You are on page 1of 155

JOSÉ MANUEL FERNANDES

ARQUITECTURA MODERNISTA EM PORTUGAL [1890-1940]

gradiva

Impressão e acabamento: Printer Portuguesa Direitos reservados a: Gradiva .Publicações. .© José Manuel Fernandes Arquitecto/Gradiva Revisão do texto: Manuel Joaquim Vieira Design gráfico: André do Rosário Fotocomposição e montagem: Multitipo-Artes Gráficas.Telefs. L* Rua de Almeida e Sousa. . 3974067/8 1300 Lisboa 1.° 72 122/93 Noto do Editor: As imagens não referenciadas são do autor. 21. r/c.ª edição: Dezembro de 1993 Depósito legal n. Lda. esq.

António Brito. 3.º António de Vasconcelos. Mendes e Alberto Picco. O Dr. foi igualmente imprescindível para este trabalho. então director do Serviço.° ano lectivo de 1977-78 e 4. para o Porto. pois directa ou indirectamente contribuíram para o «corpo» do trabalho: os do Centro Nacional de Cultura.os anos lectivos de 1977-78. através do seu Serviço de BelasArtes. 1978-79 e 1979-80). A documentação referente aos trabalhos de Porfírio Pardal Monteiro e de Carlos Ramos. Doutores Jorge Gaspar e Maria João Madeira Rodrigues. Mas a contribuição maior (e mais reconhecida) foi a da arquitecta Maria de Lurdes Janeiro. Outros apoios deverão ser citados. dos fotógrafos do Estúdio Mário Novais e ainda dos fotógrafos Sr. sempre acompanhou atentamente o desenvolvimento da investigação. António Cristo (área de Coimbra).AGRADECIMENTOS Este trabalho alicerçou-se fundamentalmente numa bolsa de estudos concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian entre 1979 e 1 9 8 1 . ainda devo citar os arquitectos Júlio Ansião e Domingos Tavares. para a zona de Lisboa. . cujos nomes aqui refiro com o meu reconhecimento: arquitectos Júlio Teles Grilo (área de Chaves). em Ponta Delgada. foi também fundamental para o estudo daquela região. dos Profs. Também em muitos aspectos fui ajudado por colegas e amigos. que colaborou nos exaustivos trabalhos de pesquisa de campo e de organização deste livro. A documentação gentilmente cedida pela família do Eng. Também as investigações que dirigi nos anos lectivos de 1977 a 1980. Artur Nobre de Gusmão. José Fernando Canas. Adalberto Tenreiro (área do Alentejo). A todos eles agradeço a valiosa colaboração. Agradeço pois este apoio imprescindível. Carlos Marques. Helena Ribeiro Santos e Luísa Góis (área nortenha). com manifesto entusiasmo dos alunos participantes (cadeira de História da Arquitectura Portuguesa. no então Departamento de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. e muito especialmente o arquitecto Vítor Mestre. permitiram fundamentar mais solidamente a informação referente a Lisboa. cuja consulta nos foi facultada pelos arquitectos António Pardal Monteiro e Carlos Manuel Ramos.

deu ao referido período. vago. integráveis (com algum esquematismo) numa abordagem da produção na metrópole peninsular. por comparação com as experiências similares europeias — aspecto que agora se pode. se quisermos. Também os limites deste «movimento» no espaço português se afiguram difíceis de demarcar. se houve um movimento cultural «modernista» nas nossas artes e letras dos anos 10 e 20 do século actual. lhe definiria um limite preciso. na literatura. vemo-lo também aplicado em Portugal. Pensou-se também que a «viragem» histórica de 1940. «modernista» (primeiras tentativas de ser «moderno». a vontade de mudar linguagens e expressões arquitectónicas com um sentido social e vanguardista a um tempo. talvez «para que tudo ficasse na mesma». . 1979. pelo menos no campo da arquitectura. Lisboa. a arquitectura terá no essencial permanecido arredada dessa gesta. que entre nós se confundiria com a ligada à «arte nova» ou à de «princípio de século». Deste modo.. àquela produção arquitectónica dos inícios de Novecentos. um desfasamento então criado e só superado a partir dos anos 30.. que são a Madeira e os Açores — assim foram entendidas e estudadas as arquitecturas destes arquipélagos na presente obra. 1974).ª série. por razões de desfasamento técnico e sociopolítico em relação ao desenvolvimento geral do País. e que pode exprimir-se nesse termo. mais fáceis de subverter e renovar a literatura e a pintura foram dois deles. Termo ambíguo ou. com a divulgação sistemática do uso do betão armado e das formas «cubistas». Como definir com precisão. basta pensar nos trabalhos de arquitectos portugueses 1 Termo utilizado por José-Augusto França para designar a geração de arquitectos que nos anos 30 se foi afirmando em Portugal dentro de uma perspectiva modernizante (A Arte em Portugal no Século XX. in revista Arquitectura. Tal facto. melhor entender e valorizar. sem o conseguir ainda cabalmente). que indiscutivelmente constituiu em Portugal a sua definição e o seu primeiro apogeu (e a data de 1890. meio século recuada. uma especificidade e até. n. por exemplo em Espanha. o decorrer desta tendência ou fase arquitectónica em Portugal? O estudo efectuado incidiu entre duas «balizas». Lisboa. há prolongamentos adjacentes. surge marcando uma geração e o início de uma crise nacional). entre nós. os anos de 1890 e de 1940. Bertrand. pelo menos.. 4. porque. a «histórica» distância.É intenção desta publicação divulgar aspectos gerais da arquitectura chamada «modernista» em Portugal1. às obras de um Amadeo ou de um Almada (e mesmo. como muitas outras coisas neste país lusitano. no tempo e no espaço. implicava talvez começar por campos diversos dos da arquitectura. nos campos das outras artes visuais. vemo-lo aplicado. mas a investigação poderia certamente enriquecer-se e até «clarificar-se» melhor se estendida a outros espaços de influência lusa.2 De facto. o ciclo do modernismo arquitectónico tardio coincidirá já. marcada pela ideologia arquitectural enunciada na Exposição do Mundo Português.. uma originalidade. enquanto vinte anos antes começara em Espanha um homónimo «modernismo» que ainda podia dialogar com curvas modern-style e alvenarias tradicionais de tijolo e pedra. considerou-se que haveria que procurar as raízes do «aparecimento e desenvolvimento da arquitectura moderna» (e assim se intitulava o estudo de investigação) muito antes da década de 1930-40. a partir do qual demasiadas coisas mudaram. às intervenções de Sá Carneiro ou de Pessoa). em Portugal. 2 Assunto já focado pelo autor em «Para o estudo da arquitectura modernista em Portugal».° 132.

muitas vezes fruto de autores locais ou procurando uma adaptação às condições do sítio.para o Brasil. entendeu-se importante estabelecer um constante acompanhamento. de origem europeia. . ideologias. parece-nos. Finalmente. numa tradução mais directa da pesquisa levada a cabo pelo trabalho de campo. em menor escala). inovadores e criativos da produção arquitectónica. As imagens tenderão. através. 3 4 A toponímia. por esta razão se abre o livro com a descnção e exemplificação dessas inovações técnicas. o texto final foi revisto em 1993. seria interessante explicar um pouco do modelo teórico deste trabalho. evidentemente ligados ao desenvolvimento industrial no mundo «europeizado» de Oitocentos. passando em seguida para a sua «tradução» artística. neste capítulo como nos outros. mas também regional. Datas. e depois espacial. neste espaço de quinze anos desde o início da recolha de informação. fora da(s) grande(s) cidade(s). Assim se vai falando de obras. adquire um sabor muito especial. autores. têm sido destruídas. desfiguradas ou simplesmente alteradas e cuja visão fotográfica é aqui possível na sua forma primeira e já desaparecida. referências precisas ou petites histoires. interpretadas e nacionalizadas»4. autores. duma escala ou função apropriadas. aí. para além da sua apresentação em livro (o texto foi «fixado» em 1986)3. a tradução cultural dos modelos eruditos. Por último. no entanto. também ele se reclamando de «Novo». Entendeu-se que o fenómeno da modernização em arquitectura aceitou como determinante primeira a introdução de novos materiais e tecnologias. apesar de tudo. Outro aspecto importante diz respeito ao já assinalável número de obras que. enquanto um sentido mais geral e global será dado pelo «texto corrido». Mas o desenvolvimento social acompanha naturalmente o processo da evolução técnico-artística e. mostra-se um «Portugal modernista». ficou-se pelo que se espera seja uma «primeira fase». Termina-se avisando que as imagens apresentadas são apenas uma «amostra» do material referido no texto: que o «armazém» restante possa alguma vez ver a «luz do dia» é o nosso voto. para as notas de rodapé. Conforme adaptação do texto do relatório da referida bolsa de estudos. que pouco a pouco soube conformar e enquadrar os novos dados. «dispersa esta pelos pontos mais inesperados do território. adstrita ao clássico «continente e Ilhas». de Trás-os-Montes a Monte Gordo. por exemplo. sempre que possível. reservam-se. em 1979. nas obras públicas oficiais para as colónias de África e da Ásia (as últimas. do Faial a Castelo Branco. se se preferir. num plano seguinte (e interactivo com o primeiro) houve uma resposta estilística e formal. sem querer forçar estas relações. um enquadramento que reconhece no corpo social duas fases bem marcadas na expressão da arquitectura desta época em Portugal: uma época ligada à «velha» Monarquia e à nova República. mas monótonas. sempre interessantes. datação e localização dos edifícios foram recolhidas em 1979-80. e tenta-se ver como a tradição local foi afectando a produção de obras inovadoras. permitindo mais facilmente do que nas grandes cidades compreender como as novas técnicas e formas foram por cá entendidas. outra claramente identificada com o advento do Estado Corporativo. universo de algum modo com a sua coerência e sentido próprios. ou. os edifícios menos conhecidos ou os aspectos mais originais. a valorizar a «pequena obra». por razões de equilíbrio analítico e das evidentes limitações práticas.

luz . plástico.Novos materiais e tecnologias o ferro O betão armado — os primórdios Os outros materiais — vidro.

Deste modo. Lisboa. pelo contrário. 1980). ed. demarcando gerações e preparando revoluções. aplicando as modernas possibilidades das estruturas metálicas. crise financeira. sobretudo em Lisboa. depois do «salto industrial» de 1870. Fundação Calouste Gulbenkian. mas. Nesta época. a meados do século passado. construídas nos tradicionais materiais nobres e quantas vezes exageradamente decorativas e densas. 6 J. o arranque da última década do século XIX serviu também para pontuar uma decisiva aceitação da nova tecnologia do ferro na construção de Lisboa. ed. A. Mas voltemos atrás. 1889 é a data-limite para uma primeira etapa do desenvolvimento do capitalismo em Portugal.. exibindo uma área mais funcional e prática. para este essa preparação era agora manifestamente insuficiente. assim. . definindo amplas áreas entre pontos de apoio). Noutra perspectiva. fugindo ao entendimento e ao domínio do «arquitecto-artista». articulada com uma relação diferente e imposta com as colónias africanas. «farol» de uma nova geração. 5 Em termos socieconómicos. pelo contrario. Regra do Jogo. no mesmo autor e que. 1977. pioneiros na revolução industrial desde Setecentos. Um novo surto de construções metálicas de relativa importância ergueu-se à volta de 1890. gerava novas exigências funcionais. Este.O ferro Meio século antes da Exposição do Mundo Português. nomeadamente de vastos espaços públicos onde comboios. pelas exigências de cálculo matemático que o emprego da tecnologia do ferro implicava. portanto. que iniciava então o seu segundo fôlego5. o engenheiro ganhava papel crescente na execução dos novos edifícios. esses campos eram agora contraditórios. que os Ingleses. pouco a pouco. como habitualmente. foi-se definindo um conflito entre duas profissões ligadas à construção: arquitectos e engenheiros descobriam que o campo artístico e o campo técnico deixavam de se identificar. mercados e gares ferroviárias6. também o crescimento acelerado das cidades. Os edifícios reflectiam então muitas vezes este isolamento mútuo das duas actividades. Data simbólica de uma mudança geral que começou a processar-se. pelo número de realizações construtivas (Arquitectura de Engenheiros. com conotações nacionalistas.. entre edifícios industriais. quando os elementos metálicos fruto da produção industrial começavam a ser utilizados para construir pontes e viadutos. simbólico e operativo para uma análise da génese da arquitectura moderna em Portugal: procurar-se-á tomar clara a relação desta com a importância crescente dos novos materiais na construção. que o cansaço do parlamentarismo e o choque do Ultimatum demarcavam. o considera Manuel Villaverde Cabral em O Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no Século X/X. crise política e moral. com uma população em aumento permanente. sendo este patente. com economia de meios. catálogo da participação portuguesa. mas com evidente falta de sentido estético. o nosso país atravessava uma crise de facetas múltiplas: crise de crescimento industrial. Lisboa. iam traduzindo em ferro). o ponto de partida temporal. A Marques de Carvalho considera 1888 o «ano do ferro». sendo o seu trabalho murtas vezes relegado apenas para o tratamento das fachadas. se àquele faltava naturalmente uma preparação estética. mercadorias ou produtos fossem abrigados e pudessem receber a multidão imensa que os utilizava — e que só o ferro permitia construir e cobrir de forma satisfatória (em prazos curtos. com relevo para Lisboa. pois as necessidades de novas funções e espaços urbanos eram cada vez mais da competência do «homem do cálculo». e portanto pelo restante país que a capital comandava (poderia então falar-se de uma «vulgarização do ferro»). que irá relançar o mito sebastianista messiânico. 1888 é o ano de nascimento de Fernando Pessoa. nas partes mais representativas e simbólicas. um pouco por toda a Europa (sem esquecer as estufas e outras elaborações românticas. pavilhões de exposições. mais «espiritual». armazéns portuários ou simples fábricas.

sobretudo de França e de Inglaterra e. projectado curiosamente por um arquitecto. como era o caso da cúpula do Observatório Astronómico da Ajuda. esta situação reflectia-se. E o caso da ponte pênsil sobre o Douro. o das vigas de sistema tubular8. fora do contexto urbano. serviu a linha de cintura ferroviária desde 1854. prolongando-se a sua construção mesmo pelos primeiros anos do século XX e generalizando-se por todo o país: na década de 1870. e construído entre 1846 e 18497. a ser aplicado nas décadas seguintes. no Porto. pela dependência em relação à importação do próprio material. imitando as formas clássicas habituais na pedra e suportando pavimentos de abobadilha de tijolo. em Pernes e Ródão. sem dúvida. que substituiu a das Barcas e antecedeu a de D. apoiada em estruturas de tipo mais convencional para os restantes espaços. com dimensões globais e uma expressão algo «primitiva». ainda apoiado em pilares de pedra. ou do viaduto de Xabregas. com destaque para as pontes. que. Mas um exemplo mais «arquitectónico» desta fase inicial é. também o ferro começou aqui a ser utilizado em situações experimentais ou parciais. de que as da Praia do Ribatejo (1860-61). continuou. Um processo construtivo novo. 7 Dados recolhidos em Dossier Encontros à Esquina. mais leve e resistente. em Lisboa. com o habitual desfasamento no tempo em relação às experiências europeias congéneres que se iam fazendo com o ferro — desfasamento ainda agravado. 8 Associação de Arqueologia Industrial da Região de Lisboa. Luís. ou para resolver necessidades reconhecidas como exclusivamente funcionais. pouco prestigiadas culturalmente. modernizará.As primeiras obras Em Portugal. utilizava ainda enormes pilares de ferro fundido. Foi a partir da década de 1860 que a implementação dada aos transportes pelos sucessivos governos começou a exigir a construção de inúmeras obras de engenharia ferroviária. fez surgir na nossa paisagem as hoje tradicionais pontes metálicas de tramos rectos e perfis cruzados. da Asseca-Carregado (1860-?) e do Rossio de Abrantes (1868-70) serão os exemplos pioneiros. Outras utilizações do ferro nesta fase correspondiam a partes de edifícios com maior complexidade. em menor escala. o do edifício da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense (depois do Anuário Comercial). na década de 1880. de resto. Lisboa. adequado ao atravessamento de rios de caudal pequeno e médio. durante cerca de um século. móvel e cilíndrica. por Jorge Custódio. sobre Alcântara. em Portimão (1875-76) (fig. em Benavente (1875). edição Dados sobre as pontes do Tejo obtidos em Roteiro das Pontes Metálicas do Vale do Tejo. e portanto sem grande preocupação estética. e sobretudo para as que irão vencer a tradicional barreira que o vale do Tejo sempre representou à ligação entre o Norte e o Sul do País e que o progresso mecanizado tentará agora anular. .1). em Portela de Coimbra (1873). João Pires da Fonte. em Valença (1885) e em Fão (1888). depois. Este tipo de pontes. Imensa estrutura com vários pisos. edição da policopiada do Centro Nacional de Cultura. da Alemanha. 1981. e de novo pelo Tejo. na Guarda (1876). em 1843. que o uso posterior do ferro laminado. naturalmente. 1982. aliás. em Santarém (1876-81) e sobretudo em Viana do Castelo (1877). em Coimbra (1874-75). Como nos outros países.

que as há muitas. hoje desaparecidos. Não é objectivo destas referências serem exaustivas. Muitas outras pontes haveria que referir. Também não interessa ao âmbito deste estudo uma análise mais detalhada das tipologias de pontes.Fig. da A década de 1890 assistiu à construção de mais passagens metálicas sobre este rio (em Abrantes e Constância). Azambuja (1904). ao Gavião (1903). mas sim acentuarem o vasto espólio constituído pelas pontes metálicas portuguesas. sem por isso merecerem o desaparecimento (o caso da Ponte de D. Note-se que os dois edifícios já se «exibem» claramente dentro de contexto urbano. na sua maioria. 1 Portimão — pontes sobre o Arade: edição Pacheco. de pedra) e de tramos e tabuleiros (rectos. por último. curvos. a escassa articulação com a cidade: o primeiro caso. utilizaram elementos metálicos como suporte. Coruche ou Ponte de Sor. respectivamente. a quase infinita série de alpendres. é ilustrativo). quer em relação às formas de apoios (metálicos. em 1909. ou ainda casos mais tardios.ª. Penacova. em arco. de caixa aberta ou fechada. comum a ambos os exemplos. em Caminha. seguido pouco depois pelo congénere tripeiro de Ferreira Borges (inaugurado em 1888). Voltemos à nossa cronologia: antes da época-chave de 1890. Luso. L. por coincidência relativas a factos marcantes na arquitectura do ferro em Lisboa e no Porto: em 1865 inauguraram-se nessas cidades. Maria. o «limite de idade» útil. duas datas são normalmente referidas. também no Pocinho. dissimulado dentro de um parque. Note-se ainda. cujas datas se não indicam. como Alcácer do Sal e Odemira. E em 1885 foi a vez do Mercado da Praça da Figueira. exemplos entre outros. A arqueologia industrial melhor se saberá ocupar deste campo. que raras vezes foram demolidas e vão atingindo hoje. em curiosa variante basculante. basculantes ou móveis). De notar. Seita & C. de igual modo. centrais na — Portimão (bilhete-postal) Fig. postos e pequenas construções de apoio que povoaram toda a rede ferro-rodoviária e que. apenas parte interna de um edifício periférico. Régua. que continuaram a ser inauguradas depois de 1900: Belver. a gare de Santa Apolónia e o Pavilhão de Exposições (conhecido como Palácio de Cristal). alfacinha. Ferreira do Zêzere. 2 Figueira da Foz — Saião de Inverno do Grande Casino Peninsular: edição da Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz (bilhete-postal) . Porto de Muge (1904) e Chamusca (1906-11). o outro. agora monumento nacional.

a própria Exposição Nacional de Indústrias Fabris (prestigiosamente realizada já na Avenida da Liberdade) e o edifício industrial do Gasómetro de Belém (ambos de 1888). como se disse. e de 1 8 8 1 . onde o ferro melhorava as condições de iluminação interna (na . De destacar. e Central do Rossio. a uma maturação e generalização das aplicações do ferro na construção: são disso prova as duas novas gares de comboios em Lisboa (Alcântara-Terra. para apoio às actividades da cozinha e da criadagem). com lugar à parte como monumentos urbanos. e do Coliseu. foram surgindo vários e significativos edifícios públicos. em 1884. a Central Elevatória a Vapor dos Barbadinhos (1880) (obra-prima de articulação entre estrutura edificada e mecanismo). Em 1892 inauguraram-se o Tauródromo do Campo Pequeno e um mercado regional na Figueira da Foz. também desta fase. ao Campo Grande. Outra aplicação crescente do ferro verificou-se no domínio dos prédios habitacionais de quarteirão. essa expressão só é justificável na época certamente por se tratar apenas de obras utilitárias. a interessante cobertura do Casino da Figueira da Foz (fig 2). usando o ferro com maior ou menor originalidade ou globalidade. ou as esquinas resolvidas em curva.cidade histórica. Assim. «clássico» na Central Elevatória). respectivamente em 1877. na Tapada da Ajuda. Merecem ainda uma referência as famosas «pontes em arco» do Porto (de 1877. em Lisboa. fora do contexto da cidade. À volta de 1890 — o ferro «urbaniza-se» Estes anos assistiram. entre outros: a galeria panóptica da Penitenciária (1874-78). Mana Pia. Este último reflecte o que será a tipologia de construção de muitos outros mercados. Nestas obras foi muito variável a participação do ferro. e finalmente. Luís). na mesma época. ora em mistura com alvenarias de tijolo e peças de madeira (nos mercados ou no Casino). as cúpulas grandiosas do Mercado Central de Gados. 3). apresentam o seu exterior em ferro aparente. em exemplos um pouco por toda a província [destacam-se os edifícios de Torres Novas (fig. sem esquecer o famoso Bolhão portuense]. de São Bento e da Ribeira. em 1887. destacando-se. a de D. já que se atravessava uma fase ainda experimental e diversificada: aquele ora surgia reservado para interiores (de gosto «gótico» na Penitenciária. São exemplos o prédio lisboeta da Avenida de D. Carlos (1891) (fig. com as primeiras traseiras construídas com lajes de abobadilha apoiadas em vigas em l formando marquise (espécie de «oficina» da casa portuguesa urbana de andares. o Pavilhão da Exposição Agrícola do Ultramar. os mercados (pioneiros) de Santa Clara. além disso. Olhão e Aveiro. 1881 e 1882 (que prenunciam o da Figueira). 4). e que.) Foi pois ao longo destes vinte anos (1870-90) que o ferro afirmou o seu «direito de cidadania». a de D. apenas no Pavilhão Agrícola foi mais ousada a sua expressão como material (quase) global. mas também aqui com a desculpa de se implantar em parque. em 1888). sem preocupações de dissimular material tão pouco nobre! (Em todo o caso. a Santo Antão (em 1888 e 1890).

3 Torres Novas — Mercado Municipal Rua Castilho. um pouco mais tardiamente. 1967). mais realistas nos propósitos. que em plena Bolsa consagra o prestígio finalmente associado ao ferro (prestígio que. sob projecto de José Luís Monteiro (arquitecto. a São Bento No Porto. autor também do Avenida Palace) no que (não) deveria ser o grande foyer do Coliseu de Santo Antão (fig. 7). reprovado pela Câmara e ainda hoje existente com os seus tímidos três únicos pisos. também em 1891.. em Coimbra e Évora.. ou na estrutura do Hotel Avenida Palace (1892). Livraria Bertrand. Fig. há que destacar. também operações de modernização de equipamentos instalavam o ferro nos Armazéns Grandella (em 1891). O ferro em plena arquitectura da cidade De 1900 aos anos 20 assistiu-se o apogeu da utilização do ferro na construção urbana: conceberam-se as primeiras estruturas de prédios inteiramente executadas em peças metálicas (e com fachadas mostrando «descaradas» esse material ao cidadão). respectivamente. Outros prédios deste tipo. menos prolífero nesta fase. II. contudo. de Artur Júlio Machado (por José Augusto França. 1888). a finalização do grandioso Pátio das Nações. Lisboa. o edifício Chiado (antiga Santix) (fig. exibido na Sala de Portugal da Sociedade de Geografia. chega também a Lisboa. foram construídos: em Lisboa. 4 Lisboa — traseira de edifício de habitação na Avenida de Dom Carlos. ed. das quais o sonho maior foi o do falhado arranha-céus de mais de 10 pisos na lisboeta Avenida de 24 de Julho9. um edifício com vigorosa fachada metálica. e na Rua do Século. . 5) e o da filial dos conhecidos ' Conforme A Arte em Portugal no Século XIX. contendo a planta livre que esse tipo de estrutura permite. um imóvel para o jornal do mesmo nome. junto à actual rotunda (1904-07). imagem da «Chicago impossível» no porto alfacinha (projecto de 1904). em plena Baixa pombalina. onde se reproduz o projecto original.Fig. construída em 1897. com evidentes propósitos industriais e de instalação de escritórios (1913-21). Alcântara-Terra. vol.

com os grandes envidraçados na fachada. As colinas de Lisboa exigiram os elevadores verticais e de rampa. sempre utilizando o ferro e o tijolo. A indústria pedia também volumosos edifícios. em 1903. totalmente construído em ferro (1908. a da firma Gomes. também usando o tijolo para acompanhar o ferro. gares imensas onde o ferro se tornava imprescindível: recordem-se. Brito. Também foi usado o ferro nos dois liceus de Lisboa. arquitecto. O automóvel exige também as suas garagens (em locais «chiques» e com anúncios na revista Ilustração Portuguesa). quer em edifícios autónomos (como o Mercado de Alcântara. Os transportes mecânicos. construtora igualmente da Auto-Palace). 6 Dafundo/Cruz Quebrada — traseiras de prédio de habitação colectiva. em 1902). quer em partes de obras. a chamada «Catedral do Vinho» em Fontebela. ainda que com data incerta. permitiram também a criação de novos espaços e formas: a rede de tracção eléctrica abrigou os veículos nas gares do Arco do Cego e de Santo Amaro (1900) e levou à construção de uma central de energia em Santos (onde tijolo e ferro seguem a tradição da arquitectura portuária). agora em plena cidade. para produção de energia eléctrica. já demolido). Os equipamentos urbanos continuaram a aplicação do ferro. o vasto complexo da Central Tejo. que organizava todo o espaço interior à sua volta. ambos em Lisboa. «moderno» e com decorações — é a palavra usada no estudo — de Louis Reynaud. como na do Banco Lisboa & Açores. em típica arquitectura utilitária. o de Camões (1908-09) e o de Pedro Nunes. de 1906. Rua de Clemente Vicente/Rua de Pereira Palha Fig. Assim sucedia com as obras de Ventura Terra.armazéns lisboetas representaram a inserção da estrutura metálica. projectos de Terra. que repetia na província o modelo do Coliseu lisboeta. anexa ao antigo Convento de Cheias (com um dos mais extensos pavilhões metálicos do País. n. no Porto. ou ainda uma fábrica de massas alimentícias em Alcântara. enorme adega de múltiplos andares sobrepostos. como a da cúpula do Teatro-Circo de Braga (1911). construída pela firma Veillard & Touzet (empresa com intensa actividade no sector. o primeiro com vastas galerias metálicas servindo os diversos corpos de alvenaria. onde a uma pesada frente em pedra de tratamento classizante se opunha a leveza do pátio em andares. alterado nos anos de 1940-50). em edifícios de prestígio com cuidada inserção e desenho. de 1906). Mais estações ferroviárias substituem agora velhos conventos em pleno coração da cidade: caso da gare de São Bento. onde o ferro se aplicou em varandins e coberturas. Rua de Ferreira Borges. as instalações da Fábrica de Pólvora. Vaiada do Ribatejo. de que o do Carmo (1902) é o ex-líbris (com projecto de engenharia de Raul Mesnier de Ponsard. no sítio do futuro Éden) ou na Rua de Alexandre Herculano (Auto-Palace. ou o novo Mercado da Ribeira. moderna e «transparente» em pleno centro histórico dessas cidades (cerca de 1900). Conceição e Reis. De destacar o interesse gradual expresso pelo uso do novo material por parte dos arquitectos. Estes foram gradualmente utilizando o ferro. como nos Restauradores (a Beauvallet. de gosto exótico e finalmente «gótico»: eis a contradição em que se debatia a expressão arquitectónica que tentava exibir o ferro). ou em equipamentos de significativa responsabilidade social. com edifícios levantados desde 1908 aos anos 30. Fig.º 85 . o segundo com um ginásio de inserção original. em Belém. 5 Coimbra — edifício Chiado.

Rua das Portas de Santo Antão. n." 92-104 .Fig. na Sociedade de Geografia. 7 Lisboa — Salão Portugal.

Rua do Ouro . o ferro ia desempenhando cada vez mais o papel de suporte do espaço autónomo e complementar da casa que era a marquise. de grandioso salão de festas culminando todo o piso superior (1912). a marquise de ferro lá continuava ainda pelo anos 30 fora. «moderno»). como no caso de um prédio da Avenida do Duque de Loulé. que nunca abandonou Lisboa. ou em dispersas vilas da Graça/Penha de França. Assim sucede no Bairro Estrela d'Ouro (1907). Na fachada. em conjuntos orientados para um mesmo logradouro interior. estreitos acessos colectivos. em cada miolo de quarteirão exteriormente mundano. uma ruralidade feita de roupa estendida e de galinheiros. na Rua da Palma.. Assim se preencheram os vastos quarteirões das Avenidas Novas. tão forte e enraizado. Este sistema.. Foi desta época e desta modalidade que resultou a fixação formal do prédio «para rendimento» em fachada de alvenaria mais ou menos decorada. (embora com expressão um pouco mais art déco nas caixilharias).Norte Júnior. em muitos casos. Nos prédios de habitação em clássico esquerdo-direito. de Horta. Antes. forma mais introvertida de vila. quando a estrutura dos prédios aplicava já o betão armado. o mesmo material (na Vila Berta). os afloramentos metálicos eram sempre mais tímidos. mais tarde associados ao modelo centro-europeu do chalé. à Avenida do General Roçadas. envidraçados ou abertos. 6). diminutas habitações seriadas. ao veraneio e às áreas de praia: dos arredores de Espinho Fig. persistiu bem dentro do período seguinte. e. que substituem as caixas de escada interiores. dada a implicação estética do acto: era por vezes. em generosas varandas sobre a frente das casas. o construtor Tojal tinha já utilizado. ocupadas pelas classes mais pobres. em 1919. em contraste com o carácter «oficinal». mais ou menos perseguindo um «estilo». desde o século XIX. usavam por vezes as escadas e as galerias de ferro. súbita e secretamente. outro autor famoso (e prolífero) da época. Mas a habitação foi o campo onde o ferro se vulgarizou e implantou mais profundamente em Portugal: nas «vilas» de Lisboa. como vimos experimentada já na década de 80. resolveu coberturas. por vezes com originais escadas em caracol ligando os habituais cinco ou seis pisos avarandados. em 1902. que. solução para ganhar um pouco mais de área para a casa formando uma bow-window saliente. iluminação em panos de vidro e escadas de serviço exteriores recorrendo ao ferro em dois importantes edifícios lisboetas: o da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário. da traseira. prático e geométrico (em suma. que em 1 9 1 6 repetiu o modelo anterior de modo mais modesto. eram então correntes as galerias metálicas exteriores. nos arredores dos centros urbanos. como forma de embaratecimento da obra. eventualmente sobrepostas em complexa e criativa rede de planos oblíquos e paralelos (caso de uma vila do Dafundo. como a Vila Celeste (1910). quando as fachadas eram já geométricas e modernisticamente abstractas: apesar disso. 8 Lisboa — fachada metálica na Baixa. à Graça. e o da Associação dos Empregados do Comércio e Indústria. primeiro com gosto classizante. em esquinas. devolviam às Avenidas. de rigorosa modulação) (fig. Também os «pátios». Há que fazer uma referência ainda aos inúmeros palacetes que foram usando o ferro em varandas e galerias. e de que só a fachada neobarroca distancia da Maison du Peuple.

.

