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CULTURA E IDENTIDADE EM ANTONIO OLINTO
Taís de Souza Alves (CES/JF) Maria de Lourdes Abreu de Oliveira (CES/JF)

O escritor quase sempre escreve suas próprias memórias, atribuídas a outras. Cria personagens e os empresta ou dá de presente a seus personagens o seu próprio passado ou dados de sua infância. E inventa personagens que são invenções, mas estão baseados em pessoas que conheceu. Você se apaixonou por uma moça aos dezoito anos e, de repente, aos quarenta, você escreve um romance e lá consta um personagem com o mesmo rosto, as mesmas reações, as mesmas qualidades e os mesmos defeitos. (Antonio Olinto)

INtRoDUÇÃo É visível, nos dias atuais, a vontade de inúmeros grupos, ou do próprio indivíduo, de marcar a sua identidade; pertencer a um conjunto, saber a origem dele. Daí vem a necessidade, nem sempre tão fácil, de se definir o que seria essa identidade. Hoje, nem só os grandes críticos literários, escritores têm essa preocupação. O debate é bastante atual. Segundo o escritor mexicano Octávio Paz, a própria origem do termo na América pode estar ligada, ora à busca de um sonho projetado pelos europeus, uma vez que fomos colonizados por eles; ora pela repulsa a aceitar essa realidade. O nascimento da identidade brasileira, segundo Octávio Paz, estaria justamente no conflito entre a busca da identificação do sonho do colonizador europeu e a construção da realidade que contrariasse essa vontade. Esse impasse viria desde o século XIX, com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, como bem define Edgar Salvatori de Decca, no texto “Tal pai, qual filho? Narrativas da identidade nacional”:
A busca da identidade nacional é um produto do século 19 e está marcada por este profundo romantismo que acabou por transformar a história brasileira numa lenda de cunho familiar, onde um mandato utópico é transmitido de pai para filho alcançando finalmente o neto. (DECCA, 2002, p. 20)

Indo ainda mais longe, há quem diga que, a origem do termo pode estar na Grécia Antiga. Para o professor Lamartine da Costa, o mundo grego, ao se expandir, valorizou seus semelhantes e excluiu os diferentes, criando um sentido de unidade. (COSTA, 2004) A convivência entre as diferenças étnicas e culturais com a norma igualitária na lei romana também levaria à construção de uma identidade com a colonização de outros povos, aceitando essas misturas, mas impondo, ao mesmo tempo, padrões centrais de referência para os colonizados. Neste caso se incluiria o Brasil, colonizado pelos portugueses.
Discursos e Identidade Cultural

Época em que a infância era tida como um período “inocente”. memórias de sua infância e o amor pela terra Natal. surgidas a partir do século passado. Este ensaio propõe analisar e identificar a identidade obra Cinema de Ubá. Inglês e História da Civilização. Na África. Uma prova disso é o livro Cinema de Ubá. Em suas viagens pelo mundo sempre defendeu a cultura brasileira.A Casa da Água. em que o autor narra a sua própria infância. para os gregos. considerado o pioneiro dos grandes prêmios literários do país. Mineiro da Zona da Mata. se pensarmos na visão funcionalista dos romanos. Francês. O trabalho busca demarcar alguns pontos em que o autor demonstra a sua preocupação em definir traços de seu sentimento de nacionalidade. Discursos e Identidade Cultural . uma abordagem sociológica do termo e. terra de sua mãe. Nesse pensamento grego. nasceu em Ubá em 1919. Já participou de vários projetos de criação de bibliotecas no Rio de Janeiro. Foi adido cultural na Nigéria e na Grã-Bretanha. professor da Universidade de Columbia. Por outro lado. entre 1925 e 1926. escreveu uma trilogia de romances . Deixa claro a vontade de relembrar um tempo em que a vida no interior de Minas Gerais se limitava realmente a um jeito muito simples de se viver. culminando com o lançamento do Prêmio Nacional Walmap. Português. Olinto faz uma recapitulação da década de 20 em Ubá. O Rei de Keto e Trono de Vidro. publicada em 1972. foi professor de Literatura. em colégios do Rio de Janeiro. Não há como negar o seu envolvimento com as causas. do escritor Antonio Olinto Marques da Rocha. Está sempre envolvido na divulgação de eventos culturais. até ingressar no jornalismo e ser crítico literário do jornal “O Globo”. Uma de suas grandes preocupações sempre foi a preservação dos costumes e crenças do brasileiro. Ubá – cenário onde se passa grande parte da história. Mostra um ano na vida da cidade.316 Resumindo: para os romanos. De volta do continente africano. Estudou Filosofia. Latim. seria um sentido de consciência de um povo sobre a sua terra. estariam os escritores brasileiros românticos do século XIX. publicado em 1972. fazendo conferências em universidades e entidades culturais. como o distrito de Piau. a história e a cultura do povo brasileiro. Lançou mais de trinta concursos literários ligados a livros. poderíamos considerar a criação das identidades nacionais. Assim podemos definir Antonio Olinto Marques da Rocha. publicou Brasileiros na África. a identidade cultural estaria relacionada à função social. O cenário é a terra natal e arredores do município. As marcações de mineiridade do escritor e a paixão pela cultura e história de seu povo também fazem parte do estudo. A coNstRUÇÃo Da iDeNtiDaDe em ANtoNio OliNto Um defensor e divulgador da cultura brasileira pelo mundo. passando pelas principais festividades da época.

