JOSÉ MANUEL FERNANDES

ARQUITECTURA MODERNISTA EM PORTUGAL [1890-1940]

gradiva

ª edição: Dezembro de 1993 Depósito legal n.© José Manuel Fernandes Arquitecto/Gradiva Revisão do texto: Manuel Joaquim Vieira Design gráfico: André do Rosário Fotocomposição e montagem: Multitipo-Artes Gráficas.° 72 122/93 Noto do Editor: As imagens não referenciadas são do autor. Lda. Impressão e acabamento: Printer Portuguesa Direitos reservados a: Gradiva . r/c.Telefs. 21. 3974067/8 1300 Lisboa 1. L* Rua de Almeida e Sousa.Publicações. . . esq.

para a zona de Lisboa.os anos lectivos de 1977-78. ainda devo citar os arquitectos Júlio Ansião e Domingos Tavares. António Brito. Mendes e Alberto Picco. A documentação gentilmente cedida pela família do Eng. 3. A documentação referente aos trabalhos de Porfírio Pardal Monteiro e de Carlos Ramos. em Ponta Delgada. 1978-79 e 1979-80). A todos eles agradeço a valiosa colaboração. e muito especialmente o arquitecto Vítor Mestre. foi também fundamental para o estudo daquela região. que colaborou nos exaustivos trabalhos de pesquisa de campo e de organização deste livro. cuja consulta nos foi facultada pelos arquitectos António Pardal Monteiro e Carlos Manuel Ramos. Agradeço pois este apoio imprescindível. Também em muitos aspectos fui ajudado por colegas e amigos. então director do Serviço.AGRADECIMENTOS Este trabalho alicerçou-se fundamentalmente numa bolsa de estudos concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian entre 1979 e 1 9 8 1 . José Fernando Canas.° ano lectivo de 1977-78 e 4. dos fotógrafos do Estúdio Mário Novais e ainda dos fotógrafos Sr. Adalberto Tenreiro (área do Alentejo). com manifesto entusiasmo dos alunos participantes (cadeira de História da Arquitectura Portuguesa. Outros apoios deverão ser citados.º António de Vasconcelos. sempre acompanhou atentamente o desenvolvimento da investigação. António Cristo (área de Coimbra). para o Porto. Doutores Jorge Gaspar e Maria João Madeira Rodrigues. Também as investigações que dirigi nos anos lectivos de 1977 a 1980. dos Profs. através do seu Serviço de BelasArtes. permitiram fundamentar mais solidamente a informação referente a Lisboa. Helena Ribeiro Santos e Luísa Góis (área nortenha). pois directa ou indirectamente contribuíram para o «corpo» do trabalho: os do Centro Nacional de Cultura. Mas a contribuição maior (e mais reconhecida) foi a da arquitecta Maria de Lurdes Janeiro. O Dr. foi igualmente imprescindível para este trabalho. Carlos Marques. . no então Departamento de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Artur Nobre de Gusmão. cujos nomes aqui refiro com o meu reconhecimento: arquitectos Júlio Teles Grilo (área de Chaves).

talvez «para que tudo ficasse na mesma». mais fáceis de subverter e renovar a literatura e a pintura foram dois deles. por comparação com as experiências similares europeias — aspecto que agora se pode. por razões de desfasamento técnico e sociopolítico em relação ao desenvolvimento geral do País. lhe definiria um limite preciso. uma especificidade e até. e que pode exprimir-se nesse termo. às intervenções de Sá Carneiro ou de Pessoa). integráveis (com algum esquematismo) numa abordagem da produção na metrópole peninsular. vemo-lo também aplicado em Portugal. deu ao referido período. uma originalidade.. no tempo e no espaço.2 De facto. melhor entender e valorizar. vemo-lo aplicado. considerou-se que haveria que procurar as raízes do «aparecimento e desenvolvimento da arquitectura moderna» (e assim se intitulava o estudo de investigação) muito antes da década de 1930-40. o decorrer desta tendência ou fase arquitectónica em Portugal? O estudo efectuado incidiu entre duas «balizas». basta pensar nos trabalhos de arquitectos portugueses 1 Termo utilizado por José-Augusto França para designar a geração de arquitectos que nos anos 30 se foi afirmando em Portugal dentro de uma perspectiva modernizante (A Arte em Portugal no Século XX.ª série. os anos de 1890 e de 1940. sem o conseguir ainda cabalmente). 1974). pelo menos no campo da arquitectura. se quisermos. «modernista» (primeiras tentativas de ser «moderno». como muitas outras coisas neste país lusitano. Bertrand. às obras de um Amadeo ou de um Almada (e mesmo. implicava talvez começar por campos diversos dos da arquitectura. por exemplo em Espanha. que são a Madeira e os Açores — assim foram entendidas e estudadas as arquitecturas destes arquipélagos na presente obra. marcada pela ideologia arquitectural enunciada na Exposição do Mundo Português. que indiscutivelmente constituiu em Portugal a sua definição e o seu primeiro apogeu (e a data de 1890. Também os limites deste «movimento» no espaço português se afiguram difíceis de demarcar. . nos campos das outras artes visuais. 4.° 132.. se houve um movimento cultural «modernista» nas nossas artes e letras dos anos 10 e 20 do século actual. in revista Arquitectura. um desfasamento então criado e só superado a partir dos anos 30. a arquitectura terá no essencial permanecido arredada dessa gesta. o ciclo do modernismo arquitectónico tardio coincidirá já. a vontade de mudar linguagens e expressões arquitectónicas com um sentido social e vanguardista a um tempo. pelo menos. vago. que entre nós se confundiria com a ligada à «arte nova» ou à de «princípio de século». Pensou-se também que a «viragem» histórica de 1940. com a divulgação sistemática do uso do betão armado e das formas «cubistas». enquanto vinte anos antes começara em Espanha um homónimo «modernismo» que ainda podia dialogar com curvas modern-style e alvenarias tradicionais de tijolo e pedra. há prolongamentos adjacentes. Lisboa. n. a partir do qual demasiadas coisas mudaram. 1979. Tal facto. a «histórica» distância. em Portugal. na literatura.É intenção desta publicação divulgar aspectos gerais da arquitectura chamada «modernista» em Portugal1. mas a investigação poderia certamente enriquecer-se e até «clarificar-se» melhor se estendida a outros espaços de influência lusa. meio século recuada.. àquela produção arquitectónica dos inícios de Novecentos.. porque. Como definir com precisão. surge marcando uma geração e o início de uma crise nacional). Lisboa. entre nós. Deste modo. 2 Assunto já focado pelo autor em «Para o estudo da arquitectura modernista em Portugal». Termo ambíguo ou.

seria interessante explicar um pouco do modelo teórico deste trabalho. têm sido destruídas. inovadores e criativos da produção arquitectónica. nas obras públicas oficiais para as colónias de África e da Ásia (as últimas. passando em seguida para a sua «tradução» artística. sem querer forçar estas relações. em 1979. . evidentemente ligados ao desenvolvimento industrial no mundo «europeizado» de Oitocentos. por exemplo. e depois espacial. por razões de equilíbrio analítico e das evidentes limitações práticas. Conforme adaptação do texto do relatório da referida bolsa de estudos. fora da(s) grande(s) cidade(s). ideologias. um enquadramento que reconhece no corpo social duas fases bem marcadas na expressão da arquitectura desta época em Portugal: uma época ligada à «velha» Monarquia e à nova República. desfiguradas ou simplesmente alteradas e cuja visão fotográfica é aqui possível na sua forma primeira e já desaparecida. neste capítulo como nos outros. por esta razão se abre o livro com a descnção e exemplificação dessas inovações técnicas. interpretadas e nacionalizadas»4. os edifícios menos conhecidos ou os aspectos mais originais. para as notas de rodapé.para o Brasil. Entendeu-se que o fenómeno da modernização em arquitectura aceitou como determinante primeira a introdução de novos materiais e tecnologias. numa tradução mais directa da pesquisa levada a cabo pelo trabalho de campo. universo de algum modo com a sua coerência e sentido próprios. aí. de Trás-os-Montes a Monte Gordo. muitas vezes fruto de autores locais ou procurando uma adaptação às condições do sítio. a valorizar a «pequena obra». de origem europeia. referências precisas ou petites histoires. sempre que possível. datação e localização dos edifícios foram recolhidas em 1979-80. ficou-se pelo que se espera seja uma «primeira fase». do Faial a Castelo Branco. reservam-se. parece-nos. ou. Termina-se avisando que as imagens apresentadas são apenas uma «amostra» do material referido no texto: que o «armazém» restante possa alguma vez ver a «luz do dia» é o nosso voto. permitindo mais facilmente do que nas grandes cidades compreender como as novas técnicas e formas foram por cá entendidas. outra claramente identificada com o advento do Estado Corporativo. Finalmente. a tradução cultural dos modelos eruditos. também ele se reclamando de «Novo». duma escala ou função apropriadas. para além da sua apresentação em livro (o texto foi «fixado» em 1986)3. 3 4 A toponímia. autores. Outro aspecto importante diz respeito ao já assinalável número de obras que. «dispersa esta pelos pontos mais inesperados do território. e tenta-se ver como a tradição local foi afectando a produção de obras inovadoras. em menor escala). apesar de tudo. autores. que pouco a pouco soube conformar e enquadrar os novos dados. através. sempre interessantes. enquanto um sentido mais geral e global será dado pelo «texto corrido». As imagens tenderão. num plano seguinte (e interactivo com o primeiro) houve uma resposta estilística e formal. neste espaço de quinze anos desde o início da recolha de informação. entendeu-se importante estabelecer um constante acompanhamento. se se preferir. Datas. mas monótonas. adstrita ao clássico «continente e Ilhas». no entanto. adquire um sabor muito especial. Mas o desenvolvimento social acompanha naturalmente o processo da evolução técnico-artística e. mostra-se um «Portugal modernista». Por último. mas também regional. Assim se vai falando de obras. o texto final foi revisto em 1993.

plástico.Novos materiais e tecnologias o ferro O betão armado — os primórdios Os outros materiais — vidro. luz .

pavilhões de exposições. «farol» de uma nova geração. também o crescimento acelerado das cidades. se àquele faltava naturalmente uma preparação estética. 1889 é a data-limite para uma primeira etapa do desenvolvimento do capitalismo em Portugal. e portanto pelo restante país que a capital comandava (poderia então falar-se de uma «vulgarização do ferro»). crise financeira. sendo o seu trabalho murtas vezes relegado apenas para o tratamento das fachadas. Lisboa. pelas exigências de cálculo matemático que o emprego da tecnologia do ferro implicava. o engenheiro ganhava papel crescente na execução dos novos edifícios. com relevo para Lisboa. mercadorias ou produtos fossem abrigados e pudessem receber a multidão imensa que os utilizava — e que só o ferro permitia construir e cobrir de forma satisfatória (em prazos curtos.. portanto. 5 Em termos socieconómicos. quando os elementos metálicos fruto da produção industrial começavam a ser utilizados para construir pontes e viadutos. mas. fugindo ao entendimento e ao domínio do «arquitecto-artista». catálogo da participação portuguesa. ed. Lisboa. simbólico e operativo para uma análise da génese da arquitectura moderna em Portugal: procurar-se-á tomar clara a relação desta com a importância crescente dos novos materiais na construção. A. pioneiros na revolução industrial desde Setecentos. nas partes mais representativas e simbólicas. A Marques de Carvalho considera 1888 o «ano do ferro». Regra do Jogo.. Este. com conotações nacionalistas. aplicando as modernas possibilidades das estruturas metálicas. pelo contrário. definindo amplas áreas entre pontos de apoio). nomeadamente de vastos espaços públicos onde comboios. Data simbólica de uma mudança geral que começou a processar-se. Nesta época. esses campos eram agora contraditórios. foi-se definindo um conflito entre duas profissões ligadas à construção: arquitectos e engenheiros descobriam que o campo artístico e o campo técnico deixavam de se identificar. a meados do século passado. gerava novas exigências funcionais. o ponto de partida temporal. o arranque da última década do século XIX serviu também para pontuar uma decisiva aceitação da nova tecnologia do ferro na construção de Lisboa. para este essa preparação era agora manifestamente insuficiente. mercados e gares ferroviárias6. 1977. ed. depois do «salto industrial» de 1870. Noutra perspectiva. o considera Manuel Villaverde Cabral em O Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no Século X/X. pelo contrario. Fundação Calouste Gulbenkian. exibindo uma área mais funcional e prática. Os edifícios reflectiam então muitas vezes este isolamento mútuo das duas actividades. 1980). 1888 é o ano de nascimento de Fernando Pessoa. pelo número de realizações construtivas (Arquitectura de Engenheiros. mais «espiritual». Mas voltemos atrás. um pouco por toda a Europa (sem esquecer as estufas e outras elaborações românticas. como habitualmente. Deste modo. . mas com evidente falta de sentido estético. assim. sobretudo em Lisboa. com economia de meios. Um novo surto de construções metálicas de relativa importância ergueu-se à volta de 1890. que iniciava então o seu segundo fôlego5. crise política e moral. entre edifícios industriais. que o cansaço do parlamentarismo e o choque do Ultimatum demarcavam. iam traduzindo em ferro). pois as necessidades de novas funções e espaços urbanos eram cada vez mais da competência do «homem do cálculo». construídas nos tradicionais materiais nobres e quantas vezes exageradamente decorativas e densas.O ferro Meio século antes da Exposição do Mundo Português. demarcando gerações e preparando revoluções. que os Ingleses. com uma população em aumento permanente. armazéns portuários ou simples fábricas. o nosso país atravessava uma crise de facetas múltiplas: crise de crescimento industrial. articulada com uma relação diferente e imposta com as colónias africanas. pouco a pouco. sendo este patente. que irá relançar o mito sebastianista messiânico. no mesmo autor e que. 6 J.

projectado curiosamente por um arquitecto. que. da Asseca-Carregado (1860-?) e do Rossio de Abrantes (1868-70) serão os exemplos pioneiros. fora do contexto urbano. esta situação reflectia-se. em Coimbra (1874-75). 8 Associação de Arqueologia Industrial da Região de Lisboa. a ser aplicado nas décadas seguintes. naturalmente. João Pires da Fonte. com dimensões globais e uma expressão algo «primitiva». modernizará. sobretudo de França e de Inglaterra e. E o caso da ponte pênsil sobre o Douro. também o ferro começou aqui a ser utilizado em situações experimentais ou parciais. durante cerca de um século. mais leve e resistente. continuou. Outras utilizações do ferro nesta fase correspondiam a partes de edifícios com maior complexidade. em Lisboa. de resto.As primeiras obras Em Portugal. móvel e cilíndrica. o das vigas de sistema tubular8. aliás. em 1843. 1982. Imensa estrutura com vários pisos. de que as da Praia do Ribatejo (1860-61). como era o caso da cúpula do Observatório Astronómico da Ajuda. em menor escala. pouco prestigiadas culturalmente. Como nos outros países. e sobretudo para as que irão vencer a tradicional barreira que o vale do Tejo sempre representou à ligação entre o Norte e o Sul do País e que o progresso mecanizado tentará agora anular. o do edifício da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense (depois do Anuário Comercial).1). ou para resolver necessidades reconhecidas como exclusivamente funcionais. imitando as formas clássicas habituais na pedra e suportando pavimentos de abobadilha de tijolo. Mas um exemplo mais «arquitectónico» desta fase inicial é. utilizava ainda enormes pilares de ferro fundido. que o uso posterior do ferro laminado. 7 Dados recolhidos em Dossier Encontros à Esquina. na década de 1880. sem dúvida. edição Dados sobre as pontes do Tejo obtidos em Roteiro das Pontes Metálicas do Vale do Tejo. em Pernes e Ródão. edição da policopiada do Centro Nacional de Cultura. ou do viaduto de Xabregas. Este tipo de pontes. em Portimão (1875-76) (fig. ainda apoiado em pilares de pedra. prolongando-se a sua construção mesmo pelos primeiros anos do século XX e generalizando-se por todo o país: na década de 1870. em Portela de Coimbra (1873). Lisboa. no Porto. na Guarda (1876). da Alemanha. em Benavente (1875). que substituiu a das Barcas e antecedeu a de D. adequado ao atravessamento de rios de caudal pequeno e médio. depois. em Santarém (1876-81) e sobretudo em Viana do Castelo (1877). Um processo construtivo novo. e de novo pelo Tejo. e construído entre 1846 e 18497. . 1981. pela dependência em relação à importação do próprio material. com destaque para as pontes. Foi a partir da década de 1860 que a implementação dada aos transportes pelos sucessivos governos começou a exigir a construção de inúmeras obras de engenharia ferroviária. e portanto sem grande preocupação estética. por Jorge Custódio. sobre Alcântara. fez surgir na nossa paisagem as hoje tradicionais pontes metálicas de tramos rectos e perfis cruzados. Luís. apoiada em estruturas de tipo mais convencional para os restantes espaços. com o habitual desfasamento no tempo em relação às experiências europeias congéneres que se iam fazendo com o ferro — desfasamento ainda agravado. em Valença (1885) e em Fão (1888). serviu a linha de cintura ferroviária desde 1854.

centrais na — Portimão (bilhete-postal) Fig. respectivamente. agora monumento nacional. E em 1885 foi a vez do Mercado da Praça da Figueira. Azambuja (1904). mas sim acentuarem o vasto espólio constituído pelas pontes metálicas portuguesas. ou ainda casos mais tardios. Não é objectivo destas referências serem exaustivas. que continuaram a ser inauguradas depois de 1900: Belver. Penacova. de pedra) e de tramos e tabuleiros (rectos. a gare de Santa Apolónia e o Pavilhão de Exposições (conhecido como Palácio de Cristal). 1 Portimão — pontes sobre o Arade: edição Pacheco. alfacinha. sem por isso merecerem o desaparecimento (o caso da Ponte de D. da A década de 1890 assistiu à construção de mais passagens metálicas sobre este rio (em Abrantes e Constância). basculantes ou móveis). em arco. Muitas outras pontes haveria que referir. Coruche ou Ponte de Sor.Fig. A arqueologia industrial melhor se saberá ocupar deste campo. utilizaram elementos metálicos como suporte. a quase infinita série de alpendres. cujas datas se não indicam. como Alcácer do Sal e Odemira. por último. em Caminha. quer em relação às formas de apoios (metálicos. que as há muitas. em 1909. Note-se que os dois edifícios já se «exibem» claramente dentro de contexto urbano. Voltemos à nossa cronologia: antes da época-chave de 1890. Seita & C. de igual modo. Também não interessa ao âmbito deste estudo uma análise mais detalhada das tipologias de pontes. 2 Figueira da Foz — Saião de Inverno do Grande Casino Peninsular: edição da Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz (bilhete-postal) . na sua maioria. apenas parte interna de um edifício periférico. Porto de Muge (1904) e Chamusca (1906-11). o outro. comum a ambos os exemplos. L. o «limite de idade» útil.ª. hoje desaparecidos. também no Pocinho. de caixa aberta ou fechada. duas datas são normalmente referidas. Luso. Ferreira do Zêzere. Régua. Maria. dissimulado dentro de um parque. postos e pequenas construções de apoio que povoaram toda a rede ferro-rodoviária e que. seguido pouco depois pelo congénere tripeiro de Ferreira Borges (inaugurado em 1888). em curiosa variante basculante. De notar. por coincidência relativas a factos marcantes na arquitectura do ferro em Lisboa e no Porto: em 1865 inauguraram-se nessas cidades. que raras vezes foram demolidas e vão atingindo hoje. curvos. a escassa articulação com a cidade: o primeiro caso. ao Gavião (1903). exemplos entre outros. Note-se ainda. é ilustrativo).

sem esquecer o famoso Bolhão portuense]. respectivamente em 1877. ou as esquinas resolvidas em curva. Outra aplicação crescente do ferro verificou-se no domínio dos prédios habitacionais de quarteirão. as cúpulas grandiosas do Mercado Central de Gados. Nestas obras foi muito variável a participação do ferro. e que. Olhão e Aveiro. com as primeiras traseiras construídas com lajes de abobadilha apoiadas em vigas em l formando marquise (espécie de «oficina» da casa portuguesa urbana de andares. na mesma época. apenas no Pavilhão Agrícola foi mais ousada a sua expressão como material (quase) global. essa expressão só é justificável na época certamente por se tratar apenas de obras utilitárias. 3). na Tapada da Ajuda. 1881 e 1882 (que prenunciam o da Figueira). e Central do Rossio. Merecem ainda uma referência as famosas «pontes em arco» do Porto (de 1877. De destacar. Este último reflecte o que será a tipologia de construção de muitos outros mercados. a interessante cobertura do Casino da Figueira da Foz (fig 2). Carlos (1891) (fig. Em 1892 inauguraram-se o Tauródromo do Campo Pequeno e um mercado regional na Figueira da Foz. já que se atravessava uma fase ainda experimental e diversificada: aquele ora surgia reservado para interiores (de gosto «gótico» na Penitenciária. com lugar à parte como monumentos urbanos. a uma maturação e generalização das aplicações do ferro na construção: são disso prova as duas novas gares de comboios em Lisboa (Alcântara-Terra.) Foi pois ao longo destes vinte anos (1870-90) que o ferro afirmou o seu «direito de cidadania». para apoio às actividades da cozinha e da criadagem). À volta de 1890 — o ferro «urbaniza-se» Estes anos assistiram. também desta fase. Mana Pia. mas também aqui com a desculpa de se implantar em parque. apresentam o seu exterior em ferro aparente. a de D. Assim. «clássico» na Central Elevatória). em 1884. em Lisboa. Luís). onde o ferro melhorava as condições de iluminação interna (na . a Central Elevatória a Vapor dos Barbadinhos (1880) (obra-prima de articulação entre estrutura edificada e mecanismo). usando o ferro com maior ou menor originalidade ou globalidade. como se disse. sem preocupações de dissimular material tão pouco nobre! (Em todo o caso. foram surgindo vários e significativos edifícios públicos. ora em mistura com alvenarias de tijolo e peças de madeira (nos mercados ou no Casino). São exemplos o prédio lisboeta da Avenida de D. em exemplos um pouco por toda a província [destacam-se os edifícios de Torres Novas (fig. e finalmente. além disso. em 1887. destacando-se. fora do contexto da cidade.cidade histórica. a Santo Antão (em 1888 e 1890). a própria Exposição Nacional de Indústrias Fabris (prestigiosamente realizada já na Avenida da Liberdade) e o edifício industrial do Gasómetro de Belém (ambos de 1888). ao Campo Grande. em 1888). os mercados (pioneiros) de Santa Clara. entre outros: a galeria panóptica da Penitenciária (1874-78). e de 1 8 8 1 . de São Bento e da Ribeira. e do Coliseu. 4). a de D. o Pavilhão da Exposição Agrícola do Ultramar.

menos prolífero nesta fase. Fig. respectivamente. de Artur Júlio Machado (por José Augusto França.. foram construídos: em Lisboa. a finalização do grandioso Pátio das Nações. um pouco mais tardiamente. II. também em 1891. também operações de modernização de equipamentos instalavam o ferro nos Armazéns Grandella (em 1891). contudo. O ferro em plena arquitectura da cidade De 1900 aos anos 20 assistiu-se o apogeu da utilização do ferro na construção urbana: conceberam-se as primeiras estruturas de prédios inteiramente executadas em peças metálicas (e com fachadas mostrando «descaradas» esse material ao cidadão).Fig. a São Bento No Porto. Livraria Bertrand. em plena Baixa pombalina. contendo a planta livre que esse tipo de estrutura permite. que em plena Bolsa consagra o prestígio finalmente associado ao ferro (prestígio que. mais realistas nos propósitos. Alcântara-Terra. reprovado pela Câmara e ainda hoje existente com os seus tímidos três únicos pisos. construída em 1897. imagem da «Chicago impossível» no porto alfacinha (projecto de 1904). o edifício Chiado (antiga Santix) (fig. onde se reproduz o projecto original. 3 Torres Novas — Mercado Municipal Rua Castilho. junto à actual rotunda (1904-07).. ou na estrutura do Hotel Avenida Palace (1892). . com evidentes propósitos industriais e de instalação de escritórios (1913-21). 7). Outros prédios deste tipo. vol. um edifício com vigorosa fachada metálica. das quais o sonho maior foi o do falhado arranha-céus de mais de 10 pisos na lisboeta Avenida de 24 de Julho9. 1967). autor também do Avenida Palace) no que (não) deveria ser o grande foyer do Coliseu de Santo Antão (fig. 4 Lisboa — traseira de edifício de habitação na Avenida de Dom Carlos. em Coimbra e Évora. chega também a Lisboa. 5) e o da filial dos conhecidos ' Conforme A Arte em Portugal no Século XIX. 1888). um imóvel para o jornal do mesmo nome. exibido na Sala de Portugal da Sociedade de Geografia. ed. Lisboa. há que destacar. sob projecto de José Luís Monteiro (arquitecto. e na Rua do Século.

em 1902). n. que repetia na província o modelo do Coliseu lisboeta. Assim sucedia com as obras de Ventura Terra. de gosto exótico e finalmente «gótico»: eis a contradição em que se debatia a expressão arquitectónica que tentava exibir o ferro).armazéns lisboetas representaram a inserção da estrutura metálica. ou ainda uma fábrica de massas alimentícias em Alcântara. em 1903. ainda que com data incerta. quer em edifícios autónomos (como o Mercado de Alcântara. que organizava todo o espaço interior à sua volta. construída pela firma Veillard & Touzet (empresa com intensa actividade no sector. a chamada «Catedral do Vinho» em Fontebela. De destacar o interesse gradual expresso pelo uso do novo material por parte dos arquitectos. de 1906. com os grandes envidraçados na fachada. Brito. de 1906). Estes foram gradualmente utilizando o ferro. arquitecto. de que o do Carmo (1902) é o ex-líbris (com projecto de engenharia de Raul Mesnier de Ponsard. enorme adega de múltiplos andares sobrepostos. Vaiada do Ribatejo. agora em plena cidade.º 85 . Fig. alterado nos anos de 1940-50). permitiram também a criação de novos espaços e formas: a rede de tracção eléctrica abrigou os veículos nas gares do Arco do Cego e de Santo Amaro (1900) e levou à construção de uma central de energia em Santos (onde tijolo e ferro seguem a tradição da arquitectura portuária). Rua de Ferreira Borges. o de Camões (1908-09) e o de Pedro Nunes. já demolido). projectos de Terra. O automóvel exige também as suas garagens (em locais «chiques» e com anúncios na revista Ilustração Portuguesa). também usando o tijolo para acompanhar o ferro. Os transportes mecânicos. no Porto. Os equipamentos urbanos continuaram a aplicação do ferro. As colinas de Lisboa exigiram os elevadores verticais e de rampa. 5 Coimbra — edifício Chiado. as instalações da Fábrica de Pólvora. como nos Restauradores (a Beauvallet. A indústria pedia também volumosos edifícios. em típica arquitectura utilitária. 6 Dafundo/Cruz Quebrada — traseiras de prédio de habitação colectiva. totalmente construído em ferro (1908. Rua de Clemente Vicente/Rua de Pereira Palha Fig. gares imensas onde o ferro se tornava imprescindível: recordem-se. como na do Banco Lisboa & Açores. como a da cúpula do Teatro-Circo de Braga (1911). Conceição e Reis. para produção de energia eléctrica. ou em equipamentos de significativa responsabilidade social. Mais estações ferroviárias substituem agora velhos conventos em pleno coração da cidade: caso da gare de São Bento. o primeiro com vastas galerias metálicas servindo os diversos corpos de alvenaria. ou o novo Mercado da Ribeira. anexa ao antigo Convento de Cheias (com um dos mais extensos pavilhões metálicos do País. em Belém. onde a uma pesada frente em pedra de tratamento classizante se opunha a leveza do pátio em andares. «moderno» e com decorações — é a palavra usada no estudo — de Louis Reynaud. ambos em Lisboa. sempre utilizando o ferro e o tijolo. no sítio do futuro Éden) ou na Rua de Alexandre Herculano (Auto-Palace. com edifícios levantados desde 1908 aos anos 30. moderna e «transparente» em pleno centro histórico dessas cidades (cerca de 1900). Também foi usado o ferro nos dois liceus de Lisboa. onde o ferro se aplicou em varandins e coberturas. construtora igualmente da Auto-Palace). o segundo com um ginásio de inserção original. a da firma Gomes. em edifícios de prestígio com cuidada inserção e desenho. quer em partes de obras. o vasto complexo da Central Tejo.

" 92-104 . na Sociedade de Geografia. Rua das Portas de Santo Antão. n. 7 Lisboa — Salão Portugal.Fig.

em generosas varandas sobre a frente das casas. Assim se preencheram os vastos quarteirões das Avenidas Novas.Norte Júnior. tão forte e enraizado. que nunca abandonou Lisboa. estreitos acessos colectivos. Há que fazer uma referência ainda aos inúmeros palacetes que foram usando o ferro em varandas e galerias. e. iluminação em panos de vidro e escadas de serviço exteriores recorrendo ao ferro em dois importantes edifícios lisboetas: o da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário. prático e geométrico (em suma. ocupadas pelas classes mais pobres. da traseira. Na fachada. devolviam às Avenidas. súbita e secretamente. forma mais introvertida de vila. e o da Associação dos Empregados do Comércio e Indústria. por vezes com originais escadas em caracol ligando os habituais cinco ou seis pisos avarandados. (embora com expressão um pouco mais art déco nas caixilharias). uma ruralidade feita de roupa estendida e de galinheiros. a marquise de ferro lá continuava ainda pelo anos 30 fora. desde o século XIX. eventualmente sobrepostas em complexa e criativa rede de planos oblíquos e paralelos (caso de uma vila do Dafundo. quando as fachadas eram já geométricas e modernisticamente abstractas: apesar disso. em contraste com o carácter «oficinal». de rigorosa modulação) (fig. como no caso de um prédio da Avenida do Duque de Loulé. mais ou menos perseguindo um «estilo». em muitos casos. quando a estrutura dos prédios aplicava já o betão armado. Mas a habitação foi o campo onde o ferro se vulgarizou e implantou mais profundamente em Portugal: nas «vilas» de Lisboa. em esquinas. diminutas habitações seriadas. o mesmo material (na Vila Berta). à Graça.. e de que só a fachada neobarroca distancia da Maison du Peuple. de grandioso salão de festas culminando todo o piso superior (1912). Este sistema. mais tarde associados ao modelo centro-europeu do chalé. à Avenida do General Roçadas. em 1902. Foi desta época e desta modalidade que resultou a fixação formal do prédio «para rendimento» em fachada de alvenaria mais ou menos decorada. envidraçados ou abertos. que substituem as caixas de escada interiores. Antes. dada a implicação estética do acto: era por vezes. 6). Assim sucede no Bairro Estrela d'Ouro (1907). Rua do Ouro . primeiro com gosto classizante. na Rua da Palma. como forma de embaratecimento da obra. que. persistiu bem dentro do período seguinte. como vimos experimentada já na década de 80. outro autor famoso (e prolífero) da época. solução para ganhar um pouco mais de área para a casa formando uma bow-window saliente. 8 Lisboa — fachada metálica na Baixa. em 1919. os afloramentos metálicos eram sempre mais tímidos. de Horta. em conjuntos orientados para um mesmo logradouro interior. «moderno»). o construtor Tojal tinha já utilizado. usavam por vezes as escadas e as galerias de ferro. Nos prédios de habitação em clássico esquerdo-direito. eram então correntes as galerias metálicas exteriores. ao veraneio e às áreas de praia: dos arredores de Espinho Fig. resolveu coberturas. o ferro ia desempenhando cada vez mais o papel de suporte do espaço autónomo e complementar da casa que era a marquise. em cada miolo de quarteirão exteriormente mundano. como a Vila Celeste (1910). nos arredores dos centros urbanos. Também os «pátios».. que em 1 9 1 6 repetiu o modelo anterior de modo mais modesto. ou em dispersas vilas da Graça/Penha de França.

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9 Lisboa — projecto de fachada metálica na Baixa: Arquivo Municipal .Fig.

