediar a criança. por conta da simplicidade da vida desses homens. se a criança nada sabe e nada conhece? Não haveria uma determinação biológica. mas também ao ser-aí infantil e ao ser-aí dos p o vos primitivos. Kierkegaard deixa claro nesse trecho que é na relação que a existência se constitui. Isto não diz respeito apenas à caracterização do ser-aí europeu desenvolvido. Heidegger. A tarefa de Lucien consiste propriamente em ter de determinar-se por si mesmo por meio das referências da sua situação. Daí o fato da liberdade e da responsabilidade que cada u m carrega com relação à sua existência. que a levaria a sobreviver.

a de clarificação e a de obscurecimento de seu ser.3. já que é o fato do olhar do 106 . geral. que. a atenção fenomenológica consiste em não partir de qualquer posicionamento ontológico prévio acerca do comportamento das crianças e poder se aproximar daquele modo que se mostra em sua expressão singular. Todos esses posicionamentosfilosgsóficos: indicam o porquê de as categorizações se enraizarem e m n todas as especialidades sejam médicas ou psicológicas. apresentando sempre duas possibilidades. na clínica infantil. fora dos padrões estabelecidos pelo numérico ou qualitativo. ao se ver confundido com umam«nenina= questiona-se: "Serei uma menina ou u m menino?". os rótulos. A o tomar-se com u m ente presente à vista. cada u m tem de cuidar de sua existójtência.s.om r i queza de detalhes o percurso de Lucien Fleurier emsuaexxxistèn— cia.. cabe dizer que liberdade e respoonsabihdade na perspectiva existencial dizem respeito ao caráMterde indeterminação da existência e ao fato de que. Tomar a existência como se constituindo pela indetermimnaçào. Este. Heidegger em Ser e tempo diz que. o homem acaba por esquecer-se de seu caráter de poder-ser e acredita que.C o m isto. Lucien diz precisar de um bí bigode para parecer u m chefe. deixa claro como a criança se define a pamrtir dc» mundo. Lembnoramosque é essa postura frente ao fenómeno o que Husserl deno. pode-se por meio delas prescrever os comportamentos inadequados. Assumir uma postura fenomenológica frente ao fenómeno consiste em suspender qualquer posicionamento ontológico prévio. A desconstrução das teorias identificatórias Kierkegaard. a o clínicaexistencial vai logo de início retirar de seu campo de visão o todos. do mesmo modo que os entes intramundanos que vêm de início e na maioria das vezes ao seu encontro. da aprendizagem ou qualquer outro posicionamen-nto etn. seja da ciência ou do senso comum sobre as coisas e os fenómenos. N o entanto. jogado. Em síntese. que em toda expressão singular reside o universal. E. consiste em deslocar-se de qualquer tentativa de posicioconar o homem.oniina_ de atitude antinatural. Éprecisaso cuidado para não nos deixarmos conduzir por tais rótulos e a acabarpor obscurecer a visada daquilo que se mostra. ele utiliza-se da denominação de u m estádio determinado: o estádio ético. e. Sartre (1997) refere-se ao modo como o homem busca uma identidade e. a existência é tomada de acordo com u m processo normativo. N o final. ele também possuiria características e funções previamente determinadas. 107^7 3. diagnósticos e categorializações que provêm o taato das disciplinas científicas quanto do senso comum. Aliás. do mesmo modo que os utensílios. no caso a criança. outro que o torna u m em-si. portanto marcado pelo carátiiterde poder ser e ter de ser. Isso acontece porque ele se considera do modo como se constitui de imediato a sua lida com os entes à sua volta na ocupação. Em Psicologia de u m modo geral. o ser-aí não se deixa aprisionar. a considera o seu inferno. se vê exposto. ao mesmo tempo. Nesse estádio. que consiste em suspender todos os posicionaimnentos teóricos seja da psicologia do desenvolvimento. qualque^er que seja a etapa da vida. a partir de determinações bioíológicas ou sociais. para referir-se ao modo identitário em que o homem moderno tenta se posicionar. Em segundo lugar. Sabendo-se. para poder pensar em uma c xlínica fenomenológico-existencial infantil. é preciso partir da id«Eéiade que desde o início a criança é este ente que. enfim. logo de início. a clínica psicológica infantil com fundaB amentos existenciais requer primeiramente uma postura fenommenológica. desde o princípio. já homem. logo com determinações e identificações dadas em si mesmo. da pers»sonalidade. de início e na maioria das vezes. livre de determinações. por fim. Esse filósofo (2005) relata co:. por se conaistitiiir pela indeterminação. o ser-aí se toma como coisa e assim se compreende. lançado pars-a fora dele. entre: outros trechos. desajustados.1. mais especificamente.

A posição fenomenológica frente à criança é fundamental. A atitude fenomenológica consiste inicialmente no abandono de todas as teorias e técnicas em Psicologia.4. Passamos u transferir a responsabilidade pela criança totalmente aos pais ou aos adultos próximos a ela. no caso da criança. diferentemente. junto ao outro dar u m passo atrás e deixar que este outro assuma a responsabilidade ou tutela pelas suas próprias escolhas? Podemos falar da liberdade e responsabilidade na criança já que esta em sua fragilidade e vulnerabilidade não pode tutelar a si mesma? C o m base nas referências acima expostas. podermos sair de posições que naturalmente são assumidas quando se lida com as questões apresentadas de modo inadvertido. tendem a assumir a tutela. assim. sem nem mesmo refletir acerca do modo como se relaciona com a criança. de modo que acaba trazendo uma configuração da questão como previamente determinada. mostraremos a importância de se tomar o fenómeno que se apresenta da forma tal como este se dá. Nessa interpretação. uma vez junto à criança. Os adultos. de forma a não se deixar conduzir pelo que previamente já foi posicionado. não cabendo à criança nenhum compromisso com sua existência.3. antes de mais nada. com determinações também já dadas. no reconhecimento de que aquele que busca a psicoterapia para a criança muito frequentemente parte de uma atitude natural. assim. Os adultos. devolvamos à criança o seu ter de ser. que nos eximamos da tutela e. muito frequentemente. tendemos a desonerar os infantes de sua responsabilidade. deixando-a na tutela por si mesma. Desta forma. Para apresentarmos a clínica psicológica. para assim acompanharmos o fenómeno no seu modo de revelar-se. acreditamos que a criança deve ficar sempre na tutela do adulto e que a este compete toda a responsabilidade pelas escolhas da criança. dando lugar a uma configuração do real previamente dado. lambem neste mesmo horizonte. dc 108 u m modo geral. seja por meio de u m diagnóstico ou de u m parecer dado pelos pais ou professores entre outros. Uma atenção fenomenológica exige de nós que suspendamos qualquer interpretação acerca do que está acontecendo com aquele que procura o psicólogo. A atenção fenomenológica pressupõe. Assim. às seguintes questões: Como assumir uma atitude fenomenológica em uma clínica infantil. ou seja. sem 109 . deixando que ela mesma tutele as suas decisões e escolhas. concluímos que a atenção fenomenológica na clínica infantil consiste em. poder dar u m passo atrás. Uma psicoterapia com base fenomenológica baseia-se. surgem. já que esta tende a desonerar-se de sua responsabilidade e a transferi-la aos pais ou ao adulto próximos a ela. A clínica psicológica com crianças Ao apresentar a clínica psicológica com crianças aos estudantes e até profissionais da psicologia. prescindindo de qualquer teoria em Psicologia? Como atender com crianças à máxima da análise existencial de deixar o outro livre para si mesmo? Como é possível. tende a trazer diagnósticos e pareceres acerca da questão apresentada pela criança. de u m modo geral. Assumir uma postura antinatural na clínica é o mesmo que acompanhar a criança. Frente a esta configuração. o seu cuidado.1. A segunda situação repousa sobre o princípio de que a criança não pode jamais assumir a responsabilidade pelas suas ações e situações. A primeira situação aponta para a tendência de vermos a criança a partir dos diagnósticos previamente dados. na sua mobilidade estrutural. estamos correspondendo ao horizonte histórico em que nos encontramos. o qual interpreta o primeiro momento de vida como uma situação naturalmente frágil. ocorre que o fenómeno propriamente dito desaparece. Aproximar-se fenomenologicamente da situação significa o mesmo que reconduzir àquilo que é apresentado. que determinam caminhos e procedimentos. Em uma atitude natural. também tendem a assumir a tutela. Duas situações deixam evidente a importância de assumirmos a postura fenomenológica e.