Fig. 9 Lisboa — projecto de fachada metálica na Baixa: Arquivo Municipal .

com utilização mista dos dois materiais. Desde os mobiliários de jardins e parques (os famosos coretos que já surgiam no Passeio Público de Lisboa. aliás. ou no Cinema Odeon.° 19). As pequenas peças constituem uma das áreas onde o ferro pôde atingir maior originalidade e enraizar-se também nos hábitos urbanos por mais tempo. com destaque para as áreas de maior tradição de bandas musicais. Assim sucede na gare do Cais do Sodré. Assim sucedeu numa ourivesaria da Rua do Ouro. ou do já raro exemplar de «verter águas» existente no Porto. a concorrência do betão armado foi abrindo uma nova fase de obras. para depois se difundirem por toda a vilazinha de província. no Príncipe Real. 10).à Foz portuense. como numa loja de Vila Real (Rua Direita. onde as obrigatórias galerias de circulação periférica exibiam o metal e o vidro decorativo à revelia dos ensaios estilísticos do interior da sala. da Junqueira. relacionavam-se com equipamentos de diferentes tipos. como os quiosques e urinóis (caso da «mesa de refrescos» de 1 9 1 6 . ou à volta de Lisboa. ou as estufas. na sobreloja) (fig. de Viana do Castelo aos palacetes da costa do Minho. O ferro nunca perdera. é o caso do antigo Cinema Lys (depois Roxy. na Avenida do Almirante Reis. em que se apresentam «soltas» do plano construído. permanecendo normalmente os pilares em ferro. secundária na obra. Outras vezes. essa . como na Cúria (1914) ou no Luso. e não na parte coberta com ferro. mirantes e lavadouros (respectivamente com exemplos em Coimbra e Setúbal). mas suportando já lajes de betão. A decadência Com a entrada dos anos 20. secundarizado e marginal. 9). ou ainda aos relacionados com a vivência do campo. em Colares. de elegantes volumes cilíndricos nos jardins Burnay. Outras pequenas obras com estruturas ligeiras. de 1928 (fig. linha da Foz). em Lisboa. de Belém (1914). n. São exemplo as fontes e piscinas de estabelecimentos termais. ou numa retrosaria da mesma rua nos anos 20 (fig. depois pelo colocar de vigas em l e pelo moldurar a frente nova com colunazinhas de ferro de minicapitel metaloclássico. como a margem sul) aos mais ligados à rua. Estoris e Cascais. lisboeta. onde graciosas peças de ferro molduram as águas. ao permitir a abertura de montras maiores e com melhores condições de iluminação interna: a solução passava muitas vezes pelo rasgar dos panos de alvenaria existentes. As lojas representam outro campo ao qual o ferro ficou associado. normalmente adossadas ou embebidas na fachada. as colunas. (Lisboa). em 1 9 1 1 (com curiosa ampliação já ao gosto arte nova em 1 9 1 5 . ou com rectilíneas peças de ferro e vidro do jardim Colonial. tinham por vezes variações originais. o ferro surgia como «apêndice» da obra «moderna» (esta em gosto art déco e com uso de betão). 8). retomava deste modo a sua posição inicial. de 1929. onde a novidade residia na decoração geométrica dos corpos de entrada. lisboeta. ou pontuando o espaço interior das populares adegas lisboetas de Alcântara (junto à actual rotunda). alterado).

.

em 1921. numa substituição normal. quando Carlos Ramos projectou um «edifício de prestígio» para a Rua do Ouro. madeira —. pelas suas incapacidades reais — os perigos do fogo e da ferrugem —. mas nunca «modernas» (nem as «artes novas» de um Horta ou de um Gaudi resolveram o dilema).. sem ser mostrado. com os quais teve Fig. o ferro foi a primeira proposta moderna — logo. para a qual se recorreu. Só o betão saberá (e não desde o início da sua aplicação) encaminhar-se para um estilo moderno. quer no interior quer no exterior das obras. que a tecnologia do ferro sempre acusou. ocultou com a sua fachada estilizada e simplificada (que anunciava já o estilo das artes decorativas) uma estrutura interna de esqueleto metálico completamente camuflado com estuques que envolviam colunas e vigas. mas necessária. assinalando o papel determinante das novas técnicas e matérias industriais na sua invenção. no entanto. de servir sem brilhar. industrial — de construir. a formas do passado. tijolo. a especial importância do ferro na construção residiu em ter servido de charneira para o advento da arquitectura moderna. por outro lado. realmente notável para as necessidades da época. já nos anos 20. Porquê esta incapacidade do ferro? Talvez pelo pioneirismo de que se revestiu a entrada do novo material na arquitectura (em todo o mundo. por sistema.função pobre. quando autores e executantes não estariam ainda «preparados» para interpretar e assumir as potencialidades da tecnologia oferecida). Esse enraizamento não se traduziu. Sacrificado depois a invenções mais sofisticadas. 10 Lisboa — interior da estação ferroviária do Cais do Sodré: foto Horácio Novais de aprender a dialogar. a Agência Havas. que no fundo limitaram desde sempre o seu desejo de se impor como material de futuro. . e. dos materiais tradicionais — pedra.. talvez também. e a sua expressão estilística. desde os meados do século XIX até ao advento do betão armado. Uma síntese Viu-se como o ferro se foi introduzindo e enraizando nas actividades construtivas da arquitectura portuguesa. «definitiva». tal dificuldade de afirmação deveu-se por certo a um permanente desfasamento. entre a capacidade de solução das questões técnicas da obra. quando muito modernizadas.

ed. 11 Almada/Cova da Piedade — Fábrica de Moagens Gomes Caramujo (actual Fábrica Aliança): s. (bilhete-postal) .Fig.

são trabalhos fundamentais para uma compreensão do tema abordado. aliás. No referido livro de João Segurado (ver nota 10) indicam-se os diversos sistemas com origem em França que O autor considera liderar a aplicação do betão no mundo: Monier. «cimento armado» e «beton moldado». Só que. através dos seus «agentes gerais» em Portugal. a tecnologia do betão «cresceu» mais depressa e maturou em poucos decénios. e a sua empresa manteve relações mais directas com Portugal. correspondendo a uma fase 10 Termo referido em Betão Aparente em Portugal. esta obra. Gomes & C. como se de pedra se tratasse) (fig. Coignet. viadutos e equipamento de apoio. «concreto armado» ou «formigão armado». onde. ou limitaram-se a substituir — imitando com a perfeição possível — matérias nobres como a pedra. 11). sucessores da Viúva de Manuel José Gomes & Filhos). até simplesmente «beton» (ou «betom»). Este último sistema fora inventado pelo autor do 1. os primeiros anos do século XX ensaiaram diversas designações para esse material. as primeiras aplicações do betão tiveram o álibi utilitário. expressões que João Segurado refere. Como para o ferro. a primeira fábrica de cimento Portland iniciava a produção (Fábrica Tejo). seriam as obras ferroviárias responsáveis pela aplicação de betão em pontes. Tal como para o ferro. ao contrário do ferro. ainda que muito limitada. por Carlos Antero Ferreira. que. e uma vez mais. onde o betão fingia ser o que não era. As duas referências pioneiras costumam ser a uma fábrica de moagens junto à Cova da Piedade. Correspondendo às múltiplas maneiras de produzir o betão armado. tema a que a «pedra factícia» que o betão constitui se prestava com grande vocação10. embora surgido mais tardiamente. em Trás-os-Montes. no quadro europeu e em pleno processo de industrialização. se bem que alteradas.° l da Arquitectura Portuguesa de 1908). editado em 1893. ATIC. em 1905. ed. apesar de serem mais reduzidas as variantes de designação. prefere «beton» e «formigão de cimento». já a Construção Moderna. depois de um incêndio. antes de 1929). O betão foi nesta altura aplicado por companhias que possuíam patentes (e com elas o «segredo») dos diversos processos construtivos possíveis. no ano seguinte. foram as que apoiaram mais directamente o presente capítulo no fornecimento da maioria dos dados.° Tratado Internacional de Betão. «betom de cimento armado». 1972. em inúmeras partes construtivas e em elementos decorativos diversos. mais para os finais do século XIX. J. publicada de 1900 até 1 9 1 9 . de João Emílio dos Santos Segurado (ed. se hesita na palavra a escolher. desde «betom armado». as potencialidades do «cimento armado» e Ramalho Ortigão seguisse a mesma designação ao elogiar as suas potencialidades decorativas (no n. Ambas existem ainda. seria reconstruída em 1896 pelo sistema Hennebique de betão armado (dentro de um modelo de desenho classizante. Só que. Aillaud e Bertrand. nos arredores de Mirandela. só tardiamente foram surgindo as suas aplicações. que em 1906 adoptou idêntico sistema.ª. embora no Anuário da Sociedade Portuguesa de Arquitectos se referissem. bem como Cimento Armado. Em Portugal. no Caramujo (de A. Cottancin e Hennebique são os principais.O betão armado — os primórdios Desde meados do século XIX que surgiram experiências pontuais de aplicação do betão armado na construção. Ainda hoje. Assim. . «siderocimento». e à ponte em arco de Vale de Meões.

dos pilares compósitos. foram em muito menor número e ao longo de vias e linhas secundárias. aliás. as obras de betão em contexto urbano. na Avenida do Almirante Reis. ano em que se construiu uma cocheira de carruagens de wagons-lits em Campolide. deliberadamente mais visível.º Vicente Ferreira. As primeiras Tabelas Técnicas de Beton de Cimento deveram-se. Lisboa). Encontram-se exemplos em Vila da Feira (à entrada da povoação). quase sempre com um capitel evocativo do modelo em pedra que ainda se tinha como referência: são exemplos (a datar) a «arcada do balneário» das Termas da Cúria (onde se distingue claramente a obra «técnica» de betão e a obra «artística». também construídos em betão) (fig. varandas. mesclada já com vocábulos Fig. Lisboa (ainda existente). em Castro Verde (fig. funcionário da CP (a companhia ferroviária portuguesa). com ondulantes guardas e lances de escadas de formas classizantes. 12) (e talvez o viaduto para peões sobre o complexo ferroviário local?) e em 1 9 1 3 a ponte rodoviária sobre o Alvor. Desta primeira fase.. A justaposição desta «arquitectura de betão». mais experimental. ainda existente parcialmente. a contextos mais elaborados prolongou-se aliás até aos anos 30. como as do vale do Vouga e do Sado. 13) e no Bom Jesus de Braga. 14). entre Penacova e Porto da Raiva. foram publicadas em 1 9 1 1 . 12 Entroncamento — depósitos de água na estação ferroviária Fig. bem como muitas outras esplanadas de jardins pela província fora. em Vila Real (na estrada para Chaves). ficaram as galerias de finos pilares e delicada trama de vigas. Em 1 9 1 2 ergueram-se os dois depósitos de água do Entroncamento (fig. Devem ainda referir-se a série de escadas. 13 Castro Verde — palacete . com ela surgindo assim. como a de Penalva do Castelo (onde alguns balaústres mais carcomidos ainda deixam ver o esqueleto de ferro). datando este último de 1922-25). Provavelmente da mesma fase foi a obra da passagem superior sobre a ferrovia no Lavradio (Barreiro). a terrasse na Foz do Porto. pouco a pouco. Do mesmo ano de 1 9 1 3 data a aplicação de betão na estrutura da Fábrica de Cerveja Germânia (hoje a Cervejaria Portugália. ao Eng. e nos ramais para Portimão e Lagos (ao longo dos anos de 1910-20).terminal da expansão da rede. ainda existente. mirantes e ameias que em palacetes dispersos pelo País foram «caricaturando» os antigos modelos de pedra e ajudando a «inventar» o betão como novo tema expressivo. prática e simplificada..

de J. com galerias em betão de gracioso ritmo e claro-escuro (fig. obra precursora.. das Termas o Regulamento de Teatros e Outras Casas de Espectáculos obrigava pela primeira vez à construção daquele tipo de edifícios com materiais incombustíveis (pensava-se obviamente no uso do betão armado). no espaço interno dos edifícios e em relação com a sua estrutura. 12 Edifício estudado em artigo publicado na revista Arquitectura. entre 1924 e 1928". de Marques da Silva. Outro exemplo foi o do Sanatório do Outão. de cerca de 1929-30 (já com desenhos de inspiração art déco) (fig. em Francelos (arredores do Porto). na Avenida da Liberdade. com poderosa consciência «moderna» nos volumes e materiais utilizados. Na sua sequência. 14 Cúria — galeria. e Betão Armado. em soluções mais arrojadas que transpareciam já para o exterior. por Oliveira Ferreira. 16). com complexa rede de vigas no suporte dos balcões da sala. projecto de Raul Lino de 1924. Um Sistema de Cálculo de Construção de Vigas. Entretanto. junto à estação 11 Destacam-se Betom Armado. à Arrábida. Junto à praia de Miramar. 1928 (parente do arquitecto autor da Clínica Heliântea de Francelos). ou ainda em marquises lisboetas na Ajuda e em bow-windows de Oeiras. em Santos. de 1 9 1 4 . há ainda que referir uma construção. ou. os casos do Cinema Tivoli. de 1926. embora de modo «discreto» . embora de solução clássica na fachada (interior demolido)12. onde uma utilização de betão na varanda lateral surge escamoteada pelo tratamento «clássico». ou ainda da Casa da Carris.modernistas. como se vê nas varandas do palacete Sotomayor da Figueira da Foz. como sucedia nos Armazéns Nascimento. Jorge Coutinho. ou em alguns alpendres de Ponte de Sor (Hospital de Vaz Monteiro). Mas o que melhor iria caracterizar esta fase encontra-se representado nas vastas galenas moduladas com «pilares de chanfro» (caracteristicamente biselados nas arestas) que envolveram os inúmeros sanatórios construídos na época. Em 1927. Ferin. de Delfim de Oliveira Ferreira. Os anos 20 — a «arquitectura do betão» Data de 1 9 1 8 o primeiro Regulamento para o Emprego do Betom Armado.. 15).º 135. do Teatro Ginásio. f 924 (autor com obras construídas na época e colaborador da revista Arquitectura Portuguesa. mais modesta. cerca de 1927. que lhe é imposto. na Rua da Trindade. de Outubro de 1979.. e a que a deve ter antecedido alguns anos. uma série de obras destinadas à divulgação dos processos de cálculo foram surgindo. mas ainda com expressão algo académica. J. o novo material foi-se insinuando em obras cada vez mais urbanas e prestigiadas (já com a participação de arquitectos). . de 1923-25. em Lisboa. com as mesmas galerias sobreelevadas do terreno. igualmente. em Lisboa. n. Carlos Morgues e Vítor Poço de Melo. no Salão do Capitólio. de Cristino da Silva. embora simplificado. Fig. por João Antunes.. e paralelamente. ergueu-se a esplêndida Clínica Heliântea (hoje recuperada para outra instituição). ed. por Luísa Góis. na Parede. Foram. envolvida totalmente pelo mesmo tipo de galerias. começado em 1925 no Parque Mayer. que aproveitou uma velha fortificação. com artigos sobre o uso do betão). O betão surgiu então. com expressão dinâmica dos lances de escadas na fachada. totalmente construído em betão. e que se situa nas imediações. por Jorge Segurado. em livros e revistas da especialidade. no Porto.

dos «gaioleiros». Fig. de 1939. em Lisboa. Mais tardio. os tradicionais armazéns de ferro e tijolo começavam a dar lugar aos de betão. Ao mesmo tempo continuavam os ensaios experimentais de aplicações inovadoras. o edifício em Santa Apolónia foi da autoria de João Jorge Coutinho.ferroviária. . utilizando o sistema Monnoyer. como na construção da chaminé. As grandes instalações portuárias e industriais começavam também a aplicação sistemática das novas estruturas: de modo ainda mesclado com o uso do ferro. mas já com interessante pátio interior de vários andares. ed. que praticamente suspendeu a sua actividade entre 1922 e 1926: foi a época terrível dos prédios de «areia e cal». Henrique). (bilhete-postal) A charneira de 1929-30 A acentuada crise económica e financeira do pós-guerra teve incidência directa na indústria da construção. no prosseguimento da obra de Ventura Terra). dentro de um «invólucro» de alvenaria tradicional. a grande torre prismática da Companhia Industrial Portuguesa. culminava com uma megastrutura em betão esta série de realizações (1929). demolida). ou na cobertura cupulada do santuário do monte de Santa Luzia. para produção do ácido sulfúrico na Póvoa de Santa Iria. entre 1927 e 1928. hoje em interessante relação com a Avenida do Infante D. um entre as estações fluviais de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos (demolido). No porto de Lisboa. com destaque para dois espaços edificados. um alpendre em Amarante desenhou em granito um mesmo formalismo construtivo (construção municipal. em Viana do Castelo (do conhecido João Jorge Coutinho. nas séries de pavilhões do vasto complexo naval do Alfeite (Almada). outro em Santa Apolónia (ao lado da estação. nas instalações de Abel Pereira da Fonseca. autor de alguns dos estudos teóricos já referidos (uma obra que apresenta os característicos pilares de chanfro no interior e uma ousada consola em betão na fachada). 15 Francelos — antiga Clinica Heliântea Fig. a Marvila. No final da década. com 35 m de altura (Fábrica de Cerveja Estrela. 16 Outão — galenas do Sanatório: s. ao Campo Pequeno. dos desmoronamentos. perto da Casa das Lerias).

na província). na Avenida de Barbosa du Bocage. finalmente. no mercado o cimento nacional.. Na obra referida sobre os construtores civis tomarenses. Vejamos o testemunho. «normalmente empregada nas construções de Lisboa»14. coberturas e escadas. designado pelo vulgo como «pato-bravo». Em reforço desse afã. 3. ocasionalmente. bem como varandas. porta-voz de uma classe muito activa na época13: «Correspondendo às vistas largas que o sábio legislador previu. multiplicando-se as construções de prédios. do tosco de madeira e da pedra e cal. os construtores lançaram-se com denodo em novos empreendimentos. consentido ainda. com o importado do estrangeiro. só rectificado ou actualizado em 1943 — e entre as duas datas passar-se-ia quase um decénio fundamental na produção da arquitectura modernista em Portugal. pela Câmara Citação extraída da obra citada na nota 13. o uso da «gaiola» de madeira. de 1946. 1936.. a ultrapassada legislação de 1 9 1 8 seria substituída por novo Regulamento do Betão Armado (que fixava aliás a designação hoje mais corrente do material). Logo surgiria o primeiro Regulamento Geral da Construção Urbana para a Cidade de Lisboa — não por acaso em 1930 —. ed. Assim. teria sido a primeira obra «em cimento armado» de Lisboa: um prédio dentro da estilística das artes decorativas. e um novo «sopro» era assim insuflado na construção. de cujo conselho. arquitecto que já se consagrara na produção lisboeta desde o princípio do século. continuamente actualizado ao longo dos anos. isto é. Citação extraída do Regulamento Geral da Construção Urbana para a Cidade de Lisboa. Aquando da publicação do decreto já referido. operários e construções. surgiu.ª ed. sem favor. com projecto de Norte Júnior. Tomar. pela edificação em cimento armado. e ainda que sem uma preocupação explícita de resistência aos sismos. de Filius Populi (pseudónimo do construtor Manuel Vicente?). muito lucraram todos. Cinco anos depois (1935). segundo ele. se não constitui o 13 Citação da obra Os Construtores Civis Tomarenses e o Desenvolvimento da Construção Urbana em Lisboa. no qual se recomendava. sobre esta fase. embora. se foi introduzindo o novo material no espaço de habitar e com ele. . de um construtor civil. orientado pelos conhecimentos adquiridos em cursos superiores.Em 1928. por cópia. Datado precisamente de 1930. isto é. que rivalizava. Tipografia Municipal. Tal facto constituiu um grande passo para o progresso. Foi desta colaboração que se operou a mudança da antiga maneira de fazer. ainda hoje existente). de preferência o betão armado»15.» Esta mudança de condições veio permitir a rápida vulgarização do uso do betão nos prédios de habitação correntes (primeiro em Lisboa e depois. cozinhas e seus anexos. construtores. fossem «sempre construídos com materiais imputrescíveis e incombustíveis. que pavimentos de casas de banho. passo final da adopção da nova tecnologia construtiva. nova legislação de emergência (centrada no Decreto n. o autor destacava aquela que. este regulamento. 14 Municipal de Lisboa. sensivelmente mais caro. no quotidiano do País (explícitas eram então as preocupações e as ideias higienistas e de segurança contra fogos).. 15 só em 1 9 5 1 foi ultrapassado pelo decreto que instituiu o primeiro RGEU (base do actual regulamento). 18 (em plenas Avenidas Novas.° 15 289) protegia e isentava os construtores. veio ao seu encontro uma falange de bons engenheiros e arquitectos.

17 Lisboa — projecto de edifício para a Rua de Alexandre Braga.os 4-6: Arquivo Municipal . n.Fig.

como tantas vezes a arquitectura religiosa da época vai exigir. com a Rua do Dr. imitava os estilos revivalistas que se quisessem caso dos arcos «góticos» em betão. afinal. por exemplo.. em cujo projecto. A plasticidade extrema do betão a isso ajudava e tentava: o material «colava-se» com uma enorme facilidade às sugestões geométricas que o art déco propunha (denteados em vez da simples viga lisa em consola. pela tipologia. Assim sucedia. Por estes múltiplos caminhos. para «decorara melhor uma qualquer cobertura). Raul Tojal. admitia espessuras de laje mínimas até 8 cm. o qual o referido autor considera «grande amigo e proficiente conselheiro» dos construtores (juntamente com autores tão díspares como Pardal Monteiro. se notava a mesma hesitação e idênticos conceitos de aplicação do betão de modo fragmentado. apoiava «cientificamente» o trabalho. a Sete Rios. madeira. Vasco Regaleira e Jacinto Robalo). num retrógrado eclectismo de aplicação de materiais (na sua constituição entravam alvenaria ordinária. de 1936. no suporte de uma simples varanda usava pilares e vigas oblíquas com a expressão e as proporções que a madeira permitiria). n. betão. Nas obras lisboetas do início da década também se toma possível ver como era entendida a aplicação do novo material: com uso restrito em parte das lajes e por vezes com cintas pontuais sobre os vãos ou para suporte das (tímidas) consolas. caminhando para o domínio da totalidade dos diversos programas construtivos ao longo do meio século seguinte. a tecnologia da «pedra factícia» instalava-se em definitivo.º 7. Ao longo do mesmo período de generalização da nova tecnologia iam-se ensaiando inventivas soluções formais nos programas mais simples e domésticos. hoje. um cálculo sumário.primeiro exemplo de uso de betão no prédio de habitação corrente de «pato-bravo». o normalmente admissível são 15 cm). como na sede da empresa de construções Amadeu Gaudêncio. 17). . finalmente. Mesmo nos casos onde participavam técnicos conceituados e experimentalistas.. no prédio da esquina da Rua de António Granjo. Edmundo Tavares. quando. António Martins. de 1933 (fig. é também possível apreciar como uma fachada aparentemente tão geométrica e abstracta (logo tão «moderna») se traduzia. com a liberdade de cálculo e de execução que o Regulamento de 1 9 1 8 permitia (por exemplo. é de qualquer modo bem emblemático. em muitos casos resumido a um único desenho técnico. projecto de Cristino da Silva. na Rua de Alexandre Braga (também em Lisboa). pela estilística e até pelo projectista. sem esquecer o obviamente tradicional ferro nas traseiras). substituía as tecnologias mais elementares sem hesitar em as seguir «à letra» (por exemplo.

.

ainda o podemos observar transformado em pequenos volumes (o «tijolo de vidro» da luminosa e esguia torre do Cinearte. Lisboa). Da conjugação do vidro «armado» em ferro com a aplicação da electricidade nascia um novo «material». na Horta. Porto). Açores (fig. e inventava larga variedade de candeeiros de gosto geométrico. dentre eles. Lisboa. No interior. espelhando pela primeira vez. em Ponta Delgada. na Praça da Liberdade. frentes de lojas (a Águeda. à Avenida dos Aliados. cinzelado (em divisórias de cafés e em livrarias. com o auxílio de gases «prisioneiros» em invólucros de vidro tubulares: o flúor e o néon desenhavam . como nos esplêndidos painéis do Café Imperial. a Vitália. este período seria fértil em reinterpretações de outros. n. O vidro era ainda utilizado seguindo a técnica do vitral. Santarém).. tomando a noite um verdadeiro espectáculo arquitectónico. em dourado ou prateado. e Fig. e o miradouro da serra de Portalegre). luz Além dos novos materiais que estruturam os edifícios. Lisboa). à mais corrente e popular Drogaria Portugália Perfumaria. Avenida da Liberdade. De facto.os 34-37).™ 4-22.Os outros materiais — vidro. ou nos antigos cinemas de Macedo de Cavaleiros e de Santarém (fig. n. plástico. na Rua de Capelo e Ivens. salas de cinema (Teatro de Rosa Damasceno. a luz moldava tectos de escolas (átrio do Instituto Superior Técnico. 19). n. em simples guarda-ventos. usava-se também o vidro com inclusão de desenhos geométricos ou figurativos.° 126 (arquitecto Marques de Abreu?). Lisboa). farmácia portuense com uma simbólica cruz vermelha na fachada. na Horta. na Rua dos Clérigos. Praça de Gomes Teixeira. na Arrábida. no Largo de 5 de Outubro. ou com áreas coloridas [casos dos panos de vidro no refeitório da Fábrica de Cimentos do Outão. 18 Horta.° 9]. por assim dizer a luz. Lisboa). ou de exemplos na arquitectura doméstica. em espelho (em muitos interiores de lojas).. como na Livraria Lello & Irmão. fabricado em lâminas de corte industrial. os coroamentos de edifícios com torres ou «pilares de luz» serviam novas áreas de espectáculos (a entrada do Parque Mayer. em Santarém. que a translucidez do vidro martelado modulava e amaciava. no Porto. 18). em Viana do Castelo. permitindo desse modo generosas e inesperadas iluminações do espaço interior. na Rua de José Joaquim de Almeida. Faial — Sociedade Amor da Pátria do Amor da Pátria. os Armazéns Cunhas. Rua do Carmo. uma moderna atitude de consumo: desde a sofisticada loja Nova York. As novas e sofisticadas maneiras de trabalhar o vidro davam forte sentido visual ao letteríng de muitos estabelecimentos comerciais. átrios e mirantes até (Amor da Pátria. em Santos. n. em Oeiras. moduladas por finas retículas de perfis metálicos. o vidro iria desempenhar papel relevante. A luz redescobria também o sentido gráfico da arquitectura. valorizavam edifícios industriais e comerciais (a sede do Diário de Notícias. como no átrio da Escola Comercial e Industrial da Figueira da Foz (no Largo do Visconde da Marinha Grande). O vidro surgia aplicado de modos diversos: era o material das grandes superfícies transparentes. relacionados com o acabamento das construções e o revestimento das superfícies não portantes.

Rua de Passos Manuel. em Vila Nova de Gaia. em Coimbra (fig.armaduras em tectos (Cinearte. salão de festas do Parque Mayer. do Quelhas. da Parede. E surgiam mesmo materiais inteiramente novos: o plástico fazia a sua entrada no mundo da construção. aplicava-se em frentes de lojas. realçado pelos tubos cromados). o qual. tapetes metálicos (estes na entrada da Tobis. ou em mobiliário [Sanatório de Celas. pavões «animados» em fachadas (Armazéns Cunhas. no Lumiar. ou em estabelecimentos de pequenas cidades [na Póvoa de Varzim. Hotel de Caldelas). Lisboa). ia definindo ambientes e confortos. da Baixa lisboeta (Rua Nova do Almada. ou em Guimarães. no Porto). em tom negro. de igual modo. esquina das Ruas de José Falcão e do Barão do Corvo). 20 Póvoa de Varzim — loja Novo Mundo. lisas e de cores fortes. em vermelho-vivo (fig. 19 Santarém — interior do Teatro Rosa Damasceno Fig. puxadores. como na Instanta. como se vê ainda em muitas portas de prédios lisboetas. muitas vezes em criativa composição com chapas pintadas. Avenida de Mouzinho de Albuquerque. n. em placas rígidas.. os aglomerados serviam no revestimento de paredes. Para isso contribuía a aplicação dos perfis laminados e encurvados em lettering. com brilho. demolida em 1979-80]. ainda sob um aspecto algo «primitivo». frente ao Coliseu do Porto. baseada na abundante matéria-prima nacional. edifício do Turismo de Braga. tornando-se muito popular a corticite. Lisboa). em vermelho e negro. de secção circular. Outra aplicação muito corrente era o tubo de ferro pintado ou cromado. na Casa das Gravatas.º 5 . 20).. em Lisboa). 23)]. O ferro revelava-se também muito versátil como material de acabamento ou elemento decorativo. em portões (no Rádio Clube Português. na esquina da Praça do Toural com a Rua de Santo António. Sistemas mecânicos inovadores eram nesta época ensaiados: nos tapetes rolantes que faziam sensação no Capitólio. Café Arco Íris. portas. revestindo mobiliário e lambris. guardas de varandas e de escadas (Cinema de Oeiras. mapas do Portugal rodoviário e arco-íris (garagem Passos Manuel. em Lisboa. nos ascensores verticais de estrutura generosamente decorativa [como na sede do Diário Fig. Jardim Cinema. Foi também a época dos termolaminados e dos folheados de madeira. na Emissora Nacional.

reservando-se as pedrinhas de mosaico cerâmico para tornar festivas as frentes de prédios e moradias (Póvoa de Varzim). interiores de talhos (Matosinhos). padronizando-se quantas vezes em simples xadrez de preto e branco. . preenchiam corredores de sanatórios (na Quinta dos Vales).º 4 prédios de habitação (em Lamego. Rua de Fig. e em Santarém. Rua de João da Silva. mais geométricos e simplificados. quanto à pedra. que uma estética em mutação ajudava a generalizar. foyers de equipamentos públicos (respectivamente na loja do Diário de Notícias. e no Cinema de Oeiras). n. bolbosos ou lisos. Rua do Carmo. aplicava-se desde simples calçada «à portuguesa» (interior da Estação de Alcântara-Mar. Os azulejos molduravam átrios de escada em Fig. no Rossio lisboeta. 22)] e até apeadeiros ferroviários (do Quevedo. preenchiam fachadas de lojas. que cafés e hotéis se apressavam a adoptar (exemplos em Évora. ou na mais vulgarizada porta giratória. no antigo Café Arcada. no Café Central. sempre com a preocupação geometrista que a moda «moderna» impunha. na Rua de Almacave. simples oficinas de sapateiro (na Baixa pombalina). seriam nesta época objecto de uma «revolução de gosto». em jardins infantis de Coimbra. demolida) aos mármores luxuosos das fachadas comerciais (Livraria Lello & Irmão. na Covilhã). demolida (actual Ludance).° 32). 21 Francelos — ascensor da antiga Clínica Heliântea Guilherme de Azevedo n. demolido parcialmente (fig. seguindo novos modelos formais. na Malveira. Mosaicos. 22 Carcavelos — bilheteira do Vitória Cine. em Lisboa. volumes de bilheteiras [no antigo Vitória Cine.Fig. Drogaria Pedroso. Quanto aos materiais mais antigos e tradicionais. Mesmo os humildes mosaicos hidráulicos animavam com motivos neoplásticos e composições abstractas. de Carcavelos. na Avenida de José Baptista Antunes). 21)]. Coimbr de Notícias ou na Clínica Heliântea de Francelos (fig. no edifício do Talho e Salsicharia Moderna. 23 Celas/Coimbra — interior do Sanatório foto Rasteiro. em Setúbal). na Praça do Giraldo. creches.

