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Odontologia e Sociedade Vol. 1, No. 1/2, 51-54, 1999.

Artigo

© 1999 Printed in Brazil.

Honorários Profissionais: Sua Importância no Contexto do Consultório Odontológico Professional Honoraria: Its Importance in the Context of the Surgeon Dentist’s Clinic
Rogério N. Oliveiraa; Osmir B. Oliveira Júniorb
Departamento de Odontologia Social, Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo; Doutorando pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas b Departamento de Dentística Restauradora, Faculdade de Odontologia, Universidade Estadual Paulista, Araraquara
Resumo. Para muitos, as dificuldades financeiras e mercadológicas enfrentadas por grande parte dos cirurgiões-dentistas atualmente, ocorrem exclusivamente devido à conjuntura sócio econômica. Apesar de concordarmos em parte com esta justificativa, acreditamos que muitos dos problemas enfrentados ocorrem por falta de conhecimento de administração dos profissionais e da pouca flexibilidade em relação às formas de gerenciar o consultório. Durante cursos ministrados a partir de março de 1996, constatou-se essa realidade em cerca de 500 profissionais. Em função destas indicações, propusemo-nos a realizar uma pesquisa mais detalhada com profissionais nas cidades de Araraquara, Barretos e Maringá, em que os dados preliminares são avaliados a respeito do quanto os cirurgiões-dentistas se sentiram preparados para o exercício profissional e os conhecimentos a respeito de honorários. Para tanto, os mesmos responderam a um questionário pré-definido sendo os dados analisados e discutidos. Foi notado que muito embora estes profissionais estejam técnica e cientificamente bem preparados, poucos sabem como calcular seus custos operacionais, indicando pouca formação empresarial. Palavras-Chave: honorários profissionais; mercado de trabalho; orientação profissional
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Summary. Most dental surgeons interpret financial difficulties and market restrictions as in grand part due to the economic conjuncture. Though we partly agree with this statement, we believe that the lack of knowledge on administration and reduced flexibility in the clinic manager may be the source of many of these problems. We have verified this fact, through courses ministered by us from March 1996 on, involving around 500 professionals. In function of these indications, we planned a research design with dental surgeons of three Brazilian cities: Araraquara, Barretos and Maringá. We have collected preliminary data to evaluate these professionals’ knowledge about honoraria and their ability to the professional exercise. This paper reports the analysis and discussion that we performed, after the application of the questionnaire. We could notice that these professionals, though well prepared from the technique and scientific point of view, have few knowledge about how to calculate their operational costs, indicating that they had almost none managerial formation. Keywords: fees, dental; practice management, dental; economics, dental
Av. Prof. Lineu Prestes 2227, 05508-900 São Paulo - SP, Brazil; e-mail: rogerio@fo.usp.br

é acompanhada por um ato de gratidão deste paciente. vinham os seguintes questionamentos: • Na sua opinião. mereciam ser honrados pelo favor de seus trabalhos. não sabem estabelecer seus preços individualmente e muitos não sabem dizer o quanto seus consultórios são rentáveis. A classificação de profissional liberal diz respeito à liberdade de convicção para o profissional fazer seu diagnóstico. como é bem aclarado por Silva (1997). Paraná. O termo honorário é de origem latina honor = honra. Portanto é um direito constituído o recebimento da retribuição (honorários) quando da contratação e execução de serviços odontológicos. a complexidade do caso. Brasil. tais como costume do lugar. vencimentos (funcionário público) 3. O que verificamos é que boa parte dos colegas. podemos considerar que os honorários do cirurgião-dentista correspondem à contraprestação oferecida pelo paciente pelos trabalhos prestados pelo profissional. sem nenhum vínculo empregatício. 