o mais demoradamente possível. A o assumir u m posicionamento fenomenológico. à sua responsabilidade: é isto que é essencial na relação psicoterapêutica. deixando. temendo que a criança fique sozinha. E por não conseguirem sustentar a criança no seu hermetismo.ilo Para esclarecer a postura fenomenológica em uma situação de atendimento clínico infantil. a partir da sua própria tutela. o adulto. Colocandose junto a ela. a sua tutela. por sua vez. distraí-la. tentam. E nisso se baseia a liberdade e responsabilidade desta criança. E. preocupados com o de a criança estar "pegando coisas dos outros". Assim. mas pode ganhar a si mesma. Antônio estava com sete anos quando sua mãe procurou acompanhamento psicológico para a criança. assim. assim. Marcamos p r i m e i ramente uma entrevista com os pais por dois motivos: primeiro. nem pensar o que naturalmente se pensa. deixando-a no momento clínico conquistar a responsabilidade d e decidir as coisas por si mesma. ao atuar com a criança. E ainda. assim. ou seja. a criança por si própria. A situação clínica teve início quando os pais de Antônio proi i r a m u m psicólogo. isto é. Nisso consiste o seu ofício. segundo. entregue a si mesma. 110 i l. que aqui implica não fazer o que naturalmente se faz. Ao mesmo tempo. a responsabilidade pelo seu existir. ou seja. Em consulta lio psiquiatra. mas em todas as suas etapas. o clínico permanece sempre presente. desprovido de u m modo de pensar como naturalmente se pensa. possa desvelar-se no seu caráter de ter de cuidar de si e poder-ser. os adultos. seja pela Psiquiatria. porém. assim. isso implica poder recuar e. mostraremos como se dá aqui a situação. A mãe coloca em dúvida o diagnóstico médico e acrescenta que A i i l ô i i i o só quer chamar a atenção dos pais.nem mesmo refletirem acerca do modo como se relacionam com a criança. É isso que Kierkegaard vai considerar como as sequelas da existência e que Sartre vai denominar de má-fé. entregála ao seu próprio cuidado. E. por variados e diferentes modos. d e forma a permitir que a criança. Neste caso. Assumir uma postura antinatural significa neste caso o mesmo que poder dar u m passo atrás junto à criança. a qualquer preço. então. tem sob os olhos o que está acontecendo. acabam assumindo para si mesmo todo o cuidado e tutela. o psicólogo pode questionar o que naturalmente se toma como a verdade pronta e acabada. algo que lhe confere a libertação em relação a todos os diagnósticos estabelecidos. ele precisa deixar parecer à criança que está ausente. Heidegger (1988) denomina esse modo dc acompanhar o o u t r o de preocupação por anteposição ou preo cupação libertadora. apresentaremos fragmentos de uma situação clínica e. assume o seu caráter de cuidado. que a criança acabe por acreditar que não cabe a ela mesma a responsabilidade por sua existência. ao mesmo tempo. o caso aqui em questão. sem se preocupar com o modo substitutivo da preocupação. parece ser u m caminho n o qual a criança perde a tutela do adulto. confiando no caráter de indeterminação do seu ser. por indicação médica. Deixá-la caminhar por si mesma. então. subtraindo dela o caráter de cuidado que ela mesma precisa ter consigo. junto à criança. em uma experiência de permanecer consigo mesma. era importante que os pais trouxessem a questão de Antônio. tentando. pela Psicologia ou pelo senso comum. bem como o modo como eles vinham lidando com aquilo que se apresentava. sem tentar desonerá-la dessa tarefa de diferentes modos. a atenção volta-se para a criança em seu modo próprio de comportar-se. O psicólogo clínico. era importante que ambos estivessem de acordo com o acompanhamento psicológico. E o medo da solidão e a não responsabilidade por sua existência acabam acompanhando-a não só na primeira etapa da vida. não assumir no lugar dela. esse dissera que se tratava de u m a cleptomania. Vejamos. deixando-a se mostrar por si mesma. deve assumir uma atitude fenomenológica. Mantê-la em liberdade. jus111 . Este atendimento acontece por meio de uma atitude fenomenológica. comprometendose a comparecer quando solicitados. acompanhar as determinações oriundas do seu comportamento.

pela mãe ao interpretar a ação da criança como uma tentativa de chamar a atenção. retira-lhe a responsabilidade por seu ato e o coloca sob a tutela do psíquico ou do biológico. Isso não quer necessariamente d i zer que o menino está chamando atenção para ele. A criança pega coisas dos outros. Após o relato irritadiço do pai. o fenómeno mesmo fica obscurecido. no caso chamar a atenção.1 Antônio que ele deve seguir o exemplo do irmão. Assim os comportamentos do menino se transformam em sintomas. O pai também dá uma interpretação a partir da sua experiência e em uma atmosfera afetiva de irritabilidade com a situação: . da seguinte forma: Hu acho que são estas coisas que também fazem mal a Antôiiu> A impaciência. faz tudo como deve ser feito. pois não aceita uni ato ilícito. pelo senso comum ou pela contravenção. se não mudar. A mãe interpreta com as referências da Psicologia do senso c o m u m de que toda a ação tem por trás algo que a motiva. a comparação. Agora.tificar o comportamento do filho por uma determinação psíquica. O psiquiatra utiliza como referência os manuais descritivos da psicopatologia. Deste modo. Uma atitude natural também foi assumida. O médico. podemos refletir sobre coim 1 se dá uma atitude fenomenológica frente à questão apresentadii pelo médico e pelos pais. chego em casa. um garoto exemplar. o fenómeno imediatamente desaparece. a intolerância. Em ambas as interpretações. não era mais Antônio que pegava as coisas dos outros e sim aquilo com que o passaram a identificar. Se todas essas interpretações e orientações forem seguidas. em uma "atitude natui ai'. Se continuar me agredindo. dando lugar a uma categoria de diagnóstico. Esse breve relato traz indicações que merecem ser pensadas. se continuar a cometer atos ilícitos. ele estava totalmente justificado. aliás. Eu digo sempre para Antônio. Quando algo desaparece.ie retoma. Além disto. diz .< dia todo. Ela mostra-se bastante aflita com a situação e inicia: . E o conjunto desses sintomas é o suficiente para deduzir que se trata de uma compulsão. o irmão. no acontecimento. todos nós precisamos ser ajudados. colocando modelos a serem seguidos. devemos penetrar mais na situação e ver o que a |'M')pria história tem a nos dizer. A primeira diz respeito ao fato de que a criança vem tirando objetos dos outros.Antônio vem pegando coisas dos outros (chora). Já o pai caracteriza a situação como ilícita. ao dizer que o menino só queria chamar a atenção dos pais ou que se tratava de u m transtorno.Eu só quero saber por que Antônio está me agredindo. uma vez identificado por uma classificação psiquiátrica. Também pode dizer que está tendo prazer com a iiilrenalina que o ato de pegar escondido produz. caso o menino não modifique seu comportamento. Mas como sal>er o sentido que o ato de afanar tem para Antônio? Temos que 1'uscar nele mesmo. ele suspenderá a sua tutela. vou ensinar o dever de casa e acabo 113 . Por isso vim aqui te pedir ajuda. acho que ele está querendo chamar a atenção. a ação de afanar coisas teria sido motivada por algo que se encontrava por detrás da ação. Voltemos ao fenómeno. João. Não cabendo mais a Antônio o compromisso com sua ação. Isto me preocupa muito. Assim. a tii. Porém. estamos precisando ficar mais próximos dele. criase uma nova zona de atenção. se ele insistir em me provocar. Eu também traballh< . A q u i não é mais a voz da ciência que dá o veredito. Assim. pode eslar dizendo qualquer outra coisa. 112 tende a classificar o comportamento da criança pelas características que constam nos manuais de psicopatologia e conclui a partir dos sintomas que se trata de uma cleptomania. estamos sempre muito preocupados com o trabalho e outras coisas e acho que Antônio vai ficando meio esquecido. que fala por si mesmo. inclusive que esconde coisas dos outros. A criança e seus comportamentos desaparecem. João é totalmente diferente. as coisas andam meio confusas. O fenómeno ganha apressadamente duas interpretações. é um exemplo a ser seguido. Para alcançar o problema 'Icsia história. O pai deixa claro que. Apenas com esse breve trecho. mas a do senso comum. vou esquecer que ele existe. eu não vou mais querer saber dele.

poderiam me falar mais sobre isto?". mas Antônio me disse que trocou com os amigos. A criança precisa ser deixada a ela mesma. Agora.Desde quando isto vem acontecendo? E. Brinquedos do irmão. não chorou. não dei muita importância. Como eles têm esse hábito e não era nada imporliinte.também ficando impaciente. ao falar. assim mesmo. mas não o problema de Antônio. E a criança. Para Kierkegaard. assume a tutela pelas escolhas do filho. Chamei Antônio e briguei muito com ele. Era preciso. pergunta: . O analista. ao assustar-se.Já vinham sumindo algumas coisas pequenas. ficamos pensando seja não era Antônio que vinha pegando. parece querer convencê-lo de que havia uma causa psíquica para o que vinha acontecendo e que eles. Concordamos em não contar. a mãe. Deixar que o filho da empregada fosse acusado poderia não estar relacionado ao fato de o menino estar despreocupado com o outro. Voltamos lá. (2010) a doença do espírito está relacionada à desoneração da própria responsabilidade. a mãe também mostrou mais preocupação com a questão ética do que propriamente com a atmosfera da situação de Antônio não querer assumir o seu ato. Tudo isto acaba complicando. Era importante saber que coisas a criança pega e de quem Antônio pega as coisas e assim i r penetrando. Isto tudo também prejudica Antônio. Não estou querendo passar a mão na cabeça. Agora que aconteceu algo mais grave. fomos à casa dos meus pais. mas não se sabia quem foi. se pedisse nós dávamos. De qualquer modo. Eu tinha encontrado alguns lápis estranhos. Nesse trecho. depois perguntei por que tinha feito isto. ficou calado. Conversei com o pai. eles foram pegar dinheiro na carteira e o dinheiro tinha desaparecido. Só agora ijiiiindo o dinheiro sumiu e achei com ele. tinha medo que eles deixassem de gostar dele. antes que o filho da empregada fosse acusado. diz que está com saudades. assustado. deixou que o filho da empregada levasse a culpa. Na escola. Ele me implorou que não contasse para ninguém. continuar a deixar aparecer o fenómeno. a mãe assume a responsabilidade pelo comportamento do menino. Não só porque ele pegara. O analista retorna querendo saber se houve uma quebra na experiência cotidiana da família ou de Antônio: 115 .Você me disse que Antônio vem pegando coisas. mas de que ele estava com medo. Novamente. Primeiramente. domingo passado. aquilo me deixou muito mal. não queria que os avós soubessem disto. não podia prometer nada. mas temos que considerar isto tudo. querendo dar a conhecer a situação. não precisava pegar. Suspeitamos do filho da empregada. novamente a mãe responde: . se mostra bastante cuidadosa para não contrariar o marido. vi dinheiro no bolso de sua calça. na história. Solucionamos este problema. às vezes me telefona. A fim de saber mais acerca do comportamento de Antônio. só repetia que os avós não podiam saber de nada. tudo isto é deste semestre. houve queixas. mas também porque viu que acusamos o filho da empregada e. An114 tônio ouviu tudo de cabeça baixa. A mãe prontamente responde: . mas não tínhamos ligado muito para a situação. Ao mesmo tempo. Em uma preocupação substitutiva. não antes. Antônio colocou o dinheiro em um lugar que fosse fácil achar e ele mesmo arrumou um jeito de dizer que havia encontrado. também eram responsáveis. os pais. tende a correr. Antônio implorou e disse: meus avós não. o analista pergunta: . mas ele teria que arrumar um jeito de devolver o dinheiro. foi que associei todos esses acontecimentos. não procurei saber.Eu não sei dizer ao certo. Esse relato da mãe traz elementos aos quais devemos nos deter. mas já vínhamos notando que pequenas coisas andavam desaparecendo. cada vez mais. Ele fica com minha mãe o dia inteiro. no entanto. que já tinha saído. Lá pelas tantas. para que possa conquistar a responsabilidade consigo mesma. Por que ele está fazendo isto? Ele tem de tudo. fugir da situação que a amedronta. Quando chegamos em casa e fui arrumar as coisas de Antônio. Eu disse que primeiro tinha que conversar com o pai.

