You are on page 1of 7

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS DEPARTAMENTO DE DIREITO BACHARELADO EM DIREITO DIREITO DIURNO

Marjorie Carvalho de Souza marjozinh@hotmail.com

Ficha de leitura do texto A tutela da personalidade no ordenamento civil-constitucional brasileiro.

Florianópolis 2013

a categoria como é hoje concebida é figura recente.1 Introdução. ainda discutiu-se se esses direitos subjetivos incidiriam sobre a própria pessoa ou objeto externo. ainda que nesse período. ao que eles também não reconhecem tais direitos como subjetivos. portanto. pois são bens jurídicos dignos de tutela privilegiada. dada a natureza intrínseca dessas categorias nesse tipo de relação jurídica. .2 1. Ademais. A configuração dogmática dos chamados direitos da personalidade. conteúdo e extensão. a doutrina a partir da década de 50 reconhece a existência de direitos subjetivos atinentes a ela. por outro lado. a configuração dogmática dos direitos da personalidade aparece como um desafio paradigmático. Giampiccolo enfrenta magistralmente a questão refutando a necessidade de separar o sujeito e o objeto. considerando-os mero reflexo do ordenamento objetivo. Admitindo essa segunda acepção da personalidade é que. entretanto. a mera ação contra injúria prevista no direito romano. Panorama Geral do Conteúdo 1. excedendo. nesse contexto. ignora-se a projeção da personalidade enquanto conjunto de atributos da pessoa humana que merecem ser objeto de proteção. datada do século XIX para abranger a tutela da personalidade humana. que se restringe ao ponto de vista estrutural. sendo a personalidade a aptidão para titularizar direitos. os interesses da personalidade como a preservação da liberdade do indivíduo e das suas relações. isto é. portanto. A personalidade como objeto das relações jurídicas subjetivas. constituindo uma obrigação negativa geral. Vencido este ponto. essa noção estivesse muito atrelada a aspectos patrimoniais. cujos modelos tradicionais já não respondem satisfatoriamente. perduram alguns debates na doutrina: De um lado. ela não pode ser objeto deles. o conteúdo desses direitos com o dever geral de abstenção. cabe destacar. Sintetizam-se. Sob essa perspectiva. não se confundindo. o debate em torno do objeto do direito Diante da complexidade e diferenciação da sociedade contemporânea. os negativistas sustentam que. Quanto à sua natureza. a possibilidade de que ela figure como objeto desses direitos.

classificações e delimitação dos chamados direitos da personalidade. portanto. essa tutela passa a ser contemplada pelo direito privado também. Tepedino sustenta que eles não conferem proteção exaustiva à personalidade em todas as suas manifestações. cuja previsão legal consta no Código Civil. caráter absoluto. isto é. nome e direito moral. há quem acrescente. são elencadas pela doutrina brasileira algumas características. destacando-se. de modo que qualquer situação jurídica só possa estar assentada no direito positivo. Tais direitos atendem. ainda. Comentando tais dispositivos. complementação da tutela do Estado e sociedades intermediárias. inalienabilidade. mantendo o indivíduo livre da ingerência externa para contratar. dada a impossibilidade de fixar um bem superior fora de um contexto histórico.3 Fontes dos direitos da personalidade. o fundamento de legitimação de tais direitos encontrava seu ponto de validade na argumentação jusnaturalista. em lei. a primazia dos direitos da personalidade em relação aos demais subjetivos. 1. Com o estabelecimento de direitos subjetivos atinentes à personalidade. às aspirações e necessidades do indivíduo. imprescritibilidade e intransmissibilidade. o sistema de proteção da pessoa humana limitava-se às matérias de direito público em âmbito penal. em função da natureza de seu objeto tutelado. liberdade.2 Características. Personalidade e direitos humanos: necessidade de superação da dicotomia entre o direito público e o privado Tendo a tutela da pessoa humana surgido da necessidade de conter os arbítrios do Estado. dada a crescente diferenciação dos fatos sociais.3 1. sob uma perspectiva do liberalismo que posteriormente assentou-se na seara econômica também. Todavia. respectivamente. A esses tópicos. extrapatrimonialidade. leis especiais e a Constituição da República. sendo que os primeiros dizem respeito à vida. . dividem-se entre direitos à integridade física e moral. quais sejam: generalidade. cujo propósito de proteger o homem contra os arbítrios do Estado justificava a apelação a valores inatos ao homem e à razão. essa noção hoje soa claramente equivocada. Quanto à classificação. Assim sendo. o direito privado por excelência: propriedade. e os últimos à honra. nessa seara. tanto quanto os direitos subjetivos públicos. diferenciando-se destes pelo âmbito de proteção: Estado e indivíduos. o que requer. criticas à concepção jusnaturalista Em sua gênese. imagem. próprio corpo e cadáver.