O percurso estilístico A arte nova Estilo «artes decorativas» — O «art déco» Do primeiro «moderno» ao advento do nacionalismo .

assegurando a transição para uma nova linguagem arquitectónica. facto que não facilitava a compreensão ou aceitação das novas propostas (a não ser no plano menor das lojas populares ou da decoração cerâmica). pela invenção de um novo desenho que. cujo elemento fulcral é a intersecção do caule e do cálice»17. basicamente no quadro decorativo. 17 Ver nota 16. em esquemas fragmentados de preenchimento de fachadas. ou estilo liberty. iria ser tardia (emergindo cerca de 1905. Mas. como fenómeno de transição para o futuro movimento moderno dos anos 20. em cada cultura arquitectónica autónoma. enquanto. A arte nova portuguesa iria portanto afirmar-se mais no plano das superfícies e menos no das estruturas. onde tantas vezes sobressaiu um tema figurativo próprio. os diversos movimentos artísticos desempenharam um papel de vanguarda. «Modern style. pelos outros países. isto se nos referirmos apenas às «correntes da linha curva»16.A arte nova Este é o nome português para a renovação que as artes plásticas procuraram no início do século. as correntes análogas se iam extinguindo. art noveau e arte nova — respectivas situações» (artigo na revista Arquitectura.° 60. na Europa. tomasse de novo coerentes entre si novos materiais e velhas tradições construtivas. essas tentativas procuraram recusar toda a referência historicista. sob influência directa de tentativas congéneres que pela Europa fora se designaram por art nouveau. «totalitário». e certamente também devido à permanência no nosso país de uma forte cultura académica e tradicional. já que elas implicariam subversão de conceitos tão instituídos. n. a da «linha recta». 16 Conforme Manuel do Rio Carvalho. na procura do que poderia ter sido uma verdadeira «arte nova nacional». . a outra corrente. mas inconciliáveis com esse desejo). não deixando por isso de revelar originalidade. e terminando já na década de 20). e o seu «espírito» informaria ainda certas pesquisas pontuais que arquitectos portugueses tentaram sobretudo no domínio da habitação. Não se pode esquecer também que fora a pressão industrial que ditara nos outros países a necessidade de renovação artística e como essa pressão era tão diminuta por cá. despertar a atenção para a necessidade de mudança que a situação retrógrada do eclectismo oitocentista tomava essencial. a arte nova iria remeter-se a um plano secundário. Processo divergente e original. quando. «a flor virada (girassol). isto acontecia talvez pela preponderância entre nós da corrente do art nouveau francês. soube pelo menos. já que se articula com o advento do art déco em Portugal. será abordada no capítulo seguinte. um Horta ou um Mackintosh produziram formas de facto renovadoras. já de si entendido mais como outro estilo a juntar ao «caldeirão» do eclectismo do que como atitude de rotura. destinada a deixar bons exemplos pontuais e a fracassar como proposta generalizável. de 1957). independentemente de influências formais exógenas. se falhou o seu objectivo uniformizante (um Gaudi. em Portugal. modern style. a «nova arte» que se pretendia descobrir. revolucionando a concepção do projecto. Na arquitectura. Jugendstil. iria ter o seu ponto forte na aplicação da azulejaria (ou não procurasse inserir-se num contexto tradicional dentro da arte portuguesa).

ao Rossio. que anunciava a aproximação do art déco (fachadas de um talho em Santo Amaro. o azulejo reservava-se normalmente. o ex-líbris da nova corrente estética.º 11 37-39. . em alfaiatarias (a Paris. em restaurantes. já demolido) e outros pela província. a azulejaria deste período ocupou muitas paredes dos acessos e das caixas de escada das habitações. n. relacionado com a maior geometrização das decorações e das formas. em Portugal. na rua principal do povoado). nas fachadas. caso da Mealhada (também com azulejos na fachada). os Fig. para situações de revestimento pontual ou parcial (sendo excepção o prédio de dois pisos na Avenida do Almirante Reis. 24)]. da Rua da Conceição lisboeta). esta corrente artística iria pelo contrário. João da Câmara. O azulejo. que espelhavam a participação e o interesse da classe média e mesmo da pequena burguesia num novo quadro mundano.°74. ainda inseríveis neste tema. como sucedia também com uma Joalharia da Batalha. também demolidas ou desfiguradas. na Bruxelas de Vítor Horta). com emprego de grande diversidade de padrões e de técnicas (em relevo ou pintados — os mais frequentes —. no Porto (fig. ao contrário do sucedido no século XIX. em lojas «de cintas e espartilhos» [a preciosa Madame Garcia (fig. como a do nascente animatógrafo.A moda e as lojas Ligada na Europa a uma ideologia do progresso. de 1908. finalmente. ou ainda nas Brasileiras do Porto e de Lisboa. «alma» da arte nova portuguesa Continuando a tradição oitocentista do revestimento de fachadas e de átrios no prédio de andares urbano. notável porque completamente revestido no 1. na esquina com a Praça de D. em diversas funções: umas. inovadoras. de novo pela província (a Barateira de Ovar. acusavam já uma transição para outro quadro estilístico. centros de convívio por excelência. em Lisboa. Rua de Santa Catarina/Rua do 31 de Janeiro Fig. da Baixa). em retrosarias (a Bijou. na Rua dos Lusíadas. que do art nouveau. n. urbano e de cariz conservador. que teria. excepcionalmente. reflectir-se em estabelecimentos comerciais. com muitos exemplos em Lisboa (um deles com azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro na fachada na Rua da Graça. Avenida do Almirante Reis. mas. a arte nova foi atitude estética dominante igualmente em lojas «da moda» e de modas. em 1908 [talvez mais próxima. 25)]. A arte nova afirmou-se.° andar com padrões pintados). outras. 24 Lisboa — antiga loja de cintas e espartilhos Madame Garcia. 25 Porto — Joalharia Reis Filhos. Com originalidade. aos Anjos. cafés e botequins. Outras lojas. com a fachada da Rua do Arco de Bandeira. como as padarias (ligadas à «democratização do pão» encetada pela República). da estética do Jugendstil. e ainda em outros estabelecimentos. deste modo. com especial desenvolvimento neste período por razões sociais. n. ou de tipo industrial e com estampilhados — os mais raros). como a desaparecida Cervejaria Jansen. operária e «de esquerda» (veja-se a Maison du Peuple. ambas em Lisboa). e dos antigos Telefones do Rossio. ou na série de estabelecimentos das ruas secundárias da Baixa alfacinha (reforçando o sentido popular da utilização desta estética «ondulante").

.

.

como as da Viúva Lamego. n.° 34. em Tondela (num palacete do centro). na discreta. Sacavém. eram mais correntes as aplicações azulejadas restritas às cimalhas dos prédios de habitação (com exemplos praticamente por todas as cidades. e. na Rua de Joaquim dos Santos n. n.° 2. Em geral. Destes últimos encontram-se vários casos.° 24. e o frontão da Vila Fig. o conjunto azul e branco assinado «Pinto». que tudo pretendia recriar (ao nível das superfícies. do arquitecto Álvaro Machado. em Ílhavo (na estrada de saída para Aveiro. do Algarve ao Minho). em Sacavém. ou nos padrões em relevo de algumas fachadas: a da já referida padaria na Rua da Graça e de uma garagem à Estefânia (Rua de Ponta Delgada).° 23) . n. Existem muitos exemplos. 27)]. como na já mencionada loja Nova York.° 155). quase sempre utilizando a cerâmica decorativa. combinada com encurvamentos das cantarias nas guarnições dos vãos. um . n. no Cartaxo (Rua de Luís de Camões. os chamados «brasileiros». em fachadas de prédios com carácter urbano e em regiões similares encontram-se também soluções originais. em Cantanhede (a fachada da Sapataria Edmundo. Rua das Flores e Rua do Maestro Lacerda. 27 Aveiro — fachada de azulejos peno do antigo Rossio. naturalmente. n.°1). entre outros: uma fachada no Rossio de Aveiro [com revestimento integral de azulejo (fig. São exemplos. ou mesmo em Lisboa (a casa do visconde de Sacavém. De realçar foram sobretudo as intervenções de Rafael Bordalo Pinheiro e da sua Fábrica das Caldas da Rainha. 26 Fachada do edifício na Fuzeta. rua principal Ramos Simões.os 70-78. visíveis. de material importado. na Rua do Sacramento à Lapa. n. n. com arcos envolvendo várias janelas. a Vila Ralph. dentre eles. Casas. situações. no Monte Estoril. Lusitânia e Constância (sem esquecer a portuense das Devesas). António José de Almeida. em Sintra. ambientes e exotismos Fig. Do mesmo modo. contudo. a Vila Africana. aos frisos e faixas (na Vivenda Adelaide. mais ou menos impregnados da temática decorativa ondulante. entenda-se). decoração da tabacaria Mónaco. na Avenida das Acácias. Em Leiria (palacete e garagem no Largo de 5 de Outubro. um curioso frontão com motivos «egípcios» na Rua de Adriano Júlio Coelho. mais raramente.os 5-7 O palacete burguês não deixou. de que há exemplos: nos Estoris (no Alto de S. ou Pensão Continental. nas Rua das Rosas. Lisboa) e. houve. à Estefânia. João. de Ponta Delgada. Rua do Dr. é o mais paradigmático. muitas vezes no contexto da província. por exemplo. Estes azulejos eram quase sempre peças nacionais.° 55). de ser «contaminado» pela arte nova. esquina para o jardim dos Passarinhos. de 1897-1900). de Jorge Colaço). em Lisboa. n. surgiram também exemplos relacionados com esta atitude de «procura do exótico». n.De destacar aqui as principais fábricas ou oficinas de produção de azulejos. ou simplesmente com uma procura de proporção «esguia» nas aberturas. periféricas. e na Rua das Janelas Verdes. na Póvoa de Varzim (num edifício de habitação no centro). aos painéis. sobretudo ao longo do centro litoral. mas humorada. Rua de João Mendonça. aqui relacionado por vezes com iniciativas dos emigrantes enriquecidos e regressados. característica desta estética. no Rossio.° 11.

os «espaços totais» da Casa Horta ou de obras de Gaudi. 19 18 Fig. 19 .prédio em Espinho (do Sporting Club. em Lisboa. Lisboa e arredores». Rua de João Mendonça 15. «Estremadura. 30 Lisboa — pátio da Cooperativa Militar. o Café Águia de Ouro. materiais e interiores Outros materiais sofreram a influência da «nova maneira». de 1907 (fig. 29). espécie de «colagem» de variadas cerâmicas das Caldas . que a entende como «documento duma aberração do gosto. chegaram a criar verdadeiros «ambientes globais». no Rossio de Estremoz: foto pertencente ao proprietário do Café Águia d'Ouro Fig. «Generalidades. excepcionalmente e de modo algo provinciano. E ainda. cf.os 24-26 Pormenores. Fundação Calouste Gulbenkian. eclécticas. lembrando. n. como sucede no átrio de outro prédio aveirense. que surgiu. da qual se diz que cada janela era diferente para simbolizar os amores tidos em diferentes varandas do mundo pelo seu viajado autor. com azulejos Fonte Nova. Alentejo e Algarve». na Rua 8). 19. Esta casa vem referida no Guia de Portugal. 28)]. 29 Estremoz — edifício conhecido como Casa das Varandas.. do ponto de vista de uma originalidade de interpretação. em Estremoz (fig. foi no plano de uma extravagância que a arte nova. 1924. e no Porto. roçando mesmo o kitsch e quase o surreal. 1927. descontextualizada das razões da sua génese europeia. nomeadamente o ferro. E que. importada para Portugal como fenómeno de moda. 28 Aveiro — átrio de habitação perto do antigo Rossio. caixilharias. os Fig. Mas os exemplos mais interessantes. outros no Cartaxo (na Rua Batalhós. Gulbenkian. vol. em Lisboa. assinados por Luís Pinto. em casos mais expressivos de uma leitura local. 17. II. Fundação Calouste Em Guia de Portugal. sob diversas formas: como portões em frentes de habitações (na Avenida da República. I. n. na Rua da Alegria). de modo mais vernáculo e sincero. em 18 Conforme Guia de Portugal. e a da Casa das Varandas. cf ed. vol.. vidros e estuques se interligaram por forma a constituírem um conjunto impressivo e coeso [no Rossio. afinal. ed. onde mobiliário. 87. Rua de São José. curvilíneo. foi aceite e portanto entendida entre nós. que o proprietário teve a pretensão extravagante de fazer mostruário de janelas de todos os estilos» . 41 e 54). mas muito bem articuladas com o sóbrio volume construído. já referida. se poderiam incluir duas situações: a da casa dos viscondes de Sacavém.

n. em Lisboa. no Largo da Misericórdia. Rua de Peixoto Correia. A madeira apareceu em funções e formas idênticas às do ferro. Largo da Misericórdia. 30)]. em Lisboa).° 90). já que ao nível da estrutura. na Rua de Soares dos Reis. junto à ponte). e no ascensor do Palace Hotel da Cúria). Rua de Garcia Peres) e em cimalhas (em Évora. encontra-se no pátio da Cooperativa Militar [à Rua de São José. simples e utilitárias. no desenho ondulante de caixilhos de janelas (Figueira da Foz. ou através de elementos animalistas ou vegetalistas (os gafanhotos como definição formal no candeeiro do átrio de Aveiro antes referido. n. No Sul. Rua de Alexandre Herculano. as texturas nos armários da casa Madame Garcia. n. em Lisboa).° 12. na Chamusca.Fig. Mas um dos exemplos mais completos da aplicação do ferro.° 245.° 7). no remate de coberturas sanqueadas de chalé (em Sesimbra. 31 Lisboa — Garage Parisiense (demolida): foto do Arquivo Municipal elementos em consola (sobre a porta do Clube Agrícola. na Rua do Almirante Reis. os estuques aplicam as curvas arte nova em frontões (em Setúbal. na Rua dos Heróis da Grande Guerra. Fábricas e garagens Estas funções. junto à Praça da República. num prédio da Rua da Praia da Fonte. relacionando os temas da arquitectura do ferro com os da arte nova. n.os 66-68. nas Caldas da Rainha. em Lisboa). de portas (no Alto de Santo Amaro. e numa mansarda em Torre de Ucanha. n. Nos espaços interiores foi surgindo um «novo ambiente». n. e na entrada do antigo Hospital do Conde de Sucena. em Águeda). n. ou ainda em outras formas (como numa mansarda em Alcobaça.os 24-26 (fig.° 56). em guardas de varanda (em Pombal. definido por figurações do progresso (como os automóveis representados nos vitrais da Garagem Auto-Palace. junto ao jardim. onde ondulantes vigas metálicas se conjugam equilibradamente com a forma oval do espaço. em Devesas-Gaia. ajudaram a articular mais directa e correntemente o uso do ferro com a definição dos espaços — não se deixando . no suporte do quiosque do Largo da Estrela lisboeta.

ed. no Largo do Conde Barão.por isso de recorrer. modernizada. n. a antiga Companhia Nacional de Moagem. pormenor Conforme análise de Nuno Portas em «Raul Lino — uma interpretação critica da sua obra de arquitecto e de doutrinador». Também Álvaro Machado. as limitações do desenvolvimento industrial do País na conjuntura da época. não evita também as citações ao Jugendstil. 1912) parecem marcar os limites temporais da sua pesquisa de sentido modernizante. epidérmica em duplo sentido (como linguagem «importada» e como linguagem «de superfícies»). de 1924). n. isso resultou no mais importante contributo para o que falhadamente poderia ter sido o ponto de partida para a definição de uma arte nova de raiz lusa. concebidas com uma mais livre articulação entre si) e a mesma referência aos padrões decorativos da arte nova europeia que Raul Lino ensaiara. 32 Estoril — Casa Uma arte nova portuguesa? Afastados deliberadamente desta produção mais acrítica e seguidora das modas. de tradição islâmica. a Casa Monsalvat. Raul Lino. apesar de tudo. 20 Monsalvat. A escassez dos exemplos atesta. na Casa José de Lacerda. ao uso do azulejo. na composição mais elaborada das caixilharias dos vãos (em Lisboa podem referir-se: o edifício na Avenida de 24 de Julho. in revista Colóquio. de 1906. ou a tentativa de prefabricar materiais (a telha mecânica do Cipreste). tentando articular essa tradição. porém.os 13-19. aplicou o conceito de pátio e utilizou os materiais do Sul. ou na referida Auto-Palace. como noutras tipologias. 1970. Tal sucedeu na desaparecida Garage Parisiense (fig. arquitecto praticante do modo neo-românico. a Campo de Ourique. em articulação com as fachadas. sem deixar de ter como objectivo primordial a criação de um ambiente global e único (um «espírito próprio» em cada casa. com implantações pré-organicistas. uma «fuga para a frente». na Avenida de 24 de Julho. de 1910. do Estoril. aplicando-se quase apenas ao estudo de casas unifamiliares20. Fig. e a antiga Fábrica Vulcano. pela articulação entre as suas partes e com o sítio). reservou-se para a cerâmica.os 152-156. e a construção da casa própria (Casa do Cipreste. usando de maior liberdade na composição dos volumes (as massas «pesadas e maciças». estruturantes. nos terrenos ideais dos Estoris e de Sintra. alguns autores procuraram outros caminhos. características do românico. mais tradicional no emprego dos materiais. esquina com a Rua do Tenente Valadim. A colaboração na Casa Roque Gameiro. dentro de uma pesquisa de tipologias domésticas. nelas. mas. construída. traduzidas aqui na pouca arquitectura. de 1910. características que o enquadram parcialmente na arte nova internacional. Em fábricas ou armazéns surgiram também os elementos metálicos. em 1898. Lino desenvolveu uma actividade por de mais breve no tempo — cerca de quinze anos dos seus primeiros trabalhos «marroquinos» — e restritiva no programa. 32). . Fundação Calouste Gulbenkian. que. procurou. 31). a fachada. enquanto toda a estrutura de suporte interna exibe o ferro nas habituais soluções curvas. de 1901 (fig.

fig. n.º 21 . 33 Lisboa — prédio na Rua aos Navegantes.

as decorações em massa iam pouco a pouco substituindo todos os materiais mais nobres na fachada e acentuava-se a tendência para rarefazer todos os temas e volumes decorativos. já em 1921. ou as volumetrias feitas de curvas suaves. 33) — que recorda o seu edifício da Avenida da República n. definiu em edifícios públicos e em moradias uma «arquitectura da simplicidade». mas maciças. na Avenida da Liberdade. por Norte Júnior) (fig. entendidos como recuperáveis para as novas construções. como no prédio de esquina da Rua Augusta.° 26. já em plena crise da indústria da construção. ou entre cada dois imóveis encostados empena a empena). Comparando projectos de duas obras lisboetas. n. n.° 2 1 . Ventura Terra e o seu continuador Miguel Nogueira. embora muito ligados à escola francesa. pela via da simplificação decorativa e volumétrica. ou no Prémio Valmor de 1 9 1 5 . Fig. Como se os objectos construídos quisessem ser e aparentar aquilo que as limitações económicas e a irreversível evolução do gosto já impediam. de procura de uma nova arte (que não somente «arte nova») na arquitectura portuguesa do primeiro quartel do século. do prédio na Rua dos Navegantes n. 34 Lisboa — projecto de palacete da Avenida de 5 de Outubro. por Miguel Nogueira (fig. onde o ornamento moderno se soube conjugar com uma grande pureza do desenho e uma compreensão regional dos elementos vernaculares.os 206-218 (arquitecto Norte Júnior). ainda existente). o alçado de um palacete da Avenida dos Defensores de Chaves (n. a arte nova lisboeta foi-se vulgarizando no prédio corrente de habitação. no início dos anos 20. do arquitecto J. 35) Fig. desenhos sucintos e estereotipados dos pormenores construtivos esclarecem bem a simplificação que predominava. Ferreira da Costa. 35 Lisboa — projecto de palacete na Avenida dos Defensores de Chaves. e.Korrodi. Estas foram pois as tentativas marcantes.° 57. Este tipo de fachada «decorativamente pobre» associou-se normalmente a uma planta interior de excessiva profundidade. n. 1909. com quartos sem ventilação adequada (recorria-se ao tradicional saguão.os 209-211: Arquivo Municipal Vulgarização e rarefacção da arte nova — transição para o «art déco» Enraizada cada vez mais como sistema decorativo e superficial. C. já referida a propósito do uso do betão armado (os Armazéns Nascimento. no «miolo» do edifício. de Terra. mesclada (e recuperada) pelo eclectismo dominante desde Oitocentos. cada vez mais fragmentados e isolados na empobrecida frente do edifício. de 1917. de 1903. n. com partidos de composição originais. e num contexto mais cosmopolita.° 23 (Prémio Valmor de 1913) e tem o equivalente numa obra de Marques da Silva. Finalmente. para a Rua da Betesga (o Hotel Internacional. fixado em Portugal e praticante em Leiria. uma forma de «arte nova lisboeta» que se traduziu em construções despojadas. n.o 26: Arquivo Municipal . no Porto. de 1914).os 284-286. São exemplos desta originalidade as assimetrias da fachada do edifício na Rua de Alexandre Herculano. se nos primeiros anos desta «mistura» se exibia ainda com bons materiais e acabamentos. desgarradas embora. conseguiram também.

.

.

paralelamente. mas mais rarefeita e pobre: a arquitectura dos equipamentos. Sítio da Nazaré à Garagem Avenida.° 36. . a cor a sugerir o claro-escuro. no Sítio da Nazaré (fig. ou ao cinema Salão Portugal. n. 34). 36). n. a linha recta a anular as curvas — era o chamado estilo art déco a entrar na arquitectura portuguesa. em Coimbra (Avenida de Fernão de Magalhães). dos anos de 1920 a 1930. o abandono de muitos «exotismos» decorativos. Fig. aparentada com a arte nova. Na província e nos bairros periféricos das cidades maiores foi-se aplicando uma mesma «arquitectura de estuques». de 1928).os 209-211. a textura tendia a substituir as volumetrias. Por esta via. com recorrência a um sentido mais «clássico» da composição. em Lisboa (Travessa da Memória. 36 Teatro Chaby. acompanhado (e apoiado construtivamente) do betão armado. pode avaliar-se bem a diferença e sentir a evolução sofrida ao longo desta década na ideia de «estilo»: por um lado. no bairro da Ajuda. modernizar. simplificar. era também a estilística a aliar-se à técnica para um mesmo fim: embaratecer. por Pardal Monteiro) (fig. é bem exemplificativa do fenómeno: do Teatro Chaby.e o de outro imóvel de 1929 (palacete na Avenida de Cinco de Outubro. numa palavra.

.

º 132. no dizer de Bruno Zevi24. Lisboa. «tinham descoberto um novo interesse pelas formas elementares da construção e. Todo o processo se desenvolveu em simultâneo com as outras «artes novas» e durou até às vésperas da primeira guerra mundial. estruturais. Lisboa. Arcádia. da sua planificação nas superfícies construtivas. através da simplificação e geometrização desse decorativo. a da secessão vienense e a Deutscher Werkbund. a súbita e múltipla ocorrência de manifestos e de ideários ultravanguardistas no campo das artes plásticas. por Bruno Zevi. Hoffmann. Ao contrário das linguagens curvilíneas. a que só Adolf Loos. 21 22 Conforme Manuel do Rio Carvalho. Behrens ou Olbrich. vai escapar totalmente). ed. E as artes decorativas desempenharam um papel fulcral nesta nova atitude. em baixos-relevos. Barcelona. por outro lado. opostas às correntes da «linha curva» desenvolveram-se. Depois foi «a explosão dos ismos». que cedo chegaram a um «beco sem saída» em termos de pesquisa para atingir uma nova e moderna linguagem arquitectónica. 23 Moderna. portanto. caso extremo desta escola. pois «a estrutura formal da sua linguagem vai impor-se além-fronteiras e. abandonar o uso de elementos decorativos (herança da prática arquitectónica do século anterior. Gustavo Gili.Estilo «artes decorativas» — o «art déco» Como se disse antes. . Este processo foi decisivo contra um eclectismo passadista. nomeadamente da França. no artigo atrás citado (ver nota 16). interessados no seu estudo e nos problemas assim colocados. básica também para a evolução da arquitectura. influenciar largamente as arquitecturas e artes decorativas da Europa ocidental. que pretendiam criar avant la lettre uma arte totalmente desvinculada do passado. 1974. pois elas são cada vez mais visíveis e claras»23. Porquê este diferente destino? E que Otto Wagner. 1970. E aqui surge a preferência por materiais como o mosaico cerâmico. Destacaram-se entre elas. que permitem mais facilmente transformar os valores volumétricos em superfícies. tendências artísticas «de linha recta»21. sobretudo. sobretudo nos países germânicos. Um caminho importante é assim aberto: cada vez mais é possível pôr em causa os elementos construtivos e as suas relações. 24 Em História da Arquitectura Moderna. de Março de 1979: «Para o estudo No artigo citado na nota 22 e baseado nas análises de Leonardo Benévolo em Historia de Ia Arquitectura da arquitectura modernista em Portugal — I». com introdução portuguesa de Nuno Portas. que encobria com abundante decoração as estruturas e os volumes básicos da obra. necessariamente. No texto do autor publicado na revista Arquitectura. não podendo. o vitral ou o próprio estuque. os arquitectos germânicos protagonistas das tendências geometrizantes. l. as correntes germânicas iriam ser raiz para futuras experiências. ou seja. aqui provavelmente bebeu a arquitectura das «artes decorativas» em Portugal as suas mais directas influências»22. evidenciar a modernidade das estruturas e das formas. vol. esgotadas as inovações do caminho proposto por Horta. que se via condenado e desprezado como fonte de todos os males sofridos pela arquitectura. ed. em cor ou em luz. n. vão dar um papel diferente a esse decorativo: o de evidenciar as relações volumétricas.

a 25 Fig. país por tradição geográfica e culturalmente congregador de experiências alheias. Junho de 1929 Ironizando a terminologia que Charles Jencks utiliza na sua análise ao post-modernismo (radical-eclecticism). um outro exibia intenções bem mais ousadas. que ocorre pelos anos 1920 e 1930. Em Portugal já se referiu que o propriamente chamado «modernismo arquitectural» se afirmou com o período de vulgarização do emprego do betão armado. a qual deu os primeiros sinais nos inícios da década de 1920 (quando no seu apogeu europeu) e foi rareando por volta de 1935. que comprova a importância destas no campo da construção e o papel decisivo da intervenção francesa). mas. novo.A génese Foi o pós-primeira guerra mundial que finalmente inventou a chamada arquitectura art déco (abreviatura da expressão francesa art décoratif. revista A Arquitectura Portuguesa. a seu lado. branca e purista. A primeira foi. tal sucedeu pela hábil mistura que o art déco soube ensaiar das ansiedades vanguardistas expressas durante a guerra (ainda só compreensíveis e praticáveis por uma elite cultural) com as já então veteranas lições dadas pelas obras austríacas e alemãs dos anos 10. também ele. ainda essencialmente decorativa e trandicionalizante na expressão construtiva. O art déco foi assim um processo artístico dos «anos loucos» de 1920-30. que designaremos por «modernismo radical»25 e que. que se pode apelidar de «estilo artes decorativas». mas. ainda em 1 9 2 1 . recorrendo a um desenho e a uma temática renovadoras) e através do qual se caldearam pouco a pouco os valores modernos que iam sendo propostos por uma Bauhaus ou por um Le Corbusier. mas também em parte sequenciais: uma. Falta explicitar que esse modernismo se organizou segundo duas tendências estilísticas. criação de Le Corbusier. nesta época. e uma outra. afirmando-se pelos anos 25. em Portugal? Nas publicações especializadas. A França. seria o campo onde frutificariam caminhos tão dispersos. adoptada pela revista Arquitectura Portuguesa e contida na expressão «arquitectura portuguesa moderna» que encabeçava a secção referente a um projecto de palacete com todos os «tiques» da arte nova tardia. E não é por acaso que na Exposition des Arts Décoratifs. uma série de pavilhões comerciais vulgarizavam a mensagem secessionista de vinte anos antes. no fundo. ao mesmo tempo. com conotação simultaneamente algo conservadora e modernizante (apelando sincreticamente a valores de composição ou de monumentalidade tradicionalista. E o que era ou se entendia por «moderno». . até ao dealbar da década de 1940. em 1925. Lisboa. a palavra começou a aparecer por 1 9 2 1 . se prolongou até mais tarde. parisiense. ainda decorados e policromos — enquanto. 38 Projecto para um pequeno hotel-pensão com o 2° andar suspenso: ed. tão convergentes na intenção: a de criar uma nova arquitectura para um mundo que se queria. como o nome indica. vindas dos pensamentos radicais dos anos da guerra e a que se chamava esprit nouveau. ou seja. já a segunda foi crescentemente purista e. aportuguesando a designação da correspondente corrente gerada na Europa central (que transitou do campo germânico para o francófono). perseguindo o «moderno». parcialmente sobrepostas no tempo. acentuadora das linhas horizontalizantes na obra. Mas logo num número seguinte.

de sentido ainda utópico (fig. refere-se. refere-se em números de 1925 e 1927. em números onde a palavra «moderno» se encontrava já vulgarizada. para falar já de projectos expressionistas alemães (de Mendelsohn). em 1929. mudando para projectos bem mais concretos. com beiral e floreiras). exprimindo a clara hesitação entre modelos internacionalistas e autóctones da época (e referida aqui a uma moradia também com elementos arte nova. na mesma designação («arquitectura moderna»). no mesmo estilo. de Silva Júnior. mas mais «ruralizada».mesma secção resvalava para o título «arquitectura nacional modernizada». A ABC. a mesma Arquitectura Portuguesa. . inesperadamente. a casas de volumes puristas (com desenho algo tosco. por volta de 1933. respectivamente. projecto «de engenheiro») e a obras de betão armado e superfícies art déco. 38). revista de actualidades e novidades. como o «hotel-pensão com o segundo andar suspenso». à «arquitectura moderna» e à «arquitectura modernista». Finalmente.

estas formas exprimiam-se. até chegar ao purismo. 37)]. assistiu-se a urna planificação dos elementos decorativos nas superfícies da fachada. e em Alcobaça. na Praça da República. porém. A base desta estilística era ainda.o 9 (fig. aspecto que ajudou a suavizar os volumes e o claro-escuro e a realçar as linhas e as texturas. n. pelas sucessivas correntes artísticas da arte nova e das artes decorativas. 40). n.Fig. no contexto nacional. o formulário clássico. onde o ritmo da construção é dado pela interpretação modernizada da ordem jónica. mais desvinculadas do referente clássico. Como resultado natural desta tendência. exemplo também notável é o do conjunto do átrio da Estação do Cais do Sodré (fig. 40 Moradia cm Oeiras. reportando-se em simultâneo aos movimentos mais vanguardistas europeus.° 9 Assim se verifica como este conceito (o «moderno») transitou. até só as cores [exemplos em Oeiras. 1932) . Rua das Lamas/Rua de 10 de Agosto Fig. Rua de José Joaquim de Almeida. o verticalismo como expressão dominante das fachadas era também uma característica do art déco. 41 Lisboa — projecto de prédio para o Bairro das Colónias: Arquivo Municipal (Rua K. Caracterização Ao estilo artes decorativas assistia uma constante procura de geometrização e de simultânea simplificação das formas construtivas em geral. n. já que ainda se não abandonara de todo o modo convencional Praça Novas Nações. ao longo da década de 1920. de resto. que se «estilizava» e depurava. na Rua do Dr. Os pormenores decorativos deste tipo de fachadas exibem também claramente o desejo da obtenção de formas geométricas e lineares que se reflecte noutras estilizações florais e abstractas (como nos portões da Estação do Sul e Sueste do Terreiro do Paço). Assim o podemos apreciar em típicos prédios de habitação lisboetas (na Rua Nova de São Mamede) ou em equipamentos como a Igreja Evangélica Figueirense (fig. na continuidade do caminho subversor e irreverente que a arte nova tinha iniciado. José Joaquim de Almeida. aliás entendidos mais como exotismos de que como vias de futuro. Fig. 39). 39 Figueira da Foz — Igreja Evangélica Figueirense. assinado por Jacinto Robalo. Finalmente.os 15-17.

.

.