a partir da figura de um indivíduo exótico e contrário à visão do branco europeu.] o Papai Noel era um símbolo europeu. Diziam que era o maior carnaval do interior do Brasil e depois a Semana Santa. o Carnaval e a Semana Santa que também são relembrados na obra. nota-se uma marcação da própria origem do povo brasileiro. a tia o interrompera. Parte da obra trabalha a origem de palavras indígenas. como era casa em tupi? Tia Júlia havia falado em taba. descendente de índio.22) O índio talvez marque na obra a própria construção da identidade nacional. onde já se viu botar neve em árvore do Brasil. Essa mistura fica muito clara durante a história.13). certo instinto de nacionalidade (ASSIS.. Paulo prevê até uma dança de índios na Praça Guido. o cinema. ao escrever Cinema de Ubá. OliNto e sUa teRRa Natal – o miNeiRo No aUtoR Ver o passado como construção da identidade. “Da janela a praça se estendia livre. Tudo isso que foi o ambiente da minha infância. nos meus romances. no fundo o cinema” (OLINTO. A história começa com um passeio ao circo que acabara de chegar à cidade e que havia sido montado na praça Guido Marlière. a literatura aparece com um papel privilegiado. p. Mostra o indígena idealizado por uma criança de seis anos. 1972.317 Eu conto a história de um ano na vida de Ubá. o colégio de dona Sinhá. Discursos e Identidade Cultural . mas também podia ser ubá. Machado de Assis já afirmava que quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo. Isso fica claro na obra de Olinto que propõe até a criação do Natal brasileiro. Se considerarmos que a cultura representa a memória do coletivo. à direita um hotel e um café. onde o sol é quem manda? Acabou achando que talvez fosse bom a gente criar um Natal indígena. com neve e tudo. um símbolo europeu. Os preparativos das famílias do interior mineiro para a participação nesses eventos são narrados como um verdadeiro ritual.145) Outros momentos que lembram os costumes e a cultura do brasileiro são a tradição da Missa do Galo. Era um carnaval onde havia desfiles maravilhosos. Parte da história se passa nos arredores da praça. (OLINTO. com o menino Jesus nascendo numa aldeia de índios. personagem principal. o Natal. que cria personagens e situações comuns a esses povos. “César saiu de uma casa ao lado do pilão. p. ou ubá era só canoa?” (OLINTO. 1972. a mãe era Maria. 1986).. Tia Júlia e seu namorado Floriano defendem que todos os brasileiros deveriam falar o tupi guarani e não o português. Já na descrição dos personagens. O pai era descendente de portugueses. volta e meia. E. A busca dessa identidade que tanto Olinto procura pode estar na própria lembrança de sua infância. eu volto a Ubá e a Piau (OLINTO. Esse pode ter sido o pensamento de Antonio Olinto. 1997). à esquerda estava a estação. em uma crítica à figura de Papai Noel. [. p. como primeiro traço. 1972. A cultura indígena é muito presente na imaginação do menino Paulo. em Ubá. A ida ao circo era um presente no dia do aniversário do garoto de seis anos (Olinto). ou maloca.