titularizar relações jurídicas. Tendo isso em conta. Ademais. dada a diversidade de concepções ideológicas e crenças.4 Teorias pluralista e monista: crítica Quanto à tipificação desse direitos. A primeira. a qual. apesar da inexistência de uma cláusula geral que assegure tal hipótese na legislação. do que resultaria apenas um direito da personalidade com conteúdo indefinido e diversificado que não se identifica com a soma das múltiplas manifestações individualmente previstas em normas particulares. que podem. não à "suposta" razão ou consciência popular. Ao encontro dessa tese encaminham-se posições doutrinárias no Brasil. mas se estenderia indistintamente nos casos concretos socialmente relevantes pelo exercício da ponderação. assim. duas teorias confrontam-se: pluralista e monista. consideram-se inatos os direitos da personalidade tão só porque nascem com a pessoa. A segunda visualiza uma conexão entre todos os interesses da pessoa humana. Nesse contexto. tanto quanto um único patrimônio. ambas. mas são conferidos pelo ordenamento positivo igualmente a todas as pessoas. . a competência para estabelecer direitos. extremamente apegadas ao paradigma dos direitos patrimoniais. a proteção não estaria limitada aos aspectos regulados por uma norma. dos quais se extrai apenas um direito com várias manifestações derivadas. mas nem todos os direitos da personalidade são inatos. correspondendo a cada bem jurídico um direito a protegê-lo. que entendem a personalidade como uma só. Dessa forma.4 A própria compreensão dos valores a serem perseguidos pelo Estado está histórica e socialmente condicionada. resta inviável a hipótese de uma consciência universal válida para culturas tão diferentes. que advoga pela pluralidade de direitos. 1. alicerça essa posição com base na existência de várias necessidades diferentes entre si. cometeu os maiores crimes contra a humanidade. portanto. como denuncia a história. conforme o autor. vale destacar que todos os direitos inatos são da personalidade. compreendida como um ser unitário. o que torna deslegitimados os pretensos defensores de valores supralegislativos e que em nome deles cometem as mais diversas atrocidades. cabendo ao ordenamento.

