II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 16, 17 e 18 de Novembro de 2009

ISSN 1984-9265

AGENDA BRASILEIRA PARA UMA ARQUITETURA SUL-AMERICANA DE DEFESA SOB UMA PERSPECTIVA MILITAR

MEDEIROS FILHO, Oscar Doutorando em Ciência Política USP Apesar da ideia geopolítica de “projeção continental do Brasil” existir desde as primeiras décadas do século XX (Mário Travassos, 1935), só recentemente, nas últimas duas décadas observa-se um esforço brasileiro para levar adiante uma estratégia de sul- americanização de sua agenda externa. A criação de organizações regionais como o Tratado de Cooperação Amazônico, o Mercosul e mais recentemente a Unasul tem sido vista como parte desse processo. A partir dessa experiência cooperativa, especialmente com a mudança paradigmática na relação com a Argentina, temas de interesse militar (defesa e segurança) passou a compor a agenda de negociações em âmbito regional. Apesar de, ao longo dos primeiros movimentos nesse sentido, os acordos ligados a questões de natureza econômica terem recebido maior destaque, é inegável o desenvolvimento paralelo de um processo cooperativo regional com base numa “diplomacia militar”, tema da primeira seção deste texto. O presente ensaio visa analisar as percepções de militares brasileiros sobre o processo de construção de uma arquitetura regional de defesa e segurança. Interessa-nos compreender como esse processo de sul-americanização tem sido percebido por esses militares que, até recentemente, haviam sido doutrinados com base na ameaça oriunda de “forças antagônicas do sul” (Golbery do Couto e Silva, 1981), onde vizinhos, especialmente a Argentina, constavam em nossas hipóteses de guerra. Serão analisados textos produzidos por militares brasileiros no período compreendido entre o fim da Guerra Fria e a consolidação do Conselho de Defesa Sul-americano (CDS), em dezembro de 2008. Dentre esse textos, merecem destaque: artigos publicados em revistas especializadas, como Defesa Nacional e Premissas; teses de oficiais concluintes da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME); além de palestras e textos publicados por centros de estudos

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estratégicos da ECEME e do Estado-Maior do Exército. Como pano de fundo aos textos analisados, apresentaremos, na segunda parte deste trabalho, uma tipologia de agendas para a integração regional compostas por três modelos: a mercosulina, a brasileira e a bolivariana. Por fim, na quarta e última parte, serão discutidas as demandas que justificariam a institucionalização de políticas compartilhadas de defesa e segurança na região, tais como o combate ao narcotráfico e a defesa dos recursos naturais comuns, por exemplo. Dados preliminares nos mostram que diferentes finalidades são propostas para uma instituição dessa natureza, variando desde um efetivo militar regional para defesa coletiva até um simples espaço para interlocução de ideias entre ministérios de defesa. I. Cooperação regional: o papel da diplomacia militar Antes de discutirmos a dimensão político-militar do processo de integração regional na América do Sul, faz-se necessário breves comentários sobre o papel atuante dos militares como agentes de política externa. Na América do Sul, os militares têm desempenhado um papel político central, com elevado grau de autonomia institucional. Para Félix Martin (MARTIN, 2001: 75), os militares sul-americanos são “suficientemente poderosos para decidir unilateralmente se devem ou não perseguir objetivos políticos nacionais por meio do uso da força externa em nível intra- regional”1. Por mais paradoxal que possa parecer, a identidade militar constitui fator de aproximação entre vizinhos2. Os padrões compartilhados de caráter tornam o

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Para Felix Martin (MARTIN, 2001: 77), “A análise da história política da América do Sul nos últimos sessenta anos revela que a instituição militar foi capaz de tomar decisões e desenvolver ações políticas independentes, em particular a de declarar a guerra. Dois são os fatores que propiciaram ao setor militar tal grau de autonomia (...). Em primeiro lugar, a instabilidade política e as convulsões sociais fizeram com que a história política destes países seja muito fragmentária. (...) Em segundo lugar, as instituições governamentais em regime democráticos têm sido tradicionalmente frágeis e carentes de consenso geral acerca das regras apropriadas para processar os conflitos internos. Portanto, a debilidade institucional na América do Sul derivou em uma organização política não preparada para satisfazer as demandas políticas do momento. Com estes elementos, a instituição castrense se mostra como o único setor que possui suficiente força de organização institucional capaz de enfrentar a instabilidade social, econômica e política da época.” 2 O paradoxo proposto aqui deve-se ao traço realista que caracteriza a mentalidade militar e que pressupõe Estados nacionais em competição (HUNTIGTON, 1996: 81-83). Desse traço deriva uma visão conspirativa, segundo a qual todo vizinho, independente do padrão de amizade, pode
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nacional. Seu objetivo não é impor soluções aos exércitos americanos. apesar da criação dos ministérios de defesa. à “paz armada” – acordos tácitos entre as Forças Armadas da região (MARTIN. em forte medida. ainda serve de bússola aos militares da região na orientação das decisões estratégicas de seus países. 1994: 112). durante quase 50 anos” (CORREIA NETO. realizada no início da década de 1990 por um oficial da reservado do Exército Brasileiro: “Quanto à área militar.unesp. A “diplomacia militar” na região ganha mais relevância quando se considera o fato de que a “análise da história política da América do Sul nos últimos sessenta anos revela que a instituição militar foi capaz de tomar decisões e desenvolver ações políticas independentes” (MARTIN. A CEA é um organismo militar de caráter internacional. 2001: 77). com autorização dos governos dos seus respectivos países. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. de amigo em inimigo. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. o fato é que já perdura uma tradição de ótimo relacionamento. É mais uma decorrência. do controle civil sobre os militares e do esforço de adaptação destes às regras democráticas. por iniciativa dos EUA. seja a nível institucional e organizacional. influente e persistente. atuar como agentes da diplomacia (AMARAL. A amizade e camaradagem que tem envolvido nos encontros entre militares da região contribui muito para esse diálogo3. o fato é que as es truturas militares dos países da região dispõem de uma considerável transformar-se. Digo de mim que venho mantendo ótimo contato com os militares argentinos. com a finalidade declarada de constituir-se num fórum de debates para a troca de experiências entre os exércitos do continente. a qualquer momento. que aparenta ser surpreendente. Tal visão. 3 Considerando o histórico da relação entre os militares dos exércitos brasileiro e argentino. 2004: 31). 4 A Conferência dos Exércitos Americanos foi criada em 1960. envolvida principalmente na competição política pelo controle do governo em seus respectivos Estados” (Idem: 89). selecionada mediante manifestação voluntária dos países que a integram (AMARAL. seja mesmo em caráter pessoal e familiar. A CEA dispõe de uma base doutrinária e sua sede é itinerante.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. o canal multilateral por excelência onde essa diplomacia era praticada se dava por meio da Conferência dos Exércitos Americanos (CEA)4. permitindo-os. Atualmente. um ano após a Revolução Cubana. UNICAMP e PUC/SP) 16. “as forças armadas começaram a perceberem-se umas às outras como membros de uma liga informal supra.br/santiagodantassp 3 . Sou testemunha e integrante desse quadro. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 diálogo entre os segmentos militares mais direto e objetivo. Na ocasião. 2001). em que pese o ativo condicionamento profissional. O grau de repercussão dessa “diplomacia militar” parece ser tão alto a ponto de se cogitar que a ausência de guerras na América do Sul se deve. No contexto da Guerra Fria. por exemplo. 2004: 14-15). torna-se interessante a declaração a seguir. Não é um paradoxo. mas apresentar propostas de pontos considerados de interesse comum. em boa medida. por vezes. integrado e dirigido por exércitos do continente americano.

