UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES

INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA
JURÍDICA



VADSON MONTEIRO CARVALHO
EDUARDO BRANDÃO (ORIENTADOR)







A VÍTIMA NO AMBIENTE FAMILIAR: VIOLÊNCIA
CONTRA A MULHER








RIO DE JANEIRO
2011
2
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
CURSO DE PSICOLOGIA JURÍDICA


VADSON MONTEIRO CARVALHO






A VÍTIMA NO AMBIENTE FAMILIAR: VIOLÊNCIA
CONTRA A MULHER




Monografia apresentada à
Universidade Cândido
Mendes - Instituto A Vez do
Mestre, como requisito final
da realização do curso lato
sensu em Psicologia Jurídica
sob a orientação do professor
Eduardo Ponte Brandão.




RIO DE JANEIRO
2011
3


















Agradeço

A Deus, a toda Igreja Celeste, a minha família e
amigos pela força, ao meu Professor e
Orientador Eduardo Ponte Brandão que
acrescentou no meu crescimento acadêmico e
aos meus colegas profissionais e de turma que
estiveram comigo ao longo do curso.





4

















Dedico este trabalho acadêmico à minha
família e amigos que me incentivaram a
percorrer este caminho na busca de novos
saberes






5
RESUMO


O presente trabalho pretende analisar quais as causas que levam a
mulher a tornar-se vítima da violência num ambiente familiar. Através do estudo
bibliográfico da temática da violência doméstica contra a mulher, se fará um
apanhado geral para mostrar que a mesma que é vítima desta violência, maus-
tratos, precisa ser ouvida e protegida e que a lei possa ampará-la diante da
situação apresentada. Para tanto apresenta a mulher como vítima de seu
agressor, vítima esta que muitas vezes silencia diante do ocorrido. Numa
explanação sobre a violência na família especificamente na mulher, é preciso
entender que existem soluções legais e práticas, como amparo pela lei e
afastamento do agressor da vítima, é possível buscar meios que impeçam a
continuidade dessa violência, que muitas vezes está escondida e disfarçada
num silêncio culposo. Assim surge uma esperança para lidar com a questão da
violência doméstica contra a mulher que é a lei, a legislação brasileira ampara
a mulher com a lei Maria da Penha, dando espaço para entender que a mulher
ouvida e lembrada pode agora recorrer a instâncias maiores para ser
amparada e com seus direitos garantidos. Finalmente para entendermos essas
causas que levam a mulher a ser vítima da violência doméstica, perpassa pelos
fatores históricos e atuais, para assim suscitar apoio à mulher que padece com
esse tipo de situação.








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METODOLOGIA


O presente trabalho cuja temática é “A vítima no ambiente familiar:
violência contra a mulher” trata-se de uma pesquisa bibliográfica. Tal pesquisa
perpassa sobre a vitimologia e a violência doméstica contra a mulher. A
proposta é fazer uma pesquisa qualitativa sobre a vítima e a violência
doméstica contra as mulheres causada pelo cônjuge. Os principais autores
utilizados na realização deste trabalho foram Rosana Morgado com sua
sabedoria sobre a violência doméstica, Stela Valéria Soares de Farias
Cavalcanti contribuindo com comentários sobre a violência doméstica e análise
da lei “Maria da Penha, Souza Rogério Ricardo com sua obra Comentários à lei
de combate a violência contra a mulher e Lélio Braga Calhau dando ênfase
sobre a vítima.















7
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...............................................................................8

1. CAPÍTULO I – A VÍTIMA .........................................................10

1.1 – Conceito de Vítima ......................................................10

1.2 – Tipos de Vítima ...........................................................14

1.3 – Eternas Vítimas ...........................................................16

1.4 – A mídia e a Vítima .......................................................17


2. CAPÍTULO II – VIOLÊNCIA NO AMBIENTE FAMILIAR:
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ...............................18

2.1 – A violência na Família .................................................18

2.2 – A violência doméstica na Legislação Brasileira........... 22


3. CAPÍTULO III – A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER ............. 29

3.1 – Fatores históricos e atuais .......................................... 30

3.2 – Definições de Violência .............................................. 36

3.3 – Aspectos da violência contra a mulher:
Lei Maria da Penha ..................................................... 38

CONCLUSÃO ................................................................................ 43

BIBLIOGRAFIA ............................................................................. 45


8
INTRODUÇÃO

O ambiente familiar tem sido o lugar de surgimento de muita violência. O
número de vítimas cresce cada vez mais, fruto de um comportamento
agressivo que gera violência e que é praticada por pessoas de várias classes
sociais, culturas e raças.

Existem muitas vitimadas, fruto da violência causada pelo cônjuge ou
por outro membro da família. Violência essa que pode ser física, sexual, moral,
psicológica. Torna-se evidente que a vítima, cada vez mais, vive refém do seu
próprio medo e de seu lar. Dentro desse quadro de violência familiar, surge a
mulher vitimada, resultado da violência que cometem contra a mesma.

A violência contra a mulher tem sido destaque numa discussão sobre as
questões de saúde e direitos humanos. Apesar dos avanços, com a criação de
delegacias especializadas para a denúncia desse tipo de crime contra à
violência doméstica onde surgem denúncias constantes, que têm por base a
violência de gênero, vem demonstrar a necessidade de qualificar-se os
serviços que prestam atendimento a essas vítimas.

Diante desses enunciados, acredito ser importante fazer um estudo
sobre a violência doméstica contra a mulher. A escolha do tema para ser
estudado foi uma indignação diante de tanta violência contra a mulher e ainda
saber que em muitas situações a mulher ainda continua sendo vítima de seus
agressores, mesmo sendo amparada pela lei.

Atualmente a vítima vem ganhando um espaço em nosso ordenamento
jurídico brasileiro o que faz pensar em mudanças por nossos legisladores.
9
Desta forma, essa temática vem nos ajudar a refletir sobre a mulher que
sofre violência doméstica, sendo assim vítima de outrem num contexto familiar
e que precisa ser ouvida, acolhida e defendida.

A intenção é de contribuir, para tornar a vida humana segura,
principalmente a salvo de ataque violento por outro ser humano,
proporcionando de alguma forma mecanismos para dar condições de oferecer
à mulher, vítima da violência, assistência necessária através de instituições
habilitadas, com equipes multidisciplinares, procurando desta forma, traçar um
perfil mais humanitário da vítima dentro do sistema penal.

Sendo assim, desenvolveremos como proposta de estudo a vítima no
ambiente familiar tendo a violência contra a mulher como centro de nossas
reflexões. Estudaremos neste trabalho as causas que levam a mulher a tornar-
se vítima de tão grande violência doméstica.

Tratando-se do tema da vítima sobre o recorte da violência contra a
mulher, o presente trabalho apresentará três capítulos que desenvolverão a
temática apresentada. No primeiro capítulo falaremos sobre a vítima,
elucidando conceitos sobre a mesma, quais os tipos de vítimas existentes e a
participação da mídia ratificando quem é essa vítima. O segundo capítulo trará
um desenvolvimento sobre a violência na família enfatizando a violência
doméstica na legislação brasileira. No desenvolvimento do terceiro capítulo,
será apresentada a violência doméstica contra a mulher, seus aspectos
históricos e atuais, dando conceitos de violência culminando este estudo com a
explanação da Lei Maria da Penha.

A proposta é fazer uma pesquisa bibliográfica sobre a vítima e a
violência doméstica contra as mulheres causadas pelo cônjuge.
10
CAPÍTULO I
A VÍTIMA

1.1- Conceito de vítima

Na atualidade, a vítima vem ganhando destaque no ordenamento
jurídico brasileiro, que já leva a pensar em mudanças nos institutos legais por
parte dos doutrinadores e legisladores.