O analista. Era preciso sair desse tipo <lr interpretação. morávamos em uma casa maior e fomos para um apartamento e a avó materna foi morar junto no apartamento. parecendo estabelecer certa cumplicidade e aguarda. um não tem ciúmes do outro. de percebermos que estava acontecendo? As notas de Antônio vinham baixando. Como a idade é próxima. algo que chame a atenção de vocês? A mãe olha para o pai. o pai assume a dianteira: .Eo irmão.E há alguma mudança na estrutura de família. perguntei-lhes se Antônio sabia que eles estavam vindo à entrevista. petiirem ajuda ao psicólogo e o que vinha preocupando-os iiii i oinportamento dele. importa o ' iiiiiln (|iu' Antônio dá à sua experiência. têm uma direcionalidade. então. É melhor mentir?. do esconder coisas. pois. i n uma postura antinatural. não devem ser ditas ao psicólogo. assim sendo. Eles são muito carinhosos um com o outro.E você. Enfim.Antes disto acontecer. Heidegger coloca-se de outro modo e diz que o gesto é decisivo para indicar o comportamento que devemos acompanhar. ao perceber indícios de segredos familiaien. Lea. Miinllio" dado pela mãe e pelo médico e volta-se para o fenó- no n n sua mobihdade estrutural. percebo nl um pedido de ajuda. Novamente. sobre o porquê de . é tudo isso que ele falou. o psicoterapeuta deu início ao < > 'lupiniento da atmosfera do segredo. que eu me lembre nada se modificou. mudança de casa. tem algo a acrescentar? . Parecia esperar que ele falasse alguma coisa e o pai se pronuncia: . João não dá problemas.. ele é muito inteligente. brincam muito. Mas interpretar o que o gesto quer dizer é fenomenológico? A fenomenologia não ignora o fato de que os olhares. Nesse trecho. resolve abrir u m espaço para que Lea se pronuncie: . João é uma criança muito dócil. Eles concordaram e marcamos o enI ' . acho que eleja cs tava pedindo ajuda. OrienI. Já começando .Só estou dizendo para você prestar mais atenção ao que você está falando. pois estavam esperando ver o encaminhamento que seria dado pelo psicólogo. O analista volta-se para a mãe e pergunta: . Ao terminarmos a sessão. Só acho que você tem que prestar mais atenção ao que você fala. O pai responde: . de escola. fazer com que as coisas desapareçam. Quanto à interpretação dos gestos. ele vai se sentir diminuído. dessa forma.Não. Neste momento. não insiste e vai investigar as outras relii ções de Antônio: 116 . mas isso já tem quase dois anos. nunca alcançaríamos o que lealmente está em questão.Acho que não. I o s a contar ao menino sobre a entrevista. A mãe retruca: . se lembra de alguma coisa? Lea responde: . Mãe e pai apresentam uma cumplicidade com relação ao que deve e não deve ser dito.1 psicoterapia propriamente dita. como atos de olhar.Muito bom. a mãe passa a interpretação de que aquilo c | i u a criança faz tem outra intenção. mas já faz algum tempo. que essa se destinava a u m iicompanhamento psicológico com ele. aparece a atmosfera familiar do afanar. I' . Husserl (1970) diz que esta depende da inserção do sentido e. Agora. o analista suspende o "diag- 'iilro com Antônio três dias depois. Lea. respeita a situação. as notas na escola são sempre boas. eles são muito amiguinhos. Eles responderam que IIilida não haviam comunicado. Se Antônio ouve o que você falou. A postura fenomenoII implica deslocar-se das interpretações comumente atribu117 .Só porque estou falando a verdade. (A mãe permanece em silêncio).£ você. Aqui aparecem indícios não verbais de que há coisas que não devem aparecer. como éo relacionamento deles?Agora. O analista. sempre que o seu rendimento cai. não é fenomenológica. Mudamos de casa.

''' Troquei. O u seja. assim. o analista iniciou com a seguinte pergunta: . tem início a atuação clínica. peguei escondido. I I I 1 I 'i I (1 Verdades que assumi Mentiras que preguei Mentiras que preguei M entiras que preguei Verdades que assumi M entiras que preguei Verdades que assumi Verdades que assumi Coloquei de volta. 118 Todos contam mentirinhas. para assim poder assumir a sua l i berdade e responsabilidade. A f i m de saber se os pais haviam seguido sua orientação. A atenção do psicólogo volta-se para a criança em seu modo próprio de comportar-se e deixando que ela se mostre por si mesma. A criança. Minha mãe fez a mesma coisa para eu entrar no hospital para ver meu primo. assumindo uma atitude antinatural com relação à questão que se apresenta. O pai me apresentou a ele. À esquerda do papel pediu que eu escrevesse "erros" e à direita " acertos" e a brincadeira consistia em pensarmos nós dois o que se enquadraria em cada uma dessas colunas." Peguei as coisas do papai e ele descobriu'^ O erro que aconteceu: eu fui no portaóculos do meu irmão e peguei 1 carro e dois c a r d s . Pedi ao papai. Após u m silêncio prolongado. para que ele não multasse meu pai porque eu estava no banco da frente. o analista deverá assumir uma atitude fenomenológica. deve ser recebida a partir daquilo que vai acontecer na relação nesse momento estabelecida. e. ao se apresentar ao analista. Mas lá em casa todo mundo gosta de contar algumas mentirinhas. Para tanto. poder continuar as revelações. Ele acaba pegando meu lápis. Ãs vezes. meu pai pede para eu contar. mas ainda não ao passou.Também gosto de contar algumas mentirinhas. Para tanto. eu tinha igual. vergonha de dizer. Meu pai pediu para eu mentir para o guarda e dizer que eu tinha 12 anos. inclusive no relato dos pais. eu dei um cardgame para ela. Aí.'" 119 . Aí o que acontece.Teus pais te disseram o porquê de você vir à psicóloga? Antônio consentiu com u m gesto e disse: .suspender todo e qualquer pressuposto que anteriormente se fez presente. mas tenho medo. depois passou. mas nem sei por quê. "Pedir verdadeiro" Agenda: fiquei u m pouquinho triste.'. Eu também rôo unha. Laura me acusou de ter pego um lápis dela.idas. para ela não ficar triste comigo.Eu sei por que estou aqui. é preciso que a visada sobre o fenómeno que se apresenta não se dê a partir de nenhum pressuposto em tese acerca do que possa ser uma "compulsão a afanar coisas". Na escola. Antônio prontamente preenche a primeira linha da coluna erros com o seguinte: "Pegar escondido" e na coluna acertos: "Pedir verdadeiro" "Pegar escondido" Bonequinho do i r m ã o : peguei para brincar. " 9 10 I I 1. retorna: . às vezes. só minha avó é que não pede. depois ia devolver. O menino sorr i u e prontamente dirigiu-se à sala. Antônio propôs uma brincadeira de erros e acertos e. Estava muito bem arrumado. tomando o modo de ser da criança em sua expressão singular. Para exemplificar este modo de proceder clinicamente. depois devolvi e troquei por objetos. Não peguei o de Laura. mostrando certo entusiasmo.' Bonequinho do primo: peguei para brincar. mas ela disse para todo mundo que fui eu. Após u m longo silêncio. meu amigo Carlos faz os mesmos erros que eu. assim . Eu não peguei. acompanhado do pai. Eu peguei o bonequinho de meu irmão. " Peguei coisas do m e u avô e do meu p a i . E isto consiste em deixá-la livre para si mesma. às vezes minha mãe pede para eu contar. Carlos também quer o lápis. Se eu tenho um lápis. apresentaremos u m trecho desse atendimento: Antônio compareceu à sessão.