e 3ª) Sistemadesegurançahemisférica: respostas cooperativas e multilaterais a ameaças à segurança transnacional (“novas ameaças”). a especialização funcional desenvolve entre os militares habilidades e conhecimentos específicos. Uma das explicações para a relativa autonomia militar é o desinteresse que o tema defesa provoca entre classe política. II. parece ser uma realidade entre os países sul-americanos: “Esses instrumentos são utilizados de modo contínuo e duradouro há muito tempo e traduzem-se pelas iniciativas. de uma arquitetura hemisférica de defesa e segurança. o desenvolvimento de mecanismos de confiança mútua tornam-se cada vez mais importante. para estreitarem laços e promover intercâmbios regulares e efetivas medidas de cooperação” (Idem: 5). liderada pelos Estados Unidos. 2006: 18). ao longo do Século XX. a eficácia desses mecanismos passou a ser questionada.unesp. Podemos dividir esse movimento em 3 fases: 1ª) Sistemadedefesahemisférico: aliança contra uma ameaça externa ao continente. Demandas e agendas para a integração regional: tipologias Os arranjos multilaterais de defesa e segurança predominantes na segunda metade do Século XX entre os países sul-americanos possuíam caráter eminentemente panamerican67 (hemisférico). Há um conjunto de explicações para isso. Com o fim da ordem bipolar. solidário e receptivo.br/santiagodantassp 5 4 . Ações da “diplomacia militar” como instrumento para reduzir a possibilidade de conflitos no entorno estratégico. 2008: 5). 2ª) Doutrinadesegurançanacional: cooperação visando neutralizar as influências do perigo comunista. Nesse sentindo. 6 Denominamos aqui de panamericanismo o movimento de tentativa de construção. Parece haver entre os militares da região uma percepção compartilhada de que a possibilidade de conflitos na América do Sul provocada por ações militares é remota ou quase inexistente. pelos próprios militares. UNICAMP e PUC/SP) 16. Além disso. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. Tal peculiaridade acaba por garantir a esses agentes posição de destaque em fóruns de discussão e elaboração de políticas de defesa. difíceis de serem compreendidos e compartilhados (MARQUES. 2008: 3). Nesse sentido.” (SOUZA. 2007: 24-5). sobretudo das FA brasileiras. que perdurou até o pós-Segunda Guerra. 2007). a elevada confiança adquirida no meio militar tem sido interpretada. como base para uma futura integração militar regional (RABELLO. A tendência é que essa fonte de conflito doravante seja mais e mais remota. o que acaba conferindo às agências de defesa considerável grau de autonomia consentida para a auto-definição de suas missões e estrutura. inclusive pelos reduzidos ganhos eleitorais gerados pelo tema na região (PION-BERLIN.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. TRINKUNAS. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 autonomia5 para a formulação de sua políticas setoriais (GAITÁN. “uma vez que o relacionamento entre militares brasileiros com os demais de todos os países do subcontinente é cada vez mais próximo.

17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 Na verdade. as percepções sobre defesa e segurança ganham diferentes conotações entre os países que compõem a OEA. A política de defesa dos direitos humanos e uma possível tentativa de rompimento do acordo nuclear Brasil. Tais acontecimentos impulsionaram o debate e promoveram uma rodada de negociações entre autoridades de defesa dos países da região. na Granja do Torto. cooperação e coordenação em matéria de Defesa. realizado em 19 de janeiro de 2006. Equador e Venezuela e a reativação da Quarto Frota norte-americana. 1979: 145). passavam a ser percebidos pelos militares como uma ameaça aos projetos estratégicos brasileiros. Hugo Chávez e Néstor Kirchner.unesp.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. em 16 de dezembro de 2008. a proposta parecia condenada ao “engavetamento”. Dois objetivos principais eram apresentados em seus discursos: a construção de uma identidade regional de defesa e criação de uma indústria bélica sul-americana. Nesse novo contexto. à medida que o Brasil procura se afastar da esfera geopolítica norte-americana. durante a Reunião Extraordinária de chefes de Estado da Unasul. UNICAMP e PUC/SP) 16. em outubro de 2007. como o recente Conselho de Defesa Sul-americano (CDS)8 rompe com essa longa tradição panamericana. O tema foi retomado. principal concorrente regional: a Argentina.se um movimento no sentido contrário – de aproximação – em relação ao seu.br/santiagodantassp 7 5 . No primeiro semestre de 2008 dois acontecimentos deram relevância à discussão do tema: o conflito envolvendo Colômbia.Brasil). a proposta de institucionalização de um arranjo propriamente subregional. até então. Finalmente. “O rompimento formal de aliança Brasil-Estados Unidos em março de 1977 convenceu ainda mais muitos oficiais brasileiros de que uma acomodação com a Argentina era desejável” (TAMBS. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. As pretensões “panamericanas” tornam-se ainda mais remotas com o fim da Guerra Fria. A “declaração de independência” em relação aos Estados Unidos ocorreu concomitantemente a uma acelerada ofensiva diplomáticas em direção à América do Sul. porém. tornando inviável o estabelecimento de estratégicas comuns em nível hemisférico. revestindo-se de um interessante ineditismo geopolítico na América do Sul. realizada em Costa do Sauípe (Bahia . quando o novo Ministro da Defesa Nelson Jobim encampou a idéia de que era necessário estabelecer “algo que se possa discutir como um plano latino-americano de defesa”. De fato. Passados alguns meses após os debates iniciais. O envolvimento ou não das Forças Armadas no enfrentamento das chamadas “novas ameaças” é apenas um dos exemplos das controvérsias existentes. o Conselho de Defesa Sul-americano foi criado como uma instância de consulta. 8 A proposta para a criação do Conselho de Defesa Sul-americano foi apresentada durante um encontro entre os presidente Lula. os primeiros sinais de uma reação ao panamericanismo são anteriores ao fim da Guerra Fria e corresponde às reações dos militares brasileiros em relação à postura do Governo de Carter7. percebe. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. em Brasília. Nesse sentido.Alemanha.