9). ou ainda aos relacionados com a vivência do campo. ao permitir a abertura de montras maiores e com melhores condições de iluminação interna: a solução passava muitas vezes pelo rasgar dos panos de alvenaria existentes. depois pelo colocar de vigas em l e pelo moldurar a frente nova com colunazinhas de ferro de minicapitel metaloclássico. na sobreloja) (fig. linha da Foz). as colunas. de Viana do Castelo aos palacetes da costa do Minho. Assim sucede na gare do Cais do Sodré. normalmente adossadas ou embebidas na fachada. ou as estufas. na Avenida do Almirante Reis. ou no Cinema Odeon. mas suportando já lajes de betão. no Príncipe Real. em 1 9 1 1 (com curiosa ampliação já ao gosto arte nova em 1 9 1 5 . da Junqueira. aliás. secundária na obra. para depois se difundirem por toda a vilazinha de província. 10). com destaque para as áreas de maior tradição de bandas musicais. São exemplo as fontes e piscinas de estabelecimentos termais. mirantes e lavadouros (respectivamente com exemplos em Coimbra e Setúbal).à Foz portuense. de elegantes volumes cilíndricos nos jardins Burnay. como a margem sul) aos mais ligados à rua. onde graciosas peças de ferro molduram as águas. como numa loja de Vila Real (Rua Direita. onde as obrigatórias galerias de circulação periférica exibiam o metal e o vidro decorativo à revelia dos ensaios estilísticos do interior da sala. n. retomava deste modo a sua posição inicial. de 1929. Desde os mobiliários de jardins e parques (os famosos coretos que já surgiam no Passeio Público de Lisboa. O ferro nunca perdera. secundarizado e marginal. a concorrência do betão armado foi abrindo uma nova fase de obras. de Belém (1914). o ferro surgia como «apêndice» da obra «moderna» (esta em gosto art déco e com uso de betão). 8). As lojas representam outro campo ao qual o ferro ficou associado. ou à volta de Lisboa. onde a novidade residia na decoração geométrica dos corpos de entrada. como os quiosques e urinóis (caso da «mesa de refrescos» de 1 9 1 6 . e não na parte coberta com ferro. em Lisboa. ou do já raro exemplar de «verter águas» existente no Porto. ou com rectilíneas peças de ferro e vidro do jardim Colonial. Outras pequenas obras com estruturas ligeiras. permanecendo normalmente os pilares em ferro. (Lisboa). lisboeta. em que se apresentam «soltas» do plano construído. tinham por vezes variações originais. A decadência Com a entrada dos anos 20.° 19). Estoris e Cascais. relacionavam-se com equipamentos de diferentes tipos. ou pontuando o espaço interior das populares adegas lisboetas de Alcântara (junto à actual rotunda). ou numa retrosaria da mesma rua nos anos 20 (fig. As pequenas peças constituem uma das áreas onde o ferro pôde atingir maior originalidade e enraizar-se também nos hábitos urbanos por mais tempo. Outras vezes. como na Cúria (1914) ou no Luso. essa . de 1928 (fig. é o caso do antigo Cinema Lys (depois Roxy. Assim sucedeu numa ourivesaria da Rua do Ouro. lisboeta. com utilização mista dos dois materiais. alterado). em Colares.

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desde os meados do século XIX até ao advento do betão armado. Porquê esta incapacidade do ferro? Talvez pelo pioneirismo de que se revestiu a entrada do novo material na arquitectura (em todo o mundo. a Agência Havas. por outro lado. 10 Lisboa — interior da estação ferroviária do Cais do Sodré: foto Horácio Novais de aprender a dialogar. assinalando o papel determinante das novas técnicas e matérias industriais na sua invenção. em 1921. por sistema. Sacrificado depois a invenções mais sofisticadas. Uma síntese Viu-se como o ferro se foi introduzindo e enraizando nas actividades construtivas da arquitectura portuguesa. já nos anos 20. quer no interior quer no exterior das obras. no entanto. dos materiais tradicionais — pedra. que a tecnologia do ferro sempre acusou. quando autores e executantes não estariam ainda «preparados» para interpretar e assumir as potencialidades da tecnologia oferecida). ocultou com a sua fachada estilizada e simplificada (que anunciava já o estilo das artes decorativas) uma estrutura interna de esqueleto metálico completamente camuflado com estuques que envolviam colunas e vigas. Só o betão saberá (e não desde o início da sua aplicação) encaminhar-se para um estilo moderno. e. talvez também.. quando Carlos Ramos projectou um «edifício de prestígio» para a Rua do Ouro. a formas do passado. quando muito modernizadas. pelas suas incapacidades reais — os perigos do fogo e da ferrugem —. mas necessária.. numa substituição normal. de servir sem brilhar. entre a capacidade de solução das questões técnicas da obra.função pobre. «definitiva». para a qual se recorreu. realmente notável para as necessidades da época. tal dificuldade de afirmação deveu-se por certo a um permanente desfasamento. que no fundo limitaram desde sempre o seu desejo de se impor como material de futuro. Esse enraizamento não se traduziu. mas nunca «modernas» (nem as «artes novas» de um Horta ou de um Gaudi resolveram o dilema). com os quais teve Fig. o ferro foi a primeira proposta moderna — logo. industrial — de construir. sem ser mostrado. e a sua expressão estilística. madeira —. a especial importância do ferro na construção residiu em ter servido de charneira para o advento da arquitectura moderna. tijolo. .

Fig. 11 Almada/Cova da Piedade — Fábrica de Moagens Gomes Caramujo (actual Fábrica Aliança): s. (bilhete-postal) . ed.

Só que. Ainda hoje. depois de um incêndio. no quadro europeu e em pleno processo de industrialização. embora surgido mais tardiamente. onde.ª. publicada de 1900 até 1 9 1 9 . se hesita na palavra a escolher. Cottancin e Hennebique são os principais. e uma vez mais. a tecnologia do betão «cresceu» mais depressa e maturou em poucos decénios. que. se bem que alteradas.° l da Arquitectura Portuguesa de 1908). até simplesmente «beton» (ou «betom»). Em Portugal. «cimento armado» e «beton moldado». ed.° Tratado Internacional de Betão. «betom de cimento armado». em inúmeras partes construtivas e em elementos decorativos diversos. desde «betom armado». viadutos e equipamento de apoio. Este último sistema fora inventado pelo autor do 1. sucessores da Viúva de Manuel José Gomes & Filhos). e a sua empresa manteve relações mais directas com Portugal. os primeiros anos do século XX ensaiaram diversas designações para esse material. e à ponte em arco de Vale de Meões. através dos seus «agentes gerais» em Portugal. 1972. J. por Carlos Antero Ferreira. no ano seguinte. Coignet.O betão armado — os primórdios Desde meados do século XIX que surgiram experiências pontuais de aplicação do betão armado na construção. expressões que João Segurado refere. prefere «beton» e «formigão de cimento». O betão foi nesta altura aplicado por companhias que possuíam patentes (e com elas o «segredo») dos diversos processos construtivos possíveis. apesar de serem mais reduzidas as variantes de designação. Só que. As duas referências pioneiras costumam ser a uma fábrica de moagens junto à Cova da Piedade. as primeiras aplicações do betão tiveram o álibi utilitário. ainda que muito limitada. «concreto armado» ou «formigão armado». a primeira fábrica de cimento Portland iniciava a produção (Fábrica Tejo). em 1905. No referido livro de João Segurado (ver nota 10) indicam-se os diversos sistemas com origem em França que O autor considera liderar a aplicação do betão no mundo: Monier. embora no Anuário da Sociedade Portuguesa de Arquitectos se referissem. que em 1906 adoptou idêntico sistema. mais para os finais do século XIX. esta obra. seriam as obras ferroviárias responsáveis pela aplicação de betão em pontes. Ambas existem ainda. nos arredores de Mirandela. Gomes & C. onde o betão fingia ser o que não era. Assim. tema a que a «pedra factícia» que o betão constitui se prestava com grande vocação10. Como para o ferro. só tardiamente foram surgindo as suas aplicações. ou limitaram-se a substituir — imitando com a perfeição possível — matérias nobres como a pedra. Aillaud e Bertrand. no Caramujo (de A. em Trás-os-Montes. são trabalhos fundamentais para uma compreensão do tema abordado. correspondendo a uma fase 10 Termo referido em Betão Aparente em Portugal. bem como Cimento Armado. de João Emílio dos Santos Segurado (ed. seria reconstruída em 1896 pelo sistema Hennebique de betão armado (dentro de um modelo de desenho classizante. Correspondendo às múltiplas maneiras de produzir o betão armado. «siderocimento». antes de 1929). ao contrário do ferro. foram as que apoiaram mais directamente o presente capítulo no fornecimento da maioria dos dados. as potencialidades do «cimento armado» e Ramalho Ortigão seguisse a mesma designação ao elogiar as suas potencialidades decorativas (no n. . como se de pedra se tratasse) (fig. editado em 1893. já a Construção Moderna. aliás. 11). Tal como para o ferro. ATIC.

Desta primeira fase. Encontram-se exemplos em Vila da Feira (à entrada da povoação). pouco a pouco. funcionário da CP (a companhia ferroviária portuguesa). em Castro Verde (fig. em Vila Real (na estrada para Chaves). varandas. ano em que se construiu uma cocheira de carruagens de wagons-lits em Campolide. também construídos em betão) (fig. mais experimental. datando este último de 1922-25). Lisboa (ainda existente). Lisboa). 13) e no Bom Jesus de Braga. a contextos mais elaborados prolongou-se aliás até aos anos 30. ainda existente parcialmente. as obras de betão em contexto urbano. deliberadamente mais visível. mesclada já com vocábulos Fig. Devem ainda referir-se a série de escadas. mirantes e ameias que em palacetes dispersos pelo País foram «caricaturando» os antigos modelos de pedra e ajudando a «inventar» o betão como novo tema expressivo. com ela surgindo assim. como as do vale do Vouga e do Sado.º Vicente Ferreira. A justaposição desta «arquitectura de betão». a terrasse na Foz do Porto. foram publicadas em 1 9 1 1 . 14). 13 Castro Verde — palacete . foram em muito menor número e ao longo de vias e linhas secundárias. entre Penacova e Porto da Raiva. e nos ramais para Portimão e Lagos (ao longo dos anos de 1910-20). Em 1 9 1 2 ergueram-se os dois depósitos de água do Entroncamento (fig. com ondulantes guardas e lances de escadas de formas classizantes.. 12) (e talvez o viaduto para peões sobre o complexo ferroviário local?) e em 1 9 1 3 a ponte rodoviária sobre o Alvor. na Avenida do Almirante Reis. quase sempre com um capitel evocativo do modelo em pedra que ainda se tinha como referência: são exemplos (a datar) a «arcada do balneário» das Termas da Cúria (onde se distingue claramente a obra «técnica» de betão e a obra «artística».terminal da expansão da rede.. Do mesmo ano de 1 9 1 3 data a aplicação de betão na estrutura da Fábrica de Cerveja Germânia (hoje a Cervejaria Portugália. ficaram as galerias de finos pilares e delicada trama de vigas. As primeiras Tabelas Técnicas de Beton de Cimento deveram-se. Provavelmente da mesma fase foi a obra da passagem superior sobre a ferrovia no Lavradio (Barreiro). dos pilares compósitos. ainda existente. aliás. prática e simplificada. 12 Entroncamento — depósitos de água na estação ferroviária Fig. como a de Penalva do Castelo (onde alguns balaústres mais carcomidos ainda deixam ver o esqueleto de ferro). bem como muitas outras esplanadas de jardins pela província fora. ao Eng.

em Francelos (arredores do Porto). por João Antunes. Ferin. Foram. ou ainda da Casa da Carris. 14 Cúria — galeria. ergueu-se a esplêndida Clínica Heliântea (hoje recuperada para outra instituição). à Arrábida. o novo material foi-se insinuando em obras cada vez mais urbanas e prestigiadas (já com a participação de arquitectos). por Luísa Góis. ed. em livros e revistas da especialidade. de 1923-25. O betão surgiu então. Mas o que melhor iria caracterizar esta fase encontra-se representado nas vastas galenas moduladas com «pilares de chanfro» (caracteristicamente biselados nas arestas) que envolveram os inúmeros sanatórios construídos na época. de Delfim de Oliveira Ferreira. de Cristino da Silva. junto à estação 11 Destacam-se Betom Armado.. n. como se vê nas varandas do palacete Sotomayor da Figueira da Foz. com poderosa consciência «moderna» nos volumes e materiais utilizados. embora de solução clássica na fachada (interior demolido)12. onde uma utilização de betão na varanda lateral surge escamoteada pelo tratamento «clássico». ou. de cerca de 1929-30 (já com desenhos de inspiração art déco) (fig. e Betão Armado. totalmente construído em betão. por Jorge Segurado. 12 Edifício estudado em artigo publicado na revista Arquitectura. na Avenida da Liberdade. 1928 (parente do arquitecto autor da Clínica Heliântea de Francelos). Fig. de 1 9 1 4 . projecto de Raul Lino de 1924. . com complexa rede de vigas no suporte dos balcões da sala. de Outubro de 1979. começado em 1925 no Parque Mayer. os casos do Cinema Tivoli. 15). ou ainda em marquises lisboetas na Ajuda e em bow-windows de Oeiras. Entretanto. em soluções mais arrojadas que transpareciam já para o exterior. com expressão dinâmica dos lances de escadas na fachada. há ainda que referir uma construção. de Marques da Silva. mais modesta. na Parede. com galerias em betão de gracioso ritmo e claro-escuro (fig. na Rua da Trindade. em Santos. 16). Os anos 20 — a «arquitectura do betão» Data de 1 9 1 8 o primeiro Regulamento para o Emprego do Betom Armado. com as mesmas galerias sobreelevadas do terreno. em Lisboa. e paralelamente.º 135. Junto à praia de Miramar. embora simplificado. envolvida totalmente pelo mesmo tipo de galerias. embora de modo «discreto» .. Outro exemplo foi o do Sanatório do Outão. no Porto.. de 1926. igualmente. J. e que se situa nas imediações.modernistas. no espaço interno dos edifícios e em relação com a sua estrutura. f 924 (autor com obras construídas na época e colaborador da revista Arquitectura Portuguesa. entre 1924 e 1928". das Termas o Regulamento de Teatros e Outras Casas de Espectáculos obrigava pela primeira vez à construção daquele tipo de edifícios com materiais incombustíveis (pensava-se obviamente no uso do betão armado). com artigos sobre o uso do betão). que lhe é imposto. e a que a deve ter antecedido alguns anos. cerca de 1927. mas ainda com expressão algo académica. no Salão do Capitólio. Carlos Morgues e Vítor Poço de Melo. obra precursora. do Teatro Ginásio. ou em alguns alpendres de Ponte de Sor (Hospital de Vaz Monteiro). por Oliveira Ferreira. Em 1927. em Lisboa. Na sua sequência. que aproveitou uma velha fortificação. de J. Um Sistema de Cálculo de Construção de Vigas. uma série de obras destinadas à divulgação dos processos de cálculo foram surgindo.. como sucedia nos Armazéns Nascimento. Jorge Coutinho.

os tradicionais armazéns de ferro e tijolo começavam a dar lugar aos de betão. em Viana do Castelo (do conhecido João Jorge Coutinho. ao Campo Pequeno. 16 Outão — galenas do Sanatório: s. dentro de um «invólucro» de alvenaria tradicional. . entre 1927 e 1928. com destaque para dois espaços edificados. com 35 m de altura (Fábrica de Cerveja Estrela. autor de alguns dos estudos teóricos já referidos (uma obra que apresenta os característicos pilares de chanfro no interior e uma ousada consola em betão na fachada). ou na cobertura cupulada do santuário do monte de Santa Luzia. Ao mesmo tempo continuavam os ensaios experimentais de aplicações inovadoras. nas séries de pavilhões do vasto complexo naval do Alfeite (Almada). No final da década. para produção do ácido sulfúrico na Póvoa de Santa Iria. Mais tardio. ed. 15 Francelos — antiga Clinica Heliântea Fig. Fig. culminava com uma megastrutura em betão esta série de realizações (1929). utilizando o sistema Monnoyer. (bilhete-postal) A charneira de 1929-30 A acentuada crise económica e financeira do pós-guerra teve incidência directa na indústria da construção. As grandes instalações portuárias e industriais começavam também a aplicação sistemática das novas estruturas: de modo ainda mesclado com o uso do ferro. um entre as estações fluviais de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos (demolido). o edifício em Santa Apolónia foi da autoria de João Jorge Coutinho. outro em Santa Apolónia (ao lado da estação. dos desmoronamentos. nas instalações de Abel Pereira da Fonseca. que praticamente suspendeu a sua actividade entre 1922 e 1926: foi a época terrível dos prédios de «areia e cal». em Lisboa. como na construção da chaminé. Henrique).ferroviária. a Marvila. de 1939. No porto de Lisboa. mas já com interessante pátio interior de vários andares. a grande torre prismática da Companhia Industrial Portuguesa. dos «gaioleiros». um alpendre em Amarante desenhou em granito um mesmo formalismo construtivo (construção municipal. perto da Casa das Lerias). hoje em interessante relação com a Avenida do Infante D. demolida). no prosseguimento da obra de Ventura Terra).

só rectificado ou actualizado em 1943 — e entre as duas datas passar-se-ia quase um decénio fundamental na produção da arquitectura modernista em Portugal.Em 1928. isto é. de Filius Populi (pseudónimo do construtor Manuel Vicente?). segundo ele. isto é. muito lucraram todos. e ainda que sem uma preocupação explícita de resistência aos sismos. na província). do tosco de madeira e da pedra e cal. sem favor. de 1946. cozinhas e seus anexos. 18 (em plenas Avenidas Novas. se foi introduzindo o novo material no espaço de habitar e com ele. na Avenida de Barbosa du Bocage. 14 Municipal de Lisboa. que pavimentos de casas de banho. por cópia.. continuamente actualizado ao longo dos anos. surgiu. de preferência o betão armado»15. nova legislação de emergência (centrada no Decreto n. sensivelmente mais caro. com projecto de Norte Júnior. sobre esta fase. 3. porta-voz de uma classe muito activa na época13: «Correspondendo às vistas largas que o sábio legislador previu. Logo surgiria o primeiro Regulamento Geral da Construção Urbana para a Cidade de Lisboa — não por acaso em 1930 —. Tal facto constituiu um grande passo para o progresso. a ultrapassada legislação de 1 9 1 8 seria substituída por novo Regulamento do Betão Armado (que fixava aliás a designação hoje mais corrente do material). designado pelo vulgo como «pato-bravo». pela edificação em cimento armado. Tipografia Municipal. Tomar.. multiplicando-se as construções de prédios.. Citação extraída do Regulamento Geral da Construção Urbana para a Cidade de Lisboa. Em reforço desse afã. no quotidiano do País (explícitas eram então as preocupações e as ideias higienistas e de segurança contra fogos). arquitecto que já se consagrara na produção lisboeta desde o princípio do século. Vejamos o testemunho. de um construtor civil. ainda hoje existente). Na obra referida sobre os construtores civis tomarenses. teria sido a primeira obra «em cimento armado» de Lisboa: um prédio dentro da estilística das artes decorativas. veio ao seu encontro uma falange de bons engenheiros e arquitectos. Cinco anos depois (1935). consentido ainda. que rivalizava. Aquando da publicação do decreto já referido. se não constitui o 13 Citação da obra Os Construtores Civis Tomarenses e o Desenvolvimento da Construção Urbana em Lisboa. 15 só em 1 9 5 1 foi ultrapassado pelo decreto que instituiu o primeiro RGEU (base do actual regulamento). finalmente. . o uso da «gaiola» de madeira. o autor destacava aquela que.» Esta mudança de condições veio permitir a rápida vulgarização do uso do betão nos prédios de habitação correntes (primeiro em Lisboa e depois. passo final da adopção da nova tecnologia construtiva. 1936. ocasionalmente.° 15 289) protegia e isentava os construtores. de cujo conselho. Foi desta colaboração que se operou a mudança da antiga maneira de fazer. e um novo «sopro» era assim insuflado na construção. com o importado do estrangeiro. Datado precisamente de 1930.ª ed. no qual se recomendava. bem como varandas. no mercado o cimento nacional. embora. Assim. pela Câmara Citação extraída da obra citada na nota 13. fossem «sempre construídos com materiais imputrescíveis e incombustíveis. ed. construtores. «normalmente empregada nas construções de Lisboa»14. operários e construções. orientado pelos conhecimentos adquiridos em cursos superiores. os construtores lançaram-se com denodo em novos empreendimentos. este regulamento. coberturas e escadas.

Fig.os 4-6: Arquivo Municipal . n. 17 Lisboa — projecto de edifício para a Rua de Alexandre Braga.

apoiava «cientificamente» o trabalho. Ao longo do mesmo período de generalização da nova tecnologia iam-se ensaiando inventivas soluções formais nos programas mais simples e domésticos. madeira. em muitos casos resumido a um único desenho técnico. no prédio da esquina da Rua de António Granjo. Nas obras lisboetas do início da década também se toma possível ver como era entendida a aplicação do novo material: com uso restrito em parte das lajes e por vezes com cintas pontuais sobre os vãos ou para suporte das (tímidas) consolas. hoje. betão. de 1933 (fig. n. o qual o referido autor considera «grande amigo e proficiente conselheiro» dos construtores (juntamente com autores tão díspares como Pardal Monteiro. finalmente. a Sete Rios. substituía as tecnologias mais elementares sem hesitar em as seguir «à letra» (por exemplo. a tecnologia da «pedra factícia» instalava-se em definitivo. . 17). em cujo projecto. por exemplo. num retrógrado eclectismo de aplicação de materiais (na sua constituição entravam alvenaria ordinária. com a liberdade de cálculo e de execução que o Regulamento de 1 9 1 8 permitia (por exemplo. é também possível apreciar como uma fachada aparentemente tão geométrica e abstracta (logo tão «moderna») se traduzia.º 7. se notava a mesma hesitação e idênticos conceitos de aplicação do betão de modo fragmentado. imitava os estilos revivalistas que se quisessem caso dos arcos «góticos» em betão. A plasticidade extrema do betão a isso ajudava e tentava: o material «colava-se» com uma enorme facilidade às sugestões geométricas que o art déco propunha (denteados em vez da simples viga lisa em consola. como na sede da empresa de construções Amadeu Gaudêncio. pela estilística e até pelo projectista. Vasco Regaleira e Jacinto Robalo). com a Rua do Dr. Edmundo Tavares. afinal.primeiro exemplo de uso de betão no prédio de habitação corrente de «pato-bravo». o normalmente admissível são 15 cm). no suporte de uma simples varanda usava pilares e vigas oblíquas com a expressão e as proporções que a madeira permitiria). como tantas vezes a arquitectura religiosa da época vai exigir. Assim sucedia. é de qualquer modo bem emblemático. Mesmo nos casos onde participavam técnicos conceituados e experimentalistas. sem esquecer o obviamente tradicional ferro nas traseiras). um cálculo sumário.. na Rua de Alexandre Braga (também em Lisboa). António Martins. admitia espessuras de laje mínimas até 8 cm.. para «decorara melhor uma qualquer cobertura). caminhando para o domínio da totalidade dos diversos programas construtivos ao longo do meio século seguinte. projecto de Cristino da Silva. Raul Tojal. de 1936. Por estes múltiplos caminhos. pela tipologia. quando.

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tomando a noite um verdadeiro espectáculo arquitectónico.° 9]. n. n. luz Além dos novos materiais que estruturam os edifícios. Lisboa). salas de cinema (Teatro de Rosa Damasceno. ou de exemplos na arquitectura doméstica. à mais corrente e popular Drogaria Portugália Perfumaria. Porto). que a translucidez do vidro martelado modulava e amaciava. na Rua de José Joaquim de Almeida. Lisboa). valorizavam edifícios industriais e comerciais (a sede do Diário de Notícias.. cinzelado (em divisórias de cafés e em livrarias. Rua do Carmo. e inventava larga variedade de candeeiros de gosto geométrico. De facto. Lisboa). na Praça da Liberdade. No interior. a luz moldava tectos de escolas (átrio do Instituto Superior Técnico. na Rua dos Clérigos. frentes de lojas (a Águeda. e Fig. plástico. espelhando pela primeira vez. As novas e sofisticadas maneiras de trabalhar o vidro davam forte sentido visual ao letteríng de muitos estabelecimentos comerciais. como na Livraria Lello & Irmão. em Viana do Castelo. como no átrio da Escola Comercial e Industrial da Figueira da Foz (no Largo do Visconde da Marinha Grande). O vidro era ainda utilizado seguindo a técnica do vitral. usava-se também o vidro com inclusão de desenhos geométricos ou figurativos. na Rua de Capelo e Ivens. permitindo desse modo generosas e inesperadas iluminações do espaço interior. uma moderna atitude de consumo: desde a sofisticada loja Nova York. os Armazéns Cunhas. em Oeiras. por assim dizer a luz. 18). Avenida da Liberdade. farmácia portuense com uma simbólica cruz vermelha na fachada. átrios e mirantes até (Amor da Pátria. como nos esplêndidos painéis do Café Imperial. na Arrábida. Santarém). este período seria fértil em reinterpretações de outros. em Santarém. moduladas por finas retículas de perfis metálicos. O vidro surgia aplicado de modos diversos: era o material das grandes superfícies transparentes. a Vitália. n. à Avenida dos Aliados. ainda o podemos observar transformado em pequenos volumes (o «tijolo de vidro» da luminosa e esguia torre do Cinearte. 18 Horta. relacionados com o acabamento das construções e o revestimento das superfícies não portantes.. n. A luz redescobria também o sentido gráfico da arquitectura. em espelho (em muitos interiores de lojas). o vidro iria desempenhar papel relevante. em dourado ou prateado. no Largo de 5 de Outubro. Açores (fig. Faial — Sociedade Amor da Pátria do Amor da Pátria. 19). Lisboa). Da conjugação do vidro «armado» em ferro com a aplicação da electricidade nascia um novo «material». Praça de Gomes Teixeira.™ 4-22. na Horta.° 126 (arquitecto Marques de Abreu?). ou com áreas coloridas [casos dos panos de vidro no refeitório da Fábrica de Cimentos do Outão. no Porto. Lisboa.os 34-37). fabricado em lâminas de corte industrial. em simples guarda-ventos. e o miradouro da serra de Portalegre). os coroamentos de edifícios com torres ou «pilares de luz» serviam novas áreas de espectáculos (a entrada do Parque Mayer. com o auxílio de gases «prisioneiros» em invólucros de vidro tubulares: o flúor e o néon desenhavam . na Horta. dentre eles. ou nos antigos cinemas de Macedo de Cavaleiros e de Santarém (fig. em Santos. em Ponta Delgada.Os outros materiais — vidro.

ou em Guimarães. como se vê ainda em muitas portas de prédios lisboetas. aplicava-se em frentes de lojas. 19 Santarém — interior do Teatro Rosa Damasceno Fig. Avenida de Mouzinho de Albuquerque. baseada na abundante matéria-prima nacional. frente ao Coliseu do Porto. em Vila Nova de Gaia. esquina das Ruas de José Falcão e do Barão do Corvo). Foi também a época dos termolaminados e dos folheados de madeira. 20 Póvoa de Varzim — loja Novo Mundo. Sistemas mecânicos inovadores eram nesta época ensaiados: nos tapetes rolantes que faziam sensação no Capitólio. Lisboa). Outra aplicação muito corrente era o tubo de ferro pintado ou cromado. 20).. portas. mapas do Portugal rodoviário e arco-íris (garagem Passos Manuel. na Casa das Gravatas. muitas vezes em criativa composição com chapas pintadas. no Porto).º 5 . da Parede. em tom negro.. Café Arco Íris. em Lisboa. em placas rígidas. em vermelho e negro. em Coimbra (fig. ou em mobiliário [Sanatório de Celas. em vermelho-vivo (fig. guardas de varandas e de escadas (Cinema de Oeiras. tapetes metálicos (estes na entrada da Tobis. como na Instanta. de secção circular. da Baixa lisboeta (Rua Nova do Almada. do Quelhas. Para isso contribuía a aplicação dos perfis laminados e encurvados em lettering. com brilho. de igual modo. em Lisboa). Hotel de Caldelas). n. edifício do Turismo de Braga. lisas e de cores fortes. ia definindo ambientes e confortos. O ferro revelava-se também muito versátil como material de acabamento ou elemento decorativo. 23)]. puxadores. ainda sob um aspecto algo «primitivo». realçado pelos tubos cromados). no Lumiar. na Emissora Nacional. Jardim Cinema. o qual. pavões «animados» em fachadas (Armazéns Cunhas. E surgiam mesmo materiais inteiramente novos: o plástico fazia a sua entrada no mundo da construção. Lisboa). na esquina da Praça do Toural com a Rua de Santo António. ou em estabelecimentos de pequenas cidades [na Póvoa de Varzim. salão de festas do Parque Mayer. em portões (no Rádio Clube Português. demolida em 1979-80]. os aglomerados serviam no revestimento de paredes.armaduras em tectos (Cinearte. tornando-se muito popular a corticite. nos ascensores verticais de estrutura generosamente decorativa [como na sede do Diário Fig. revestindo mobiliário e lambris. Rua de Passos Manuel.

preenchiam fachadas de lojas. e no Cinema de Oeiras). no Rossio lisboeta. mais geométricos e simplificados. seguindo novos modelos formais. padronizando-se quantas vezes em simples xadrez de preto e branco. creches. reservando-se as pedrinhas de mosaico cerâmico para tornar festivas as frentes de prédios e moradias (Póvoa de Varzim). Mesmo os humildes mosaicos hidráulicos animavam com motivos neoplásticos e composições abstractas. que cafés e hotéis se apressavam a adoptar (exemplos em Évora. no Café Central. Rua de Fig. quanto à pedra. no edifício do Talho e Salsicharia Moderna. Mosaicos. demolido parcialmente (fig. na Covilhã). Os azulejos molduravam átrios de escada em Fig. 22 Carcavelos — bilheteira do Vitória Cine. Rua de João da Silva. na Rua de Almacave. em Setúbal). no antigo Café Arcada. 23 Celas/Coimbra — interior do Sanatório foto Rasteiro. preenchiam corredores de sanatórios (na Quinta dos Vales). na Praça do Giraldo. em Lisboa. 21)]. n.° 32). Rua do Carmo. bolbosos ou lisos. seriam nesta época objecto de uma «revolução de gosto».º 4 prédios de habitação (em Lamego. volumes de bilheteiras [no antigo Vitória Cine. que uma estética em mutação ajudava a generalizar. demolida (actual Ludance). Quanto aos materiais mais antigos e tradicionais. 22)] e até apeadeiros ferroviários (do Quevedo.Fig. e em Santarém. demolida) aos mármores luxuosos das fachadas comerciais (Livraria Lello & Irmão. interiores de talhos (Matosinhos). na Avenida de José Baptista Antunes). foyers de equipamentos públicos (respectivamente na loja do Diário de Notícias. sempre com a preocupação geometrista que a moda «moderna» impunha. de Carcavelos. . Coimbr de Notícias ou na Clínica Heliântea de Francelos (fig. simples oficinas de sapateiro (na Baixa pombalina). na Malveira. ou na mais vulgarizada porta giratória. Drogaria Pedroso. aplicava-se desde simples calçada «à portuguesa» (interior da Estação de Alcântara-Mar. em jardins infantis de Coimbra. 21 Francelos — ascensor da antiga Clínica Heliântea Guilherme de Azevedo n.