Alex rouba as coisas dos outros. tenho medo de não controlar. Ele já fez isso. .Parece que essa situação te deixa muito triste. Eu desconfio também da Flávia.De pegar as coisas dos outros. Mas não é só isso não. parecia estar chorando. sem ninguém brincando comigo. falei: . Antônio deixou claro o clima de medo e tristeza em que ele se encontrava. Vê se você descobre. Também tenho medo que Gabriel coloque coisas na minha bolsa e depois me culpe. e eu também quero ficar com meu pai. tenho ficar sozinho no recreio. O quinto erro. disse que tinha sido o Gabriel que tinha colocado no meu estojo. Na tentativa de mobili zá-lo e tentar compreender o que estava acontecendo. ao suspender as prescrições do mundo no que se refere ao certo e ao errado. na qual esconder coisas se fazia presente. Não vou à festa. O analista tenta buscar o que estava acontecendo para que ocorresse uma mudança de atmosfera. Já te dei uiiiii i'isla do que foi o erro. tem outro problema. O analista arrisca: Você pegou uma nota de cinco. .Sabe. meu pai vai sair com João. Já consertei ontem.Não ter ninguém por perto. abaixa a cabeça. (Bebe água. só que ninguém acreditou. Nesse primeiro encontro com a criança. vai ao banheiro. . A sessão termina e. Antônio fica calado. acusam a pessoa de uma coisa que ela não fez. no final. Por isso. pensei bem e não me importo de não ter amigos. Sabia do risco que corria.i para não retornar a sala). nesse momento não importava mais: -Ena escola. que anteriormente trouxera u m astral de tristeza. é imporlaule o l ' servar que a psicóloga deixou que a criança se expressasse HV\\ 120 i n d o emitir nenhum juízo de valor.Vontade de que.Tem outro.E como é ficar sozinho para você'^ Antônio: (permanece em silêncio) . Antônio'? . nem buscar evidências de u m transtorno.Tem medo de não controlar o que? . faz lini. só que vai ser na casa dele. já uni^-rrlci. é. nunca vivi isto. Eu não tenho vontade de ir. Aquilo. só que ela me viu colocando o lápis e eu me defendi. sabe? Eu não quero ir à festa. põe a mão no rosto.A vontade" (silêncio) . parecendo triste.Eu queria contar um problema: Pedro vai ter a festa de aniversário dele. já que a tonalidade do êxtase frente ao prazer de pegar coisas. facilitava que.E você quer isto para você?" Antônio prontamente responde: Não. Deixar de ter amigos não faz mal para mim.E vou ficar muito sozinho. A criança expressou-se livremente e logo apresentou a atmosfera da convivência familiar. Bruna sentiu a falta do lápis. ela também pega as coisas dos outros. vontade mesmo. ao mesmo tempo em que reconhecia que o prazer em pegar coisas poderia acabar por deixá-lo em uma situação difícil entre os demais. Repentinamente. aí eu coloquei o lápis na mesa de Bruna. Eu não quero pegar. Antônio retruca: 121 . . como vai ser ficar sozinho? Antônio retoma o humor anteriormente apresentado e diz: . no encontro seguinte. guardou no meu estojo o lápis de Bruna. ficar sozinho no recreio. sair com os dois.Antônio suspende a brincadeira e diz: . ficou todo mundo olhando para mim. A o mesmo tempo. Vou ficar triste. dei minha nota de cinco. ele as pegasse. levantou a cabeça e fitou-me por u m longo tempo.Ficar sozinho e não ter ninguém para brincar. tem muita gente que rouba e também tem um pequeno probleminha. preferia abrir mão de i r à festa. Antônio chega animado e começa a falar: . . Quero beber água.Então você tem dois motivos para não querer ir à festa. não vou gostar O analista questiona: . mas eu olho a coisa e me dá muita vontade.

. passa a mão no rosto. No dia seguinte. Pedrinho. Tia Anastácia não aceitou.Então você não tem nada para me contar 123 .Vou desenhar o Visconde de Sabugoza.i os olhos. () analista.Não aconteceu nada nesta semana. "Quero". seis e alguma coisa. foram jantar e aí chegou uma bru xa e perguntou: você virou o pequeno polegar e todos responderam: "não". o príncipe mandou uma carta dizendo: "Na rizinho. Aí Narizinho foi falar com Pedrinho e o Barnabé e o Vis conde para ir para junto com ela.Então você devolveu o dinheiro que tinha pego. Um dia.Era uma vez.Saí com meu pai. Diminui uma conta. Antônio pediu para desenhar e disse: . Ele oscilava entre a vontade de contar o que ele mesmo denominava de "erros e acertos" e a vontade de não trazer essas mesmas questões. Eram seis reais de duas pessoas. O analista então pergunta. Nesse lugar. ela falou: "Que pílula horrível". logo que Antônio chega diz: .Não.Vamos fazer a brincadeira dos erros e dos acertos? Erros Maluca Emília C r i a confusão mentiras N ã o tem erros Sabugoza Antônio _ ^ Acertos Inteligente fala a verdade faladeira Inteligente Sábio Honesto fala verdades Antônio X às vezes X X X às vezes às vezes Tivemos a oportunidade de observar a tensão em que Antônio se encontrava. O analista apenas o acompanhava. você quer casar comigo?" Narizinho respondeu. Quando colocou uma pílula na língua de Emília. Pegaram o rabicó e foram para o castelo. tinha ido lá para buscar a Emília e as pílulas falantes com Dr Caramujo. E como você se sentiu? Antônio responde: . Quando a Emília está com uma ideia. Emília sempre entra numa confusão e numa aventura. O príncipe obrigou o sapo a comer cinquenta pedrinhas. r i . um lugarzinho no meio do mato. Essa tensão. então. Fica em silêncio. A primeira fala da Emília: . No próximo encontro. moravam muitas pessoas como o Visconde de Sabugoza. Tinha um sapo tomando conta do castelo. r i novamente. Narizinho não quis casar. Troquei com a minha mãe e eu deixei. aventura perigosa. abaiK. Respira fundo. fica em silêncio. Eles entraram no castelo. chi 122 esqueceu a Emília. Eu troquei a nota de dez e uma moeda de um real. consertei meu erro. O passatempo mais divertido dele é ler livros e sempre pensa uma coisa para resolver todos os problemas.. Emília e Dona Benta. Só um problema nesta semana. Antônio soUcita outra atividade: . eleja está com outra. estava dormindo. continua a acontecer nos encontros seguintes. Ele foi feito por Pedrinho com uma espiga de milho. que se apresentava cm uma oscilação. Pedrinho foi conhecer o reino. Retoma a palavra e diz: . . sem forçá-lo a seguir nenhuma liireção. convida Antônio a sentar-se no sofá. A criança vai |iara o sofá. acompanhava-o naquilo que ele queria expressar. Era um sítio. deita-se e permanece em silêncio. mexe-se na cadeira. O polvo puxou o rabicó. Após acabar o desenho e a história. Ele também tem muitos amigos: Narizinho. Narizinho estava sentada na beira do rio com sua amiga Emília que não sabia falar Um dia apareceu o Príncipe do rio e foram para um castelo.Aliviado.

E pede para desenhar e escrever a história sobre o desenho. N o final.Esta semana não aconteceu nenhum problema. Lauro? Lauro respondeu era o Cláudio.Prepara o papel. pede para desenhar. Antônio permanecia em silêncio opondo resistência e mantendo-se na tensão: "quero contar e preciso não contar".

1.. Antônio interrompe: (Jicga. Vaz outro desenho e diz: . No encontro seguinte. Continua. parecia estar lendo u m livro infantil que ele mesmo t r o n a i ' i ii t ) silêncio da criança parecia.Antônio responde: . do mistério.. porém chamando-o de erro. FIM .A família de Lauro Era uma vez. E a mãe perguntou: Quem rríi. ao ficar consigo mesma. super.riitc.Tenho. iiiiiiiiiiiiiii. o pai e o filho. pois não queria ouvir. acontecera o que o filósofo dinamarquês chama de mau hermetismo. Porque Cláudio é super. assume sua própria tutela. no qual a criança.Escolhi porque o pai. . tal situação é de suma importância. do silêncio. Ao terminar a sessão diz: . faço um envelope de meu segredo e dou para você. entendi. Nesse encontro.. no entanto. prefiro não resolver.Pensamento? . Por f i m . sou eu. 125 .Viu como é fácil desenhar Vamos fazer a lista de erros? E ordena: . permanecia fiel à atmosfera familiar do segredo. Lauro não quis receber II ('. I )csenha primeiramente a sua mãe. a mãe e o irmão são legais. outro dia se eu tiver vontade eu conto.ra uma família de três pessoas. enfim.Já contei a história.. preferia não falar. nem um pensamento. Daí. que era botafoguense ( era o pior time) e um dia.láudio. Antônio refere-se ao problema. de repente a campainha tocou: piiiiiiiiiiii. Quem é eu. dizendo: .. Desenha a Emília e diz: .O que fez você escolher a família de Lauro? . tem 17 anos. chega.. aaaaaaaaah.Aquele que você já sabe. mas não o completa: 124 < oiitii Lista diária dos erros: Olha o objeto Olhei o card Pensa Faz o erro Pensa Conserta o erro Antônio inicia a sessão seguinte. situação na qual se abre a possibilidade de comunicar-se consigo mesmo. Antônio permaneceu durante o restante do tempo em sil#ni I I I . Vamos brincar? O analista e Antônio passaram boa parte da sessão b r i n cado de "Cara a Cara". Disse que iria escrever. mas solicitou enfaticamente que eu não lesse em voz alta. Antônio deixa claro o estado de tensão frente ao falar. afirmando que não vai contar nada. Quem era? Sou eu. u m navio e diz: . aconteceu um negócio que cu não sei o que é. nesse encontro. Pede uma folha de papel e começa a desenhar uma sereia.Adivinha quem é? Você não sabe? É o Pokemon". aquele que Kierkegaard (2010) denomina de b o m hermetismo..11«leríamos arriscar que se tratava do " b o m " hermetismo.. ser diferente. já que ela se deixa formatar demais pelas referências do outro significativo. Um dia. Na criança. porque ele é de outra mãe. O irmão lá (' grande. eu. mas eu não quero contar. só é chato porque ele não brinca com a f. a família de Lauro. Agora você uma história de minha família. não quero ouvir mais nada. E o menino faz o seguinte quadro. devermos incentivar o hermetismo. próximo. . já falamos demais. cu? Ah. O analista nada lhe pergunta também. cai fora daqui eu. ultra chato.. E diz: O meu irmão não.. Quem? Sou eu. Vou desenhar agora a minha família! A minha família é a niintiii família.Eu não vou contar o problema.. Kierkegaard (2010) refere-se à importância do hermetismo. () analista inicia: I.