ELIAS. 10 de novembro de 2003. todos os demais países se manifestaram contrariamente à ideia de Chavez. 11 Na ocasião. Cf. nas primeiras décadas do Século XIX (KACOWICZ. p. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. principalmente. 6 de julio de 2006).americana até um “exército regional”10.unesp. populistas. não são claras e parecem obedecer a diferentes interesses e preferências. Jornal LA NACION. durante o IV Foro Iberoamérica. 18 de setembro de 2008. após a reunião de presidentes do Mercosul que aprovaram a entrada da Venezuela no Bloco. O Globo. por exemplo. PEREIRA. começaram a surgir diversas propostas de arranjos autóctones de defesa e segurança entre os países sul-americanos. Para a análise dos diferentes propósitos implicitamente relacionados às iniciativas que resultaram na criação do CDS. P. Sua retórica é notadamente antiamericanista. As propostas de uma agenda bolivariana variam de uma “integração militar”9 sul. (Cf. o então chefe da Casa Civil José Dirceu defendeu“a integração da América do Sul como prioridade da política externa brasileira”. Durante o processo de negociação para a implantação do CDS. P. União por um poderio bélico. Chávez propuso crear un ejército del Mercosur. adotaremos uma tipologia composta por três diferentes “agendas”: bolivariana.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. a) Agenda bolivariana Sob uma perspectiva bolivariana.br/santiagodantassp 9 6 . citanto inclusive a idéia de uma “integração militar”. Merval. UNICAMP e PUC/SP) 16. una estrategia propia para proteger la soberanía de sus países”. REZENDE. realizado em Campos de Jordão (SP). culminando com a formalização do CDS. 10 Em 4 de julho de 2006. (Cf. Atualmente. As finalidades desse arranjo. Jorge. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. 2005: 50-51). anti-americanas. em dezembro de 2008. porém. entretanto. a ideia de um arranjo sul-americano de defesa e segurança corresponde a uma solução necessária para fazer frente a ameaças externas à região. 3). nacionalistas e. a começar pelos Em novembro de 2003. Chávez e Uribe “adiam” acordo. uma das exigências do governo venezuelano era a de que os Estados Unidos fossem citados entre as possíveis ameaças externas à região11. Correio Brasiliense. Essa ideia já estava presente no pensamento de Simon Bolívar. tende a enfrentar fortes resistências na região. o presidente venezuelano Hugo Chavez declarou que o Mercosul “deberá tener algún día una organización de defensa conjunta. Tal agenda. mercusolina e brasileira. Sección Política. a perspectiva bolivariana possui caráter nitidamente ideológico – para o qual o “Socialismo do Século XXI” do presidente Hugo Chavez é a sua melhor expressão – e se caracteriza por mesclar tendências socialistas. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 Arquitetura regional de defesa e segurança na América do Sul: agendas e propósitos À medida que a agenda hegemônica foi cedendo lugar a novos acordos subregionais.

perante a Câmara dos Deputados. b) Agenda Mercosulina A agenda aqui proposta se refere a ideia de construção. o então ministro Geraldo Quintão defendeu. tanto em termos de ameaças como em relação ao papel das Forças Armadas em cada país. A proposta aqui defendida encontra respaldo na mudança de padrão de relacionamento entre as duas principais lideranças regionais (Brasil e Argentina) nas últimas décadas. a agenda mercosulina domina os debates em torno das finalidades do CDS. Neste caso. Uma outra evidência de que haveria uma agenda brasileira por trás do projeto do CDS seria a “coincidência” de datas entre a publicação do documento que originou o CDS e a apresentação da Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 próprios militares que tendem a enxergar na proposta bolivariana. pelo ministro José Viegas. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Aparentemente. Esse tema voltou a ser defendido no início do Governo Lula. o objetivo do CDS estaria relacionado à necessidade de estabilidade regional. as diferentes prioridades nacionais. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. a idéia de estratégia regional sul-americana. c) Agenda brasileira O fato do CDS ter tido como principal propagador o ministro brasileiro Nelson Jobim contribuiu para que se levantassem suspeitas sobre a possibilidade do conselho refletir um projeto estratégico brasileiro de liderança do subcontinente. em 199912. constituem sérios obstáculos ao avanço do projeto. de um organismo sul-americano como parte da ampliação da integração regional a partir do Mercosul. à manutenção dos regimes democráticos. esta entendida como pré-condição para a manutenção dos regimes democráticos na região.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. especialmente no caso sul-americano.br/santiagodantassp 12 7 . sob uma perspectiva liberal. A finalidade da integração regional sob essa perspectiva está geralmente relacionada à ampliação do comércio intra-regional e. a partir da ideia de integração das indústrias de defesa dos países sul-americanos. Os sinais do esforço brasileiro para liderar o processo de integração regional no campo da defesa e da segurança se tornam mais evidentes a partir da criação do Ministério da Defesa. uma espécie de reedição da “ameaça comunista” da Guerra Fria. Não obstante.unesp. Naquele ano. através da promoção do diálogo no nível da concepção de políticas de defesa. UNICAMP e PUC/SP) 16.

tinha por título “Integração Brasil-Argentina”. em um contexto marcado pelo fim da Guerra Fria e o início de um novo período unipolar. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 2008) que trata da reestruturação do sistema de Defesa do País. Brasil busca alinhamento militar na América do Sul. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. de autoria do Gen R1 Jonas de Morais Correia Neto. Sendo assim. Claudio Dantas. o autor discorre sobre uma percepção que lhe parece comum entre militares brasileiros e argentinos de que existe “uma acentuada convicção de que nossas nações precisam. Até então. Textos produzidos por militares brasileiros: (des)construindo identidades Inicialmente. merecem destaque dois artigos publicados pela revista A Defesa Nacional em 1994. em dezembro de 2008. em si mesma. segundo a qual o País tenderia a maximizar seus ganhos ampliando suas relações com a América do Sul. além de viver em paz. Paulo. O início das discussões entre os militares brasileiros sobre a restruturação das Forças Armadas envolvendo temas de segurança internacional em escala subcontinental ocorre a partir do início dos anos 1990. a proposta apenas refletiria a estratégia de “sul-americanização” do Brasil. Nesse sentido. palestras. os textos produzidos pelos militares brasileiros voltavam-se majoritariamente para a restruturação do papel constitucional das forças armadas. Percebe-se. O primeiro. ao longo do seu texto. Sob tal perspectiva. em união compatível. 22 de março de 2009. a tentativa de desconstrução do estoque de identidade negativa 13 SEQUEIRA. a construção de uma comunidade sul-amerciana para o Brasil poderia não ser um fim.unesp. serão analisados textos (artigos. Jornal Folha de S. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.br/santiagodantassp 8 . III. teses) produzidos por militares brasileiros entre o final da Guerra Fria e a assinatura do CDS. A integração regional na América do Sul sob a ótica militar brasileira Discorreremos agora a respeito das percepções de militares brasileiros sobre o processo de integração regional na América do Sul nos últimos anos. estável e vantajosa. Nele.” (CORREIA NETO.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. o CDS poderia ser entendido como uma espécie de plataforma para a exportação dos planos militares do Brasil13. UNICAMP e PUC/SP) 16. 1994: 110). mais um meio para o sua projeção. ser e conservar-se boas amigas e sólidas parceiras. Para isso.