Na definição do vocabulário jurídico a palavra “vítima” vem do latim
victima, geralmente entende-se toda a pessoa que é sacrificada em seus
interesses que sofre um dano ou é atingida por qualquer mal. E sem fugir ao
sentido comum, na linguagem penal designa o sujeito passivo de um delito ou
de uma contravenção. É assim o ofendido, o ferido, o assassinado, o
prejudicado, o burlado (SILVA, 2008, p. 1495).

De uma forma didática, explica Guilherme de Souza Nucci na sua obra
Leis Penais e Processuais Penais Comentadas (2008, p. 1017) que: “Vítima” é
o sujeito passivo do crime, ou seja, a pessoa que teve o interesse ou o bem
jurídico protegido diretamente violado pela prática da infração penal.
Denomina-se, também ofendido. Deve ser ouvido, sempre que possível,
durante a instrução, a fim de colaborar com a apuração da verdade real,
valendo a oportunidade, inclusive, para indicar provas e mencionar quem
presuma ser o autor do delito (art. 201, CPP).

No âmbito do Direito Penal e Processual brasileiro, a vítima foi
relativamente esquecida, suas expectativas são escassas e a reparação de um
11
possível dano não é um fator decisivo e prioritário. A vítima poderia ser tão
importante para o sistema penal como o criminoso é.

Segundo Silva (2008) Se houvesse um maior discernimento das
autoridades públicas sobre a importância da assistência às vítimas de crimes,
reconhecendo os direitos dos cidadãos de poder viver em uma sociedade mais
justa e segura, provavelmente haveria um afunilamento, no sofrimento doloso
que é causado, muitas vezes pelo criminoso à vítima de determinado delito,
bem como uma prevenção dada à vítima para não cometer um novo delito
como uma forma de revidar o que recebeu.

O fato é que essa omissão na legislação penal ou até mesmo o
interesse estatal no que pertine aos dispositivos legais penais, deixam o próprio
sistema falido, desacreditado e a mercê de uma justiça privada, ou seja, a
justiça feita com as próprias mãos.

Segundo Calhau (2006, p. 36) é inquestionável o valor que o estudo da
vítima possui hoje para a Ciência total do Direito penal. A vítima passou por
três fases principais na história da civilização ocidental. No início, fase
conhecida como idade de ouro, a vítima era muito valorizada, valorava-se
muito a pacificação dos conflitos e a vítima era muito respeitada. Depois, com a
responsabilização do Estado pelo conflito social, houve a chamada
neutralização da vítima.

O Estado, assumindo o monopólio da aplicação da pretensão punitiva,
diminuiu a importância da vítima no conflito. Ela sempre era tratada como uma
testemunha de segundo escalão, pois, aparentemente, ela possuía interesse
direto na condenação dos acusados. E, por último, da década de cinqüenta
para cá, adentramos na fase do redescobrimento da vítima, onde a sua
importância é sob um ângulo mais humano por parte do Estado.
12

Interessante observar o que preleciona Calhau (2003, p. 22) no âmbito
conceitual do significado do vocábulo “vítima”. Para ele existem três definições
conceituais fundamentais para a compreensão da vítima: a primeira é a literária
ou a gramatical, a segunda a vitimológica e a terceira a jurídica.

Reflete, a partir do sentido etimológico, os significados que o vocábulo
vítima apresentou na evolução. São mencionadas duas fontes principais,
vindas do latim. Derivaria ela de vincire, que significa atar, ligar, referindo-se
aos animais destinados ao sacrifício dos deuses após a vitória na guerra e que,
por isso, ficavam vinculados, ligados, atados a esse ritual, no qual seriam
vitimados. Adviria o vocábulo de vincere, que tem sentido de vencer, ser
vencedor, sendo vítima o vencido, o abatido. Fala-se ainda no terceiro vigere,
que quer dizer vigoroso, ser forte.

Já na definição vitimológica, existiu uma pequena imprecisão em alusão
ao conceito de vítima dado por Mendelsohn. Nesse sentido ressaltou Krchhoff
apud Calhau, (2003, p.22 em nota de rodapé) que “[...] na perspectiva de
Mendelsohn, por ele denominada de universal, foi abrangido todo tipo de
vítima, vítimas de natureza, da tecnologia, do meio ambiente, do trânsito, da
energia cósmica. Esse dificultou um desenvolvimento no estudo das vítimas”.

Um comentário final nos é imprescindível. Dessa indefinição, adveio a
vitimologia, trazendo novas perspectivas sobre a participação da vítima para a
ocorrência do delito e sem dúvida uma das mais importantes, o instituto da
reparação do dano causado à vítima do delito.

Por último, a definição da vítima no âmbito jurídico a definição do
aspecto jurídico da vítima também tem as suas dificuldades, haja vista as
13
limitações que se realizem por se utilizarem conceitos nas normas jurídicas
(CALHAU, 2003, p. 23).

Nesse ambiente, inclusive, vale a referência da Resolução 40/34 da
Assembléia Geral das Nações Unidas, de 29 de novembro de 1985 a respeito
da definição de vítima: Pessoa que, individual ou coletivamente, tenha sofrido
danos, inclusive lesões físicas ou mentais, sofrimento emocional, perda
financeira ou diminuição substancial de seus direitos fundamentais, como
conseqüências de ações ou omissões que violem a legislação penal vigente,
nos Estados – Membros, incluída a que prescreve o abuso de poder.

Entendemos que vítima é aquela pessoa que sofre algum tipo de dano,
seja ele de ordem física, moral, econômica e psicológica. A vítima ainda é
tratada com menos interesse para a sociedade como o “criminoso”, “infrator” ou
“delinqüente” é tratado no sistema penal, com mais rigor e com a anuência da
comunidade clamando por aplicações de sanções severas e urgentes.

A Lei 11.340/06 referente à violência doméstica, conhecida pela luta de
uma mulher que foi vítima de crime por duas vezes pelo seu próprio marido e
conseguiu instituir pela sua luta na justiça a criação da “Lei Maria da Penha”.

A Lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra mulher.

Faremos o estudo desta lei num capítulo posterior.



14
1.2 – Tipos de vítima

A classificação dos tipos de vítimas é diversa e vários autores
internacionais e nacionais pontuam conforme seus conhecimentos a sua
classificação.

Segundo Benjamin Mendelshon, apud Calhau (1956) um dos pioneiros
do estudo de vítimas no mundo, dentre as mais diversas classificações de
estudiosos, elencamos aqui os tipos de vítimas definidos por ele:

A primeira classificação está ligada a vítima inocente, aquela que não
existe nenhuma provocação nem outra forma de participação no crime; a
segunda classificação é à vítima provocadora, que voluntariamente ou
imprudentemente colabora com os fins pretendidos ou alcançados pelo
criminoso e, a terceira classificação descreve a vítima agressora, esta
considerada simuladora ou imaginária. Nesses casos são as vítimas que
cometem, por si, a ação nociva, e o não culpado deve ser excluído de toda
pena.

De uma maneira mais aprofundada a classificação dos tipos de vítimas
segundo Benjamin Mendelsohn é calcada na relação do criminoso com a sua
vítima:

1. Vítima completamente inocente ou vítima ideal
É a vítima inconsciente, que nada fez ou nada provocou para
desencadear a situação criminal, pela qual se vê danificada. É quando a vítima
é completamente estranha à ação do criminoso.
15
A ocorrência é uma fatalidade à qual a vítima não teria como se furtar. O
exemplo seria o do nascituro em relação ao aborto, outro é a vítima de bala
perdida.