este comunicou-lhe que estavam entrando de férias e que iriam viajar. iMiiMi'. o menino pede que o psicólogo vá buscar as correspondências. O pai aproveita para me contar que percebe Antônio bem melhor. o fato de o pai não ter se comprometido com o horário no retorno das férias. por fim. No encontro seguinte. pega as bonecas miiilõmicas. procura material na gaveta. sou muito indeciso.Problemas. N o entanto. marcariam as sessões. O analista. mas não quer falar sobre o desenho. Ele il. mas disse que ele estava lacrado e proibia que o lesse. não foi o que aconteceu. desenhos e envelopes lacrados. por outra coisa. que me parecia algo da atmosfera familiar. que ele já não tira mais as coisas dos outros. . () clínico pega o cartão. 127 .".ii.irniáo Repartir . Miniistra IniLivia. Preocupação excessiva . Meu pai disse que não pode. amigo da escola. depois abandona a tarefa e. ficando em silêncio).le. ao retornarem das férias. retorna. o fato de o pai tornar-se o terapeuta às quartas-feiras. Antônio pediu ao analista para guardar o envelope. É ir para a casa de meu pai. quando retornassem. . a tristeza de Antônio etc. mãe eli Quando estou com problemas. entra com ele na sala e Antônio pede para irem para a sala de ludo e para guardar o envelope lai rado. Ele queria apenas que fosse guardado. O Título: "Antônio escreve o que aconteceu. porque meu irmão também vai. Antônio não quer falar.Então vamos fazer. (soletra) m-e-n-t-i-r-a. prefiro ficar sozinho. E pede tliie o analista converse com seu pai enquanto ele iria fazer uma coisa. Ele pega a tinta f 1 o meça a fazer borrões de tinta. A o retornar. sugeriu que dramatizassem a conversa com seu pai. . Meu 126 pai vai ser meu terapeuta. Antônio inicia a sessão: . quer manter-se no seu silêncio. ele transforma-o em borboleta.Os pais telefonam para o psicólogo e pedem que ajudem a família. realizando diferentes atividades. que quer estar ah. não épela mentira não.Éo nosso segredo? -Ê. Pedi a Lauro para ir também. (fecha o envelope e guarda-o com ele. marcaram a sessão para a semana seguinte. Ãs vezes tenho vontade de chorar. Só que eu não sei o que vou falar. não pede que o clínico Antônio entrega seus desenhos e pede que o anahsta lisse prontamente diz que os guardará junto aos seus lu ipe e esse o acompanha também em silêncio. Quando o psicólogo entregou Antônio a seu pai. r le desenha. Antônio chega com u m cartão meio que escondido. o chatinho.um amigo da onça. arruma-as devidamente em seus lugares. Preciso de ajuda. fica afastado. eles sabem? . vai conversar tudo. -Eo que eu conto aqui. . A o terminar M ^fxNrto. >iu |Mi. Ele prontamente aceita e pede que inclua a mãe também: .Eu fiz coisas horríveis. vai me pegar toda quarta-feira.Eu estou com um problemão.Lembro.só adulto: pai. mas não é nenhum erro não.Eu sou meu pai e você é eu .o profissional interrompe e ambos permanecem assim até o final da sessão. explora-as. prefiro falar do problema. vou escrever.Você é indeciso ou está com medo de falar? .O que acontece aqui é nosso segredo. . (silêncio). Lembra do envelope do segredo . na tentativa de continuar falando do assunto. De uma ajuda especial. No final da sessão. Depois. me dá um papel: Brigas . O analista interpretou o ocorrido como uma desistência do processo psicoterapêutico: o compromisso com o silêncio. Timidez e nervosismo Cahrul. vai começar nas férias. Antônio brinca sozinho com os fantoches. Eu também prefiro não ir Meu pai ficou o tempo todo tentando me convencer Eu não estou convencido. minha mãe vai ficar triste se eu falar A ideia foi do meu pai. Perco de brincar com Lauro e Cláudio. Desenha u m coração. Na primeira semana de agosto.Tenho medo. só que eu não posso falar Como uma criança entra em tratamento? .

Olha o que você fez. Será que havia prometido à mãe que não contaria certos segredos familiares e temia que. acabasse falando e. Um sonho. . sem querer. E também queria que eles te contassem outra coisa.A minha professora foi assaltada na semana passada. Dirigiu-se ao analista e disse: . então. conversa você com eles. Fico sem coragem de falar com eles.Meu amigo Thiago falou para a gente juntar o dinheiro todo e dar um presente para a tia. 128 . ele tenta me convencer que é melhor para mim.Mas eu já escolho. mas eu não quero. Gosto dos meus amigos e também gosto de Pedro. Estou doido para chegar a quarta série. mas não quis continuar a brincadeira. . arrumou errado? (pôs-se a arrumar os brinquedos). pedindo que ele saia. Pede para irem para a sala de ludo e conta: .Eu não sei. mas não adianta.Você prefere contar toda a verdade. não queria me afastar dele.O que você acha de conversarmos você. ele pediu que eu começasse e não facilitei para que ele ganhasse. que queria conversar com o psicólogo sobre sua última travessura: . sabe? Eu tinha sonhado ontem de noite. dispensa logo o pai. O clínico pensa: será que ele permanece preocupado com o sigilo. Embora já tivessem falado no início sobre isto. pois tem muita coisa para contar. . queria observar sua reação frente à derrota. Eu queria que você me ajudasse. 129 . Após os comentários. mas não sei se eles vão preferir também. Uma coisa muito engraçada aconteceu.Assim poderíamos contar toda a verdade. Antônio chega.E você já disse isso para ele? .E como eu poderia ajudar você? . poderia ser que ele não tivesse muita certeza. Antônio contou. . ai eu vou ficar quatro dias fora de casa. Minha muc vai me dar um presente que custa quarenta reais e meu pai vai nir dar um de vinte e nove reais e noventa centavos. A gente vai fazer um passeio e a outra tia vai levar um bolo. todos juntos? Antônio consente e diz: . eu e seus pais. Sem dúvida.Trouxe um livro para nós dois lermos juntos. então.Eo que você tem para me contar? Antônio permanece em silêncio e põe-se a brincar com os lápis e diz: . Não queria ter que ficar sem brincar com meus amigos. optara por manter-se no silêncio? C o m isto.Já. Antônio aceitou bem. porque vai ter um passeio.Meu pai quer que eu me afaste de meus amigos lá da vila. Mas você estava tão animado para me contar uma coisa. só que eu não acho melhor Ele insiste muito e aí eu fico calado. mas pede para brincar de forca. na próxima sessão leria com ele O livro infantil sobre a psicoterapia. Brincamos. Guardou aqueles desenhos da semana passada? . não adianta mesmo. caso tivesse tempo e ele assim o quisesse. às vezes seu silêncio anunciava uma resistência. Antônio em junho havia me perguntado se o profissional manteria o segredo deles.Guardei. outras vezes ele conversava consigo mesmo. Sabe por que cheguei atrasado? Porque o freio de mão do carro de meu pai pifou. não está mais? .Mas o dia das crianças ainda está muito longe.o analista reflete acerca do constante silêncio de Antônio nos últimos encontros. eles não vão querer Eles escutam o que eu falo. Mas só conto se eles deixarem. . Isso me deixa muito triste. mas não adianta nada. quer ver? Antônio levanta-se imediatamente. .No dia das crianças vou querer dois presentes. eu e meu irmão. Na sessão seguinte. Pegou novamente o livro e começamos a lê-lo. . demonstrando interesse pela leitura. Ela faz aniversário agora em 31 de agosto. . O clínico continua a tecer várias considerações a respeito.Prefiro. Ê melhor o freio de mão do que o motor. na quarta-feira. o analista resolveu que.

porém pode acabar por sedimeiílar u m determinado modo de ser. e destinando-lhe uma identidade de cleptomaníaco. não caliendo a ele mesmo a sua tutela. além de apertar. Antônio. na clínica devemos cuidar para que a identidade atri- iiiida ^ criança não se engesse. D o niismo modo que Lucien assumiu a identidade que lhe haviam • '111. seja com rela131 . de uma falha psíquica. o analista preferiu aguardar. assumindo uma atitude fenomenológica. não fortalecendo esses aglomerados. O segredo parecia constituir a tonalidade mediana que sustentava toda a situação familiar e que Antônio agora resolvera. Caso o clínico partisse de teorias acerca do que era o problema e de como resolvê-lo. com paciência e siilile/rt. O pedido do menino para que abríssemos u m espaço para a comuiiiia(. não foi imui proposta antecipada pelo analista. Essa passagem remete-nos à obra-prima de Henry James (1898/2006). do mistério e do segredo. até tornar-se u m chefe.E m conclusão. da atmosfera do escondido. Agora. " A volta do parafuso". Antônio entregue a si mesmo pode reconhecer outras articulações possíveis e só a ele cabia a decisão do que iria ou não fazer. por u m procedimento identitário. "iiiit lileiilidades. a f i m de que o mistério e o segredo se dissipassem. em que as crianças.ao familiar parecia fazer sentido e ter lugar No entanto. devemos nós mesmos como clínicos i r pouco a pouco li »lii/eiido. Assim. parecia que o pedido do menino para uma conversa em família anunciava o rompimento. Retirar o caráter de poder-ser lie sua existência. Assim. Não podemos dizer que não se ilive la/er. também o desoneraria de sua escolha. todo 1 > seu modo de ser seria justificado por tal identidade. mesmo que em u m primeiro momento mobilizasse mais tensão. A atenção fenomenológica consistiu em abandonar toda e . além de retirar dele o seu caráter lie poder ser. não interveio. ao referir-se a todo |ii'iiurso de Lucien Fleurier. por exemplo. ou pelo menos. Antônio queria criai uma situação em que todos falassem e. u m tal obstáculo seria propor. estava disposlo a romper com a atmosfera de segredo que reinava no âmbito Iami liar.! iilo. uma de oito e outra de dez anos. posição psicológica de não-liberdade em que. Mas ao ver que o escondido tratava-se da disposição afetiva da família. romper. em silêncio. o encontro com a família para forçar o diálogo e desvelar seus segredos. James relata uma situação na qual reinava u m pacto de silêncio. Nesse romance. resolve agir de forma sutil e paciente. esgarça a existência. assim. Nelas acontecia o que Kierkegaard denomina de mau hermetismo (2010). daí o título com que também se conhece essa obra "A outra vol ta do parafuso". Assim. nisso encontramos a doença que nos acomete quando nos desoneramos de nossa própria responsabilidade (2010). ao propor o rompimento desse clima familiar. Partir do diagnóstico que lhe havia sido conferido seria dar-lhe uma identidade que. cria uma tensão ainda maior. não esperados para crianças nessa faixa etária. resistimos à condição de nossa liberdade. insistir para que ele falasse no tema e buscar rapidamente o que determinava esse comportamento. Na situação de Antônio. nessa atmosfera. Este. apresentavam modos de agir totalmente estranhos e bizarros. percebendo a situação. no caso das duas crianças. muito antes dele nascer. O próprio título do romance aponta para a metáfora da tensão que. Ela parecia acreditar que apenas desse modo poderia ajudar a aliviar a tensão. também parecia ser essa a atmosfera oin que se encontrava nosso analisando. E. iwm 130 colocou como aquele que desde início já sabia qual era o problema e o que fazer para solucioná-lo. constitui-se 1 nmo u m caminho de acesso fácil. em u m primeiro momento. tal como já liiivia sido decidido pelos seus pais. criaria obstáculos à apresentação do fenómeno. por sua parte. A governanta responsável pelo cuidado das mesmas. Esse processo é discuti• lii m m muita pertinência em Sartre (2005). ainda para Kierkegaard. Poderíamos também colocar a questão como sendo do âmbito de uma subjetividade encapsulada. na qual Antônio também estava envolvido.'h(li|iiri identidade estabelecida para a criança. mesmo com toda a tensão do momento da quebra dessa atmosfera.