unesp. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. sugere: o “establecimiento de foros permanentes y/o periódicos para análisis y evaluación 14 Na realidade. ainda em 1994 e também de autoria do Gen Gleuber Vieira. justamente porque faz parte do dia-a-dia de sua política externa o desenvolvimento de relações de harmonia e de cooperação com dez vizinhos imediatos” (Idem: 11). “un sistema colectivo de seguridad” pode ser pensado a partir de “un núcleo militar que se asocie a un centro de prevención de conflictos que podrá establecerse en el futuro en conformidad a la voluntad política de los países interesados” (VIEIRA.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. Neste. UNICAMP e PUC/SP) 16. De acordo com o autor. com a condição de ser entendida como o intercâmbio cultural profissional. na maioria absolutamente mentirosas” (Idem: 111). realizado em Buenos Aires. Dentre essas iniciativas. Se ampliada. esse artigo reproduz uma palestra apresentada pelo Gen Gleuber durante o Seminário "Hacia las fuerzas armadas del año 2000". 1994: 10). como a procura e o aproveitamento de atividades e missões que se possam executar conjuntamente. o autor parece otimista: “Ela é bastante viável. também. foi La variable estratégica en el proceso de constitución del Mercosur. Um outro texto marcante. 1994b: 18-9). sobretudo entre os Exércitos Brasileiro e Argentino. Diante de tal possibilidade. Nesse sentido. Vieira aponta algumas iniciativas possíveis. de autoria do General Gleuber Vieira. publicado pela Revista Fuerzas Armadas y Sociedad14.br/santiagodantassp 9 . ficam parecendo reais. inclusive em situações aproximadas de certo grau de realismo bélico (Idem: 112-3). aparece pela primeira vez entre os militares brasileiros a proposta de uma arquitetura regional de defesa. Sobre a possibilidade de uma possível “integração” militar. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 até então mutuamente compartilhado: “As relações brasílio-argentinas são pontilhadas de imagens falseadas. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Nele. na ocasião o 2º Subchefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro. o Brasil possuiria nítida consciência de identidade sul. tanto técnico como operacional. o autor sugere uma nova proposta de segurança hemisférica com base em associações sub-regionais – nações vizinhas que dividem o mesmo espaço geopolítico (VIEIRA. O segundo texto é Perspectivas para um futuro sistema de segurança hemisférica. em agosto de 1993. De tanto repetidas. poderá ser entendida.americana: “Considero o Brasil especialmente vocacionado para inserir-se em organismos sub-regionais de segurança. embora sejam.

em dezembro de 1986. de um lado. a integração regional passava a ser visto como um instrumento de dissuasão: “ela fortalece a capacidade dissuasória de cada um e do conjunto” (VIDIGAL.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. por mais difícil que sejam os primeiros passos” (Idem: Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP.americano do pós-Guerra Fria: a aproximação estratégica entre os até então rivais (Brasil e Argentina). 1996: 1114). isto é. Em um contexto notadamente marcado pela ideia de globalização. sem a interveniência da nação hegemônica. Vidigal sugere que os “países da América do Sul devem procurar um estreitamento da cooperação no setor militar. que deseja privá-los da sua autonomia. a exclusão dos Estados Unidos da composição de novos órgãos regionais deve ser entendido como estrategicamente necessário à ampliação da autonomia brasileira no sistema internacional: “Num mundo globalizado e marcado por crescente interdependência. de autoria do Almirante Armando Amorim Ferreira Vidigal. então Diretor da Escola de Guerra Naval. restava aos países periféricos lutar por espaços de autonomia estratégica. Os textos seminais apontam para dois aspectos centrais no contexto geopolítico sul. 1982: 125). e a reação às pretensões hegemônicas dos EUA em mundo aparentemente unipolar. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 conjunta de amenazas y concepciones estratégicas. a presença constante de ator hegemônico impondo limites à liberdade de ação aos demais pode ser interpretada como ameaça à implementação de estratégias de inserção internacional” (NASCIMETO. publicado pelo Caderno Permissas. e intercambio de informaciones dinámicas” (Idem: 18). Nesse sentido. Para o autor. Defensor da intesificação da cooperação na área política. merece destaque o artigo Integração sulamericana: segurança regional e defesa nacional. Nele. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. constituia um marco político-estratégico. Tal cenário encontra respaldo na perspectiva realista segundo a qual “os Estados soberanos consideram seu inimigo o pretendente à hegemonia. naquele contexto os princípios de auto-determinação e nãointervenção estavam sendo postos de lado pelas grandes potências e passavam a ser a maior ameaça militar aos países subdesenvolvidos.unesp. Nesse sentido. o autor sugere uma espécie de pacto pela autonomia regional ante o panamericanismo hegemônico. em 1996. a criação do Grupo do Rio.br/santiagodantassp 10 . 2008: 4) Considerando tais aspectos. UNICAMP e PUC/SP) 16. Para o Almirante Vidigal. da sua faculdade de decidir livremente” (ARON. pois pela primeira vez países latino-americanos haviam se reunido para dar solução aos seus problemas.