2. Vítima de culpabilidade menor ou vítima por ignorância
Neste caso se dá um certo impulso involuntário ao delito. O sujeito por
certo grau de culpa ou por meio de um ato pouco reflexivo causa sua própria
vitimização. Trata-se aqui do indivíduo que se expõe inconscientemente para
fazer o papel de vítima. Ela atrai o ato criminoso ao se comportar de maneira
diferenciada, chamando a atenção para si. Exemplo disso é uma pessoa que
ostenta jóias, passeando em um lugar perigoso da cidade.

3. Vítima tão culpada quanto o delinqüente ou vítima voluntária
É aquela que comete suicídio jogando com a sorte. Ambos podem ser o
criminoso ou a vítima. Exemplo: a) roleta russa; b) suicídio por adesão; c) a
vítima que sofre de enfermidade incurável e que pede que a matem, não
podendo mais suportar a dor (eutanásia); d) a companheira (o) que pactua um
suicídio; e) o esposo que mata a mulher doente e se suicida.

4. Vítima mais culpada que o infrator
4.1- Vítima provocadora: aquela que por sua própria conduta incita o
autor do crime. Tal incitação cria e favorece a explosão prévia à descarga que
significa o crime.

4.2- Vítima por imprudência: é a que determina o acidente por falta de
cuidados. Ex. quem deixa o automóvel mal fechado ou com as chaves no
contato.


16
5. Vítima unicamente culpada
Dentro dessa modalidade as vítimas são classificadas em:

5.1- Vítima infratora: cometendo uma infração o agressor vira vítima
exclusivamente culpável ou ideal, se trata do caso de legitima defesa, em que o
acusado deve ser absolvido.

5.2. Vítima simuladora: que através de uma premeditação e
irresponsável joga a culpa no acusado, recorrendo a qualquer manobra com a
intenção de fazer justiça num erro.

5.3- Vítima imaginária: se trata geralmente de indivíduos com distúrbios
psicopatas de caráter e conduta. É o caso do paranóico reivindicador, litigioso,
interpretativo, perseguidor-perseguido, histérico, demente senil, menor púbere.
Só serve para indicar um autor imaginário ante a justiça penal e temos que
evitar que se cometam erros judiciais com esse tipo de atitude. (NOGUEIRA,
2006, p. 48-50).

Um outro aspecto importante trazido é a reparação do dano que de
alguma forma, tenta atenuar o sofrimento de quem sofre um crime. Mas na
maioria das vezes não pode ser comparado ao dano moral ou psicológico,
sofrido pela vítima. (MESSA, 2010, p. 70).

1.3 – Eternas Vítimas

As chamadas vítimas eternas são aquelas cujo conflito faz parte de sua
maneira de ser e se constitui como mecanismo de defesa contra outras
questões psíquicas difíceis e se constitui como mecanismo de defesa contra
outras questões psíquicas difíceis de lidar (FIORELLI; MANGINI, 2009).
17

A vítima eterna encontra-se em inúmeras. Há o empregado
incompreendido, que acusa ano após ano o patrão e o supervisor de lhe
causarem dano moral; os colegas de conspirar contra ele; os clientes de serem
insensíveis; celebra trinta anos no mesmo emprego, na mesma função... enfim
são aqueles eternos reclamões da vida, se colocando como vítimas.

Vítimas eternas encontram, no que as prejudica, a motivação para
seguir em frente. O conflito faz parte de sua maneira de ser e constitui eficaz
mecanismo psicológico de defesa contra outros dramas do psiquismo que sem
eles, se tornariam insuportáveis. No mínimo, o conflito representa o antídoto
mais eficaz para enfrentar a insensibilidade do espelho.

1.4 – A mídia e a vítima

Os meios de comunicação , criam, reforçam a percepção que a
população tem do crime, além de contribuírem para atribuir o papel que a
sociedade outorga à vítima.

A divulgação sensacionalista, fartamente empregada em programas de
televisão e em alguns jornais e revistas, contribuem para a banalização do
crime e em conseqüência, para a banalização da vítima (FIORELLI, MANGINI,
2009, p. 206).

Pior que isso é o tratamento que a vítima recebe em inúmeras situações
em que a desvalorização do ser humano promovida pelos meios de
comunicação, de maneira subliminar, fortalece a coisificação dos indivíduos,
dando um aval virtual ao criminoso.
18

Já não é suficiente a dor do evento provocada pelo delito, ou seja, a
vítima é agredida emocionalmente pela imprensa falada ou escrita, ficando
exposta, onde muitas vezes o linguajar está longe de refletir a realidade dos
fatos. A notícia superficial e o foco adotado pelo editorial não apenas resumem,
mas modificam as dimensões dos acontecimentos.

Existem algumas ocasiões em que a vítima por falta de preparo ou
ingenuidade, é apresentada de maneira diminuída para a sociedade; essa
desvalorização relativa tem o efeito de provocar por que não dizer, uma
diminuição da percepção de abuso ou violência.



CAPÍTULO II
VIOLÊNCIA NO AMBIENTE FAMILIAR: VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA

2.1 - A violência na família


Precisa ser compreendida a partir de diferentes perspectivas. A
perspectiva histórica é extremamente importante, pois toda família se constitui
num tempo histórico no qual os conflitos violentos são resolvidos com os
recursos e valores desse tempo. Nesse sentido entram os meios de
comunicação e negociação presentes, e sua influência sobre as emoções
(PRADO, 1985).

19
E há ainda a perspectiva familiar, que talvez seja a dimensão que nós
possamos mais intervir.

Estamos chamando de perspectiva familiar um olhar para esse grupo, de
modo que possamos perceber que os valores, regras, e outros aspectos, são
transmitidos horizontalmente, envolvendo a aprendizagem no tempo de uma
geração, e verticalmente, aonde as aprendizagens envolvem várias gerações.

Estamos falando também de que, na família, estamos expostos, o tempo
todo, a um sistema de comunicação que se faz presente na forma de educar e
de transmitir mensagens. É através desse sistema de comunicação que se faz
a transmissão de delegações.

Delegações são "ordens" passadas sutilmente, de geração a geração, e
percebidas como impossíveis de não serem cumpridas (PRIEUR, 1999;
Boszormenyi-Nagy, 1983).

Nossa proposta é de reconhecer que a família pode se constituir num
espaço de perigo, mas que devemos atuar para que seja um espaço de
proteção para crianças e adolescentes.

Como grupo primário, a família é o grupo de origem de todos os outros,
de todas as instituições. É o primeiro grupo a que cada pessoa pertence. O
sentimento de pertencer a uma família traz para o indivíduo: proteção,
segurança, bem estar, conforto.

A família também é o núcleo de socialização, um espaço de continência
para a ansiedade, para as emoções e para as experiências. Um contexto de
aprendizagem, onde se dá a experimentação de regras e limites, o treino dos
20
papéis sociais. A família possui funções sociais, ou seja, um compromisso com
a sociedade maior e funções internas, um compromisso interno com os seus
membros.

Nas famílias que maltratam há dois grupos de jogos: os que
desembocam em um sintoma psiquiátrico do filho e os que desencadeiam o
comportamento de maltrato.

Existe ainda um "ciclo repetitivo do abuso", ou seja, as crianças
expostas a maus-tratos tendem a repetir esse padrão, sendo os agentes do
abuso quando se tornam adultos.