O percurso estilístico A arte nova Estilo «artes decorativas» — O «art déco» Do primeiro «moderno» ao advento do nacionalismo .

não deixando por isso de revelar originalidade. Não se pode esquecer também que fora a pressão industrial que ditara nos outros países a necessidade de renovação artística e como essa pressão era tão diminuta por cá. «a flor virada (girassol). despertar a atenção para a necessidade de mudança que a situação retrógrada do eclectismo oitocentista tomava essencial. se falhou o seu objectivo uniformizante (um Gaudi. isto acontecia talvez pela preponderância entre nós da corrente do art nouveau francês. sob influência directa de tentativas congéneres que pela Europa fora se designaram por art nouveau. as correntes análogas se iam extinguindo. como fenómeno de transição para o futuro movimento moderno dos anos 20. iria ser tardia (emergindo cerca de 1905. e terminando já na década de 20). soube pelo menos. facto que não facilitava a compreensão ou aceitação das novas propostas (a não ser no plano menor das lojas populares ou da decoração cerâmica). já que se articula com o advento do art déco em Portugal. independentemente de influências formais exógenas. destinada a deixar bons exemplos pontuais e a fracassar como proposta generalizável. 17 Ver nota 16. onde tantas vezes sobressaiu um tema figurativo próprio.A arte nova Este é o nome português para a renovação que as artes plásticas procuraram no início do século. essas tentativas procuraram recusar toda a referência historicista. em Portugal.° 60. mas inconciliáveis com esse desejo). isto se nos referirmos apenas às «correntes da linha curva»16. Processo divergente e original. revolucionando a concepção do projecto. enquanto. 16 Conforme Manuel do Rio Carvalho. já de si entendido mais como outro estilo a juntar ao «caldeirão» do eclectismo do que como atitude de rotura. quando. art noveau e arte nova — respectivas situações» (artigo na revista Arquitectura. «totalitário». Mas. pelos outros países. de 1957). modern style. a outra corrente. A arte nova portuguesa iria portanto afirmar-se mais no plano das superfícies e menos no das estruturas. a arte nova iria remeter-se a um plano secundário. na procura do que poderia ter sido uma verdadeira «arte nova nacional». será abordada no capítulo seguinte. «Modern style. a da «linha recta». e certamente também devido à permanência no nosso país de uma forte cultura académica e tradicional. e o seu «espírito» informaria ainda certas pesquisas pontuais que arquitectos portugueses tentaram sobretudo no domínio da habitação. basicamente no quadro decorativo. tomasse de novo coerentes entre si novos materiais e velhas tradições construtivas. os diversos movimentos artísticos desempenharam um papel de vanguarda. assegurando a transição para uma nova linguagem arquitectónica. . em cada cultura arquitectónica autónoma. já que elas implicariam subversão de conceitos tão instituídos. n. Na arquitectura. pela invenção de um novo desenho que. em esquemas fragmentados de preenchimento de fachadas. a «nova arte» que se pretendia descobrir. um Horta ou um Mackintosh produziram formas de facto renovadoras. iria ter o seu ponto forte na aplicação da azulejaria (ou não procurasse inserir-se num contexto tradicional dentro da arte portuguesa). ou estilo liberty. Jugendstil. cujo elemento fulcral é a intersecção do caule e do cálice»17. na Europa.

em 1908 [talvez mais próxima. ainda inseríveis neste tema. e dos antigos Telefones do Rossio. como a do nascente animatógrafo. a azulejaria deste período ocupou muitas paredes dos acessos e das caixas de escada das habitações. que teria. em lojas «de cintas e espartilhos» [a preciosa Madame Garcia (fig. com a fachada da Rua do Arco de Bandeira. excepcionalmente. em Portugal. de 1908. notável porque completamente revestido no 1. como as padarias (ligadas à «democratização do pão» encetada pela República). que espelhavam a participação e o interesse da classe média e mesmo da pequena burguesia num novo quadro mundano. o azulejo reservava-se normalmente. no Porto (fig. como sucedia também com uma Joalharia da Batalha. em alfaiatarias (a Paris. em diversas funções: umas. também demolidas ou desfiguradas. Outras lojas. como a desaparecida Cervejaria Jansen. n. mas. que anunciava a aproximação do art déco (fachadas de um talho em Santo Amaro. acusavam já uma transição para outro quadro estilístico. em retrosarias (a Bijou. os Fig. para situações de revestimento pontual ou parcial (sendo excepção o prédio de dois pisos na Avenida do Almirante Reis. inovadoras. cafés e botequins. deste modo.A moda e as lojas Ligada na Europa a uma ideologia do progresso. em Lisboa. já demolido) e outros pela província. «alma» da arte nova portuguesa Continuando a tradição oitocentista do revestimento de fachadas e de átrios no prédio de andares urbano. Com originalidade. com muitos exemplos em Lisboa (um deles com azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro na fachada na Rua da Graça. Rua de Santa Catarina/Rua do 31 de Janeiro Fig.º 11 37-39. ou na série de estabelecimentos das ruas secundárias da Baixa alfacinha (reforçando o sentido popular da utilização desta estética «ondulante"). n. a arte nova foi atitude estética dominante igualmente em lojas «da moda» e de modas. na Bruxelas de Vítor Horta). que do art nouveau. da estética do Jugendstil. ao contrário do sucedido no século XIX. urbano e de cariz conservador. relacionado com a maior geometrização das decorações e das formas. centros de convívio por excelência. 24)]. ao Rossio. em restaurantes. João da Câmara. 24 Lisboa — antiga loja de cintas e espartilhos Madame Garcia. 25 Porto — Joalharia Reis Filhos. esta corrente artística iria pelo contrário. e ainda em outros estabelecimentos. o ex-líbris da nova corrente estética.° andar com padrões pintados). caso da Mealhada (também com azulejos na fachada). reflectir-se em estabelecimentos comerciais. finalmente. Avenida do Almirante Reis. A arte nova afirmou-se. ou ainda nas Brasileiras do Porto e de Lisboa. 25)]. n. com emprego de grande diversidade de padrões e de técnicas (em relevo ou pintados — os mais frequentes —. da Rua da Conceição lisboeta). O azulejo. da Baixa). de novo pela província (a Barateira de Ovar. na rua principal do povoado). . na Rua dos Lusíadas. nas fachadas. outras.°74. aos Anjos. com especial desenvolvimento neste período por razões sociais. operária e «de esquerda» (veja-se a Maison du Peuple. na esquina com a Praça de D. ou de tipo industrial e com estampilhados — os mais raros). ambas em Lisboa).

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a Vila Africana. mais ou menos impregnados da temática decorativa ondulante. ou simplesmente com uma procura de proporção «esguia» nas aberturas. que tudo pretendia recriar (ao nível das superfícies. Estes azulejos eram quase sempre peças nacionais.° 34. Rua de João Mendonça. Rua das Flores e Rua do Maestro Lacerda. Lisboa) e. sobretudo ao longo do centro litoral. e na Rua das Janelas Verdes.°1). n. 27)]. entre outros: uma fachada no Rossio de Aveiro [com revestimento integral de azulejo (fig. característica desta estética. mais raramente. De realçar foram sobretudo as intervenções de Rafael Bordalo Pinheiro e da sua Fábrica das Caldas da Rainha. houve.° 2. de ser «contaminado» pela arte nova. por exemplo. e. os chamados «brasileiros». São exemplos.° 23) .° 11. do arquitecto Álvaro Machado. Sacavém. na Avenida das Acácias. Casas. Em Leiria (palacete e garagem no Largo de 5 de Outubro. de Jorge Colaço). eram mais correntes as aplicações azulejadas restritas às cimalhas dos prédios de habitação (com exemplos praticamente por todas as cidades. decoração da tabacaria Mónaco. Rua do Dr. rua principal Ramos Simões. no Rossio. de 1897-1900). é o mais paradigmático. um curioso frontão com motivos «egípcios» na Rua de Adriano Júlio Coelho. Lusitânia e Constância (sem esquecer a portuense das Devesas). no Cartaxo (Rua de Luís de Camões. visíveis. quase sempre utilizando a cerâmica decorativa. na Rua do Sacramento à Lapa. ou Pensão Continental. em Cantanhede (a fachada da Sapataria Edmundo. um . ou mesmo em Lisboa (a casa do visconde de Sacavém.De destacar aqui as principais fábricas ou oficinas de produção de azulejos. n. a Vila Ralph. n. e o frontão da Vila Fig. aqui relacionado por vezes com iniciativas dos emigrantes enriquecidos e regressados. nas Rua das Rosas. mas humorada. à Estefânia. na Rua de Joaquim dos Santos n. situações. aos painéis. como na já mencionada loja Nova York. no Monte Estoril. n. n. dentre eles. de material importado. Destes últimos encontram-se vários casos. ou nos padrões em relevo de algumas fachadas: a da já referida padaria na Rua da Graça e de uma garagem à Estefânia (Rua de Ponta Delgada).os 70-78. com arcos envolvendo várias janelas.os 5-7 O palacete burguês não deixou. em Ílhavo (na estrada de saída para Aveiro. de Ponta Delgada. n. n. em Sacavém. muitas vezes no contexto da província. João. aos frisos e faixas (na Vivenda Adelaide. o conjunto azul e branco assinado «Pinto». como as da Viúva Lamego. periféricas. em Lisboa. n. esquina para o jardim dos Passarinhos. na discreta. do Algarve ao Minho). em fachadas de prédios com carácter urbano e em regiões similares encontram-se também soluções originais. n.° 155). António José de Almeida. de que há exemplos: nos Estoris (no Alto de S. Em geral.° 24. 27 Aveiro — fachada de azulejos peno do antigo Rossio. em Sintra. entenda-se). combinada com encurvamentos das cantarias nas guarnições dos vãos. na Póvoa de Varzim (num edifício de habitação no centro). Existem muitos exemplos. em Tondela (num palacete do centro). 26 Fachada do edifício na Fuzeta. contudo. naturalmente. Do mesmo modo.° 55). ambientes e exotismos Fig. surgiram também exemplos relacionados com esta atitude de «procura do exótico».

foi aceite e portanto entendida entre nós. afinal. «Estremadura. 29). Fundação Calouste Em Guia de Portugal. mas muito bem articuladas com o sóbrio volume construído. n. 19 18 Fig. do ponto de vista de uma originalidade de interpretação. II.. 1924. Rua de João Mendonça 15. que a entende como «documento duma aberração do gosto. n. descontextualizada das razões da sua génese europeia. nomeadamente o ferro. na Rua da Alegria). ed. os «espaços totais» da Casa Horta ou de obras de Gaudi. 28 Aveiro — átrio de habitação perto do antigo Rossio. em Estremoz (fig. «Generalidades. que o proprietário teve a pretensão extravagante de fazer mostruário de janelas de todos os estilos» . em casos mais expressivos de uma leitura local. excepcionalmente e de modo algo provinciano. em Lisboa. 29 Estremoz — edifício conhecido como Casa das Varandas. Fundação Calouste Gulbenkian. E ainda. chegaram a criar verdadeiros «ambientes globais». de 1907 (fig. 19.os 24-26 Pormenores. caixilharias. sob diversas formas: como portões em frentes de habitações (na Avenida da República. E que. cf ed. se poderiam incluir duas situações: a da casa dos viscondes de Sacavém. que surgiu. no Rossio de Estremoz: foto pertencente ao proprietário do Café Águia d'Ouro Fig. assinados por Luís Pinto. eclécticas. materiais e interiores Outros materiais sofreram a influência da «nova maneira». Alentejo e Algarve». vol. 28)]. 1927. curvilíneo. Rua de São José. e a da Casa das Varandas. cf. onde mobiliário. roçando mesmo o kitsch e quase o surreal. vol. os Fig.prédio em Espinho (do Sporting Club. 30 Lisboa — pátio da Cooperativa Militar. Mas os exemplos mais interessantes. 19 . 41 e 54). com azulejos Fonte Nova. outros no Cartaxo (na Rua Batalhós. vidros e estuques se interligaram por forma a constituírem um conjunto impressivo e coeso [no Rossio. Esta casa vem referida no Guia de Portugal. I. o Café Águia de Ouro. já referida. em 18 Conforme Guia de Portugal. 87. como sucede no átrio de outro prédio aveirense. 17. de modo mais vernáculo e sincero. espécie de «colagem» de variadas cerâmicas das Caldas . e no Porto. lembrando. em Lisboa. Gulbenkian. na Rua 8). Lisboa e arredores». da qual se diz que cada janela era diferente para simbolizar os amores tidos em diferentes varandas do mundo pelo seu viajado autor. importada para Portugal como fenómeno de moda. foi no plano de uma extravagância que a arte nova..

os 66-68. num prédio da Rua da Praia da Fonte. e no ascensor do Palace Hotel da Cúria). as texturas nos armários da casa Madame Garcia. Largo da Misericórdia. Rua de Alexandre Herculano.° 245. no Largo da Misericórdia. n.° 7). Mas um dos exemplos mais completos da aplicação do ferro. Rua de Garcia Peres) e em cimalhas (em Évora. em Lisboa). nas Caldas da Rainha. 30)]. os estuques aplicam as curvas arte nova em frontões (em Setúbal. na Rua dos Heróis da Grande Guerra. em Lisboa).° 12. n. na Rua do Almirante Reis. 31 Lisboa — Garage Parisiense (demolida): foto do Arquivo Municipal elementos em consola (sobre a porta do Clube Agrícola. n. em Águeda). no desenho ondulante de caixilhos de janelas (Figueira da Foz. onde ondulantes vigas metálicas se conjugam equilibradamente com a forma oval do espaço. simples e utilitárias. e na entrada do antigo Hospital do Conde de Sucena. na Rua de Soares dos Reis.Fig. no suporte do quiosque do Largo da Estrela lisboeta.° 56). Fábricas e garagens Estas funções.° 90). junto à ponte). n. n. n. junto ao jardim.os 24-26 (fig. de portas (no Alto de Santo Amaro. em guardas de varanda (em Pombal. em Devesas-Gaia. No Sul. n. encontra-se no pátio da Cooperativa Militar [à Rua de São José. no remate de coberturas sanqueadas de chalé (em Sesimbra. Nos espaços interiores foi surgindo um «novo ambiente». junto à Praça da República. na Chamusca. definido por figurações do progresso (como os automóveis representados nos vitrais da Garagem Auto-Palace. relacionando os temas da arquitectura do ferro com os da arte nova. ajudaram a articular mais directa e correntemente o uso do ferro com a definição dos espaços — não se deixando . Rua de Peixoto Correia. já que ao nível da estrutura. ou através de elementos animalistas ou vegetalistas (os gafanhotos como definição formal no candeeiro do átrio de Aveiro antes referido. em Lisboa. A madeira apareceu em funções e formas idênticas às do ferro. e numa mansarda em Torre de Ucanha. em Lisboa). ou ainda em outras formas (como numa mansarda em Alcobaça.

pela articulação entre as suas partes e com o sítio). em 1898.os 152-156. enquanto toda a estrutura de suporte interna exibe o ferro nas habituais soluções curvas. arquitecto praticante do modo neo-românico. 31). mais tradicional no emprego dos materiais. Também Álvaro Machado. de tradição islâmica. tentando articular essa tradição. porém. A colaboração na Casa Roque Gameiro. ed. ou na referida Auto-Palace. características do românico. Tal sucedeu na desaparecida Garage Parisiense (fig. modernizada. e a construção da casa própria (Casa do Cipreste. aplicou o conceito de pátio e utilizou os materiais do Sul. Em fábricas ou armazéns surgiram também os elementos metálicos. mas. usando de maior liberdade na composição dos volumes (as massas «pesadas e maciças». características que o enquadram parcialmente na arte nova internacional. de 1910. no Largo do Conde Barão. 1970. a Campo de Ourique. in revista Colóquio. na Avenida de 24 de Julho. de 1910. na composição mais elaborada das caixilharias dos vãos (em Lisboa podem referir-se: o edifício na Avenida de 24 de Julho. Lino desenvolveu uma actividade por de mais breve no tempo — cerca de quinze anos dos seus primeiros trabalhos «marroquinos» — e restritiva no programa. esquina com a Rua do Tenente Valadim. ao uso do azulejo. Raul Lino. nelas. apesar de tudo. de 1906. não evita também as citações ao Jugendstil. e a antiga Fábrica Vulcano. aplicando-se quase apenas ao estudo de casas unifamiliares20. 1912) parecem marcar os limites temporais da sua pesquisa de sentido modernizante. estruturantes. nos terrenos ideais dos Estoris e de Sintra. em articulação com as fachadas. a fachada. ou a tentativa de prefabricar materiais (a telha mecânica do Cipreste). 32). alguns autores procuraram outros caminhos. que. com implantações pré-organicistas. na Casa José de Lacerda. dentro de uma pesquisa de tipologias domésticas. as limitações do desenvolvimento industrial do País na conjuntura da época. epidérmica em duplo sentido (como linguagem «importada» e como linguagem «de superfícies»). Fundação Calouste Gulbenkian. pormenor Conforme análise de Nuno Portas em «Raul Lino — uma interpretação critica da sua obra de arquitecto e de doutrinador».por isso de recorrer. . a Casa Monsalvat. reservou-se para a cerâmica. a antiga Companhia Nacional de Moagem. traduzidas aqui na pouca arquitectura. sem deixar de ter como objectivo primordial a criação de um ambiente global e único (um «espírito próprio» em cada casa. concebidas com uma mais livre articulação entre si) e a mesma referência aos padrões decorativos da arte nova europeia que Raul Lino ensaiara. isso resultou no mais importante contributo para o que falhadamente poderia ter sido o ponto de partida para a definição de uma arte nova de raiz lusa. de 1924). 20 Monsalvat. n. n. uma «fuga para a frente». A escassez dos exemplos atesta. de 1901 (fig. procurou.os 13-19. como noutras tipologias. Fig. construída. 32 Estoril — Casa Uma arte nova portuguesa? Afastados deliberadamente desta produção mais acrítica e seguidora das modas. do Estoril.

33 Lisboa — prédio na Rua aos Navegantes. n.º 21 .fig.

já em plena crise da indústria da construção. Estas foram pois as tentativas marcantes. mesclada (e recuperada) pelo eclectismo dominante desde Oitocentos. de 1914). cada vez mais fragmentados e isolados na empobrecida frente do edifício.° 26. no Porto. Ferreira da Costa. 35) Fig. embora muito ligados à escola francesa. ou no Prémio Valmor de 1 9 1 5 . desenhos sucintos e estereotipados dos pormenores construtivos esclarecem bem a simplificação que predominava. por Norte Júnior) (fig. Finalmente. por Miguel Nogueira (fig. uma forma de «arte nova lisboeta» que se traduziu em construções despojadas. onde o ornamento moderno se soube conjugar com uma grande pureza do desenho e uma compreensão regional dos elementos vernaculares. e. Este tipo de fachada «decorativamente pobre» associou-se normalmente a uma planta interior de excessiva profundidade. São exemplos desta originalidade as assimetrias da fachada do edifício na Rua de Alexandre Herculano. para a Rua da Betesga (o Hotel Internacional. como no prédio de esquina da Rua Augusta. de procura de uma nova arte (que não somente «arte nova») na arquitectura portuguesa do primeiro quartel do século. 1909.Korrodi.° 23 (Prémio Valmor de 1913) e tem o equivalente numa obra de Marques da Silva. com partidos de composição originais. e num contexto mais cosmopolita. se nos primeiros anos desta «mistura» se exibia ainda com bons materiais e acabamentos.os 284-286. C. n. no início dos anos 20. mas maciças. já em 1921.os 209-211: Arquivo Municipal Vulgarização e rarefacção da arte nova — transição para o «art déco» Enraizada cada vez mais como sistema decorativo e superficial.° 2 1 .o 26: Arquivo Municipal . do prédio na Rua dos Navegantes n. no «miolo» do edifício. entendidos como recuperáveis para as novas construções. Fig. n. na Avenida da Liberdade. n. já referida a propósito do uso do betão armado (os Armazéns Nascimento. de Terra. as decorações em massa iam pouco a pouco substituindo todos os materiais mais nobres na fachada e acentuava-se a tendência para rarefazer todos os temas e volumes decorativos. com quartos sem ventilação adequada (recorria-se ao tradicional saguão. ainda existente). 33) — que recorda o seu edifício da Avenida da República n.° 57. fixado em Portugal e praticante em Leiria. Como se os objectos construídos quisessem ser e aparentar aquilo que as limitações económicas e a irreversível evolução do gosto já impediam. de 1903. definiu em edifícios públicos e em moradias uma «arquitectura da simplicidade». pela via da simplificação decorativa e volumétrica. n. o alçado de um palacete da Avenida dos Defensores de Chaves (n. Comparando projectos de duas obras lisboetas. desgarradas embora. ou entre cada dois imóveis encostados empena a empena). conseguiram também. 35 Lisboa — projecto de palacete na Avenida dos Defensores de Chaves.os 206-218 (arquitecto Norte Júnior). a arte nova lisboeta foi-se vulgarizando no prédio corrente de habitação. Ventura Terra e o seu continuador Miguel Nogueira. 34 Lisboa — projecto de palacete da Avenida de 5 de Outubro. n. de 1917. do arquitecto J. ou as volumetrias feitas de curvas suaves.

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é bem exemplificativa do fenómeno: do Teatro Chaby. Fig. no Sítio da Nazaré (fig. simplificar. n. era também a estilística a aliar-se à técnica para um mesmo fim: embaratecer. o abandono de muitos «exotismos» decorativos. paralelamente. com recorrência a um sentido mais «clássico» da composição. numa palavra. por Pardal Monteiro) (fig. a cor a sugerir o claro-escuro. 34). aparentada com a arte nova. 36).° 36. acompanhado (e apoiado construtivamente) do betão armado. modernizar. Sítio da Nazaré à Garagem Avenida. ou ao cinema Salão Portugal. pode avaliar-se bem a diferença e sentir a evolução sofrida ao longo desta década na ideia de «estilo»: por um lado. 36 Teatro Chaby. em Lisboa (Travessa da Memória. a textura tendia a substituir as volumetrias. no bairro da Ajuda. dos anos de 1920 a 1930. . n.os 209-211.e o de outro imóvel de 1929 (palacete na Avenida de Cinco de Outubro. de 1928). Por esta via. mas mais rarefeita e pobre: a arquitectura dos equipamentos. a linha recta a anular as curvas — era o chamado estilo art déco a entrar na arquitectura portuguesa. em Coimbra (Avenida de Fernão de Magalhães). Na província e nos bairros periféricos das cidades maiores foi-se aplicando uma mesma «arquitectura de estuques».

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sobretudo nos países germânicos. que permitem mais facilmente transformar os valores volumétricos em superfícies. no artigo atrás citado (ver nota 16). 23 Moderna. por outro lado. l. as correntes germânicas iriam ser raiz para futuras experiências. sobretudo. Barcelona. da sua planificação nas superfícies construtivas. E as artes decorativas desempenharam um papel fulcral nesta nova atitude. 24 Em História da Arquitectura Moderna. esgotadas as inovações do caminho proposto por Horta. Lisboa. através da simplificação e geometrização desse decorativo. Um caminho importante é assim aberto: cada vez mais é possível pôr em causa os elementos construtivos e as suas relações. ed. a súbita e múltipla ocorrência de manifestos e de ideários ultravanguardistas no campo das artes plásticas. pois elas são cada vez mais visíveis e claras»23. necessariamente. que se via condenado e desprezado como fonte de todos os males sofridos pela arquitectura. tendências artísticas «de linha recta»21. abandonar o uso de elementos decorativos (herança da prática arquitectónica do século anterior. vai escapar totalmente). E aqui surge a preferência por materiais como o mosaico cerâmico. básica também para a evolução da arquitectura. interessados no seu estudo e nos problemas assim colocados. estruturais. vão dar um papel diferente a esse decorativo: o de evidenciar as relações volumétricas. a que só Adolf Loos. . evidenciar a modernidade das estruturas e das formas. que pretendiam criar avant la lettre uma arte totalmente desvinculada do passado. o vitral ou o próprio estuque.º 132. que cedo chegaram a um «beco sem saída» em termos de pesquisa para atingir uma nova e moderna linguagem arquitectónica. em baixos-relevos. ou seja. opostas às correntes da «linha curva» desenvolveram-se. não podendo. caso extremo desta escola. aqui provavelmente bebeu a arquitectura das «artes decorativas» em Portugal as suas mais directas influências»22. por Bruno Zevi. 1970. no dizer de Bruno Zevi24. de Março de 1979: «Para o estudo No artigo citado na nota 22 e baseado nas análises de Leonardo Benévolo em Historia de Ia Arquitectura da arquitectura modernista em Portugal — I». 21 22 Conforme Manuel do Rio Carvalho. vol. Destacaram-se entre elas. Lisboa. pois «a estrutura formal da sua linguagem vai impor-se além-fronteiras e. Behrens ou Olbrich.Estilo «artes decorativas» — o «art déco» Como se disse antes. Depois foi «a explosão dos ismos». Gustavo Gili. «tinham descoberto um novo interesse pelas formas elementares da construção e. No texto do autor publicado na revista Arquitectura. a da secessão vienense e a Deutscher Werkbund. 1974. Todo o processo se desenvolveu em simultâneo com as outras «artes novas» e durou até às vésperas da primeira guerra mundial. influenciar largamente as arquitecturas e artes decorativas da Europa ocidental. Hoffmann. portanto. que encobria com abundante decoração as estruturas e os volumes básicos da obra. Este processo foi decisivo contra um eclectismo passadista. os arquitectos germânicos protagonistas das tendências geometrizantes. nomeadamente da França. em cor ou em luz. ed. Ao contrário das linguagens curvilíneas. Arcádia. com introdução portuguesa de Nuno Portas. n. Porquê este diferente destino? E que Otto Wagner.

ainda essencialmente decorativa e trandicionalizante na expressão construtiva. e uma outra. que ocorre pelos anos 1920 e 1930. com conotação simultaneamente algo conservadora e modernizante (apelando sincreticamente a valores de composição ou de monumentalidade tradicionalista. em Portugal? Nas publicações especializadas. em 1925. também ele. tão convergentes na intenção: a de criar uma nova arquitectura para um mundo que se queria. Em Portugal já se referiu que o propriamente chamado «modernismo arquitectural» se afirmou com o período de vulgarização do emprego do betão armado. vindas dos pensamentos radicais dos anos da guerra e a que se chamava esprit nouveau. seria o campo onde frutificariam caminhos tão dispersos. revista A Arquitectura Portuguesa. uma série de pavilhões comerciais vulgarizavam a mensagem secessionista de vinte anos antes. até ao dealbar da década de 1940. A França. Junho de 1929 Ironizando a terminologia que Charles Jencks utiliza na sua análise ao post-modernismo (radical-eclecticism). E o que era ou se entendia por «moderno». que designaremos por «modernismo radical»25 e que. A primeira foi. a qual deu os primeiros sinais nos inícios da década de 1920 (quando no seu apogeu europeu) e foi rareando por volta de 1935. mas também em parte sequenciais: uma. um outro exibia intenções bem mais ousadas. aportuguesando a designação da correspondente corrente gerada na Europa central (que transitou do campo germânico para o francófono). . a 25 Fig. O art déco foi assim um processo artístico dos «anos loucos» de 1920-30. adoptada pela revista Arquitectura Portuguesa e contida na expressão «arquitectura portuguesa moderna» que encabeçava a secção referente a um projecto de palacete com todos os «tiques» da arte nova tardia. mas. Lisboa. tal sucedeu pela hábil mistura que o art déco soube ensaiar das ansiedades vanguardistas expressas durante a guerra (ainda só compreensíveis e praticáveis por uma elite cultural) com as já então veteranas lições dadas pelas obras austríacas e alemãs dos anos 10. país por tradição geográfica e culturalmente congregador de experiências alheias. parcialmente sobrepostas no tempo. afirmando-se pelos anos 25. nesta época. já a segunda foi crescentemente purista e. como o nome indica. branca e purista. que comprova a importância destas no campo da construção e o papel decisivo da intervenção francesa). a seu lado. E não é por acaso que na Exposition des Arts Décoratifs. ainda em 1 9 2 1 . Falta explicitar que esse modernismo se organizou segundo duas tendências estilísticas. 38 Projecto para um pequeno hotel-pensão com o 2° andar suspenso: ed. recorrendo a um desenho e a uma temática renovadoras) e através do qual se caldearam pouco a pouco os valores modernos que iam sendo propostos por uma Bauhaus ou por um Le Corbusier. parisiense. ou seja. perseguindo o «moderno». ao mesmo tempo. a palavra começou a aparecer por 1 9 2 1 . mas. novo. acentuadora das linhas horizontalizantes na obra. se prolongou até mais tarde. que se pode apelidar de «estilo artes decorativas». no fundo. Mas logo num número seguinte.A génese Foi o pós-primeira guerra mundial que finalmente inventou a chamada arquitectura art déco (abreviatura da expressão francesa art décoratif. ainda decorados e policromos — enquanto. criação de Le Corbusier.

exprimindo a clara hesitação entre modelos internacionalistas e autóctones da época (e referida aqui a uma moradia também com elementos arte nova. de sentido ainda utópico (fig. com beiral e floreiras). como o «hotel-pensão com o segundo andar suspenso». a casas de volumes puristas (com desenho algo tosco. projecto «de engenheiro») e a obras de betão armado e superfícies art déco. respectivamente. revista de actualidades e novidades.mesma secção resvalava para o título «arquitectura nacional modernizada». A ABC. de Silva Júnior. refere-se. refere-se em números de 1925 e 1927. 38). a mesma Arquitectura Portuguesa. em números onde a palavra «moderno» se encontrava já vulgarizada. mas mais «ruralizada». para falar já de projectos expressionistas alemães (de Mendelsohn). . à «arquitectura moderna» e à «arquitectura modernista». mudando para projectos bem mais concretos. por volta de 1933. inesperadamente. na mesma designação («arquitectura moderna»). no mesmo estilo. Finalmente. em 1929.

o formulário clássico.os 15-17. aspecto que ajudou a suavizar os volumes e o claro-escuro e a realçar as linhas e as texturas. já que ainda se não abandonara de todo o modo convencional Praça Novas Nações. A base desta estilística era ainda. aliás entendidos mais como exotismos de que como vias de futuro. na Rua do Dr. estas formas exprimiam-se. até só as cores [exemplos em Oeiras. Finalmente. 40). ao longo da década de 1920. reportando-se em simultâneo aos movimentos mais vanguardistas europeus. no contexto nacional. assistiu-se a urna planificação dos elementos decorativos nas superfícies da fachada. mais desvinculadas do referente clássico. 39 Figueira da Foz — Igreja Evangélica Figueirense.° 9 Assim se verifica como este conceito (o «moderno») transitou. José Joaquim de Almeida. pelas sucessivas correntes artísticas da arte nova e das artes decorativas. 39). n. 41 Lisboa — projecto de prédio para o Bairro das Colónias: Arquivo Municipal (Rua K. Como resultado natural desta tendência. na Praça da República. n. Rua das Lamas/Rua de 10 de Agosto Fig. 37)]. Assim o podemos apreciar em típicos prédios de habitação lisboetas (na Rua Nova de São Mamede) ou em equipamentos como a Igreja Evangélica Figueirense (fig. assinado por Jacinto Robalo. 40 Moradia cm Oeiras. exemplo também notável é o do conjunto do átrio da Estação do Cais do Sodré (fig. Os pormenores decorativos deste tipo de fachadas exibem também claramente o desejo da obtenção de formas geométricas e lineares que se reflecte noutras estilizações florais e abstractas (como nos portões da Estação do Sul e Sueste do Terreiro do Paço). Rua de José Joaquim de Almeida. porém. e em Alcobaça. n. Caracterização Ao estilo artes decorativas assistia uma constante procura de geometrização e de simultânea simplificação das formas construtivas em geral. onde o ritmo da construção é dado pela interpretação modernizada da ordem jónica. 1932) .o 9 (fig.Fig. de resto. Fig. até chegar ao purismo. o verticalismo como expressão dominante das fachadas era também uma característica do art déco. que se «estilizava» e depurava. na continuidade do caminho subversor e irreverente que a arte nova tinha iniciado.