uma condenação ao eterno subdesenvolvimento num processo monitorado pelos 'ricos'. Em Palestra proferida no IV Encuentro Nacional de Estudios Estratégicos. os militares são chamados a “se tornarem os apóstolos da causa da integração regional. a integração equivale a dissuasão. por exemplo. indica a necessidade de montar um Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. o autor ressalta que falta à América do Sul “somente a conscientização da existência de um perigo que ameace todos seus povos. Para ele. levadas a cabo sob os mais variados pretextos (direitos humanos. a “generalização das intervenções militares. UNICAMP e PUC/SP) 16. embora. A ideia de defesa coletiva do subcontinente contra uma suposta cobiça internacional continuou presente em textos militares sobre a integração regional nos anos seguintes. 1998: 40). vencendo finalmente a fixação da guerra contra os vizinhos” (Idem: 134-5). Para ele.unesp. A partir do ano de 1997 a temática “integração regional” passa a despertar o interesse entre os oficiais alunos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). em 2001. O trabalho pioneiro sobre o tema coube. mantendo a soberania e independência de emprego da força” (DOVAL. Buenos Aires.globalização da época. as Forças Armadas dos países da região não seriam obstáculo à integração regional (FACIOLI. Coronel (R1) Raymundo Guarino Monteiro. Doval conclui ser “preciso avançar no caminho da integração militar em termos de segurança. o autor considera que “a integração pode diminuir a extrema vulnerabilidade a que cada país está sujeito quando atuando isoladamente num cenário onde há uma superpotência hegemônica” (Idem: 44).br/santiagodantassp 11 . sugestivamente.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. abordou a possibilidade de capacidade dissuasória um sistema coletivo sul-americano contra possíveis intromissões. Nessa empreitada. aluno do Curso de Política. etc) pelos EUA e seus aliados contra nações da periferia. o então Coronel de Artilharia José Mário Facioli. ou o questionamento da soberania sobre parte de seus territórios” (Idem: 43). a um aluno argentino: o Major de Infantaria Eduardo Luis Doval. Em Reflexos nos processos de integração regional (Mercosul) no âmbito militar. Notadamente marcado pelo discurso anti. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 128-9). 1997). UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Nesse sentido. Destacando as riquezas naturais e o peso geopolítico da América do Sul integrada no contexto internacional. onde são abordadas as perspectivas militares dessa integração. No ano seguinte. Estratégia e Alta Administração do Exército (desenvolvido na ECEME) defendeu a tese “A integração sul-americana”. narcotráfico. como pode ser.

para que os países sul-americanos possam prover com plena soberania nacional e dignidade para os seus povos a sua inserção no mundo do século XXI. a Revista da ESG publicou o artigo A integração sul-americana. UNICAMP e PUC/SP) 16. Além disso. Para o autor. 2002: 40). Nesse sentido. Nela o autor alerta sobre uma “perigosa e danosa cobiça estrangeira”. dentre outros (SILVA. de autoria do Cel Paulo Roberto Costa e Silva. o autor questiona os fins. para o Coronel Abreu. “internacionalização” de áreas estratégicas. 2001: 3). UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. A percepção dos EUA como uma ameaça parece marcante nos primeiros anos do novo século.br/santiagodantassp 12 .II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP.” (Idem: 210). a estratégia das grandes potências seria “transformar as Forças Armadas destas nações em gendarmerías ou forças policiais. “ainda não declarados”. levando a uma crescente integração estratégica dos países sul-americanos (Idem). tais como “soberania limitada”. “direito de ingerência”.300 militares norte-americanos teriam realizado operações no continente entre 2001 e 2002). 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 Sistema Coletivo de Segurança na América do Sul para dissuadir tais intromissões na Região” (MONTEIRO. Mapeando a presença militar dos Estados Unidos na América do Sul (pelo menos 6.unesp. particularmente na área amazônica (ABREU. “os EUA diminuem a capacidade brasileira de assumir a natural liderança a si destinada na América do Sul e impedem que nosso País exerça projeção do Poder Nacional sobre seus vizinhos do subcontinente” (Idem: 37) Recusa a uma força militar supranacional permanente À medida que o tema vai sendo discutido. Para ele. Em 2002. pois incentivariam a busca de soluções conjuntas. seriam motivos de aproximação. o Cel José Alberto da Costa Abreu defendeu a tese A presença militar dos Estados Unidos na América do Sul. ao mesmo tempo em que procurariam impor novos conceitos e doutrinas que atendessem a seus interesses. exércitos “transnacionais”. como a cobiça estrangeira pela Amazônia e o combate aos crimes transnacionais. do que para ele representava um verdadeiro “cinturão” de forças norte-americanas em torno das fronteiras brasileiras. os problemas comuns. começa a ficar claro que uma concepção de força supranacional permanente não atenderia aos interesses Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. Em 2002. a integração sul-americana “deve ser encarada como um urgente imperativo geopolítico. 2002: 187).

não havia inimigos comuns e custos financeiros considerados altos. Esta solução seria bastante semelhante à implementada na EUROFOR” (BRAGA. não haveria ganhos em termos de potencial. do ponto de vista estratégico. particularmente dos países sul-americanos. seriam periodicamente classificadas como “forças disponíveis” para emprego na ForDefCS. de defesa do meio ambiente. como no caso de uma intervenção internacional a um dos países da região15. Dados colhidos em entrevista realizada ao Gen Brig Cláudio Coscia Moura. e que pudesse participar de missões de paz (Idem). “As tropas. em contextos não desejáveis. Em um artigo publicado em 2000 pelo caderno O Anfíbio. Apesar de buscar uma maior aproximação com outros exércitos. havia no início da década uma percepção política de que.br/santiagodantassp 15 13 . poderia haver o risco de se ter que empregar essa força. o Exército Brasileiro considera inadequadas as propostas de organização de força de segurança supranacional (Idem: 5). Na ocasião o Exército Brasileiro se posicionou contrário a tais propostas. Nesse sentido.de-Corveta Carlos Chagas Vianna Braga. com as missões de combate ao crime organizado. autor da tese “Integração Militar Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. 2003: 4). 2000). 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 estratégicos do Brasil (SILVEIRA. catástrofes e missões de paz não constituiria justificativa. Além do mais. por pressão de países desenvolvidos. Questionava-se também a operacionalidade de um instrumento como esse – como e onde ele seria empregado? A atuação em questões de defesa civil. essa decisão estratégica dos militares brasileiros possui forte relação com a pressão dos EUA para a transformação das Forças Armadas latino-americanas em “guarda hemisférica”. Dentre os militares brasileiros. o texto mais otimista e ambicioso sobre as possibilidades de integração militar na região foi escrito pelo Capitão. o ideal para o bloco seria seguir o modelo europeu (união militar: Eurofor e Força Franco-Alemã). em especial ao narcotráfico. por meio do entendimento e da cooperação em áreas de interesse comum no campo militar. No caso específico do Mercosul. UNICAMP e PUC/SP) 16. Braga considera a possibilidade de criação de uma Força de Defesa do Cone Sul (ForDefCS). Para ele. oriundas das Forças Armadas dos países membros. intitulado “Integração militar no Cone Sul: uma conseqüência natural do Mercosul”. por vários motivos: interesses nacionais divergentes.unesp. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Em boa medida. pois tais empregos já vinha sendo realizados com sucesso através de acordos bilaterais.