1994). Esta pesquisa foi aplicada às cidades de Araraquara e Barretos no estado de São Paulo e na cidade de Maringá no Paraná. não podemos nos esquecer que nossa matéria-prima para o trabalho é o ser humano. e que o mesmo merece ser tratado com respeito e dentro da norma ética. aqueles exercidos pela capacidade intelectual do profissional não podiam ser avaliados. antes de conhecermos os critérios para determinação dos honorários profissionais. que nem sempre é sinônimo de bons rendimentos ao final do mês. material ou imaterial. independentemente dos problemas conjunturais que a profissão atravessa. que possui gastos fixos. condição sócio-econômica do paciente e da comunidade. Ainda hoje. a cooperação do paciente durante o tratamento e o custo operacional (Brasil. a remuneração pelos serviços prestados. tendo-se em vista simplesmente o esforço. Dependendo do tipo de atividade laborativa exercida. O profissional que trabalha por conta própria em seu consultório particular. Preliminarmente aplicamos 61 (sessenta e um) questionários a cirurgiões-dentistas trabalhando de maneira autônoma. prognóstico e terapêutica. um preço justo. Embora o Código Civil Brasileiro e o próprio Código de Ética Odontológico estabeleçam critérios ou fatores a serem considerados na fixação dos honorários. mesmo quando trabalhando como empregado. O que vemos normalmente ocorrer é os profissionais estabelecerem seus preços baseados em tabelas pré-determinadas (associações ou convênios). Bahia e Maranhão. Os primeiros permitiam uma avaliação. Os honorários são responsáveis pela receita bruta do consultório. Tal situação foi constatada durante cursos ministrados em várias regiões do Brasil: São Paulo. Dessa forma. similarmente ao que ocorre com as demais empresas. tempo e qualidade do serviço. número CRO. gastos variáveis. o cirurgião-dentista sempre será um profissional liberal. em seu artigo 1216 estabelece que “toda espécie de serviço ou trabalho lícito. podemos conceituar a contraprestação pecuniária a esta atividade de 5 maneiras diferentes: 1. Entretanto. Apesar de termos a necessidade de encarar e administrar nosso consultório como uma empresa. Suas raízes situam-se na antiga Roma onde se distinguiam os trabalhos puramente manuais daqueles que exigiam um conhecimento intelectual. independentemente de quanto tempo já estejam atuando. oferta esta que. arcando com a responsabilidade de tais decisões. boa parte dos profissionais encara a receita que entra no consultório como salário. gostaríamos de fazer algumas considerações. Entretanto. A pesquisa consistia da identificação do profissional: nome. ao abrirem seus consultórios. Inicialmente a respeito de sua própria conceituação. além da remuneração devida. Estes. A seguir. 33 (trinta e três) e 13 (treze) questionários. o caráter de permanência. é classificado como um profissional liberal autônomo. honorários (contraprestação recebida pelos profissionais liberias que trabalham de maneira autônoma). temporariedade ou eventualidade do trabalho. pode ser contratado mediante a retribuição”. muitas com baixos preços. respectivamente. Material e Métodos Considerando estes sinais e buscando apresentar o problema de forma mais sistematizada. Entretanto. 1996. a circunstância em que tenha sido prestado o tratamento. lucro (comerciantes) 5. telefone. estamos realizando pesquisa sobre diferentes aspectos relacionados com a administração do consultório odontológico. para se fazer a contraprestação. 1998 e Silva. o conceito do profissional. . em boa parte das vezes. salário (empregados em geral) 2. soldo (militares) 4. sem falar na necessidade de reinvestimento constante no empreendimento e uma dedicação ao trabalho que vai muito além das horas que se passa dentro do consultório atendendo os pacientes. Por essa razão é que surgiu o termo honorários para dignificar estes profissionais Daruge e Massini (1978). o sacrifício deste profissional.52 Oliveira & Oliveira-Júnior Odontologia e Sociedade Introdução O Código Civil Brasileiro. não sabem quanto custa sua hora clínica de trabalho. não levando em conta que administram a pequena empresa que é seu consultório particular. o tempo utilizado no atendimento. ou pior ainda. sendo aplicados 15 (quinze). isto é. ou mesmo após anos de trabalho. gastando-a sem critérios. estabelecendo assim uma demanda de pacientes para o consultório. Minas Gerais. ano de formatura e instituição de formação. a faculdade o preparou adequadamente para o mercado de trabalho? Justifique-se.