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Loures.° ano lectivo de n. de Maio de 1979: «Para o estudo da arquitectura modernista em Portugal — II». n. Lisboa. por isso. na Rua de Almeida Garrett (fig. com os tradicionais azulejos e os pequenos mosaicos vidrados. e. Joaquim Candeias e José Seco. cromática e gráfica. Os primeiros. como a pedra. nos «pastosos» tectos estucados de átrios de acesso em prédios de andares. à Cervejaria Portugália). que começavam a predominar na fachada. ou prédio na Avenida do Almirante Reis.os 15-17). no Bairro das Colónias (figs. de alto a baixo da construção (Avenida de Rovisco Pais. que. típico da produção lisboeta dos construtores civis tomarenses [o das Colónias. até situações onde a pilastra se «apagou». capitéis e moldura. ainda que com expressão vertical. 43)]. trocada por superfícies lisas. na Rua de Santa Rita. As plantas interiores não acusam neste período significativa mudança em relação aos anos 20. hoje das Novas Nações (fig. onde as mesmas pilastras já eram interrompidas a meio da fachada. 1932) decorativos (Avenida de António Augusto de Aguiar. bases de pilastras. n. 41-42)]. no n. Também a cerâmica participava nesta valorização das superfícies. com as pilastras respeitando a «ordem». com descarga vertical de esforços) . Lisboa).os 60 e 98. em evocações florais ou abstractas [de que são exemplo bons conjuntos em fachadas de Vila Franca de Xira. dada sistematicamente pelas grandes pilastras estilizadas (exemplos no Mercado de São João do Estoril. 28 1977-78. Assim se inventavam formas novas no concheado da base das varandas e no remate das cimalhas e platibandas (Alcobaça. portantes. diversos exemplos nas Avenidas Novas. a casos mais inovadores. se pode tipificar em desenhos-imagens28. e a isolar os agora escassos temas Fig. e na Rua de Serpa 26 27 Ensaiada no artigo referido na nota 22.os 133-137. Carlos Câmara. Rua da República. Praça Novas Nações. para áreas marginais e reduzidas (os embasamentos). n. José Silveira. números pares 8 a 26. 45). em Leiria).° 133. numa análise detalhada para um dado «bairro». continuando os saguões e os quartos sem ventilação. no já referido prédio da Praça da República. Avenida Marginal. Formas e materiais As fachadas iriam usar predominantemente os materiais pobres. finalmente. para coroamentos. e afastar as matérias de conotação mais nobre.o 1 2 1 . A análise de materiais foi desenvolvida na sequência dos artigos referidos na nota 22: revista Arquitectura Conforme trabalho realizado na ESBAL — Departamento de Arquitectura — para o 3.de construção (paredes de alvenaria.° 104. ou no prédio do Largo de Santana n. n. Estas dominantes evoluíram ao longo da década de 30. no Bairro Azul. por Virgínia Graça. como o estafe27 (procurando uma «arquitectura da ilusão»).os 8-13. sendo possível uma leitura das diversas tipologias estilísticas em relação ao prolífero prédio urbano alfacinha26 Desde os exemplos mais próximos de um modelo classizante.° 169 e n. n. de Lisboa). ou mesmo autonomizadas do anteriormente «obrigatório» remate superior no capitel [exemplos nos edifícios da Praça das Novas Nações. . assinado por Jacinto Robalo. No conjunto criou-se deste modo um completo vocabulário de elementos superficiais «clássico-geométricos».° 35 da mesma rua. 42 Lisboa — projecto de prédio para o Bairro das Colónias: Arquivo Municipal (Rua E. nos frontões rectos e painéis que encimavam portas e fachadas (Buarcos. A tradução desse verticalismo na frente construída era. já que as inovações se passavam mais ao nível das tecnologias que dos programas.

Pinto, n.° 108]; os segundos, do mesmo modo, exemplificados em Peniche [Rua da Alegria, esquina com Travessa da Horta (fig. 44); Rua da Alegria, n.os 44-46] ou em Lisboa [na emblemática moradia da Avenida de 5 de Outubro n.o 209-211, por Pardal Monteiro, de 1926-29); curiosamente, há uma predominância destes materiais em zonas litorais e piscatórias, certamente pelo apelo à cor que exibem. Ligada a esta decoração estava naturalmente uma simbologia que privilegiava conceitos como o do «progresso» [as rodas dentadas no frontão da garagem AutoIndustrial, em Coimbra (fig. 46), ou as asas do «deus da velocidade» na frontaria da Estação do Cais do Sodré, em Lisboa], frequentemente relacionado com o advento dos transportes mecânicos. Doutro modo, herdando a tendência arte nova, a simbologia decorativa abordava o universo dos motivos vegetalistas ou animalistas, evocados de modo quase «panteísta» em capitéis das moradias (exemplo em Viseu, na Rua de Cândido dos Reis, construída para o comerciante Nuno da Sola por Rogério de Azevedo, cerca de 1930-32); ou, vista de modo mais ingénuo, nos quadros coloridos alusivos às vindimas apostos na fachada de um prédio em Arruda dos Vinhos (Rua de Luís de Camões, n.o 96); e ainda em inúmeras varandas de ferro de prédios e em vigas de betão [estas com curioso exemplo «concheado» na referida estação do Cais do Sodré (fig. 47)]. A inspiração naturalista marcou igualmente a produção do mobiliário doméstico e público (patente respectivamente numa casa de Marco de Canaveses, a Vila Amélia, no Largo do Mercado, de 193032; e no Palace Hotel da Cúria, nas suas escadas metálicas). Temas mais figurativos e tradicionais, roçando o pomposo, que a classe média em ascensão «adorava», surgiam, por exemplo, numa «excessiva» coroa de louros encimando um prédio de habitação na Figueira da Foz (Rua de Bernardo Lopes, do construtor Bernardo dos Santos, de 1936-37), ou nos azulejos agrinaldados de inúmeras caixas de escada lisboetas (Avenida de Barbosa du Bocage, n.º 18, por Norte Júnior, de 1930). Pouco depois difundia-se uma simbologia abstracta, em cerâmica de padrão degradé, policromo e linear (nas populares tascas da capital, nos tectos das drogarias de bairro, mas também no luxuoso Casino do Estoril dos anos 30). Difusão patente quer na decoração de varandas, portas, portões e janelas do prédio urbano, quer, recorrendo

Fig. 44
Peniche — fachada de edifício
na Rua da

ao estuque ou trabalhando o granito, em fachadas regionais de norte a sul do País. Os elementos construtivos, com forma piramidal ou em denteado escalonado, foram outra «obsessão» deste estilo, em tudo ansioso por reduzir à lógica elementar e purista das linhas horizontais e verticais o que antes se exprimia em oblíquas ou curvas. A chamada «fachada-frontão», com uma forte cimalha «em escada», foi talvez a consubstanciação mais total deste gosto: em equipamentos de pequena dimensão (antigo Vitória-Cine de Carcavelos, na Rua de João da Silva, n.o 4; antiga sede das CRGE em Oeiras, Rua do Conde de Ferreira, n.° 23), ou em armazéns e fábricas (em Matosinhos, as frentes da antiga Algarve Exportador, por António Varela, Praça de Passos Manuel, n.º 216). Onde a afirmação decorativa se resume, murtas vezes por economia, aos contornos das fachadas, estas assumem aquele tipo de remate (não deixando por vezes de abordar um exotismo «expressionista», contraditoriamente resolvido em ondulante perfil [exemplos na moradia de Carcavelos (fig. 49) e nos armazéns Sapec, do Bombarral, estrada para Lisboa]. Outras formas muito usadas nesta época foram os pequenos volumes piramidais que, em tijolo e reboco, encimando os edifícios, coroaram cada cunhal, pilastra ou vão da construção — necessidade de afirmar estes elementos visualmente, além da sua real importância, ou de inconscientemente evocar a perdida monumentalidade da arquitectura (julgava-se que para sempre) ou, ainda, reflexo do novo-riquismo e ostentação que uma classe média em ascensão queria traduzir «eternamente» na obra? De não esquecer também a imagem das pirâmides astecas, que a arqueologia meso-americana então colocava tão na moda, como provável inspiração internacional destas formas! [exemplos em Oeiras (fig. 48) e em Zambujal-Loures, Largo de António Sérgio, no prédio junto à cooperativa A Zambujalense]. Os denteados em muros (moradias de Santo Amaro de Oeiras), na moldura dos vãos (habitações em São Luís, perto do Cercal, e em Vila Nova de Foz Côa), ou até em simples remates de vigas (Sanatório de Celas, em Coimbra; interior do antigo Vitória-Cine, de Carcavelos), ou mesmo nas discretas «artes da marcenaria», nos

Alegria/Travessa da

Fig. 43
Lisboa — pormenores decorativos em edifícios no Bairro das Colónias: trabalho realizado para u cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL, por Virgínia Goes da Graça, Carlos Perry da Câmara, José Ivo da Silveira, Joaquim Candeias e José de Sousa Seco. Lisboa, 1977-78

Horta

Fig. 45
Vila Franca de Xira — cimalha de prédio com azulejos, Rua de Almeida Garrett

Fig. 46
Coimbra — Garagem Auto Industrial, na Avenida de Fernão de Magalhães, n.º 333

Fig. 47
Lisboa — estação ferroviária do Cais do Sodré, conjunto do átrio: foto Estúdio Mário Novais

Fig. 48
Oeiras — átrio de moradia, Rua do Dr. José Joaquim de Almeida, n.o 9

Uma certa contradição entre a dominante vertical referida e as linhas mais modernas de marcação horizontal acentuou-se entretanto.Fig. de 1930. Rua de Cândido dos Reis. . (Carcavelos.º 98). ainda não transformados num pano de vidro contínuo. tanto mais quanto o betão era gradualmente empregado em maior percentagem na obra. 49 Carcavelos — fachada de moradia (Vivenda Sagres). Marques da Mata banquinhos de lojas (Farmácia Godinho. os quais. habitações na Rua de José Carlos da Maia).. ou o caso ainda de moradias diversas onde grossas pilastras «lutavam» contra longas varandas alpendradas. n. já o tentavam simular (Parede. A fenestração contínua prenunciava-se também nas sequências de vãos encostados ou justapostos. projecto de Hermínio Barros. confirmam a difusão desta convicção decorativa. na Rua da Palma. Garagem Lys. Ponte de Sor. Rua do Dr. Lisboa. de 1933).. em Oeiras. Rua do Dr. Marques da Mata. projecto de Vasco Regaleira. rua principal). com as suas lajes a exigirem e gerarem linhas dominantemente horizontais: foi o caso de instalações industriais e garagens onde a transparência dos envidraçados ia traduzindo a carga cada vez mais pontual exercida nos pilares (Central Estrela.

50 Aveiro — quiosque no Parque Municipal .Fig.

todas estas tendências convergiam agora para pressupostos comuns de construção. O fundo real das razões do «moderno» escapava-nos (a necessidade de estandardização dos materiais para servir a premente reconstrução nas ruínas europeias. n. o «descontexto» nacional em relação à Europa industrializada ditou uma absorção tardia destas descobertas. Lisboa. entre o pós-guerra e a data charneira de 192729. um esforço geracional de actualização cultural e sobretudo uma situação política novamente estável e apta para um arranque no campo da construção implicaram logo em 1929-30 um surto de construção de edifícios. que a influência da arquitectura de Mallet-Stevens31. Bertrand. Esta era urna questão cara à idêntica 29 Aceitamos os limites. Julho de 1980) 31 . Quase inesperadamente. encontravam o contraponto quase isolado do pintor-arquitecto Le Corbusier. ele próprio quase uma «escola» de princípios formais e espaciais. Génese em Portugal Como sucedeu ao longo de todo o anterior processo de influências. mais do que a de Le Corbusier. austríaca e do Jugendstil. Na Alemanha tinham sido assimiladas as propostas pré-modernas. as tentativas de uma síntese divulgadora. (ver nota 23). pela via dialéctica das experiências do expressionismo e do racionalismo. por melhor inserção na produção corrente da linguagem do primeiro daqueles autores. 30 modernista em Portugal (na revista Arquitectura. chegara-se à poderosa síntese metodológica e colectiva que foi a Bauhaus. iniciadas pelo art déco. mas algum gosto atávico (e compensador) pela novidade. finalmente. de novos projectos. 1974. Na França. iria concretizar. de articulação com a exigência prática do processo social. confirmando a capacidade de integração cultural e a dinâmica das vanguardas artísticas da Europa central. ou a afinação das novas tecnologias de obra que a concorrência industrial tornava inevitável).Do primeiro «moderno» ao advento do nacionalismo O chamado «movimento moderno» na arquitectura formou-se e consolidou-se. a qual soubera também ligar às pesquisas anglo-belgas do habitat e ao purismo volumétrico do movimento De Stijl. de valores estéticos. Os seus núcleos polarizadores situavam-se no triângulo Alemanha-França-Holanda. tão precisos quanto abstractos. É difícil discernir com rigor quais os principais modelos da nova arquitectura que mais contribuíram para o seu lançamento entre nós30.° 137. Lisboa. provindas da «secessão vienense». a braços com uma reconstrução do parque habitacional envelhecido ou afectado pela guerra. A Holanda. tinha bebido muito da lição americana de Frank Lloyd Wright. e. propostos por Leonardo Benévolo na obra já citada Uma tentativa de classificação já foi esboçada pelo autor na série de artigos citados sobre a arquitectura Conforme José-Augusto França. em História da Arte em Portugal no Século XX. exposições e concursos públicos onde se aliavam construtores privados e obras públicas estatais. naturalmente esquemáticos. ed. e sobretudo urna atitude algo superficial e ecléctica na sua aplicação e compreensão. Conhece-se a habitual ligação portuguesa à França.

mimetizavam sem dúvida temas de J. sobretudo a sua empena lateral construída).° 11: Arquivo Municipal Linhas dominantes Volumes puros e encastrados em criativa assimetria! Fim dos telhados. articulando esquinas e volumes. Um sentido de composição volumétrica (no encastramento dos corpos). aliás. dentro de um gosto médio de público. Fig. a presença da Bauhaus existe. Nos finais da década de 30. menos decifrável formalmente. com aproveitamento das coberturas para terraços ou jardins! Grandes espaços interiores 32 Edição «Cadernos Seara Nova». tão frequentes na época. Mas convém não descurar a importância da Alemanha concretamente neste período.. onde Cassiano Branco recordava com outra imaginação as composições dinâmicas e os volumes cilíndricos do mestre francês. saindo da aprendizagem com Ventura Terra e vindo a ser futuro mestre de Keil do Amaral. como a Câmara de Hilversum (1928-30). numa perspectiva ecléctica. trazendo ainda em meados dos anos 20 as inovadoras formas vistas em Paris.. onde as composições à volta de torres prismáticas e abstractas. a revista Arquitectura Portuguesa continuava. por vezes «moles» e de contornos oblíquos. foram também certamente contribuir para a divulgação das obras francesas. quer pelas ligações com autores portugueses: Carlos Ramos. . uma escala discreta e «humana». no edifício comercial da Avenida de Lourenço Peixinho. ou em situações de consolas horizontais de betão. A sua biblioteca profissional possuía também forte componente de títulos desta nação e ele próprio me referiu muitas vezes admiração por obras de Dudok. em Lisboa (por Jorge Segurado). n. a referir como arquitectura de hoje obras italianas puristas ou monumentalistas.. no entanto. ou o Coliseu portuense (C Branco e outros) duas poderosas concretizações dos anseios do futurismo italiano? Mais diluída. de remate curvo (no Porto. recordavam imagens do expressionismo alemão.produção nacional de prédios de habitação. podendo no início de 1940 caracterizar uma «Lisboa moderna» com base em prédios de rendimento e no conjunto Técnico-Estatística. 51 Lisboa — projecto de moradia na Avenida do México. E não serão o Éden-projecto (por Cassiano Branco. quer pela sua dinâmica real. um entendimento dos valores urbanísticos da cidade-jardim holandesa dos anos 20 reflectiram-se muito. n. Por sua vez. os armazéns frigoríficos de Massarelos. Keil do Amaral ligar-se-ia pouco depois à Holanda escrevendo aliás o único contributo teórico desse tempo sobre que modelos e que «metodologias» de arquitectura entender e seguir. Pieter Oud em Hoek van Holland. possuiu importante e muito consultada biblioteca divulgadora da «arquitectura moderna» com origem germânica. A Moderna Arquitectura Holandesa.° 133). Influências alemãs e holandesas viam-se também em obras do Porto. galerias e transparências. e bolseiros de Belas-Artes como Cristino da Silva iriam trabalhar em França. As revistas de novidades. além de obras belgas de prédios «à Cassiano» (entre 1937 e 1938). e também em Aveiro. cobrindo o nível térreo. nas composições de equipamentos como o Liceu de Beja (por Cristino da Silva) ou a Casa da Moeda. na sua articulação assimétrica de volumes. 1943. Lisboa. na produção de Keil do Amaral (nos pequenos equipamentos para os parques de Lisboa).. em 193632.

de 1936 (já demolida). também. 50). prédio na Avenida do México. da sua velha função de suportar a construção! Assim se queria manifestar a obra moderna33. Lisboa (fig. Deste modo. pelas vigas de descarga pontual.° 11. quer na estruturação axial daquelas. libertas. em volta de uma «rótula» [Correios do Estoril. de 1935. já em 1925. Mas foi nos volumes torreados que encabeçam a composição de muitos edifícios que se afirmou uma maior «vontade de moderno». enfim. n. se inventava um novo dinamismo espacial. numa humilde moradia em Benfica. Assim se propunham as revolucionárias premissas em Portugal. num CapitólioSalão de Festas de enormes vitrais móveis e permutável espaço interior (por Cristino da Silva). com extensos envidraçados exibindo a liberdade de desenho de fachadas. quer na composição assimétrica das plantas (antigo Lactário Carmona. ou mesmo num simples quiosque aveirense quase «mondriânico» (fig. 51)]. por Adelino Nunes.livres de pilares. talvez por em Portugal eles 33 Conforme os análogos princípios que Le Corbusier proclamava em 1926 e dos quais só os pilotis que «soltavam» o edifício do solo tardavam a encontrar expressão entre nós. em Chaves). . feita de cilindros e cubos.

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52)]. de Santarém. n.º 138.. de Espinho (fig. angulosas.° 32). pelo Eng. do Largo de Santos. ou na Moagem de Carcavelos (Avenida do Loureiro. . Outubro de 1980). foi modernista. 1939). embora ensaiasse já parciais aplicações do betão (o que. acontecia também nas fases anteriores). inicialmente para garagem. n. e no Cinearte. desenhado por Eduardo Figueiredo. cortadas por palas em betão.. Avenida da República. 1931-36). de realçar que esta arquitectura merece aqui precisamente este epíteto porque se assumiu convencional. A habitação Uma classificação tipológica dos principais tipos de fachada que o nosso «modernismo radical» engendrou em prédios de habitação foi já tentada31. Cilíndricas e opacas. ou na Piscina Solário Atlântico. são sempre um sinal de modernidade para o edifício que culminam. mal arejada). n.° 13).° 2 [Lisboa. ou envidraçadas e translúcidas. Espinho (bilhete-postal) Fig. estrada Carcavelos-Parede. mas não ainda totalmente moderna. em continuidade com a construção de fases anteriores: ou seja. de resto. Lisboa.º Mota Beirão. n. Torres prismáticas. por Jaime José Gomes. ela própria simples de mais. num palacete portuense (Casa de Serralves. de Viseu. por restrição orçamental. assim surgem as torres.° 52.Fig. ou no Cine-Teatro Rosa Damasceno. 53 Espinho — Piscina Solário Atlântico: ed. por Rodrigues Lima (fig. para poder conter tudo o que arquitectonicamente haveria a afirmar no conjunto. 1938. 52 Lisboa — antigo cinema Cinearte. e aceitou a própria estrutura urbana tradicional de fachada-rua e de traseiras-logradouro. numa moradia da Parede (Vivenda Amélia. ainda decoradas (moradia em Algés. 53)]. Jardim de Santos terem de exprimir muitas vezes o «resumo» das intenções da obra. pois aceitou o lote urbano de planta corrente (profunda. ou de novo transparentes (fachada do Capitólio). por Marques da Silva e Charles Siclis. n. Onde o «modernismo radical» se distinguiu realmente do estilo «artes decorativas» foi na abolição «fachadista» de decorações que não fossem 34 Nos artigos do autor já citados (na revista Arquitectura. encastradas e densas [no antigo Cine Rossio. Papelaria e Livraria Sousa.

por tal forma que se converteu em norma de obter uma ampliação de terreno da construção. o tipo de fachada mais característico do prédio lisboeta desta época foi o que soube «jogar» com elementos volumétricos contínuos.° 2. Há prédios construídos onde tais balanços atingem cerca de 2 m. apresentavam elementos volumétricos descontínuos. . ou a imitações deles. logo se generalizou a aplicação do mesmo estranho ornato a um sem-número de edificações. bow-windows (afinal tratados como sucessores «decorativos» das anteriores formas vegetalistas). a dividir o prédio ao meio.. uma espécie de vassoura com o cabo para baixo. que Pacheco se deve referir). seriamente projectados em alguns prédios. n. com gravíssimo prejuízo da estética dos arruamentos. na 35 Na revista Arquitectos. 54 e 55) que Duarte Pacheco ironizava em 1938: «Há prédios em Lisboa em que se repetem os motivos das construções com uma insistência que aflige. ou mesmo faixas salientes de cimento rebocado. ou. caixas de escada. Sindicato Nacional dos Arquitectos. há tempos. logo apareceram a esmo maus imitadores a usar — e a abusar — dessa liberdade arquitectural. que acentuou a movimentada volumetria e as dominâncias verticais ou horizontais do desenho. muitas vezes procurando um efeito de simetria (figs. Este texto é revelador sem dúvida das «modas tipológicas» que nomeadamente Cassiano Branco despoletava na construção de Lisboa (é aos seus projectos. varandas salientes encastrando em bow-windows. Sem dúvida. Depois surgiram os balanços devidamente proporcionados. da visibilidade dos prédios vizinhos e das condições de habitabilidade dos edifícios. Outras tipologias privilegiavam a marcação da caixa de escada através de um ou mais painéis de vidro na frente da construção. em claro-escuro. Apareceu.. Lisboa. normalmente varandas isoladas. acentuando linhas horizontais da construção. 1938-39. cobrindo inteiramente os passeios das ruas que os marginam»35. bem como do uso oportunista que este modernismo consentia por via do betão e da fachada. no realce novo que soube dar a elementos como varandas. ed.abstractas (e mesmo estas eram raras). por exemplo. mais pobres.

º 17). O reboco merecia também. livremente apostas nas fachadas. no conjunto da construção (figs. 57). Na pormenorização abundavam. mais rarefeitos ainda. mais ricas nas avenidas de Lisboa (fig. Fig. isto para além das formas «soltas». na entrada de prédio no Largo de São João Baptista. como sucedia no Coliseu do Porto (as «bolachas» da torre).º 98. saliente em faixas verticais. De facto. mais interessantes. as composições geométricas decorativas. em Leiria (Praça de Rodrigues Lobo. o prédio de habitação colectiva iria usar mais completamente o betão armado na sua estrutura. já referida) e em Lisboa [Avenida dos Defensores de Chaves. por esta época. como em Palmeia. combinando círculos e rectângulos). estética e tecnicamente. 58 e 59). aparecendo o alçado posterior gradualmente integrado. ou na combinação de umas e outras. a tradicional oposição formal entre traseira e fachada foi diminuindo. estes casos são naturalmente mais correntes. As formas mais «moles». mas um . n. n. guardas e corrimão cromado do balcão). 54 e 55)]. edifício da Gordalina Cabeleireiro). ou. em chapa e perfis metálicos. curvas.Fig. mais elementares em vilas e subúrbios (parcialmente embutidas em peças de madeira de desenho tradicional.º 4. n. em portas de átrios (com formas sempre abstractas. n. com faixas em simetria). 57 Lisboa — porta de prédio no Bairro do Liceu de Maria Amália Vaz de Carvalho Aproximação do nacionalismo — relações com a arquitectura A passagem para a década de 40 assinalou contraditoriamente uma maior inovação tecnológica. no prédio comercial da Rua de Serpa Pinto. como nos exemplos na Parede (a Vivenda Amélia.os 3-5-7). como nos exemplos de Vila Real (volumes «soltos». horizontais. Na província. por Cassiano Branco (figs.º 56. aplicaram-se também com fluência em interiores. de Bucelas (Rua do Marquês de Pombal. 56 Covilhã — Mercado Municipal impossibilidade real de criarem esses volumes (como se de fenestrações contínuas se tratasse). um uso inventivo. amaciando remates e volumes (Cine Oeiras. ou de Loures (Rua da República. com faixas). n.

fruto do conservadorismo cultural em que mergulha a Europa nos fins da amedrontada década de 30. anacrónica). Fevereiro de 1944. 59 Lisboa — projecto de prédio na esquina da Rua do Padre António Vieira com a Rua Castilho: Arquivo Municipal 36 Na revista Arquitectura Portuguesa n. No tratamento dos corpos torreados. visível nas fachadas dos prédios de rendimento (apesar de — ou paralelamente a — uma planta mais salubre e arejada. na Avenida Marginal). com a aposição de materiais mais «pesados» ou texturados. . pelo arquitecto Almeida Araújo. obtida por vezes pela aposição de simbologias figurativas de conotação pomposa ou oficial. fez ressurgir em Portugal conceitos historicistas. Avenida da Liberdade. 56)]36. Em novo contexto cultural. foi frequente entre 1938 e 1940 a marcação por grossas colunas dos ritmos verticais nas fachadas — tendência que ressurgiu. Interessa aqui referir a lenta «contaminação» que a tradição construtiva modernista foi então sofrendo. antes proclamados e seguidos pelo movimento moderno. classizantes e regionalistas. uma reacção que também foi internacional ao purismo e abstraccionismo. ainda que dentro das premissas formais modernistas (como na fachada da sede do Diário de Notícias. que assinalarão a entrada da arquitectura portuguesa numa «nova era» que ultrapassa o âmbito deste estudo e lhe define um limite preciso. «mascarará» ironicamente essa inovação. sentiu-se também a mudança de gosto. Fig. Afirmou-se nesta fase uma procura de monumentalidade. como o tijolo vidrado ou o beiral aplicado de novo (Instituto de Socorros a Náufragos de Paço de Arcos.º 107.retrocesso estilístico. Lisboa). que tão bem souberam exprimir a estética modernista em muitos edifícios. acentuando o «peso» da construção [Mercado da Covilhã. Lisboa. 58 Lisboa — projecto de prédio na esquina da Rua do Padre António Vieira com a Rua Castilho: Arquivo Municipal Fig. de cerca de 1942-43 (fig.

utopias H era dos equipamentos Os autores .Da Monarquia à República Desenvolvimento urbano. instituições.

utopias Todo o período que assistiu em Portugal à aplicação das novas técnicas construtivas. de facto. deve portanto ser entendida à luz das descontinuidades na acção prática que o contexto político e social sempre engendrou nesta fase. Cristino da Silva e outros continuarão a idealizar e desenhar obsessivos e monumentais remates para o parque Eduardo VII. porque. Bertrand. e à sequência estilística dos modernismos arquitecturais correspondeu. Conforme José Augusto França. ed. esse crescimento. reflexo das convulsões europeias contemporâneas. o arquitecto Álvaro Machado engalanava um viaduto ferroviário da futura Avenida da República com decorações afrancesadas e «pesadas» (vindo afinal a executar-se em «portuguesa» solução. instituições. com gigantescos viadutos metálicos transcolinas37. e sobretudo num entendimento cultural de Lisboa como grande metrópole. ou como reacção «desesperada» ao que o «progresso» deveria tornar possível. Ainda em 1906. Na revista Ilustração Portuguesa de Janeiro de 1906.Desenvolvimento urbano. as suas crises crónicas e a rotura final de 1926. em 1 9 1 1 quase duplicava e nos anos 1920-30 rondava o meio milhão). as constantes. de comboios suspensos e torres esplêndidas (fig. 1886. nos espíritos mais conscientes. até bem dentro dos anos 20. Miguel Pais. a crise das gerações «vencidas da vida» e dos novos nacionalistas que se lhes opuseram. seguida do advento do betão armado. onde a arquitectura. Timidez na iniciativa e escassez de resultados concretos foram pois. Lisboa. a noção da distância entre o real e o desejável. 37 38 39 Em Lisboa Monumental ed. as ditaduras do final da Monarquia. os «saltos industriais» de 1870 e de l 890. II. 1967. em Melhoramentos de Lisboa — Engrandecimento do Avenida da Liberdade. não tinha o correspondente reflexo numa qualificação em equipamentos e infraestruturas. Lisboa. Me em Portugal no Século X/X vol. e no ano «mágico» de 1906. Fialho de Almeida sonhava com uma «Lisboa monumental» que realmente engrandecesse as Avenidas. no campo da intervenção na cidade. Tudo se passava afinal como duas décadas atrás. vilas operárias e fabriquetas pobres. Mello de Matos. imaginava a «Lisboa no ano 2000» sofisticadamente portuária. da CML. Urna forte tendência para sonhar utopias foi logo uma resultante destas condições. Se a cidade capital acusava por estes anos uma dinâmica de expansão enorme (em 1878 tinha 230000 habitantes. Um engenheiro. o rebentar da República. Toda a dificuldade de lançamento e implantação das novas ideias estéticas. Typographia Universal. por outro «mecânicas» e movimentadas. 1957 (inicialmente publicado na revista Ilustração Portuguesa de 1906). à definição da arquitectura do ferro. em termos sociais e políticos.. Este período atravessou a segunda fase da Regeneração. Assim. no domínio da arquitectura e da construção. mas a pobreza global do País impedia. Lisboa. segundo opúsculo. quando outro engenheiro sustentara apologeticamente que a Avenida da Liberdade poderia ser uma «grande artéria» até ao alto da Penitenciária39 e como. mas também fruto de um dinamismo próprio. a uma fase conturbada por crises económicas e financeiras. 40 . 60)38. se estava presente. traduzindo-se mais em construção de prédios de renda.. símbolo desse progresso e importadas de Paris — por um lado pomposas e à III Império. como no da arquitectura. que era urbanístico (para os novos planaltos das avenidas) e industrial (com o moderno porto e os núcleos de Alcântara e Xabregas). funcional e austera)40. não atingia ainda um nível que a poderia aproximar dos desejados modelos europeus mais «avançados». para isso encaminhou como exigência crítica.

românico-gótico ou Renascença. I. CML. de que essa casa nova. baixo-relevo preenchendo «esteticamente». 1968. como era a realidade construída pela(s) cidades)? Em 1902. p. um estilo digno de uma cidade civilizada» (fig. mais comedido. entre outros. vol. Lisboa. de que é exemplo a «muralha do Carmo». a Sociedade dos Arquitectos Portugueses.. Lisboa. 60 Lisboa do Ano 2000: in revista Ilustração Portuguesa. por José Manuel Fernandes e Adalberto Tenreiro. porém. com a condição.º 139. palacetes e moradias que iam preenchendo ruas e qualificando a 41 Em «A ligação costeira da Baixa com a parte ocidental da cidade». Lisboa. . E Ventura Terra. pelo verbo de um filantropo das artes. de Julho de 1912. o que antes fora uma natural e setecentista imitação da fachada pombalina (fig. 61). grego ou romano. o recomeço da expansão para as Avenidas Novas ficara assinalado pela fundação duma primeira instituição de defesa dos projectistas. precursora de todas as futuras agremiações. que na época se desprezavam por demasiado austeras. ed. exibindo a tecnologia do ferro. 61 Lisboa — antevisão da Rua do Arsenal: in Augusto Vieira da Silva. 63)43. n. desenhava então uma Rua do Arsenal «furada» por uma galeria comercial e embelezada por decorações apostas a fachadas pombalinas (fig. A monumentalidade procurada.º 440. vol. Dezembro de 1980. afinal. que «bastaria para abrigar a cidade desde a Graça até à Sé (como só na década de 1960 os movimentos tipo 'Archigram' poderiam tecnicamente concretizar em real)». Dispersos. na revista Arquitectura. iria sublimar-se ou transferir-se.Fig. com enormes arcos emparedados. Assim se definiam. em opção nítida por um mundanismo «à francesa»41. n. mas igualmente utópico.º 14. enfim.. tenha um estilo arquitectónico clássico. de novo a Ilustração Portuguesa (revista que assumiu certa importância no contexto da moda arquitectónica e da imagem urbana da época) iria sugerir um «alpendre colossal». ou algum tipo artístico português. O tratamento «gráfico» de urna empena era afinal a nossa hipótese real de «desenhar» a cidade monumental. por Augusto Vieira da Silva. 62).42 E. ou restauração de edifício velho. 1968. com o tempo e a prática. 42 43 Sobre o Prémio Valmor consultar. galardoando proprietário e projectista «do mais belo prédio ou casa edificada em Lisboa. publicado em Na revista A Construção Moderna e as Artes do Metal. para situações mais simples e acessíveis. os artigos: «Prémios de arquitectura em Lisboa». de Julho de 1914 Fig. n. e marcado igualmente pela instituição do Prémio Valmor de arquitectura. I. e raras vezes atingida. 116a Dois anos depois. Lisboa. os limites programáticos e culturais da construção de prédios. Dispersos.

