A MAIORIDADE PENAL É CLÁUSULA PÉTREA DA CONSTITUIÇÃO?

Em artigo publicado pelo JusBrasil recentemente, intitulado “A maioridade penal é cláusula pétrea cara-pálida: Chega de hipocrisia e ignorância!” [1], o Procurador-Geral de Justiça Adjunto para Assuntos Jurídicos na Bahia, Rômulo de Andrade Moreira, aponta a impossibilidade de redução da maioridade penal, por tratar-se, em seu entender, de clausula pétrea da Constituição Federal. Num texto repleto de citações que afirmam a inutilidade desta mudança, o articulista deixa claro sua posição contrária a um tratamento diferenciado aos menores que cometem crimes hediondos. Os argumentos apresentados me parecem ilógicos e apenas confirmam o fosso que separa a realidade brasileira e os integrantes dos poderes constituídos. O assunto é extremamente polêmico e o artigo foi alvo de quase 300 comentários, a esmagadora maioria favorável â redução da maioridade penal para crimes hediondos; alguns comentários, vazados em linguajar jurídico, contestavam inclusive a premissa de que a maioridade penal aos 18 anos seja de fato cláusula pétrea. Meu comentário ao artigo está abaixo. ************************* COMENTÁRIO ****************************** Entristecido, terminei a leitura deste artigo, cujo conteúdo evidencia mais uma vez as razões pelas quais estamos e continuaremos todos nós, os brasileiros honestos e trabalhadores, à mercê de criminosos violentos e cruéis, tanto maiores como menores de idade. É impossível prever as consequências para as instituições democráticas, a longo prazo, do imobilismo e da incapacidade do Estado em combater o avanço da barbárie e garantir o mais elementar dos direitos humanos, que é o direito à vida. Mas de uma coisa podemos estar tristemente certos: se os pontos de vista expostos no artigo são prevalentes no Poder Judiciário, só resta às pessoas de bem implorar pela proteção divina, pois dos poderes terrenos pouco se pode esperar. O artigo mostra também quão exata é a análise de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, quando afirma: “Um amor pronunciado pelas formas fixas e pelas leis genéricas, que circunscrevem a realidade complexa e difícil dentro do âmbito dos nossos desejos, é um dos aspectos mais constantes e significativos do caráter brasileiro. Estas construções da inteligência representam um repouso para a imaginação, comparável à exigência de regularidade a que o compasso musical convida o corpo do dançarino. O prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível, o horror ao vago, ao hesitante, ao fluido, que obrigam à colaboração, ao esforço e, por conseguinte, a certa dependência e mesmo abdicação da personalidade, tem determinado assiduamente nossa formação espiritual. Tudo quanto dispense qualquer trabalho mental aturado e fatigante, as ideias claras, lúcidas,

a falta de comida) leva o homem ao desespero e ao caminho do crime. a dentista Cinthya Moutinho foi QUEIMADA VIVA por assaltantes. 3. Estamos falando de casos como este de Yorraly Ferreira Dias e outros dois que recordo a seguir. a própria existência de cláusulas pétreas é uma tolice. Em 09/04/2013. mas sim para manter afastados do convívio social indivíduos que representam real ameaça para os demais cidadãos. 2. Os menores que cometeram estes atos certamente não se tornarão delinquentes. parecem-nos constituir a verdadeira essência da sabedoria. as páginas seguintes apresentam uma série de argumentos contra a redução da maioridade penal que a meu ver são insustentáveis. Já que o assunto está decidido. que favorecem uma espécie de atonia da inteligência. deveríamos estar testemunhando uma queda significativa da . Ninguém ignora que o sistema prisional no Brasil é vergonhoso. que deveriam passar no mínimo 30 anos em um presídio de alta segurança.” Logo de início.” Jamais ouvi falar de um único caso de latrocínio cometido por desespero. “Vemo-nos de novo diante da constatação de que o sistema penal cria o delinquente…” É insano defender a prisão de um jovem que cometa um furto ou seja preso com um cigarro de maconha. onde todos são iguais perante a lei. um belíssimo documento. “E isto ocorre porque. já são criminosos extremamente perigosos. princípio básico do convívio civilizado. é supérfluo: não pode porque não pode. via de regra. Alguns exemplos: 1. a falta de condições mínimas de vida (como. talvez o restante do texto fosse. mas o fato é que tais direitos e garantias só se realizam quando uma nação se torna efetivamente um estado de direito. que reflete plenamente nosso desprezo pela realidade. “Qual a vantagem de se colocar um adolescente d e dezesseis anos em uma penitenciária. antes de ser debatido. No entanto. foi brutalmente assassinado por um “menor” (17 anos e 362 dias) na porta do edifício onde morava. de 19 anos. descarta-se a redução da maioridade penal por contrária às cláusulas pétreas da Constituição. por exemplo. em 25/04/2013. mas a incompetência do Estado na administração deste sistema não é justificativa para que assassinos e estupradores de qualquer idade fiquem à solta. a menos que tenhamos descoberto alguma fórmula mágica capaz de deter a passagem do tempo e as mudanças sociais. fruto do traço cultural descrito acima. pela crueldade.definitivas. tachados já no título como “hipócritas” e “ignorantes”. um dos quais tinha 17 anos e 10 meses. o jovem universitário Victor Hugo Deppman. Parecemos acreditar que direitos e garantias individuais sejam uma realidade por serem “cláusulas pétreas”. em última análise. uma verdadeira universidade do crime?” Penitenciárias não foram criadas para serem universidades do crime. Se a afirmativa apresentada acima fosse verdadeira. dispensável. Alguns dias depois. O senso comum nos diz que. Debater o assunto com aqueles que são favoráveis à mudança (cerca de 92% da população).

Só os mal informados acreditam que o problema da violência possa ser resolvido exclusivamente através de leis mais rigorosas.” Como sempre acontece quando o assunto é punir criminosos. mais que o rigor. Leis são perfeitamente inúteis se não forem cumpridas e. . existe a certeza da impunidade. é a certeza da punição que tem um efeito dissuasório sobre os criminosos.criminalidade. A bandidagem atua com crescente desenvoltura por ter certeza da impunidade. a Dignidade da Pessoa Humana é invocada para defendê-los. No caso dos menores. pois o país atravessa a mais longa fase de crescimento de sua história republicana. Os criminosos sabem que a chance de serem presos é baixíssima. No entanto. Quanto à Dignidade da Pessoa Humana das vítimas e de seus familiares. na improvável circunstância de que o sejam. sabem que logo estarão soltos. o número de assaltos em São Paulo aumentou 47% entre 2012 e 2013. e é preciso que isto acabe. O artigo termina com um apelo para que não abandonemos “a racionalidade que justifica a existência de poderes públicos para a governança cujo dever é garantir a essência que une e sustenta a democracia: a Dignidade da Pessoa Humana. nem uma só palavra.