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Concepção epistemológica e prática pedagógica
Fernando Becker (Professor Titular da área de Psicologia da Educação da UFRGS). Por que afirmamos que a concepção epistemológica do professor (Becker, 2011; 2010) faz diferença em sua concepção pedagógica e em sua prática didática? Está fora de moda ler obras como A didática magna, de Comenius; O Emílio, de Rousseau; Sobre a pedagogia, de Kant. O que se dirá para quem decide ler Platão, garimpando suas ideias sobre educação, como o faz magistralmente o filósofo Jayme Paviani (2008); ou para quem pretende ler a Paidéia, de Werner Jaeger? Até Piaget e Freire foram classificados como fósseis por um palestrante estrangeiro que, em palestra ulterior, afirmou que um dos filhos de Piaget havia se suicidado, tão horrível era seu pai... Não é raro, ouvir-se de alunos de Pedagogia, de outras licenciaturas e, até, de mestrado e doutorado, que algum dentre seus professores excluiu, com ostensivo menosprezo, esses dois autores de suas indicações bibliográficas. É impressionante como o patrulhamento ideológico, fundado em critérios no mínimo questionáveis para não falar ridículos, corre solto pela academia. A crítica, científica e filosófica, encontra-se tão debilitada ou omissa que não consegue mais distinguir um texto acadêmico de um texto de autoajuda. Recentemente, um megacongresso educacional escalou, para a palestra de abertura do evento, um sucesso editorial de autoajuda; o livro mais promovido no evento era de outro sucesso editorial desse gênero de literatura. A educação parece entregue às traças... Talvez nunca se tivesse tido consciência tão aguda e de tamanha extensão de que a educação brasileira precisa de mudanças profundas e urgentes; tanto a educação escolar, quanto a não escolar (familiar, empresarial, de trânsito, de convivência pública, ética, etc.). Interessa-nos, aqui, a educação escolar. Em especial, a formação dos professores. Estudei, durante anos, a epistemologia subjacente ao trabalho docente ou “Epistemologia do professor” (2009). Dentro da mesma ótica, dediquei ainda mais

passa para o papel. É o aluno que aprende. Eu acho que é um tipo de dom que as pessoas têm”. esmiuçar. [.. As respostas não deixam de surpreender. que a gente tinge. Sobre o papel de aluno. na sala de aula. A professora de Ensino Médio. pôr o conteúdo nos buracos que ele tem na cabeça. também. o papel de professor e de aluno. às vezes têm crianças superdotadas. o significado da Matemática escolar para o aluno. diz um professor: O conhecimento "se dá à medida que as coisas vão aparecendo e sendo introduzidas por nós nas crianças.... eu acho que isso aí é uma coisa inata.. Todas essas manifestações de docentes mal disfarçam suas concepções epistemológicas pré-científicas ou de senso comum. Perguntado sobre a formação dos conhecimentos.". sobre: sua concepção de conhecimento e de aprendizagem.]. Assim como se tem uma vocação para a música e o desenho tem para ensinar. mas não são todas ”. através disso tudo.] Então temos. um docente afirma: " O professor deve organizar o conteúdo. respondeu: “Olha. O que encontrei ali? Partamos do seguinte problema: “Por que afirmamos que a concepção epistemológica do professor causa impacto em sua concepção pedagógica e em sua prática didática?” Perguntei aos professores. diz outro docente: "O aluno é como a anilina no papel em branco. Nem todo mundo tem isso.. perguntada sobre a capacidade de aprendizagem de crianças pequenas ou recém nascidas..] Depende da criança. [.. etc. O aluno deve. elabora.. [. um professor universitário de História afirma: “Ninguém pode transmitir. a importância da história do conhecimento que ele ensina. a influência do meio social. o aluno assimila. Sobre o papel de professor.". a capacidade cognitiva de crianças pequenas ou recém-nascidas. afirma enfaticamente este professor: “O professor ensina e o aluno aprende.2 tempo ao estudo da “Epistemologia do professor de Matemática” (2010). as condições prévias do conhecimentocapacidade. nessas pesquisas. o transmitir. uma vocação: o ensinar. tornar agradável e estimulante o conteúdo. Perguntado sobre os papéis de professor e de aluno. a adequação do currículo escolar. Sobre aprendizagem. tem uma facilidade bárbara. aquilo que o professor ensinou. O professor pode ensinar conteúdos recentes de Física e interpretar os processos de aprendizagem desses . já nascem com aquele talento. Qual é a tua dúvida?”... coloca com as próprias palavras ”.. eu nunca pensei nisso. a diferença entre ensinar Matemática por algoritmo ou por resolução de problemas.