2004 Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. 2007). plenas condições para a criação de uma força multinacional permanente na região (RABELLO. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 Um balanço parcial (2004-2006) Alguns textos produzidos em meados da década nos fornecem alguns elementos para um breve balanço parcial sobre o processo de integração regional sob a perspectiva militar. O segundo evento. consolidava-se entre as linhas mestras do Exército Brasileiro a recusa por propostas de organização de força militar supranacional permanente e a preferência por acordos bilaterais (AMARAL.br/santiagodantassp 14 . O primeiro deles. ocorrem dois eventos conduzidos pelo Governo Lula e diretamente relacionados ao tema que certamente tiveram repercussão na percepção dos militares brasileiros sobre o processo de integração militar da América do Sul. ocorrido em 2004. Governo Lula e a ideia de um Sistema Coletivo de Defesa Em meados da década. corresponde ao surgimento da ideia de criação de um conselho de defesa sul-americano. Núcleo de Assuntos Estratégicos. 2004). torna-se recorrente a ideia da integração militar como mecanismo de consolidação da liderança brasileira na América do Sul e de fortalecimento das pretensões brasileiras de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (ECEME. o estabelecimento desse sistema não deveria ocorrer. durante 16 Projeto Brasil 3 Tempos 50 Temas Estratégicos.unesp. em 2005. 2006: 15-6).II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. ocorrido em janeiro de 2006. a idéia predominante era a de que o aprofundamento das relações de confiança entre suas Forças Armadas vinha servindo para afastar a possibilidade de confrontação militar entre os países do Mercosul. No ano seguinte. dentre as quais a possibilidade de estabelecimento do sistema coletivo de defesa no Mercosul. De acordo com o documento. Ao mesmo tempo. Àquela altura. onde são analisadas possíveis ocorrências no ano de 2022. UNICAMP e PUC/SP) 16. Como elemento explicativo é citado a latente instabilidade política e social em alguns países da região” (CORTÊS. um grupo de oficiais do Estado-Maior do Exército elabora os “Cenários Exército Brasileiro de 2022” (Cenários EB/2022). se refere a inclusão de um “Sistema Coletivo de Defesa” entre os temas considerados estratégicos para o futuro do Brasil pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (NAE)16. Presidência da República. mas não conferia ainda. 2004). De forma geral. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.

não deve nos separar. realizado em Brasília. alguns textos voltam a destacar a importância geopolítica do processo de integração regional como instrumento de realização dos interesses estratégicos brasileiros. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. pois a selva nos une e a Amazônia nos pertence!” (OKAMURA. escreveu um artigo com o título instigante: Sistema Coletivo de Defesa do MERCOSUL: a quem interessa? Para o autor. uma visão comum sobre prováveis ameaças ou inimigos.br/santiagodantassp 15 . alguns governantes sul-americanos. em 2007. uma vez que “a adoção desse tipo de 'mecanismo' no momento não atende aos interesses brasileiros” (BENVINDO. Com o título de Organização do Tratado de Cooperação Amazônica: Integrar é preciso!. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 um encontro entre os presidente Lula. Os autores concluem o artigo utilizandose de uma expressão até então usada exclusivamente em relação à Amazônia brasileira: “O imenso manto verde da floresta amazônica. Em texto seguinte. Hugo Chávez e Néstor Kirchner. a partir da integração regional como forma de diminuir a possibilidade de intervenção internacional nos países que a integram. mas sim nos aproximar. 2007: 2). para o autor. UNICAMP e PUC/SP) 16. defende-se a criação de uma “consciência panamazônica”. teriam proposto recentemente a criação de um tipo de arranjo (aliança militar) voltado para a defesa do subcontinente. O papel catalizador do Brasil Nos anos que antecedem a consolidação do CDS. et alli. que recobre parte dos nossos territórios. os autores ressaltam que o caminho da segurança da Amazônia passa pela integração regional com base na OTCA. não existiria. membro do Centro de Estudos Estratégicos do Exército. no caso específico da América do Sul.unesp. valendo-se do apelo nacionalista. “cabendo ao Brasil a responsabilidade de manter a mesma iniciativa e liderança que outrora conduziu Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. Contra tais ameaças. Diante desse quadro. para que juntos desenvolvamos esta extraordinária região. premissa necessária a implantação de sistema coletivo de defesa. Entretanto. deve-se buscar o fortalecimento dos dispositivos já existentes. 2007). merece destaque. Em 2007 o Cel Walter Ribeiro Benvindo. Um artigo escrito por alguns oficiais da ECEME. o artigo chama a atenção para a “grande cobiça da comunidade internacional” e para o conceito de “soberania limitada” como uma ameaça para a porção amazônica da América do Sul.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP.

o que justificaria a persistência de uma dissuasão de Em outubro de 2007. O primeiro. em 2008. “O Brasil considera que tem a responsabilidade de participar como elemento catalisador na América do Sul. a ideia de integração militar da América do Sul fosse diretamente relacionada a postura de liderança regional do Brasil. Jobim iniciou uma campanha pelo estabelecimento de um conselho regional de defesa. 2008: 18). proporcionando a asserção de posições concertadas e evitando divergências entre os próprios representantes dos países da América do Sul naqueles foros (BARBOSA. O autor reconhece a existência de disputas estratégicas e de desconfianças mútuas “que ainda teimam em persistir” entre os vizinhos. Para tal. do Estado-Maior do Exército. buscando criar o ambiente de cooperação e integração necessários à estabilidade. numa espécie de “estratégia da autonomia pela diversificação” (NASCIMETO. (2) Análise conjunta de aspectos da situação internacional e possibilidades de ação coordenada no enfrentamento de riscos e ameaças à segurança dos Estados. da transparência e da segurança na América do Sul. Para Barbosa. a partir do final de 2007. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. como. convivendo harmonicamente com os seus vizinhos” (Idem: 6). à paz e à segurança de todos. traça uma relação entre a criação de um Conselho Sul-americano de Defesa e o caráter mais ofensivo adotado atualmente pela política externa brasileira. em uma missão que ele mesmo intitulou de "diplomacia militar". por exemplo. UNICAMP e PUC/SP) 16. analisaremos agora dois interessantes trabalhos escritos em 2008. detalhou a proposta brasileira para o denominado Conselho Sul-Americano de Defesa. ano da consolidação do CDS.br/santiagodantassp 17 16 . O futuro do CDS Encerrando a análise dos textos militares. que segundo ele não se tratava de qualquer “arranjo militar de caráter permanente” 18. logo após assumir o cargo de Ministro de Defesa. OKAMURA. nos últimos anos. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. 18 Na ocasião. de autoria do Cel Paulo Roberto Laraburu Nascimento. e (3) Articulação e coordenação de posições em foros multilaterais sobre segurança e defesa. 2008: 2-3). percorreu a partir do início de 2008 todos os países vizinhos. a proposta brasileira defendia os seguintes pontos: (1) Articulação de medidas de fomento da confiança. contribuiu para que. Diretor do Departamento de Política e Estratégia da Secretaria de Política. Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa. 2008: 3).unesp. Em Palestra proferida na Escola de Guerra Naval. A campanha pessoal do Ministro da Defesa Nelson Jobim17 pelo estabelecimento de um organismo regional de defesa. onde fóruns multilaterais são estrategicamente utilizados como espaços de minimização das assimetrias de poder no sistema internacional. na recente crise entre a Colômbia e o Equador. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 os países amazônicos à assinatura do TCA” (ARAUJO. o Vice-Almirante Arnon Lima Barbosa.