não passível de ser determinado. a consciência como ^Igo que acontece em u m espaço relacional. expectativa familiar ou social. E. Esse filósofo desloca-se da tioção de consciência como algo encapsulado. s e m dúvida. logo imanente. Consiste ainda em aceitar a árdua tarefa de não ter como prever. seja ela qual for. Tratava-se. cada u m a seu modo. seguindO) o projeto m o d e r n o . Pensar a psicologia a partir das filosofias da existência consiste em assumir o caráter de indeterminação que não pressupõe mais uma essência. Ele r^fere-se à intenciona lidade. sem tentar desonerá-la dessa tarefa. de uma tarefa delicada. dado o caráter de abertura e consequente liberdade em que a existência sempre se encontra. abertura e indeterminação possa assumir-se como u m ser de possibiUdades. toma o psíquico em todas as suas denominações como algo dii ordem de uma interioridade que se relaciokna com o exterior. A tonalidade da angústia e a antecipação da finitude V. e n t r e outros modos. a existência mesma tal como acontece em seu campo de imanência. co-originário ao mundo e. ela pode ganhar a si mesma. Trata-se de pensar a existência em sua imanência. então. portanto. mas preocupados co^n a faticidade onde u existir acontece. logo em liberdade e responsável por si. ou seja. 3. nas elaborações da perspectiva heidegM . Portanto cabe ao I) M l M S a ele a sua tutela: é isto que a decisão antecipadora ii I ( V i l a . Deixá-la sozinha consigo mesma é uma arte que consiste em estar sempre presente.uiiciMção ideia de que a cons- !• i i l l / a ç ã o dessa condição existencial consistiria na libertação H de uma problemática existencial.2. que c r i a m u m espaço de articulação de uma praxis clínica p o r diferentes motivos. O primeiro deles é que as filosofias da existência r e t o m a m o que as filosofias modernas haviam abandonado. Logo. coube. vem à t o n a de diferentes modos o fato de que. em seu ter de ser quem ele sempre é. An 132 surgir uma psicologia fenomenológica.i. considerações acerca do • 1 pura-a-morte confundirem-se com a '. nesse caminho no qual a criança perde a tutela do adulto. . nem localizado em uma interioridade. tomando.lici IIM. para 'Ic indeterminação de sua existência. ao psicólogo deixar a criança em liberdade e entregá-la sua p r ó p r i a t u tela. e no qual o ser-aí cuidado. Esse mesmo movimento é acompanhado pcKi psicologia que. então. à sua própria responsabilidade. ao deixá-la c a m i n h a r por si mesma.1'. . que se encontra localizado e m u m a i n terioridade e com sentidos e determinações dados e m si mesmos. assim. muito c o m u m . pudemos afiançar que a filosofia da existência traz aspectos formais.ção a u m diagnóstico. sem mostrar a criança que se está ali. p e r m i t i r que a criança por si própria possa aproximar-se. esta luin de longe a discussão travada por Heidegger em Ser i< . Esse projeto de voltar-se para a imanência é ine^itamente apresentado por Husserl. qualquer i|ue seja a etapa de vida em que nos encontramos. nino determinando o seu modo próprio de ser. p r i m e i r a m e n t e . N o entanto. a pretensão também é de pensar o psíquico como algo imanente.m . Heideggci e Sartre dão continuidade ao projeto de retomada da existênci . de u m a experiência que faça sentido no âmbito de sua situação. o u seja. que precede a existência.i cm Psicologia e psicoterapia. nem garantir nenhum resultado. entregue a si mesma o mais demoradamente possível. ( ) filósofo trata antes do horizonte de finitude em que possibilidades sempre se encontram. C o m o desenvolvimento da temática acerca da clínica psicológica em uma perspectiva existencial. que passará a ser o elemento fundamental. Ut^o em liberdade para dizer sim e não às determinações inseri1 Lis no horizonte histórico em que ele se encontra. mesmo que com diferentes acepções nas filosofias da existência. Articular uma proposta de chnica infantil com base na filosofia existencial torna-se possível ao tomar a criança na mesma perspectiva em que se toma o adulto. 133 . N o entanto. Em uma postura fenomenológica. importa é que. aquele que tenta evitar a sua condição de liberdade.

Psicologia existencial. 4. 2011 Todos os direitos desta edição reservados à VIA VERITA EDITORA Rua lardim Botânico.Copyright © 2011. 207 p . 2011.1. 3. .Rio de Janeiro : Edições I F E N : V i a Verita. P R O J E T O GRÁFICO E DIAGRAMAÇAO A n a Luisa Videira F297e Feijoo. 2. A n a Maria Lopez Calvo de A existência para além do sujeito : a crise da subjetividade moderna e suas repercussões para a possibilidade de u m a clínica psicológica c o m fundamentos fenomenológico-existenciais / A n a M a r i a Lopez Calvo de Feijoo. Subjetividade. ExistenciaUsmo. C D D . . 600/102 Rio de Janeiro RJ 22. Bibliografia: p.com.com. A n a M a r i a Lopez C a l v o de Feijoo A existência para além do sujeito A crise da subjetividade moderna e suas repercussões para a possibilidade de uma clínica psicológica KDIÇAO Mónica Casanova REVISÃO Marco Antonio Casanova CAPA.142.br editorial@viaverita.viaverJta.461-000 Tel21 3874. ed. 204-207 I S B N 978-85-64565-03-6 1. .7 com fundamentos fenomenológico-existenciais Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo i " edição Rio de Janeiro. Título.7080 www. 20.5 c m .br háicões f IFÉN / 1 IFENJ 1 r -dições VIAVERITA . I. Psicologia fenomenológica.

ao da questão como previamente determinada. mas o problema que nós somos". o problema consiste no aprisionameuin em nossas histórias.TT wma psicoterapia com base fenomenológica consisti. seja por meio de u m diagnóstico ou de um paiei ei dado pela sabedoria de vida mais mundana.ctiçõcs f ar a . u i i m a i m ou seja. tomando o seu lugar uma configuração do leal previamente dado. de tudo na tarefa de considerar a atitude ingénua daquele q u e busca psicoterapia. U m ato fenomenoló^li o consiste em tomar.iniis A existência para além do sujeito A crise da subjetividade moderna e suas repercussões al. o fenómeno desaparece. para a possibilidade de uma clínica psicológica com fundamentos fenomenológico-existenciais C O L E Ç Ã O P S I C O L O G I A EM FOCO 'Ti VIAVERITA B dil I IF FE EN NI I r. com determinações. para a. já que este tende a trazer uma conligurii(. uma atitude . suspender qualquer interpretação acerca do cjue eslii acontecendo com aquele que procura o analista. frente ao apresentado.sslin acompanhar o fenómeno no seu m o do de revelar-se. m uma visada fenomenológica. I . nos modos como vamos sufocamlo nau n problema que temos. Frente a essa configuração.

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1.. Antônio interrompe: (Jicga. Vaz outro desenho e diz: . No encontro seguinte. Continua. parecia estar lendo u m livro infantil que ele mesmo t r o n a i ' i ii t ) silêncio da criança parecia.Antônio responde: . do mistério.. porém chamando-o de erro. FIM .A família de Lauro Era uma vez. E a mãe perguntou: Quem rríi. ao ficar consigo mesma. super.riitc.Tenho. iiiiiiiiiiiiiii. o pai e o filho. pois não queria ouvir. acontecera o que o filósofo dinamarquês chama de mau hermetismo. Porque Cláudio é super. assume sua própria tutela. no qual a criança.Escolhi porque o pai. . tal situação é de suma importância. do silêncio. Ao terminar a sessão diz: . faço um envelope de meu segredo e dou para você. entendi. Nesse encontro.. no entanto. prefiro não resolver.Pensamento? . Por f i m . sou eu. 125 .Viu como é fácil desenhar Vamos fazer a lista de erros? E ordena: . permanecia fiel à atmosfera familiar do segredo. Lauro não quis receber II ('. I )csenha primeiramente a sua mãe. a mãe e o irmão são legais. outro dia se eu tiver vontade eu conto.ra uma família de três pessoas. enfim.Já contei a história.. preferia não falar. nem um pensamento. Daí. que era botafoguense ( era o pior time) e um dia.láudio. Antônio refere-se ao problema. de repente a campainha tocou: piiiiiiiiiiii. Quem é eu. dizendo: .. Desenha a Emília e diz: .O que fez você escolher a família de Lauro? . tem 17 anos. chega.. aaaaaaaaah.Aquele que você já sabe. mas não o completa: 124 < oiitii Lista diária dos erros: Olha o objeto Olhei o card Pensa Faz o erro Pensa Conserta o erro Antônio inicia a sessão seguinte. situação na qual se abre a possibilidade de comunicar-se consigo mesmo. Antônio permaneceu durante o restante do tempo em sil#ni I I I . Vamos brincar? O analista e Antônio passaram boa parte da sessão b r i n cado de "Cara a Cara". Disse que iria escrever. mas solicitou enfaticamente que eu não lesse em voz alta. Antônio deixa claro o estado de tensão frente ao falar. afirmando que não vai contar nada. Quem era? Sou eu. u m navio e diz: . aconteceu um negócio que cu não sei o que é. nesse encontro. Pede uma folha de papel e começa a desenhar uma sereia.Adivinha quem é? Você não sabe? É o Pokemon". aquele que Kierkegaard (2010) denomina de b o m hermetismo..11«leríamos arriscar que se tratava do " b o m " hermetismo.. ser diferente. já que ela se deixa formatar demais pelas referências do outro significativo. Um dia. Na criança. porque ele é de outra mãe. O irmão lá (' grande. eu. mas eu não quero contar. só é chato porque ele não brinca com a f. a família de Lauro. Agora você uma história de minha família. não quero ouvir mais nada. E o menino faz o seguinte quadro. devermos incentivar o hermetismo. próximo. . já falamos demais. cu? Ah. O analista nada lhe pergunta também. cai fora daqui eu. ultra chato.. E diz: O meu irmão não.. Quem? Sou eu. Vou desenhar agora a minha família! A minha família é a niintiii família.Eu não vou contar o problema.. Kierkegaard (2010) refere-se à importância do hermetismo. () analista inicia: I.