Publicações Dom Quixote. participando apenas nos mais relevantes ou prestigiosos edifícios públicos ou prédios de habitação. por Eduardo Bairrada. 1902-1935)». 63 Lisboa — Palacete Mayer. 1988.º 14.os 35-36 Lisboa. o livro História do Prémio Valmor. é o trabalho mais desenvolvido. n. Rua do Salitre. mestres-de-obras. Lisboa. na Revista-Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes. que os arquitectos propriamente ditos constituíam uma minoria e eram em número muito reduzido. ed. 62 Lisboa — projecto para a muralha da Rua do Carmo: in revista A Construção Moderna e as Artes do Metal. n. «Antecedentes da Academia Nacional de Belas-Artes no Prémio Valmor de arquitectura da cidade de Lisboa. actual consulado de Espanha. aliás. . Toda a demais produção era-o num quadro de construtores. por José Manuel Pedreirinho. Académicos-arquitectos no seu júri (documentação inédita. n." 5 (Prémio Valmor de 1902): Arquivo Municipal cliché n. Lisboa. desenhadores e técnicos de qualificação média. Note-se. Entretanto saído. 1985. no jornal dos Arquitectos. de 20 de Julho de 1912 Fig.Fig.º 8553 urbe capital. «Prémios Valmor — uma breve síntese». Lisboa. por José Manuel Fernandes. 1982-84. n.os 4-6. construídos para uma elite.

Fig. 64
Lisboa — Liceu de Pedro Nunes, Avenida de Pedro Alvares Cabral: foto Estúdio Mário Novais

A era dos equipamentos
A época de transição entre Monarquia e República foi fértil em edificações de cariz social. As preocupações com a assistência e com o ensino reflectiram-se em inúmeras obras de sanatórios, creches, escolas e liceus, que não se limitaram às cidades mais importantes. O apogeu do termalismo desencadeou igualmente, nas áreas das nascentes terapêuticas, obras de vulto para hospitais, hotéis e todas as pequenas construções de apoio: buvettes, piscinas, casinos. A expansão urbana, sobretudo em Lisboa e Porto, levou também à necessária construção de todo o tipo de edifícios públicos, de teatros a bancos, sem esquecer os já referidos mercados e gares ferroviárias, Rosendo Carvalheira, minhoto e «condutor» de obras públicas, distinguiu-se precisamente numa série de obras assistenciais, de que a mais notável é o Sanatório de Santana, à Parede, de 1901-03 (fig. 67), com boa organização funcional dos espaços e belo efeito plástico na solução das coberturas, denteadas e ritmadas pelas torres de ventilação. Esta obra utilizou também abundantemente o ferro na estrutura dos espaços subsidiários e a azulejaria arte nova nas salas centrais, Rosendo Carvalheira projectou também o Sanatório Dr. Sousa Martins, na Guarda, em 1907, com séries de galerias metálicas de bom efeito espacial, e o de Cabeço de Montachique, em 1917, não construído, com solução panóptica para os corpos centrais44. O Vidago Palace Hotel, projectado em 1908-10 pelo arquitecto Ferreira da Costa (em substituição de outro, demasiado caro, de Ventura Terra), iria ser expoente da arquitectura termal45, seguindo-se, entre outros, os hotéis da Cúria, em 1916 (projecto de Deolindo Reis e Duarte Melo) (Termas, fig. 68), e o Palácio Hotel do Estoril, por Silva Júnior, realizado em 1917 em conjunto com o edifício das respectivas termas. Este último autor, também «condutor» de obras públicas (mediante curso médio que o Instituto Industrial ministrava), trabalhando em Lisboa, fizera um projecto de fábrica, de expressão protomoderna e sentido protofuncional, na Avenida do Almirante Reis (Fábrica de Cervejas Germânia, depois chamada Portugália de 1912-13), com abundante uso do ferro na estrutura (numa «casa das máquinas» e numa «casa de fabricação» ainda hoje existentes); e projectara uma remodelação de solar ao gosto neo-árabe, em transição modernista, o Clube Monumental, hoje a Casa do Alentejo (1908). O ensino teve o seu ex-líbris nas inúmeras escolas primárias que o projecto modulado de Adães Bermudes, arquitecto portuense, ia construindo pelas vilas do País no início do século (cerca de 180, com a sua graciosa torre sineira tão característica) (fig. 65), depois de ter ganho, em 1898, um concurso «por portaria do Ministério do Reino para projectos-tipo»46. Este foi talvez, de resto, dos primeiros projectos entendidos em sentido moderno, prevendo as variantes e combinações que os tomavam adaptativos às várias situações de programa e de dimensão. Em Lisboa,

44

Conforme «Arquitecto Rosendo Carvalheira (1863-1919), um filho adoptivo de Alexandre Herculano na Haverá algumas dúvidas sobre a sua autoria; ver a Ilustração Portuguesa, n.º 440, de Julho de 1914, e Conforme Escolas Primárias, dossier organizado por José Afonso, policopiado, Lisboa, ed. Centro Nacional

arte de construir», por Eduardo Bairrada, em Belas Artes, revista e boletim da ANBA. Lisboa, n.º 3, 1981.
45

As Estâncias Teimais Portuguesas, projecto de investigação por Mana Clara Mendes, Lisboa, ed. da autora, 1980.
46

de Cultura, 1984.

Fig. 65
Alter do Chão — antiga escola primária (alterada)

Fig. 66
Lisboa — projecto do Banco Lisboa & Açores, actual Totta & Açores, Rua da Ouro, n." 82-92: in revista A Arquitectura Portuguesa

vol. em 1914 (na rua do mesmo nome). Carvalheira) Ventura Terra construiu creches em Santa Apolónia. Bazar Soares. o Chiado Terrasse. e. projectou a Maternidade de Alfredo da Costa em 1908. Todos estes espaços se incluíam num esquema inovador mais ao nível espacial e técnico do que no plano da representação formal das fachadas (o Gymnasio previa mesmo uma plateia de pavimento amovível. em História da Arte em Portugal no Século XIX. no Porto (por Marques da Silva. O «teatro» bancário encontrou também uma boa expressão no Lisboa & Açores. como a Voz do Operário. O mesmo fez Manques da Silva no Porto. vol. das Picoas (Camões) e do Rato (Pedro Nunes) (fig. FAM. culminando com o «totalmente incombustível» (como se anunciava) Teatro Gymnasio. 67 Parede — Sanatório de Santana: ed. 1909). 66). Assinatura: R. com os Liceus de Alexandre Herculano e de Rodrigues de Freitas. III. s. primeiro publicado em A Arte e Natureza em Portugal. em 1908). 1967. Funções simultaneamente assistenciais e educativas foram alvo de obras de vocação mista. 1903 . «A obra de Ventura Terra — a nova Câmara dos Deputados em Lisboa». De assinalar ainda o primeiro edifício construído para cinema em Lisboa. usando o tijolo e a madeira em sentido utilitário. II. que se podia transformar por rotação em salão de baile). traduzindo uma simplicidade formal e construtiva. também ela factor modernizante. pela mesma altura. em 1895. Lisboa. em 1916 (Rua da Palma). desenhou os famosos liceus para os «novos bairros». e. Fonte Albano Coutinho: ed. Porto. Cúria (bilhete-postal) Conforme José Augusto França. na Rua de São Bento). 64). Sanatório Sant'Anna. Porto. Lisboa (bilhete-postal. e a sede da Associação Comercial. em 1915 e 1919 47 . na Rua do Ouro (fig. por Ventura Terra. de novo com expressão moderna.Fig. ambas de Norte Júnior e em Lisboa. pelo Politeama. de Terra. Livraria Clássica Editora. in Arte Portuguesa — II. centripetando os diversos espaços à volta de um pátio desenvolvido em pisos (obra também de Ventura Terra. em 1923-25 (Rua Nova da Trindade). Conforme artigo de Ramalho Ortigão. Carimbos: Lembrança 3/1/1906. foto Soares Leitão. utilizando um rigoroso (e grandioso) classicismo na remodelação do antigo convento beneditino — trabalho saudado na época por Ramalho Ortigão como «obra do século» no País48.. ed. funcional e técnica. Grandes salas para diversos tipos de «espectáculo» foram iniciadas com a reforma das Cortes (hoje Assembleia da República. de Tertuliano Lacerda Marques. 68 Cúria — Termas. Lisboa. Direcção Técnica da Construção. em 1 9 1 3 (Rua das Portas de Santo Antão). em 1 9 1 1 (Rua de António Mana Cardoso). d. ao Chiado. em Lisboa. O programa de novas salas foi continuado com o novo Teatro de São João. 47 48 Fig.

.

n. por Bruno Zevi. ou como José António Gaspar (1842-1909). Norte Júnior chegou a criar um «estilo» tão próprio de desenho (ecléctico. a obra do Cinema Éden. Destes. que fez escola entre outros autores mais apagados (leccionava.° 38. L Monteiro). d. sendo frequente hoje identificar um qualquer palacete da época como de sua autoria. com arrojo. com grandes envidraçados (Casa Pró-Arte de Malhoa.° 22.. Assim se refere Norte Júnior (1878-1962). n.os206-218: foto do trabalho realizado para a cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL. 69 Lisboa — edifício na Avenida da Liberdade. que projectou a Casa da Moeda (1889-91). Picoas). capítulo de Historio da Arquitectura Moderna. autor tão procurado pelos clientes) — depois inovador. autor de obras menores. como o Mercado de Alcântara ou a Capela do Cemitério de Benfica (esta com J. os seus temas mais frequentes eram: nos palacetes. um curso livre de Arquitectura). popular e «persistente» autor da época (até pela longevidade). o mais prolífero. Lisboa. à qual os mais interessantes escaparam pela frequência dos meios europeus da especialidade. além disso. na sua colaboração com os construtores). de 1893 (demolida em 1990) — além de projectos de equipamentos revivalistas ou classizantes.Os autores A Escola de Belas-Artes de Lisboa fundamentava o seu ensino em mestres com formação ainda ligada aos valores oitocentistas. «campeão» dos Prémios Valmor (cinco. Rua de Quatro de Infantaria / de Almeida e Sousa. geminados ou múltiplos (palacete na Alameda das Linhas de Torres. estátua do marquês de Pombal). por Nuno Portas. 1973. Prémio Valmor de 1912. Sobretudo com obra lisboeta. mas a escolha que agora se apresenta selecciona os nomes em função de uma modernidade dos trabalhos e de uma procura de actualização e de inovação que é afinal o objectivo primeiro deste trabalho. como conta Nuno Portas49. a São Paulo. talvez por isso mesmo. decano da Geometria Descritiva. entre urna volumetria neo-românica e um «grafismo» arte nova. nas intervenções de restauro ou nos frequentes monumentos republicanos (Sé de Lisboa. . com o característico carimbo «maçónico» de «compasso». s. ed. n. mesmo que tal não seja verdade (desenhos tipificados de sua autoria. Formação limitativa. alguns autores «menores» haveria a referir. Fig. sobre uma planta convencional. corno José Luís Monteiro (1849-1942). em diálogo com fenestrações de arcos redondos. 1905). Avenida de 5 de Outubro. também de expressão classizante. ou o prémio de 1 9 1 4 . com frequentes excessos decorativos). no uso pioneiro do betão armado (já se referiu a sua importância no período art déco. tudo rematado pelas 49 Em «A evolução da arquitectura moderna em Portugal — uma interpretação». na Avenida de Fontes Pereira de Melo. Arcádia. como António Couto (1874-1946). o «gosto possível» do colectivo lisboeta dos anos republicanos e «maçons» de 1910-20. pois. com obra totalmente discreta fora do ensino (cerca de 1930 autorizou. Ambos da geração nascida cerca de 1840. autor de uma discreta e «achalezada» casa própria em Campo de Ourique. no entanto. secundavam-nos José Alexandre Soares (1873-1930). ou «mestre João Piloto» (1880-1956). para os seus alunos nascidos entre 1860 e 1880.. Em suma. a composição assimétrica de volumes. vendem-se ainda hoje na Feira da Ladra). em projecto de Cassiano Branco. sem contar as numerosas menções honrosas). especialista de palacetes e de equipamentos de uma qualidade estética média (e.

69)] e um gosto mais «pesado» e barroquizante (antigo Casino de Sintra. Nos seus prédios abundam os corpos salientes e de densa plasticidade [Prémio Valmor de 1 9 1 5 (fig. cafés. com soluções de maior plasticidade e liberdade de volumes (Prémio Valmor de 1 9 1 3 . com a sua simbologia «maçónica» feita de compassos esculpidos em capitéis e recortados na porta e fachada encabeçada por friso cerâmico representando autores das outras artes (demolido em 1979-80) (figs. em mais pobre. em que a composição generosa e a simplicidade decorativa são os grandes trunfos. sempre aliados à superior carga inventiva. Mas é realmente difícil resumir uma obra espalhada por lojas. ambos nas Avenidas Novas. De Ventura Terra (1866-1919) se falou já. de dois pisos. escola A Voz do Operário. estrada para a Figueira da Foz Fig. Fique apenas uma última referência ao atelier próprio. e na Avenida do Visconde de Valmor. Prémio Valmor de 1916). aliás. em Lisboa. n. Fig. foram obtidos pelo autor em entrevistas. com melhor depuração no desenho da fachada (parece. Largo de Cesário Verde (demolido) 50 Dados como este. Avenida de Heliodoro Salgado. Miguel Nogueira. sobretudo em Esposende). respectivamente). Largo de Cesário Verde (demolido) Fig..torres telhadas ou pelo frontão quebrado. Avenida da República n.. a propósito da «arte nova» urbana. nomeadamente com os arquitectos Luís Benavente. Rua da Conceição. de 1919) — a sua obra mais interessante parece ser todavia a do já referido edifício da Rua dos Navegantes. n. . n.º 25 (Prémio Valmor de 1903 e 1 9 1 1 . obra discreta. casas e tempos tão diferentes. de 1 9 2 1 . 71 e 72).° 2 1 . 71 Lisboa — porta do antigo atelier de Norte Júnior.º 23. no Largo de Cesário Verde. 70 Leiria. Jorge Segurado. 73) e n. o gaveto da Avenida de Luís Bívar. Cristino da Silva e Keil do Amaral. com projectos às vezes excessivamente decorados (antigo Banco Angola e Metrópole. Lisboa). que por intervenção do proprietário)50. que ambos tentaram lançar em Lisboa (sem esquecer os trabalhos de Terra no Minho.º 38 (Prémio Valmor de 1906).os 2-4-6. como do seu continuador e genro. n. n. De Terra destacam-se o conjunto de prédios na Rua de Alexandre Herculano.° 57 (fig. mas talvez muito significativa de um ideário. Miguel Nogueira (1883-1953).os 134-136. 72 Lisboa — antigo atelier de Norte Júnior. de tipo mais concreto.

74). n.° 47. 74 Lisboa — prédio na Avenida do Almirante Reis. na Rua de Saraiva de Carvalho. como sempre. demolido em 1961). este portuense estudante em Paris iria executar um dignificante prédio na lisboeta Avenida do Almirante Reis (fig. na Tapada da Ajuda. com interessantes espaços interiores). n. na Avenida do Duque de Loulé. produzindo também mais convencionais. A depuração do desenho confirmava-se aliás.º 30. se comparados com o dos autores de «costela parisiense»). com dinâmicas e curvilíneas referências à arte nova (Prémio Valmor de 1908). onde a calma proporção e as delicadas decorações em baixo-relevo estavam.º 2 — Arquivo Municipal Adães Bermudes (1864-1947) foi um autor que interessa valorizar além dos trabalhos públicos referidos (a que se poderia juntar um Instituto Superior de Agronomia. Como ele. n.º 57: Arquivo Municipal Fig. Korrodi. n. há a salientar os Prémios Valmor de 1 9 1 0 e de 1917. mais tarde. um autor que pensou a via do neo-românico. em Campo de Ourique.° 242. presentes. Álvaro Machado (1874-1944) fez uma proposta «moderna» para a esquina da Avenida do Duque de Ávila com a da República (1909) e outra para a sede da Sociedade Nacional de Belas-Artes. fez várias incursões em programas domésticos lisboetas. ambos os autores eram provenientes da Europa central e sensíveis às respectivas influências. no esforço pela modernização da arquitectura urbana que então se praticava. em Machado (com o Prémio Valmor de 1919.Fig. 73 Lisboa — prédio na Rua de Alexandre Herculano. n. como se vê. já referidas também a propósito da arte nova (curiosamente. que não desvalorizavam nem exageravam o conjunto (além do prédio de A Tentadora. Em áreas mais regionalistas ou tradicionalistas surgiam as propostas de Ernesto Korrodi (1870-1944) e de Raul Lino (1879-1974). 70). como outros autores euro-americanos. respectivamente a Suíça e a Alemanha — universos culturalmente mais ruralistas ou intimistas. caminho útil. como caminho para o moderno. n. obras modernizadoras em termos de uma simplicidade de elementos compositivos. mas elegantes. e na Rua Viriato. . aliadas a elementos como o beiral «português». além de obras diversas em Leiria (fig. agências do Banco de Portugal pela província fora (Évora. na Rua de Barata Salgueiro. Vila Real). de 1 9 1 1 .° 36 (1906). respectivamente na Avenida de Fontes Pereira de Melo.

Fig. na Avenida do Marechal Gomes da Costa.º 1363 . n. 75 Porto — casa de Marquei da Silva.

n. Marques da Silva (1869-1947). 26. embora arredados da produção real. foi a obra de Raul Lino. descobrindo «caábicas proporções» que logo aplicou em casas de veraneio [na casa Silva Gomes e na de O'Neill." 51 52 Em Ilustração Portuguesa. mas prometedores.° 5 — o primeiro já demolido. A sua maior contribuição esteve no proto-organicismo e na adaptabilidade espacial patentes na Casa do Cipreste. A maior limitação de Lino. a sua casa própria na Boavista (fig. espelho de um entendimento intimista e quase wrightiano do ambiente doméstico. respectivamente no Estoril e em Cascais]. 1977.º 35. entendidas exclusivamente no restrito campo doméstico. «modernista» doutros sectores artísticos. nas palavras da Ilustração Portuguesa de 1908 (que chamara a Terra. por Gustavo Nobre. Conforme «José Pacheko». que ensaiou desenhos de casinos (1907) e de teatros modernos (já em 1925) nunca realizados.. 75). resumia num só autor muitas destas tendências lisboetas. Fundação Calouste Gulbenkian. Dias Serras Rua Áurea. 76). de Janeiro de 1908. E. porque mais profunda. em contrapartida. em 1902 (fig. para sintetizar. autor quase «único» desta época no Porto. artigo na revista Colóquio Artes. 76 Cascais — Chalet O'Neill: ed. um «grande reformador». ed. de 1 9 1 2 . implantada sobre uma velha pedreira sintrense. afinando sistemas formais fruto da tradição enraizada (de que fez «colagem» no projecto para a exposição de Paris de 1900). Lino investigou e sensibilizou-se pelo Sul alentejano e pelo Norte marroquino. . em 1961).Fig. Mais produtiva. Lisboa. um «grande arquitecto»)51. Refira-se. Lisboa (bilhete-postal: data da missiva. não deixaram de projectar. dois anos antes. Haveria ainda que fazer uma referência aos autores que.. 12/11/1920) n. esteve numa dependência excessiva dos materiais e das soluções formais antigas. como é o caso de José Pacheko.

O Estado Novo — das obras públicas à vulgarização de uma nova estética A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições O urbanismo As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano A divulgação de um gosto — comércio. equipamento e habitação Os autores .

A renovação estendeu-se às montras e mesmo aos tapumes de obras. Lisboa. recorrendo a imagens mecanicamente apelativas do progresso ou representando obras dentro do formulário modernista (a Sociedade Industrial Metalúrgica exibia fotograficamente a sua participação em cromados e tubos de ferro no grande hall do Instituto Superior Técnico. cantarias e cerâmicas seguiam-lhes o exemplo (até nos edifícios-sede. Maio de 1929. ou «contra a humidade e salitre nas casas». exibido na exposição das Belas-Artes de 1929. 77).. As empresas de «transacção de propriedades» ou de construções renovavam também o seu símbolo ou logotipo. acompanhando a divulgação do betão. como A Confidente (fig. Estúdio Técnico de Publicidade. até aos painéis que escondiam a esquina da Rua do Carmo com a do Primeiro de Dezembro. de 1935). anunciava a mudança dos gostos neste sector (fig. apoiavam-se em sugestões gráficas de prédios de linhas puristas. Idêntica transformação sofriam os símbolos de empresas de materiais de construção: as «ferrarias» e serralharias. À apresentação dos projectos nesta forma mais irreverente seguir-se-ia em breve a imagem renovada das revistas e livros de arquitectura (acompanhando. que melhor evidenciavam as suas qualidades («não racha».° 16. mármores. diz o Cimento Lafarge. do arquitecto Paulino Montez. em aproveitamentos publicitários cuja qualidade pode hoje espantar.. por comparação com a degradação gradual que alguns destes sistemas de exibição de produtos vem atingindo: desde um «Projecto de Montra da Casa Borges & Irmão». onde as fachadas se tomavam verdadeiros mostruários dos padrões e efeitos decorativos do material produzido — 53 Na revista Arquitectura. as fábricas de revestimentos e impermeabilizações. nas páginas da Arquitectura. cores e palavras. cuidadosamente ritmados de anúncios pintados com formas e volumes abstractos bem ao gosto da época (da autoria do ETP. com sábia utilização do lettering53. ou como a empresa Amadeu Gaudêncio. ou com «capas-manifesto» dos conteúdos (corno no livro A Estético de Lisboa. uma tendência mais geral de renovação gráfica noutras actividades). na Baixa lisboeta. era o seu próprio «cartão de apresentação» uma perspectiva do edifício que. da autoria de Cristino da Silva. a simbologia arquitectónica do «moderno» invadiu pouco a pouco todas as actividades ligadas à construção. que preferia aliar a uma escrita de estilo art déco urna «fábrica abstracta» com roda dentada por fundo. com desenhos abstractos de edifícios que se adivinhavam puristas (como na folha de sumário da Arquitectura Portuguesa Cerâmica e Edificação Reunidas de Maio de 1939) (fig. 78).A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições Com o advento dos anos 30 e o enraizamento do regime social e político salazarista. em 1929-31. que anunciavam nos seus papéis timbrados ou em páginas das revistas especializadas. de resto. reclamava a Ceresit na Arquitectura Portuguesa de 1939). tão famoso na altura). em jogos abstractos de superfícies. como moda gráfica e estética: logo no Prémio Valmor de 1 9 3 1 . por exemplo). n. 79) e a Cooperativa Promotora Previdente (escolhendo ambas uma representação da «moradia ideal» com volumes claramente modernistas). . com o característico lettering art déco e com o tratamento formal da fachada.

Manuel Gameiro por Veloso Reis Camelo. Rua de Infantaria 16. 77 Lisboa — habitação em Campo de Ourique. n.Fig. arquitecto ." 92-94 (alterada e ampliada): foto Estúdio Mário Novais. sobre desenho de casa para o Sr.

anos 30: foto Estúdio Mário Novais Fig. de Matosinhos. na Exposição Industrial do Parque Eduardo VII) (fig. 80). para a Empresa Electro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia. 81 Lisboa (?) — expositor da Philips. mesmo as fábricas de automóveis. para se representar nas Festas da Cidade (e já falaremos do tipo novo de construção que se desenvolveu à volta destas necessidades novas de propaganda). no mesmo estilo. Parque Eduardo VII: foto Estúdio Mário Novais . construía um Fig. 81).Fig. as empresas de produtos eléctricos inventavam depurados interiores provisórios para promoverem as suas telefonias (numa exposição de rádio e electricidade da Philips) (fig. outro símbolo do progresso na época. 79 Porto — anúncio de rua de A Confidente (em vidro pintado) pavilhão provisório. Fig. já demolida). Maio de 1939 veja-se o exemplo da Fábrica de Cerâmica Lusitânia. outra fábrica. Esta moda de exibir formas arquitectónicas ou gráficas com espírito modernista na «propaganda» (ou publicidade) iria estender-se mesmo a outras actividades e formas de «exposição» de produtos a colocar no mercado: a Fábrica de Conservas Activa. e num lettering depurado. Lisboa. 78 Cabeçalho da revista A Arquitectura Portuguesa c Cerâmica e Edificação Reunidas. com azulejos de desenho geométrico a decorar a fachada da secção de escritórios. procuravam na luz da Electro-Reclamo. 80 Lisboa — pavilhão de exposição. ou cuidados pavilhões modernistas e simbólicos (de Adelino Nunes. ao Arco do Cego. do mesmo ramo. a divulgação em «escultura» da sua «semana». fazia-se representar pela abstracção desenhada das suas instalações (naturalmente com expressão purista).

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84) recordava na segunda tentativa de concurso a solução da torre luminosa da sede do Diário de Notícias (peça fundamental na transição para a arquitectura dos anos 40). 83). a consagrar quase obrigatoriamente pelo regime. o barroquismo latente de Cassiano Branco despoletava na densidade de volumes da sua proposta. 82). destinadas a uma Igreja de Fátima. de que o Prémio de 1939 era indício (foi dado a uma moradia «neo-setecentesca» dos irmãos Rebelo de Andrade). repetido em 1938. Foi ele um banco de ensaio e de teste Fig. sobreposta ao Terreiro do Paço para visualização de escala: foto Estúdio Mário Novais . foi todo um aproveitamento das novas possibilidades expressivas e estéticas que o primeiro decénio de vigência do «regime» ensaiou. não descurava o uso de uma simbologia antiga. essa exploração de meios propagandísticos novos. n. depois de uma fase hesitante e de transição de linguagens. até «lojas de propaganda de Portugal». O «regime» iria de resto incentivar. iria auto-suspender-se por iniciativa de um membro do júri. irmãos Rebelo de Andrade (em 1933) e Carlos Ramos (em 1938). de recorte art déco. enquanto os premiados. iniciaram uma autêntica «fase estética experimental» do Estado Novo. 82 Lisboa — edifício da sede do Diário cie Notícias. o modernista dos anos 20 António Ferro. como a de Paris. descontente com o caminho predominantemente modernista da arquitectura corrente da cidade54. por via destas. centrados à volta do de Sagres. Fig. Os concursos públicos nacionais de arquitectura ou escultura foram talvez das iniciativas de maior êxito e efeito.° 266: foto Estúdio Mário Novais para a prática arquitectural da primeira geração modernista. 84 Maqueta do Monumento de Sagres de Pardal Monteiro. e ao edifício do Diário de Notícias (já em 1940) (fig. Um «superfarol» de Pardal Monteiro (fig.Símbolos e concursos O Estado Novo. que o secretário da Propaganda Nacional. situada entre 1928 e 1931 (durante a qual foram premiados edifícios eclécticos ou dentro do modelo art déco). 54 Sobre os Prémios Valmor de Arquitectura e a bibliografia indicada ver nota 43. revistas de divulgação. de um simples letreiro da Escola de Instrução Primária em Fenais de São Miguel. 83 Olhão — edifício do Sindicato da Indústria Conserveira de Olhão ou de cartazes. depois de uma primeira tentativa em 1933-34. Concursos de montras Fig. em consolidação crescente. até à Cruz de Cristo no Sindicato da Indústria Conserveira de Olhão. respectivamente. prémios nos sectores das artes. situável entre 1929-30 e 1940-44. Avenida da Liberdade. Quando. em estádio ainda aberto aos conceitos de modernização e de progresso. estava mais do que muitos apto a entender nas suas potencialidades culturais e. políticas. e em muitos aspectos liderar. já que os objectivos simbólico-históricos do projecto tenderiam a «corromper» o desenho purista e abstracto que então se praticava na procura de uma nova estética de conotação nacionalista. isso passava-se numa fase terminal do primeiro «moderno» em Portugal. mas com tratamento renovado. em 1938. estilizada em portão de formas geométricas e no frontão adjacente em baixo-relevo escudado (fig. assim. O Prémio Valmor de Arquitectura. optavam por formas mais plásticas ou mais convencionais. Raul Lino. se renovaram as suas atribuições.

85 Pavilhão da Exposição Universal de Paris de 1937: desenho de Keil do Amaral (estudo).Fig. arquivo Keil do Amaral .

se. no decorrer dos anos 30. mais «holandês» e depurado do que o finalmente executado. De facto. no caso isolado de Paris. e n. se confirmava. Para este. Lito. já que a Itália mussolínica dos anos 20 a vinha usando. mesmo sobre a transição dos anos de 1939-4056. 57 De assinalar uma «corrupção» do modelo inicial de Keil para o pavilhão. por um uso sistemático do modernismo radical (quase sempre. por Nuno Teotónio Peneira e José Manuel Fernandes. já mesmo em 1930 (Exposição Colonial e Marítima de Antuérpia) se experimentava uma «fachada-frontão» estilo artes decorativas. e. de novo para Paris (Exposição Internacional de 1937). pela responsabilidade sentida de constituir representação oficial portuguesa. na revista Arquitectura. l do catálogo Arte Portuguesa — Anos Quarenta da exposição realizada pela mesma Fundação. . em 1929 (Exposição Ibero-Americana de Sevilha). 87 Porto — Palácio de Cristal/Palácio das Colónias da Exposição Colonial Portuguesa de 1934: ed. seguindo-se. por uma fase de indiferença estética (que tanto acertava obras do eclectismo como do art déco). conforme os primeiros esquissos. consistiam numa proposta tradicionalista de Raul Lino. A abstracção radical e desumanizante que certas vertentes do movimento moderno exigiam para chegar a um «futuro rápido» (vejam-se as visões do futurismo) não era. e já com arcos e emblemas «nacionais» nas perspectivas finais. igualmente de expressão modernista escultórica. Junho de 1981. oposta. na essência. Lisboa. Foto Beleza — Porto (bilhete-postal) A «arquitectura efémera» Esta associação entre os signos «modernos» da arquitectura e a política de cariz totalitário não era de resto originalidade do País. ed. n. caldeado pela aposição de simbologia nacionalista) e pelo desembocar nas variantes historicistas e monumentalistas. um inovador e preponderante modelo modernista de pavilhão (fig. melhor se podem detectar as mudanças de gosto sucessivas. n. 86 Porto — Palácio de Cristal: ed.o 48. Lisboa. Invicta — Porto (bilhete-postal. 1982. 55 Fig. sendo a partir daí modelo para nós (via Cottinelli Telmo ou António Ferro)55. em 1930 (Exposição Internacional de Paris) e em 1 9 3 1 (Exposição do Rio de Janeiro). de Junho de 1980.o 45. os pavilhões das Exposições de Nova Iorque e de São Francisco (em 1939). pelo arquitecto Jorge Segurado. Lisboa. em 1936. Keil do Amaral foi o escolhido.º 142. Fundação Calouste Gulbenkian. em detrimento da costumeira proposta de Lino57. ao ideário social dos regimes corporativistas. É na arquitectura das exposições internacionais que. de Março de 1 9 8 1 . os pavilhões portugueses eram de gosto neobarroco (dos irmãos Rebelo de Andrade) ou. pelo menos numa fase inicial de entusiasmos e de fé. 85). O salazarismo iria passar sucessivamente. 56 Conforme artigo «A arquitectura do fascismo em Portugal». Conforme artigos diversos da revista Colóquio-Artes. apesar de tudo. de resto. bem como os textos do vol.Fig. pouco depois. dedicada ao tema «Portugal — arquitectura e fascismo».

denotava já a alteração de gostos que ia começando. que iriam servir de base a uma «nova era» da arquitectura portuguesa. «pelos altos serviços prestados por Sua Excelência à arquitectura nacional». como sócio honorário do seu Sindicato. de 1938) (figs. 86 e 87). em 1934. Fig. 89 Lisboa — anúncio representando uma construção efémera da tribuna de honra: in revista Arquitectos. «mascarando» exemplarmente o velho Palácio de Cristal com estafes de fachada (figs.. era a Exposição Colonial do Porto que. tentando suprir a falta dos especialistas nacionais. quando não arrastados pelo interesse de um arquitecto de nomeada ou recorrendo a serviços de técnicos estrangeiros. em limitados «planos de pormenor». procurando exprimir significados emblemáticos em formulários retrógrados. que foram aliás reconhecidas na eleição de Salazar. onde toda a geração do primeiro modernismo arquitectural transformava (e se autotransformava por via de) a linguagem utilizada. 88 Lisboa — a tribuna de honra. Conclui-se esta sequência crescente de exposições ou exibições públicas com a famosa Exposição do Mundo Português. e partindo muitas vezes de iniciativa privada ou local. A «classe» dos arquitectos tinha então um apogeu na aproximação e na confiança oferecidos pelo regime político. Lisboa O urbanismo A actividade urbanística dava os seus primeiros passos em Portugal nas décadas de 1920-30. ainda demasiado próximos da escala arquitectural.. 88 e 89). com Duarte Pacheco: foto Estúdio Mário Novais Fig. confirmavam a voga de um tipo de arquitectura a que a revista oficiosa Arquitectura chamava então efémera e que exprimia claramente as vocações e necessidades propagandísticas dos regimes autoritários dos anos 30 — sempre mais ou menos impregnadas plasticamente de temas modernistas ou abstractos. sempre com urna forte componente ou entendimento académico da disciplina. em Março de 1941. ao nível oficial. . realizada em Belém no ano-charneira de 1940. em conjunto com o pavilhão de estrutura metálica e revestimento de estafe que serviu como «tribuna de honra» da CML para comemorar em parada o 28 de Maio na Avenida da Liberdade (projecto de Miguel Jacobetty. com mais ou menos consciência estética ou precaução política. A Exposição Industrial no Parque Eduardo VII e os pórticos triunfais do Ano X da Revolução Nacional (em 1936).No âmbito nacional.