No primeiro grupo de famílias, mais que maltrato, está presente o
descuido com os filhos, fruto de uma incapacidade do genitor de fazer frente ao
dever de criar e de cuidar da prole. Essa incapacidade geralmente é uma
mensagem dirigida ao outro genitor: maltrata a criança por raiva do
companheiro. ( PRADO, 1985)

Além de fatores de ordem individual, tais como experiência anterior de
abuso, personalidade imatura dominada pelo impulso, estrutura criminosa etc.;
existem elementos socioculturais, como o elevado nível de estresse
relacionado com a marginalidade social, com a desocupação, com a falta de
moradia ou com a superpopulação em moradias inadequadas, com a miséria e
com a pobreza cultural que limita o recurso da verbalização na resolução dos
conflitos.

Uma primeira função é a função reprodutiva, que se presta aos dois
contextos: tem como propósitos perpetuar a sociedade, em um âmbito mais
21
amplo, e dar prosseguimento à sua própria existência, em uma perspectiva
mais particular.

Outra função é a econômica: a família é o núcleo social responsável por
seus membros.

Espera-se que ela promova sua formação moral, educação, proteção,
alimentação e satisfação das necessidades básicas. A função da identificação
social viabiliza o processo de filiação, importante para o desenvolvimento do
sentimento de pertencer, que torna o sujeito alguém identificado e diferenciado,
um indivíduo reconhecido. (PORTO, 2007)

E finalmente, a família tem a função de socialização dos seus membros,
que inicia no momento em que nascem e se perpetua durante todo o seu
desenvolvimento. Geralmente essa função é dividida com outras instituições
significativas como escola, instituições religiosas entre outras, inclusive o
ambiente profissional.

Como espaço de proteção ela oferece proteção e cuidados, educa,
socializa e sustenta os seus membros. Também os nutre de afeto, carinho e
amor. Dá continência para os erros e acertos dos seus componentes, ampara,
orienta, perdoa. É o símbolo de ligações eternas, de presença constante, de
perenidade. (GIULIA, 2000)

Porém, muitas vezes se apresenta como contexto de risco. Em algumas
situações, estão presentes, no seio familiar, fatores de risco que comprometem
o desenvolvimento psicossocial dos seus membros. A existência de violência,
de abandono, de desorganização familiar, de abuso ou de dificuldades
22
financeiras, que trazem obstáculos à subsistência das pessoas, indica a
necessidade de atenção especial.

2.2 - A Violência Doméstica na Legislação Brasileira

Em razão da convivência do homem com os outros homens podem
surgir conflitos de interesse quando os interesses de um se opõem aos de
outro. Tais conflitos podem surgir, também, tendo de um lado o Estado e de
outro um homem.

Assim, uma das tarefas essenciais do Estado é regular a conduta dos
cidadãos por meio de normas sem as quais a vida em sociedade seria
praticamente impossível ( SABADELL, 2005)

São desse modo, estabelecidas regras para regulamentar a convivência
entre as pessoas e as relações desta com o Estado, onde este impõe aos seus
destinatários determinados deveres concretos e genéricos. Essas normas
constituem um sistema de limites aos poderes e faculdades do cidadão, que
está obrigado pelo dever de respeito aos direitos alheios ou do Estado.

Entretanto, tais normas seriam inócuas se não estabelecessem sanções
para aquele que as descumprissem, lesionando direito alheio, pondo em risco a
convivência social e frustrando o fim perseguido pelo Estado.

Portanto, quando se lesa ou põe em risco o direito que interessa à
própria sociedade, o Estado, cuja finalidade é a consecução do bem comum, e,
por isso, investido do direito de punir, institui sanções penais contra o infrator.

23
A punição ao autor da lesão social representa a justa reação do Estado
contra o autor da infração penal, a fim de defender a ordem e a boa
convivência entre os cidadãos. No entanto, esse direito de punir do Estado não
é arbitrário, mas delimitado nos países civilizados pelo princípio da reserva
legal. No Brasil, este princípio está previsto na Constituição da República de
1988; verbis:
"Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal" (art. 5º XXXIX).

Essas sanções, em princípio, é o ressarcimento dos prejuízos e danos
causados pela prática da conduta proibida. Porém, muitas vezes, tais sanções
são insuficientes para coibir determinados ilícitos, por isso, são reforçadas com
outras normas para possibilitar a convivência em sociedade. As penas
privativas de liberdade têm como finalidade socializar, recuperar, reeducar ou
educar o condenado.

A Lei de Execução Penal adotou os postulados da Nova Defesa Social,
aliando a esta prevenção criminal a humanização da execução da pena.

No âmbito das relações familiares, constata- se que muitos casos de
violência são considerados "infrações penais de menor potencial ofensivo",
sendo julgados pelos Juizados Especiais Criminais, instituídos pela Lei n.º
9.099/95.

A criação dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais constituiu-se em
uma revolução judiciária. Os critérios da moralidade, simplicidade,
informalidade, economia processual e celeridade, que orientam o processo,
buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação, distinguem-no,
dificultando a contaminação burocrática da atividade judiciária tradicional.
24
Assim, separando o tratamento das infrações menores das grandes
infrações penais, buscou-se a efetividade do próprio Direito Penal, dando
fluidez aos processos das grandes infrações penais, que muitas vezes
escoavam pelo ralo da prescrição, devido ao assoberbamento das Varas
Criminais.

Entretanto, a mesma Lei que facilita os julgamentos beneficia
sobremaneira o agressor, pois propicia acordos e perpetua a repetição da
mesma violência no interior dos lares. Além do mais, os conflitos familiares,
antes de serem conflitos de direito, são essencialmente afetivos, psicológicos,
relacionais, antecedidos de sofrimento.

Em regra, dizem respeito a casais que, além da ruptura, devem
imperativamente conservar as relações de pais, em seu próprio interesse e no
interesse da prole. Assim, a resposta judicial sozinha, seja ela qual for, é
insuficiente e, muitas vezes, inadaptada às necessidades dos envolvidos no
conflito.

A explosão do contencioso familiar no judiciário, os custos faraônicos
dos conflitos familiares mal resolvidos, em termos econômicos, judiciais, sociais
e, sobretudo humanos e a insatisfação perante a justiça, obrigam a
reconsiderar os tratamentos dos conflitos familiares.

O próprio espírito do sistema deve ser transformado, tendo como
prioridade a substituição da lógica de confronto judicial pela lógica da
comunicação e da negociação ( MESSA, 2010)

A sanção penal deve ser capaz de produzir dupla finalidade: a punitiva e
a ressocializante. Dentro deste contexto deve ser ela justa necessária e
25
suficiente para prevenir tais conflitos no seio social e permitir ao agressor a
vivência de um processo de reeducação.

Segundo Prado (1985) a definição da sanção penal justa, necessária e
suficiente deve atender as peculiaridades que norteiam o conflito de interesses
manifestado. Quando se trata de violência de gênero, especialmente a
perpetrada em face das mulheres e manifestada no seio familiar, à resposta
proposta pelo nosso sistema jurídico é ineficiente.

Tal fato leva ao descrédito todas as instituições que lutam em prol da
pacificação dos conflitos familiares.

A mulher, vítima de agressão familiar, está sujeita a um sistema de
proteção ineficiente já que a resposta penal imposta ao agressor não atende às
peculiaridades do conflito instalado. Essa vítima, quase que na totalidade dos
casos, é obrigada a retirar-se de seu lar levando consigo sua prole e nada
mais. Em regra, não possui qualificação profissional e se vê obrigada a
enfrentar uma nova realidade só. Quando decide denunciar o agressor, fica a
mercê deste, vulnerabilizando-se ainda mais.

Precisa reconstruir sua vida, seus conceitos culturais e morais, tudo
dentro de um clima de total desequilíbrio emocional e de instabilidade afetiva.