este comunicou-lhe que estavam entrando de férias e que iriam viajar. iMiiMi'. o menino pede que o psicólogo vá buscar as correspondências. O pai aproveita para me contar que percebe Antônio bem melhor. o fato de o pai não ter se comprometido com o horário no retorno das férias. por fim. No encontro seguinte. pega as bonecas miiilõmicas. procura material na gaveta. sou muito indeciso.Problemas. N o entanto. marcariam as sessões. O analista. mas não quer falar sobre o desenho. Ele il. mas disse que ele estava lacrado e proibia que o lesse. não foi o que aconteceu. desenhos e envelopes lacrados. por outra coisa. que me parecia algo da atmosfera familiar. que ele já não tira mais as coisas dos outros. . () clínico pega o cartão. 127 .".ii.irniáo Repartir . Miniistra IniLivia. Preocupação excessiva . Meu pai disse que não pode. amigo da escola. depois abandona a tarefa e. ficando em silêncio).le. ao retornarem das férias. retorna. o fato de o pai tornar-se o terapeuta às quartas-feiras. Antônio pediu ao analista para guardar o envelope. É ir para a casa de meu pai. quando retornassem. . a tristeza de Antônio etc. mãe eli Quando estou com problemas. entra com ele na sala e Antônio pede para irem para a sala de ludo e para guardar o envelope lai rado. Ele queria apenas que fosse guardado. O Título: "Antônio escreve o que aconteceu. porque meu irmão também vai. Antônio não quer falar.Então vamos fazer. (soletra) m-e-n-t-i-r-a. prefiro ficar sozinho. E pede tliie o analista converse com seu pai enquanto ele iria fazer uma coisa. Ele pega a tinta f 1 o meça a fazer borrões de tinta. A o retornar. sugeriu que dramatizassem a conversa com seu pai. . Meu 126 pai vai ser meu terapeuta. Antônio inicia a sessão: . quer manter-se no seu silêncio. ele transforma-o em borboleta.Os pais telefonam para o psicólogo e pedem que ajudem a família. realizando diferentes atividades. que quer estar ah. não épela mentira não.Éo nosso segredo? -Ê. Pedi a Lauro para ir também. (fecha o envelope e guarda-o com ele. marcaram a sessão para a semana seguinte. Ãs vezes tenho vontade de chorar. Só que eu não sei o que vou falar. não pede que o clínico Antônio entrega seus desenhos e pede que o anahsta lisse prontamente diz que os guardará junto aos seus lu ipe e esse o acompanha também em silêncio. Quando o psicólogo entregou Antônio a seu pai. r le desenha. Antônio chega com u m cartão meio que escondido. o chatinho.um amigo da onça. arruma-as devidamente em seus lugares. Preciso de ajuda. fica afastado. eles sabem? . vai conversar tudo. -Eo que eu conto aqui. . A o terminar M ^fxNrto. >iu |Mi. Ele prontamente aceita e pede que inclua a mãe também: .Eu fiz coisas horríveis. vai me pegar toda quarta-feira.Eu estou com um problemão.Lembro.só adulto: pai. mas não é nenhum erro não.Eu sou meu pai e você é eu .o profissional interrompe e ambos permanecem assim até o final da sessão. explora-as. prefiro falar do problema. vou escrever.Você é indeciso ou está com medo de falar? .O que acontece aqui é nosso segredo. . (silêncio). Lembra do envelope do segredo . na tentativa de continuar falando do assunto. De uma ajuda especial. No final da sessão. Depois. me dá um papel: Brigas . O analista interpretou o ocorrido como uma desistência do processo psicoterapêutico: o compromisso com o silêncio. Timidez e nervosismo Cahrul. vai começar nas férias. Antônio brinca sozinho com os fantoches. Eu também prefiro não ir Meu pai ficou o tempo todo tentando me convencer Eu não estou convencido. minha mãe vai ficar triste se eu falar A ideia foi do meu pai. Perco de brincar com Lauro e Cláudio. Desenha u m coração. Na primeira semana de agosto.Tenho medo. só que eu não posso falar Como uma criança entra em tratamento? .

Olha o que você fez. Será que havia prometido à mãe que não contaria certos segredos familiares e temia que. acabasse falando e. Um sonho. . sem querer. E também queria que eles te contassem outra coisa.A minha professora foi assaltada na semana passada. Dirigiu-se ao analista e disse: . então. conversa você com eles. Fico sem coragem de falar com eles.Meu amigo Thiago falou para a gente juntar o dinheiro todo e dar um presente para a tia. 128 . ele tenta me convencer que é melhor para mim.Mas eu já escolho. mas eu não quero. Gosto dos meus amigos e também gosto de Pedro. Estou doido para chegar a quarta série. mas não quis continuar a brincadeira. . arrumou errado? (pôs-se a arrumar os brinquedos). pedindo que ele saia. Pede para irem para a sala de ludo e conta: .Eu não sei. mas não adianta.Você prefere contar toda a verdade. não queria me afastar dele.O que você acha de conversarmos você. ele pediu que eu começasse e não facilitei para que ele ganhasse. que queria conversar com o psicólogo sobre sua última travessura: . sabe? Eu tinha sonhado ontem de noite. dispensa logo o pai. O clínico pensa: será que ele permanece preocupado com o sigilo. Embora já tivessem falado no início sobre isto. pois tem muita coisa para contar. . queria observar sua reação frente à derrota. Eu queria que você me ajudasse. 129 . Após os comentários. mas não sei se eles vão preferir também. Uma coisa muito engraçada aconteceu.Assim poderíamos contar toda a verdade. Antônio chega.E você já disse isso para ele? .E como eu poderia ajudar você? . poderia ser que ele não tivesse muita certeza. Antônio contou. . ai eu vou ficar quatro dias fora de casa. Minha muc vai me dar um presente que custa quarenta reais e meu pai vai nir dar um de vinte e nove reais e noventa centavos. A gente vai fazer um passeio e a outra tia vai levar um bolo. todos juntos? Antônio consente e diz: . eu e seus pais. Sem dúvida.Trouxe um livro para nós dois lermos juntos. então.Eo que você tem para me contar? Antônio permanece em silêncio e põe-se a brincar com os lápis e diz: . Não queria ter que ficar sem brincar com meus amigos. optara por manter-se no silêncio? C o m isto.Já. Antônio aceitou bem. porque vai ter um passeio.Meu pai quer que eu me afaste de meus amigos lá da vila. Mas você estava tão animado para me contar uma coisa. só que eu não acho melhor Ele insiste muito e aí eu fico calado. mas pede para brincar de forca. na próxima sessão leria com ele O livro infantil sobre a psicoterapia. Brincamos. Guardou aqueles desenhos da semana passada? . não adianta mesmo. caso tivesse tempo e ele assim o quisesse. às vezes seu silêncio anunciava uma resistência. Antônio em junho havia me perguntado se o profissional manteria o segredo deles.Guardei. outras vezes ele conversava consigo mesmo. Sabe por que cheguei atrasado? Porque o freio de mão do carro de meu pai pifou. não está mais? .Mas o dia das crianças ainda está muito longe.o analista reflete acerca do constante silêncio de Antônio nos últimos encontros. eles não vão querer Eles escutam o que eu falo. Mas só conto se eles deixarem. . Isso me deixa muito triste. mas não adianta nada. quer ver? Antônio levanta-se imediatamente. .No dia das crianças vou querer dois presentes. eu e meu irmão. Na sessão seguinte. Pegou novamente o livro e começamos a lê-lo. . demonstrando interesse pela leitura. Ela faz aniversário agora em 31 de agosto. . O clínico continua a tecer várias considerações a respeito.Prefiro. Ê melhor o freio de mão do que o motor. na quarta-feira. o analista resolveu que.