90 Lisboa — desenho perspectivado com o estudo do prolongamento da Avenida da Liberdade através da Parque de Eduardo VII.Fig. 11/5/1930: f o t o Estúdio Mário Novais . assinado Luís Cristina da Silva.

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ou seja. Mas este plano. 59 Conforme fonte citada na nota 58. a ligação Cais do Sodré-Terreiro do Paço e o prolongamento da Avenida da Liberdade para norte. Abril de 1941: foto Estúdio Mário Novais Assim surgiam.Fig. o «Plano Geral de Melhoramentos» para a praia do Moledo do Minho. estudo cheio de simetrias que Carlos Ramos fez para uma «comissão de iniciativa» em 1929. 91 Lisboa — desenho perspectivado do Centra de Aviação Naval (do Montijo) MOPC/COBNL. bem como das do México e Marconi). como uma extensão monumentalizada da retícula das Avenidas Novas58. Cristino estudaria pouco depois a articulação do conjunto Instituto Superior Técnico-Estatística com o Bairro do Arco do Cego. este último tema seria abordado por Cristino da Silva [em 1930 (fig. assim. onde se refere também a critica feita então por Paulino Montez ao traçado em rampa das Avenidas do México e de António José de Almeida. assinado Paulo Cunha: foto Estúdio Mário Novais Fig. inseria-se já num quadro mais esclarecido. sobre o Parque Eduardo VII (em 1927). que a legislação de 1934 lançada por Duarte Pacheco iria exigir. que o autor parece ter oferecido à própria Câmara59. por exemplo. . no qual eram as entidades oficiais ou municipais a pedir e a incentivar estudos de conjunto para zonas urbanas. também. 90) e 1932] em promissores e irrealizados desenhos monumentais. propondo as duas raquettes definidas pelo esquema viário e que foram realizadas (prolongamento das Avenidas do Duque de Ávila e de António José de Almeida. urbanistas franceses como Forestier estudavam os dois problemas principais que se colocavam à modernização e extensão da Lisboa da época. 92 Norte de Moçambique — desenho do Anteprojecto de Urbanização da Futura Cidade de Nacala. assinado Luís Cristino da Silva. que «fere» a leitura da monumentalidade do edifício do Instituto Nacional de Estatística. pela 58 Informações obtidas em depoimento prestado pelo arquitecto Luís Benavente ao autor.

Planos à escala da região só começaram mesmo nos finais da década de 30. Afrontamento. Lisboa/Alcântara/ /Alvito. Foi nesse panorama que surgiram os estudos de Paulino Montez sobre planos de urbanização para Mafra (1933) e para o Bairro Salazar. Estudos de Urbanismo em Portugal. onde apresenta algumas preocupações e teorias urbanísticas algo incipientes. 1938). 1938. 64 Na revista Arquitectura. passando pelos trabalhos de Paulo de Carvalho Cunha para Setúbal (remodelação da zona central do porto para a Junta Autónoma) e para o Montijo (Centro de Aviação Naval — MOPC) (fig. portuárias e fronteiriças. enquadrando o seu Casino em faixa de equipamentos litoral). para o potencial porto moçambicano. Também o Estado começava a ser cliente directo de planos. 63 Respectivamente no estudo do nó de Alcântara. Uma referência. como o «Plano de Extensão. que o esforço de modernização geral do seu aparelho exigia. desde a «urbanização da Praça do Alfeite».° 24. com datas a averiguar. 2. 93). por Paulo Cunha. mas cuja linguagem os inscreve ainda na interpretação modernista dos programas oficiais. deve ser feita aos estudos para as colónias africanas de alguns destes autores. e com ajuda de urbanistas convidados: depois do «Plano de Urbanização da Costa do Sol» (1933-34 e 1939-42) e do «Plano Director de Lisboa» (1938-48). do autor. p. ed. onde novamente Paulo Cunha e depois Pardal Monteiro e Jorge Segurado iriam trabalhar63. 62 Trabalhos por datar (talvez da transição 1939-40). Lisboa. Lisboa.º 24 802. já de 1941 (fig. Arranjo e Embelezamento do Luso» e o de Sesimbra. mas prolongando num «modernismo técnico» a expressão dos anos 30. na colecção «Estudos de Urbanismo em Portugal». com outros trabalhos idênticos. isto além de outros. como para Quarteira (plano geral) e para Vila Real de Santo António. 93 Lisboa — desenho perspectivado do Plano do Bairro Económico do Doutor Oliveira Salazar. 91) — onde grandiosas perspectivas cavaleiras exibiam futuras edificações com claros jogos de volumes modernistas62 até aos «planos de melhoramentos» do porto de Lisboa (AGPL). Também o decreto do ano anterior instituindo o regime de «casas económicas» iria contribuir para dar uma dimensão urbana ao estudo dos «bairros» respectivos. nas estações marítimas e nos armazéns. . ainda que pontual. 92). já bem entrada a década de 40. finalizando este período com o plano para as Caldas da Rainha (l941)61. 1972. conforme depoimento ao autor. sobretudo para as instalações militares.ª ed. como Monte Gordo (também de 1941. onde Alfredo Agache ou de Groer 60 Fig. 60 Fernando Gonçalves considera o decreto que estipula estas regras (n. ao Alvito-Alcântara (1938) (fig. Cunha dedicou-se ao estudo de planos portuários e fronteiriços. de 21 de Dezembro de 1934) «o ponto de partida da legislação urbanística portuguesa». ou que Cristino desenvolveu novos estudos para localidades em expansão. por Cristino da Silva. no Alvito: in Paulino Montez. 19. n. enquadrando a Escola Naval (dos irmãos Rebelo de Andrade. desde o trabalho «pioneiro» de Carlos Rebelo de Andrade para o «Alargamento e Embelezamento da Cidade da Beira» (de 1929)64 até ao anteprojecto de «Urbanização da Futura Cidade de Nacala».obrigatoriedade de levantamentos das principais dessas zonas e consequente realização de planos municipais . 61 Que Montez reúne. conforme o seu livro Urbanizar e Construir para Quem?.

de resto. e porque os organismos urbanos não paravam obviamente à espera dos planos que os «embelezariam».Fig. no sentido referido. se dava então início à burocratização de todo o processo. 94) ou Aveiro ligaram o centro tradicional à estação dos comboios.° 142. sendo muito característico desta época o aparecimento da «avenida modernista». que sacrificavam por regra às leis académicas de simetria forçada (o que resultava num edifício. na revista Arquitectura. mas não numa cidade). foi-se assistindo ao crescimento mais ou menos não planeado de todas as cidades de província. ou de desejada monumentalidade. E essa formação explica também em parte o fracasso. iria ser já na óptica monumentalista dos «modernos» arquitectos ítalo-mussolínicos que o Porto receberia o seu estudo urbano de conjunto (com Piacentini e Muzio. também da autoria de Fernando Gonçalves. isto explica-se em parte pela formação de base dos seus autores (eram arquitectos «metidos» a urbanistas). respectivamente). estas eram afinal as imagens reais. . larga. Na prática. O ano de 1944 pode marcar o fim desta primeira e «modernista» fase do urbanismo. falecido no ano anterior o voluntarista e autoritário ministro Duarte Pacheco. muito mais como um «prolongamento» da arquitectura do que como uma disciplina agregadora de complexas redes socieconómicas e político-culturais que modernamente se lhe foi atribuindo. acompanhando. rectilínea e tão comprida quanto o necessário. as inultrapassáveis leis da propriedade ou da especulação fundiária (sem falar no total alheamento. já que. 66 Conforme obra citada na nota 60 67 Id. Em Lisboa já se falou dos bairros dos construtores civis como processo de crescimento urbano mais ou menos desenfreado. 94 Viana do Castelo — Avenida dos Combatentes da Grande Guerra: in Portugal 1140-1940 Shell News colaboraram65. até aos trabalhos de Fana da Costa. pioneiro de entendimento pluridisciplinar do planeamento. ou as que em Viana do Castelo (fig. n. do valor cultural dos centros históricos). vilas e estâncias termais e de veraneio» indicados pelo legislador urbanista poucos anos antes. entre 1938 e 1940 e 1940-42. sua terra natal. com a criação da «temível» Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização67. que já na década de 40 faz o primeiro plano «moderno». idêntica evolução na arquitectura66 Até aqui convém realçar o sentido de «tradição» e de «arte de urbanizar> com que era entendido o estudo urbano. com uma predominância daquele tipo de arquitectura nas suas fachadas. em vistas do entendimento do «progresso» como valor totalitário. contemporâneas da execução dos desejados levantamentos e plantas «das principais cidades. assim foi a que em Braga se iniciava com o edifício do Turismo e se dirigia para o Estádio Municipal. da grande maioria das propostas. 65 Conforme obra citada na nota 60 e o artigo «Urbanística à Duarte Pacheco». veloz. no plano da concretização. para a Figueira da Foz.

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ou até em Bragança. a obra serviria para passeio domingueiro dos lisboetas seduzidos pela novidade. em torres piramidais e com os efeitos de simetria habituais do estilo (como também sucedeu nos lavadouros públicos. ou de Vila Franca de Xira. a Rio Maior. 98). que em Portugal dava nesta fase um «salto em frente». uma enigmática figura com chapéu de coco — pode ser Duarte Pacheco — observa a cena) (fig. Rodrigo dos Santos. e foi nas «obras de arte» da engenharia que buscou a sua «obra-símbolo». O desenho modernista foi também utilizado noutros equipamentos «menos nobres». em jardim público]. versão reduzida deste modelo (concluído em 1940) que o leva a Trás-os-Montes num processo de propaganda da capacidade realizadora do Estado.As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano Foi nas infra-estruturas que grande parte do investimento do Estado Novo apostou ao longo dos anos 30. 95). 97): espalhados pelas estradas de todo o país. Na sua maioria em pedra.. em Paço de Arcos. e. apoiando-se em primitivas e densas estruturas de suporte de madeira (na imagem. no Largo do Dr. Os «filhos» deste viaduto não tardaram — a imagem do arco único a ligar as duas vertentes era demasiado forte: é disso exemplo a ponte sobre o Tua (estrada Carrazeda-Alijó). 95 Lisboa — Viaduto de Duarte Pacheco em construção. na Praça do Comércio. no largo central. aí atestam uma época e um «estilo». Regionalmente. no Parque Manuel Pereira Coentro. um grande viaduto que quis competir com o grandioso Aqueduto das Aguas Livres. atravessando de passeio a passeio como se rua fosse. além de suportar e se prolongar pela primeira auto-estrada portuguesa. por entre o raro trânsito automóvel. a Vila Nova de Paiva (fig. 96). que a pé iam calmamente «ver a Fig. na saída para Arruda dos Vinhos. no jardim à Avenida do Marquês de Pombal. como os sanitários públicos (em Torres Novas. desde Sobral de Monte Agraço. foram as pequenas obras de melhoramento público que os municípios ou o próprio Estado incentivaram como «arma» fácil e barata de propaganda das suas novas capacidades. já pronta. Entre vias marginais e novas estradas nacionais. feita de betão e novidade. O lançamento de redes viárias modernas esteve intimamente ligado à crescente utilização do automóvel como meio de transporte de produtos e de pessoas. com os correspondentes viadutos ou pontes a vencerem obstáculos naturais (como a ponte em betão de Odeceixe. (fig. onde se destacaram os postos da PVT (Polícia de Viação e Trânsito) de contorno modernista (fig. surgiram as pequenas construções de apoio. o Viaduto Duarte Pacheco (tinha de ser) e a auto-estrada de Monsanto a Cascais (que levou meio século a ligar). na estrada LisboaAlgarve. no vale de Alcântara: foto Estúdio Mário Novais vista» do outro lado do vale de Alcântara. obra de 1936). no alto do arco nascente. A mão-de-obra abundante e barata compensava então urna tecnologia ainda timidamente industrializada: a construção do viaduto assistiu ainda à já anacrónica passagem da máquina de vapor. seu vizinho. no meio da província: foi a inauguração dos célebres fontanários públicos [exemplos por todo o país. de que é exemplo o de Condeixa-a-Velha). com os seus típicos arcos triangulados.. os fontanários utilizavam o desenho art déco. ou desde Porto Salvo. em .

no vale de Alcântara: ed. 97 Posto da Polícia de Viação e Trânsito: in l 5 Anos de Obras Públicas Fig. 98 Vila Nova de Paiva — chafariz Fig.Fig. 96 Lisboa — Viaduto de Duarte Pacheco. 99 Vila Nova de Poiares — bancos do Jardim do Comandante Bernardo Martins Catarino . Colecção «Dulia» (bilhete-postal) Fig.

Fig. 100 Portalegre — o Miradouro sobre a Cidade. Projecto do arquitecto Jacobetty. Construção da Comissão de Iniciativa e Turismo (1938). Foto de Carlos Curveta: ed. da Papelaria, Livraria e Tipografia Silva, Portalegre (bilhetepostal)

Oeiras, na rua frente à matriz), com decorativa caixilharia de efeito abstracto e geométrico em portas e ventiladores; ou ainda como os cemitérios (nos arredores de Viseu; em São Domingos de Rana), onde até os próprios jazigos participam nesta euforia estilística do modernismo (como o que se encontra à entrada do Cemitério de S. Domingos de Rana, do arquitecto Carlos Dias, que assinou o projecto do Éden construído). Finalmente, esta linguagem difundiu-se nos jardins públicos, com todo o seu característico equipamento, sobretudo os coretos ou quiosques de betão nos jardins municipais de murtas cidades (Figueira da Foz, Aveiro, Coimbra, aqui frente aos Correios Centrais) e os bancos de costas com desenho em «sol nascente» (Vila Nova de Poiares) (fig. 99) ou azulejados (Figueira da Foz, Avenida de Espanha, demolidos em 1980), as fontes cobertas (com caramanchão superior, na curiosa versão do Entroncamento, no Parque do Dr. José Pereira Caldas), os monumentos (a Luísa Todi, na Alameda do mesmo nome, em Setúbal; em Vila Nova da Barquinha e Sintra, estes em homenagem à «Grande Guerra») e os mirantes [com a panóplia das torres luminosas incorporadas, como no do Estoril, por Jorge Segurado — depois demolido pela construção da marginal —, ou no da serra de Portalegre, de Jacobetty, com suave escadório de acesso (figs. 100 e 101)],

Fig. 101 Portalegre — o miradouro da serra, pormenor

Fig. 102
Lisboa — antigo Café Portugal, no Rossio (actual loja Valentim de Carvalho): foto Estúdio Mário Novais

Fig. 103 Lisboa — Praça da Figueira, Sapataria 28 (demolida)

A divulgação de um gosto — comércio, equipamento e habitação
Se há espaço arquitectónico que tenha sofrido incremento e transformação profunda nesta época, foi o das lojas comerciais, ajudado pela vaga de novos materiais e pelo

Fig. 104 Figueira da Foz Rua de Cândido dos Reis, n.os 79-81, loja Novidades Perfumaria Nally

furor de renovação, que implantou um lettering diferente, provocador e apelativo. As primeiras experiências, ainda dentro do universo do art déco, como a Sapataria 28, à Praça da Figueira, ou a Papelaria Fernandes, no Largo do Rato (ambas em Lisboa), que recorriam ao brilho e à transparência dos vitrais e das cores, sucederam-se obras plenas de exibição de formas abstractas e de tonalidades berrantes, de impacte reforçado por nomes como A Inovadora, a Farmácia Moderna (Régua, Rua dos Camilos), ou a Sapataria 28, já demolida, à Praça da Figueira, em Lisboa (fig. 103), ou mesmo, em plano mais humilde, de simples pintura de fachada, a Drogaria Progresso, de Sintra (Rua de Heliodoro Salgado). Podem destacar-se, no plano regional, obras como A Primorosa, de Sines (Rua de Teófilo Braga), com azulejos e baixos-relevos art déco na fachada, a Loja Rodrigues, inscrita em prédio antigo do centro sadino, a Galo d'Ouro, brilhante e mundana no seu mosaico dourado, abrigada nas arcadas dos Estoris, a Nally, perfumaria de sabor algo «espanhol» na estância figueirense (Rua de Cândido dos Reis, n.os 79-81) (fig. 104), ou ainda A Óptica, de Braga (Rua de S. Mamede, n.º 13), de divertida solução gráfica, ou a Cova da Onça, micaelense e cerâmica (em Água de Pau). E não referiremos as centenas de estabelecimentos mais vulgares que foram a pouco e pouco definindo um estilo próprio de fazer e apresentar o comércio urbano, mesmo que reduzidos aos essenciais perfis de ferro laminado e pintado, aos simples e rectangulares vidros de cada lado da porta e ao soco de mármore escuro (de que é exemplo uma anónima Drogaria e Perfumaria azul e vermelha na Rua do Vale de Santo António, Lisboa) que foram conformando talhos e sapatarias, farmácias e cafés...

Fig. Lisboa . 105 Lisboa — loja de modas Sabóia. Rua Garrett: foto do arquivo do atelier de Jorge Segurado.

típico da província. como Leo Wage(?). as obras de iniciativa particular das que foi o próprio Estado a lançar. num desenho artes . com o Stand Opel. no local do actual. na Praça da Figueira. ao Chiado (fig. embora não exclusivo da época. na Avenida da Liberdade (sem esquecer a sua Loja das Meias. Autores anónimos e projectistas encartados contribuíram assim. como João Simões. em Campo de Ourique). Este último tipo de equipamento. Rua de Raul de Almeida. Bucelas. com as suas Casa do Pão de Ló e Casa das Malhas. Agualva. do Porto (Passos Manuel. Há que juntar os exemplos lisboetas da Garagem Parisiense (Rua de Andrade Corvo). Quanto a cinemas. Os equipamentos No domínio dos equipamentos. na Rua Ivens. ou ainda os irmãos Rebelo de Andrade. a situação era idêntica. 107). há que referir o conjunto piscinas-sede-Cinema Stadium do clube Sport Algés e Dafundo. acompanhando as necessidades da expansão automobilística um pouco por toda a parte: de Guimarães (Avenida do Conde de Margaride. com o Centro de Novidades. tornou-se edificação característica deste período em muitas vilas portuguesas. ou da Monumental (esta integrada no complexo do Jardim Cinema) (fig. loja do Diário de Notícias no Rossio).Há que destacar neste campo alguns autores lisboetas com obras isoladas. foi o posto dos bombeiros voluntários. em larga medida e em paralelo. para a divulgação das novas atitudes estéticas. estrada de Benfica. e o inevitável Cristino da Silva. no Largo dos Duques de Beja). n. Um pequeno equipamento. Avenida da Fundação. com o interessante jogo de escadas e galerias suspensas ligando o salão ao interior do próprio cinema (a obra mais interessante de Raul Martins. ao Chiado. Avenida de Manuel da Maia). Além do salão de jogos-cine-esplanada-garagem referido. Largo dos Bombeiros Voluntários). filho do construtor da Vila Berta e que deu nova dimensão arquitectónica à tradição clubista nacional. em 1930. já que as novas possibilidades espaciais surgidas com o betão armado facilitam a justaposição de actividades. ambas no Rossio. e há que referir também verdadeiros «especialistas». vai ter ampla divulgação. 105)]. no Rossio). quase invariavelmente constituído por uma simples garagem com fachada de remate denteado (exemplos na Amadora. Garagens particulares surgiram também. com a Casa Quintão. integrando várias actividades no mesmo edifício. e às vezes com uma simbologia mais ingénua e figurativa anunciando a sua função (Cova da Piedade. obra maior de Raul Tojal. havendo que destacar. autor também da piscina do Hotel Palace da Cúria). frente ao Coliseu) a Beja (Bejense. inaugurado em 1930 (Avenida dos Combatentes da Grande Guerra). na Avenida de Pedro Álvares Cabral. com as melhores soluções [Café Portugal (fig. ou Raul Lino. promissor autor falecido prematuramente em 1934. também na Baixa alfacinha. porém. Ílhavo. 102). a galena UP e o interior da loja de modas Sabóia.° 2. Avenida de Afonso Henriques) a Serpa (por José Pinto Parreira). como Jorge Segurado e António Varela [a esplêndida Farmácia Azevedos ou a loja O Século. Raul Martins produzira já um edifício isolado em Lisboa (o Europa.

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Avenida de Pedro Alvares Cabral . 107 Lisboa — Monumental-Salão de jogos. fonte termal Fig. 106 Luso — edifício das Termas.Fig.

Loureiro. a São Vítor. 108 Maceira — escola primária ECL nas instalações da antiga Fábrica Maceira Lys: in revista Panorama. Instituto Português do Cinema. modernistas e hospitalares como não há no resto do País). que se referirão. a Paredes. Filipa de Lencastre. 1978. como a do Luso [que Cassiano projectara(?) «modernista» em 1938. 109 Lisboa — edifícios da farte desportiva do futuro Liceu de D. Março de 1941. já de gosto revivalista]. mas só no final da década terá Lisboa o seu primeiro cinema verdadeiramente «modernista». como o Abrigo dos Pequeninos. com uma Fons Vitae de grande qualidade plástica (fig. ainda existente (muito desfigurado). Ainda outro projecto integrando diversas actividades culturais foi o do Clube Naval Setubalense. 69 . De referir ainda. e outras obras para institutos médicos. na serra de Santiago. simultaneamente e em anexo com o seu hotel. no Luso. para o Bairro Lopes (Creche de Júlia Moreira. n. na procura dos «ares limpos» e do isolamento. n. Esta foi também a época dos sanatórios.º 9. de 1938. em Louredo da Serra. como se patenteia nas obras balneares da Granja e de Espinho (esta dos arquitectos Eduardo Martins e Manuel Passos) . só parcialmente realizado. com relevo para a do Caramulo (com uma densidade de galerias. De realçar as de Rogério de Azevedo. em zona popular e oriental de Lisboa — ambos edificados em espaços declivosos. ou ligadas a estâncias termais. ed. esquina com a Rua de Francisco de Avilez. A assistência contou com numerosas creches particulares. Perto do Porto. e o projecto de Carlos Ramos. Rua de Adolfo Coelho). Lisboa. não construído. de resto.. 1942 os 68 Fig. em 1933). nesta fase. n.decorativas «pobre». do Na revista Arquitectura Portuguesa.. 28-30) . por Félix Ribeiro. a interessante remodelação do edifício das termas (de que autor?). no Torel: foto Estúdio Mário Novais 69 Datas referidas em Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa — 1896/1939. as ruínas de um romântico e 68 Fig. «moda» terapêutica que deixaria construções imensas em algumas áreas montanhosas. Este último autor realizou também um primeiro hospital «modernista» para a Misericórdia de Cascais (Rua de José M. com o esplêndido projecto de Rodrigues Lima em Santos: o Cinearte. como em 1931 Vítor Piloto projectara o Paris. de «bons ares» e ampla panorâmica). nos arredores do Porto. 106).º 72. de Paulo Cunha. as piscinas com formas modernistas abundaram. no Porto. Lisboa. à Estrela (Rua de Domingos Sequeira.

Obra conjunta e excepcional no quadro assistencial é o da fábrica de cimentos de Maceira-Lys. Rua do Funchal. 110 Parede — antigo Rádio Clube Português: ed. ou na Foz (Porto. com o edifício dos Correios. n.° 44. n. 70 Fig. Novembro de 1938. a obra mais importante neste domínio foi talvez a do grande Sanatório de D. ed. Manuel II. Rossio. na Parede (Rua de João Soares). com os seus diversos pavilhões de galenas cobertas. n.Fig. de Paço de Arcos. conforme revista Arquitectura Portuguesa e Cerâmica e Conforme revista Arquitectura Portuguesa. esquina com Rua de Gondarém). em Barcarena (projecto de Adelino Nunes e outros. incentivado por Botelho Moniz e muito importante na propaganda nacionalista da Guerra Civil Espanhola (fig. do Porto. de elegante corpo prismático ou cilíndrico (Entroncamento. ainda de «sabor» déco (Cottinelli Telmo. 1936(?). 110). Edificação Reunidas. Foto Paço (bilhete-postal) mecenático gesto arquitectónico são vestígio de um outro sanatório nunca concluído70. outros exemplos foram a sede da Direcção de Faróis. com as suas casas «do pessoal» e escolas primárias de cuidada execução (fig. actual posto de serviços radioeléctricos dos CTT). em Oeiras (Rua do Conde de Ferreira. em projecto grandioso de Vasco Regaleira71. o campo dos transportes e das comunicações recebeu o incremento que a nova dimensão da «velocidade» introduziu: surgiram as torres de controlo ferroviário da CP. Agosto de 1943. ao Terreiro do Paço. 1928). edificou-se a Estação do Sul e Sueste. com seus volumes «secos» e puristas e as simbólicas antenas transmissoras. As comunicações por rádio.° 1 0 1 . por Cottinelli Telmo). marítimo-ferroviária. tal como o grande Hospital-Sanatório de Lisboa da ANT. e da Emissora Nacional de Radiodifusão. Colecção Passaporte «Loty» (bilhete-postal) Projecto do arquitecto Fernando Ferreira. 71 . com exemplos cubistas e industriais na Venda Nova (às Portas de Benfica). Lisboa.° 23). ou ainda as torres de vigilância do tráfego aéreo de Tancos. 108). consolidaram-se nos estúdios e nos postos emissores do Rádio Club Português. novidade também em expansão na época. em projecto de Tertuliano Lacerda Marques. 111 Vila Franca de Xira — Avenida de Pedro Vítor. No domínio oficial. Pequenos postos de transformação e da CRGE povoaram também discretamente a expansão da rede eléctrica. Campolide. que nunca chegou a ser construído. a Leiria. Lisboa.

o trabalho de Cristino da Silva para Beja (um bom projecto. 112 Lisboa — Casa da Moeda. recebeu entre 1927 e 1935 a colaboração de muitos futuros autores. Filipa de Lencastre. 111): Santarém. espécie de «arquitectura-sinal». nunca concluída. de Bruno Zevi. o (outro) Liceu de D. 109)]73. Também se pode referir a obra de Edmundo Tavares para o Funchal. denso e expressivo aproveitamento de urna esquina viária em ângulo. não construído (1934). a pedido de Duarte Pacheco (fig. sendo os liceus então considerados programas tipicamente «funcionais». projecto dos irmãos Rebelo de Andrade. ansiosa por se afirmar. em Lisboa (por Adelino Nunes). Rodrigues dos Santos (fig. O ensino oficial iria receber também urna «nova imagem» arquitectónica. Lisboa. a Escola Superior de Farmácia. História da Arquitectura Moderna. por Nuno Portas. complexo de edificações onde se equilibra a tensão entre as dominantes verticais e espectaculares da composição e a concepção «horizontal» e purista do espaço. como Veloso Reis Camelo (nos pavilhões laterais). Leiria. tijolo vidrado. com torre suportando o pau de bandeira). Afonso Henriques (Lisboa). entregue depois ao INEF). pedra) e sabendo valorizar arquitectonicamente os acessos (habitualmente colocados nas esquinas arredondadas) e os remates do edifício (transformados em encontro de volumes. Nunes iria em poucos anos construir obras ligeiras e simples [Vila Franca de Xira. Lisboa (do qual só se construiu a parte desportiva. aliás. António José de Almeida Conforme «A evolução da arquitectura moderna em Portugal — uma interpretação». já nos finais da década. ou mais elaboradas e complexas (Figueira da Foz. posteriormente ampliado.A acção dos Correios e dos Telefones ficou ligada para sempre aos postos regionais projectados por Adelino Nunes. volume minúsculo. inicialmente pensada para escola primária. Setúbal. de Coimbra (com Jorge Segurado e Adelino Nunes). Arcádia. Avenida Zargo). e. primordial. e para o Liceu de Júlio Henriques. para o Bairro do Arco do Cego [aproveitando fundações doutra obra. na campanha antimodernista e pró-portuguesa na arquitectura)72. tomando este o nome da obra de Carlos Ramos no Quelhas. . o conjunto do Instituto Superior Técnico. à Alameda de D. sempre usando reduzido leque de materiais (reboco. na Rua da Escola Politécnica. 72 Fig. em Conforme depoimento de Jorge Segurado ao autor mas a sua obra. Avenida de Mariano de Carvalho. Avenida do Dr. Filipa de Lencastre. muito cedo objecto de concursos públicos para novas instalações (entre 1929 e 1930). criando um sem-número de situações arquitectónicas tão despojadamente modernas como sabiamente integradas nas vilas e cidades onde foram edificadas. Avenida dos Combatentes da Grande Guerra. de Jorge Segurado e António Varela. no Quelhas. que nela faz a passagem da linguagem ainda afecta ao art déco para uma «monumentalidade moderna» que o havia de impor como o arquitecto das obras «arejadas» do regime. arquitecto talentoso e inventivo que se dedicou especialmente a este tema. O projecto do IST. de 1938. Funchal. Rodrigues Lima ou Luís Benavente (escadório). 1973. mas que desempenharia papel de «bode expiatório» no final da década. mais convencional no exterior. muitos arquitectos da nova geração. mas muito evidenciado por uma boa utilização do lettering e do encastramento dos corpos. Surgiram assim os projectos de Carlos Ramos para o Liceu de D. obra de Pardal Monteiro. Ed. o anexo à Faculdade de Ciências. Largo de Cândido dos Reis]. Largo do Dr. 73 teria resultado tão satisfatória para o ministro que este decidiu aproveitá-la antes como liceu. mas com bons espaços internos (salão e ginásio). esquina com Rua de Duarte Pacheco. Começou com os edifícios das cabinas telefónicas e dos Correios do Estoril — o primeiro. finalmente. o segundo. com o interessante volume de caixa de escadas. projecto de Carlos Ramos. Largo do Jardim Municipal. nos quais participaram. ainda para a Anglo-Portuguese Telephone Company. Outras escolas no domínio do ensino superior seriam lançadas nesta fase: o edifício da Escola Naval do Alfeite. e.