O autor conclui com a ideia de que “Buscar la unidad entre los Estados de la región. O segundo texto. 2008: 22). o autor considera a possibilidade de os membros do Conselho chegarem a tal ponto de entrosamento e de confiança mútua “que a possibilidade de confronto militar entre Estados sulamericanos estará afastada dos planejamentos estratégicos de defesa”.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. Dentre os principais óbices ao conselho. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. a principal dificuldade enfrentada pela região para afirmar sua identidade sul-americana se relaciona com sua condição geopolítica de subordinação à esfera de influência norte-americana (SAMPAIO. 2008: 21). 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 alcance regional voltada para oponente de poder militar igual ou inferior (Idem: 5). à necessidade por uma dissuasão de amplitude extra-regional” (Idem: 7). uma tese de conclusão de curso de Estado-Maior na Academia de Guerra do Exército do Chile defendida pelo TC Cristiano Pinto Sampaio. más que un sueño bolivariano. Para o autor. como uma cadeira de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Por outro lado. a proposta de criação do CDS é coerente com a percepção brasileira a respeito das múltiplas formas de vulnerabilidade que lhe afetam. como por exemplo o tema da Amazônia. porém. a posibilidade de que a proposta seja entendida pelos demais membros como instrumento de projeção global do Brasil. UNICAMP e PUC/SP) 16.unesp. o autor sugere: as diferentes visões de Brasil e Venezuela em matéria de segurança e defesa. O principal reflexo advindo de tal cenário seria a mudança na maneira pela qual a dissuasão passaria a ser considerada nas concepções estratégicas de emprego: “Se no presente a dissuasão olha com maior propriedade para o entorno regional. Em um cenário hipotético de plena integração política da América do Sul.br/santiagodantassp 17 . Analisando. a “importância dada à dissuasão de âmbito estritamente regional cederá lugar. a natureza dos conflitos (internos e externos) que envolvem os Estados sul-americanos não sugerem emprego de FFAA (SAMPAIO. 2008: 199). e as várias necessidades que possui de longo prazo.apresenta duas constatações que parecem centrais para a sua defesa do CDS.regionais”. a imagem futura impõe que se comece a pensá-la em termos extra. portanto. De um lado. paulatinamente. representa una necesidad en el nuevo concierto mundial” (SAMPAIO. um hipotético cenário de sucesso do CDS. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. e uma possível resistência norte-americana ao projeto.

Jornal Folha de S. os recentes acordos de vigilância compartilhada de zonas fronteiriças. Entre os países do subcontinente sul-americanos não há. envolvendo Brasil. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 IV. Entre os militares brasileiro parece predominar a ideia de que. D. 20 SEQUEIRA . podem ensejar a ocorrência de crises e eventualmente conflitos entre países vizinhos do subcontinente (SOUZA. entre alguns países da região. C. Brasil-Colômia: espaço aéreo é compartilhado. Paulo. D. Finalidades do CDS: perspectivas Da análise dos textos apresentados podemos extrair evidências de algumas ideias subjacentes às percepções militares sobre as finalidades da criação de uma arquitetura sul. Colômbia e Peru19. entretanto. 22 de março de 2009. Paulo. Jornal Correio Brasiliense. podem ser considerados geopoliticamente paradigmáticos. a América do Sul tem sido marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que se destaca pela ausência de guerras formais. Na Argentina. Para fins de análise. 2004: 33).americana de defesa. o que descartaria essa demanda como VAZ.br/santiagodantassp 19 18 . construção de uma identidade política sul-americana e consolidação da liderança regional do Brasil.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. a) Combate ao crime organizado e à violência social Do ponto de vista de Segurança Internacional. 12 de março de 2009 e SEQUEIRA. consenso sobre o envolvimento dos militares em ações de segurança. por meio de radares e satélites. Analistas enxergam resistências para adoção de doutrina comum na região. dividiremos essas ideias em três diferentes demandas: combate à violência social. UNICAMP e PUC/SP) 16. De fato. 22 de março de 2009. apesar da improbabilidade de guerra na região. a possibilidade de que as Forças Armadas participem na luta contra as drogas é algo totalmente rejeitado20. Jornal Folha de S. V. 2008: 4). a região possui um dos mais altos graus de violência social no mundo.unesp. as ameaças advindas de diferentes formas de violência social. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. por exemplo. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. C. percebe-se uma priorização de temas de segurança (como crime organizado e delitos transnacionais) concomitante a um certo afrouxamento em relação a temas tradicionais. Nesse sentido. Entre os militares brasileiros a posição predominante é de recusa às proposta para o emprego do Exército no combate ao narcotráfico (AMARAL. Peru integrará seus radares aos do Sivam. como o controle de fronteiras. favorecidas em muitos casos por vazios populacionais e por omissões dos Estados.