Loures. 43)].de construção (paredes de alvenaria. até situações onde a pilastra se «apagou». A tradução desse verticalismo na frente construída era. José Silveira. típico da produção lisboeta dos construtores civis tomarenses [o das Colónias. capitéis e moldura.os 15-17). 28 1977-78. 1932) decorativos (Avenida de António Augusto de Aguiar. que. com as pilastras respeitando a «ordem». como a pedra. As plantas interiores não acusam neste período significativa mudança em relação aos anos 20. Formas e materiais As fachadas iriam usar predominantemente os materiais pobres. dada sistematicamente pelas grandes pilastras estilizadas (exemplos no Mercado de São João do Estoril. . diversos exemplos nas Avenidas Novas. no Bairro Azul.os 8-13. hoje das Novas Nações (fig. se pode tipificar em desenhos-imagens28. continuando os saguões e os quartos sem ventilação. ou no prédio do Largo de Santana n. números pares 8 a 26. em Leiria). cromática e gráfica. n. n.° 104. Lisboa). no n. No conjunto criou-se deste modo um completo vocabulário de elementos superficiais «clássico-geométricos».° 35 da mesma rua. finalmente. e afastar as matérias de conotação mais nobre. e a isolar os agora escassos temas Fig. de Lisboa). de Maio de 1979: «Para o estudo da arquitectura modernista em Portugal — II». a casos mais inovadores. sendo possível uma leitura das diversas tipologias estilísticas em relação ao prolífero prédio urbano alfacinha26 Desde os exemplos mais próximos de um modelo classizante. n. n.° 133. portantes. numa análise detalhada para um dado «bairro». em evocações florais ou abstractas [de que são exemplo bons conjuntos em fachadas de Vila Franca de Xira.os 133-137. Rua da República. e. Também a cerâmica participava nesta valorização das superfícies. ainda que com expressão vertical. por isso. e na Rua de Serpa 26 27 Ensaiada no artigo referido na nota 22. onde as mesmas pilastras já eram interrompidas a meio da fachada. Assim se inventavam formas novas no concheado da base das varandas e no remate das cimalhas e platibandas (Alcobaça. por Virgínia Graça. Avenida Marginal. já que as inovações se passavam mais ao nível das tecnologias que dos programas. que começavam a predominar na fachada. Estas dominantes evoluíram ao longo da década de 30. Joaquim Candeias e José Seco. com descarga vertical de esforços) . na Rua de Santa Rita. à Cervejaria Portugália). para áreas marginais e reduzidas (os embasamentos). de alto a baixo da construção (Avenida de Rovisco Pais. bases de pilastras. 42 Lisboa — projecto de prédio para o Bairro das Colónias: Arquivo Municipal (Rua E.° 169 e n.° ano lectivo de n. Lisboa. como o estafe27 (procurando uma «arquitectura da ilusão»). assinado por Jacinto Robalo. no Bairro das Colónias (figs. Praça Novas Nações. nos frontões rectos e painéis que encimavam portas e fachadas (Buarcos. ou mesmo autonomizadas do anteriormente «obrigatório» remate superior no capitel [exemplos nos edifícios da Praça das Novas Nações. para coroamentos. trocada por superfícies lisas. na Rua de Almeida Garrett (fig. Carlos Câmara. A análise de materiais foi desenvolvida na sequência dos artigos referidos na nota 22: revista Arquitectura Conforme trabalho realizado na ESBAL — Departamento de Arquitectura — para o 3.o 1 2 1 . ou prédio na Avenida do Almirante Reis. no já referido prédio da Praça da República. Os primeiros. nos «pastosos» tectos estucados de átrios de acesso em prédios de andares. 45).os 60 e 98. n. com os tradicionais azulejos e os pequenos mosaicos vidrados. 41-42)].

Pinto, n.° 108]; os segundos, do mesmo modo, exemplificados em Peniche [Rua da Alegria, esquina com Travessa da Horta (fig. 44); Rua da Alegria, n.os 44-46] ou em Lisboa [na emblemática moradia da Avenida de 5 de Outubro n.o 209-211, por Pardal Monteiro, de 1926-29); curiosamente, há uma predominância destes materiais em zonas litorais e piscatórias, certamente pelo apelo à cor que exibem. Ligada a esta decoração estava naturalmente uma simbologia que privilegiava conceitos como o do «progresso» [as rodas dentadas no frontão da garagem AutoIndustrial, em Coimbra (fig. 46), ou as asas do «deus da velocidade» na frontaria da Estação do Cais do Sodré, em Lisboa], frequentemente relacionado com o advento dos transportes mecânicos. Doutro modo, herdando a tendência arte nova, a simbologia decorativa abordava o universo dos motivos vegetalistas ou animalistas, evocados de modo quase «panteísta» em capitéis das moradias (exemplo em Viseu, na Rua de Cândido dos Reis, construída para o comerciante Nuno da Sola por Rogério de Azevedo, cerca de 1930-32); ou, vista de modo mais ingénuo, nos quadros coloridos alusivos às vindimas apostos na fachada de um prédio em Arruda dos Vinhos (Rua de Luís de Camões, n.o 96); e ainda em inúmeras varandas de ferro de prédios e em vigas de betão [estas com curioso exemplo «concheado» na referida estação do Cais do Sodré (fig. 47)]. A inspiração naturalista marcou igualmente a produção do mobiliário doméstico e público (patente respectivamente numa casa de Marco de Canaveses, a Vila Amélia, no Largo do Mercado, de 193032; e no Palace Hotel da Cúria, nas suas escadas metálicas). Temas mais figurativos e tradicionais, roçando o pomposo, que a classe média em ascensão «adorava», surgiam, por exemplo, numa «excessiva» coroa de louros encimando um prédio de habitação na Figueira da Foz (Rua de Bernardo Lopes, do construtor Bernardo dos Santos, de 1936-37), ou nos azulejos agrinaldados de inúmeras caixas de escada lisboetas (Avenida de Barbosa du Bocage, n.º 18, por Norte Júnior, de 1930). Pouco depois difundia-se uma simbologia abstracta, em cerâmica de padrão degradé, policromo e linear (nas populares tascas da capital, nos tectos das drogarias de bairro, mas também no luxuoso Casino do Estoril dos anos 30). Difusão patente quer na decoração de varandas, portas, portões e janelas do prédio urbano, quer, recorrendo

Fig. 44
Peniche — fachada de edifício
na Rua da

ao estuque ou trabalhando o granito, em fachadas regionais de norte a sul do País. Os elementos construtivos, com forma piramidal ou em denteado escalonado, foram outra «obsessão» deste estilo, em tudo ansioso por reduzir à lógica elementar e purista das linhas horizontais e verticais o que antes se exprimia em oblíquas ou curvas. A chamada «fachada-frontão», com uma forte cimalha «em escada», foi talvez a consubstanciação mais total deste gosto: em equipamentos de pequena dimensão (antigo Vitória-Cine de Carcavelos, na Rua de João da Silva, n.o 4; antiga sede das CRGE em Oeiras, Rua do Conde de Ferreira, n.° 23), ou em armazéns e fábricas (em Matosinhos, as frentes da antiga Algarve Exportador, por António Varela, Praça de Passos Manuel, n.º 216). Onde a afirmação decorativa se resume, murtas vezes por economia, aos contornos das fachadas, estas assumem aquele tipo de remate (não deixando por vezes de abordar um exotismo «expressionista», contraditoriamente resolvido em ondulante perfil [exemplos na moradia de Carcavelos (fig. 49) e nos armazéns Sapec, do Bombarral, estrada para Lisboa]. Outras formas muito usadas nesta época foram os pequenos volumes piramidais que, em tijolo e reboco, encimando os edifícios, coroaram cada cunhal, pilastra ou vão da construção — necessidade de afirmar estes elementos visualmente, além da sua real importância, ou de inconscientemente evocar a perdida monumentalidade da arquitectura (julgava-se que para sempre) ou, ainda, reflexo do novo-riquismo e ostentação que uma classe média em ascensão queria traduzir «eternamente» na obra? De não esquecer também a imagem das pirâmides astecas, que a arqueologia meso-americana então colocava tão na moda, como provável inspiração internacional destas formas! [exemplos em Oeiras (fig. 48) e em Zambujal-Loures, Largo de António Sérgio, no prédio junto à cooperativa A Zambujalense]. Os denteados em muros (moradias de Santo Amaro de Oeiras), na moldura dos vãos (habitações em São Luís, perto do Cercal, e em Vila Nova de Foz Côa), ou até em simples remates de vigas (Sanatório de Celas, em Coimbra; interior do antigo Vitória-Cine, de Carcavelos), ou mesmo nas discretas «artes da marcenaria», nos

Alegria/Travessa da

Fig. 43
Lisboa — pormenores decorativos em edifícios no Bairro das Colónias: trabalho realizado para u cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL, por Virgínia Goes da Graça, Carlos Perry da Câmara, José Ivo da Silveira, Joaquim Candeias e José de Sousa Seco. Lisboa, 1977-78

Horta

Fig. 45
Vila Franca de Xira — cimalha de prédio com azulejos, Rua de Almeida Garrett

Fig. 46
Coimbra — Garagem Auto Industrial, na Avenida de Fernão de Magalhães, n.º 333

Fig. 47
Lisboa — estação ferroviária do Cais do Sodré, conjunto do átrio: foto Estúdio Mário Novais

Fig. 48
Oeiras — átrio de moradia, Rua do Dr. José Joaquim de Almeida, n.o 9

Marques da Mata. já o tentavam simular (Parede. projecto de Vasco Regaleira. Uma certa contradição entre a dominante vertical referida e as linhas mais modernas de marcação horizontal acentuou-se entretanto. n. tanto mais quanto o betão era gradualmente empregado em maior percentagem na obra. Rua de Cândido dos Reis. ainda não transformados num pano de vidro contínuo..Fig. Rua do Dr. de 1930.. Garagem Lys. em Oeiras. confirmam a difusão desta convicção decorativa. 49 Carcavelos — fachada de moradia (Vivenda Sagres). com as suas lajes a exigirem e gerarem linhas dominantemente horizontais: foi o caso de instalações industriais e garagens onde a transparência dos envidraçados ia traduzindo a carga cada vez mais pontual exercida nos pilares (Central Estrela.º 98). projecto de Hermínio Barros. Marques da Mata banquinhos de lojas (Farmácia Godinho. de 1933). na Rua da Palma. Lisboa. Ponte de Sor. habitações na Rua de José Carlos da Maia). A fenestração contínua prenunciava-se também nas sequências de vãos encostados ou justapostos. os quais. rua principal). (Carcavelos. . Rua do Dr. ou o caso ainda de moradias diversas onde grossas pilastras «lutavam» contra longas varandas alpendradas.

Fig. 50 Aveiro — quiosque no Parque Municipal .

A Holanda. encontravam o contraponto quase isolado do pintor-arquitecto Le Corbusier. todas estas tendências convergiam agora para pressupostos comuns de construção. confirmando a capacidade de integração cultural e a dinâmica das vanguardas artísticas da Europa central. pela via dialéctica das experiências do expressionismo e do racionalismo. propostos por Leonardo Benévolo na obra já citada Uma tentativa de classificação já foi esboçada pelo autor na série de artigos citados sobre a arquitectura Conforme José-Augusto França. Lisboa. Na Alemanha tinham sido assimiladas as propostas pré-modernas. Esta era urna questão cara à idêntica 29 Aceitamos os limites. de novos projectos. um esforço geracional de actualização cultural e sobretudo uma situação política novamente estável e apta para um arranque no campo da construção implicaram logo em 1929-30 um surto de construção de edifícios. O fundo real das razões do «moderno» escapava-nos (a necessidade de estandardização dos materiais para servir a premente reconstrução nas ruínas europeias. iniciadas pelo art déco. que a influência da arquitectura de Mallet-Stevens31. Na França. 1974. provindas da «secessão vienense». mais do que a de Le Corbusier. É difícil discernir com rigor quais os principais modelos da nova arquitectura que mais contribuíram para o seu lançamento entre nós30. 30 modernista em Portugal (na revista Arquitectura. Conhece-se a habitual ligação portuguesa à França. finalmente. Os seus núcleos polarizadores situavam-se no triângulo Alemanha-França-Holanda.Do primeiro «moderno» ao advento do nacionalismo O chamado «movimento moderno» na arquitectura formou-se e consolidou-se. austríaca e do Jugendstil. Lisboa. exposições e concursos públicos onde se aliavam construtores privados e obras públicas estatais. por melhor inserção na produção corrente da linguagem do primeiro daqueles autores. a braços com uma reconstrução do parque habitacional envelhecido ou afectado pela guerra. tinha bebido muito da lição americana de Frank Lloyd Wright. as tentativas de uma síntese divulgadora. Julho de 1980) 31 . Quase inesperadamente. mas algum gosto atávico (e compensador) pela novidade. naturalmente esquemáticos. o «descontexto» nacional em relação à Europa industrializada ditou uma absorção tardia destas descobertas. (ver nota 23). ou a afinação das novas tecnologias de obra que a concorrência industrial tornava inevitável). e sobretudo urna atitude algo superficial e ecléctica na sua aplicação e compreensão. de articulação com a exigência prática do processo social. Bertrand. n. ele próprio quase uma «escola» de princípios formais e espaciais. a qual soubera também ligar às pesquisas anglo-belgas do habitat e ao purismo volumétrico do movimento De Stijl. Génese em Portugal Como sucedeu ao longo de todo o anterior processo de influências. de valores estéticos. chegara-se à poderosa síntese metodológica e colectiva que foi a Bauhaus. tão precisos quanto abstractos.° 137. entre o pós-guerra e a data charneira de 192729. ed. e. em História da Arte em Portugal no Século XX. iria concretizar.

onde as composições à volta de torres prismáticas e abstractas.. galerias e transparências.produção nacional de prédios de habitação. quer pelas ligações com autores portugueses: Carlos Ramos. nas composições de equipamentos como o Liceu de Beja (por Cristino da Silva) ou a Casa da Moeda. Lisboa. dentro de um gosto médio de público. por vezes «moles» e de contornos oblíquos. no entanto. tão frequentes na época. 51 Lisboa — projecto de moradia na Avenida do México. saindo da aprendizagem com Ventura Terra e vindo a ser futuro mestre de Keil do Amaral. Influências alemãs e holandesas viam-se também em obras do Porto. quer pela sua dinâmica real. Por sua vez. na produção de Keil do Amaral (nos pequenos equipamentos para os parques de Lisboa). menos decifrável formalmente. como a Câmara de Hilversum (1928-30). de remate curvo (no Porto. além de obras belgas de prédios «à Cassiano» (entre 1937 e 1938). Pieter Oud em Hoek van Holland. a referir como arquitectura de hoje obras italianas puristas ou monumentalistas. na sua articulação assimétrica de volumes. articulando esquinas e volumes. os armazéns frigoríficos de Massarelos. As revistas de novidades.° 133). um entendimento dos valores urbanísticos da cidade-jardim holandesa dos anos 20 reflectiram-se muito.. em Lisboa (por Jorge Segurado). 1943. mimetizavam sem dúvida temas de J. n. Mas convém não descurar a importância da Alemanha concretamente neste período. em 193632. podendo no início de 1940 caracterizar uma «Lisboa moderna» com base em prédios de rendimento e no conjunto Técnico-Estatística. Um sentido de composição volumétrica (no encastramento dos corpos). onde Cassiano Branco recordava com outra imaginação as composições dinâmicas e os volumes cilíndricos do mestre francês. A Moderna Arquitectura Holandesa. com aproveitamento das coberturas para terraços ou jardins! Grandes espaços interiores 32 Edição «Cadernos Seara Nova».° 11: Arquivo Municipal Linhas dominantes Volumes puros e encastrados em criativa assimetria! Fim dos telhados. a revista Arquitectura Portuguesa continuava. cobrindo o nível térreo. uma escala discreta e «humana». e também em Aveiro. no edifício comercial da Avenida de Lourenço Peixinho. ou em situações de consolas horizontais de betão. . aliás.. e bolseiros de Belas-Artes como Cristino da Silva iriam trabalhar em França. sobretudo a sua empena lateral construída). a presença da Bauhaus existe. numa perspectiva ecléctica. Nos finais da década de 30. n. recordavam imagens do expressionismo alemão. trazendo ainda em meados dos anos 20 as inovadoras formas vistas em Paris. Keil do Amaral ligar-se-ia pouco depois à Holanda escrevendo aliás o único contributo teórico desse tempo sobre que modelos e que «metodologias» de arquitectura entender e seguir. E não serão o Éden-projecto (por Cassiano Branco. ou o Coliseu portuense (C Branco e outros) duas poderosas concretizações dos anseios do futurismo italiano? Mais diluída. A sua biblioteca profissional possuía também forte componente de títulos desta nação e ele próprio me referiu muitas vezes admiração por obras de Dudok. Fig. possuiu importante e muito consultada biblioteca divulgadora da «arquitectura moderna» com origem germânica.. foram também certamente contribuir para a divulgação das obras francesas.

ou mesmo num simples quiosque aveirense quase «mondriânico» (fig. Mas foi nos volumes torreados que encabeçam a composição de muitos edifícios que se afirmou uma maior «vontade de moderno». enfim. . numa humilde moradia em Benfica. quer na composição assimétrica das plantas (antigo Lactário Carmona. de 1936 (já demolida). em Chaves). 50). num CapitólioSalão de Festas de enormes vitrais móveis e permutável espaço interior (por Cristino da Silva). por Adelino Nunes. também. de 1935. já em 1925.livres de pilares. pelas vigas de descarga pontual. n. com extensos envidraçados exibindo a liberdade de desenho de fachadas. se inventava um novo dinamismo espacial. 51)]. Assim se propunham as revolucionárias premissas em Portugal. Lisboa (fig. talvez por em Portugal eles 33 Conforme os análogos princípios que Le Corbusier proclamava em 1926 e dos quais só os pilotis que «soltavam» o edifício do solo tardavam a encontrar expressão entre nós. libertas. prédio na Avenida do México. quer na estruturação axial daquelas. em volta de uma «rótula» [Correios do Estoril. feita de cilindros e cubos. da sua velha função de suportar a construção! Assim se queria manifestar a obra moderna33. Deste modo.° 11.

.

Cilíndricas e opacas. cortadas por palas em betão. ou envidraçadas e translúcidas. acontecia também nas fases anteriores). desenhado por Eduardo Figueiredo. 52)]. 53)]. n. mas não ainda totalmente moderna. 1938. ela própria simples de mais. numa moradia da Parede (Vivenda Amélia.. Avenida da República. 52 Lisboa — antigo cinema Cinearte. 53 Espinho — Piscina Solário Atlântico: ed. 1931-36). por Rodrigues Lima (fig. ou de novo transparentes (fachada do Capitólio). Onde o «modernismo radical» se distinguiu realmente do estilo «artes decorativas» foi na abolição «fachadista» de decorações que não fossem 34 Nos artigos do autor já citados (na revista Arquitectura. para poder conter tudo o que arquitectonicamente haveria a afirmar no conjunto. n.° 52.. são sempre um sinal de modernidade para o edifício que culminam. Lisboa. do Largo de Santos.° 2 [Lisboa. ou no Cine-Teatro Rosa Damasceno. assim surgem as torres. em continuidade com a construção de fases anteriores: ou seja. por Marques da Silva e Charles Siclis.° 13). foi modernista. pelo Eng. Torres prismáticas.º Mota Beirão. embora ensaiasse já parciais aplicações do betão (o que. mal arejada). ou na Piscina Solário Atlântico. 1939). Jardim de Santos terem de exprimir muitas vezes o «resumo» das intenções da obra. de Viseu. . por Jaime José Gomes. e no Cinearte. por restrição orçamental. encastradas e densas [no antigo Cine Rossio.Fig. de resto. A habitação Uma classificação tipológica dos principais tipos de fachada que o nosso «modernismo radical» engendrou em prédios de habitação foi já tentada31. Outubro de 1980). Espinho (bilhete-postal) Fig. estrada Carcavelos-Parede. ou na Moagem de Carcavelos (Avenida do Loureiro. angulosas. n. e aceitou a própria estrutura urbana tradicional de fachada-rua e de traseiras-logradouro. de realçar que esta arquitectura merece aqui precisamente este epíteto porque se assumiu convencional.º 138. n. n.° 32). de Santarém. num palacete portuense (Casa de Serralves. inicialmente para garagem. Papelaria e Livraria Sousa. de Espinho (fig. ainda decoradas (moradia em Algés. pois aceitou o lote urbano de planta corrente (profunda.

. seriamente projectados em alguns prédios. mais pobres. a dividir o prédio ao meio. apresentavam elementos volumétricos descontínuos. logo apareceram a esmo maus imitadores a usar — e a abusar — dessa liberdade arquitectural.. 54 e 55) que Duarte Pacheco ironizava em 1938: «Há prédios em Lisboa em que se repetem os motivos das construções com uma insistência que aflige. ou a imitações deles. Depois surgiram os balanços devidamente proporcionados. Apareceu. da visibilidade dos prédios vizinhos e das condições de habitabilidade dos edifícios. logo se generalizou a aplicação do mesmo estranho ornato a um sem-número de edificações. ed. o tipo de fachada mais característico do prédio lisboeta desta época foi o que soube «jogar» com elementos volumétricos contínuos. por exemplo. ou mesmo faixas salientes de cimento rebocado. varandas salientes encastrando em bow-windows.° 2. Sem dúvida. ou. no realce novo que soube dar a elementos como varandas. Este texto é revelador sem dúvida das «modas tipológicas» que nomeadamente Cassiano Branco despoletava na construção de Lisboa (é aos seus projectos. caixas de escada. que Pacheco se deve referir). muitas vezes procurando um efeito de simetria (figs. na 35 Na revista Arquitectos. cobrindo inteiramente os passeios das ruas que os marginam»35. n. 1938-39. bow-windows (afinal tratados como sucessores «decorativos» das anteriores formas vegetalistas). que acentuou a movimentada volumetria e as dominâncias verticais ou horizontais do desenho. Lisboa.. Há prédios construídos onde tais balanços atingem cerca de 2 m. uma espécie de vassoura com o cabo para baixo. Outras tipologias privilegiavam a marcação da caixa de escada através de um ou mais painéis de vidro na frente da construção. Sindicato Nacional dos Arquitectos. acentuando linhas horizontais da construção. com gravíssimo prejuízo da estética dos arruamentos. há tempos.abstractas (e mesmo estas eram raras). normalmente varandas isoladas. em claro-escuro. bem como do uso oportunista que este modernismo consentia por via do betão e da fachada. por tal forma que se converteu em norma de obter uma ampliação de terreno da construção.

amaciando remates e volumes (Cine Oeiras. por esta época. horizontais. como nos exemplos de Vila Real (volumes «soltos». ou de Loures (Rua da República. n. 57). aplicaram-se também com fluência em interiores. livremente apostas nas fachadas. na entrada de prédio no Largo de São João Baptista.º 98. As formas mais «moles».os 3-5-7). em portas de átrios (com formas sempre abstractas. n. estes casos são naturalmente mais correntes. de Bucelas (Rua do Marquês de Pombal. com faixas). mais interessantes. mais elementares em vilas e subúrbios (parcialmente embutidas em peças de madeira de desenho tradicional. em Leiria (Praça de Rodrigues Lobo. em chapa e perfis metálicos. como sucedia no Coliseu do Porto (as «bolachas» da torre). 57 Lisboa — porta de prédio no Bairro do Liceu de Maria Amália Vaz de Carvalho Aproximação do nacionalismo — relações com a arquitectura A passagem para a década de 40 assinalou contraditoriamente uma maior inovação tecnológica. edifício da Gordalina Cabeleireiro). ou. O reboco merecia também. 58 e 59). no prédio comercial da Rua de Serpa Pinto. como nos exemplos na Parede (a Vivenda Amélia. aparecendo o alçado posterior gradualmente integrado. um uso inventivo. isto para além das formas «soltas».º 17). estética e tecnicamente. 56 Covilhã — Mercado Municipal impossibilidade real de criarem esses volumes (como se de fenestrações contínuas se tratasse). saliente em faixas verticais.Fig. De facto. o prédio de habitação colectiva iria usar mais completamente o betão armado na sua estrutura. mas um . ou na combinação de umas e outras. n. guardas e corrimão cromado do balcão). a tradicional oposição formal entre traseira e fachada foi diminuindo. como em Palmeia. no conjunto da construção (figs. Na pormenorização abundavam. combinando círculos e rectângulos). 54 e 55)]. n. Fig. n. curvas.º 56. mais rarefeitos ainda.º 4. já referida) e em Lisboa [Avenida dos Defensores de Chaves. Na província. as composições geométricas decorativas. com faixas em simetria). mais ricas nas avenidas de Lisboa (fig. por Cassiano Branco (figs.

retrocesso estilístico. fruto do conservadorismo cultural em que mergulha a Europa nos fins da amedrontada década de 30. Fevereiro de 1944. 59 Lisboa — projecto de prédio na esquina da Rua do Padre António Vieira com a Rua Castilho: Arquivo Municipal 36 Na revista Arquitectura Portuguesa n. obtida por vezes pela aposição de simbologias figurativas de conotação pomposa ou oficial. Em novo contexto cultural. que assinalarão a entrada da arquitectura portuguesa numa «nova era» que ultrapassa o âmbito deste estudo e lhe define um limite preciso. visível nas fachadas dos prédios de rendimento (apesar de — ou paralelamente a — uma planta mais salubre e arejada. classizantes e regionalistas. antes proclamados e seguidos pelo movimento moderno. que tão bem souberam exprimir a estética modernista em muitos edifícios. sentiu-se também a mudança de gosto. pelo arquitecto Almeida Araújo. . Lisboa). foi frequente entre 1938 e 1940 a marcação por grossas colunas dos ritmos verticais nas fachadas — tendência que ressurgiu. acentuando o «peso» da construção [Mercado da Covilhã. Lisboa. «mascarará» ironicamente essa inovação. anacrónica). Avenida da Liberdade. como o tijolo vidrado ou o beiral aplicado de novo (Instituto de Socorros a Náufragos de Paço de Arcos.º 107. Interessa aqui referir a lenta «contaminação» que a tradição construtiva modernista foi então sofrendo. Fig. de cerca de 1942-43 (fig. No tratamento dos corpos torreados. na Avenida Marginal). ainda que dentro das premissas formais modernistas (como na fachada da sede do Diário de Notícias. 58 Lisboa — projecto de prédio na esquina da Rua do Padre António Vieira com a Rua Castilho: Arquivo Municipal Fig. com a aposição de materiais mais «pesados» ou texturados. fez ressurgir em Portugal conceitos historicistas. uma reacção que também foi internacional ao purismo e abstraccionismo. 56)]36. Afirmou-se nesta fase uma procura de monumentalidade.

instituições. utopias H era dos equipamentos Os autores .Da Monarquia à República Desenvolvimento urbano.

60)38. onde a arquitectura. Lisboa. não tinha o correspondente reflexo numa qualificação em equipamentos e infraestruturas. 1886. Fialho de Almeida sonhava com uma «Lisboa monumental» que realmente engrandecesse as Avenidas. os «saltos industriais» de 1870 e de l 890. instituições. Timidez na iniciativa e escassez de resultados concretos foram pois. reflexo das convulsões europeias contemporâneas. Um engenheiro. símbolo desse progresso e importadas de Paris — por um lado pomposas e à III Império. 40 . segundo opúsculo. para isso encaminhou como exigência crítica. de comboios suspensos e torres esplêndidas (fig. Miguel Pais. Se a cidade capital acusava por estes anos uma dinâmica de expansão enorme (em 1878 tinha 230000 habitantes. Lisboa. com gigantescos viadutos metálicos transcolinas37. no campo da intervenção na cidade. à definição da arquitectura do ferro. 37 38 39 Em Lisboa Monumental ed. esse crescimento. por outro «mecânicas» e movimentadas. Bertrand. não atingia ainda um nível que a poderia aproximar dos desejados modelos europeus mais «avançados». e sobretudo num entendimento cultural de Lisboa como grande metrópole. as suas crises crónicas e a rotura final de 1926. nos espíritos mais conscientes. em termos sociais e políticos. Tudo se passava afinal como duas décadas atrás. Me em Portugal no Século X/X vol. Assim. ed. como no da arquitectura.. de facto. o rebentar da República. imaginava a «Lisboa no ano 2000» sofisticadamente portuária. Urna forte tendência para sonhar utopias foi logo uma resultante destas condições. Typographia Universal. Ainda em 1906.. funcional e austera)40. Mello de Matos. Cristino da Silva e outros continuarão a idealizar e desenhar obsessivos e monumentais remates para o parque Eduardo VII. 1957 (inicialmente publicado na revista Ilustração Portuguesa de 1906). e à sequência estilística dos modernismos arquitecturais correspondeu. traduzindo-se mais em construção de prédios de renda. II. ou como reacção «desesperada» ao que o «progresso» deveria tornar possível. em 1 9 1 1 quase duplicava e nos anos 1920-30 rondava o meio milhão). Conforme José Augusto França. deve portanto ser entendida à luz das descontinuidades na acção prática que o contexto político e social sempre engendrou nesta fase. da CML. Na revista Ilustração Portuguesa de Janeiro de 1906. Toda a dificuldade de lançamento e implantação das novas ideias estéticas. porque. quando outro engenheiro sustentara apologeticamente que a Avenida da Liberdade poderia ser uma «grande artéria» até ao alto da Penitenciária39 e como. utopias Todo o período que assistiu em Portugal à aplicação das novas técnicas construtivas. Lisboa. até bem dentro dos anos 20. se estava presente. seguida do advento do betão armado. a noção da distância entre o real e o desejável. as ditaduras do final da Monarquia. e no ano «mágico» de 1906.Desenvolvimento urbano. a crise das gerações «vencidas da vida» e dos novos nacionalistas que se lhes opuseram. as constantes. Este período atravessou a segunda fase da Regeneração. a uma fase conturbada por crises económicas e financeiras. no domínio da arquitectura e da construção. em Melhoramentos de Lisboa — Engrandecimento do Avenida da Liberdade. vilas operárias e fabriquetas pobres. 1967. o arquitecto Álvaro Machado engalanava um viaduto ferroviário da futura Avenida da República com decorações afrancesadas e «pesadas» (vindo afinal a executar-se em «portuguesa» solução. mas a pobreza global do País impedia. mas também fruto de um dinamismo próprio. que era urbanístico (para os novos planaltos das avenidas) e industrial (com o moderno porto e os núcleos de Alcântara e Xabregas).

a Sociedade dos Arquitectos Portugueses. 1968. 61). 62). de que é exemplo a «muralha do Carmo». 61 Lisboa — antevisão da Rua do Arsenal: in Augusto Vieira da Silva. CML.º 14. o recomeço da expansão para as Avenidas Novas ficara assinalado pela fundação duma primeira instituição de defesa dos projectistas.º 139.. I. publicado em Na revista A Construção Moderna e as Artes do Metal. vol. 60 Lisboa do Ano 2000: in revista Ilustração Portuguesa. 1968. Dispersos. ou algum tipo artístico português. porém. por José Manuel Fernandes e Adalberto Tenreiro. em opção nítida por um mundanismo «à francesa»41. os artigos: «Prémios de arquitectura em Lisboa».. n.Fig. por Augusto Vieira da Silva.º 440. pelo verbo de um filantropo das artes. Lisboa. com enormes arcos emparedados. n. iria sublimar-se ou transferir-se. que na época se desprezavam por demasiado austeras. como era a realidade construída pela(s) cidades)? Em 1902. baixo-relevo preenchendo «esteticamente». e marcado igualmente pela instituição do Prémio Valmor de arquitectura. I. Lisboa. com a condição. mas igualmente utópico. n. galardoando proprietário e projectista «do mais belo prédio ou casa edificada em Lisboa. o que antes fora uma natural e setecentista imitação da fachada pombalina (fig. 116a Dois anos depois. afinal. vol. ed. de Julho de 1912. enfim. e raras vezes atingida. Assim se definiam. exibindo a tecnologia do ferro. Lisboa. grego ou romano. ou restauração de edifício velho. E Ventura Terra. românico-gótico ou Renascença. um estilo digno de uma cidade civilizada» (fig. . O tratamento «gráfico» de urna empena era afinal a nossa hipótese real de «desenhar» a cidade monumental. 63)43. os limites programáticos e culturais da construção de prédios. para situações mais simples e acessíveis. Lisboa. Dezembro de 1980.42 E. precursora de todas as futuras agremiações. palacetes e moradias que iam preenchendo ruas e qualificando a 41 Em «A ligação costeira da Baixa com a parte ocidental da cidade». com o tempo e a prática. na revista Arquitectura. de Julho de 1914 Fig. 42 43 Sobre o Prémio Valmor consultar. Dispersos. desenhava então uma Rua do Arsenal «furada» por uma galeria comercial e embelezada por decorações apostas a fachadas pombalinas (fig. p. A monumentalidade procurada. que «bastaria para abrigar a cidade desde a Graça até à Sé (como só na década de 1960 os movimentos tipo 'Archigram' poderiam tecnicamente concretizar em real)». mais comedido. de que essa casa nova. de novo a Ilustração Portuguesa (revista que assumiu certa importância no contexto da moda arquitectónica e da imagem urbana da época) iria sugerir um «alpendre colossal». entre outros. tenha um estilo arquitectónico clássico.

construídos para uma elite. n. n. Rua do Salitre. «Antecedentes da Academia Nacional de Belas-Artes no Prémio Valmor de arquitectura da cidade de Lisboa. 63 Lisboa — Palacete Mayer. . Publicações Dom Quixote. Lisboa. Lisboa. Académicos-arquitectos no seu júri (documentação inédita." 5 (Prémio Valmor de 1902): Arquivo Municipal cliché n. na Revista-Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes. Lisboa. ed. 62 Lisboa — projecto para a muralha da Rua do Carmo: in revista A Construção Moderna e as Artes do Metal.º 14.º 8553 urbe capital. o livro História do Prémio Valmor.Fig. 1985. 1988. actual consulado de Espanha. é o trabalho mais desenvolvido. mestres-de-obras. por José Manuel Fernandes. 1982-84. n. por José Manuel Pedreirinho. desenhadores e técnicos de qualificação média. aliás. Note-se.os 4-6. no jornal dos Arquitectos. de 20 de Julho de 1912 Fig. Entretanto saído. n. participando apenas nos mais relevantes ou prestigiosos edifícios públicos ou prédios de habitação.os 35-36 Lisboa. «Prémios Valmor — uma breve síntese». 1902-1935)». por Eduardo Bairrada. Toda a demais produção era-o num quadro de construtores. que os arquitectos propriamente ditos constituíam uma minoria e eram em número muito reduzido.