o escritor traz à tona essa memória. 1999. na sua dimensão exclusivamente identificadora. ficava com uma lembrança boa o dia todo. Surgiam trocas de filme quando um dos meninos tinha duplicata (OLINTO. Para ela. “Para (re)conhecer. p. (THEODORO. 1999. no período de férias. as brincadeiras. Durante a visita a Piau. se as lembranças puderem ser. os meninos colecionavam pedaços de filmes. 1990. Se eu puder falar sobre o passado. ao narrar as lembranças da chegada do trem a Ubá. essa produção não é apenas extremamente vasta. as luzes do cinema se ascenderam” (OLINTO. as partidas de futebol no Campo do Aymorés e a importância que o cinema tinha para uma cidade pequena da década de 20. que às vezes abria o vidro de cola e cheirava. em seu livro Mitologia da mineiridade. não saíam da memória de Paulo. cujo ponto terminal é a infância. o nosso passado como um patrimônio. O jeito simples de se viver no interior mineiro é evidenciado na obra. um William Desmond. tudo faz da obra uma viagem por uma Minas Gerais que talvez ainda não tenha sido perdida de todo. Olinto revivencia sua própria história. os costumes da roça provocam estranhamento ao menino. significamente. os passeios. Nesse sentido. p. para recriá-lo e revivescê-lo (ARRUDA. enquanto repositório das promessas irrealizadas. Gil passou correndo no pátio da estação. Paulo tinha Tom Mix.34). sucessiva e criativamente instrumentalizadas no presente. poderíamos afirmar que os memorialistas mineiros que se encontram impregnados de um forte sentimento da mineiridade. tais obras localizam-se no centro do imaginário de Minas e contribuem. Segundo Janice Theodoro. nesse passo. 201). Maria do Nascimento Arruda. Isto é. O tom saudosista com que narra as peripécias do menino Paulo (Olinto). As lembranças chegam a ser tão fortes que o autor se lembra de detalhes como o cheiro do ambiente em que vivia: O cheiro do filme. temos que nos identificar com ele” (THEODORO. um Carlitos.318 dentro dessa visão da cultura como memória. “As memórias então significam um longo processo de imersão característica no passado. 39).199). p. Na verdade. sua ligação com a tia Júlia. o cheiro da cola. um Tarzã. A importância do resgate não é quantitativa. conhecer de novo. p. 66). p. caso o território do presente seja árido. entendida. ou seja. mas imbuída de particularidades dos mineiros e das especificidades do estado. é qualitativa. 66) Discursos e Identidade Cultural . 1990. um John Barrymore. está contida na qualidade da narrativa. 1972. o princípio cognitivo estará resguardado e poderá frutificar no futuro (próximo ou longínquo). 1972. “Antes do banho Paulo ficou vendo o trem que ia e vinha. Ao narrar a sua infância. trabalha a produção memorialística mineira. a literatura e a escritura de um modo geral sempre estiveram intimamente ligadas ao registro dessas lembranças. momento incorruptível da vida e dimensão irresgatável da existência” (ARRUDA. a praça começava a se encher de gente. passava de uma linha para outra. p.

Olinto é um defensor da necessidade de preservação da identidade brasileira. conduzida por Antonio Olinto. Em sua obra deixa clara a constante busca por um país que valoriza seus costumes. Lá descobriu a cultura negra no Brasil e a presença brasileira na África. esse possa servir de base ou explicar o presente e. em que sua obra também é muito conhecida. É um homem que se preocupa realmente com os milhões de analfabetos de seu país e busca amenizar esse problema de alguma forma. o futuro. Em sua obra Cinema de Ubá. O ambiente da sua infância muitas vezes retorna a seus romances. retratou as riquezas como o Rio de Janeiro. Revive. Narra as lembranças dos acontecimentos de uma cidade pequena da Zona da Mata mineira. Mas o elemento essencialmente brasileiro foi sempre preservado. publicou Ary Barroso. CoNclUsÃo Mostrar um Antonio Olinto capaz de valorizar a cultura de um povo e comprometido com o país em que vive não é tarefa difícil. Olinto não se esqueceu de sua nação. através da preservação de sua própria história. É tudo o que esse escritor. no candomblé Afonjá. mas passou a vida viajando: sai e volta. até várias de suas obras. Olinto narra fatos da vida de um dos mais criativos músicos do mundo. Na obra. revistas especializadas. Mesmo quando era adido cultural na Nigéria. sempre contribui para a construção dos fatos de Minas e do Brasil. Em 2003. Olinto se mostra um memorialista que. Continua esse trabalho em suas crônicas para jornais. de seus conterrâneos. em que faz uma homenagem a seu conterrâneo. Mostra o poeta. Para o escritor é muito difícil situar sua própria obra no contexto de uma literatura. Em suas palestras por outros continentes. Publicou muitos livros em outros países. para a construção da identidade de um povo. como sonhara quando menino. foi escolhido. que também é conhecido mundialmente. da Semana Santa e outras festividades populares são apresentadas como um bem de um povo a ser conservado. vai ver lugares diferentes. O escritor faz isso desde a sua preocupação em criar bibliotecas para o acesso mais fácil à leitura. o cidadão identificado com as causas cívicas e com muitos talentos. a Bahia e Minas Gerais onde nasceu. o prosador. Na Bahia. A viagem pelo mundo de Ary Barroso. E foi isso que ele fez. contribuindo. a história de uma paixão. Trata-se de um livroexaltação. cidades e países distantes que o fascinam. O autor reconhece o lugar em que nasceu e viveu sua infância. rememora o passado para que. jornalista e professor tem feito durante toda a sua vida. As comemorações do Carnaval. sua cultura. assim. muitas vezes. revela mais um indício de sua preocupação em relatar a história de sua gente. Olinto não foi um maquinista de trem. para ser ministro de Xangô.319 E isso realmente. Viajou o mundo todo. juntamente com Jorge Amado. mas sempre Discursos e Identidade Cultural . Olinto fez em Cinema de Ubá e também em suas obras que retratam os brasileiros na África. através da tradição da família de sua mãe e das histórias que ela contava. com histórias que revelam a personalidade de Ary. por que não. O ideal seria fazer com que vida e obra entrem num acordo e possam viver bem juntas.

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