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Alpiarça (Rua de José Relvas).constituindo-se. Uma última referência aos abastecimentos. completamente vulgarizado e logo transmitido ao meio suburbano e de província. do mesmo Pardal Monteiro. podem referir-se: o Instituto Nacional de Estatística. 113)74. usando normalmente uma expressão mais conservadora dentro do gosto art déco (por exemplo. no Porto (mais «movimentados» e abstractos porém). 1938 (fig. adaptável às situações mais particulares e insólitas. n. trabalho contemporâneo do IST e seguindo a mesma linha estética. a da Horta. Conforme revista Arquitectura Portuguesa. menos habitualmente interpretadas dentro do quadro modernista. provando assim a aptidão desta arquitectura para servir as mais diversas necessidades espaciais: matadouros (Vila Nova de Gaia) e mesmo edifícios para câmaras municipais (Barcelos. Na área industrial.António Varela. Buarcos. Passando a obras para serviços oficiais. Lisboa. 112)]78. 1938. Conforme revista Arquitectura. são disso exemplos. João Simões assinaria também uns armazéns frigoríficos à Rocha do Conde de Óbidos. . e gradualmente. apesar disso. Covilhã e Alpiarça foram obras de arquitectos.° 28. de Viana do Castelo e da Póvoa]. Que Jorge Segurado modulou em planta e onde quis aplicar um revestimento em tijolo vidrado. Lisboa. Lourinhã79. Setembro de 1937. Portei ou Almodôvar (Rua do 1. Raul Martins [com a interessante — e depois desfigurada — obra de Santarém76. Julho de 1937. Finalmente. mas que continuaram por este período. n. de 1937). António José de Almeida: foto Estúdio Mário Novais conjunto de indústria e serviços ocupando com sábia diversidade plástica todo um quarteirão [de Jorge Segurado . visto do Instituto Superior Técnico. Conforme revista Arquitectura Portuguesa. Fig.° de Maio. as arquitecturas de habitação.° 32. teriam. R habitação As formas modernas foram envolvendo também. Salvaterra de Magos. ainda do tempo da República. Lisboa. em Lisboa. Também os de Guimarães. n. n. conforme Arquitectura Portuguesa. Lisboa. em Valença. 113 Lisboa — Instituto Nacional de Estatística. por assim dizer. Alfândega da Fé). procurando uma simbologia mais académica). como a «solução ingrata» que a revista 74 75 76 77 78 Informação conforme o depoimento de Luís Benavente ao autor. Açores). com formas «modernistas» tipificadas. 79 Este último do arquitecto Pereira da Silva. no decurso da qual morreu (de 1934 a 1937). onde colaboraram Reis Camelo (projecto para Viseu)75. na sua senda trabalhará em seguida João Simões. ao Arco do Cego. Covilhã. com certa força plástica (em 1938). além das mais convencionais e certamente anteriores.° 42. Guimarães. que com os mercados regionais tiveram significativo incremento nesta fase: de norte a sul. que aprendera como excelente para conservação de edifícios públicos na sua então recente viagem aos Estados Unidos — aplicação que Pacheco reduziu a algumas superfícies por questão de orçamento. estas Caixas inseriam-se aliás na tradição anterior das filiais do Banco de Portugal. criando-se com o tempo um «estilo» de prédio de dimensão média.° 30. Avenida do Dr. as suas obras pontuais. a Casa da Moeda. depoimento de Jorge Segurado ao autor). na época. entre obras mais elementares ou já projectadas por arquitectos. como os irmãos Godinho tinham construído anos antes os de Massarelos. Coruche (Rua de 5 de Outubro). em verdadeira escola de projectar o edifício público (fig. deve realçar-se o ex-líbris da obra modernista oficial da época. já se referiu o papel de Cassiano Branco como propulsionador da renovação plástica das fachadas do vulgar prédio de esquerdo-direito lisboeta. António Varela teria colaborado nas «elevações» dos alçados (cf. e João Simões (com a agência construída em Portalegre77. Outras funções deste tipo. a primeira «geração» das numerosas agências da Caixa Geral de Depósitos.

como o Estoril (Cristino da Silva. n. 114 Lisboa — antigo Bairro GNR. por todo o país exibindo o que se julgava ser o sentido do «progresso». ou a Avenida do Marechal Gomes da Costa. permitem um melhor entendimento da nova transformação de valores 80 Conforme o número da revista Arquitectura Portuguesa citado na nota 77 . 14 e 24.. a Casa dos Cedros. em áreas socialmente privilegiadas.° 888. Mas foi no campo das moradias que as formas modernistas se puderam libertar de constrangimentos e dar «asas» à imaginação criativa: assim o fez Cassiano Branco (na série de projectos para a Avenida de António José de Almeida. Mesmo as mais pequenas e anónimas obras exibiam na fachada o simulacro formal do «moderno».° 14). Cassiano Branco. 115 Porto — Avenida Marechal Gomes da Costa. Fig. Afonso Henriques: foto Estúdio Mário Navais 10. Carlos Ramos e Jorge Segurado. n. em simples fachas decorativas de ferro losangonais.. os Fig. As obras públicas de alcance social. por isso mesmo. por um lado. demolida). referir autores de geração um pouco mais recente e que. moradia Os autores Habitualmente. casa própria na Avenida do General Carmona.° 4. de alcance mais operário e iniciativa camarária. as obras que referem os arquitectos mais importantes dos anos de 1920-30 insistem nos nomes dos chamados «cinco grandes». ou ainda em estudos para Coimbra (Adelino Nunes) e outras cidades (Viseu. Seguir-se-á aqui um método diferente. 114). Raul Tojal. no alto da Alameda de D. ou no chamado Bloco Saldanha. n. mais raras no uso desta linguagem em tipologia de prédio colectivo. ou no caso isolado da Avenida de Columbano Bordalo Pinheiro. Rua de Egas Moniz. 115). em bairros como o do alto da Alameda de D. trazer para primeiro plano alguns autores mais esquecidos ou menos conhecidos e. a Vale Florido. Rua do Barão de Sabrosa/Rua de Veríssimo Sarmento/Azinhaga das Olaias/Rua de Domingos Reis Quita. do Porto (Rua do Duque de Saldanha). por outro. destinado a funcionários da GNR (projecto de Carlos Ramos?) (fig.Arquitectura Portuguesa anunciará em 1937 para «resolver» um lote «impossível»80. Afonso Henriques (Lisboa). de 1937. assim o praticaram outros autores. n. sem diminuir o entendimento da importância do «mestres». que. ou seja. permita. não deixaram de a experimentar pontualmente. Pardal Monteiro. com Rogério de Azevedo). Cristino da Silva. no Porto (fig. 12.

118 Porto — creche do Comércio do Porto. de acordo com o programa dominante na Avenida dos Aliados. foi continuador «natural» de Marques da Silva. Azevedo procurava já referências regionais que tentava «casar» com os volumes e espaços dinâmicos do modernismo. e um «decorativo» conjunto de habitações em banda (Rua de Marques da Silva. Rua dos Clérigos. Manuel Marques (1890-1956) foi o autor de uma das melhores lojas desta época. Rua dos Clérigos. onde a escala infantil foi bem entendida. de Cristino da Silva. procurar-se-á ainda desenvolver mais a referência à obra de autores menos monografados (como Cristino ou Monteiro) do que o trabalho de arquitectos com obra mais estudada ou já referida amplamente ao longo deste trabalho (Cassiano. na Avenida dos Aliados (figs. n.Fig. e a casa própria (na Avenida do Marechal Gomes da Costa. igualmente obra sua. Filipa de Lencastre. Pedro V.° 1 3 1 . 117 Porto — Farmácia Vitália. monumentalizado. seja pela realização de projectos de excepção. garagem do Comércio do Porto (arquitectos Rogério de Azevedo e Baltasar de Castra) «infantis» (fig 118). logo com uma obra de início (1929). 116 Parto — Praça de D.° 1385). esquina/Largo do Cruzinho). entre volumes e baixos-relevos simbolicamente Fig. de 193238). Januário Godinho (1910-198?) realizou com o irmão engenheiro os armazéns frigoríficos de Massarelos. a referida Farmácia Vitália. na Avenida de Fernão de Magalhães. Rogério de Azevedo (1898-1983) marcou sem dúvida lugar à parte no quadra das obras portuenses. em 1933. n. da sede. Arménio Losa {1908-198?) realizou o edifício Fig. Avenida de Fernão de Magalhães. esquina com Travessa de Carlos Passos Fig. Azevedo opôs na garagem uma expressão purista tão forte e conseguida como só talvez o Capitólio. a garagem do Comércio do Porto (fig. com movimentada solução de gaveto (Alameda de Basílio Teles/Rua de D. pormenor da fachada . 119 Porto — Farmácia Vitália. construída nas traseiras da sede deste jornal." 34-37 da época (casos de Keil do Amaral ou de Arménio Losa). atingiria em todo o tempo modernista. Claro que com a designação «autores» se pretende dar relevo aos agentes de uma obra de primeira plana. como se vê no Hotel da Póvoa. mais pesado e decorado. que anuncia as suas posteriores e famosas pousadas (Marão) e escolas primárias dos Centenários. na Póvoa de Varzim). Para o final da década. n.os 34-37. Ao tratamento de gosto «artes decorativas». de 1933. Nas primeiras obras. com destaque para a do jornal portuense referido. com notável solução gráfica de fachada e de interior. muito sóbria. e também de uma interessante moradia na Avenida dos Combatentes (cuja decomposição volumétrica em cilindros sucessivos inspirará Siza Vieira na Casa Beires. com Amoroso Lopes. repetidas como modelo pelo País fora. 116). seja pela sua coerência e continuidade no tempo. porém. n. Ramos). 117 e 119). São de referir também as suas creches.

ou José Porto. 120 Porto — edifício de habitação e comércio Pinheiro Manso. de 1936. em depoimento ao autor (1976). Porto. Porto. com a casa de Manuel de Oliveira (Rua da Vilarinha. que já as suas posteriores obras dos anos 50 teriam sabido resolver ou evitar — observação feita a partir de uma evidente óptica funcionalista. através da discreta movimentação dos panos das varandas. Em Lisboa. Monteiro. de 1933)82. 82 Conforme Nuno Portas. ed. Poderiam ainda referir-se. 1988. o autor «primitivo» da Clínica Heliântea de Francelos (1926-30). as informações respeitantes aos arquitectos portuenses foram complementadas com duas obras entretanto saídas: de Manuel Mendes. depois Prémio Valmor (em 1923). com uma interessante moradia geminada na Avenida dos Combatentes (n. Retrato de Uma Época. com um prédio de 1920 na Avenida da República. e. Arménio Losa considerava o pinheiro manso ainda impregnado de soluções «impuras». in Casa de Serralves. construtor da modernidade».do chamado Pinheiro Manso. as suas obras. sinteticamente. já num plano complementar. de família ligada às indústrias do mármore. 120). projecto do arquitecto Pardal Monteiro: foto Estúdio Mário Novais Acontece os autores desta época renegarem hoje as suas obras dos anos 30. mas que as necessidades pragmáticas dessa mesma construção teve de «sacrificar» algo da sua capacidade inventiva. através dos dois volumes da caixa de escada. num conjunto exemplar. e o catálogo da exposição Arquitectura-Pintura-Escultura-Desenho — Património da Escola Superior de Belas-Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. n. das quais a da 81 Fig.° 2460 Fig. prédio cuja fachada acusa a transição das volumetrias «moles» da arte nova para um art déco mais planificado e geométrico. pois se baseavam num léxico restrito. no segundo criou ambiguidades nos planos da «pele» do edifício. sempre elegantes. começou bem. e um vizinho prédio de gaveto (com Rua de João de Deus). antes referida. Museu Nacional de Soares dos Reis. o tempo: arquitecto. seguro e apreensível com facilidade — construir bem e com segurança era certamente uma preocupação sua. projectado que fora sem uma consciência teórica sólida. no artigo já citado e publicado na obra de Zevi História do Arquitectura Moderna. 121 Estoril — palacete e jardins.os 418-442). o arquitecto que ensinou no Instituto Superior Técnico. o artigo «Casa de Serralves — anos 30. iria realizar nessa década três moradias. na mesma avenida ou seus arredores. . o autor que manejou com mais conhecimento a tecnologia da construção. Casa de Serralves/SEC. puderam ter sempre forte participação de colaboradores. ed. Universidade do Porto. n. Janeiro-Fevereiro de 1987. No primeiro desenhou uma dinâmica articulação entre os três corpos horizontais. mas nunca muito arrojadas. na Boavista (fig.° 49. Oliveira Ferreira (1885-1957). Pardal Monteiro (1897-1957) foi o arquitecto-engenheiro por excelência: o autor das obras públicas mais preciosas do regime. discretamente decorado com baixos-relevos81. Avenida da Boavista.

apenas com vagos ressaibos déco). Os seus edifícios públicos desta década exibem idêntica linguagem. em volumetrias elementares. 123) Monteiro entrou francamente (e excepcionalmente) em jogos de volumes mais movimentados. ou nos edifícios do Instituto Superior Técnico e do Instituto Nacional de Estatística. Este desenho poderia definir-se. Com a colaboração inestimável de Almada Negreiros. com a Igreja de Fátima (Avenida de Berna/Avenida do Marquês de Tomar) e o projecto da nova sede do Banco de Portugal na Baixa (que ocuparia o sítio da Igreja de São Julião. Avenida dos Aliados Avenida de 5 de Outubro. depois de ganhar a Carlos Ramos as provas de ingresso em 1933. ser o professor de Arquitectura da ESBAL Entusiasmado com a nova . mas ricamente decoradas com toda a panóplia art Fig. aliás. para logo em 1934-37. entrando já na década de 40 (com possível referência ao modelo da gare marítima francesa de La Rochelle) defendido contra modelos anacrónicos ou revivalistas. em rico desenho art déco. Monteiro soube renovar e qualificar a nova sede do Diário de Notícias (1939. Bolseiro em Paris e Roma entre 1920-25 (com a pensão Valmor). e as gares portuárias de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos. o eclectismo e o «moderno» — fusão que naturalmente devia servir bem a exigência do tipo de programa oficial ou oficioso a que se destinava.Fig. foi o autor inventivo e individualista de uma série de obras cuja qualidade só será comparável à das obras de Cassiano. ganhará novo Prémio Valmor (1929). o templo dedicado a Fátima) (fig. o oposto de Monteiro: provindo de família de artistas românticos. Só na garagem da Ford Lusitana à Rua Castilho (1930) (fig. à Caixa Geral dos Depósitos do Porto (Avenida dos Aliados. mas mais luxuoso ainda. 121). é o palacete do Estoril. Cristino da Silva (1896-1976) foi. Prémio Valmor de 1940). talentoso mais do que esclarecido. valorizando o efeito de esquina. em certa medida. então em começo de voga. a fazerem a passagem para o purismo mais próprio dos anos 30. No mesmo estilo. 124). retomar desenho mais conservador e decorado. n. 122). pela linguagem fundamentalmente «técnica» e «neutra» que soube usar. na Avenida da Liberdade. nas imediações do Casino (fig. em nova e populosa freguesia. com grandioso espaço coberto interior a lembrar a obra de Terra na Rua do Ouro. como de síntese entre as artes decorativas.os 209-211. Rua Castilho: foto Estúdio Mário Novais déco — da Estação do Cais do Sodré (1928). ern Lisboa) (fig. em Lisboa. afirmados na pintura. 122 Porto — Caixa Geral de Depósitos. iria. já referidos (estes mais contidos e sóbrios na decoração. em vez da qual se ergueria. 123 Lisboa — antiga Ford Lusitana (local do actual Hotel Ritz).

e talvez maior. 1936. Além dos liceus [primeiro prémio em Beja (fig. Cristino transbordou também a sua intensa actividade para outros projectos. com grandiosos pavilhões-restaurantes e feéricos «castelos de água» pelo parque fora. Entre 1926 e 1 9 3 1 . de modo mais «intimista». 126 Lisboa — edifício da Capitólio. que culminam nesse ano84. n. Vale Florido. com foyers laterais a diminuírem os painéis (1935). de Luís de Camões: foto Estúdio Mário Novais Fig. ao realizar as obras do Parque Eduardo VII. outros nunca realizados. Prémio Eva de 1933). 125) e em Coimbra — feminino —. Baixa. Cristino elaborou em poucos anos uma série de bons e inovadores projectos de habitação e equipamentos: a casa para Bélard da Fonseca na Avenida de António José de Almeida. com a famosa consola em betão virada a sul83. Cristino referia ainda no mesmo depoimento (nota 83) como Keil. não soube garantir uma coerência de linguagem. o prédio da Avenida de Bocage (que Frederico George considerava o seu melhor projecto. um programa idêntico de equipamentos) . cuja mobilidade abria a sala ao exterior. uns utópicos. o da casa própria. 84 Conforme a revista Arquitectura. estática. que Speer trouxe a Portugal em 1941. em 1932-33). assinado Pardal Monteiro. Ru. tornando-se o principal mentor estético da arquitectura oficial dos anos 40. o da Rua de Alexandre Braga. ao contrário de Monteiro (mais defendido este pela formação técnica e menor ousadia como projectista). já demolido). 125 Beja — Liceu Nacional de Beja. salão de festas com cinema ao ar livre sobre a cobertura (uma das inovações típicas da época). concebida quase como uma villa romana purista. 127). executou um estudo para o 83 Fig. permanece obra primeira. n. no Estoril. teria «aproveitado» ou «desfigurado» as suas ideias para o mesmo local (Keil realizou de facto. 124 Lisboa — desenho para a nova sede do Banco de Portugal. Cristino realizou o Capitólio.° 20 (em 1931. de 1933-35 (fig. na Rua do Comércio. 126). 1937: foto Estúdio Mário Novais Fig. no Parque Mayer: foto do trabalho realizado para a cadeira de História da Arquitectura Portuguesa da ESBAL 1981 Era a mais profunda consola em betão até então construída — como Cristino da Silva referia ainda com entusiasmo em depoimento ao autor (em 1971). Com os seus «tapetes rolantes». constituía novidade mecânico-anquitectónica.° 27. n. do modernismo lisboeta («simétrica» da garagem de Azevedo no Porto).os 4-6 (sede da empresa Amadeu Gaudêncio. e o do Casino de Monte Gordo. segundo em Coimbra — masculino] do concurso nacional de 1930. até cerca de 1936: além dos contínuos estudos para o prolongamento da Avenida da Liberdade através do Parque Eduardo VII. que o evoluir da moda cedo sacrificou: logo transformado em sala de cinema fechada (1933). em obras ainda controladas. foi no decorrer dos anos 50-60 alvo de contínuas modificações clandestinas que o desfiguraram. com grandiosos painéis de vidro em desenho art déco (fig.«arquitectura moderna» nazi. Apesar disso. Lisboa.

Fig. n. já caminhando para uma estética neodecorativa. dos Restauradores (1929-31). como um espaço «naval». no Arco Cego (fig. arquitecto Luís Cristino da Silva (e esposa?)]: foto Estúdio Mário Novais Fig. 131). 127 Estoril — Vivenda Vale Florido. 88 Conforme a revista Arquitectura Portuguesa. na Avenida da Liberdade. De António Varela apenas. das Caldas da Rainha. bem articulada através do volume envidraçado e cilíndrico.° 40. infelizmente demolida.° 74. em Matosinhos. em obra seca e despojada.° 4 [foto com o autor e proprietário. 128)]. Depois da série de lojas dos finais de 30 [o luxuosíssimo Café Portugal (fig. Lisboa. I30) 87 . n. como referia em depoimento ao autor (1980). Rossio (actual loja Valentim de Carvalho): foto Estúdio Mário Novais Onde pôde «lançar» a novidade do novo revestimento de chapa metálica aparente nos exteriores. ou os pavilhões das Exposições de Nova Iorque e de São Francisco (1939). n° 170 (de 1934) — variante. dedicou-se em pleno ao estudo da nova Praça do Areeiro. bem como os «monumentos» que foram o Éden Cinema. de referir ainda o antigo Hotel Victória. desta vez destinada a equipamento (tão convencional em planta como 85 Lisboa — interior do antigo Café Portugal. que preenchia totalmente. 132) (1938) 89 . com inventiva fachada de movimentados volumes. 87 Concebida. 86 Conforme a revista Arquitectura. e a notável fábrica de conservas Algave Exportador. De Cassiano Branco (1897-1970) já se referiu extensamente a obra principal. durante o qual a sua linguagem se transformaria profundamente. . 128 conjunto desportivo do Jamor e uma espectacular Casa de Repouso para os Inválidos do Comércio (com Tertuliano Lacerda Marques). de cuidadosos detalhes (fig. Lisboa. Depois da série de lojas já referidas85. 133 e 134). podem referir-se a ampliação do Hotel das Termas de Monte Real (fig. Jorge Segurado. de outros projectos seus para prédios alfacinhas. de 194088. o Lar dos Pobres. em articulação com o quarteirão. Lisboa. 1936. ou ainda. 129)86. recorda a solução da Casa da Moeda (fig. e o Coliseu portuense (em 1939) (figs. Avenida do General Carmona. de referir ainda a clínica Indiveri Colucci. que nesta fase trabalharia frequentemente em conjunto com António Varela. cuja rica diversidade de ângulos. Julho de 1938. Filipa de Lencastre.° 27. complementada com a do Liceu de D. com «galeria-deck» a toda a volta da construção [segundo informação da esposa de Colucci ao autor (anos 80)]. n. 89 Conforme a revista Arquitectura Portuguesa. a pedido do muito viajado cliente. virada para a habitação em Lisboa. foi à volta da grandiosa Casa da Moeda (1934-48) que toda a sua obra se articulou. n. em Paço de Arcos. foi revelando uma maior preocupação teórica e um interesse por estudos de história da arquitectura que o distinguiram dos colegas. Maio de 1941.

Filipa de Lencastre. 129 Lisboa — Liceu de D. n. 131 Monte Real — ampliação do Hotel das Termas de Monte Real: na revista Panorama. n° 40.os 15-16. 132 Matosinhos — desenho perspectivado de uma fábrica de conservas: na revista A Arquitectura Portuguesa. rua marginal ao caminho-de-ferro Fig. de Julho de 1938 .Fig. 1943. Bairro Social ao Arco do Cego: foto Estúdio Mário Novais Fig. p. 130 Paço de Arcos — antigo Instituto Indiveri Colucci. 45 Fig.

se se quiser). ao Quelhas (1929-30). a sede da Agência Havas. são a prova clara da interpretação contida e da procura de simplicidade no projecto (o contrário de Cassiano. 134 Porto — Coliseu. n. à Estrada de Benfica [parcialmente construídos (fig.os 234-242. teve no projecto semiabortado do Liceu de D. Filipa de Lencastre. 135)].Fig. com expressão entre um art déco (modernizante na época e no contexto) e um classicismo referido à vizinha sede do Lisboa & Açores. pouco dado a compromissos ou delicadezas (de quem se contam histórias ligadas tanto às peripécias da produção como às aventuras amorosas). Conseil de Vasconcelos (Tabacaria Africana). aliás. além da subentendida «crença» funcionalista. de uma maneira quase cruel90. Ramos não tenha tido obras notáveis. há que destacar também o conjunto de pavilhões muito «à Gropius» para o Instituto Navarro de Paiva (de 1931). ou ainda como 90 Ver catálogo Cassiano Branco. na Baixa (de 1921). 133 Porto — Coliseu. conjunto tão marcante naquela cidade [ambos já demolidos (fig. organizada pelos arquitectos Hestnes Ferreira e Gomes da Silva. 137). . e o Bairro Municipal de Olhão/Fuseta (em 1925). Porto (bilhete-postal) e forte («cortou» com as obras e os clientes do Éden e do Coliseu). do seu mestre Terra (linguagem que. Não se quer dizer que. hospitais e escolas já antes referidos. esquina com Rua de Rodrigo da Fonseca. de C. Personalidade instável Fig. 136)]. 1986. também na Avenida da Liberdade (em 1942. Porto inspirada em alçado). Carlos Ramos (1897-1969) foi o «mestre» culto e sereno que poderíamos contrapor a um Cassiano «genial». da exposição promovida pela Associação dos Arquitectos Portugueses. em Cascais (ambas em 1930) — e a criatividade transbordante e multiplicadora do Café Cristal. no campo privado. n. Todo dedicado ao ensino e ao projecto de equipamentos assistenciais ou educativos. Sem esquecer creches. simplificada repetiu num delicado baixo-relevo para um prédio à Rua de Alexandre Herculano. bem como a dimensão utópica das propostas de urbanização para a Costa da Caparica ou para a Cidade do Filme. Neles. sofreu desde os finais da década de 30 a mutação da linguagem purista (da qual tinha. a secura e a «planicidade» dos volumes. uma concepção muito pessoal e quase «barroca») para a do Estado Novo historicista. na Rua do Ouro. demolido). e no Pavilhão de Rádio de Palhavã (1928-33) os seus expoentes modernistas. como a sua primeira. ou como os mundanos Casino e Palácio Hotel de Espinho (ambos em 1929). última manifestação «modernista». Rua de Passos Manuel: foto Alvão.° 101) (fig. Rua de Passos Manuel: ed.

Colecção Passaporte (LOTY) (bilhete-postal) .Fig. 135 Espinho — antigos cinema e casino: ed.

137 Lisboa — edifício de esquina da Rua de Rodrigo da Fonseca.° 18 (construído parcialmente) Fig. Navarro de Paiva. 136 Lisboa — antigo Instituto do Dr. Rua dos Clérigos: foto o J Estúdio Mário Novais .Fig. n. 138 Porto — Instituto Pasteur do Porto. com Rua de Alexandre Herculano Fig. n.° 29. Rua de São Domingos de Benfica.

as obras para o Funchal. . quer pelos equipamentos (como o projecto do Mercado de Eivas). da Fundação Calouste Gulbenkian. que apreendeu na arquitectura holandesa contemporânea (de Dudok sobretudo) e que divulgou. Couto Martins conseguiu obras simples e correctas. Ramos será lembrado sobretudo pelo sentido didáctico da sua prática na Escola de Belas-Artes do Porto e pela sua respeitabilidade profissional91. foi também autor que merece uma referência. ou pela primeira obra da gare do Aeroporto da Portela. António Couto Martins. com preferência pelos volumes salientes em prisma (as bow-windows em betão). iria ter as suas primeiras obras já em plena década de 30: celebrado sobretudo pelo Pavilhão de Portugal na Exposição de Paris de 1937. n. Mas a sua importância e o papel capital como autor e como actor político verificar-se-iam depois. apesar dessas incursões na vida cosmopolita [com as referências que são o Bristol Bar (de 1926) e o Café Colonial. quer. no já citado artigo do autor.° 38 [de 1934. Mas. entre fontanários e o grande sanatório. sobretudo. na Rua dos Clérigos. mais novo que os autores referidos. embora desfigurada. existe ainda). atitude rara entre nós. a luxuosa Embaixada da Turquia (na Rua Castilho.° 137. 139 Lisboa — Aeroporto da Portela de Sacavém: foto Estúdio Mário Novais ou Horácio Novais(?) 91 92 Ver catálogo Carlos Ramos — Exposição Retrospectiva da Sua Obra. que trabalhou ligado ao Município lisboeta. Julho de 1980. e a casa ao Dafundo. 138)]. o prédio na esquina da Rua de Alexandre Herculano com a Rua de Rodrigues Sampaio. durante as décadas de 1940-50. Utilizando um vocabulário restrito. n. é de recordar também o Instituto Pasteur do Porto. com curiosas habitações em banda adaptadas às declivosas artérias da capital madeirense (em optativa versão «modernista» e «regionalista»). onde interpretou um «lote gótico» ao modo moderno (fig. de Lisboa [já do início dos anos 40 (fig 139)]. pelas elegantes moradias e prédios que soube construir na cidade: de destacar as duas habitações no alto da Avenida de Pedro Alvares Cabral (uma delas. n. Keil do Amaral (1910-75). em obra escrita. Lisboa. fronteira à linha dos eléctricos marginal. de resto. A sua visão arquitectónica passou pelo sentido de discrição volumétrica e de integração ambiental. das Arcadas do Estoril (de 1936)]. com interessante relação com o espaço urbano e impecáveis interiores). Fig. ed.° 13892. 1986. Ver dados deste edifício na revista Arquitectura.

nos costumes. a inovação estilística foi também. modificada por essa mesma tradição. sugere-se aqui uma viagem por um modernismo «português» feito de obras anónimas. De facto. de algum modo. «transportadas» para o inovador desenho do art déco ou do funcionalismo. de «sabor» ou sentido mais articulado com as sucessivas tradições locais (nos materiais. nas cores).. Em paralelo. numa síntese de desenho e de formas que pouco a pouco alastraram à província. estas tradições foram. dialecticamente..Referindo basicamente exemplos dos anos 20-30. .

O ninho
Percorram-se as lojas: os doces de Amarante (a Lai-Lai, a Casa das Lerias); das confeitarias às padarias (a Marcoense, plena de cerâmicas geométricas, em Marco de Canavezes); dos cafés de Braga (o Astória, A Brasileira e a Nova Brasileira) aos de Viana do Castelo (a Esplanada Girassol 1930); os mercados com pátio em Guimarães [torreado e escultório (fig. 140)] e em Valença (triangular e boleado). Observem-se os painéis com baixos-relevos, de granito e de pedra, ao gosto art déco em prédios de habitação em Viana do Castelo (Rua de Olivença) e em Braga (Rua de Eça de Queirós, Rua de Júlio Lima) e em lojas (Sapataria Paiva, de Famalicão) e garagens (a Garagem Avenida, de Guimarães). Veja-se o chafariz de granito «construído pela Ditadura Nacional, ano VII — 1934» em Carrazeda de Montenegro... Abunda a cerâmica: na fábrica com pavilhões de frontão denteado Cerâmica Rosa Alvarães, a Barcelos, em prédios com revestimento de azulejo ou mosaico, na Póvoa de Varzim [Rua do Tenente Valadim e Rua de José Malgueira (fig. 142)], em painéis figurados na escola de Lanheses, a Ponte de Lima. E há as lojas atlânticas [o pavilhão Diana Bar, na praia poveira, a Barbearia Leão e a Águeda Nocturna, de Viana do Castelo (fig. 141)] e as do interior (a Casa das Gravatas, vimaranense, demolida cerca de 1979).

Porto e arredores
Na cidade: respire-se um ambiente estético entre os beaux arts e o art déco, na Avenida dos Aliados (fig. 147), com cúpulas e torreões; vejam-se os grandes blocos modernistas do Bolhão (Rua de Fernandes Tomás) ou da Cedofeita (Rua de Pedro Nunes), cinzentos, pesados e de ondulantes pilastras; ou os pequenos edifícios de lote estreito, com marmoreados (Rua de Mouzinho de Albuquerque), com cerâmicas [Largo de Alberto Pimentel (fig. 143), Rua de Santa Catarina] e de volumes puristas (Rua de Casais Monteiro, Rua de Augusto Rosa e Rua de Lima Júnior). Visitem-se os alegres e «gráficos» equipamentos, luminosos e por vezes decorados em excesso: da Garagem Passos Manuel (fig. 144) aos Armazéns Cunhas (fig. 145) (passando pelas setas do Ricon Peres, da Rua de 31 de Janeiro), com «nos» de néon e sobre frágeis pilastras; avance-se do edifício comercial Alfredo Moreira da Silva e Filhos (Rua de D. Manuel II) ao Teatro Rivoli, na Praça de D. João l, com baixos-relevos populares e cénicos... Os arredores: sintam-se fabris e atlânticos com a Fábrica Progresso, 1935, de Espinho, a Central de Vilar do Paraíso, à Granja, e a Universal, conserveira de Matosinhos; ou mais «pequeno-burgueses» com os castiços equipamentos e casas desta última cidade (o talho O Vencedor, da Rua de Brito Capelo, ou uma moradia na Rua de Tomás Ribeiro); sejam fluviais e populares com o Club Portuense, da doca de Gaia (fig. 146), ou o Estrela-Cine, de Coimbrões; ou então «chiques» e saudosos com os abandonados sanatórios de Montalto (a Valongo) e o demolido Hotel Cidnay, de Santo Tirso. Avancem decididamente suburbanos com o Cine-Teatro Vitória, da Circunvalação, a Fábrica de Tecidos da Carvalha, a Gondomar, e o delicado portão do palacete de Miramar...