As dificuldades concretas, enfrentadas pelas mulheres ao buscarem
ajuda para romperem a relação de violência são também percebidas nas
relações de consangüinidade tornando, para elas, extremamente dificultoso
conseguir algum tipo de ajuda na própria família. (MORGADO, apud
BRANDÃO, 2003, p. 334)

26
Dentro deste contexto, como a lei penal, considera a maior parte desses
delitos, crimes de menor potencial ofensivo, basta ao agressor comprometer-
se a comparecer ao Juizado Especial Criminal local que não lhe será imposto o
instituto da prisão em flagrante nem lhe será exigido fiança, e assim,
praticamente imediatamente após a prática da agressão, ele estará de volta ao
lar conjugal.

A mulher vítima dessa modalidade de agressão, evidentemente, não
pode ficar exposta a tal situação, pois isso representaria deixá-la à mercê do
agressor, só que agora numa situação de conflito muito mais grave que a
anterior já que teve ela a determinação de denunciá-lo, violando a
superioridade que o agressor julga ter sobre a vítima. A própria lei, portanto,
impõe obstáculos intransponíveis para que as mulheres vítimas de agressão
familiar procedam à denúncia desses fatos.

Mas consideremos que se trata de vítima que pôde superar esse
obstáculo inicial, mesmo assim, continua a fadada Lei 9.099/95 banalizando o
conflito. Impõe-se às partes uma audiência preliminar, dentro da qual se o
agressor concordar em ressarcir os prejuízos sofridos pela vítima a ele será
imposto uma pena não privativa de liberdade.

Aqui devemos fazer um aparte: em regra, não se fala em ressarcimento
dos danos morais sofridos pela vítima, somente se busca o ressarcimento dos
prejuízos matérias, como se o sofrimento dessa vítima pudesse ser
desconsiderado. ( SABADELL, 2005)

Não estamos aqui dizendo que a Lei acima citada prevê somente o
ressarcimento dos danos materiais, mas sim que, em regra, a experiência nos
tem mostrado que se busca nesta audiência preliminar apenas quantificar e
impor o ressarcimento dos prejuízos materiais, ignorando-se os de ordem
27
moral, o que significa dizer, que a dor, o sofrimento e os sentimentos dessa
vítima não são considerados dentro da órbita penal. Após o ressarcimento dos
danos, que como acima defendemos, é irrelevante quando visto do prisma da
mulher agredida, é imposto ao agressor uma pena não privativa de liberdade
(pena restritiva de direitos ou pena de multa).

Ainda podemos constatar outra grande incoerência. Quando é imposto
ao agressor pena restritiva de direitos consistente na prestação pecuniária, que
no Brasil tem sido fixada, em geral, em espécie (cestas básicas, material de
consumo etc.), esta pena nunca é dirigida à vítima ou aos seus dependentes,
em regra, vem beneficiar entidades públicas e privadas, e o que é mais
repugnante é que as entidades eleitas nem sempre são as responsáveis pela
execução das políticas de proteção à mulher.

Assim, das possíveis sanções previstas em nossa legislação penal, a
restritiva de direito consistente na prestação pecuniária seria a única que
poderia efetivamente beneficiar a mulher vítima de agressão familiar, já que
poderia ser dirigida à própria vítima ou às entidades responsáveis pela
execução das políticas de proteção à mulher.

Segundo Sabadell (2005) infelizmente, o que se tem observado é que
essa além de ser a única modalidade de sanção penal existente em nosso
ordenamento jurídico capaz de contribuir para a efetiva proteção da mulher
vítima de agressão doméstica, isso quando é destinada à vítima ou às
entidades que praticam políticas voltadas à proteção dessa vítima, vem sendo
aplicada em benefício de outras entidades.

Não há no ordenamento jurídico brasileiro uma resposta penal que
venha satisfazer, dentro dos conflitos familiares, os princípios da necessidade e
da suficiência, princípios esses que norteiam a aplicação da pena. Segundo
28
essas máximas a pena deve ser necessária e suficiente para a reprovação e
prevenção do delito.

A realidade se mostra diametralmente oposta já que as modalidades de
sanções penais hodiernamente existentes não são capazes de reprovar já que
não intimidam, nem são eficazes para prevenir já que não dão o necessário
tratamento ao agressor.

Em relação à vítima, a situação é até mais cruel. É agredida, precisa
reconstruir sua vida e a vida de sua prole, muitas vezes não dispõe de recursos
financeiros para tanto, perdendo sua dignidade, sua auto-estima e sua
cidadania e tudo isso num emaranhado emocional e afetivo. (SILVA, 2008)

Essa triste realidade dificulta, chegando até impedir, que as mulheres
vítimas de violência familiar tomem uma postura ativa diante da situação em
que vivem. O sentimento de insegurança gerado pelo ordenamento jurídico-
penal leva o descrédito e a sensação de total abandono a essas vítimas.

A realidade dos fatos nos impõe praticar políticas públicas tendentes a
assegurar, de forma sistemática, proteção às mulheres vítimas da violência
doméstica, tecendo uma teia que seja capaz de restaurar a cidadania dessas
mulheres. A complexidade do conflito familiar também nos obriga ao
atingimento de um alto grau de especialização, não se pode dar tratamentos
iguais para conflitos distintos, o que feriria profundamente o princípio
constitucional da isonomia.

A evolução nos tem mostrado que diferenciar situações distintas é o
meio mais eficaz para a concretização da igualdade material. Nas questões
que envolvem a violência de gênero, em especial a violência doméstica, se faz
29
necessário que todos os órgãos, entidades, pessoas jurídicas de caráter
público ou privado que se proponham a ratificar ações visando à minimização
desses conflitos ou buscando a melhor solução para eles, atinjam um alto grau
de especialização.

Desta forma é que se busca a criação de delegacias, promotorias
públicas, institutos médicos legais, juizados especiais, núcleos de defensorias
públicas, salas de acolhimento à mulher em hospitais etc., todos especializados
e devidamente aparelhados para o atendimento à mulher vítima de violência
familiar.



CAPÍTULO III

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


Especificamente quanto à violência cometida contra a mulher, ela é
comprovada pelas estatísticas apresentadas pelas ONGs e por órgãos
públicos, e também quando se faz uma observação da atividade policial e
forense onde a violência doméstica ocupa um grande espaço.

A violência cometida contra a mulher é um fenômeno histórico que dura
milênios, pois a mulher era tida como um ser sem expressão, uma pessoa que
não possuía vontade própria dentro do ambiente familiar. Ela não podia sequer
expor o seu pensamento e era obrigada a acatar ordens que, primeiramente,
vinham de seu pai e, após o casamento, de seu marido.


30
3.1- Fatores históricos e atuais

Historicamente, o homem possuía o direito assegurado pela legislação
de castigar a sua mulher. Observa-se que, na América colonial, mesmo após a
independência americana, a legislação não só protegia o marido que
disciplinasse” a sua mulher com o uso de castigos físicos, como dava a ele,
expressamente, esse direito.