Fig. 64
Lisboa — Liceu de Pedro Nunes, Avenida de Pedro Alvares Cabral: foto Estúdio Mário Novais

A era dos equipamentos
A época de transição entre Monarquia e República foi fértil em edificações de cariz social. As preocupações com a assistência e com o ensino reflectiram-se em inúmeras obras de sanatórios, creches, escolas e liceus, que não se limitaram às cidades mais importantes. O apogeu do termalismo desencadeou igualmente, nas áreas das nascentes terapêuticas, obras de vulto para hospitais, hotéis e todas as pequenas construções de apoio: buvettes, piscinas, casinos. A expansão urbana, sobretudo em Lisboa e Porto, levou também à necessária construção de todo o tipo de edifícios públicos, de teatros a bancos, sem esquecer os já referidos mercados e gares ferroviárias, Rosendo Carvalheira, minhoto e «condutor» de obras públicas, distinguiu-se precisamente numa série de obras assistenciais, de que a mais notável é o Sanatório de Santana, à Parede, de 1901-03 (fig. 67), com boa organização funcional dos espaços e belo efeito plástico na solução das coberturas, denteadas e ritmadas pelas torres de ventilação. Esta obra utilizou também abundantemente o ferro na estrutura dos espaços subsidiários e a azulejaria arte nova nas salas centrais, Rosendo Carvalheira projectou também o Sanatório Dr. Sousa Martins, na Guarda, em 1907, com séries de galerias metálicas de bom efeito espacial, e o de Cabeço de Montachique, em 1917, não construído, com solução panóptica para os corpos centrais44. O Vidago Palace Hotel, projectado em 1908-10 pelo arquitecto Ferreira da Costa (em substituição de outro, demasiado caro, de Ventura Terra), iria ser expoente da arquitectura termal45, seguindo-se, entre outros, os hotéis da Cúria, em 1916 (projecto de Deolindo Reis e Duarte Melo) (Termas, fig. 68), e o Palácio Hotel do Estoril, por Silva Júnior, realizado em 1917 em conjunto com o edifício das respectivas termas. Este último autor, também «condutor» de obras públicas (mediante curso médio que o Instituto Industrial ministrava), trabalhando em Lisboa, fizera um projecto de fábrica, de expressão protomoderna e sentido protofuncional, na Avenida do Almirante Reis (Fábrica de Cervejas Germânia, depois chamada Portugália de 1912-13), com abundante uso do ferro na estrutura (numa «casa das máquinas» e numa «casa de fabricação» ainda hoje existentes); e projectara uma remodelação de solar ao gosto neo-árabe, em transição modernista, o Clube Monumental, hoje a Casa do Alentejo (1908). O ensino teve o seu ex-líbris nas inúmeras escolas primárias que o projecto modulado de Adães Bermudes, arquitecto portuense, ia construindo pelas vilas do País no início do século (cerca de 180, com a sua graciosa torre sineira tão característica) (fig. 65), depois de ter ganho, em 1898, um concurso «por portaria do Ministério do Reino para projectos-tipo»46. Este foi talvez, de resto, dos primeiros projectos entendidos em sentido moderno, prevendo as variantes e combinações que os tomavam adaptativos às várias situações de programa e de dimensão. Em Lisboa,

44

Conforme «Arquitecto Rosendo Carvalheira (1863-1919), um filho adoptivo de Alexandre Herculano na Haverá algumas dúvidas sobre a sua autoria; ver a Ilustração Portuguesa, n.º 440, de Julho de 1914, e Conforme Escolas Primárias, dossier organizado por José Afonso, policopiado, Lisboa, ed. Centro Nacional

arte de construir», por Eduardo Bairrada, em Belas Artes, revista e boletim da ANBA. Lisboa, n.º 3, 1981.
45

As Estâncias Teimais Portuguesas, projecto de investigação por Mana Clara Mendes, Lisboa, ed. da autora, 1980.
46

de Cultura, 1984.

Fig. 65
Alter do Chão — antiga escola primária (alterada)

Fig. 66
Lisboa — projecto do Banco Lisboa & Açores, actual Totta & Açores, Rua da Ouro, n." 82-92: in revista A Arquitectura Portuguesa

e. Cúria (bilhete-postal) Conforme José Augusto França. na Rua do Ouro (fig. Porto. usando o tijolo e a madeira em sentido utilitário. Grandes salas para diversos tipos de «espectáculo» foram iniciadas com a reforma das Cortes (hoje Assembleia da República. O programa de novas salas foi continuado com o novo Teatro de São João.. em 1 9 1 1 (Rua de António Mana Cardoso). em 1895. culminando com o «totalmente incombustível» (como se anunciava) Teatro Gymnasio. Porto. 1903 . Carvalheira) Ventura Terra construiu creches em Santa Apolónia. em 1914 (na rua do mesmo nome). Bazar Soares. em 1908). pelo Politeama.Fig. 47 48 Fig. traduzindo uma simplicidade formal e construtiva. e. funcional e técnica. Sanatório Sant'Anna. in Arte Portuguesa — II. também ela factor modernizante. Livraria Clássica Editora. em 1923-25 (Rua Nova da Trindade). em 1916 (Rua da Palma). vol. desenhou os famosos liceus para os «novos bairros». que se podia transformar por rotação em salão de baile). II. 68 Cúria — Termas. d. «A obra de Ventura Terra — a nova Câmara dos Deputados em Lisboa». Assinatura: R. projectou a Maternidade de Alfredo da Costa em 1908. ao Chiado. Lisboa (bilhete-postal. no Porto (por Marques da Silva. Lisboa. centripetando os diversos espaços à volta de um pátio desenvolvido em pisos (obra também de Ventura Terra. 66). primeiro publicado em A Arte e Natureza em Portugal. de Tertuliano Lacerda Marques. como a Voz do Operário. Lisboa. em 1 9 1 3 (Rua das Portas de Santo Antão). 64). O «teatro» bancário encontrou também uma boa expressão no Lisboa & Açores. foto Soares Leitão. Fonte Albano Coutinho: ed. Carimbos: Lembrança 3/1/1906. 67 Parede — Sanatório de Santana: ed. 1909). de Terra. por Ventura Terra. em História da Arte em Portugal no Século XIX. com os Liceus de Alexandre Herculano e de Rodrigues de Freitas. ed. vol. III. O mesmo fez Manques da Silva no Porto. s. utilizando um rigoroso (e grandioso) classicismo na remodelação do antigo convento beneditino — trabalho saudado na época por Ramalho Ortigão como «obra do século» no País48. o Chiado Terrasse. Direcção Técnica da Construção. das Picoas (Camões) e do Rato (Pedro Nunes) (fig. Conforme artigo de Ramalho Ortigão. em 1915 e 1919 47 . ambas de Norte Júnior e em Lisboa. na Rua de São Bento). e a sede da Associação Comercial. de novo com expressão moderna. pela mesma altura. Funções simultaneamente assistenciais e educativas foram alvo de obras de vocação mista. em Lisboa. Todos estes espaços se incluíam num esquema inovador mais ao nível espacial e técnico do que no plano da representação formal das fachadas (o Gymnasio previa mesmo uma plateia de pavimento amovível. FAM. 1967. De assinalar ainda o primeiro edifício construído para cinema em Lisboa.

.

autor tão procurado pelos clientes) — depois inovador. alguns autores «menores» haveria a referir. n.Os autores A Escola de Belas-Artes de Lisboa fundamentava o seu ensino em mestres com formação ainda ligada aos valores oitocentistas. como o Mercado de Alcântara ou a Capela do Cemitério de Benfica (esta com J. Avenida de 5 de Outubro. Destes. o «gosto possível» do colectivo lisboeta dos anos republicanos e «maçons» de 1910-20. especialista de palacetes e de equipamentos de uma qualidade estética média (e. autor de uma discreta e «achalezada» casa própria em Campo de Ourique. os seus temas mais frequentes eram: nos palacetes. 69 Lisboa — edifício na Avenida da Liberdade. com obra totalmente discreta fora do ensino (cerca de 1930 autorizou. n. nas intervenções de restauro ou nos frequentes monumentos republicanos (Sé de Lisboa. popular e «persistente» autor da época (até pela longevidade). talvez por isso mesmo. s. Assim se refere Norte Júnior (1878-1962). com grandes envidraçados (Casa Pró-Arte de Malhoa. em diálogo com fenestrações de arcos redondos. . a obra do Cinema Éden. 1973.. Formação limitativa. Arcádia. d. secundavam-nos José Alexandre Soares (1873-1930). para os seus alunos nascidos entre 1860 e 1880. como António Couto (1874-1946). em projecto de Cassiano Branco. L Monteiro). Em suma. ou o prémio de 1 9 1 4 . no uso pioneiro do betão armado (já se referiu a sua importância no período art déco. um curso livre de Arquitectura). como conta Nuno Portas49. o mais prolífero. Sobretudo com obra lisboeta. autor de obras menores. Fig. geminados ou múltiplos (palacete na Alameda das Linhas de Torres. com arrojo.. Lisboa. de 1893 (demolida em 1990) — além de projectos de equipamentos revivalistas ou classizantes. que projectou a Casa da Moeda (1889-91). vendem-se ainda hoje na Feira da Ladra).os206-218: foto do trabalho realizado para a cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL. Prémio Valmor de 1912. além disso. 1905). sendo frequente hoje identificar um qualquer palacete da época como de sua autoria. que fez escola entre outros autores mais apagados (leccionava. sem contar as numerosas menções honrosas). entre urna volumetria neo-românica e um «grafismo» arte nova. por Bruno Zevi. na sua colaboração com os construtores). na Avenida de Fontes Pereira de Melo. Ambos da geração nascida cerca de 1840. Rua de Quatro de Infantaria / de Almeida e Sousa. mesmo que tal não seja verdade (desenhos tipificados de sua autoria. com o característico carimbo «maçónico» de «compasso». ou «mestre João Piloto» (1880-1956). corno José Luís Monteiro (1849-1942). n. pois. Picoas). tudo rematado pelas 49 Em «A evolução da arquitectura moderna em Portugal — uma interpretação». mas a escolha que agora se apresenta selecciona os nomes em função de uma modernidade dos trabalhos e de uma procura de actualização e de inovação que é afinal o objectivo primeiro deste trabalho. capítulo de Historio da Arquitectura Moderna. com frequentes excessos decorativos). «campeão» dos Prémios Valmor (cinco. ed. à qual os mais interessantes escaparam pela frequência dos meios europeus da especialidade. a composição assimétrica de volumes. decano da Geometria Descritiva. estátua do marquês de Pombal). também de expressão classizante. a São Paulo. por Nuno Portas. ou como José António Gaspar (1842-1909). no entanto.° 22. Norte Júnior chegou a criar um «estilo» tão próprio de desenho (ecléctico. sobre uma planta convencional.° 38.

° 2 1 . 70 Leiria. nomeadamente com os arquitectos Luís Benavente. cafés. n. foram obtidos pelo autor em entrevistas. com soluções de maior plasticidade e liberdade de volumes (Prémio Valmor de 1 9 1 3 . Lisboa). 73) e n. n. Fig. De Terra destacam-se o conjunto de prédios na Rua de Alexandre Herculano. escola A Voz do Operário. respectivamente). Largo de Cesário Verde (demolido) Fig. 71 e 72). Avenida da República n. . com projectos às vezes excessivamente decorados (antigo Banco Angola e Metrópole. sobretudo em Esposende). ambos nas Avenidas Novas. n.torres telhadas ou pelo frontão quebrado. n. em mais pobre. que por intervenção do proprietário)50. Mas é realmente difícil resumir uma obra espalhada por lojas. casas e tempos tão diferentes. de tipo mais concreto. mas talvez muito significativa de um ideário. 72 Lisboa — antigo atelier de Norte Júnior. de 1919) — a sua obra mais interessante parece ser todavia a do já referido edifício da Rua dos Navegantes. que ambos tentaram lançar em Lisboa (sem esquecer os trabalhos de Terra no Minho. como do seu continuador e genro. 69)] e um gosto mais «pesado» e barroquizante (antigo Casino de Sintra. a propósito da «arte nova» urbana. o gaveto da Avenida de Luís Bívar. Avenida de Heliodoro Salgado. de 1 9 2 1 .° 57 (fig. Jorge Segurado. n. De Ventura Terra (1866-1919) se falou já. 71 Lisboa — porta do antigo atelier de Norte Júnior.º 38 (Prémio Valmor de 1906). Cristino da Silva e Keil do Amaral. estrada para a Figueira da Foz Fig. Miguel Nogueira.º 25 (Prémio Valmor de 1903 e 1 9 1 1 . com melhor depuração no desenho da fachada (parece. Miguel Nogueira (1883-1953). Rua da Conceição. Fique apenas uma última referência ao atelier próprio. Nos seus prédios abundam os corpos salientes e de densa plasticidade [Prémio Valmor de 1 9 1 5 (fig. sempre aliados à superior carga inventiva. em que a composição generosa e a simplicidade decorativa são os grandes trunfos.os 134-136. Prémio Valmor de 1916).º 23.os 2-4-6. e na Avenida do Visconde de Valmor. no Largo de Cesário Verde. em Lisboa.. obra discreta. aliás. com a sua simbologia «maçónica» feita de compassos esculpidos em capitéis e recortados na porta e fachada encabeçada por friso cerâmico representando autores das outras artes (demolido em 1979-80) (figs.. Largo de Cesário Verde (demolido) 50 Dados como este. de dois pisos.

Em áreas mais regionalistas ou tradicionalistas surgiam as propostas de Ernesto Korrodi (1870-1944) e de Raul Lino (1879-1974). com dinâmicas e curvilíneas referências à arte nova (Prémio Valmor de 1908). que não desvalorizavam nem exageravam o conjunto (além do prédio de A Tentadora. como caminho para o moderno. em Campo de Ourique. n. na Tapada da Ajuda.º 57: Arquivo Municipal Fig.° 47. n. há a salientar os Prémios Valmor de 1 9 1 0 e de 1917. mais tarde. mas elegantes. respectivamente a Suíça e a Alemanha — universos culturalmente mais ruralistas ou intimistas. ambos os autores eram provenientes da Europa central e sensíveis às respectivas influências. n. n. e na Rua Viriato. produzindo também mais convencionais. além de obras diversas em Leiria (fig. como se vê. agências do Banco de Portugal pela província fora (Évora. na Rua de Saraiva de Carvalho. um autor que pensou a via do neo-românico.Fig. obras modernizadoras em termos de uma simplicidade de elementos compositivos.º 30. caminho útil.º 2 — Arquivo Municipal Adães Bermudes (1864-1947) foi um autor que interessa valorizar além dos trabalhos públicos referidos (a que se poderia juntar um Instituto Superior de Agronomia. 70). 74 Lisboa — prédio na Avenida do Almirante Reis. . fez várias incursões em programas domésticos lisboetas. Vila Real).° 36 (1906). na Rua de Barata Salgueiro. com interessantes espaços interiores). n. Korrodi. de 1 9 1 1 . se comparados com o dos autores de «costela parisiense»).° 242. aliadas a elementos como o beiral «português». na Avenida do Duque de Loulé. já referidas também a propósito da arte nova (curiosamente. respectivamente na Avenida de Fontes Pereira de Melo. como outros autores euro-americanos. 74). Álvaro Machado (1874-1944) fez uma proposta «moderna» para a esquina da Avenida do Duque de Ávila com a da República (1909) e outra para a sede da Sociedade Nacional de Belas-Artes. em Machado (com o Prémio Valmor de 1919. no esforço pela modernização da arquitectura urbana que então se praticava. presentes. onde a calma proporção e as delicadas decorações em baixo-relevo estavam. A depuração do desenho confirmava-se aliás. 73 Lisboa — prédio na Rua de Alexandre Herculano. como sempre. Como ele. demolido em 1961). n. este portuense estudante em Paris iria executar um dignificante prédio na lisboeta Avenida do Almirante Reis (fig.

na Avenida do Marechal Gomes da Costa. n.º 1363 .Fig. 75 Porto — casa de Marquei da Silva.

76). Lino investigou e sensibilizou-se pelo Sul alentejano e pelo Norte marroquino. ed. que ensaiou desenhos de casinos (1907) e de teatros modernos (já em 1925) nunca realizados. Lisboa. entendidas exclusivamente no restrito campo doméstico. mas prometedores. foi a obra de Raul Lino.° 5 — o primeiro já demolido. afinando sistemas formais fruto da tradição enraizada (de que fez «colagem» no projecto para a exposição de Paris de 1900). n. Lisboa (bilhete-postal: data da missiva. 75). a sua casa própria na Boavista (fig. Refira-se. Marques da Silva (1869-1947). 12/11/1920) n. embora arredados da produção real." 51 52 Em Ilustração Portuguesa. descobrindo «caábicas proporções» que logo aplicou em casas de veraneio [na casa Silva Gomes e na de O'Neill. em 1902 (fig.º 35. não deixaram de projectar. Conforme «José Pacheko». artigo na revista Colóquio Artes. 76 Cascais — Chalet O'Neill: ed.. Dias Serras Rua Áurea. de 1 9 1 2 . de Janeiro de 1908. Mais produtiva. E. como é o caso de José Pacheko. um «grande reformador». nas palavras da Ilustração Portuguesa de 1908 (que chamara a Terra. para sintetizar. resumia num só autor muitas destas tendências lisboetas. . espelho de um entendimento intimista e quase wrightiano do ambiente doméstico. respectivamente no Estoril e em Cascais]. 26. autor quase «único» desta época no Porto. Fundação Calouste Gulbenkian. esteve numa dependência excessiva dos materiais e das soluções formais antigas. em 1961). A maior limitação de Lino. porque mais profunda. «modernista» doutros sectores artísticos. 1977. dois anos antes.Fig.. por Gustavo Nobre. Haveria ainda que fazer uma referência aos autores que. A sua maior contribuição esteve no proto-organicismo e na adaptabilidade espacial patentes na Casa do Cipreste. implantada sobre uma velha pedreira sintrense. em contrapartida. um «grande arquitecto»)51.

O Estado Novo — das obras públicas à vulgarização de uma nova estética A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições O urbanismo As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano A divulgação de um gosto — comércio. equipamento e habitação Os autores .

do arquitecto Paulino Montez. Estúdio Técnico de Publicidade. por comparação com a degradação gradual que alguns destes sistemas de exibição de produtos vem atingindo: desde um «Projecto de Montra da Casa Borges & Irmão». 79) e a Cooperativa Promotora Previdente (escolhendo ambas uma representação da «moradia ideal» com volumes claramente modernistas). até aos painéis que escondiam a esquina da Rua do Carmo com a do Primeiro de Dezembro. 77).. acompanhando a divulgação do betão. Lisboa. as fábricas de revestimentos e impermeabilizações. como A Confidente (fig. com desenhos abstractos de edifícios que se adivinhavam puristas (como na folha de sumário da Arquitectura Portuguesa Cerâmica e Edificação Reunidas de Maio de 1939) (fig. como moda gráfica e estética: logo no Prémio Valmor de 1 9 3 1 . era o seu próprio «cartão de apresentação» uma perspectiva do edifício que. À apresentação dos projectos nesta forma mais irreverente seguir-se-ia em breve a imagem renovada das revistas e livros de arquitectura (acompanhando. uma tendência mais geral de renovação gráfica noutras actividades). que melhor evidenciavam as suas qualidades («não racha». recorrendo a imagens mecanicamente apelativas do progresso ou representando obras dentro do formulário modernista (a Sociedade Industrial Metalúrgica exibia fotograficamente a sua participação em cromados e tubos de ferro no grande hall do Instituto Superior Técnico.° 16. que anunciavam nos seus papéis timbrados ou em páginas das revistas especializadas. mármores. tão famoso na altura). ou como a empresa Amadeu Gaudêncio. ou «contra a humidade e salitre nas casas». em aproveitamentos publicitários cuja qualidade pode hoje espantar. Idêntica transformação sofriam os símbolos de empresas de materiais de construção: as «ferrarias» e serralharias.. nas páginas da Arquitectura. reclamava a Ceresit na Arquitectura Portuguesa de 1939). de resto. com o característico lettering art déco e com o tratamento formal da fachada. a simbologia arquitectónica do «moderno» invadiu pouco a pouco todas as actividades ligadas à construção. cuidadosamente ritmados de anúncios pintados com formas e volumes abstractos bem ao gosto da época (da autoria do ETP. na Baixa lisboeta. As empresas de «transacção de propriedades» ou de construções renovavam também o seu símbolo ou logotipo. ou com «capas-manifesto» dos conteúdos (corno no livro A Estético de Lisboa.A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições Com o advento dos anos 30 e o enraizamento do regime social e político salazarista. que preferia aliar a uma escrita de estilo art déco urna «fábrica abstracta» com roda dentada por fundo. exibido na exposição das Belas-Artes de 1929. . da autoria de Cristino da Silva. onde as fachadas se tomavam verdadeiros mostruários dos padrões e efeitos decorativos do material produzido — 53 Na revista Arquitectura. 78). diz o Cimento Lafarge. anunciava a mudança dos gostos neste sector (fig. com sábia utilização do lettering53. por exemplo). n. cores e palavras. cantarias e cerâmicas seguiam-lhes o exemplo (até nos edifícios-sede. A renovação estendeu-se às montras e mesmo aos tapumes de obras. em 1929-31. Maio de 1929. de 1935). apoiavam-se em sugestões gráficas de prédios de linhas puristas. em jogos abstractos de superfícies.

" 92-94 (alterada e ampliada): foto Estúdio Mário Novais. Rua de Infantaria 16. Manuel Gameiro por Veloso Reis Camelo.Fig. sobre desenho de casa para o Sr. arquitecto . n. 77 Lisboa — habitação em Campo de Ourique.

já demolida). na Exposição Industrial do Parque Eduardo VII) (fig. Fig.Fig. ao Arco do Cego. de Matosinhos. 78 Cabeçalho da revista A Arquitectura Portuguesa c Cerâmica e Edificação Reunidas. procuravam na luz da Electro-Reclamo. 81 Lisboa (?) — expositor da Philips. Parque Eduardo VII: foto Estúdio Mário Novais . 80 Lisboa — pavilhão de exposição. ou cuidados pavilhões modernistas e simbólicos (de Adelino Nunes. 80). e num lettering depurado. outra fábrica. mesmo as fábricas de automóveis. do mesmo ramo. para se representar nas Festas da Cidade (e já falaremos do tipo novo de construção que se desenvolveu à volta destas necessidades novas de propaganda). a divulgação em «escultura» da sua «semana». outro símbolo do progresso na época. com azulejos de desenho geométrico a decorar a fachada da secção de escritórios. 79 Porto — anúncio de rua de A Confidente (em vidro pintado) pavilhão provisório. construía um Fig. as empresas de produtos eléctricos inventavam depurados interiores provisórios para promoverem as suas telefonias (numa exposição de rádio e electricidade da Philips) (fig. Lisboa. 81). Maio de 1939 veja-se o exemplo da Fábrica de Cerâmica Lusitânia. anos 30: foto Estúdio Mário Novais Fig. no mesmo estilo. fazia-se representar pela abstracção desenhada das suas instalações (naturalmente com expressão purista). Esta moda de exibir formas arquitectónicas ou gráficas com espírito modernista na «propaganda» (ou publicidade) iria estender-se mesmo a outras actividades e formas de «exposição» de produtos a colocar no mercado: a Fábrica de Conservas Activa. para a Empresa Electro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia.

.

O «regime» iria de resto incentivar. que o secretário da Propaganda Nacional. Concursos de montras Fig. sobreposta ao Terreiro do Paço para visualização de escala: foto Estúdio Mário Novais . se renovaram as suas atribuições. 82). revistas de divulgação. 82 Lisboa — edifício da sede do Diário cie Notícias. de recorte art déco. 84 Maqueta do Monumento de Sagres de Pardal Monteiro. prémios nos sectores das artes. enquanto os premiados. não descurava o uso de uma simbologia antiga. o modernista dos anos 20 António Ferro.Símbolos e concursos O Estado Novo. destinadas a uma Igreja de Fátima. mas com tratamento renovado. respectivamente. Avenida da Liberdade. como a de Paris. situável entre 1929-30 e 1940-44. assim. até à Cruz de Cristo no Sindicato da Indústria Conserveira de Olhão. descontente com o caminho predominantemente modernista da arquitectura corrente da cidade54. isso passava-se numa fase terminal do primeiro «moderno» em Portugal. O Prémio Valmor de Arquitectura.° 266: foto Estúdio Mário Novais para a prática arquitectural da primeira geração modernista. e em muitos aspectos liderar. 83 Olhão — edifício do Sindicato da Indústria Conserveira de Olhão ou de cartazes. estilizada em portão de formas geométricas e no frontão adjacente em baixo-relevo escudado (fig. Foi ele um banco de ensaio e de teste Fig. em estádio ainda aberto aos conceitos de modernização e de progresso. Raul Lino. Um «superfarol» de Pardal Monteiro (fig. em consolidação crescente. e ao edifício do Diário de Notícias (já em 1940) (fig. o barroquismo latente de Cassiano Branco despoletava na densidade de volumes da sua proposta. centrados à volta do de Sagres. 83). em 1938. de que o Prémio de 1939 era indício (foi dado a uma moradia «neo-setecentesca» dos irmãos Rebelo de Andrade). políticas. essa exploração de meios propagandísticos novos. já que os objectivos simbólico-históricos do projecto tenderiam a «corromper» o desenho purista e abstracto que então se praticava na procura de uma nova estética de conotação nacionalista. situada entre 1928 e 1931 (durante a qual foram premiados edifícios eclécticos ou dentro do modelo art déco). Os concursos públicos nacionais de arquitectura ou escultura foram talvez das iniciativas de maior êxito e efeito. estava mais do que muitos apto a entender nas suas potencialidades culturais e. Quando. por via destas. repetido em 1938. até «lojas de propaganda de Portugal». optavam por formas mais plásticas ou mais convencionais. iria auto-suspender-se por iniciativa de um membro do júri. depois de uma fase hesitante e de transição de linguagens. a consagrar quase obrigatoriamente pelo regime. 54 Sobre os Prémios Valmor de Arquitectura e a bibliografia indicada ver nota 43. n. depois de uma primeira tentativa em 1933-34. iniciaram uma autêntica «fase estética experimental» do Estado Novo. irmãos Rebelo de Andrade (em 1933) e Carlos Ramos (em 1938). Fig. 84) recordava na segunda tentativa de concurso a solução da torre luminosa da sede do Diário de Notícias (peça fundamental na transição para a arquitectura dos anos 40). de um simples letreiro da Escola de Instrução Primária em Fenais de São Miguel. foi todo um aproveitamento das novas possibilidades expressivas e estéticas que o primeiro decénio de vigência do «regime» ensaiou.

85 Pavilhão da Exposição Universal de Paris de 1937: desenho de Keil do Amaral (estudo). arquivo Keil do Amaral .Fig.

n. 87 Porto — Palácio de Cristal/Palácio das Colónias da Exposição Colonial Portuguesa de 1934: ed. Lito. De facto. É na arquitectura das exposições internacionais que. mesmo sobre a transição dos anos de 1939-4056. Junho de 1981. pouco depois. caldeado pela aposição de simbologia nacionalista) e pelo desembocar nas variantes historicistas e monumentalistas. de resto. e já com arcos e emblemas «nacionais» nas perspectivas finais.o 45. em 1936. em 1929 (Exposição Ibero-Americana de Sevilha). no decorrer dos anos 30. 1982. de Março de 1 9 8 1 . melhor se podem detectar as mudanças de gosto sucessivas. 55 Fig. dedicada ao tema «Portugal — arquitectura e fascismo». pelo arquitecto Jorge Segurado. 56 Conforme artigo «A arquitectura do fascismo em Portugal». Invicta — Porto (bilhete-postal.º 142. na essência. mais «holandês» e depurado do que o finalmente executado. Para este. Lisboa. 86 Porto — Palácio de Cristal: ed. na revista Arquitectura. e. pela responsabilidade sentida de constituir representação oficial portuguesa. em 1930 (Exposição Internacional de Paris) e em 1 9 3 1 (Exposição do Rio de Janeiro). consistiam numa proposta tradicionalista de Raul Lino. seguindo-se. de novo para Paris (Exposição Internacional de 1937). já mesmo em 1930 (Exposição Colonial e Marítima de Antuérpia) se experimentava uma «fachada-frontão» estilo artes decorativas. oposta. apesar de tudo. se confirmava. . de Junho de 1980. igualmente de expressão modernista escultórica. 85). O salazarismo iria passar sucessivamente. Conforme artigos diversos da revista Colóquio-Artes. ed. 57 De assinalar uma «corrupção» do modelo inicial de Keil para o pavilhão. A abstracção radical e desumanizante que certas vertentes do movimento moderno exigiam para chegar a um «futuro rápido» (vejam-se as visões do futurismo) não era. os pavilhões das Exposições de Nova Iorque e de São Francisco (em 1939). Lisboa. Foto Beleza — Porto (bilhete-postal) A «arquitectura efémera» Esta associação entre os signos «modernos» da arquitectura e a política de cariz totalitário não era de resto originalidade do País. pelo menos numa fase inicial de entusiasmos e de fé.o 48. n. Lisboa. em detrimento da costumeira proposta de Lino57. já que a Itália mussolínica dos anos 20 a vinha usando. bem como os textos do vol. no caso isolado de Paris. por uma fase de indiferença estética (que tanto acertava obras do eclectismo como do art déco). um inovador e preponderante modelo modernista de pavilhão (fig. ao ideário social dos regimes corporativistas. e n. conforme os primeiros esquissos. por um uso sistemático do modernismo radical (quase sempre. Fundação Calouste Gulbenkian. os pavilhões portugueses eram de gosto neobarroco (dos irmãos Rebelo de Andrade) ou. por Nuno Teotónio Peneira e José Manuel Fernandes.Fig. se. l do catálogo Arte Portuguesa — Anos Quarenta da exposição realizada pela mesma Fundação. sendo a partir daí modelo para nós (via Cottinelli Telmo ou António Ferro)55. Keil do Amaral foi o escolhido.

que iriam servir de base a uma «nova era» da arquitectura portuguesa. 89 Lisboa — anúncio representando uma construção efémera da tribuna de honra: in revista Arquitectos. quando não arrastados pelo interesse de um arquitecto de nomeada ou recorrendo a serviços de técnicos estrangeiros. confirmavam a voga de um tipo de arquitectura a que a revista oficiosa Arquitectura chamava então efémera e que exprimia claramente as vocações e necessidades propagandísticas dos regimes autoritários dos anos 30 — sempre mais ou menos impregnadas plasticamente de temas modernistas ou abstractos. que foram aliás reconhecidas na eleição de Salazar. Fig. «pelos altos serviços prestados por Sua Excelência à arquitectura nacional». tentando suprir a falta dos especialistas nacionais. 88 Lisboa — a tribuna de honra. com mais ou menos consciência estética ou precaução política. 88 e 89). A «classe» dos arquitectos tinha então um apogeu na aproximação e na confiança oferecidos pelo regime político.No âmbito nacional. era a Exposição Colonial do Porto que. como sócio honorário do seu Sindicato. ainda demasiado próximos da escala arquitectural. de 1938) (figs. sempre com urna forte componente ou entendimento académico da disciplina. Lisboa O urbanismo A actividade urbanística dava os seus primeiros passos em Portugal nas décadas de 1920-30. procurando exprimir significados emblemáticos em formulários retrógrados. e partindo muitas vezes de iniciativa privada ou local. A Exposição Industrial no Parque Eduardo VII e os pórticos triunfais do Ano X da Revolução Nacional (em 1936). Conclui-se esta sequência crescente de exposições ou exibições públicas com a famosa Exposição do Mundo Português. ao nível oficial. em Março de 1941. . denotava já a alteração de gostos que ia começando. realizada em Belém no ano-charneira de 1940.. em 1934. onde toda a geração do primeiro modernismo arquitectural transformava (e se autotransformava por via de) a linguagem utilizada. com Duarte Pacheco: foto Estúdio Mário Novais Fig.. «mascarando» exemplarmente o velho Palácio de Cristal com estafes de fachada (figs. em limitados «planos de pormenor». em conjunto com o pavilhão de estrutura metálica e revestimento de estafe que serviu como «tribuna de honra» da CML para comemorar em parada o 28 de Maio na Avenida da Liberdade (projecto de Miguel Jacobetty. 86 e 87).