Para esses militares. citado anteriormente. GUIMARÃES. o CDS seria um instrumento de afirmação política e de soberania da região: “Durante muitos anos. M. 18 de novembro de 2008. a partir do consumo de Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. Nelson Jobim. Trata-se da ameaça da cobiça internacional sobre os recursos minerais encontrados na região22. segundo o qual a noção tradicional de soberania seria incompatível com a atual interdependência internacional. em virtude do traço nacionalista que marca a mentalidade militar (HUNTINGTON. OESP. é permeado por um forte debate sobre a construção de um bloco regional em busca de autonomia política. a consolidação de um espaço regional de defesa representa um potencial para alavancar a indústria bélica . 23 Do ponto de vista mais pragmático. 1996). durante o seminário “Rumo ao Conselho de Defesa Sul-americano”.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. Um dos traços compartilhados pelos países da região diz respeito a “defesa soberana dos recursosnaturais de nossas nações”.br/santiagodantassp 21 19 . Sob essa perspectiva.unesp. Este estaria relacionado a uma outra percepção compartilhada. especialmente entre os militares sul-americanos. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. a América do Sul só disse sim. UNICAMP e PUC/SP) 16. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 responsável pela finalidade do CDS sob uma perspectiva militar brasileira. 22 Vale destacar que a América do Sul possui uma geografia privilegiada: detém a maior biodiversidade e cerca de um quarto das terras potencialmente aráveis do Planeta. Nesse sentido.sobretudo a brasileira -. em novembro de 2008:Cf. “construir uma identidade sul-americana em matéria de defesa” é um dos objetivos gerais apresentados no documento que cria o CDS. Jobim defende soberania da América do Sul sobre defesa. c) Consolidação da liderança regional do Brasil Como não poderia deixar de ser. b) Construção de uma identidade política sul-americana O ineditismo geopolítico que tem caracterizado a formação do CDS. De fato. o processo de sul-americanização poderia ser entendido como “uma alavanca23 importante para Palavras do Ministro de Defesa do Brasil. realizado em Buenos Aires. Tais princípios e percepções compartilhadas constituiriam demandas para a construção de uma identidade política regional da qual o CDS seria instrumento de segurança coletiva. Agora é hora de dizer não também”21. além de quantidades consideráveis de reservas de água doce e petróleo. a finalidade do CDS na perspectiva dos militares brasileiros está diretamente relacionada a projeção internacional do Brasil e a consolidação do País como líder regional. um dos mecanismos usados em favor dos interesses geoestratégicos dos países mais desenvolvidos seria a defesa do conceito de “soberania relativa”.

tais como a “marcha rumo ao Oeste” têm sido interpretados por países vizinhos como sinais de ameaça. A dimensão estratégica do processo de integração regional teria origem na necessidade de se estabelecer um espaço de autonomia relativa em um mundo globalizado e envolveria. 2. esse é um dos objetivos específicos do Conselho de Defesa Sul-americano é “Promover o intercâmbio e a cooperação no âmbito da indústria de defesa” (Cf.br/santiagodantassp 20 . Porém. 2001: 2). as elites desses países continuam muito sensíveis a discursos e imagens do passado sobre as intenções expansionistas do Brasil (VILLA. De fato.II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. iniciada nas últimas décadas do Século XX. parecem corroborar as observações acima. 2006) e criticam o caráter ambíguo da postura brasileira. na qual “a segurança coletiva é uma complementação da segurança nacional. Diante desse desafio. Mesmo com o processo de “sul-americanização” da política externa brasileira. consequentemente. alguns traços da geopolítica brasileira. Equador e Paraguai). o afastamento da esfera geopolítica dos EUA. a possibilidade de que a proposta seja entendida pelos demais membros como instrumento de projeção global do Brasil pode se tornar um óbice ao próprio CDS. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. De fato. A pretensão brasileira parece justa e esperada.unesp. desde a publicação de “Projeção Continental do Brasil”. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. podemos destacar os seguintes tópicos principais: 1. marcados por discursos que sugerem uma espécie de “imperialismo brasileiro”. de forma a não “inspirar receios em seus vizinhos e nem justificar corridas armamentistas” (AMARAL. de Mário Travassos. Considerações finais Da análise dos textos de militares brasileiros a respeito do processo de integração militar na América do Sul. 2004: 32). “para não induzir suspeitas regionais ou internacionais”. caberia ao Brasil dimensionar uma capacidade militar desejável e sóbria. ao mesmo tempo. Letra “f” do Artigo 5 da Decisão para o Estabelecimento do Conselho de Defesa Sul-americano da UNASUL). como já foi observado em textos precedentes. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 realizar o seu projeto de desenvolvimento nacional” (MONTEIRO. O início de qualquer projeto dessa natureza parece apontar necessariamente materiais e serviços em escala regional. Acontecimentos recentes envolvendo o Brasil e países da região (Bolívia. UNICAMP e PUC/SP) 16. a cujo serviço deverá estar” (Idem:4).

o então Comandante do Exército Gen Albuquerque respondeu ser esse tema “bastante sensível e o processo deve avançar em ritmo compatível com a cooperação nas demais áreas”24 Tais posturas refletem o caráter cauteloso com que oficialmente o Exército tem buscado dar a questão da integração militar na América do Sul. Especificamente sobre o terceiro tópico. faz-se necessário mais alguns breves comentários.. Apesar de alguns textos mais ambiciosos. quando perguntado se as forças armadas da América do Sul estariam caminhando rumo a uma cooperação crescente em operações reais. franqueza. o EB deve cultivar junto às FA dos países da região o ambiente de confiança mútua. UNICAMP e PUC/SP) 16. p. 177.br/santiagodantassp 21 . A percepção de que a integração constitui um importante instrumento de projeção internacional para o Brasil. O texto a seguir resume parte do desafios dos militares brasileiros: (. Em 1994. o General Gleuber Vieira exigia prudência. oficialmente as Forças Armadas brasileiras mostram-se resistentes a arquiteturas regionais de defesa e segurança permanentes. com aproximação cada vez maior em intercâmbios..II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP. de maneira que o “curso natural do processo” não fosse atropelado. que segundo estudiosos oscilaria entre seu projeto 24 Cf. Leandro de Oliveira. 3. pela persistência de desconfiança mútua entre os próprios países da região. A origem desse dilema pode estar por trás da postura ambivalente da liderança regional brasileira. ao mesmo tempo. Dissertação de mestrado. A missão de observadores militares Equador-Peru – MOMEP (1995-1999) e a participação do Exército Brasileiro. Esse posicionamento contribui para que se arrefeçam tensões militares (SOUZA. cordialidade e respeito.unesp. 17 e 18 de Novembro de 2009 ISSN 1984-9265 para projetos de aproximação e de parceria estratégica com a Argentina. mas que. GALASTRI. Unicamp: 2005. Simultaneamente. Anais do II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP. não estariam dadas as condições para a integração militar na América do Sul. profissional.) reitera-se a necessidade de se reforçar o poder dissuasório pela melhoria da capacidade da Força Terrestre. UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www. Campinas. ao defender a possibilidade de que os membros do Mercosul viessem a construir um sistema coletivo de segurança. coloca os militares brasileiros diante de um dilema entre cooperação e dissuasão. demonstrando capacidade 2008: 5). Em meados da década atual.

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