esse modelo de direito subjetivo tipificado ou de relação jurídicatipo que se revela tanto na coerente pluralista quanto monista é insuficiente para atender às possíveis situações que reclamem tutela para a personalidade jurídica. A diversidade axiológica das relações patrimoniais e extrapatrimoniais. em termos apenas negativos. Com efeito.tendo em vista o tratamento que ambas dispensam aos direitos da personalidade como expressão de tutela meramente ressarcitória e de tipo dominical de modo que a proteção à personalidade é concebida sob os moldes do direito de propriedade. mas informar as relações contratuais também.5 1. Tal princípio deve orientar não só a atividade do legislador. Dessa forma. Neste tópico. à luz . A pessoa humana como valor unitário e sua proteção integral. portanto. Essa recomendação revela a inadequação da postura da dogmática tradicional em que as relações de direito privado estão alheias aos direitos fundamentais. Essa proteção também resta setorial e deficitária enquanto limitar-se a repelir as ingerências externas. estipula taxativamente os direitos subjetivos na ordem civil.ampliando a tutela que outrora era meramente repressiva com o direito penal -. Esse processo proporcionará uma releitura do direito infraconstitucional a partir dos valores emancipatórios adotados pela Carta Maior.monista e pluralista . o autor aponta para a insuficiência das duas doutrinas anteriormente expostas . A cláusula geral de tutela de personalidade no ordenamento brasileiro. Buscando uma salvaguarda da pessoa humana em sua totalidade. é necessário abandonar uma perspectiva setorial. Tepedino ressalta que a realização plena da dignidade humana é incompatível com essa setorização da tutela jurídica em situações previamente estipuladas. Os direitos da personalidade no Código Civil de 2002. mas também combater a dicotomia estanque entre direito público e privado a partir do condicionamento do intérprete e legislador ordinário pela tábua axiológica eleita pelo constituinte. A pessoa. Os chamados direitos da personalidade das pessoas jurídicas. de forma que alcance eficácia horizontal. os direitos da personalidade seriam expressões da cláusula de proteção à dignidade da pessoa humana prevista na Constituição. Sem subestimar a contribuição doutrinária dessas vertentes teóricas para afirmação da proteção jurídica da personalidade no âmbito privado .5 A insuficiência das orientações doutrinárias tradicionais.

Sob essa diretriz constitucional. 2. Nesse contexto. um instrumento privilegiado para a tutela jurídica dos seres humanos que congrega. Insurgindo-se contra as correntezas do ensino jurídico clássico. . são desconstruídas as linhas limítrofes e estanques entre as searas pública e privada e realocada a pessoa humana ao foco do ordenamento. Posição Crítica Partindo do princípio da dignidade da pessoa humana como postulado fundamental do ordenamento jurídico brasileiro acolhido na Constituição República do país. atribuída ao estudo do direito: a força propulsora da mudança e emancipação social.podendo incidir em hipóteses não previstas na lei ordinária . requer proteção integrada. Esse esforço doutrinário aponta de forma certeira para a realização da função. Informado por esse ideal. de forma que a equiparação entre os direitos que essas duas modalidades de personalidade jurídica protegidas pelo ordenamento está descartada. entretanto. os pressupostos apresentados convergem para um mesmo feixe de atuação: a ampla e plena proteção da personalidade humana. em última instância.e limita a atividade legislativa a atuar somente nas matérias que concernem à própria dignidade humana. De toda sorte. foi descrita essa necessária releitura do Código Civil com uma crítica temperada por uma via hermenêutica construtiva e louvável. Tepedino acertadamente posiciona-se no polo civilista mais adequado à ampla e plena tutela da pessoa humana em todas as suas expressões e necessidades ao entender o instituto da personalidade enquanto conjunto de atributos da pessoa humana que merecem ser objeto de proteção. a ciência jurídica passa a se orientar pelo homem e para o homem.6 do direito constitucional. e a tutela daquela é somente. cabe. assinalar uma ressalva: há uma diversidade de princípios e valores que inspiram a pessoa jurídica e a pessoa física. cuja integração só se afirma a partir da cláusula geral de proteção à dignidade humana. delineando uma nova abordagem de velhos institutos civis assentada na tabua axiológica prestigiada pela Carta maior. a qual ao mesmo tempo confere elasticidade . por excelência. o autor desenvolve o tema combatendo acidamente a dogmática tradicional e seu anacronismo na sociedade contemporânea. Através desta transmutação nuclear e teórica.

A tutela da personalidade no ordenamento civil-constitucional brasileiro. Gustavo. 2008. . Temas de Direito Civil.7 Referências TEPEDINO. Gustavo. Rio de Janeiro: Renovar. In: TEPEDINO.