90 Lisboa — desenho perspectivado com o estudo do prolongamento da Avenida da Liberdade através da Parque de Eduardo VII. assinado Luís Cristina da Silva. 11/5/1930: f o t o Estúdio Mário Novais .Fig.

.

91 Lisboa — desenho perspectivado do Centra de Aviação Naval (do Montijo) MOPC/COBNL. assim. no qual eram as entidades oficiais ou municipais a pedir e a incentivar estudos de conjunto para zonas urbanas. onde se refere também a critica feita então por Paulino Montez ao traçado em rampa das Avenidas do México e de António José de Almeida. urbanistas franceses como Forestier estudavam os dois problemas principais que se colocavam à modernização e extensão da Lisboa da época. ou seja. que a legislação de 1934 lançada por Duarte Pacheco iria exigir. 59 Conforme fonte citada na nota 58. como uma extensão monumentalizada da retícula das Avenidas Novas58. estudo cheio de simetrias que Carlos Ramos fez para uma «comissão de iniciativa» em 1929. 90) e 1932] em promissores e irrealizados desenhos monumentais. Abril de 1941: foto Estúdio Mário Novais Assim surgiam. por exemplo. sobre o Parque Eduardo VII (em 1927). que «fere» a leitura da monumentalidade do edifício do Instituto Nacional de Estatística.Fig. 92 Norte de Moçambique — desenho do Anteprojecto de Urbanização da Futura Cidade de Nacala. assinado Paulo Cunha: foto Estúdio Mário Novais Fig. Cristino estudaria pouco depois a articulação do conjunto Instituto Superior Técnico-Estatística com o Bairro do Arco do Cego. assinado Luís Cristino da Silva. . inseria-se já num quadro mais esclarecido. o «Plano Geral de Melhoramentos» para a praia do Moledo do Minho. pela 58 Informações obtidas em depoimento prestado pelo arquitecto Luís Benavente ao autor. propondo as duas raquettes definidas pelo esquema viário e que foram realizadas (prolongamento das Avenidas do Duque de Ávila e de António José de Almeida. a ligação Cais do Sodré-Terreiro do Paço e o prolongamento da Avenida da Liberdade para norte. que o autor parece ter oferecido à própria Câmara59. também. Mas este plano. este último tema seria abordado por Cristino da Silva [em 1930 (fig. bem como das do México e Marconi).

Lisboa/Alcântara/ /Alvito. deve ser feita aos estudos para as colónias africanas de alguns destes autores. portuárias e fronteiriças.ª ed. sobretudo para as instalações militares. 92).° 24. enquadrando o seu Casino em faixa de equipamentos litoral). por Cristino da Silva. ed. como o «Plano de Extensão. desde a «urbanização da Praça do Alfeite». n. conforme depoimento ao autor. Também o decreto do ano anterior instituindo o regime de «casas económicas» iria contribuir para dar uma dimensão urbana ao estudo dos «bairros» respectivos. do autor. 91) — onde grandiosas perspectivas cavaleiras exibiam futuras edificações com claros jogos de volumes modernistas62 até aos «planos de melhoramentos» do porto de Lisboa (AGPL). 1972. 2. com outros trabalhos idênticos. 63 Respectivamente no estudo do nó de Alcântara. mas cuja linguagem os inscreve ainda na interpretação modernista dos programas oficiais. finalizando este período com o plano para as Caldas da Rainha (l941)61. que o esforço de modernização geral do seu aparelho exigia. Arranjo e Embelezamento do Luso» e o de Sesimbra. onde novamente Paulo Cunha e depois Pardal Monteiro e Jorge Segurado iriam trabalhar63. 19. onde apresenta algumas preocupações e teorias urbanísticas algo incipientes. Cunha dedicou-se ao estudo de planos portuários e fronteiriços. com datas a averiguar. Lisboa. 64 Na revista Arquitectura. conforme o seu livro Urbanizar e Construir para Quem?. já bem entrada a década de 40. isto além de outros. 61 Que Montez reúne. e com ajuda de urbanistas convidados: depois do «Plano de Urbanização da Costa do Sol» (1933-34 e 1939-42) e do «Plano Director de Lisboa» (1938-48). ou que Cristino desenvolveu novos estudos para localidades em expansão. 93 Lisboa — desenho perspectivado do Plano do Bairro Económico do Doutor Oliveira Salazar. nas estações marítimas e nos armazéns. 1938). p. Estudos de Urbanismo em Portugal. ao Alvito-Alcântara (1938) (fig. enquadrando a Escola Naval (dos irmãos Rebelo de Andrade. como para Quarteira (plano geral) e para Vila Real de Santo António.obrigatoriedade de levantamentos das principais dessas zonas e consequente realização de planos municipais . Uma referência. 1938. Foi nesse panorama que surgiram os estudos de Paulino Montez sobre planos de urbanização para Mafra (1933) e para o Bairro Salazar. Também o Estado começava a ser cliente directo de planos. para o potencial porto moçambicano. mas prolongando num «modernismo técnico» a expressão dos anos 30. Lisboa. no Alvito: in Paulino Montez. como Monte Gordo (também de 1941.º 24 802. 62 Trabalhos por datar (talvez da transição 1939-40). 60 Fernando Gonçalves considera o decreto que estipula estas regras (n. onde Alfredo Agache ou de Groer 60 Fig. já de 1941 (fig. Planos à escala da região só começaram mesmo nos finais da década de 30. desde o trabalho «pioneiro» de Carlos Rebelo de Andrade para o «Alargamento e Embelezamento da Cidade da Beira» (de 1929)64 até ao anteprojecto de «Urbanização da Futura Cidade de Nacala». de 21 de Dezembro de 1934) «o ponto de partida da legislação urbanística portuguesa». . por Paulo Cunha. ainda que pontual. passando pelos trabalhos de Paulo de Carvalho Cunha para Setúbal (remodelação da zona central do porto para a Junta Autónoma) e para o Montijo (Centro de Aviação Naval — MOPC) (fig. 93). na colecção «Estudos de Urbanismo em Portugal». Afrontamento.

O ano de 1944 pode marcar o fim desta primeira e «modernista» fase do urbanismo. já que. 66 Conforme obra citada na nota 60 67 Id. n. 94 Viana do Castelo — Avenida dos Combatentes da Grande Guerra: in Portugal 1140-1940 Shell News colaboraram65. muito mais como um «prolongamento» da arquitectura do que como uma disciplina agregadora de complexas redes socieconómicas e político-culturais que modernamente se lhe foi atribuindo. sendo muito característico desta época o aparecimento da «avenida modernista». para a Figueira da Foz. do valor cultural dos centros históricos). iria ser já na óptica monumentalista dos «modernos» arquitectos ítalo-mussolínicos que o Porto receberia o seu estudo urbano de conjunto (com Piacentini e Muzio. que sacrificavam por regra às leis académicas de simetria forçada (o que resultava num edifício. respectivamente). com a criação da «temível» Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização67. ou de desejada monumentalidade. até aos trabalhos de Fana da Costa.Fig. mas não numa cidade). veloz. idêntica evolução na arquitectura66 Até aqui convém realçar o sentido de «tradição» e de «arte de urbanizar> com que era entendido o estudo urbano. com uma predominância daquele tipo de arquitectura nas suas fachadas. de resto. da grande maioria das propostas. as inultrapassáveis leis da propriedade ou da especulação fundiária (sem falar no total alheamento. 65 Conforme obra citada na nota 60 e o artigo «Urbanística à Duarte Pacheco». sua terra natal. na revista Arquitectura. larga. E essa formação explica também em parte o fracasso. rectilínea e tão comprida quanto o necessário. vilas e estâncias termais e de veraneio» indicados pelo legislador urbanista poucos anos antes. e porque os organismos urbanos não paravam obviamente à espera dos planos que os «embelezariam». isto explica-se em parte pela formação de base dos seus autores (eram arquitectos «metidos» a urbanistas). entre 1938 e 1940 e 1940-42. no plano da concretização. estas eram afinal as imagens reais. falecido no ano anterior o voluntarista e autoritário ministro Duarte Pacheco. acompanhando. em vistas do entendimento do «progresso» como valor totalitário. Em Lisboa já se falou dos bairros dos construtores civis como processo de crescimento urbano mais ou menos desenfreado. . foi-se assistindo ao crescimento mais ou menos não planeado de todas as cidades de província. no sentido referido. Na prática. 94) ou Aveiro ligaram o centro tradicional à estação dos comboios. ou as que em Viana do Castelo (fig.° 142. contemporâneas da execução dos desejados levantamentos e plantas «das principais cidades. também da autoria de Fernando Gonçalves. que já na década de 40 faz o primeiro plano «moderno». se dava então início à burocratização de todo o processo. assim foi a que em Braga se iniciava com o edifício do Turismo e se dirigia para o Estádio Municipal. pioneiro de entendimento pluridisciplinar do planeamento.

.

apoiando-se em primitivas e densas estruturas de suporte de madeira (na imagem. no meio da província: foi a inauguração dos célebres fontanários públicos [exemplos por todo o país. na Praça do Comércio. a Rio Maior. ou de Vila Franca de Xira. desde Sobral de Monte Agraço. no Largo do Dr.. O lançamento de redes viárias modernas esteve intimamente ligado à crescente utilização do automóvel como meio de transporte de produtos e de pessoas. Regionalmente. em torres piramidais e com os efeitos de simetria habituais do estilo (como também sucedeu nos lavadouros públicos. versão reduzida deste modelo (concluído em 1940) que o leva a Trás-os-Montes num processo de propaganda da capacidade realizadora do Estado. seu vizinho. Na sua maioria em pedra. em . no Parque Manuel Pereira Coentro. por entre o raro trânsito automóvel. ou até em Bragança. obra de 1936). os fontanários utilizavam o desenho art déco. um grande viaduto que quis competir com o grandioso Aqueduto das Aguas Livres. 98). na saída para Arruda dos Vinhos. em jardim público]. de que é exemplo o de Condeixa-a-Velha). uma enigmática figura com chapéu de coco — pode ser Duarte Pacheco — observa a cena) (fig.. A mão-de-obra abundante e barata compensava então urna tecnologia ainda timidamente industrializada: a construção do viaduto assistiu ainda à já anacrónica passagem da máquina de vapor. atravessando de passeio a passeio como se rua fosse. que a pé iam calmamente «ver a Fig. e foi nas «obras de arte» da engenharia que buscou a sua «obra-símbolo». no alto do arco nascente. e. já pronta. onde se destacaram os postos da PVT (Polícia de Viação e Trânsito) de contorno modernista (fig. surgiram as pequenas construções de apoio. 97): espalhados pelas estradas de todo o país. 95 Lisboa — Viaduto de Duarte Pacheco em construção. foram as pequenas obras de melhoramento público que os municípios ou o próprio Estado incentivaram como «arma» fácil e barata de propaganda das suas novas capacidades. a obra serviria para passeio domingueiro dos lisboetas seduzidos pela novidade. Rodrigo dos Santos.As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano Foi nas infra-estruturas que grande parte do investimento do Estado Novo apostou ao longo dos anos 30. a Vila Nova de Paiva (fig. como os sanitários públicos (em Torres Novas. 95). em Paço de Arcos. Os «filhos» deste viaduto não tardaram — a imagem do arco único a ligar as duas vertentes era demasiado forte: é disso exemplo a ponte sobre o Tua (estrada Carrazeda-Alijó). com os seus típicos arcos triangulados. no largo central. (fig. O desenho modernista foi também utilizado noutros equipamentos «menos nobres». no vale de Alcântara: foto Estúdio Mário Novais vista» do outro lado do vale de Alcântara. na estrada LisboaAlgarve. que em Portugal dava nesta fase um «salto em frente». feita de betão e novidade. Entre vias marginais e novas estradas nacionais. com os correspondentes viadutos ou pontes a vencerem obstáculos naturais (como a ponte em betão de Odeceixe. aí atestam uma época e um «estilo». além de suportar e se prolongar pela primeira auto-estrada portuguesa. ou desde Porto Salvo. 96). o Viaduto Duarte Pacheco (tinha de ser) e a auto-estrada de Monsanto a Cascais (que levou meio século a ligar). no jardim à Avenida do Marquês de Pombal.

Fig. 98 Vila Nova de Paiva — chafariz Fig. 97 Posto da Polícia de Viação e Trânsito: in l 5 Anos de Obras Públicas Fig. Colecção «Dulia» (bilhete-postal) Fig. no vale de Alcântara: ed. 96 Lisboa — Viaduto de Duarte Pacheco. 99 Vila Nova de Poiares — bancos do Jardim do Comandante Bernardo Martins Catarino .

Fig. 100 Portalegre — o Miradouro sobre a Cidade. Projecto do arquitecto Jacobetty. Construção da Comissão de Iniciativa e Turismo (1938). Foto de Carlos Curveta: ed. da Papelaria, Livraria e Tipografia Silva, Portalegre (bilhetepostal)

Oeiras, na rua frente à matriz), com decorativa caixilharia de efeito abstracto e geométrico em portas e ventiladores; ou ainda como os cemitérios (nos arredores de Viseu; em São Domingos de Rana), onde até os próprios jazigos participam nesta euforia estilística do modernismo (como o que se encontra à entrada do Cemitério de S. Domingos de Rana, do arquitecto Carlos Dias, que assinou o projecto do Éden construído). Finalmente, esta linguagem difundiu-se nos jardins públicos, com todo o seu característico equipamento, sobretudo os coretos ou quiosques de betão nos jardins municipais de murtas cidades (Figueira da Foz, Aveiro, Coimbra, aqui frente aos Correios Centrais) e os bancos de costas com desenho em «sol nascente» (Vila Nova de Poiares) (fig. 99) ou azulejados (Figueira da Foz, Avenida de Espanha, demolidos em 1980), as fontes cobertas (com caramanchão superior, na curiosa versão do Entroncamento, no Parque do Dr. José Pereira Caldas), os monumentos (a Luísa Todi, na Alameda do mesmo nome, em Setúbal; em Vila Nova da Barquinha e Sintra, estes em homenagem à «Grande Guerra») e os mirantes [com a panóplia das torres luminosas incorporadas, como no do Estoril, por Jorge Segurado — depois demolido pela construção da marginal —, ou no da serra de Portalegre, de Jacobetty, com suave escadório de acesso (figs. 100 e 101)],

Fig. 101 Portalegre — o miradouro da serra, pormenor

Fig. 102
Lisboa — antigo Café Portugal, no Rossio (actual loja Valentim de Carvalho): foto Estúdio Mário Novais

Fig. 103 Lisboa — Praça da Figueira, Sapataria 28 (demolida)

A divulgação de um gosto — comércio, equipamento e habitação
Se há espaço arquitectónico que tenha sofrido incremento e transformação profunda nesta época, foi o das lojas comerciais, ajudado pela vaga de novos materiais e pelo

Fig. 104 Figueira da Foz Rua de Cândido dos Reis, n.os 79-81, loja Novidades Perfumaria Nally

furor de renovação, que implantou um lettering diferente, provocador e apelativo. As primeiras experiências, ainda dentro do universo do art déco, como a Sapataria 28, à Praça da Figueira, ou a Papelaria Fernandes, no Largo do Rato (ambas em Lisboa), que recorriam ao brilho e à transparência dos vitrais e das cores, sucederam-se obras plenas de exibição de formas abstractas e de tonalidades berrantes, de impacte reforçado por nomes como A Inovadora, a Farmácia Moderna (Régua, Rua dos Camilos), ou a Sapataria 28, já demolida, à Praça da Figueira, em Lisboa (fig. 103), ou mesmo, em plano mais humilde, de simples pintura de fachada, a Drogaria Progresso, de Sintra (Rua de Heliodoro Salgado). Podem destacar-se, no plano regional, obras como A Primorosa, de Sines (Rua de Teófilo Braga), com azulejos e baixos-relevos art déco na fachada, a Loja Rodrigues, inscrita em prédio antigo do centro sadino, a Galo d'Ouro, brilhante e mundana no seu mosaico dourado, abrigada nas arcadas dos Estoris, a Nally, perfumaria de sabor algo «espanhol» na estância figueirense (Rua de Cândido dos Reis, n.os 79-81) (fig. 104), ou ainda A Óptica, de Braga (Rua de S. Mamede, n.º 13), de divertida solução gráfica, ou a Cova da Onça, micaelense e cerâmica (em Água de Pau). E não referiremos as centenas de estabelecimentos mais vulgares que foram a pouco e pouco definindo um estilo próprio de fazer e apresentar o comércio urbano, mesmo que reduzidos aos essenciais perfis de ferro laminado e pintado, aos simples e rectangulares vidros de cada lado da porta e ao soco de mármore escuro (de que é exemplo uma anónima Drogaria e Perfumaria azul e vermelha na Rua do Vale de Santo António, Lisboa) que foram conformando talhos e sapatarias, farmácias e cafés...

Lisboa . 105 Lisboa — loja de modas Sabóia. Rua Garrett: foto do arquivo do atelier de Jorge Segurado.Fig.

típico da província. e às vezes com uma simbologia mais ingénua e figurativa anunciando a sua função (Cova da Piedade. ou da Monumental (esta integrada no complexo do Jardim Cinema) (fig.° 2. porém. para a divulgação das novas atitudes estéticas. havendo que destacar. Bucelas. Raul Martins produzira já um edifício isolado em Lisboa (o Europa. Um pequeno equipamento. estrada de Benfica. Garagens particulares surgiram também. do Porto (Passos Manuel. Há que juntar os exemplos lisboetas da Garagem Parisiense (Rua de Andrade Corvo). na Rua Ivens. Quanto a cinemas. no Rossio). em Campo de Ourique). com as suas Casa do Pão de Ló e Casa das Malhas. loja do Diário de Notícias no Rossio). e o inevitável Cristino da Silva. 107). Além do salão de jogos-cine-esplanada-garagem referido. integrando várias actividades no mesmo edifício. acompanhando as necessidades da expansão automobilística um pouco por toda a parte: de Guimarães (Avenida do Conde de Margaride. com a Casa Quintão. e há que referir também verdadeiros «especialistas». Rua de Raul de Almeida. já que as novas possibilidades espaciais surgidas com o betão armado facilitam a justaposição de actividades. obra maior de Raul Tojal. tornou-se edificação característica deste período em muitas vilas portuguesas. ao Chiado. frente ao Coliseu) a Beja (Bejense. filho do construtor da Vila Berta e que deu nova dimensão arquitectónica à tradição clubista nacional. ao Chiado (fig. n. a galena UP e o interior da loja de modas Sabóia. Autores anónimos e projectistas encartados contribuíram assim. com as melhores soluções [Café Portugal (fig. Ílhavo. como Jorge Segurado e António Varela [a esplêndida Farmácia Azevedos ou a loja O Século. como Leo Wage(?). no Largo dos Duques de Beja). num desenho artes . em 1930. foi o posto dos bombeiros voluntários. promissor autor falecido prematuramente em 1934. 105)]. Largo dos Bombeiros Voluntários). com o Stand Opel. Este último tipo de equipamento. quase invariavelmente constituído por uma simples garagem com fachada de remate denteado (exemplos na Amadora. com o Centro de Novidades.Há que destacar neste campo alguns autores lisboetas com obras isoladas. na Praça da Figueira. vai ter ampla divulgação. na Avenida de Pedro Álvares Cabral. embora não exclusivo da época. Avenida de Manuel da Maia). Avenida da Fundação. autor também da piscina do Hotel Palace da Cúria). Avenida de Afonso Henriques) a Serpa (por José Pinto Parreira). 102). no local do actual. ou Raul Lino. também na Baixa alfacinha. ambas no Rossio. Os equipamentos No domínio dos equipamentos. com o interessante jogo de escadas e galerias suspensas ligando o salão ao interior do próprio cinema (a obra mais interessante de Raul Martins. ou ainda os irmãos Rebelo de Andrade. Agualva. como João Simões. na Avenida da Liberdade (sem esquecer a sua Loja das Meias. em larga medida e em paralelo. a situação era idêntica. as obras de iniciativa particular das que foi o próprio Estado a lançar. há que referir o conjunto piscinas-sede-Cinema Stadium do clube Sport Algés e Dafundo. inaugurado em 1930 (Avenida dos Combatentes da Grande Guerra).

.

Avenida de Pedro Alvares Cabral . 107 Lisboa — Monumental-Salão de jogos.Fig. fonte termal Fig. 106 Luso — edifício das Termas.

não construído. ed. esquina com a Rua de Francisco de Avilez. de 1938. e outras obras para institutos médicos.. mas só no final da década terá Lisboa o seu primeiro cinema verdadeiramente «modernista». com uma Fons Vitae de grande qualidade plástica (fig. no Torel: foto Estúdio Mário Novais 69 Datas referidas em Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa — 1896/1939. como o Abrigo dos Pequeninos. ou ligadas a estâncias termais. à Estrela (Rua de Domingos Sequeira. Instituto Português do Cinema.decorativas «pobre». n. as ruínas de um romântico e 68 Fig. de «bons ares» e ampla panorâmica). a São Vítor. como em 1931 Vítor Piloto projectara o Paris. nos arredores do Porto. Este último autor realizou também um primeiro hospital «modernista» para a Misericórdia de Cascais (Rua de José M. as piscinas com formas modernistas abundaram. no Luso. 1942 os 68 Fig. Ainda outro projecto integrando diversas actividades culturais foi o do Clube Naval Setubalense. como a do Luso [que Cassiano projectara(?) «modernista» em 1938.. Março de 1941. por Félix Ribeiro. De referir ainda. nesta fase. Perto do Porto. Lisboa. 69 . Lisboa. Rua de Adolfo Coelho). e o projecto de Carlos Ramos. na procura dos «ares limpos» e do isolamento. n. ainda existente (muito desfigurado). como se patenteia nas obras balneares da Granja e de Espinho (esta dos arquitectos Eduardo Martins e Manuel Passos) .º 72. em Louredo da Serra.º 9. para o Bairro Lopes (Creche de Júlia Moreira. com o esplêndido projecto de Rodrigues Lima em Santos: o Cinearte. A assistência contou com numerosas creches particulares. do Na revista Arquitectura Portuguesa. a Paredes. Loureiro. na serra de Santiago. com relevo para a do Caramulo (com uma densidade de galerias. a interessante remodelação do edifício das termas (de que autor?). em 1933). no Porto. 108 Maceira — escola primária ECL nas instalações da antiga Fábrica Maceira Lys: in revista Panorama. Filipa de Lencastre. em zona popular e oriental de Lisboa — ambos edificados em espaços declivosos. já de gosto revivalista]. 109 Lisboa — edifícios da farte desportiva do futuro Liceu de D. n. só parcialmente realizado. 1978. 106). simultaneamente e em anexo com o seu hotel. Esta foi também a época dos sanatórios. 28-30) . De realçar as de Rogério de Azevedo. de Paulo Cunha. «moda» terapêutica que deixaria construções imensas em algumas áreas montanhosas. de resto. que se referirão. modernistas e hospitalares como não há no resto do País).

com os seus diversos pavilhões de galenas cobertas. ed. actual posto de serviços radioeléctricos dos CTT). o campo dos transportes e das comunicações recebeu o incremento que a nova dimensão da «velocidade» introduziu: surgiram as torres de controlo ferroviário da CP. de Paço de Arcos. Edificação Reunidas. que nunca chegou a ser construído. Colecção Passaporte «Loty» (bilhete-postal) Projecto do arquitecto Fernando Ferreira. em Oeiras (Rua do Conde de Ferreira. incentivado por Botelho Moniz e muito importante na propaganda nacionalista da Guerra Civil Espanhola (fig. esquina com Rua de Gondarém). n. 70 Fig. outros exemplos foram a sede da Direcção de Faróis. ao Terreiro do Paço. e da Emissora Nacional de Radiodifusão. em Barcarena (projecto de Adelino Nunes e outros. a obra mais importante neste domínio foi talvez a do grande Sanatório de D. 1928). com o edifício dos Correios. ainda de «sabor» déco (Cottinelli Telmo. com seus volumes «secos» e puristas e as simbólicas antenas transmissoras. n. Manuel II. a Leiria. 110).Fig. consolidaram-se nos estúdios e nos postos emissores do Rádio Club Português. na Parede (Rua de João Soares).° 44.° 1 0 1 . em projecto grandioso de Vasco Regaleira71. Agosto de 1943. 111 Vila Franca de Xira — Avenida de Pedro Vítor. Obra conjunta e excepcional no quadro assistencial é o da fábrica de cimentos de Maceira-Lys. marítimo-ferroviária. 1936(?). Foto Paço (bilhete-postal) mecenático gesto arquitectónico são vestígio de um outro sanatório nunca concluído70. Rua do Funchal.° 23). com as suas casas «do pessoal» e escolas primárias de cuidada execução (fig. Lisboa. do Porto. tal como o grande Hospital-Sanatório de Lisboa da ANT. novidade também em expansão na época. Campolide. 71 . As comunicações por rádio. com exemplos cubistas e industriais na Venda Nova (às Portas de Benfica). Rossio. de elegante corpo prismático ou cilíndrico (Entroncamento. Lisboa. Pequenos postos de transformação e da CRGE povoaram também discretamente a expansão da rede eléctrica. 108). por Cottinelli Telmo). 110 Parede — antigo Rádio Clube Português: ed. n. ou ainda as torres de vigilância do tráfego aéreo de Tancos. ou na Foz (Porto. edificou-se a Estação do Sul e Sueste. No domínio oficial. conforme revista Arquitectura Portuguesa e Cerâmica e Conforme revista Arquitectura Portuguesa. em projecto de Tertuliano Lacerda Marques. Novembro de 1938.

no Quelhas. O ensino oficial iria receber também urna «nova imagem» arquitectónica. inicialmente pensada para escola primária. Avenida Zargo). o trabalho de Cristino da Silva para Beja (um bom projecto. Largo do Jardim Municipal. Rodrigues Lima ou Luís Benavente (escadório). Arcádia. Filipa de Lencastre. muito cedo objecto de concursos públicos para novas instalações (entre 1929 e 1930). História da Arquitectura Moderna. denso e expressivo aproveitamento de urna esquina viária em ângulo. e. 1973. para o Bairro do Arco do Cego [aproveitando fundações doutra obra. . Funchal. como Veloso Reis Camelo (nos pavilhões laterais). ansiosa por se afirmar. tijolo vidrado. sendo os liceus então considerados programas tipicamente «funcionais». em Conforme depoimento de Jorge Segurado ao autor mas a sua obra. criando um sem-número de situações arquitectónicas tão despojadamente modernas como sabiamente integradas nas vilas e cidades onde foram edificadas. Afonso Henriques (Lisboa). 73 teria resultado tão satisfatória para o ministro que este decidiu aproveitá-la antes como liceu. 111): Santarém. e para o Liceu de Júlio Henriques. o anexo à Faculdade de Ciências. Outras escolas no domínio do ensino superior seriam lançadas nesta fase: o edifício da Escola Naval do Alfeite. na Rua da Escola Politécnica. na campanha antimodernista e pró-portuguesa na arquitectura)72. entregue depois ao INEF). em Lisboa (por Adelino Nunes). 72 Fig. arquitecto talentoso e inventivo que se dedicou especialmente a este tema. Setúbal. Rodrigues dos Santos (fig. não construído (1934). primordial. obra de Pardal Monteiro. ou mais elaboradas e complexas (Figueira da Foz. a pedido de Duarte Pacheco (fig. volume minúsculo. já nos finais da década. de 1938. Ed. Leiria. mais convencional no exterior. finalmente. mas muito evidenciado por uma boa utilização do lettering e do encastramento dos corpos. mas que desempenharia papel de «bode expiatório» no final da década. com torre suportando o pau de bandeira). tomando este o nome da obra de Carlos Ramos no Quelhas. Também se pode referir a obra de Edmundo Tavares para o Funchal. projecto dos irmãos Rebelo de Andrade. 109)]73. Largo de Cândido dos Reis]. de Coimbra (com Jorge Segurado e Adelino Nunes). de Bruno Zevi. 112 Lisboa — Casa da Moeda. por Nuno Portas. o (outro) Liceu de D. que nela faz a passagem da linguagem ainda afecta ao art déco para uma «monumentalidade moderna» que o havia de impor como o arquitecto das obras «arejadas» do regime. aliás. Lisboa. O projecto do IST. projecto de Carlos Ramos. pedra) e sabendo valorizar arquitectonicamente os acessos (habitualmente colocados nas esquinas arredondadas) e os remates do edifício (transformados em encontro de volumes. Avenida do Dr. Nunes iria em poucos anos construir obras ligeiras e simples [Vila Franca de Xira. à Alameda de D. Avenida de Mariano de Carvalho. Largo do Dr. muitos arquitectos da nova geração. nos quais participaram. sempre usando reduzido leque de materiais (reboco. Filipa de Lencastre. a Escola Superior de Farmácia. complexo de edificações onde se equilibra a tensão entre as dominantes verticais e espectaculares da composição e a concepção «horizontal» e purista do espaço. Avenida dos Combatentes da Grande Guerra. Lisboa (do qual só se construiu a parte desportiva. espécie de «arquitectura-sinal». o conjunto do Instituto Superior Técnico. de Jorge Segurado e António Varela. e. o segundo. ainda para a Anglo-Portuguese Telephone Company. com o interessante volume de caixa de escadas. mas com bons espaços internos (salão e ginásio). nunca concluída. posteriormente ampliado. Surgiram assim os projectos de Carlos Ramos para o Liceu de D.A acção dos Correios e dos Telefones ficou ligada para sempre aos postos regionais projectados por Adelino Nunes. António José de Almeida Conforme «A evolução da arquitectura moderna em Portugal — uma interpretação». Começou com os edifícios das cabinas telefónicas e dos Correios do Estoril — o primeiro. esquina com Rua de Duarte Pacheco. recebeu entre 1927 e 1935 a colaboração de muitos futuros autores.

.

.