“Foi somente após a década de 1970, com as
iniciativas das feministas, que se começou a estudar o
impacto da violência conjugal entre as mulheres. Até
então se hesitava em intervir, sob pretexto de que se
tratava de assunto privado. Ainda hoje, o noticiário dos
jornais pode levar-nos a crer que se trata de um
fenômeno marginal, quando na realidade, é um
verdadeiro flagelo social que não está sendo
suficientemente levado em consideração. Os números,
que só levam em conta as violências físicas que
chegam ao Judiciário, são assustadores. Estatísticas
parciais do Ministério do Interior (que excluem Paris e a
região parisiense) registram, a cada quinze dias, três
homicídios de mulheres, assassinadas por seu cônjuge.
O fenômeno é de tal monta que alguns chegam a falar
em terrorismo de gênero, e por isso a maior parte das
pesquisas de opinião especificamente sobre a violência
conjugal foi realizada a pedido dos Ministérios dos
Direitos das Mulheres ou da Paridade e Igualdade
Profissional, por pressão das ONGs de mulheres. Esse
problema de saúde mental extremamente destrutivo
raramente é debatido e, apesar de suas graves
conseqüências sobre a saúde das vítimas, só em
caráter facultativo é ensinado aos futuros médicos”
(HIRIGOYEN, 2006, p. 10-11)




A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, afirma, em seu
artigo 2º, a igualdade entre todos os seres humanos, sem distinção de qualquer
tipo, seja de raça, cor, sexo, etc. Também no seu artigo 16, declara que "a
família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção
da sociedade e do Estado".

31
Em 1963, a Assembléia Geral assinala a contínua discriminação contra a
mulher e convoca os países-membros a elaborar um documento inicial para
uma Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher.

Em 1988, a nossa nova Constituição Federal, em seu artigo 226, § 3º,
reconheceu a igualdade entre homens e mulheres, eliminando, legalmente, o
obstáculo para o Brasil ratificar totalmente a Convenção. No entanto, essa
ratificação só ocorreu em 1994, quando a Convenção passou a ter plena
aceitação jurídica em nosso país.

A Organização Mundial da Saúde, em seus estudos, indica que quase a
metade das mulheres vítimas de homicídio são assassinadas pelo marido ou
namorado, tanto pelo ex como também pelo atual. Da mesma forma, pesquisa
realizada pela Anistia Internacional, em cinquenta países, trouxe dados que
revelaram que uma em cada três mulheres foi vítima de violência doméstica,
como também obrigada a manter relações sexuais ou submetida a outros tipos
de violência.

“Em 2005 a Organização Mundial da Saúde elaborou um
estudo sobre a saúde da mulher e a violência doméstica
em dez países, incluindo o Brasil, e constatou que,
apesar dos compromissos internacionais assumidos, não
ocorreram mudanças significativas no que se refere à
prática deste tipo de violência”.(SABADELL, 2005, p.
258)



A violência, em suas mais variadas formas de manifestação, afeta a
saúde, a vida, produz enfermidades, danos psicológicos e também pode
provocar a morte. Tem como objetivo causar dano a um organismo vivo, ou
seja, é qualquer comportamento que tem como objetivo o de causar dano a
outrem.

32
Especificamente à violência contra a mulher e à violência doméstica, há
uma explicação suplementar para a sua grande ocorrência no Brasil. Ela não
está ligada somente à lógica da pobreza, ou desigualdade social e cultural.
Também está ligada diretamente ao preconceito, à discriminação e ao abuso
de poder que possui o agressor com relação à sua vítima. A mulher, em razão
de suas peculiaridades, compleição física, idade, e dependência econômica,
está numa situação de vulnerabilidade na relação social.

Nas relações familiares violentas observa-se a presença da força bruta,
pois:

“Os agressores utilizam-se da relação de poder e da
força física para subjugar as vítimas e mantê-las sob o
jugo das mais variadas formas de violência. Assim, uma
simples divergência de opinião ou uma discussão de
somenos importância se transformam em agressões
verbais e físicas, capazes de conseqüências danosas
para toda a família. Nesses conflitos, a palavra, o diálogo
e a argumentação dão lugar aos maus tratos, utilizados
cotidianamente como forma de solucioná-los”.
(CAVALCANTI,2007, p.29)


Devido à relação de poder e à dominação que existe no relacionamento
afetivo, geralmente o agressor detém, em relação à mulher que ele agride, a
força física e o poder econômico, passando a manipulá-la, violá-la e agredi-la
psicologicamente, moralmente e fisicamente.

A violência psicológica pode ser definida como sendo um processo que
tem como objetivo determinar ou manter o domínio sobre a parceira, e
é uma violência que segue um roteiro: ela se repete e se reforça com o tempo.
Começa com o controle sistemático do outro, depois vêm o ciúme e o assédio
e, por fim, as humilhações e a abjeção. Tudo para um se engrandecer
rebaixando o outro.

33
Tanto a violência psicológica, como a violência física, produzem muitas
conseqüências em suas vítimas, tanto no aspecto psíquico como também no
físico e, dessa forma, a mulher vitimizada:


“Mesmo quando os golpes não são realmente desferidos,
a mulher vive o sofrimento através de seu corpo. Ela tem
dores de cabeça, de barriga, musculares etc., como se
tivesse incorporado a mensagem de ódio em si. Todos os
estudos constatam que as mulheres que sofrem
violência, seja física ou psicológica, têm o estado de
saúde nitidamente pior que as demais, e consomem mais
medicamentos, sobretudo psicotrópicos, o que nos faz
ver claramente sua ligação com a violência psicológica.
O gesto violento que se antecipa, mas não vem, tem um
efeito tão destrutivo (ou até mais!) que o golpe realmente
dado, que não chega necessariamente no momento que
se espera”. (HIRIGOYEN,2006, p.47)


A violência praticada contra a mulher possui aspectos históricos
determinados pela cultura machista que considera a mulher como uma
propriedade do homem, e que ocorre até nos dias de hoje, mesmo diante de
muitos avanços com relação a direitos das mulheres, produzindo inúmeros
danos em suas vítimas, consoante abordado. Para melhor compreendê-la,
fundamental a compreensão de definições como a relativa a gênero feminino e
masculino.

“É impressionante o número de mulheres que apanham
de seus maridos, além de sofrerem toda uma sorte de
violência que vai desde a humilhação, até a agressão
física. A violência de gênero é, talvez, a mais
preocupante forma de violência,porque, literalmente, a
vítima, nesses casos, por absoluta falta de alternativa, é
obrigada a dormir com o inimigo. É um tipo de violência
que, na maioria das vezes,ocorre onde deveria ser um
local de recesso e harmonia, onde deveria imperar um
ambiente de respeito e afeto, que é o lar, o seio família”r.
(BASTOS, 2007, p. 125)



A história da violência contra a mulher no ambiente familiar começa na
infância, pois a menina aprende que se trata de um ato de correção,
34
acostumando-se a aceitar a violência como algo que simplesmente faz parte
das relações familiares. Assim, é muito difícil conseguir identificar como
violência aquilo que socialmente não é reconhecido como tal.

Ninguém duvida que a violência sofrida pela mulher não é
exclusivamente de responsabilidade do agressor. A sociedade ainda cultiva
valores que incentivam a violência, o que impõe a necessidade de se tomar
consciência de que a culpa é de todos.

O fundamento é cultural e decorre da desigualdade no exercício do
poder e que leva a uma relação dominante e dominado. Essas posturas
acabam sendo referendadas pelo Estado. Daí o absoluto descaso de que
sempre foi alvo a violência doméstica.( DIAS, 2007, p.15-16)

Assim, a violência entre cônjuges ou companheiros constitui uma das
faces da violência familiar que está relacionada com os valores do mundo
patriarcal. Muitas vezes a mulher fica numa posição de bode expiatório, pois
sobre seu corpo se canaliza grande parte da violência que é produzida numa
sociedade marcada pela cultura patriarcal, como também por um modelo que é
caracterizado pela competitividade como também pelo aumento da
agressividade.