porém pode acabar por sedimeiílar u m determinado modo de ser. e destinando-lhe uma identidade de cleptomaníaco. não caliendo a ele mesmo a sua tutela. além de apertar. Antônio. na clínica devemos cuidar para que a identidade atri- iiiida ^ criança não se engesse. D o niismo modo que Lucien assumiu a identidade que lhe haviam • '111. seja com rela131 . de uma falha psíquica. o analista preferiu aguardar. assumindo uma atitude fenomenológica. não fortalecendo esses aglomerados. O segredo parecia constituir a tonalidade mediana que sustentava toda a situação familiar e que Antônio agora resolvera. Caso o clínico partisse de teorias acerca do que era o problema e de como resolvê-lo. com paciência e siilile/rt. O pedido do menino para que abríssemos u m espaço para a comuiiiia(. não foi imui proposta antecipada pelo analista. Essa passagem remete-nos à obra-prima de Henry James (1898/2006). do mistério e do segredo. até tornar-se u m chefe.E m conclusão. da atmosfera do escondido. Agora. " A volta do parafuso". Antônio entregue a si mesmo pode reconhecer outras articulações possíveis e só a ele cabia a decisão do que iria ou não fazer. por u m procedimento identitário. "iiiit lileiilidades. a f i m de que o mistério e o segredo se dissipassem. em que as crianças.ao familiar parecia fazer sentido e ter lugar No entanto. devemos nós mesmos como clínicos i r pouco a pouco li »lii/eiido. Assim. parecia que o pedido do menino para uma conversa em família anunciava o rompimento. Retirar o caráter de poder-ser lie sua existência. Assim. Não podemos dizer que não se ilive la/er. também o desoneraria de sua escolha. todo 1 > seu modo de ser seria justificado por tal identidade. mesmo que em u m primeiro momento mobilizasse mais tensão. A atenção fenomenológica consistiu em abandonar toda e . além de retirar dele o seu caráter lie poder ser. não interveio. ao referir-se a todo |ii'iiurso de Lucien Fleurier. por exemplo. ou pelo menos. Antônio queria criai uma situação em que todos falassem e. u m tal obstáculo seria propor. estava disposlo a romper com a atmosfera de segredo que reinava no âmbito Iami liar.! iilo. uma de oito e outra de dez anos. posição psicológica de não-liberdade em que. Mas ao ver que o escondido tratava-se da disposição afetiva da família. romper. em silêncio. o encontro com a família para forçar o diálogo e desvelar seus segredos. James relata uma situação na qual reinava u m pacto de silêncio. Nesse romance. resolve agir de forma sutil e paciente. esgarça a existência. assim. Nelas acontecia o que Kierkegaard denomina de mau hermetismo (2010). daí o título com que também se conhece essa obra "A outra vol ta do parafuso". Assim. nisso encontramos a doença que nos acomete quando nos desoneramos de nossa própria responsabilidade (2010). ao propor o rompimento desse clima familiar. Partir do diagnóstico que lhe havia sido conferido seria dar-lhe uma identidade que. cria uma tensão ainda maior. não esperados para crianças nessa faixa etária. resistimos à condição de nossa liberdade. insistir para que ele falasse no tema e buscar rapidamente o que determinava esse comportamento. Na situação de Antônio. nessa atmosfera. Este. apresentavam modos de agir totalmente estranhos e bizarros. percebendo a situação. no caso das duas crianças. muito antes dele nascer. O próprio título do romance aponta para a metáfora da tensão que. Ela parecia acreditar que apenas desse modo poderia ajudar a aliviar a tensão. também parecia ser essa a atmosfera oin que se encontrava nosso analisando. E. iwm 130 colocou como aquele que desde início já sabia qual era o problema e o que fazer para solucioná-lo. constitui-se 1 nmo u m caminho de acesso fácil. em u m primeiro momento. tal como já liiivia sido decidido pelos seus pais. criaria obstáculos à apresentação do fenómeno. por sua parte. A governanta responsável pelo cuidado das mesmas. Esse processo é discuti• lii m m muita pertinência em Sartre (2005). ainda para Kierkegaard. Poderíamos também colocar a questão como sendo do âmbito de uma subjetividade encapsulada. na qual Antônio também estava envolvido.'h(li|iiri identidade estabelecida para a criança. mesmo com toda a tensão do momento da quebra dessa atmosfera.

não passível de ser determinado. a consciência como ^Igo que acontece em u m espaço relacional. expectativa familiar ou social. E. Esse filósofo desloca-se da tioção de consciência como algo encapsulado. s e m dúvida. logo imanente. Consiste ainda em aceitar a árdua tarefa de não ter como prever. seja ela qual for. Tratava-se. cada u m a seu modo. seguindO) o projeto m o d e r n o . Pensar a psicologia a partir das filosofias da existência consiste em assumir o caráter de indeterminação que não pressupõe mais uma essência. Ele r^fere-se à intenciona lidade. sem tentar desonerá-la dessa tarefa. de uma tarefa delicada. dado o caráter de abertura e consequente liberdade em que a existência sempre se encontra. abertura e indeterminação possa assumir-se como u m ser de possibiUdades. toma o psíquico em todas as suas denominações como algo dii ordem de uma interioridade que se relaciokna com o exterior. A tonalidade da angústia e a antecipação da finitude V. e n t r e outros modos. a existência mesma tal como acontece em seu campo de imanência. co-originário ao mundo e. ela pode ganhar a si mesma. Trata-se de pensar a existência em sua imanência. então. portanto. mas preocupados co^n a faticidade onde u existir acontece. logo em liberdade e responsável por si. ou seja. 3. nas elaborações da perspectiva heidegM . Portanto cabe ao I) M l M S a ele a sua tutela: é isto que a decisão antecipadora ii I ( V i l a . Deixá-la sozinha consigo mesma é uma arte que consiste em estar sempre presente.uiiciMção ideia de que a cons- !• i i l l / a ç ã o dessa condição existencial consistiria na libertação H de uma problemática existencial.2. que c r i a m u m espaço de articulação de uma praxis clínica p o r diferentes motivos. O primeiro deles é que as filosofias da existência r e t o m a m o que as filosofias modernas haviam abandonado. Logo. coube. vem à t o n a de diferentes modos o fato de que. em seu ter de ser quem ele sempre é. An 132 surgir uma psicologia fenomenológica.i. considerações acerca do • 1 pura-a-morte confundirem-se com a '. nesse caminho no qual a criança perde a tutela do adulto. . nem localizado em uma interioridade. tomando.lici IIM. para 'Ic indeterminação de sua existência. ao psicólogo deixar a criança em liberdade e entregá-la sua p r ó p r i a t u tela. e no qual o ser-aí cuidado. Esse mesmo movimento é acompanhado pcKi psicologia que. então. à sua própria responsabilidade. ao deixá-la c a m i n h a r por si mesma.1'. . que se encontra localizado e m u m a i n terioridade e com sentidos e determinações dados e m si mesmos. assim. muito c o m u m . pudemos afiançar que a filosofia da existência traz aspectos formais.ção a u m diagnóstico. sem mostrar a criança que se está ali. p e r m i t i r que a criança por si própria possa aproximar-se. esta luin de longe a discussão travada por Heidegger em Ser i< . Esse projeto de voltar-se para a imanência é ine^itamente apresentado por Husserl. qualquer i|ue seja a etapa de vida em que nos encontramos. nino determinando o seu modo próprio de ser. p r i m e i r a m e n t e . N o entanto. a pretensão também é de pensar o psíquico como algo imanente.m . Heideggci e Sartre dão continuidade ao projeto de retomada da existênci . de u m a experiência que faça sentido no âmbito de sua situação. o u seja. que precede a existência.i cm Psicologia e psicoterapia. nem garantir nenhum resultado. entregue a si mesma o mais demoradamente possível. ( ) filósofo trata antes do horizonte de finitude em que possibilidades sempre se encontram. C o m o desenvolvimento da temática acerca da clínica psicológica em uma perspectiva existencial. que passará a ser o elemento fundamental. Ut^o em liberdade para dizer sim e não às determinações inseri1 Lis no horizonte histórico em que ele se encontra. mesmo que com diferentes acepções nas filosofias da existência. Articular uma proposta de chnica infantil com base na filosofia existencial torna-se possível ao tomar a criança na mesma perspectiva em que se toma o adulto. 133 . N o entanto. Em uma postura fenomenológica. importa é que. aquele que tenta evitar a sua condição de liberdade.

Psicologia existencial. 4. 2011 Todos os direitos desta edição reservados à VIA VERITA EDITORA Rua lardim Botânico.Copyright © 2011. 207 p . 2011.1. 3. .Rio de Janeiro : Edições I F E N : V i a Verita. P R O J E T O GRÁFICO E DIAGRAMAÇAO A n a Luisa Videira F297e Feijoo. 2. A n a Maria Lopez Calvo de A existência para além do sujeito : a crise da subjetividade moderna e suas repercussões para a possibilidade de u m a clínica psicológica c o m fundamentos fenomenológico-existenciais / A n a M a r i a Lopez Calvo de Feijoo. Subjetividade. ExistenciaUsmo. C D D . . 600/102 Rio de Janeiro RJ 22. Bibliografia: p.com.com. A n a M a r i a Lopez C a l v o de Feijoo A existência para além do sujeito A crise da subjetividade moderna e suas repercussões para a possibilidade de uma clínica psicológica KDIÇAO Mónica Casanova REVISÃO Marco Antonio Casanova CAPA.142.br editorial@viaverita.viaverJta.461-000 Tel21 3874. ed. 204-207 I S B N 978-85-64565-03-6 1. .7 com fundamentos fenomenológico-existenciais Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo i " edição Rio de Janeiro. Título.7080 www. 20.5 c m .br háicões f IFÉN / 1 IFENJ 1 r -dições VIAVERITA . I. Psicologia fenomenológica.

ao da questão como previamente determinada. mas o problema que nós somos". o problema consiste no aprisionameuin em nossas histórias.TT wma psicoterapia com base fenomenológica consisti. seja por meio de u m diagnóstico ou de um paiei ei dado pela sabedoria de vida mais mundana.ctiçõcs f ar a . u i i m a i m ou seja. tomando o seu lugar uma configuração do leal previamente dado. de tudo na tarefa de considerar a atitude ingénua daquele q u e busca psicoterapia. U m ato fenomenoló^li o consiste em tomar.iniis A existência para além do sujeito A crise da subjetividade moderna e suas repercussões al. o fenómeno desaparece. para a possibilidade de uma clínica psicológica com fundamentos fenomenológico-existenciais C O L E Ç Ã O P S I C O L O G I A EM FOCO 'Ti VIAVERITA B dil I IF FE EN NI I r. com determinações. para a. já que este tende a trazer uma conligurii(. uma atitude . suspender qualquer interpretação acerca do cjue eslii acontecendo com aquele que procura o analista. frente ao apresentado.sslin acompanhar o fenómeno no seu m o do de revelar-se. m uma visada fenomenológica. I . nos modos como vamos sufocamlo nau n problema que temos. Frente a essa configuração.

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