Conforme revista Arquitectura Portuguesa. a primeira «geração» das numerosas agências da Caixa Geral de Depósitos. deve realçar-se o ex-líbris da obra modernista oficial da época. Conforme revista Arquitectura.° 42. Passando a obras para serviços oficiais. Portei ou Almodôvar (Rua do 1. 113 Lisboa — Instituto Nacional de Estatística. criando-se com o tempo um «estilo» de prédio de dimensão média. em Valença. Conforme revista Arquitectura Portuguesa. . visto do Instituto Superior Técnico. como os irmãos Godinho tinham construído anos antes os de Massarelos. Também os de Guimarães. 113)74. n. do mesmo Pardal Monteiro. e gradualmente. a Casa da Moeda. Coruche (Rua de 5 de Outubro). entre obras mais elementares ou já projectadas por arquitectos. R habitação As formas modernas foram envolvendo também. as arquitecturas de habitação. 112)]78. estas Caixas inseriam-se aliás na tradição anterior das filiais do Banco de Portugal. depoimento de Jorge Segurado ao autor). adaptável às situações mais particulares e insólitas.° de Maio.constituindo-se. por assim dizer. Raul Martins [com a interessante — e depois desfigurada — obra de Santarém76. e João Simões (com a agência construída em Portalegre77. Lisboa. n. Alfândega da Fé). em verdadeira escola de projectar o edifício público (fig. além das mais convencionais e certamente anteriores. que aprendera como excelente para conservação de edifícios públicos na sua então recente viagem aos Estados Unidos — aplicação que Pacheco reduziu a algumas superfícies por questão de orçamento. Guimarães. com formas «modernistas» tipificadas. a da Horta. como a «solução ingrata» que a revista 74 75 76 77 78 Informação conforme o depoimento de Luís Benavente ao autor. trabalho contemporâneo do IST e seguindo a mesma linha estética. António José de Almeida: foto Estúdio Mário Novais conjunto de indústria e serviços ocupando com sábia diversidade plástica todo um quarteirão [de Jorge Segurado . Na área industrial. Salvaterra de Magos. Covilhã e Alpiarça foram obras de arquitectos. 1938. no Porto (mais «movimentados» e abstractos porém). Buarcos. Lisboa. Lourinhã79. conforme Arquitectura Portuguesa. Açores).° 32. n. mas que continuaram por este período. n. António Varela teria colaborado nas «elevações» dos alçados (cf. 79 Este último do arquitecto Pereira da Silva. ao Arco do Cego. na sua senda trabalhará em seguida João Simões. na época. podem referir-se: o Instituto Nacional de Estatística. que com os mercados regionais tiveram significativo incremento nesta fase: de norte a sul. Finalmente. Setembro de 1937. provando assim a aptidão desta arquitectura para servir as mais diversas necessidades espaciais: matadouros (Vila Nova de Gaia) e mesmo edifícios para câmaras municipais (Barcelos. João Simões assinaria também uns armazéns frigoríficos à Rocha do Conde de Óbidos. ainda do tempo da República. apesar disso. procurando uma simbologia mais académica). em Lisboa. são disso exemplos. menos habitualmente interpretadas dentro do quadro modernista. Covilhã. com certa força plástica (em 1938).° 30. Lisboa. no decurso da qual morreu (de 1934 a 1937). Julho de 1937. Lisboa. já se referiu o papel de Cassiano Branco como propulsionador da renovação plástica das fachadas do vulgar prédio de esquerdo-direito lisboeta.° 28. usando normalmente uma expressão mais conservadora dentro do gosto art déco (por exemplo. completamente vulgarizado e logo transmitido ao meio suburbano e de província. de Viana do Castelo e da Póvoa]. teriam. 1938 (fig. de 1937). Fig. Que Jorge Segurado modulou em planta e onde quis aplicar um revestimento em tijolo vidrado. onde colaboraram Reis Camelo (projecto para Viseu)75. as suas obras pontuais.António Varela. Outras funções deste tipo. Alpiarça (Rua de José Relvas). Avenida do Dr. Uma última referência aos abastecimentos.

com Rogério de Azevedo). Cristino da Silva. os Fig. Mas foi no campo das moradias que as formas modernistas se puderam libertar de constrangimentos e dar «asas» à imaginação criativa: assim o fez Cassiano Branco (na série de projectos para a Avenida de António José de Almeida. ou a Avenida do Marechal Gomes da Costa. ou no caso isolado da Avenida de Columbano Bordalo Pinheiro. 114 Lisboa — antigo Bairro GNR. Carlos Ramos e Jorge Segurado.Arquitectura Portuguesa anunciará em 1937 para «resolver» um lote «impossível»80. assim o praticaram outros autores. permitem um melhor entendimento da nova transformação de valores 80 Conforme o número da revista Arquitectura Portuguesa citado na nota 77 . no Porto (fig. Mesmo as mais pequenas e anónimas obras exibiam na fachada o simulacro formal do «moderno». as obras que referem os arquitectos mais importantes dos anos de 1920-30 insistem nos nomes dos chamados «cinco grandes». n. 115 Porto — Avenida Marechal Gomes da Costa. Fig. casa própria na Avenida do General Carmona. Raul Tojal. ou seja. 115). Rua do Barão de Sabrosa/Rua de Veríssimo Sarmento/Azinhaga das Olaias/Rua de Domingos Reis Quita. por todo o país exibindo o que se julgava ser o sentido do «progresso». por outro. em bairros como o do alto da Alameda de D. n.° 4. ou no chamado Bloco Saldanha. Rua de Egas Moniz. As obras públicas de alcance social. Pardal Monteiro. n.° 888. por isso mesmo. mais raras no uso desta linguagem em tipologia de prédio colectivo. demolida). no alto da Alameda de D. Afonso Henriques (Lisboa). 14 e 24. permita. que. Seguir-se-á aqui um método diferente. trazer para primeiro plano alguns autores mais esquecidos ou menos conhecidos e. em simples fachas decorativas de ferro losangonais... como o Estoril (Cristino da Silva. moradia Os autores Habitualmente. 114). em áreas socialmente privilegiadas. de alcance mais operário e iniciativa camarária.° 14). Afonso Henriques: foto Estúdio Mário Navais 10. Cassiano Branco. a Vale Florido. sem diminuir o entendimento da importância do «mestres». destinado a funcionários da GNR (projecto de Carlos Ramos?) (fig. por um lado. 12. a Casa dos Cedros. do Porto (Rua do Duque de Saldanha). referir autores de geração um pouco mais recente e que. n. ou ainda em estudos para Coimbra (Adelino Nunes) e outras cidades (Viseu. não deixaram de a experimentar pontualmente. de 1937.

Pedro V. a garagem do Comércio do Porto (fig. igualmente obra sua. construída nas traseiras da sede deste jornal. Rogério de Azevedo (1898-1983) marcou sem dúvida lugar à parte no quadra das obras portuenses. de acordo com o programa dominante na Avenida dos Aliados. entre volumes e baixos-relevos simbolicamente Fig. muito sóbria. com Amoroso Lopes. foi continuador «natural» de Marques da Silva. São de referir também as suas creches. na Póvoa de Varzim). e também de uma interessante moradia na Avenida dos Combatentes (cuja decomposição volumétrica em cilindros sucessivos inspirará Siza Vieira na Casa Beires. na Avenida dos Aliados (figs. 119 Porto — Farmácia Vitália. de 1933. em 1933. de 193238). 117 Porto — Farmácia Vitália. monumentalizado.° 1385). Rua dos Clérigos. Nas primeiras obras. que anuncia as suas posteriores e famosas pousadas (Marão) e escolas primárias dos Centenários. a referida Farmácia Vitália. mais pesado e decorado. de Cristino da Silva. garagem do Comércio do Porto (arquitectos Rogério de Azevedo e Baltasar de Castra) «infantis» (fig 118). com movimentada solução de gaveto (Alameda de Basílio Teles/Rua de D. pormenor da fachada . com destaque para a do jornal portuense referido. Filipa de Lencastre. esquina com Travessa de Carlos Passos Fig. Manuel Marques (1890-1956) foi o autor de uma das melhores lojas desta época. Ramos). 118 Porto — creche do Comércio do Porto. Avenida de Fernão de Magalhães. 116).os 34-37. Rua dos Clérigos. Para o final da década. n. logo com uma obra de início (1929). esquina/Largo do Cruzinho). 116 Parto — Praça de D.Fig. porém.° 1 3 1 . seja pela sua coerência e continuidade no tempo. como se vê no Hotel da Póvoa." 34-37 da época (casos de Keil do Amaral ou de Arménio Losa). n. procurar-se-á ainda desenvolver mais a referência à obra de autores menos monografados (como Cristino ou Monteiro) do que o trabalho de arquitectos com obra mais estudada ou já referida amplamente ao longo deste trabalho (Cassiano. n. Azevedo opôs na garagem uma expressão purista tão forte e conseguida como só talvez o Capitólio. onde a escala infantil foi bem entendida. da sede. Januário Godinho (1910-198?) realizou com o irmão engenheiro os armazéns frigoríficos de Massarelos. Claro que com a designação «autores» se pretende dar relevo aos agentes de uma obra de primeira plana. seja pela realização de projectos de excepção. Azevedo procurava já referências regionais que tentava «casar» com os volumes e espaços dinâmicos do modernismo. e a casa própria (na Avenida do Marechal Gomes da Costa. 117 e 119). n. repetidas como modelo pelo País fora. Ao tratamento de gosto «artes decorativas». Arménio Losa {1908-198?) realizou o edifício Fig. na Avenida de Fernão de Magalhães. e um «decorativo» conjunto de habitações em banda (Rua de Marques da Silva. atingiria em todo o tempo modernista. com notável solução gráfica de fachada e de interior.

Retrato de Uma Época. que já as suas posteriores obras dos anos 50 teriam sabido resolver ou evitar — observação feita a partir de uma evidente óptica funcionalista. através dos dois volumes da caixa de escada. no segundo criou ambiguidades nos planos da «pele» do edifício. discretamente decorado com baixos-relevos81. na mesma avenida ou seus arredores. através da discreta movimentação dos panos das varandas. de 1933)82. na Boavista (fig. e. Janeiro-Fevereiro de 1987.° 49. ed. o autor «primitivo» da Clínica Heliântea de Francelos (1926-30). começou bem. . antes referida. pois se baseavam num léxico restrito. com uma interessante moradia geminada na Avenida dos Combatentes (n. Casa de Serralves/SEC. mas nunca muito arrojadas. das quais a da 81 Fig. No primeiro desenhou uma dinâmica articulação entre os três corpos horizontais. Porto. já num plano complementar. iria realizar nessa década três moradias. Poderiam ainda referir-se. depois Prémio Valmor (em 1923). de família ligada às indústrias do mármore. mas que as necessidades pragmáticas dessa mesma construção teve de «sacrificar» algo da sua capacidade inventiva. o autor que manejou com mais conhecimento a tecnologia da construção. Avenida da Boavista. e o catálogo da exposição Arquitectura-Pintura-Escultura-Desenho — Património da Escola Superior de Belas-Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. in Casa de Serralves.do chamado Pinheiro Manso. puderam ter sempre forte participação de colaboradores. sempre elegantes. n. n. ou José Porto. Porto. com um prédio de 1920 na Avenida da República. e um vizinho prédio de gaveto (com Rua de João de Deus). no artigo já citado e publicado na obra de Zevi História do Arquitectura Moderna. Oliveira Ferreira (1885-1957). 82 Conforme Nuno Portas. Pardal Monteiro (1897-1957) foi o arquitecto-engenheiro por excelência: o autor das obras públicas mais preciosas do regime. o tempo: arquitecto. num conjunto exemplar. as suas obras. Museu Nacional de Soares dos Reis. Monteiro. 120). seguro e apreensível com facilidade — construir bem e com segurança era certamente uma preocupação sua. em depoimento ao autor (1976). Em Lisboa. o arquitecto que ensinou no Instituto Superior Técnico. projectado que fora sem uma consciência teórica sólida. ed. 120 Porto — edifício de habitação e comércio Pinheiro Manso. de 1936. 121 Estoril — palacete e jardins. prédio cuja fachada acusa a transição das volumetrias «moles» da arte nova para um art déco mais planificado e geométrico.° 2460 Fig. o artigo «Casa de Serralves — anos 30. construtor da modernidade». Arménio Losa considerava o pinheiro manso ainda impregnado de soluções «impuras». projecto do arquitecto Pardal Monteiro: foto Estúdio Mário Novais Acontece os autores desta época renegarem hoje as suas obras dos anos 30. as informações respeitantes aos arquitectos portuenses foram complementadas com duas obras entretanto saídas: de Manuel Mendes. sinteticamente. com a casa de Manuel de Oliveira (Rua da Vilarinha. 1988.os 418-442). Universidade do Porto.

No mesmo estilo. a fazerem a passagem para o purismo mais próprio dos anos 30. o eclectismo e o «moderno» — fusão que naturalmente devia servir bem a exigência do tipo de programa oficial ou oficioso a que se destinava. depois de ganhar a Carlos Ramos as provas de ingresso em 1933. 122). aliás. em rico desenho art déco. Bolseiro em Paris e Roma entre 1920-25 (com a pensão Valmor). mas ricamente decoradas com toda a panóplia art Fig. 122 Porto — Caixa Geral de Depósitos. n. é o palacete do Estoril. em certa medida. Com a colaboração inestimável de Almada Negreiros. Este desenho poderia definir-se. retomar desenho mais conservador e decorado. 123 Lisboa — antiga Ford Lusitana (local do actual Hotel Ritz). na Avenida da Liberdade. o templo dedicado a Fátima) (fig. apenas com vagos ressaibos déco). Rua Castilho: foto Estúdio Mário Novais déco — da Estação do Cais do Sodré (1928). já referidos (estes mais contidos e sóbrios na decoração. e as gares portuárias de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos. entrando já na década de 40 (com possível referência ao modelo da gare marítima francesa de La Rochelle) defendido contra modelos anacrónicos ou revivalistas. ou nos edifícios do Instituto Superior Técnico e do Instituto Nacional de Estatística. em Lisboa. Avenida dos Aliados Avenida de 5 de Outubro. ser o professor de Arquitectura da ESBAL Entusiasmado com a nova . com a Igreja de Fátima (Avenida de Berna/Avenida do Marquês de Tomar) e o projecto da nova sede do Banco de Portugal na Baixa (que ocuparia o sítio da Igreja de São Julião.os 209-211. o oposto de Monteiro: provindo de família de artistas românticos. então em começo de voga. afirmados na pintura. Os seus edifícios públicos desta década exibem idêntica linguagem. 124). 121). em nova e populosa freguesia. Cristino da Silva (1896-1976) foi. foi o autor inventivo e individualista de uma série de obras cuja qualidade só será comparável à das obras de Cassiano. ern Lisboa) (fig. Prémio Valmor de 1940). mas mais luxuoso ainda. para logo em 1934-37. nas imediações do Casino (fig. pela linguagem fundamentalmente «técnica» e «neutra» que soube usar. iria. como de síntese entre as artes decorativas. em volumetrias elementares. talentoso mais do que esclarecido. à Caixa Geral dos Depósitos do Porto (Avenida dos Aliados. ganhará novo Prémio Valmor (1929).Fig. Só na garagem da Ford Lusitana à Rua Castilho (1930) (fig. valorizando o efeito de esquina. 123) Monteiro entrou francamente (e excepcionalmente) em jogos de volumes mais movimentados. Monteiro soube renovar e qualificar a nova sede do Diário de Notícias (1939. em vez da qual se ergueria. com grandioso espaço coberto interior a lembrar a obra de Terra na Rua do Ouro.

Com os seus «tapetes rolantes». e o do Casino de Monte Gordo. uns utópicos. de 1933-35 (fig. teria «aproveitado» ou «desfigurado» as suas ideias para o mesmo local (Keil realizou de facto. Vale Florido. em obras ainda controladas. cuja mobilidade abria a sala ao exterior. permanece obra primeira. tornando-se o principal mentor estético da arquitectura oficial dos anos 40. Cristino transbordou também a sua intensa actividade para outros projectos. assinado Pardal Monteiro. um programa idêntico de equipamentos) . 126 Lisboa — edifício da Capitólio. o prédio da Avenida de Bocage (que Frederico George considerava o seu melhor projecto. ao contrário de Monteiro (mais defendido este pela formação técnica e menor ousadia como projectista). de Luís de Camões: foto Estúdio Mário Novais Fig. Baixa. concebida quase como uma villa romana purista.«arquitectura moderna» nazi. Apesar disso. 125 Beja — Liceu Nacional de Beja. Cristino referia ainda no mesmo depoimento (nota 83) como Keil. até cerca de 1936: além dos contínuos estudos para o prolongamento da Avenida da Liberdade através do Parque Eduardo VII. de modo mais «intimista». que culminam nesse ano84. 127). 1937: foto Estúdio Mário Novais Fig. com grandiosos pavilhões-restaurantes e feéricos «castelos de água» pelo parque fora. não soube garantir uma coerência de linguagem. estática. com grandiosos painéis de vidro em desenho art déco (fig. e talvez maior. n. 1936. outros nunca realizados. Entre 1926 e 1 9 3 1 . Além dos liceus [primeiro prémio em Beja (fig. com foyers laterais a diminuírem os painéis (1935). 124 Lisboa — desenho para a nova sede do Banco de Portugal. na Rua do Comércio. no Parque Mayer: foto do trabalho realizado para a cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL 1981 Era a mais profunda consola em betão até então construída — como Cristino da Silva referia ainda com entusiasmo em depoimento ao autor (em 1971). Cristino realizou o Capitólio.° 27. 125) e em Coimbra — feminino —. do modernismo lisboeta («simétrica» da garagem de Azevedo no Porto). ao realizar as obras do Parque Eduardo VII. segundo em Coimbra — masculino] do concurso nacional de 1930. já demolido). em 1932-33). Ru. 84 Conforme a revista Arquitectura. Cristino elaborou em poucos anos uma série de bons e inovadores projectos de habitação e equipamentos: a casa para Bélard da Fonseca na Avenida de António José de Almeida. n. salão de festas com cinema ao ar livre sobre a cobertura (uma das inovações típicas da época). o da Rua de Alexandre Braga. executou um estudo para o 83 Fig. 126). Prémio Eva de 1933). o da casa própria.os 4-6 (sede da empresa Amadeu Gaudêncio.° 20 (em 1931. que Speer trouxe a Portugal em 1941. n. foi no decorrer dos anos 50-60 alvo de contínuas modificações clandestinas que o desfiguraram. Lisboa. constituía novidade mecânico-anquitectónica. que o evoluir da moda cedo sacrificou: logo transformado em sala de cinema fechada (1933). com a famosa consola em betão virada a sul83. no Estoril.

n° 170 (de 1934) — variante. 133 e 134). bem como os «monumentos» que foram o Éden Cinema. que preenchia totalmente. 128)]. n. a pedido do muito viajado cliente. De António Varela apenas. durante o qual a sua linguagem se transformaria profundamente. Lisboa. como um espaço «naval». de referir ainda o antigo Hotel Victória. de 194088. virada para a habitação em Lisboa.° 27. 131). com «galeria-deck» a toda a volta da construção [segundo informação da esposa de Colucci ao autor (anos 80)]. o Lar dos Pobres.° 4 [foto com o autor e proprietário. de referir ainda a clínica Indiveri Colucci. n. Jorge Segurado. ou os pavilhões das Exposições de Nova Iorque e de São Francisco (1939). desta vez destinada a equipamento (tão convencional em planta como 85 Lisboa — interior do antigo Café Portugal. 87 Concebida.Fig. bem articulada através do volume envidraçado e cilíndrico. n. Filipa de Lencastre. 89 Conforme a revista Arquitectura Portuguesa. Avenida do General Carmona.° 40. em articulação com o quarteirão. em obra seca e despojada. . 128 conjunto desportivo do Jamor e uma espectacular Casa de Repouso para os Inválidos do Comércio (com Tertuliano Lacerda Marques). cuja rica diversidade de ângulos. 1936. infelizmente demolida. 86 Conforme a revista Arquitectura. Depois da série de lojas dos finais de 30 [o luxuosíssimo Café Portugal (fig. Julho de 1938. já caminhando para uma estética neodecorativa. 129)86. complementada com a do Liceu de D. De Cassiano Branco (1897-1970) já se referiu extensamente a obra principal. 132) (1938) 89 . de outros projectos seus para prédios alfacinhas. e o Coliseu portuense (em 1939) (figs. Lisboa. foi à volta da grandiosa Casa da Moeda (1934-48) que toda a sua obra se articulou. como referia em depoimento ao autor (1980). foi revelando uma maior preocupação teórica e um interesse por estudos de história da arquitectura que o distinguiram dos colegas. podem referir-se a ampliação do Hotel das Termas de Monte Real (fig. que nesta fase trabalharia frequentemente em conjunto com António Varela. arquitecto Luís Cristino da Silva (e esposa?)]: foto Estúdio Mário Novais Fig. 127 Estoril — Vivenda Vale Florido. em Matosinhos. recorda a solução da Casa da Moeda (fig. das Caldas da Rainha. com inventiva fachada de movimentados volumes. no Arco Cego (fig. ou ainda. Lisboa. e a notável fábrica de conservas Algave Exportador. 88 Conforme a revista Arquitectura Portuguesa. Maio de 1941. Depois da série de lojas já referidas85. em Paço de Arcos. I30) 87 . dedicou-se em pleno ao estudo da nova Praça do Areeiro. Rossio (actual loja Valentim de Carvalho): foto Estúdio Mário Novais Onde pôde «lançar» a novidade do novo revestimento de chapa metálica aparente nos exteriores. de cuidadosos detalhes (fig. na Avenida da Liberdade. n. dos Restauradores (1929-31).° 74.

n. 132 Matosinhos — desenho perspectivado de uma fábrica de conservas: na revista A Arquitectura Portuguesa.Fig. Filipa de Lencastre. p. 1943. 131 Monte Real — ampliação do Hotel das Termas de Monte Real: na revista Panorama. rua marginal ao caminho-de-ferro Fig. 129 Lisboa — Liceu de D. 130 Paço de Arcos — antigo Instituto Indiveri Colucci. de Julho de 1938 .os 15-16. Bairro Social ao Arco do Cego: foto Estúdio Mário Novais Fig. 45 Fig. n° 40.

134 Porto — Coliseu. da exposição promovida pela Associação dos Arquitectos Portugueses. além da subentendida «crença» funcionalista. no campo privado. demolido). ao Quelhas (1929-30). . do seu mestre Terra (linguagem que. com expressão entre um art déco (modernizante na época e no contexto) e um classicismo referido à vizinha sede do Lisboa & Açores. Rua de Passos Manuel: ed. Porto (bilhete-postal) e forte («cortou» com as obras e os clientes do Éden e do Coliseu). Porto inspirada em alçado). são a prova clara da interpretação contida e da procura de simplicidade no projecto (o contrário de Cassiano. Ramos não tenha tido obras notáveis. teve no projecto semiabortado do Liceu de D. Todo dedicado ao ensino e ao projecto de equipamentos assistenciais ou educativos. ou como os mundanos Casino e Palácio Hotel de Espinho (ambos em 1929).os 234-242. na Rua do Ouro. Conseil de Vasconcelos (Tabacaria Africana). sofreu desde os finais da década de 30 a mutação da linguagem purista (da qual tinha. ou ainda como 90 Ver catálogo Cassiano Branco. há que destacar também o conjunto de pavilhões muito «à Gropius» para o Instituto Navarro de Paiva (de 1931). n.° 101) (fig. à Estrada de Benfica [parcialmente construídos (fig. como a sua primeira. última manifestação «modernista». Personalidade instável Fig. Não se quer dizer que. 135)]. pouco dado a compromissos ou delicadezas (de quem se contam histórias ligadas tanto às peripécias da produção como às aventuras amorosas). Filipa de Lencastre.Fig. simplificada repetiu num delicado baixo-relevo para um prédio à Rua de Alexandre Herculano. a secura e a «planicidade» dos volumes. e no Pavilhão de Rádio de Palhavã (1928-33) os seus expoentes modernistas. 137). a sede da Agência Havas. na Baixa (de 1921). 133 Porto — Coliseu. também na Avenida da Liberdade (em 1942. de uma maneira quase cruel90. uma concepção muito pessoal e quase «barroca») para a do Estado Novo historicista. Neles. de C. Rua de Passos Manuel: foto Alvão. em Cascais (ambas em 1930) — e a criatividade transbordante e multiplicadora do Café Cristal. aliás. esquina com Rua de Rodrigo da Fonseca. 1986. hospitais e escolas já antes referidos. se se quiser). Carlos Ramos (1897-1969) foi o «mestre» culto e sereno que poderíamos contrapor a um Cassiano «genial». organizada pelos arquitectos Hestnes Ferreira e Gomes da Silva. conjunto tão marcante naquela cidade [ambos já demolidos (fig. e o Bairro Municipal de Olhão/Fuseta (em 1925). Sem esquecer creches. bem como a dimensão utópica das propostas de urbanização para a Costa da Caparica ou para a Cidade do Filme. n. 136)].

Fig. 135 Espinho — antigos cinema e casino: ed. Colecção Passaporte (LOTY) (bilhete-postal) .

Rua dos Clérigos: foto o J Estúdio Mário Novais . com Rua de Alexandre Herculano Fig. n.° 29. 137 Lisboa — edifício de esquina da Rua de Rodrigo da Fonseca. n.Fig. Rua de São Domingos de Benfica. Navarro de Paiva. 138 Porto — Instituto Pasteur do Porto.° 18 (construído parcialmente) Fig. 136 Lisboa — antigo Instituto do Dr.

embora desfigurada. quer pelos equipamentos (como o projecto do Mercado de Eivas). o prédio na esquina da Rua de Alexandre Herculano com a Rua de Rodrigues Sampaio. com interessante relação com o espaço urbano e impecáveis interiores). quer. A sua visão arquitectónica passou pelo sentido de discrição volumétrica e de integração ambiental. ed.° 137.° 38 [de 1934. Fig. a luxuosa Embaixada da Turquia (na Rua Castilho. com preferência pelos volumes salientes em prisma (as bow-windows em betão). da Fundação Calouste Gulbenkian.as obras para o Funchal. de resto. que trabalhou ligado ao Município lisboeta. sobretudo. e a casa ao Dafundo. na Rua dos Clérigos. entre fontanários e o grande sanatório. mais novo que os autores referidos.° 13892. em obra escrita. durante as décadas de 1940-50. Couto Martins conseguiu obras simples e correctas. das Arcadas do Estoril (de 1936)]. atitude rara entre nós. no já citado artigo do autor. Mas a sua importância e o papel capital como autor e como actor político verificar-se-iam depois. fronteira à linha dos eléctricos marginal. 1986. onde interpretou um «lote gótico» ao modo moderno (fig. é de recordar também o Instituto Pasteur do Porto. Julho de 1980. Ramos será lembrado sobretudo pelo sentido didáctico da sua prática na Escola de Belas-Artes do Porto e pela sua respeitabilidade profissional91. 139 Lisboa — Aeroporto da Portela de Sacavém: foto Estúdio Mário Novais ou Horácio Novais(?) 91 92 Ver catálogo Carlos Ramos — Exposição Retrospectiva da Sua Obra. António Couto Martins. . Keil do Amaral (1910-75). 138)]. que apreendeu na arquitectura holandesa contemporânea (de Dudok sobretudo) e que divulgou. ou pela primeira obra da gare do Aeroporto da Portela. n. de Lisboa [já do início dos anos 40 (fig 139)]. n. existe ainda). apesar dessas incursões na vida cosmopolita [com as referências que são o Bristol Bar (de 1926) e o Café Colonial. Lisboa. n. pelas elegantes moradias e prédios que soube construir na cidade: de destacar as duas habitações no alto da Avenida de Pedro Alvares Cabral (uma delas. Mas. iria ter as suas primeiras obras já em plena década de 30: celebrado sobretudo pelo Pavilhão de Portugal na Exposição de Paris de 1937. foi também autor que merece uma referência. com curiosas habitações em banda adaptadas às declivosas artérias da capital madeirense (em optativa versão «modernista» e «regionalista»). Ver dados deste edifício na revista Arquitectura. Utilizando um vocabulário restrito.

nos costumes. De facto. Em paralelo. . nas cores).. de algum modo. numa síntese de desenho e de formas que pouco a pouco alastraram à província. dialecticamente. modificada por essa mesma tradição.. de «sabor» ou sentido mais articulado com as sucessivas tradições locais (nos materiais. sugere-se aqui uma viagem por um modernismo «português» feito de obras anónimas. a inovação estilística foi também.Referindo basicamente exemplos dos anos 20-30. estas tradições foram. «transportadas» para o inovador desenho do art déco ou do funcionalismo.

O ninho
Percorram-se as lojas: os doces de Amarante (a Lai-Lai, a Casa das Lerias); das confeitarias às padarias (a Marcoense, plena de cerâmicas geométricas, em Marco de Canavezes); dos cafés de Braga (o Astória, A Brasileira e a Nova Brasileira) aos de Viana do Castelo (a Esplanada Girassol 1930); os mercados com pátio em Guimarães [torreado e escultório (fig. 140)] e em Valença (triangular e boleado). Observem-se os painéis com baixos-relevos, de granito e de pedra, ao gosto art déco em prédios de habitação em Viana do Castelo (Rua de Olivença) e em Braga (Rua de Eça de Queirós, Rua de Júlio Lima) e em lojas (Sapataria Paiva, de Famalicão) e garagens (a Garagem Avenida, de Guimarães). Veja-se o chafariz de granito «construído pela Ditadura Nacional, ano VII — 1934» em Carrazeda de Montenegro... Abunda a cerâmica: na fábrica com pavilhões de frontão denteado Cerâmica Rosa Alvarães, a Barcelos, em prédios com revestimento de azulejo ou mosaico, na Póvoa de Varzim [Rua do Tenente Valadim e Rua de José Malgueira (fig. 142)], em painéis figurados na escola de Lanheses, a Ponte de Lima. E há as lojas atlânticas [o pavilhão Diana Bar, na praia poveira, a Barbearia Leão e a Águeda Nocturna, de Viana do Castelo (fig. 141)] e as do interior (a Casa das Gravatas, vimaranense, demolida cerca de 1979).

Porto e arredores
Na cidade: respire-se um ambiente estético entre os beaux arts e o art déco, na Avenida dos Aliados (fig. 147), com cúpulas e torreões; vejam-se os grandes blocos modernistas do Bolhão (Rua de Fernandes Tomás) ou da Cedofeita (Rua de Pedro Nunes), cinzentos, pesados e de ondulantes pilastras; ou os pequenos edifícios de lote estreito, com marmoreados (Rua de Mouzinho de Albuquerque), com cerâmicas [Largo de Alberto Pimentel (fig. 143), Rua de Santa Catarina] e de volumes puristas (Rua de Casais Monteiro, Rua de Augusto Rosa e Rua de Lima Júnior). Visitem-se os alegres e «gráficos» equipamentos, luminosos e por vezes decorados em excesso: da Garagem Passos Manuel (fig. 144) aos Armazéns Cunhas (fig. 145) (passando pelas setas do Ricon Peres, da Rua de 31 de Janeiro), com «nos» de néon e sobre frágeis pilastras; avance-se do edifício comercial Alfredo Moreira da Silva e Filhos (Rua de D. Manuel II) ao Teatro Rivoli, na Praça de D. João l, com baixos-relevos populares e cénicos... Os arredores: sintam-se fabris e atlânticos com a Fábrica Progresso, 1935, de Espinho, a Central de Vilar do Paraíso, à Granja, e a Universal, conserveira de Matosinhos; ou mais «pequeno-burgueses» com os castiços equipamentos e casas desta última cidade (o talho O Vencedor, da Rua de Brito Capelo, ou uma moradia na Rua de Tomás Ribeiro); sejam fluviais e populares com o Club Portuense, da doca de Gaia (fig. 146), ou o Estrela-Cine, de Coimbrões; ou então «chiques» e saudosos com os abandonados sanatórios de Montalto (a Valongo) e o demolido Hotel Cidnay, de Santo Tirso. Avancem decididamente suburbanos com o Cine-Teatro Vitória, da Circunvalação, a Fábrica de Tecidos da Carvalha, a Gondomar, e o delicado portão do palacete de Miramar...