Ainda que se esteja falando em violência contra a mulher,
há um dado que parece de todos esquecido: a violência
doméstica é o germe da violência que está assustando a
todos. Quem vivencia a violência, muitas vezes até antes
de nascer e durante toda a infância, só pode achar
natural o uso da força. Também a impotência
da vítima, que não consegue ver o agressor punido, gera
nos filhos a consciência de que a violência é algo
natural.(DIAS, 2007, p. 16)


O comportamento do agressor tem como matriz a própria estrutura
social que ensina o homem a discriminar a mulher. Por mais que se tente dizer
que se trata de desvios psicológicos, a origem da violência doméstica é
35
estrutural, está no próprio sistema social que influi no sentido de estabelecer
que o homem é superior à mulher e que essa deve adotar uma postura de
submissão e respeito para com o homem-agressor.

Na violência conjugal cíclica, em que a opressão não fica em primeiro
plano, a alternância de fases de agressão, de calmaria ou até mesmo de
reconciliação cria todo um sistema de punições e recompensas. Todas as
vezes em que um homem violento se excede, podendo levar a mulher a ver-se
tentada a ir embora, ela é ‘religada’ a ele por um pouco de gentileza e de
atenção.

O sentimento de propriedade, a impunidade e a ausência de políticas
públicas atuam, dentre outros, como alicerces de manutenção desta violência
(MORGADO, apud BRANDÂO, 2004, p.333)

Ao induzir a uma confusão entre amor e sexualidade, o homem procura
uma reconciliação na cama. Ao mesmo tempo, desvaloriza a companheira e
ela perde a confiança em si. Em pouco tempo ela se convence de que, sem
ele, não conseguiria fazer nada. (HIRIGOYEN, 2006, p.106)


“O direito das mulheres a uma vida livre de violência é
um enunciado exigente eurgente. Não se refere a um
tratamento de exceção que afirma a sua natural
vulnerabilidade. Em sua formulação tratou-se,
apropriadamente, de revelar, e como conseqüência,
corrigir a falta de proteção de exceção que jurídica e
institucionalmente vêm tendo os direitos humanos das
mulheres. Em sua conceituação, ratificam-se direitos
humanos de aplicação universal e se reconhecem como
violações a estes um conjunto de atos lesivos que até
então não tinham sido apreciados como tais. É um direito
que repõe o princípio de igualdade, fazendo com que
tudo o que seja violento, prejudicial e danoso para as
mulheres seja considerado como ofensivo para a
humanidade”.(GIULIA, 2000, p. 26-27)


36
Um longo caminho ainda temos de percorrer para que as definições e
ditames legais sejam exercitados efetivamente para que não sejamos
enquadrados nas tenebrosas palavras de Maurice Donnay (1849 -1945): "
todos os homens batem nas mulheres: os do povo com os punhos; os
burgueses com a lei."

Apesar da evolução legislativa no que pertine à defesa dos direitos da
mulher, deparamos-nos com o desafio de ultrapassar os limites da mera
igualdade formal para atingirmos os patamares da concretização dos direitos já
reconhecidos.


3.2 - Definições de violência

Segundo Cavalcanti (2007) a palavra Violência vem do latim violentia,
que significa caráter violento ou bravio. O termo violare significa tratar com
violência, profanar, transgredir. Esses termos devem ser referidos a vis, que
significa a força em ação, o recurso de um corpo para exercer a sua força e,
portanto, a potência, o valor, ou seja, a força vital. Violência que é composto
por vis, que em latim significa força, sugere a ideia de vigor, potência, impulso.
Também traz a idéia de excesso e de destemor. Então, mais do que uma
simples força, violência pode ser conceituada como o próprio abuso da força.

Violência é, o ato de brutalidade, constrangimento, abuso, proibição,
desrespeito, discriminação, imposição, invasão, ofensa, agressão física,
psíquica, moral ou patrimonial contra alguém, caracterizando relações que se
baseiam na ofensa e na intimidação pelo medo e pelo terror.

Arendt (1994) traz a devida observação sobre as discussões a respeito
do fenômeno da violência e do poder. Então vamos perceber que existe um
consenso entre os teóricos da política, tanto da esquerda como da direita, no
37
sentido de que a violência é tão somente a mais flagrante manifestação de
poder.

A violência é considerada como própria da essência humana, ou seja, do
estado de natureza. Assim, a sociedade pode ser compreendida como uma
construção que é destinada a enfrentar e conter o avanço da violência. Os
homens são governados por um desejo que gera conflitos e rivalidades e que
apresenta a seguinte fórmula: algo é desejável para alguém da mesma forma
que também é desejado pelos outros, e dessa relação nasce o conflito.

Os atos de violência ocorrem quando os homens não utilizam recursos
como a palavra, o diálogo e a argumentação. Quando as pessoas se utilizam
desses instrumentos, observa-se que o mundo continua seguro e tranquilo,
mas, se elas os abandonam, ocorre uma transformação na realidade.
(CAVALCANTI, 2007)

O violento é aquele que age de forma direta, sem intermediários,
dispensando qualquer consideração com outras pessoas. Na violência os fins e
os meios não possuem qualquer legitimação, pois não são aprovados nem pela
moralidade nem pelas leis.

Um alicerce histórico sustenta a estrutura da violência familiar,
construído desde os primórdios da humanidade, ele provém do reconhecimento
da violência como forma natural de se afirmar a autoridade do chefe da família
e como meio de educar as crianças (, 2006, p. 199).

A violência na família apresenta muitas faces onde podemos destacar o
assédio moral, a violência física e a violência psicológica. Existem diversas
38
maneiras de encarar essa prática, aparecendo um denominador comum que é
a dificuldade para identificá-la quando acontece.

Na violência psicológica, podemos dizer que é aquela por meio da qual a
capacidade da vítima de se opor a qualquer violência reduz-se, ao mesmo
tempo em que ela se torna predisposta a outros tipos de violência. Dias (2008)
observa que a violência psicológica é facilitada por estratégias diversas
empregadas pelo agressor, tais como o uso de sustâncias.

Na violência física, incluindo aqui os de natureza sexual, atraem as
maiores atenções por motivos históricos e socioculturais. Isso acontece porque
os sofrimentos físicos produzem achados que extrapolam o âmbito do privado,
para se expor à sociedade, seja quando do registro de boletins de ocorrência,
seja pelo diagnóstico clínico no atendimento de clínicas e postos de saúde,
quando não há como ocultar do médico, as evidências. Os casos de violência
familiar são subnotificados às autoridades e desvirtuados nos consultórios de
saúde, quando o hematoma proveniente da agressão transforma-se em sinal
de uma queda disfarçada.

Segundo PORTO (2007), a dificuldade da sociedade aceitar a violência
da mulher contra o homem. Para isso concorre o paradigma social e cultural de
poder, engendrando-se uma subestimação da incidência desse tipo de
violência: maridos agredidos, são tópicos para anedotas ou são submetidos ao
ridículo. Por causa disso o homem não procura proteção policial ou os meios
de punição da violência por vergonha.

Uma das formas de violência psicológica é o assédio moral, que é uma
modalidade de sofrimento psicológico por meio do qual um dos cônjuges
provoca profundo dano a outro, a ponto de lhe desencadear doenças físicas e
39
psíquicas graves e prejudicar-lhe o desempenho no trabalho, no lazer e no
cumprimento de suas atribuições no lar.

3.3 – Aspectos da violência contra a mulher: Lei Maria da Penha

Foi em 1940 que o Código Penal brasileiro veio a caracterizar a
agressão física do marido contra a mulher como delito passível de punição.
Somente no dia 07 de agosto de 2006, é que foi sancionada a lei N.
o
11.340,
batizada Lei Maria da Penha, criando mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8° do art.226 da
Constituição Federal de 1988, da Convenção sobre a Eliminação de todas as
Formas de Discriminação Contra as Mulheres e da Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher.