“o conteúdo programático era intenso”. ou seja.. No aspecto ‘conhecimento dos custos’. gastos médios mensais 2. para que se possa administrar o consultório odontológico como uma empresa. mas não suficientes para qualificá-los ao mercado de trabalho atual. Entretanto. 15 cirurgiões-dentistas (24. mas não nos qualificam para administrarmos uma pequena empresa. 22.) ou fundamentadas em conceitos de formação técnico-científicas (“os professores eram qualificados”.62 100. do nível de emprego da população. “sinto-me seguro”. ficaram assim distribuídos: 4. de conhecimentos para estabelecer individualmente o custo hora. de financiamentos bancários ou institucionais. é fundamental que tenhamos além da formação técnica-científica. de novos profissionais (concorrência).95 42. Os restantes 35 cirurgiões-dentistas (57. ou suas horas a disposição do trabalho (consultório).60%) afirmaram que a faculdade (curso de graduação) não os preparou adequadamente para o mercado de trabalho. considera-se imprescindível a obtenção do custo/hora na elaboação dos tratamentos odontológicos. qual salário gostaria de ganhar 4. Partindo dessas premissas.00 no de profissionais 03 04 14 14 26 61 acham que esses conhecimentos de mercado somente se adquirem com a experiência. O mercado de trabalho do cirurgião-dentista apresenta sinais de saturação. e principalmente obtermos também conhecimentos administrativos e de marketing. quanto tempo demora para realizá-la 6.Vol. quanto o convênio lhe paga pelo serviço acima 7. Notamos que boa parte dos que responderam todos os quesitos tinham uma noção de seus custos. também uma formação social. que é o consultório odontológico.95% (14 profissionais) na década de 80 e 42.62% (26 profissionais) na década de 90. que em seus cursos de graduação obtiveram um preparo adequado para o mercado de trabalho. informações fundamentais. confirmada pelos entrevistados.55% (4 profissionais) na década de 60. não mais sobrevive sem informações atualizadas e constantes sobre assuntos os mais variados. “não tive problemas”. se trabalha com convênio. dentre inúmeros outros aspectos.38%) responderam a todos os quesitos. que para a época em que se formaram foram suficientes. mas não possuíam na realidade conhecimento do valor real de seus honorários (custo/hora de trabalho). não se dando conta que quando dizem sentirem-se preparados para o mercado de trabalho. 26 profissionais (42.95 22. reclamaram da atual situação da profissão. quanto cobra por uma restauração 3 faces de amálgama 5. Qualquer atividade econômica. com o tempo. Do total de 61 entrevistados. 22. 1. justificaram tal afirmativa basicamente pela formação educacional. dos desejos e necessidades em relação à saúde bucal desta população.95% (14 profissionais) na década de 70. “sinto-me capaz de concorrer”. ou ainda. voltada exclusivamente para técnicas operatórias ou preventivas. No. o foco do aprendizado preocupado exclusivamente com os aspectos biológicos do tratamento do paciente. ou seja. ignorando muitas vezes seus gastos mensais. entretanto 46 profissionais (75.. ou mesmo Tabela 1.). justificam sua convicção com afirmações subjetivas (“me saí bem”. da renda per capita da população. quanto a década de sua formação profissional. quantas horas trabalha ao mês 3.60%). justificam-se somente através de conceitos de preparo técnico-científico (saber fazer uma restauração ou cirurgia adequadamente). incluindo-se o consultório odontológico. Já os cirurgiões-dentistas que afirmaram ter tido bom preparo para o mercado profissional (73. Década de formação 50 60 70 80 90 Total % 4. os quesitos do questionário foram suficientes para avaliarmos o grau de informação dos profissionais a respeito do custo/hora individual de cada um. você tem mais paciente de convênio ou particulares Resultados e Discussão Os entrevistados. da população de sua cidade. Do total.40%) disseram exatamente o oposto.62%) não conseguiram responder a todos os quesitos.91 6. contextos que serão distintos para cada um.55 22. da inadimplência de seus clientes. notamos que a unanimidade dos entrevistados. éticas e legais.. compreendendo que somos pessoas inseridas e atuantes em contextos sociais. 6. Respeitando as normas vigentes. indispensáveis para qualquer ramo de atividade econômica. Distribuição dos profissionais entrevistados quanto a década de formação profissional. desde as fundamentais atualizações em novas técnicas e materiais. “aprendi a fazer de tudo. Dos entrevistados que disseram não ter tido preparo suficiente para o mercado de trabalho (26.40%).. não tenho medo de nada”.91% (3 profissionais) na década de 50. . Esses aspectos técnico-científicos são realmente básicos. da satisfação de sua clientela com os seus serviços. de empresas de convênios. 1/2. 1999 Honorários Profissionais 53 • Em relação aos seus custos discrimine: 1. demonstrando não possuírem conhecimentos a respeito de aspectos básicos e fundamentais para se estabelecer os honorários profissionais.