de acordo com concepções epistemológicas do mais raso senso comum. não conseguem passar da mediania quando se exigem deles raciocínios mais complexos. pois ele não tem know-how para fazer tal diagnóstico. acredita que ele apenas as descobre. virem amalgamadas pelos docentes. O mesmo docente manifesta seu compromisso com ambas epistemologias. como aquela que acredita que se aprende por estimulação.. usa imagens coloridas. só alguns alunos aprendem. passam a aprender melhor que a média? E alunos individualmente “geniais”. Mesmo assim há alunos que não aprenderam? É. que o pesquisador é surpreendido com as seguintes justificativas: isso acontece porque são preguiçosos. lousa eletrônica. mostram-se medianos ou. pois elas sempre existiram. datashow. Ele explica: eles aprenderam porque eu os estimulei. opostas entre si. tributárias do senso comum. Um docente não é apenas empirista. se não as possuía. Afirma. por seus alunos. o professor de Matemática pode ensinar cálculo diferencial e integral. No entanto. enquanto outros não dão conta dos conteúdos mínimos que ensinou. ao mesmo tempo em que compreende que as ideias matemáticas sempre existiram ou são inatas. revelam assim um inatismo quase religioso. Ele não sabe que o matemático constrói as ideias matemáticas. percebe que alguns alunos se destacam. demonstra o cálculo passo a passo. Alguns professores mostram-se convencidos de que a estimulação com recursos tecnológicos sofisticados leva o ensino ao topo. referindo-se ao primeiro grupo: este aluno nasceu inteligente. Do mesmo modo. Donde tirou essa conclusão? De sua concepção epistemológica. não . então. indolentes. quando recém-nascido. depois de algum tempo. É assim que elas se refletem no ensino. então. quando integrados num ambiente impregnado de uma pedagogia ativa. seu aluno.3 conteúdos. enfrentando um problema prático. quando em grupo. faz desenhos no quadro. abaixo da média. enquanto outro é apriorista. Que parte do genoma humano traz a inteligência pronta? O que sabe ele a respeito? Como explicar que alunos que nada aprendem. até. ou geometria dos fractais.. isto é. O bom professor. é um sonho. ele acredita que basta ser estimulado para aprender algo. Ou alunos que respondem com alta performance quando se trata de reproduzir conteúdos de memória. O bom professor prepara bem sua aula. já possuía essas ideias. O mais comum é essas duas concepções epistemológicas. pois o conhecimento é cópia da realidade. então. jamais poderia aprendêlas.

se a assimilação for precária. não aprenderam os pré-requisitos. por que não aprenderam? Será que o docente pelo menos suspeita que a estimulação. Muitos não aprendem porque não têm estrutura para assimilar o que lhes é ensinado. e da docência em particular. moram na favela.. reconstruindo-se. não haverá resposta (R). Assim. a resposta sinaliza que a estrutura se transformou desafiada pelo estímulo. a resposta será precária. vêm de famílias desestruturadas. ou. de certa forma.  Mas este fator [transmissão educacional] é insuficiente porque a criança pode receber valiosa informação via linguagem. são pobres. Para assimilar o estímulo o sujeito precisa ter construído estrutura capaz de assimilá-lo. embora importante. o esquema E – R deverá ser representado desta forma: E [A] R. se o estímulo (E) não for assimilado (A) pelo sujeito. Piaget (1972) nos desvenda este “mistério”. Essa é a razão por que não se pode ensinar alta matemática a uma criança de cinco anos. preso a epistemologias do senso comum. para receber a informação ela deve ter uma estrutura que a capacite a assimilar essa informação. Isto é.. etc. Mas. quando integrados num ambiente de pedagogia ativa passam a aprender melhor do que a média? O professor.4 querem nada com nada. pela ação do sujeito desafiada pelo meio. Quando um aluno diz: “Professor. . Sem estrutura não há resposta! E a estrutura é construída. Traduzindo. criticando a teoria estímulo-resposta afirma que o mínimo que se pode fazer com esse esquema é introduzir nele a assimilação. etc. ou via educação dirigida por um adulto. estão bloqueados. etc.. no plano do desenvolvimento. a resposta é produto da atividade da estrutura. eles não foram estimulados tanto quanto os outros? Então. é o de compreender que o desenvolvimento abre caminhos . para explicações preconceituosas que culpam o aluno pelo seu fracasso. então. não estou entendendo nada!”. apenas se estiver num estado que possa compreender esta informação.. É essa estrutura que produz – constrói! – a resposta. será que a queixa deve-se apenas à falta de pré-requisito? No mesmo texto. Apela.. Não tenho mais dúvidas de que um dos maiores desafios da escola. Piaget (1972). precede o estímulo. Ela não tem a estrutura que a capacite a entender (p.4). Eles são muito mais numerosos do que se suspeita. Alunos não aprendem por muitos motivos. É neste sentido que a resposta.. pode não ser suficiente? Como explicar que alunos estimulados que não aprendem. desafiada pelo estímulo. não consegue explicar o que acontece.