A partir desta lei, todo caso de violência doméstica e intrafamiliar contra
a mulher é crime e deve passar por um inquérito policial que será remetido ao
Ministério Público. Os crimes deverão ser julgados nos juizados Especializados
de violência doméstica e familiar contra a mulher, instrumentos criados a partir
dessa legislação, enquanto estes não existirem, nas Varas Criminais.

Dentre outras conquistas, a lei no seu artigo 7° tipifica os casos de
violência doméstica conceituando a violência física como toda e qualquer
conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal; a violência psicológica
como qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição de auto-
estima, que prejudique ou possa perturbar o pleno desenvolvimento ou que
vise a degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões,
mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento,
vigilância constante, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização,
exploração e limitação do direito de ir e vir; a violência sexual como qualquer
conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação
40
sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso de força;
que a induza a comercializar ou utilizar de qualquer modo a sua sexualidade,
que a impeça de usar qualquer método contraceptivo, ou que a force ao
casamento, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação,
chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de
seus direitos sexuais e reprodutivos; a violência patrimonial como qualquer
conduta ilegítima que configure perda, retenção, subtração, destruição parcial
ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens,
valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer
suas necessidades; a violência moral como qualquer conduta que configure
calúnia, difamação ou injúria.

A Lei Maria da Penha proíbe a aplicação de penas pecuniárias aos
agressores, prevê a prisão em flagrante de agressores, amplia a pena a eles
imputada de até 1 ano para até 3 anos, afastamento do homem do ambiente
familiar e a possibilidade de sua prisão preventiva ser decretada; e determina o
encaminhamento e serviços de proteção e de assistência social. A mulher
poderá ficar até seis meses afastada do trabalho sem perder o emprego se for
constatada a necessidade de manutenção da sua integridade física ou
psicológica.

O processo judicial também sofre modificações com a Lei Maria da
Penha, pois possibilita ao juiz conceder, no prazo de 48 horas, medidas
protetivas de urgência a serem aplicadas de acordo com a situação
apresentadas tais como a suspensão do porte de armas do agressor, o
afastamento do agressor do lar e o distanciamento da vítima. Ainda, o
Ministério Público apresentará denúncia ao juiz e poderá propor penas de 3
meses a 3 anos de detenção, cabendo ao juiz a decisão e a sentença final.

Esta lei entrou em vigor em 22 de setembro do mesmo ano em que foi
sancionada e recebeu o nome de lei “Maria da Penha” em homenagem a Sra.
41
Maria da Penha Maia Fernandes, símbolo da luta contra a violência familiar e
doméstica que em 29 de maio de 1983, após muitos anos de suplício e tortura
na vida conjugal, ficou paraplégica após duas tentativas de homicídio
perpetradas por seu marido, Marco Antônio Heredia Viveiros. (PORTO,2007)

Este estatuto não tem somente caráter repressivo, mas sobretudo
preventivo e assistencial, criando mecanismos aptos a coibir essa modalidade
de agressão. No entanto, as pessoas que não tenham vínculo doméstico,
familiar ou de afetividade, não são alcançadas pela lei, exceto se agirem em
concurso com aqueles que tem vínculo.

A Lei 11.340/2006 trata da violência doméstica em suas mais variadas
formas, não somente a física, mas a violência moral, na qual se incluem a
psicológica e a patrimonial, buscando a aplicação dos princípios da
responsabilidade civil nas relações de família. Desta forma, considera-se que a
Lei Maria da Penha vem para desagregar a estrutura patriarcal sedimentada ao
longo dos tempos, colocando a questão feminina como um tema a ser
repensado, pois desafia e propõe uma nova concepção cujo objetivo é a
relação dos seres entre si e com a sociedade e a cultura em que vive.

A previsão de uma equipe multidisciplinar de atendimento pouco servirá
se aos processos judiciais não se der um tratamento diferenciado no sentido de
dinamizar, descomplicar e entender-se o drama familiar que se esconde atrás
de cada um dos processos.

O desafio maior é o treinamento adequado da equipe que virá atender a
essas mulheres. É fundamental nesse caso o papel do psicólogo não só no
atendimento das mulheres vítimas , mas também, no suporte à equipe como
um todo.( SOUZA, 2007)

42
Portanto, deve-se ressaltar que a lei Maria da Penha está ligada à
necessidade de concretização do princípio da igualdade, uma vez que procura
diminuir a desigualdade da pessoa humana, diante das agressões sofridas
pelas mulheres na intimidade doméstica.

A lei adota medidas mais do que necessárias e adequadas na busca
pela igualdade material entre homens e mulheres no âmbito das relações
domésticas e familiares conferindo dessa forma, força normativa e não apenas
força semântica à nossa Constituição Federal. Porém é importante e
necessário ressaltar que esta nova realidade social, igualitária e progressista,
está distante de milhões de mulheres.

Sabe-se que compromissos assumidos para combater a desigualdade
existem em abundância. Bem como leis de qualidade, entretanto a maioria da
população feminina desconhece. É preciso então que os compromissos
contraídos sejam praticados e as leis rigorosamente cumpridas.












43
CONCLUSÃO

A violência doméstica, praticada contra a mulher, após movimentos de
denúncias, deixou de ser considerado um problema “familiar”, ou seja, um
problema “privado”, para ser considerada uma situação de violência que
prejudica a integridade física e psicológica da mulher, atingindo sua dignidade.

Não é possível ignorar a sua gravidade, pois a violência doméstica é
praticada contra a mulher no interior dos lares e seus efeitos desastrosos e
muito negativos atingem não somente a mulher, que é fisicamente agredida,
mas também produz danos psicológicos seríssimos. Atinge não só a dignidade
da mulher agredida, como sujeito de direitos humanos que ela é, como também
a formação dos seus filhos e a dignidade de toda a sua família.

Essa violência repete-se num círculo vicioso, pois geralmente a mulher
que é agredida, e não tem coragem para denunciar a violência, na infância
também conviveu num ambiente doméstico onde pessoas de sua família
sofreram violência, passando a achar, até de forma inconsciente, que essa
agressão é algo “normal”.

Trata-se, portanto, da necessidade urgente de se construir uma nova
mentalidade social, que terá reflexos nos aspectos jurídicos e em conquistas e
efetivação dos direitos humanos. Essa nova mentalidade, auxiliará no sentido
de ressaltar a importância da criação de um espaço público politizado pelas
mulheres como sujeitos de direitos garantidos, principalmente, pelo Direito
Constitucional, sustentado pelo plano das Declarações Internacionais dos
Direitos Humanos.

44
Proteger a mulher da violência doméstica, da qual sempre foi vítima,
conforme abordado, é tornar efetivos os seus direitos humanos da terceira
geração, compreendidos como aqueles direitos que se dirigem aos direitos de
“gênero”, ou seja, relacionados à dignidade da mulher e à subjetividade
feminina.

A complexidade que envolve o fenômeno da violência exige ações da
família, sociedade, órgãos governamentais e não governamentais. Para tal é
preciso dar visibilidade ao problema, desmitificar a família enquanto detentora
de proteção e viabilizar políticas públicas eficazes.

Portanto, é importante instrumentalizar os vários setores da sociedade
para o conhecimento das legislações vigentes em favor da mulher, exigindo o
cumprimento destas, não perdendo de vista a revisão e atualização legislativa
continuadas como estratégia para satisfazer os anseios da população.












45
BIBLIOGRAFIA


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