Fig. 140
Guimarães — Mercado Municipal

Fig. 141
Viana do Castelo — loja Águeda, Largo de 5 de Outubro

Fig. 142
Póvoa de Varzim — edifício na Rua de José Malgueira, n.° 16

Fig. 143
Porto — edifício no Largo de Alberto Pimentel, n.° 23

Fig. 144
Porto — Garagem Passos Manuel, na rua do mesmo nome: na revista Panorama, n.os 5-6, 1942, página sem número

Fig. 145
Porto — Armazéns Cunhas, Praça de Gomes Teixeira,

n.os 4-22

Fig. 146
Vila Nova de Gaia — Club Fluvial Portuense, rua marginal ao rio, n.° 108

Fig. 147
Porto — Avenida dos Aliados: ed. Casa Emege (bilhete-postal)

estrada para o Porto .Fig. 151 Coimbra — Fábricas Triunfo. 150 Figueira da Foz — edifício de habitação na Rua de Bernardo Lopes Fig.

complementando o Casino e com um sem-número de fachadas habitacionais «superart déco» [na Rua de Bernardo Lopes. na Rua de Fernão de Magalhães. com «coroa de louros» a encimá-la (fig. 149). L. 152 Figueira da Foz — edifício de habitação. «espanhola». Arredores de Coimbra: vejam-se as Casas da Criança de Figueiró dos Vinhos ou de Castanheira de Pêra e o antigo Preventório de Penacova (fig. e Pedros. dão o tom de veraneio à área de Leiria. com o Mercado Municipal.da. na Rua da Sofia) e dos abastecimentos e comércio (o mercado. outros dois ainda. que teve grande desenvolvimento arquitectónico nos anos 30: um. envolvendo Coimbra e arredores. Na região. à volta de Leiria. com os equipamentos (o Centro de Diversões. Lavos. em versão ainda mais «louca». 153). ou as recatadas Termas de Monte Real. passando pelo Vouga. a lembrar Bissaya Barreto e o Portugal dos Pequenitos (como o pavilhão da Obra Antituberculosa. Visite-se a Figueira da Foz. percorra-se Condeixa-a-Nova. e a Demétrio). Rua da Liberdade. 1938. agora em exibição «modernista». atestam a importância recente desta cidade. das garagens (Auto-Industrial. 152)]. Rua de Dias Ferreira). a atestarem a única artéria urbana que cresceu na época (a Rua do Visconde de Alverca). 148)] ou uma fachada do Laboratório da PSP (Rua do Conde de Ferreira). as Fundições Gomes Porto]. em sóbrio art déco. costeiros. Leiria-cidade tem curiosidades interessantes. do Teatro Stephens ou dos Bombeiros. e. e. na Figueira da Foz e à roda da na de Aveiro. uma área setentrional e interior. n. o geométrico portão da Covina. finalmente. ou as Vias Sacras de Fátima. a Pensão Café Europa. Vislumbre-se a ria: as excêntricas e inventivas moradias à beira da estrada (Vagos. De referir ainda o cinema de Pombal. Neogravura. a Figueira popular e colorida nas casinhas dos arredores [Buarcos (fig. 150). com jarrões de cimento adossados (fig. tema decorativo sempre presente). Isto sem falar nos raros exemplos de «quartel» (Rua de 28 de Infantaria) ou de Igreja Evangélica (Rua das Lamas) ao gosto artes decorativas. mais meridional. de pilares revestidos de «gomos» cerâmicos. em Maceira. Lisboa (bilhete-postal) no centro histórico (os Correios e o quiosque fronteiro. 149 Penacova — Preventório: ed. a Casa das Novidades. balnear e festiva. na Marinha Grande. o Teatro-Parque Cine. Covas]. Rua de António José de Almeida. Veja-se a Coimbra da intromissão modernista Fig. L. o Salão-Restaurante Nicola) e da desequilibrada expansão habitacional para as colinas (Rua dos Combatentes. na Rua do Brasil. Largo de Camilo Castelo Branco A Beira Litoral Cinco «núcleos» principais compõem esta densa área.da. de 1935.° 122 Fig. 148 Leiria — Parque Infantil TenenteCoronel Jaime Filipe da Fonseca. da Rua de Ferreira Borges). o Cinema Avenida e alguns prédios de habitação e comércio.Fig. como um pórtico de entrada em parque infantil [Largo de Camilo Castelo Branco (fig. a Padaria para Todos. ou ainda o já referido conjunto dos Cimentos Lys. confirmam a sua dimensão industrial. do centro e da saída para norte (fig. outro. da Mealhada para Arouca. na Rua da Liberdade. Rua de Guerra Junqueira. Entre prédios e lojas. Ílhavo) atestando a continuidade de uma «casa de emigrante». das fábricas [as bolachas Triunfo. a Serração de Madeiras da Batalha. As alegres varandas da praia da Vieira. Percorra-se a Coimbra-cidade. ou as casas de veraneio da Costa Nova [onde surge uma ousada .. enquanto as solenes fachadas art déco dos Correios. 151)..

A Gutenberg (estúdio fotográfico) ou a Garage Avenida.consola em betão no embarcamento da ria. mais «serenas». os Bombeiros de Carrazeda de Ansiães. tão conotada com a sofisticação urbana. pela adaptação das suas escalas ao pequeno meio de província. passem-se as zonas de indústria. Constituem raros e notáveis exemplos a creche Lactário Maria do Carmo Carmona. que complementam as fábricas de chapéus (Nicolau da Costa). como a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.. agora abandonado (figs. 155 Fig. de calçado (Ariosta) e de borrachas (Sanjo) de São João da Madeira. em Chaves. a Trindade) e dos curiosos prédios de suave consola encurvada e decorações ondulantes. a Garagem Transmontana. do Palace Hotel da Curia 1953 Trás-os-Montes e Beiras — o interior Norte São naturalmente pontuais os exemplos de uma estética modernista. tão importante nesta zona pelos anos 30: as estações de serviço da Cúria. Pelo Vouga. 157)] e ao da viação rodoviária. as oficinas automóveis de Sangalhos. 156. a Central. A insólita escola de Arouca aproxima-nos de uma outra paisagem.. de 1935.. a uma cimalha denteada ou a um lettering mais . resumem os signos modernistas a uma caixilharia mais geométrica.. Fig. in Diário da Manhã. 155)] e de Ovar-Furadouro. Aveiro. Outros equipamentos. o Cinema de Macedo (fig. ou os Automóveis Ford e o Lar dos Pobrezinhos (Oliveira de Azeméis). Costa Nova de Aveiro — abrigo de embarcadouro Fig. 154. 158). 156 Cúria — Piscina Praia Paraíso. em Chaves. 154 Costa Nova de Aveiro — abrigo de embarcadouro: «Jubileu de Salazar». nas «longínquas» e rurais paragens transmontanas. cidade com a «avenida das garagens modernistas» (a Lourenço Peixinho. 1934) (figs. com a Atlantic. por arquitecturas ligadas ao fenómeno termal [a notável piscina do Hotel Palace da Cúria (por Raul Martins. 159) e o Teatro Mirandelense (fig. a União Ciclista de Águeda — sem esquecer curiosos edifícios de habitação igualmente em Águeda (Rua de 15 de Agosto) ou a fachada torreada do Teatro de Anadia. de Bragança. Veja-se ainda a sede dos bombeiros e o Ninho da Criança. Para o interior passe-se pelo edifício dos bombeiros da Mealhada (com torre feita de planos abstractos). 153 Buarcos — edifício de habitação no Largo da Lapa Fig. com a fábrica de trigo de Sever-Pessegueiro e a de latoaria em Vale de Cambra.

Avenida da República. 160 Chaves — edifício de habitação art déco (junto à ponte romana) .Fig. Mirandela (bilhete-postal) Fig. 5. 159 Macedo de Cavaleiros — antiga Cinema de Macedo. de Alexandre de Almeida (bilhete-postal) Fig. do Palace Hotel da Curia: ed. 157 Cúria — Piscina Praia Paraíso. Avenida da República: ed. Casa Fernandes. Luís Olaio Fig. Rua do Dr. 158 Mirandela — Teatro Mirandelense.

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. como o Colégio Fig. nos equipamentos [há os que se alimentam da paisagem de montanha. Vejam-se ainda algumas lojas mais ousadas (Farmácias Félix. ou lojas timidamente modernas (Macedo de Cavaleiros. na Rua de Marques d'Ávila) e sobretudo em Lamego (conjugando com originalidade azulejos e granito (na Rua de Almacave e na Praça do Comércio). com a inesperada Casa Estoril. denteados e antropomórficos. 161 Castelo Branco — edifício de habitação e comércio na Rua de Sidónio Pais Marista de Vouzela (fig. 160)]. a Casa da Moda. no Largo de Humberto Delgado). O resto são prédios de severa e pesada fachada art déco. na Covilhã (em boa articulação de esquina. mas com um pouco mais de invenção.. As Beiras prolongam esta severidade. Chaves). junto à estação de caminho-de-ferro cuidado. em Vilar Formoso. ou os sanatórios do Caramulo. e A Moda na Covilhã). 162). 161)].Fig. e Higiene. 162 Vouzela — Instituto Marista. e nos edifícios de habitação.. no Pinhão duriense. como em Castelo Branco [Rua de Sidónio Pais (fig. como o Cine-Teatro da Guarda e o prédio das telecomunicações de Viseu]. em Viseu (de «aventais». tão granítica quanto possível [Chaves (fig. as raras indústrias que utilizam simbólica de progresso (Automecânica da Beira. Castelo Branco) e os inevitáveis e pétreos «chafarizes de inaugurar» (Vila Nova de Paiva). e os que se instalam no meio urbano. em Castelo Branco. em Mangualde.

163 Lisboa — vista aérea sobre o conjunto do Instituto Nacional de Estatística e área envolvente. 164 Lisboa — átrio ele escada em edifício de habitação na Rua de Óscar Monteiro Torres. n.Fig. anos 30 Fig.º 40 .

166 Lisboa — fachada da loja Ginjinha Lusitânia. Rua do Telhal . É a Lisboa dos prédios de rendimento correntes. quando integrou a Garagem Lys. 164) (com tectos de estuque imitando o mármore e «sofismáticos» candeeiros pendurados).Lisboa cidade A Lisboa modernista é a dos novos equipamentos que isoladamente transformaram os seus espaços urbanos com símbolos discretos de progresso (o monumental Terreiro do Paço.. estendais e couves). 165) que preenchem a traseira (convivendo umas com as outras em logradouros atafulhados de gatos. 165 Lisboa — traseiras de prédio de habitação com marquise. hortas ou casas saloias — bairros arrabaldinos primeiro. Ou das padarias de caixilharia exterior losangonal e motivos vegetais no azulejo interior. e é também a cidade das caixas de escada ornadas de azulejos déco (fig. geradores de cidade depois (fig. que. que recebeu a Estação do Sul e Sueste. na zona da Junqueira Fig. com encrespado tecto de estuque. Azul. a cidade das «tascas» convidativas e frequentes. e das reflectoras e luminosas marquises (fig. de quatro pisos. 163). com claras e geométricas pilastras na fachada (ou aventurosas e «gratuitas» varandas de betão e abstractas «fachas» salientes). mais populares ou mais «burgueses». a simples Rua da Palma. das Colónias ou da Bélgica. 166). no Desterro). é a cidade dos novos bairros.. finalmente. É. com balcão de mármore e paredes de frisos cerâmicos e de degrades geométricos modulados em painéis (fig. foram ocupando corno ilhas antigos lugares de quintas. Fig. encerradas por portas de chapa exibindo complexo desenho de curvas e rectas.

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. 168) e Hotel Praia do Sol. com o núcleo central articulado à volta do posto de turismo e do mercado e a feição pequeno-burguesa comprovada pelas humildes Pensão Santo António (fig.Lisboa a sul do Tejo Percorra-se a veraneante e modernista Costa da Caparica. 167 Setúbal — edifício de sanitários no cais de capitanias portuárias. Rua do Marquês de Pombal. Colecção Passaporte «LOTY» (bilhete-postal) . 167) (sem esquecer o apeadeiro ferroviário do Quebedo. 168 Costa da Caparica — Pensão Santo António.. as escolas primárias da Rua de Leonel Duarte Ferreira. em xadrez cerâmico. embora aquém da grandiosa proposta de Cassiano Branco. aos prédios de habitação com alpendre (Morta. ou a Setubauto. sempre instalados em eloquentes edifícios de frontão art déco e volumes puristas). desde o precursor Mercado de Luísa Todi aos armazéns e Fig. Avenida de Teófilo Braga). n. Rua de Cândido dos Reis). Uma referência ainda às fábricas dos arredores sadinos (o edifício do refeitório do Outão ou os pavilhões da fábrica da Sociedade Industrial de Lavradores do Sado). com importante faixa de equipamentos dispostos ao longo dos novos aterros. Setúbal merece destaque.º 39): ed. ou ainda a Cooperativa Piedense. expressa no denteado e apilastrado cais de embarque de Cacilhas. dada pelos inúmeros equipamentos de utilidade pública (a Escola dos Bombeiros ou o Teatro da Academia Almadense. densos baixos-relevos (Montijo. ou ao simples e torreado posto de sanitários (fig. ou pesados efeitos de simetria (Barreiro. Apreenda-se a dimensão colectivista e operária de Almada e da Cova da Piedade. A Flor Algarvia). ambos situados nas ligações às estradas do interior). e a ligação umbilical à capital. na Quinta de Santo António (Rua de Almada. ou Sesimbra. Fig.

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por Norte Júnior. ou ainda populares e poveiras em Alhandra (fig. promovido pelos discretos refugiados polacos do nazismo). Península também clubista e operaria [o Desportivo de Paço de Arcos. 170 Estoril — Esplanada do Tamariz: ed. com as decorações em cachos de uva em fachadas de Arruda dos Vinhos.os 25-43 Lisboa a norte do Tejo São múltiplas as dimensões da península de Lisboa: mundana e balnear. de Olival Basto). de Sacavém a Vila Franca (José Olaio. Litografia Barrault. os talhos da Malveira (o Central Número 1 e a Salsicharia Moderna) e o Matadouro de Sobral de Monte Agraço. n. com os casinos (desde o do Estoril. 169 Alhandra — conjunto de habitações na Rua de Sousa Martins. de Sobral) aos utilitários e «chãos» mercados (Amadora). junto ao largo do coreto . Colecção «DULIA» (bilhete-postal) Fig. no Estoril (fig. l 72)]. Fig. Santa Iria. bombeiros (Canecas ou Sacavém) e «tasquinhas» (a Estrela do Minho.Fig. Avenida dos Combatentes). no Algueirão). com as respectivas fábricas. 169). cuja diversidade vai dos cinemas com «espírito de cidade» (o espaventoso Carlos Manuel. ou o simples Cine-Teatro. com as estações de eléctricos da turística linha «de Sintra às Azenhas do Mar» (Colares) e ainda as rendilhadas casas de férias (Praia das Maçãs). com os Socorros a Náufragos (Paço de Arcos). 171 Paço de Arcos — sanitários públicos. MEC de Santa Iria da Azoia) e as camionagens (A Barraqueira. até ao da Rinchoa. Copam. demolida) e ainda os sanitários de Paço de Arcos (fig. mais suburbanas em Algés e Dafundo (Rua de Cândido dos Reis. península rural e provinciana. jardim (Avenida do Marquês de Pombal) (fig. o Sport Club Sacavenense Fig. Completam este quadro os equipamentos. com a Drogaria de Carcavelos (na Rua de 5 de Outubro. 172 Sacavém — Sport Club Sacavenense. 170)]. mais grosseiras e afirmativas no Algueirão e no Cacem. Finalmente. construindo requintadas e opulentas moradias no Estoril. Sintra ou Caxias. de Sintra. com as esplanadas e piscinas de praia [Tamariz. Vila Franca de Xira e Loures. de 1945. 171). «internacional» e luxuoso. A habitação reflecte este quadro.

n. 173). um Museu Malhoa]. Visitem-se os núcleos de férias (Santa Cruz e as suas cilíndrico-prismáticas Vivendas Maria da Graça. Fig. com os agregados piscatórios [as decorações prateadas e salitradas nas fachadas da Nazaré (fig.º 5 . agrícola. núcleo de moradias modernistas à volta do pátio). a Garage Avenida ou os talhos. a Torres Vedras. 175 Nazaré — edifício de habitação.. e os núcleos de termalismo (o Vimeiro. Manuel de Arriago. esquina da Rua elo Coronel Soeiro de Brito com Rua de Leão Azedo Fig. 174). viradas ao mar e ocultando prédios que aproveitam os estreitos lotes da malha urbana para aluguer de veraneio]. das garagens e do intenso comércio (a adega Sadias. 175). ou em Alcobaça. fronteiro. Depois penetrem-se as industriosas vilas e cidades. alfaiatarias e armazéns). n. desde Torres Vedras. vinícola e residencial (com o curioso conjunto da sede dos bombeiros e prédio «da cegonha». com a curiosa piscina murada). ou com outros e originais alçados de fachas curvas) (fig.A Estremadura Primeiro veja-se a faixa de praias e falésias. passando pelo Bombarral. Termine-se nas Caldas da Rainha. ou observem-se os baixos-relevos e cerâmicas dos policromos e humildes prédios em Peniche.. 173 Caldas da Rainha — antiga Garagem Capristanos. com decorados prédios de habitação e comércio e o Teatro de Korrodi. 174 Torres Vedras — edifício de habitação na Rua de Carlos França. Praça do Dr. cidade dos equipamentos e dos parques [uma torreada Garagem Capristanos (fig. ou a Areia Branca com o Bairro Santos." 33 Fig.

Região de terras «moles». em Cernache do Bonjardim. de Fig. o Ribatejo exibe frequentes revestimentos cerâmicos ou estucados nas fachadas de habitação (Pontével. mostra bairros ou fachadas que recordam as dos «patos-bravos tomarenses» de Lisboa (Santarém. na Rua de Santo António). o Mercado de Alpiarça]. 177). Coruche). 177 Santarém — Teatro de Rosa Damasceno Almeirim (fig. e até inventivas construções de modernismo quase «vernacular» (em Abrantes. à Rua do Prior do Crato. 178 Almeirim — lagar de azeite na Rua de Coruche. a Peugeot Scalabis ou a Barbearia Elegante. às Portas do Sol (fig. espaços ligados à camionagem [a antiga Empresa de Viação (fig. de bons interiores. no centro da vila).. 176)]. e A Gráfica. envolvendo Tornar (que exibe equipamentos luxuosos. na central Rua de Guilherme de Azevedo] e também obras características de uma rica região agrícola [o Lagar de Azeite. como o Cine-Teatro. no Entroncamento. Mais a norte. uma escultórica central eléctrica (junto ao no Almonda. outra área. com oficinas e Fig.º 23 papelaria). . ou Tomar.Fig. o interessante Teatro Rosa Damasceno. na Avenida de António da Fonseca). inclui. uma insólita torre (de 1935) com serpenteante escada exterior. em Torres Novas. de pequena e próspera cidade de província. e. 178).. n. 176 Cernache do Bonjardim — antiga garagem da Empresa de Viação Cernache (azulejos de Túlio Vitorino) O Ribatejo O «núcleo» à volta de Santarém encerra equipamentos e lojas sofisticadas [na cidade.

ou na estrada de saída de Ponte de Sor). o edifício do Café Pancadinha. que num ano mudou de cores e de expressão (figs. 179 Cercal — edifício de habitação e comércio Vivenda Maria Luísa Fig. 180 Beja — Garagem Bejense. Rua de Gago Coutinho . Até uma discreta decoração numa adega do Redondo. São as caiações que dão de facto «sabor» alentejano a uma vulgar frente de prédio (Castelo de Vide). Mas é mais corrente as construções surgirem faiscantes na sua caiação branca [o Centro Comercial de Milfontes. que exibem algumas características vernaculares interessantes. surgem em Moura (Rua de Luís de Camões) ou no Redondo (Praça da República). Vejam-se as cimalhas denteadas ou «em leque» das casas térreas de São Luís (e das lojinhas do Cercal. Largo dos Duques de Beja Fig. numa geometria mais invulgar em Montemor-o-Novo (Rua de Aviz) e em Niza (ao lado do teatro). O ponto culminante deste «casamento» pode sentir-se na portentosa cimalha da Garagem Bejense. Prédios de habitação. de Santiago do Cacem. 181) à ocre Sapataria Moderna. ou um painel de azulejos num prédio de Beja (Rua de Mértola) ganham outra dimensão. Fig. a uma moradia cubista (Crato) ou a uma garagem de Odemira. ajudado também pela «terra do barro» que o Alentejo sobretudo é. em Beja. como a mutabilidade no tempo. mirem-se as imbrincadas grelhas de cimento da Vivenda Mana Luísa. Isto é visível sobretudo em construções mais simples. de ascendência presumivelmente árabe) e as interpretações art déco — modernistas que por aqui se vão encontrando (mais garridas no Algarve.. no Cercal (fig. num gosto art déco mais sóbrio. revisite-se a cimalha da pequena habitação de Milfontes.. 179). 185). 181 Sines — Adega de Sines. a ingenuidade dos motivos ou a precariedade das soluções. quase uma escultura (fig. 180).O Alentejo No Sul parece haver um «casamento» entre a tradição antiga (dos baixos relevos e motivos geométricos na decoração da arquitectura. 184. por vezes apresentam galenas ou «arcadas» (no Cercal. permitindo a fácil modelação da forma e o desfrute do claro-escuro. desde a luminosa Adega de Sines (fig. mais caiadas no Alentejo). com pavimento cerâmico e «abstracto»). bem como os nomes das lojas.

182 Serpa — garagem.Fig. construída por José Pinto Parreira (inicialmente para cinema) .

n. na Rua do Teatro (fig. numa obra «paladiana» de engenheiro algarvio. em Odemira e em Campo Maior. Vaultier em Beja são temas isolados. fronteira a Vila Nova de Milfontes..º 6 (antes de 1981) Fig. de Sines. Deve fazer-se ainda uma referência ao típico café meridional (em Portalegre.. quase sempre confinados ao espaço urbano: um elegante hospital de desenho art déco. em casas frente aos jardins.na Rua do Forno. na Avenida da Estação. ou em Portel. com pavimentos em «estrela de vidro» e falsos marmoreados nas paredes. na Rua de Mértola (Beja). 183)]. de novo em Ponte de Sor]. Moradias mais «abstractas» e «eruditas». ou ainda em Ponte de Sor). no extenso terreiro de Ponte de Sor. Fig. 184 Vila Nova de Milfontes — edifício de habitação popular na Rua de Vicente Ferreira. em Serpa. 185 Vila Nova de Milfontes — edifício de habitação popular na Rua de Vicente Ferreira. n. 183 Estremoz — moradia na Rua do Teatro Fig. ao ar livre. um sóbrio Sport Nisa e Benfica e uma elegante e metálica fachada da H. embora de forma pontual: em volume destacado. compacto. em conjunto muito «lisboeta». o Vasco da Gama.. pontuadas por cilindros brancos e extensos volumes caiados. o Arcada. o Alentejano. e. na Praça do Geraldo). em Évora. finalmente (único projecto de autor identificado). ou a Automecânica. bem corno às granjas e fábricas isoladas (a herdade Euroflor de Pegões. e em Évora. a fábrica de Palma. com esmerado átrio de entrada (e na série da Avenida de Vasco da Gama). os cinemas (Cine Parque Esperança. aberto e linear).° 6 (pintura em 1981) . na foz do no Mira. e em Estremoz. Os equipamentos distribuem-se de modo esparso por esta vasta província.. 182). Mais correntes são os mercados (em Almodôvar. surgem também pela região alentejana. com os típicos corpos cilíndricos. e as garagens [a já referida de Serpa (fig. na estrada para Alcácer).

º 115 O Algarve Aqui são mais eclécticas as cores e mais delicados os pormenores. Olhão regista nesta época o maior incremento de edificações. Bravo. Cine Parque. Rua de Cândido O Ventura. quiosque e Capitania. ao Largo do Dique). que já se foi desenvolvendo por esta época na faixa costeira. Ainda de referir ocasionais edifícios de habitação e comércio [Portimão. 186 São Bartolomeu de Messines — edifício de habitação na Rua de João de Deus. em Tavira. Praça da República (fig. de Jeremias J. nas fachadas (em Olhão. O turismo. P. por comparação com o Alentejo: o desejo modernista vê-se de novo nas platibandas [São Bartolomeu de Messines (fig. em toda a província. ou de lojas (a Casa Dias. e as fábricas e bairros operários de Olhão/Fuseta. 187 Praia da Rocha — Grande Hotel da Rocha: ed. Fig. em Loulé. Nas cidades devem destacar-se: o núcleo de equipamentos em Portimão (o cinema maior. Rua de João de Deus. em Monte Gordo e na Praia da Rocha (fig. Praia da Rocha (bilhete-postal) . Café Cine. 188). Rua de Portugal) e nas lojas (Casa Argentina. exprimiu-se de forma ainda discreta e quase ingénua: no romântico Grande Hotel da Praia da Rocha. Olhão).Fig. 189)]. de divertido lettering). n. ou nas inventivas e miniaturais casinhas de férias. 186)]. o conjunto de habitações de Faro (Rua de João de Deus e Rua Justino Cumano). 187). casarão de subtis contornos art déco (fig.

n.Fig. 189 Portimão — edifício de habitação e comércio na Praça da República. 188 Praia da Rocha — moradia Mirante.º 18 . Avenida Marginal Fig.

menos interessante. na Avenida Zargo (fig. devem assinalar-se os prédios dispersos. Rua de Fernão Ornellas As ilhas — a Madeira Na ilha. a Mimo. 191 Funchal — edifício dos Correias. No resto da cidade encontram-se as lojas sofisticadas. que remata a Avenida Ornellas — expansão viária principal da época — com uma inventiva diversidade de volumes torreados e de espaços interiores [com destaque para o pátio e a lota (fig. as moradias timidamente modernas da Avenida do Infante (sempre com um telhado. na avenida modernista mais central. e o falhado projecto de Carlos Ramos para essa finalidade. os chafarizes de pedra vulcânica envolvendo azulejos. 190)] e que ocupa todo um quarteirão. de Adelino Nunes. no desenho sóbrio da fachada simétrica (fig. a disfarçar os «excessos» modernos da cobertura em laje de betão). a lembrar os melhores do Caramulo.. vasto e convencional edifício.. típicas do meio insular [exemplo. e o grandioso sanatório dos arredores. 190 Funchal — pátio do Mercado dos Lavradores. à Avenida do Infante. a Avenida Zargo [já referidos. centro de convívio ribeirinho por excelência. as manifestações modernistas resumem-se praticamente ao Funchal e aos arredores e são dominadas pela obra maior de Edmundo Tavares: o Mercado dos Lavradores (fig. o dos fotógrafos Perestrellos. 192)]. é ainda de referir o Liceu Jaime Moniz. suporte da indústria dos bordados. com grande «força». Além destes projectos maiores.Fig. Avenida Zargo . os Correios. mas igualmente concebido com largueza (sobretudo o salão de festas e os átrios). Fig. como os do actual Turismo. 191)] e a fábrica Casa Leacock. 193). ou o do Café Apoio.

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192 Funchal — loja Mimo. Rua de Fernão Ornellas Fig.Fig. Avenida Zargo . 193 Funchal — Mercado dos Lavradores.

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e sobretudo. em Angra. ambas em Ponta Delgada. o banco do Montepio. a sua sala de sessões de esplêndidos vitrais e lustres (fig. na ilha Terceira.º Vasconcelos sonhado o modernismo açoriano na sua terra Fig. com jardim de Inverno delicado e íntimo. os Lacticínios do Loreto (na Povoação) e esparsas lojas e moradias (Água de Pau. por outro. Faial — Sociedade Amor da Pátria. da Horta (no Faial) (fig. uma fachada no Pico. Além destas obras. por um lado. 196). é a ilha de São Miguel a que mais evidencia o legado modernista. as obras modernistas são muito pontuais: o Café Atlântida. ainda hoje conservado quase impecavelmente. aguarelista e músico. e. com um «caso» muito especial.. Em primeiro lugar deve citar-se o esplêndido Hotel das Fumas. centrando a sua actividade à volta da Sociedade de Turismo Terra Nostra. 194. à sua tradicional primazia. e. interessado na arquitectura. No restante arquipélago. entrada mais «exótica» — as Furnas — e ligado ao tema adequado a alimentar o progresso na região — o do turismo. 195 Horta. se isso se deve. a loja de Informações-Turismo. de interiores concebidos até ao mínimo pormenor com as melhores madeiras e estuques (figs. a casa própria. onde soube valorizar uma esquina da Rua da Sé (hoje o Banco Português do Atlântico). é o clube Amor da Pátria. e as decorações da Exposição Industrial das Fumas. com a sua generosa aplicação de mármores e Fig. 195). 194 Furnas de São Miguel — Hotel Terra N ostra. em Ponta Delgada (de 1934). o mais são os azulejados e sóbrios Balneários Municipais.. o Jardim Antero de Quental (ambos em Ponta Delgada). técnico culto e viajado. Furnas). 197 e 198). uma moradia em Santa Cruz das Flores. e a inovadora Barbearia Gil — mármore rosa sobre uma esquina de solar tradicional e basáltico (fig. caso único no País. que se segue em importância. que. de Vila do Porto (Santa Maria). o da acção do Eng. na Avenida de Gaspar Frutuoso. construiu de tudo um pouco. Assim terá o Eng. Nas outras ilhas. relaciona-se. em São Miguel.Outras ilhas — os Açores Neste arquipélago. ..º Manuel António de Vasconcelos. depois. 199). interior estuques em monumental art déco. de sua autoria. a remodelação do fronteiro Casino (de 1937).. Além destes trabalhos há ainda a assinalar.

197 Furnas de São Miguel — Hotel Terra Nostra: foto Nóbrega. 198 Fumas de São Miguel — Hotel Terra Nostra.º António de Vasconcelos . Ponta Delgada do Eng.Fig. 196 Ponta Delgada — Barbearia Gil Fig. desenho aguarelado Fig.

Faial — Sociedade Amor da Pátria . 199 Horta.Fig.

ÍNDICE Agradecimentos Introdução 5 6 E V O L U Ç Ã O TÉCNICA E A R T Í S T I C A NOVOS MATERIAIS E TECNOLOGIAS 10 O As primeiras obras À volta de 1890 — o ferro «urbaniza-se» O ferro em plena arquitectura da cidade A decadência Uma síntese O betão armado — os primórdios Os anos 20 — «a arquitectura de betão» A charneira de 1929-30 ferro 11 12 14 15 21 23 25 27 28 33 36 37 38 38 41 42 43 44 46 51 52 54 57 Os outros materiais — vidro.. ambientes e exotismos Pormenores. plástico. Casas. materiais e interiores Fábricas e garagens Uma arte nova portuguesa? Vulgarização e rarefacção da arte nova — transição para o art déco Estilo «artes decorativas» — o art déco A génese Caracterização Formas e matenais Do primeiro «moderno» ao advento do Génese em Portugal Linhas dominantes A habitação Aproximação do nacionalismo relações com a arquitectura nacionalismo 63 63 64 67 69 . «alma» da arte nova portuguesa . luz O PERCURSO ESTILÍSTICO A arte nova A moda e as lo|as O azulejo.

instituições.A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE E A ARQUITECTURA 72 DA MONARQUIA À REPÚBLICA Desenvolvimento urbano. equipamento e habitação Os equipamentos A habitação 94 101 105 107 115 Os autores O M O D E R N I S M O EM PERCURSO REGIONAL O Minho Porto e arredores A Beira Litoral Trás-os-Montes e Beiras — o interior Norte Lisboa cidade Lisboa a sul do Tejo Lisboa a norte do Tejo A Estremadura O Ribatejo O Alentejo O Algarve As ilhas — a Madeira Outras ilhas — os Açores 116 129 129 133 134 139 141 143 144 145 146 149 151 155 . utopias A era dos equipamentos Os autores O ESTADO NOVO — DAS OBRAS PÚBLICAS À VULGARIZAÇÃO DE UMA NOVA ESTÉTICA 73 77 81 86 A arquitectura e a ideologia — da propaganda às exposições Símbolos e concursos A «arquitectura efémera» 87 91 93 O urbanismo As «obras» — das pontes e viadutos ao mobiliário urbano A divulgação de um gosto — comércio.