Fig. 140
Guimarães — Mercado Municipal

Fig. 141
Viana do Castelo — loja Águeda, Largo de 5 de Outubro

Fig. 142
Póvoa de Varzim — edifício na Rua de José Malgueira, n.° 16

Fig. 143
Porto — edifício no Largo de Alberto Pimentel, n.° 23

Fig. 144
Porto — Garagem Passos Manuel, na rua do mesmo nome: na revista Panorama, n.os 5-6, 1942, página sem número

Fig. 145
Porto — Armazéns Cunhas, Praça de Gomes Teixeira,

n.os 4-22

Fig. 146
Vila Nova de Gaia — Club Fluvial Portuense, rua marginal ao rio, n.° 108

Fig. 147
Porto — Avenida dos Aliados: ed. Casa Emege (bilhete-postal)

151 Coimbra — Fábricas Triunfo. 150 Figueira da Foz — edifício de habitação na Rua de Bernardo Lopes Fig.Fig. estrada para o Porto .

mais meridional. da Rua de Ferreira Borges). o Cinema Avenida e alguns prédios de habitação e comércio. envolvendo Coimbra e arredores. 152)]. ou as recatadas Termas de Monte Real. com os equipamentos (o Centro de Diversões. do Teatro Stephens ou dos Bombeiros. dão o tom de veraneio à área de Leiria. com o Mercado Municipal. 152 Figueira da Foz — edifício de habitação. da Mealhada para Arouca. que teve grande desenvolvimento arquitectónico nos anos 30: um. percorra-se Condeixa-a-Nova.Fig. o Salão-Restaurante Nicola) e da desequilibrada expansão habitacional para as colinas (Rua dos Combatentes. com jarrões de cimento adossados (fig. ou ainda o já referido conjunto dos Cimentos Lys. na Marinha Grande. na Rua da Liberdade. a Padaria para Todos. e. «espanhola». a Figueira popular e colorida nas casinhas dos arredores [Buarcos (fig. 149). a Casa das Novidades. 149 Penacova — Preventório: ed. 150). a atestarem a única artéria urbana que cresceu na época (a Rua do Visconde de Alverca). Entre prédios e lojas. Rua de Dias Ferreira). e a Demétrio). o geométrico portão da Covina. uma área setentrional e interior. finalmente. em sóbrio art déco. a Serração de Madeiras da Batalha. a Pensão Café Europa.° 122 Fig. a lembrar Bissaya Barreto e o Portugal dos Pequenitos (como o pavilhão da Obra Antituberculosa. 1938. confirmam a sua dimensão industrial. outro. Percorra-se a Coimbra-cidade. 148)] ou uma fachada do Laboratório da PSP (Rua do Conde de Ferreira). Visite-se a Figueira da Foz. ou as casas de veraneio da Costa Nova [onde surge uma ousada . Largo de Camilo Castelo Branco A Beira Litoral Cinco «núcleos» principais compõem esta densa área. Na região. o Teatro-Parque Cine. Covas]. de 1935.. Arredores de Coimbra: vejam-se as Casas da Criança de Figueiró dos Vinhos ou de Castanheira de Pêra e o antigo Preventório de Penacova (fig. Isto sem falar nos raros exemplos de «quartel» (Rua de 28 de Infantaria) ou de Igreja Evangélica (Rua das Lamas) ao gosto artes decorativas. as Fundições Gomes Porto]. à volta de Leiria. De referir ainda o cinema de Pombal. 153).da. complementando o Casino e com um sem-número de fachadas habitacionais «superart déco» [na Rua de Bernardo Lopes. As alegres varandas da praia da Vieira. agora em exibição «modernista». passando pelo Vouga. 151). atestam a importância recente desta cidade. em Maceira. 148 Leiria — Parque Infantil TenenteCoronel Jaime Filipe da Fonseca. L. com «coroa de louros» a encimá-la (fig. Ílhavo) atestando a continuidade de uma «casa de emigrante». do centro e da saída para norte (fig. costeiros. na Rua de Fernão de Magalhães. e Pedros. e. L. na Rua da Sofia) e dos abastecimentos e comércio (o mercado. Lisboa (bilhete-postal) no centro histórico (os Correios e o quiosque fronteiro. enquanto as solenes fachadas art déco dos Correios. em versão ainda mais «louca». outros dois ainda.. Vislumbre-se a ria: as excêntricas e inventivas moradias à beira da estrada (Vagos.da. Lavos. n. Veja-se a Coimbra da intromissão modernista Fig. Leiria-cidade tem curiosidades interessantes. Rua da Liberdade. de pilares revestidos de «gomos» cerâmicos. na Figueira da Foz e à roda da na de Aveiro. das fábricas [as bolachas Triunfo. na Rua do Brasil. Rua de Guerra Junqueira. como um pórtico de entrada em parque infantil [Largo de Camilo Castelo Branco (fig. ou as Vias Sacras de Fátima. Rua de António José de Almeida. Neogravura. tema decorativo sempre presente). balnear e festiva. das garagens (Auto-Industrial.

passem-se as zonas de indústria. 158). Costa Nova de Aveiro — abrigo de embarcadouro Fig. Veja-se ainda a sede dos bombeiros e o Ninho da Criança.. Fig. a União Ciclista de Águeda — sem esquecer curiosos edifícios de habitação igualmente em Águeda (Rua de 15 de Agosto) ou a fachada torreada do Teatro de Anadia. com a fábrica de trigo de Sever-Pessegueiro e a de latoaria em Vale de Cambra. que complementam as fábricas de chapéus (Nicolau da Costa). tão conotada com a sofisticação urbana. 1934) (figs. ou os Automóveis Ford e o Lar dos Pobrezinhos (Oliveira de Azeméis). 154.consola em betão no embarcamento da ria.. Pelo Vouga. 155 Fig. 156 Cúria — Piscina Praia Paraíso. Constituem raros e notáveis exemplos a creche Lactário Maria do Carmo Carmona. em Chaves. Aveiro.. o Cinema de Macedo (fig.. os Bombeiros de Carrazeda de Ansiães. 153 Buarcos — edifício de habitação no Largo da Lapa Fig. a Garagem Transmontana. por arquitecturas ligadas ao fenómeno termal [a notável piscina do Hotel Palace da Cúria (por Raul Martins. 159) e o Teatro Mirandelense (fig. tão importante nesta zona pelos anos 30: as estações de serviço da Cúria. agora abandonado (figs. a Central. A Gutenberg (estúdio fotográfico) ou a Garage Avenida. as oficinas automóveis de Sangalhos. nas «longínquas» e rurais paragens transmontanas. 157)] e ao da viação rodoviária. a uma cimalha denteada ou a um lettering mais . com a Atlantic. 155)] e de Ovar-Furadouro. do Palace Hotel da Curia 1953 Trás-os-Montes e Beiras — o interior Norte São naturalmente pontuais os exemplos de uma estética modernista. a Trindade) e dos curiosos prédios de suave consola encurvada e decorações ondulantes. Outros equipamentos. mais «serenas». cidade com a «avenida das garagens modernistas» (a Lourenço Peixinho. em Chaves. de calçado (Ariosta) e de borrachas (Sanjo) de São João da Madeira. in Diário da Manhã. Para o interior passe-se pelo edifício dos bombeiros da Mealhada (com torre feita de planos abstractos). como a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo. pela adaptação das suas escalas ao pequeno meio de província. de 1935. 156. A insólita escola de Arouca aproxima-nos de uma outra paisagem. de Bragança. resumem os signos modernistas a uma caixilharia mais geométrica. 154 Costa Nova de Aveiro — abrigo de embarcadouro: «Jubileu de Salazar».

de Alexandre de Almeida (bilhete-postal) Fig. Rua do Dr. 5. do Palace Hotel da Curia: ed. Mirandela (bilhete-postal) Fig. Avenida da República. 157 Cúria — Piscina Praia Paraíso. Avenida da República: ed. Luís Olaio Fig.Fig. 158 Mirandela — Teatro Mirandelense. 159 Macedo de Cavaleiros — antiga Cinema de Macedo. Casa Fernandes. 160 Chaves — edifício de habitação art déco (junto à ponte romana) .

.

. como o Cine-Teatro da Guarda e o prédio das telecomunicações de Viseu]. a Casa da Moda. as raras indústrias que utilizam simbólica de progresso (Automecânica da Beira.Fig. ou os sanatórios do Caramulo. em Viseu (de «aventais». junto à estação de caminho-de-ferro cuidado. na Rua de Marques d'Ávila) e sobretudo em Lamego (conjugando com originalidade azulejos e granito (na Rua de Almacave e na Praça do Comércio). Chaves). e nos edifícios de habitação. 161)]. 162). . mas com um pouco mais de invenção. como o Colégio Fig. 162 Vouzela — Instituto Marista. e Higiene. O resto são prédios de severa e pesada fachada art déco. 160)]. no Pinhão duriense. no Largo de Humberto Delgado). em Mangualde. 161 Castelo Branco — edifício de habitação e comércio na Rua de Sidónio Pais Marista de Vouzela (fig. e A Moda na Covilhã). com a inesperada Casa Estoril. tão granítica quanto possível [Chaves (fig. Castelo Branco) e os inevitáveis e pétreos «chafarizes de inaugurar» (Vila Nova de Paiva). em Castelo Branco. denteados e antropomórficos. na Covilhã (em boa articulação de esquina. e os que se instalam no meio urbano. em Vilar Formoso. Vejam-se ainda algumas lojas mais ousadas (Farmácias Félix. ou lojas timidamente modernas (Macedo de Cavaleiros.. As Beiras prolongam esta severidade. como em Castelo Branco [Rua de Sidónio Pais (fig. nos equipamentos [há os que se alimentam da paisagem de montanha.

anos 30 Fig. 164 Lisboa — átrio ele escada em edifício de habitação na Rua de Óscar Monteiro Torres.Fig. 163 Lisboa — vista aérea sobre o conjunto do Instituto Nacional de Estatística e área envolvente. n.º 40 .

Rua do Telhal . na zona da Junqueira Fig. a cidade das «tascas» convidativas e frequentes. estendais e couves). hortas ou casas saloias — bairros arrabaldinos primeiro. de quatro pisos.. É a Lisboa dos prédios de rendimento correntes. com claras e geométricas pilastras na fachada (ou aventurosas e «gratuitas» varandas de betão e abstractas «fachas» salientes). que recebeu a Estação do Sul e Sueste. que. 165 Lisboa — traseiras de prédio de habitação com marquise. é a cidade dos novos bairros. Fig. É.Lisboa cidade A Lisboa modernista é a dos novos equipamentos que isoladamente transformaram os seus espaços urbanos com símbolos discretos de progresso (o monumental Terreiro do Paço. 166). com balcão de mármore e paredes de frisos cerâmicos e de degrades geométricos modulados em painéis (fig. quando integrou a Garagem Lys. geradores de cidade depois (fig. no Desterro). Ou das padarias de caixilharia exterior losangonal e motivos vegetais no azulejo interior.. foram ocupando corno ilhas antigos lugares de quintas. finalmente. mais populares ou mais «burgueses». 163). 164) (com tectos de estuque imitando o mármore e «sofismáticos» candeeiros pendurados). a simples Rua da Palma. Azul. encerradas por portas de chapa exibindo complexo desenho de curvas e rectas. das Colónias ou da Bélgica. e das reflectoras e luminosas marquises (fig. e é também a cidade das caixas de escada ornadas de azulejos déco (fig. com encrespado tecto de estuque. 165) que preenchem a traseira (convivendo umas com as outras em logradouros atafulhados de gatos. 166 Lisboa — fachada da loja Ginjinha Lusitânia.

.

168 Costa da Caparica — Pensão Santo António. desde o precursor Mercado de Luísa Todi aos armazéns e Fig. A Flor Algarvia). ambos situados nas ligações às estradas do interior). sempre instalados em eloquentes edifícios de frontão art déco e volumes puristas). dada pelos inúmeros equipamentos de utilidade pública (a Escola dos Bombeiros ou o Teatro da Academia Almadense.. aos prédios de habitação com alpendre (Morta. Colecção Passaporte «LOTY» (bilhete-postal) .º 39): ed.. em xadrez cerâmico. ou ainda a Cooperativa Piedense. expressa no denteado e apilastrado cais de embarque de Cacilhas. 168) e Hotel Praia do Sol. Fig. n. e a ligação umbilical à capital. 167 Setúbal — edifício de sanitários no cais de capitanias portuárias. Rua do Marquês de Pombal. Rua de Cândido dos Reis). Uma referência ainda às fábricas dos arredores sadinos (o edifício do refeitório do Outão ou os pavilhões da fábrica da Sociedade Industrial de Lavradores do Sado). ou ao simples e torreado posto de sanitários (fig. Avenida de Teófilo Braga). embora aquém da grandiosa proposta de Cassiano Branco.Lisboa a sul do Tejo Percorra-se a veraneante e modernista Costa da Caparica. com o núcleo central articulado à volta do posto de turismo e do mercado e a feição pequeno-burguesa comprovada pelas humildes Pensão Santo António (fig. densos baixos-relevos (Montijo. 167) (sem esquecer o apeadeiro ferroviário do Quebedo. Setúbal merece destaque. Apreenda-se a dimensão colectivista e operária de Almada e da Cova da Piedade. na Quinta de Santo António (Rua de Almada. com importante faixa de equipamentos dispostos ao longo dos novos aterros. as escolas primárias da Rua de Leonel Duarte Ferreira. ou Sesimbra. ou pesados efeitos de simetria (Barreiro. ou a Setubauto.

.

Sintra ou Caxias. 169). com as esplanadas e piscinas de praia [Tamariz. com as decorações em cachos de uva em fachadas de Arruda dos Vinhos. 169 Alhandra — conjunto de habitações na Rua de Sousa Martins. Vila Franca de Xira e Loures. 171 Paço de Arcos — sanitários públicos. bombeiros (Canecas ou Sacavém) e «tasquinhas» (a Estrela do Minho. 172 Sacavém — Sport Club Sacavenense. com as respectivas fábricas. construindo requintadas e opulentas moradias no Estoril. «internacional» e luxuoso. Fig. de Sobral) aos utilitários e «chãos» mercados (Amadora). no Estoril (fig. Finalmente. 170 Estoril — Esplanada do Tamariz: ed. até ao da Rinchoa. Santa Iria. Completam este quadro os equipamentos. jardim (Avenida do Marquês de Pombal) (fig. de Olival Basto). de Sacavém a Vila Franca (José Olaio. por Norte Júnior. com os casinos (desde o do Estoril. de Sintra. península rural e provinciana. 170)]. os talhos da Malveira (o Central Número 1 e a Salsicharia Moderna) e o Matadouro de Sobral de Monte Agraço. promovido pelos discretos refugiados polacos do nazismo). mais grosseiras e afirmativas no Algueirão e no Cacem.os 25-43 Lisboa a norte do Tejo São múltiplas as dimensões da península de Lisboa: mundana e balnear. Avenida dos Combatentes). 171). Península também clubista e operaria [o Desportivo de Paço de Arcos. n. Litografia Barrault. cuja diversidade vai dos cinemas com «espírito de cidade» (o espaventoso Carlos Manuel. junto ao largo do coreto . de 1945. l 72)]. MEC de Santa Iria da Azoia) e as camionagens (A Barraqueira. A habitação reflecte este quadro.Fig. Colecção «DULIA» (bilhete-postal) Fig. ou o simples Cine-Teatro. no Algueirão). o Sport Club Sacavenense Fig. mais suburbanas em Algés e Dafundo (Rua de Cândido dos Reis. com as estações de eléctricos da turística linha «de Sintra às Azenhas do Mar» (Colares) e ainda as rendilhadas casas de férias (Praia das Maçãs). com os Socorros a Náufragos (Paço de Arcos). ou ainda populares e poveiras em Alhandra (fig. demolida) e ainda os sanitários de Paço de Arcos (fig. com a Drogaria de Carcavelos (na Rua de 5 de Outubro. Copam.

174). Fig. viradas ao mar e ocultando prédios que aproveitam os estreitos lotes da malha urbana para aluguer de veraneio]. 175). com decorados prédios de habitação e comércio e o Teatro de Korrodi. n. agrícola. Depois penetrem-se as industriosas vilas e cidades. núcleo de moradias modernistas à volta do pátio). 175 Nazaré — edifício de habitação. 173 Caldas da Rainha — antiga Garagem Capristanos. 173). a Torres Vedras. um Museu Malhoa]. ou observem-se os baixos-relevos e cerâmicas dos policromos e humildes prédios em Peniche. ou em Alcobaça. cidade dos equipamentos e dos parques [uma torreada Garagem Capristanos (fig. passando pelo Bombarral. e os núcleos de termalismo (o Vimeiro. das garagens e do intenso comércio (a adega Sadias. com os agregados piscatórios [as decorações prateadas e salitradas nas fachadas da Nazaré (fig.. ou a Areia Branca com o Bairro Santos. Termine-se nas Caldas da Rainha. com a curiosa piscina murada). vinícola e residencial (com o curioso conjunto da sede dos bombeiros e prédio «da cegonha». esquina da Rua elo Coronel Soeiro de Brito com Rua de Leão Azedo Fig. alfaiatarias e armazéns)." 33 Fig. Manuel de Arriago. Praça do Dr. 174 Torres Vedras — edifício de habitação na Rua de Carlos França. ou com outros e originais alçados de fachas curvas) (fig. a Garage Avenida ou os talhos.º 5 .. desde Torres Vedras.A Estremadura Primeiro veja-se a faixa de praias e falésias. n. fronteiro. Visitem-se os núcleos de férias (Santa Cruz e as suas cilíndrico-prismáticas Vivendas Maria da Graça.

o Ribatejo exibe frequentes revestimentos cerâmicos ou estucados nas fachadas de habitação (Pontével. 177). e A Gráfica. o Mercado de Alpiarça]. no Entroncamento. em Torres Novas. 176)]. Mais a norte. . de bons interiores. na Rua de Santo António). de pequena e próspera cidade de província. como o Cine-Teatro. à Rua do Prior do Crato. a Peugeot Scalabis ou a Barbearia Elegante. e até inventivas construções de modernismo quase «vernacular» (em Abrantes. e. Coruche).. na central Rua de Guilherme de Azevedo] e também obras características de uma rica região agrícola [o Lagar de Azeite. ou Tomar.º 23 papelaria). de Fig. espaços ligados à camionagem [a antiga Empresa de Viação (fig. em Cernache do Bonjardim. com oficinas e Fig. outra área. no centro da vila). 177 Santarém — Teatro de Rosa Damasceno Almeirim (fig. n. na Avenida de António da Fonseca).Fig. uma escultórica central eléctrica (junto ao no Almonda. uma insólita torre (de 1935) com serpenteante escada exterior. às Portas do Sol (fig. 178 Almeirim — lagar de azeite na Rua de Coruche. inclui. mostra bairros ou fachadas que recordam as dos «patos-bravos tomarenses» de Lisboa (Santarém. 176 Cernache do Bonjardim — antiga garagem da Empresa de Viação Cernache (azulejos de Túlio Vitorino) O Ribatejo O «núcleo» à volta de Santarém encerra equipamentos e lojas sofisticadas [na cidade. Região de terras «moles». o interessante Teatro Rosa Damasceno.. 178). envolvendo Tornar (que exibe equipamentos luxuosos.

O Alentejo No Sul parece haver um «casamento» entre a tradição antiga (dos baixos relevos e motivos geométricos na decoração da arquitectura. surgem em Moura (Rua de Luís de Camões) ou no Redondo (Praça da República). São as caiações que dão de facto «sabor» alentejano a uma vulgar frente de prédio (Castelo de Vide). de ascendência presumivelmente árabe) e as interpretações art déco — modernistas que por aqui se vão encontrando (mais garridas no Algarve.. o edifício do Café Pancadinha. Largo dos Duques de Beja Fig. a uma moradia cubista (Crato) ou a uma garagem de Odemira. desde a luminosa Adega de Sines (fig. 180). ajudado também pela «terra do barro» que o Alentejo sobretudo é. ou na estrada de saída de Ponte de Sor). por vezes apresentam galenas ou «arcadas» (no Cercal. que exibem algumas características vernaculares interessantes. de Santiago do Cacem. que num ano mudou de cores e de expressão (figs. em Beja. revisite-se a cimalha da pequena habitação de Milfontes. com pavimento cerâmico e «abstracto»). permitindo a fácil modelação da forma e o desfrute do claro-escuro. 184. 181 Sines — Adega de Sines. numa geometria mais invulgar em Montemor-o-Novo (Rua de Aviz) e em Niza (ao lado do teatro). Até uma discreta decoração numa adega do Redondo. ou um painel de azulejos num prédio de Beja (Rua de Mértola) ganham outra dimensão. Rua de Gago Coutinho . O ponto culminante deste «casamento» pode sentir-se na portentosa cimalha da Garagem Bejense. mais caiadas no Alentejo). 181) à ocre Sapataria Moderna. como a mutabilidade no tempo. Isto é visível sobretudo em construções mais simples. no Cercal (fig. a ingenuidade dos motivos ou a precariedade das soluções. bem como os nomes das lojas.. mirem-se as imbrincadas grelhas de cimento da Vivenda Mana Luísa. num gosto art déco mais sóbrio. Vejam-se as cimalhas denteadas ou «em leque» das casas térreas de São Luís (e das lojinhas do Cercal. Fig. quase uma escultura (fig. 180 Beja — Garagem Bejense. Mas é mais corrente as construções surgirem faiscantes na sua caiação branca [o Centro Comercial de Milfontes. 185). Prédios de habitação. 179 Cercal — edifício de habitação e comércio Vivenda Maria Luísa Fig. 179).

Fig. construída por José Pinto Parreira (inicialmente para cinema) . 182 Serpa — garagem.

ou a Automecânica. Os equipamentos distribuem-se de modo esparso por esta vasta província. pontuadas por cilindros brancos e extensos volumes caiados. o Alentejano. 183 Estremoz — moradia na Rua do Teatro Fig. na estrada para Alcácer). o Vasco da Gama. 184 Vila Nova de Milfontes — edifício de habitação popular na Rua de Vicente Ferreira. ou em Portel. um sóbrio Sport Nisa e Benfica e uma elegante e metálica fachada da H. os cinemas (Cine Parque Esperança. na Avenida da Estação. embora de forma pontual: em volume destacado. em Évora. com pavimentos em «estrela de vidro» e falsos marmoreados nas paredes. na Rua de Mértola (Beja). em Odemira e em Campo Maior. 182). surgem também pela região alentejana. numa obra «paladiana» de engenheiro algarvio. em conjunto muito «lisboeta». 183)]. Deve fazer-se ainda uma referência ao típico café meridional (em Portalegre.. com esmerado átrio de entrada (e na série da Avenida de Vasco da Gama). com os típicos corpos cilíndricos. e as garagens [a já referida de Serpa (fig. na foz do no Mira. o Arcada. e em Estremoz. em Serpa. ao ar livre.° 6 (pintura em 1981) .na Rua do Forno. na Praça do Geraldo). de Sines. bem corno às granjas e fábricas isoladas (a herdade Euroflor de Pegões. ou ainda em Ponte de Sor). de novo em Ponte de Sor]. Fig.. em casas frente aos jardins.. no extenso terreiro de Ponte de Sor. a fábrica de Palma. finalmente (único projecto de autor identificado). e. 185 Vila Nova de Milfontes — edifício de habitação popular na Rua de Vicente Ferreira. e em Évora. compacto. fronteira a Vila Nova de Milfontes. n. Vaultier em Beja são temas isolados.º 6 (antes de 1981) Fig. Mais correntes são os mercados (em Almodôvar. aberto e linear). na Rua do Teatro (fig. Moradias mais «abstractas» e «eruditas». n. quase sempre confinados ao espaço urbano: um elegante hospital de desenho art déco..

casarão de subtis contornos art déco (fig. que já se foi desenvolvendo por esta época na faixa costeira. em Monte Gordo e na Praia da Rocha (fig. 186)]. e as fábricas e bairros operários de Olhão/Fuseta. de divertido lettering). 189)]. Ainda de referir ocasionais edifícios de habitação e comércio [Portimão. em toda a província. Rua de João de Deus. Rua de Cândido O Ventura.Fig. Bravo. ou nas inventivas e miniaturais casinhas de férias. 186 São Bartolomeu de Messines — edifício de habitação na Rua de João de Deus. quiosque e Capitania. Fig. 187 Praia da Rocha — Grande Hotel da Rocha: ed. Olhão). ao Largo do Dique). P. Café Cine. O turismo. 187).º 115 O Algarve Aqui são mais eclécticas as cores e mais delicados os pormenores. n. Cine Parque. 188). por comparação com o Alentejo: o desejo modernista vê-se de novo nas platibandas [São Bartolomeu de Messines (fig. exprimiu-se de forma ainda discreta e quase ingénua: no romântico Grande Hotel da Praia da Rocha. Praça da República (fig. Nas cidades devem destacar-se: o núcleo de equipamentos em Portimão (o cinema maior. de Jeremias J. em Loulé. Rua de Portugal) e nas lojas (Casa Argentina. Praia da Rocha (bilhete-postal) . Olhão regista nesta época o maior incremento de edificações. o conjunto de habitações de Faro (Rua de João de Deus e Rua Justino Cumano). em Tavira. ou de lojas (a Casa Dias. nas fachadas (em Olhão.

Avenida Marginal Fig. n. 189 Portimão — edifício de habitação e comércio na Praça da República.º 18 . 188 Praia da Rocha — moradia Mirante.Fig.

as moradias timidamente modernas da Avenida do Infante (sempre com um telhado. 191)] e a fábrica Casa Leacock. os Correios. que remata a Avenida Ornellas — expansão viária principal da época — com uma inventiva diversidade de volumes torreados e de espaços interiores [com destaque para o pátio e a lota (fig. a lembrar os melhores do Caramulo. mas igualmente concebido com largueza (sobretudo o salão de festas e os átrios). na avenida modernista mais central. suporte da indústria dos bordados. e o falhado projecto de Carlos Ramos para essa finalidade. devem assinalar-se os prédios dispersos. 192)]. a Avenida Zargo [já referidos. a disfarçar os «excessos» modernos da cobertura em laje de betão).. Rua de Fernão Ornellas As ilhas — a Madeira Na ilha. típicas do meio insular [exemplo. e o grandioso sanatório dos arredores.. Avenida Zargo . 191 Funchal — edifício dos Correias. na Avenida Zargo (fig. No resto da cidade encontram-se as lojas sofisticadas. é ainda de referir o Liceu Jaime Moniz. 190 Funchal — pátio do Mercado dos Lavradores. Fig. o dos fotógrafos Perestrellos. com grande «força».Fig. vasto e convencional edifício. à Avenida do Infante. Além destes projectos maiores. no desenho sóbrio da fachada simétrica (fig. centro de convívio ribeirinho por excelência. a Mimo. ou o do Café Apoio. 193). os chafarizes de pedra vulcânica envolvendo azulejos. 190)] e que ocupa todo um quarteirão. menos interessante. as manifestações modernistas resumem-se praticamente ao Funchal e aos arredores e são dominadas pela obra maior de Edmundo Tavares: o Mercado dos Lavradores (fig. de Adelino Nunes. como os do actual Turismo.

.

Fig. Avenida Zargo . 193 Funchal — Mercado dos Lavradores. Rua de Fernão Ornellas Fig. 192 Funchal — loja Mimo.

.

. No restante arquipélago. 194 Furnas de São Miguel — Hotel Terra N ostra. os Lacticínios do Loreto (na Povoação) e esparsas lojas e moradias (Água de Pau. de interiores concebidos até ao mínimo pormenor com as melhores madeiras e estuques (figs.. as obras modernistas são muito pontuais: o Café Atlântida. na ilha Terceira.. Além destes trabalhos há ainda a assinalar. Assim terá o Eng. e. uma moradia em Santa Cruz das Flores. 195 Horta. e. Nas outras ilhas. com um «caso» muito especial. de sua autoria. depois.Outras ilhas — os Açores Neste arquipélago. em Ponta Delgada (de 1934). em Angra. . Furnas). 194. 196). da Horta (no Faial) (fig. por um lado. que se segue em importância. a loja de Informações-Turismo. entrada mais «exótica» — as Furnas — e ligado ao tema adequado a alimentar o progresso na região — o do turismo. com a sua generosa aplicação de mármores e Fig. onde soube valorizar uma esquina da Rua da Sé (hoje o Banco Português do Atlântico). 195). aguarelista e músico. o banco do Montepio. que. Além destas obras.º Vasconcelos sonhado o modernismo açoriano na sua terra Fig. centrando a sua actividade à volta da Sociedade de Turismo Terra Nostra. em São Miguel. construiu de tudo um pouco. ambas em Ponta Delgada. de Vila do Porto (Santa Maria). Em primeiro lugar deve citar-se o esplêndido Hotel das Fumas. relaciona-se. Faial — Sociedade Amor da Pátria. e as decorações da Exposição Industrial das Fumas.º Manuel António de Vasconcelos. interessado na arquitectura. e a inovadora Barbearia Gil — mármore rosa sobre uma esquina de solar tradicional e basáltico (fig. interior estuques em monumental art déco. e sobretudo. é a ilha de São Miguel a que mais evidencia o legado modernista. técnico culto e viajado. ainda hoje conservado quase impecavelmente. 197 e 198). com jardim de Inverno delicado e íntimo. por outro. uma fachada no Pico. na Avenida de Gaspar Frutuoso. a casa própria. o Jardim Antero de Quental (ambos em Ponta Delgada). 199). o mais são os azulejados e sóbrios Balneários Municipais. é o clube Amor da Pátria. o da acção do Eng. à sua tradicional primazia.. se isso se deve. caso único no País. a remodelação do fronteiro Casino (de 1937). a sua sala de sessões de esplêndidos vitrais e lustres (fig.

º António de Vasconcelos .Fig. 198 Fumas de São Miguel — Hotel Terra Nostra. 196 Ponta Delgada — Barbearia Gil Fig. desenho aguarelado Fig. Ponta Delgada do Eng. 197 Furnas de São Miguel — Hotel Terra Nostra: foto Nóbrega.

Fig. Faial — Sociedade Amor da Pátria . 199 Horta.

luz O PERCURSO ESTILÍSTICO A arte nova A moda e as lo|as O azulejo. ambientes e exotismos Pormenores. materiais e interiores Fábricas e garagens Uma arte nova portuguesa? Vulgarização e rarefacção da arte nova — transição para o art déco Estilo «artes decorativas» — o art déco A génese Caracterização Formas e matenais Do primeiro «moderno» ao advento do Génese em Portugal Linhas dominantes A habitação Aproximação do nacionalismo relações com a arquitectura nacionalismo 63 63 64 67 69 . «alma» da arte nova portuguesa . Casas.ÍNDICE Agradecimentos Introdução 5 6 E V O L U Ç Ã O TÉCNICA E A R T Í S T I C A NOVOS MATERIAIS E TECNOLOGIAS 10 O As primeiras obras À volta de 1890 — o ferro «urbaniza-se» O ferro em plena arquitectura da cidade A decadência Uma síntese O betão armado — os primórdios Os anos 20 — «a arquitectura de betão» A charneira de 1929-30 ferro 11 12 14 15 21 23 25 27 28 33 36 37 38 38 41 42 43 44 46 51 52 54 57 Os outros materiais — vidro. plástico..

instituições. utopias A era dos equipamentos Os autores O ESTADO NOVO — DAS OBRAS PÚBLICAS À VULGARIZAÇÃO DE UMA NOVA ESTÉTICA 73 77 81 86 A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições Símbolos e concursos A «arquitectura efémera» 87 91 93 O urbanismo As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano A divulgação de um gosto — comércio. equipamento e habitação Os equipamentos A habitação 94 101 105 107 115 Os autores O M O D E R N I S M O EM PERCURSO REGIONAL O Minho Porto e arredores A Beira Litoral Trás-os-Montes e Beiras — o interior Norte Lisboa cidade Lisboa a sul do Tejo Lisboa a norte do Tejo A Estremadura O Ribatejo O Alentejo O Algarve As ilhas — a Madeira Outras ilhas — os Açores 116 129 129 133 134 139 141 143 144 145 146 149 151 155 .A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE E A ARQUITECTURA 72 DA MONARQUIA À REPÚBLICA Desenvolvimento urbano.