Código de Ética Odontológico e demais legislações vigentes.R. Existe a necessidade de que cada profissional tenha noção do seu custo/hora. 420-21. ou estavam cobrando pelo procedimento citado (restauração 3 fases de amálgama) valores de 500% ou até mesmo 1000% a mais que seus custos. Rio de Janeiro: MEDSI. declarando cobrarem por hora clínica trabalhada. p. 3. 2 ed. gerencial e de marketing sejam realizadas no contexto odontológico.D. valores inferiores aos custos que disseram ter. Rio de Janeiro. 3. Conselho Federal de Odontologia. Notamos somente 2 (3. p. N. (Samico. (1994) Honorários Profissionais In: Aspectos Éticos e Legais do Exercício da Odontologia. Entretanto. Os indicativos verificados durante nossos cursos (desconhecimentos dos profissionais em relação ao seu custo/hora). (1978) Direitos Profissionais na Odontologia. E. 4. _____ (1998) Resolução CFO-179/91. que varia de acordo com as pecularidades individuais.V. São Paulo: Saraiva. 1 de 05/06/98 Código de Ética Odontológico-1998. 66-68. Silva. Cobrar mais do que seu custo/hora é até salutar para a saúde financeira de sua empresa (consultório). Há a necessidade que mais pesquisas na área administrativa. Menezes J. demonstraram plenamente conhecimentos a respeito de seus custos e elaboração de honorários. tendo muitos optado pela filiação a empresas de convênio que em geral pagam honorários inferiores aos particulares.. respeitando entretanto as particulariedades da profissão . para que comecemos a suprir uma lacuma de informações ainda existente.54 Oliveira & Oliveira-Júnior Odontologia e Sociedade Em 13 casos (37. 5. alterada pelo Regulamento n. Silva. 2. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Odontologia. Brasil (1996) Código Civil. M. p..). 377-94. com tais valores. Referências Bibliográficas 1. baseados nos custos e na expectativa de ganhos. Daruge. o profissional consiga manter a demanda de seu consultório. foi reafirmado pelos dados preliminares da pesquisa. A. onde apesar da maioria ter respondido ter sido preparada para o mercado de trabalho somente 3. M. O consultório odontológico tem de ser administrado com os conhecimentos gerenciais e de marketing utilizados comumente em empresa de prestação de serviços..H. o que temos notado.. Silva.27%. M. São Paulo: Saraiva. Massini. estavam cobrando de particulares ou recebiam de empresas de convênio. Conclusões 1. 4. 2.27%) do total de 61 profissionais entrevistados que demonstraram claramente conhecimentos de seus custos. .14%) dos 35 profissionais que responderam a todos os quesitos. (1997) Compêndio de Odontologia Legal. desde que. ed. é que a maioria dos profissionais está tendo um demanda decrescente.