1972. Com isso. É essa atividade de parte do sujeito que me parece omitida no esquema estímulo-resposta. e não o contrário. O desenvolvimento abre caminhos para aprendizagens de conteúdos mais complexos ou conteúdos novos. Exagerando um pouco. A grande tarefa da escola. e sobre si próprio (acomodação). “Na realidade. a melhoras na estrutura cognitiva.1).7). mas. 1). O desenvolvimento acontece sempre que o sujeito responde a algum desafio que não havia respondido até hoje – pode ser relativo a um conteúdo novo. A atividade assimiladora do sujeito leva a acomodações. isto é.  A aprendizagem é possível apenas quando há uma assimilação ativa. ou a aspectos mais complexos do mesmo conteúdo. “[. o objetivo da aprendizagem escolar deixará de ser a acumulação de conteúdos. p. deve antes potencializar essa atividade. o processo principal. p. minimizando a atividade do sujeito. A aprendizagem não passa de um epifenômeno do desenvolvimento. podemos dizer que existe o processo de desenvolvimento realizado pela ação do sujeito sobre o meio (assimilação). p. em lugar de ser um elemento que explica o desenvolvimento” (Id. para transformar-se na busca do aumento da capacidade de . A formulação que proponho coloca ênfase na ideia da autorregulação. como um processo secundário. É por isso que a aprendizagem não deve ser reduzida. Com essas melhoras. da docência em particular.. “a aprendizagem é função de instrumentos lógicos à disposição do indivíduo” (Piaget. físico ou social. mais complexos.5 para a aprendizagem.. 1972. o sujeito poderá assimilar o que antes era impossível. na assimilação (Piaget. por estimulação e repetição. e penso que sem essa atividade não há possível didática ou pedagogia que transforme significativamente o sujeito (Piaget. p.. 1959. o desenvolvimento é o processo essencial e cada elemento da aprendizagem ocorre como uma função do desenvolvimento total. p. portanto. 94).] considero que o desenvolvimento explica a aprendizagem” (Idem. Ou. é propiciar aprendizagens ativas que sejam expressão do desenvolvimento atual e que o desafiem até o limite de suas possibilidades. só assim ela chegará a atingir os mecanismos do desenvolvimento. fundado na crença de um genoma pré-formatado.7).  Toda ênfase é colocada na atividade do próprio sujeito. para melhor compreender. Sem desenvolvimento não haverá aprendizagens de conteúdos novos. Isso em nada diminui a importância do processo de aprendizagem. o desenvolvimento é.

br/edicao-85-fev/12/capaconcepcao-epistemologica-e-pratica-pedagogica . tradução in: http://pt. Os conteúdos não deixarão de ser importantes. numa concepção de desenvolvimento – não apenas na transmissão social fundada na crença de uma aprendizagem por repetição visando a acumulação de conteúdos. Epistemologia do professor de matemática. Disponível em: http://www. Referências: BECKER. Para ser compreendida é preciso uma crítica radical das epistemologias do senso comum.scribd. Reading in child behavior and development. de forma duradoura. Fernando. F.fevereiro/2012. 2012. In: LAVATELLY.direcionaleducador.Edição 85 . Epistemologia do professor: o cotidiano da escola. (Cf. Jean. 1974. BECKER. Petrópolis: Vozes. New York: Hartcourt Brace Janovich. Matéria publicada na Revista Direcional Educador . S. PIAGET. na direção de um construtivismo epistemológico.com.6 aprender. Desenvolvimento e aprendizagem. Petrópolis: Vozes. mas sua importância será relativizada em função de um objetivo maior: o aumento da capacidade de aprender que se realizará pelo desenvolvimento. isto é. Essa tarefa não poderá ser realizada. 14ª ed. fundado na autorregulação ou na equilibração. Pierre. sem ser compreendida pela docência e pela gestão escolar. Fernando. 1972. 2009. Jean & GRÉCO. e STENDLER. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. Aprendizagem e conhecimento.com/doc/72917700/PiagetDesenvolvimento-e-Aprendizagem-Trad-Slomp) PIAGET. C.